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  • Porto Alegre sedia debate sobre transparência na comunicação pública

    Porto Alegre sedia debate sobre transparência na comunicação pública

    No dia 1º de junho de 2026, a capital gaúcha receberá o 1º Congresso Gaúcho de Comunicação Pública. O evento presencial ocorrerá no auditório da Associação dos Auditores-Fiscais da Receita Municipal de Porto Alegre (AIAMU), no Centro Histórico, com transmissão virtual para todo o país. O encontro visa qualificar gestores, secretários e assessores, transformando a comunicação institucional em ferramenta estratégica de transparência.

    A programação contará com especialistas para debater temas urgentes do setor. As inscrições estão abertas no site oficial do evento e as vagas presenciais são limitadas a 200 participantes. Entre os debatedores, Soraia Hanna comandará o painel sobre gestão de crises, enquanto Daniela Machado abordará o combate à desinformação. A simplificação de termos técnicos para o cidadão será discutida por Maria José Finatto, e Rodrigo Abella apresentará diagnósticos de maturidade digital baseados em evidências, entre outros destaques.

    Em entrevista ao JÁ, o professor e escritor Adeli Sell, um dos organizadores do Congresso, fala da importância deste encontro.

    Adeli Sell

    JÁ – O que podes nos falar deste 1° Congresso, os objetivos?

    Adeli – É o primeiro, por isso, enfatizamos na chamada, pelo ineditismo e ousadia. Nosso objetivo é atingir o máximo de pessoas. Será presencial aqui em Porto Alegre, por isso, “gaúcho”. Mas terá transmissão online.

    É um congresso que vai debater uma temática ampla para falar com dirigentes públicos de todas as esferas – do Executivo e do Legislativo. E como não é só estatal, é público em geral, queremos falar com os que fazem a mídia em sindicatos e Ongs.

    JÁ – Qual é o principal mote?

    Adeli – Quando falo com as pessoas, começo pelo velho bordão do Velho Guerreiro Chacrinha – os mais jovens não devem saber quem foi José Abelardo Barbosa, com seu inigualável “Cassino do Chacrinha”, mas o que ele dizia continua atual segundo leituras minhas: ‘Quem não se comunica se trumbica’. É isso, comunicar melhor.

    JÁ – E quais os temas que vocês vão abordar?

    Adeli – Recentemente, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) instituiu o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples, para eliminar o uso do juridiquês. O objetivo é tornar decisões judiciais, documentos e o atendimento ao público mais claros, diretos e acessíveis a todo cidadão, garantindo o direito à informação e facilitando o entendimento da Justiça.

    E a também uma lei (Nº 15.263, novembro de 2025) que institui a Política Nacional de Linguagem Simples nos órgãos e entidades da administração pública direta e indireta de todos os Poderes da União. Ou seja, vale em todas as esferas governamentais, para todas as pessoas.

    Dias atrás, em uma audiência pública sobre o Plano Diretor, um sujeito abre o evento dizendo: Vamos tratar aqui de “recuo de jardim”, “volumetria”, “área permeável”, etc, etc. Entendeu? Pois então, como já disse em outra entrevista: “a Lei passou meio distante da população e da imprensa corporativa”. Creio que ainda teremos um grande caminho pela frente.

    JÁ – Então, o tema da Linguagem Simples, vamos sublinhar aqui para nossos leitores…

    Adeli – Especificamente sobre a “linguagem simples”, teremos um painel que pretende mostrar como aos cidadãos podem encontrar, entender e usar as informações publicadas pelos órgãos e entidades da administração. A lei torna obrigatório que órgãos públicos se comuniquem de forma clara, objetiva e acessível, usando técnicas como frases curtas, palavras comuns e recursos visuais para facilitar o entendimento e o acesso à informação.

    A palestra será de Maria José Finatto que vai nos conduzir para transformar linguagem burocrática em texto que o cidadão compreende, metodologia premiada pelo Google. Finatto é doutora em Estudos da Linguagem e especialista em Acessibilidade Textual (UFRGS). Pesquisadora premiada pelo Google.

    Já na fala da Daniela Machado, vamos entender como identificar, barrar e corrigir desinformação antes que ela comprometa a credibilidade da sua instituição. Pois, em tempos de “fake news”, manipulações, mentiras e falsificação histórica, é essencial informar com verdade,
    precisão e simplicidade. Daniela é jornalista e especialista em Letramento Digital e Coordenadora do EducaMídia.

