Jair Bolsonaro começou a semana revigorado em seus propósitos de ampliar os limites do poder autocrático do presidente.
Enfrentou uma tempestade com a demissão do ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, que deixou o governo acusando-o de tentar interferir em investigações da Polícia Federal.
As acusações de Moro trouxeram o impeachment à ordem do dia e levaram o STF a anular a nomeação do novo diretor da PF, Alexandre Ramagem, amigo dos filhos do presidente, assinada por Bolsonaro. Uma das insinuações de Moro é que Bolsonaro quer livrar os filhos investigados pela PF do Rio a serviço da Justiça .
No sábado, Moro depôs na sede da PF, em Curitiba, em inquérito que investiga se as tentativas de Bolsonaro de influir na Polícia Federal poderiam caracterizar “obstrução à Justiça”.
O depoimento gerou grande expectativa, teve enfrentamento no local, entre bolsonaristas e moristas, durou mais de cinco horas, mas não produziu o efeito esperado. A íntegra divulgada nesta terça-feira não acrescenta dados que possam alterar o quadro. O “efeito Moro” se dissipou.
Bolsonaro contra atacou no domingo. Uma carreata, pela Esplanada dos Ministérios, seguida de uma manifestação com as clássicas bandeiras e camisetas com as cores do Brasil e as faixas pedindo intervenção militar, fechamento do STF e do Congresso. Uma minoria ruidosa e bem organizada.
Na frente do Planalto, o presidente foi ao encontro dos manifestantes para dizer aquilo que já fora plantado nas suas redes sociais: não foi ele que tentou interferir em investigações, como acusa Moro; foi o STF, ao suspender a nomeação de Ramagem, que interferiu nas atribuições do presidente.
Fez um discurso irado, dizendo que chegara ao limite, não ia tolerar mais interferência e rematou dizendo que tem o povo e as forças armadas ao seu lado, dando a entender que não vai hesitar em lançar mão desse poder se tentarem cerceá-lo. Tudo devidamente filmado e imediatamente difundido pelas redes e imprensa.
Os jornalistas que tentavam cobrir a manifestação foram espancados e escorraçados pelos seguidores do presidente que não deu maior importância aos fatos, atribuindo-os a “infiltrados” .
A invocação das forças armadas num ato antidemocrático soou como ameaça e ganhou repercussão em todos os meios. No mesmo dia, altos oficiais não identificados ouvidos pelo Estadão falavam do desconforto que a alusão do presidente provocara no meio militar.
Na segunda-feira cedo, a repórter Andrea Sadi, do G1, publicou em seu blog que “a cúpula das três Forças Armadas se irritou com a fala do presidente na manifestação, quando ele disse que as Forças estão com ele”.
Os generais não foram surpreendidos. No sábado, enquanto as atenções se voltavam para o depoimento de Moro, Bolsonaro havia reunido a cúpula militar e os ministros militares do seu governo, para expor sua inconformidade com as últimas decisões de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), questionando atos do presidente.
Mencionou três casos:
A liminar do ministro Alexandre de Moraes, que suspendeu a nomeação do delegado Alexandre Ramagem; a decisão de Luís Roberto Barroso no caso dos diplomatas venezuelanos; e Celso de Mello na abreviação de prazo para o depoimento de Sérgio Moro.
Se houve desconforto na cúpula militar, ele não transparece na nota divulgada segunda à tarde, com assinatura do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva. A nota diz que as Forças Armadas “cumprem sua missão constitucional” e que estarão “sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade”.
Essa frase indica o acolhimento da tese de Bolsonaro, de que está sofrendo interferência de outros poderes em suas atribuições.
Na manhã de terça, Bolsonaro se manteve no ataque. Desceu para falar com apoiadores e a imprensa no Palácio do Planalto. Ouviu discursos fanatizados e se dirigiu aos jornalistas exibindo um fac-símile da capa da Folha de S. Paulo com a manchete: “Novo diretor da PF assume e acata pedido de Bolsonaro”.
Começou a gritar: “Mentira”. “Mentira deslavada”, “Jornalismo canalha”, bradava.
Depois de derrubar seu ministro mais popular, para confessadamente ter mais “interlocução” com a Polícia Federal, o presidente faz as mudanças que quer e não aceita que a imprensa registre: “Eu estou tendo influência sobre a Polícia Federal? Isso é uma patifaria, é uma patifaria”.
Quando perguntado pelos repórteres, ele gritava: “Cala a boca, Cala a boca”.
Encolhido o Parlamento, ante o avanço da tropa de choque do Centrão; reticente o STF, ante a manifestação das forças armadas; controlada a polícia federal e a imprensa agredida e colocada sob suspeita… Jair Bolsonaro vai dando seu golpe em doses diárias.



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