SEM MEIAS VERDADES (trechos das últimas cartas de Maria Lidia Magliani)

Maria Lídia Magliani / Divulgação/Fundação Iberê Camargo/JÁ

Eduardo San Martin*

“Bem que eu não ia achar tão ruim se (o mundo) acabasse mesmo. Estou cansada demais pra continuar remando nesta nave de contradições”, disse Maria Lídia Magliani na última mensagem, por e-mail, no final da tarde de 20 de dezembro de 2012.

Referia-se ao dia seguinte, 21 de dezembro, quando  o calendário maia previa o fim do mundo,  que ela ironizou: “Desde ontem, canto a música de Assis Valente (“anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar. Eu saí pra rua para me despedir e comemorar”).

Poucas horas depois, ela morreria de parada cardíaca, aos 66 anos, no Rio de Janeiro.

Acostumado ao anonimado do exílio, é muito difícil para mim falar em público sobre  amigos com quem vivi, convivi e produzi na vida. Não poucos supostos biógrafos profissionais me acusaram de egoísmo por não dividir as cartas, sobretudo, do Caio Fernando Abreu e agora as da Magliani. Este artigo é uma exceção ao silêncio intencional. Revela a ponta do iceberg da correspondência e convivência mais virtual que presencial de várias décadas com a Maria Lídia.

Desta forma, também embarco na “nave das contradições” da Magli que, numa passagem, ressaltou “diga o que quiser. Fica tudo entre nós”, mas me contradigo e torno públicas as mensagens.

Acima de tudo isto, trata-se de um breve ou mini testamento intelectual, confirmando a lucidez e coerência existencial e profissional mantidas do início ao fim de vida e obra limpas. A força destas últimas palavras da Magliani – parafraseando o ex-diretor do MARGS Luiz Inácio Medeiros – vem dela se mostrar exatamente como sempre foi em tudo que fez:  sem meias verdades.  Os textos não escondem o custo e desgaste deste radicalismo no exercício da criatividade sem concessões comerciais. Ela se sentia inadequada e maltratada no Brasil do ano 2000.

Seguem citações de 10 cartas/mensagens trocadas com a Maria Lídia do dia 15 de novembro de 2012 até a despedida em 20 de dezembro. No dia 15, eu estava em San Francisco, na Califórnia, convalescendo de uma cirurgia. Ela ficou sabendo e me procurou, retomando nossa correspondência. Não nos comunicávamos há um bom tempo, mas continuávamos os mesmos.

Ultimas Impressões de Maria Lídia Magliani

SEM OUSADIA PARA MUDAR

Estou no Rio. Não gosto. Quero voltar pra Sampa, que também não está lá estas coisas, mas não tenho condições.

Estou sentindo falta daquela ousadia que me permitia me mudar pra qualquer lugar com 20 reais no bolso.

SEM FÔLEGO E SEM PALAVRAS

Agora sou uma pré velhinha cardíaca que cansa fácil. Fiquei sem fôlego e sem palavras.

Começo a achar que estou sobrando, durando demais.

EXACERBADA SOLIDÃO

Estou internacional  nas minhas preocupações com os amigos. Um em Nova York, outra em Tel Aviv, um terceiro em Friburgo. Todos em áreas de desastres. Dá fadiga e exacerba solidões.

(Até o fim, não perdeu a capacidade de alienar admiradores, como nesta referência a um amigo e colecionador…)

Ele não me escreve mais desde que eu, num momento de mau humor, disse que não me interessava uma notícia sobre um colega medíocre e bem-sucedido que ele me enviou. Magoou-se.

(O afastamento da família, porém, era intencional…)

Não falo com a minha irmã (ou meus parentes) há anos. Nem quero.

PIGNATARI E O CANCELAM ENTO

(Ao saber  que Décio Pignatari – um dos grandes da poesia concreta e autor que líamos  juntos na juventude –  vivia esquecido no Paraná, sem encontrar editor ou produtor para seu teatro…)

Eu nem sabia das incursões do Pignatari no teatro e acho normal que não tenham dado atenção… No teatro, haveria um embate com o ego do (Décio) Antunes, que seria muito exaustivo. Idem, com a infantilidade manheira do Zé Celso (Martinez Corrêa)… Quem mais dirigiria?

(Pouco depois, o nosso antigo poeta predileto voltou a se fazer presente na conversa)

Conheci o Pignatari em São Paulo, na época da Tropicália, junto com os irmãos Campos e o Mário Chamie. Outro dia, recortei palavras de revistas e jornais e comecei a colar numas caixinhas de papelão. Saíram umas frases loucas e outras com algum sentido – poemas aleatórios – mais pra dadaísta que concretista…Lembrei do Pignatari…quando liguei o rádio na CBN,  ouvi que ele tinha morrido.

FEITA PARA  FAZER SENTIDO

Estou voltando de duas exposições. Uma do acervo da Anna Maria Niemeyer que morreu um ou dois meses antes do pai. Tem muita coisa boa. Outra de xilogravuras do Newton Cavalcanti, um pernambucano, que cheguei a conhecer. Belo trabalho, mas ninguém quer mais ver coisas de câmera. Só grandes e vazias instalações… e a ingênua aqui continua achando que nasceu pra produzir sentido…

CONTROLE ESTATAL

A cultura foi para o brejo e nós deixamos. O país que pariu Tom Jobim agora reverencia Michel Teló. Não se consegue fazer arte  sem vencer edital do governo e, consequentemente, sofrer controle estatal disfarçado. Estamos caminhando pra trás, em busca de uma revolução cultural maoísta.