    JÁ – E a comunicação pública propriamente dita?

    Soraia Hanna

    Adeli – O Congresso pretende ser inédito e ousado, porque em geral se fala genericamente de comunicação. E aí, quando vêm uma crise – enchentes, um secretário que desviou recurso, etc,- aí é a crise, e no geral junto vem o caos. Por isso, vamos ouvir Soraia Hanna para não perder tempo e nos dizer o que fazer nas primeiras horas de uma crise: protocolos testados em quatro governos estaduais. Soraia é autora do livro “Gerindo crises, construindo reputação”. É também sócia da empresa Critério.

    Sandra Bitencourt vai começar a conversa do dia para mostrar como a imagem pública de uma instituição se constrói e desmorona, nos momentos de instabilidade política. Sandra, doutora em Comunicação (UFRGS), e assessora do Tesouro do Estado (RS).

    Como neste mundo líquido estamos todos navegando nas águas muitas vezes turvas da Internet, estamos trazendo Rodrigo Abella para nos dizer como medir o que realmente importa: diagnóstico de maturidade digital e os indicadores que revelam se a comunicação está blindada ou exposta. Abelha é diretor-executivo da Social MedIA Gov. Especialista em comunicação baseada em evidências, estágios de maturação digital e sintonia fina com o público.

    JÁ – Podemos ter participação até da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), certo?

    Adeli – Em não sendo possível ouvir especialistas nas três esferas de poder estatal, optamos pela vinda do representante da EBC, Leandro Rolim. Vai nos falar de como a TV 3.0 e a mídia pública nacional podem ampliar a voz da sua instituição além das redes sociais.

    E ao falar de mídia pública, é obrigação falar de dados, de segurança, de transparência. Por isso, Gustavo Ferenci irá dizer como usar transparência e LGPD como instrumentos ativos de legitimidade, não como obrigações a cumprir. Ferenci é presidente do Fórum de Proteção de Dados dos Municípios.

    Ou seja, será um dia repleto de temas, uma programação completa, para que possamos sair todos do Congresso com a alma um pouco mais leve.

    JÁ – O que mais vocês vão ofertar?

    Adeli – Em tempos de preocupações com o meio ambiente, os temas sociais e a governança, o Congresso buscou um local com fácil acessibilidade, com uma “pegada ESG” real. Os resíduos terão o devido destino para uma entidade de reciclagem, a alimentação, além de saudável – sem lactose, sem glúten, virá da economia solidária, de agroindústria familiar, de entidades sociais. O evento terá acompanhamento de uma arquiteta especializada em acessibilidades para pessoas idosas e PCDs. Haverá uma coleta de livros para doação a uma biblioteca.

    JÁ – Alguma coisa específica para os estudantes da área de comunicação?

    Adeli – Sim, os estudantes terão, em breve, no site, uma área para inscrições de forma gratuita. É outra de nossas contrapartidas sociais.

    JÁ – Vocês certamente terão patrocinadores.

    Adeli – Sim, aproveitamos para agradecer a todos aqui. Além do apoio de entidades de classe da área da comunicação – ARI, SINDIJOR – o evento conta com o apoio da Caixa Econômica Federal, Governo Federal, Corsan, a Associação dos fiscais de tributos/AIAMU, Associação dos Procuradores, Governo do Estado, Assembleia Legislativa. Na divulgação temos o apoio da IMOBI, LIFE OOH, Trensurb, entre outros.

    Mais informações no site do evento.

    Palestrantes já confirmados:

    Sandra Bitencourt: Doutora em Comunicação (UFRGS). Jornalista e Pesquisadora. Assessora do Tesouro do Estado (RS).

    Soraia Hanna: Sócia-diretora executiva da Critério. Especialista em gestão de imagem (trajetória em 4 governos estaduais).

    Maria José Finatto: Doutora em Estudos da Linguagem e especialista em Acessibilidade Textual (UFRGS). Pesquisadora premiada pelo Google.

    Daniela Machado: Jornalista e especialista em Letramento Digital (EUA). Coordenadora do EducaMídia. Foco em Integridade da Informação e curadoria responsável de conteúdos.

