Corrida pelas terras raras movimenta economia mundial

Durante a visita do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, que ocorreu entre os dias 18 e 22 de fevereiro, os dois países avançaram em memorandos e negociações para cooperação em minerais críticos e terras raras, investimentos em mineração, pesquisa tecnológica e aplicações de inteligência artificial nesses setores. Esse acordo é considerado estratégico porque conecta recursos naturais do Brasil com a tecnologia industrial da Índia.

Em declaração à imprensa realizada em Nova Delhi, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, informou aos jornalistas que o acordo é “um grande passo para os dois países em direção a construir cadeias de suprimento resilientes”. O objetivo é criar cadeias de suprimento mais seguras e menos dependentes de grandes potências, especialmente em tecnologias estratégicas.

Ao lado de Modi, o presidente Lula destacou que a assinatura desse acordo coloca a tecnologia a serviço do desenvolvimento inclusivo. “É notável a evolução indiana em setores de ponta, como tecnologia da informação, inteligência artificial, biotecnologia e exploração especial. Ampliar os investimentos e a cooperação em matéria de energias renováveis e minerais críticos está no cerne do acordo pioneiro que assinamos hoje”, falou Lula.

Fontes oficiais recentes, como o Serviço Geológico do Brasil e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, têm mencionado que o Brasil possui números próximos a 23% ou superiores das reservas globais conhecidas de terras raras, a segunda maior do mundo. O gargalo nacional não é o minério — é a química fina e a escala industrial.

O paradoxo brasileiro é possuir cerca de 23% das reservas mundiais (perdendo apenas para a China, com cerca de 48%), mas responder por menos de 1% da produção global. A atuação do Departamento de Transformação e Tecnologia Mineral, integrado à Secretaria Nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral (SNGM) do governo federal é crucial para aumentar a posição do país na extração e processamento, que ainda é considerada baixa (décima posição em 2025) diante do seu potencial geológico.  

O processamento de terras raras é essencial para transição energética, economia digital, indústria de defesa, indústria automotiva, telecomunicações, semicondutores e inteligência artificial. Ou seja, é um pilar da chamada nova economia industrial e tecnológica.

O Serviço Geológico do Brasil informa que o País é o maior detentor global de reservas de nióbio (94%) – com 16 milhões de toneladas. No ranking global, é o segundo maior em reservas de grafita, com 74 milhões de toneladas (26%), e de terras raras, com 21 milhões de toneladas (23%).

Resíduos tóxicos e radioativos

O problema é que as terras raras não aparecem isoladas na natureza. Estão misturadas entre si, quimicamente muito semelhantes. Muitas vezes vêm associadas a tório e urânio, materiais radioativos, provocando centenas de etapas de extração por solvente. Grandes volumes de ácidos fortes, alto consumo de água e energia, além de tratamento de resíduos tóxicos e radioativos. Portanto, é uma indústria química pesada, não apenas mineração.

O processamento gera lama ácida contaminada, resíduos radioativos de baixa intensidade, risco de contaminação de aquíferos e alto passivo ambiental se mal gerido. Foi exatamente por causa desses impactos que muitos países reduziram ou abandonaram o refino nas décadas de 1980 e 1990.

No mesmo período, a China, com forte subsídio estatal, buscou o domínio da tecnologia de separação química. Assim, passou a controlar mais de 80% do refino global, concentrando o elo mais estratégico da cadeia. Hoje, mesmo que um país extraia o minério, muitas vezes precisa enviá-lo à China para refino.

Política mineral

O presidente Lula participou da primeira reunião do Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), que foi criado em 2022, em outubro de 2025, para definir diretrizes estratégicas, com foco em minerais críticos e terras raras. O órgão foi idealizado para planejar políticas de exploração mineral, que atualmente são fonte de tensão entre a China e os Estados Unidos.

O Conselho será formado por representantes de 18 ministérios sob a presidência do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Na reunião de abertura, ao lado de Lula, Silveira destacou o papel do conselho, que será equivalente ao papel exercido pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). O objetivo é aprovar o Plano Nacional de Mineração (PNM) 2026-2050. Porém, em 2026 o Ministério de Minas e Energia ainda está recebendo contribuições públicas sobre a minuta do plano.

O Plano Nacional de Mineração tende a tratar terras raras como recurso estratégico nacional, base para indústria tecnológica, parte da transição energética e elemento de soberania econômica. Isso está alinhado com a política recente do governo brasileiro e com acordos internacionais (como os com a Índia). A cadeia produtiva desejada é mineração → refino → óxidos → ligas → ímãs → produtos industriais. Hoje, o Brasil atua basicamente na primeira etapa.

Estados Unidos de olho

A agência de notícias Reuters informou que o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, anunciou planos para lançar um estoque estratégico de minerais críticos, apoiado por um financiamento inicial de US$ 10 bilhões do Banco de Exportação e Importação dos EUA.

Os EUA classificam esses minerais como critical minerals para segurança nacional. Após a guerra comercial iniciada no governo Donald Trump, Washington passou a incentivar o processamento doméstico e criar acordos com Austrália, Canadá e Brasil. Financiar plantas de separação fora da China. 

Após relatos de que os EUA estão criando um bloco comercial para minerais críticos e coordenando preços mínimos, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que o governo chinês se opõe a qualquer país que estabeleça blocos exclusivos para perturbar a ordem econômica e comercial internacional. 

O secretário de Estado Adjunto para Assuntos Econômicos, Energéticos e Comerciais dos EUA, Caleb Orr, declarou em fevereiro que os EUA têm interesse em apoiar e financiar o refino e processamento de minerais críticos no Brasil, considerando-o um parceiro estratégico, desde que os projetos façam sentido econômico. 

Com Agência Brasil e Global Times