IDENTITARISMO E APARTHEID CULTURAL

E agora teremos também o apartheid cultural institucionalizado. Inventaram uma lei de incentivo específica para a cultura negra; uma boa maneira de chutar os crioulos pra fora da competição. Cria-se uma black box, chama-se de inclusão e a negralhada fica quieta, sambando, bebendo e se sentindo sujeito da História. E os negros tão adorando e cobrando quem não pinta retrato de orixá “meu iáiá, meu ioiô”.

TUDO DE RUIM SE ESPALHOU

É, a tal da globalização (digital) não deu certo. O “tudo de ruim” se espalhou e eu não sei onde se concentrou o pouco de bom que sobrou. Ao contrário de alguns, não acho o Facebook fundamental e  não consigo me convencer que é ótimo profissionalmente. Até já vendi por lá, mas só vejo bobagens. A Internet brinca de esconder o que é relevante. Este é o bug do fim do mundo.

INFANTILIZAÇÃO INTELECTUAL

Pra mim, o pior do retrocesso são pessoas que conheço há mais de 40 anos e que agora estão num processo de infantilização via o Facebook. É a volta ao grunhido. Temos o Web Proust, que vai à padaria e descreve minuciosamente o evento, jurando que está fazendo literatura.  E fica indignado se não dás opinião sobre “meu modesto textinho”.

GUERREIROS SENTADOS E MEMORIALISTAS

Temos os piadistas, os religiosos que te mandam correntes e ameaças se não repassares pra 3.876 amigos. E ainda os Guerreiros Sentados, que escrevem “contra tudo isso que aí está”  em letras vermelhas, corpo 72, reclamando que a imprensa vendida não publica… quase sempre alguma coisa que se leu há dois meses numa coluna assinada de um jornalão.

Mas os que mais me irritam são os memorialistas. Quando menos se espera recebe-se um email que começa: …” Era 1976…”. Deleto na hora. Estes ficam furibundos quando eu pergunto ‘e que cazzo estás fazendo agora’?

PICASSO, DESTRUIDOR DE MULHERES

(Comentei uma mostra de retratos de Dora Maar,  a trágica musa do modernismo francês, grande amor e modelo de Pablo Picasso…)

Vi vários estudos para o retrato de Dora Maar no Museu Picasso. A Dora Maar é uma figura trágica como todas as mulheres do Picasso. De alguma forma, casar com Picasso é escolher uma vida trágica. Acho que ele fazia parte de uma certa fraternidade que odeia as mulheres e só se aproxima delas para melhor destruí-las. E tem umas vice-versa também.

BÉLGICA E SEPARATISMO

Estive um mês e meio na Bélgica.  Adorei o clima, a limpeza, as criancinhas bem educadas e toda a arte flamenga que jamais esperei ver ao vivo. Me defendi bem com meu francês jabaculê e até aprendi algumas coisas em flammand. O suficiente para me manifestar contra aquele  separatismo idiota (de Flandres) num país tão pequeno.

MORRER EM PARIS

(Numa das últimas mensagens, convidei a Magliani para passar uma temporada em Nova York…)

Acho que não vou mais a qualquer lugar que não fale francês, italiano ou espanhol. Agradeço tua oferta. Mas se fosse o caso de ficar em algum lugar, continuo preferindo Paris, minha paixão, onde estive duas vezes. De qualquer modo, já decidi que vou morrer em Paris.

IR EMBORA

Eu quero viajar. De preferência ir embora deste Brasil que me trata tão mal… e o calor não melhora as coisas nem um pouco…

———

* Eduardo San Martin é jornalista. Mora em Nova York. Foi editor da BBC de Londres e Rádio das Nações Unidas, correspondente de OGlobo na Europa e agência RBS nos Estados Unidos. Recebeu dois prêmios Açorianos. É autor, entre outros, de O Círculo do Suicida, com capa e ilustrações de Magliani.

Retrospectiva Magliani segue até fim de julho no Museu Iberê Camargo

Prossegue até o final de julho, no Instituto Iberê de Porto Alegre, a maior retrospectiva já realizada sobre a obra de Maria Lídia Magliani.

São mais de 200 obras de 70 coleções / EB/JÁ

O evento, no décimo aniversário da morte da artista gaúcha, reúne cerca de 200 trabalhos vindos de 70 coleções. A mostra exemplifica as diversas fases e faces da sua produção (pintura, gravura, desenho, escultura), assim como suas atividades extra artes plásticas, como o teatro  e o jornalismo gráfico.

Maria Lídia Magliani (1946- 2012), nascida em Pelotas, foi uma das principais artistas plásticas do Rio Grande do Sul e do Brasil na segunda metade do século XX, tendo vivido e atuado em Porto Alegre, São Paulo, Ouro Preto e Rio de Janeiro.  É reconhecida como uma das grandes expressões femininas da arte culta nacional, com obras no acervo dos principais museus brasileiros.

 

 

 

Deixe uma resposta