    Rodrigo Abella: Diretor-executivo da Social MedIA Gov. Especialista em comunicação baseada em evidências, estágios de maturação digital e sintonia fina com o público.

    Leandro Rolim: Doutor em Comunicação Audiovisual (Universidad de Salamanca), Professor da UCB, Produtor Executivo e Assessor na SUDIM – EBC

    Gustavo Ferenci: Secretário de Transparência de Canoas e Presidente do Fórum de Proteção de Dados dos Municípios. Tema: Transparência Pública Inteligente e Governo Digital.

  • Audiência pública na Assembleia amplia debate sobre a nova fábrica de celulose

    Audiência pública na Assembleia amplia debate sobre a nova fábrica de celulose

    Não cabiam mais de 40 pessoas na pequena sala do 4° andar onde se realizou, nesta quarta-feira, a Audiência Pública que a Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do RS convocou para discutir os impactos sociais e ambientais da nova megafábrica de celulose da CMPC – empreendimento de R$ 25 bilhões, o “maior da história do Rio Grande do Sul”, segundo a imprensa.

    Mais de cem pessoas, inclusive jornalistas, tiveram que assistir pelo telão no lado de fora.

    A Fepam, órgão do governo do Estado responsável pela análise do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do empreendimento, não enviou representantes.

    O diretor de Infraestrutura da CMPC, Otemar Alencastro, apresentou um resumo do projeto, já rebatendo as principais críticas dos ambientalistas.

    Disse que a empresa realizou até agora 33 reuniões para debater as quatro mil páginas do EIA da futura fábrica, e que continua ouvindo as demandas das comunidades indígenas da região.

    O risco de poluição da água do Guaiba com compostos químicos altamente nocivos, como dioxinas e furanos, apontado por especialistas, foi minimizado por Alencastro. Segundo ele, os efluentes resultantes do processo produtivos serão devolvidos ao rio depois de rigoroso tratamento e sem riscos de contaminação. 

    Alencastro afirmou que o empreendimento foi concebido com premissas de sustentabilidade, incluindo reciclagem da água, manejo de resíduos sólidos, redução de combustíveis fósseis, branqueamento ECF, redução do consumo de produtos químicos e tratamento de efluentes.

    Conforme o diretor, “estudos ambientais consideraram diferentes condições climáticas, incluindo cenários críticos de cheias e estiagens, a partir de modelos de dispersão no Guaíba”.

    Diretor Otemar Alencastro, da CMPC Celulose. Foto Divulgação ALRS

    O executivo afirmou que a fábrica estará localizada a cerca de dez quilômetros do centro urbano, sem impacto direto para os moradores, portanto. Quanto aos impactos econômicos do empreendimento, ele ressaltou que só em Barra do Ribeiro haverá um incremento de 300% na arrecadação do município”.

    O biólogo e professor da Universidade Federal (Ufrgs), Paulo Brack, chamou atenção para o volume de água utilizada no processo de produção da celulose: 288 milhões de litros por dia, volume maior do que o consumo diário de toda a população de Porto Alegre.

    Desse total captado, a fábrica devolve ao Guaiba 242 milhões de litros por dia, volume maior do que a água servida que população devolve ao rio a cada dia.

    Segundo Brack, que também representa o Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá) no Conselho Estadual do Meio Ambiente do RS, muitos compostos químicos são persistentes, como organoclorados utilizados para o branqueamento da celulose.

    O professor lembrou que há uma cadeia alimentar que depende da água do Guaíba. “Temos 7.078 pescadores relacionados pelo Ministério da Pesca e isso dá mais que os 2.300 que a empresa garante que terão emprego após a conclusão da obra. Então esses efluentes podem comprometer não só a pesca como também todos os balneários da Costa Doce”, disse.

    A engenheira química Alda Maria de Oliveira, ex-analista ambiental da Fepam, disse que “é preocupante” a questão desses poluentes. Os próprios números da empresa indicam a emissão de diversos compostos na água.

    Alda alertou para os impactos acumulados por mais de 50 anos de funcionamento de fábricas de celulose sobre o rio. De acordo com a engenheira, os impactos atingem tanto a qualidade da água quanto os peixes consumidos pela população. “Os efeitos recaem sobre o fluxo ambiental e também sobre a vida humana”, destacou.

