Os pingentes 2 – o que fazer pelos desvalidos

GERALDO HASSE
Nos ônibus urbanos e intermunicipais não entram pedintes nem catadores. Pedestres pela própria natureza, eles não têm dinheiro para pagar a passagem.
Já nos trens dos metrôs circulam pedintes e vendedores de guloseimas que constrangem os passageiros com relatos sobre suas tragédias existenciais.
Nos shopping centers não há pedintes. Nem catadores.
A reciclagem de resíduos está embutida na rotina operacional dos mais de 500 shoppings centers existentes no Brasil.
Veja os funcionários da limpeza desses estabelecimentos comerciais: eles trabalham uniformizados, com luvas e crachás de identificação, sob o olhar vagamente ausente do público frequentador.
Por conseguinte, para os pedintes e catadores restam apenas as ruas, onde também atuam, bastante à vontade, assaltantes, trombadinhas, vigaristas, descuidistas e malandros em geral.
Ou, então, em último caso, sobra para os pobres desvalidos a chance remota de conseguir uma vaga em hospital público, após atropelamento, facada ou acesso de justa ira.
Devia haver um canal de consolo ou desafogo para essa gente sem eira nem beira.
Se aos índios foram outorgadas reservas naturais e aos quilombolas áreas de sobrevivência, aos demais desvalidos de meios de subsistência deveriam ser assegurados direitos semelhantes, por simples isonomia.
Abrigo para os sem teto.
Alimento para os famintos.
Escola para os órfãos da educação e cultura.
Postos de saúde para os enfermos do corpo e da alma.
Terra para os nostálgicos da vida rural.
E assim por diante, até zerar as carências dos caídos no acostamento das estradas da vida.
Nada mais justo do que operar em favor da equalização do bem estar.
Enquanto os governos continuarem se preocupando prioritariamente com a bonança das elites, a base da população vai sonhar com um redentor.
Piedade: direito do povo, obrigação do governo, missão do estado.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Na linha de extrema pobreza que leva em conta o percentual de brasileiros com renda inferior a R$ 70 por mês, valor adotado pelo Programa Brasil Sem Miséria, o aumento de brasileiros na extrema pobreza (…) elevou o percentual de miseráveis de 3,6% para 4% ou 8,05 milhões.”
Trecho de notícia de O Globo de 5 de novembro de 2014; os dados constavam do site do IPEA, órgão oficial

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