    Biólogo Paulo Brack e a engenheira química Alda Oliveira. Foto Divulgação ALRS

    Arnildo Werá, coordenador estadual da Comissão Guarani Yvyrupa, destacou que a Convenção 169 da OIT garante o direito à consulta livre, prévia e informada sempre que medidas ou empreendimentos afetarem os povos indígenas. Esse direito não é favor, nem burocracia: é uma obrigação do Estado e das empresas.

    A liderança denunciou que as comunidades Guarani não foram devidamente consultadas sobre os impactos da instalação da CMPC em seus territórios tradicionais.

    “Ignorar esse processo é violar direitos internacionais, a Constituição brasileira e a autodeterminação dos povos indígenas. Não existe desenvolvimento quando há destruição de territórios, silenciamento de comunidades e violação de direitos. O povo Guarani exige respeito, escuta e participa nas decisões que afetam seu presente e seu futuro”, ressaltou.

    Da organização Amigas da Terra, o engenheiro ambiental Eduardo Raguse afirmou que a empresa já descumpre um dos itens de adequação da licença de operação relacionado ao controle de odores que causam “desconforto olfativo” à população. Raguse relatou impactos sobre a população local, incluindo registros de mal-estar entre alunos e professores da Colégio Estadual Augusto Meyer. Também alertou para o que classificou como “alto risco de acidentes”, mencionando avaliações realizadas pela Fepam nas operações da CMPC.

    Indígena Arnildo Werá e o engenheiro ambiental Eduardo Raguse

    Doutor em Ciências na área de Ecologia de Paisagem e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Rualdo Menegat, alertou sobre os impactos socioambientais. “Será necessária uma estrada de 1.100 km de caminhões que trarão insumos químicos por ano. Além disso, haverá também trânsito de 273 mil caminhões por ano junto como também aqueles que trarão os lenhos, cerca de 6 mil ônibus, 29 mil carros, 29 mil motocicletas, ou seja, serão consumidos milhões de litros de diesel com as devidas emissões de CO2”, comparou Menegat.

    A deputada Sofia Cavedon lamentou que seja classificado de “grenalização” o necessário debate ambiental e criticou a desqualificação de ambientalistas e pesquisadores que alertam para os impactos do empreendimento. Segundo Sofia, “os ambientalistas alertam sobre o que pode acontecer e a gente vê vários qualificativos agressivos usados contra eles. Como se fossemos eco chatos e contra o desenvolvimento, como se estes alertas não tivessem valor científico. Essas pessoas estudam pensam sobre o assunto e quem defende desenvolvimento econômico precisa considerar de forma técnica o impacto ambiental”.

    “O Guaíba não pode ser ainda mais poluído, ponto final. O Guaíba já está contaminado, e estamos falando de uma quantidade de água equivalente ao consumo de toda Porto Alegre que será utilizada pela CMPC. Porto Alegre também precisa ser consultada sobre esta nova planta, porque sofrerá os impactos”, argumentou.

    Sofia também criticou o modelo de expansão baseado no cultivo de eucalipto. Segundo ela, “não se trata de preservação, mas de uma monocultura predatória”.

    **Com informações das assessorias partidárias

  • Demolições continuam: em meio aos escombros, o quilombo Kédi resiste

    Demolições continuam: em meio aos escombros, o quilombo Kédi resiste

    Quem entra no quilombo Kédi sem saber dos antecedentes do lugar, pode pensar que ali caiu um míssil perdido da guerra do Oriente Médio.

    Paredes derrubadas, vigas expostas, ferragens retorcidas, portas e janelas arrombadas – as duas fileiras de casas que se estendem ao longo de um estreito beco estão reduzidas a escombros.

    Nas poucas casas que ainda estão de pé, as pessoas se mostram arredias e inquietas. “É muito medo”, diz uma mulher na janela. Pela porta entreaberta vê-se uma criança no chão, uma velha numa cadeira. O marido sai para trabalhar de manhã e recomenda que ela não fale com estranhos.

    Pensa em saír? “Não saí ainda porque querem pagar como se fosse uma família e são duas”. Explica que no terreno moram também sua filha, um neto e o genro. “Eles também precisam um lugar pra morar”.    

    Em março, depois de uma semana em que foram derrubadas 30 casas, a justiça proibiu as demolições. Mas neste fim de semana até de madrugada se ouviam as pancadas de marreta e picaretas derrubando paredes.

    Já moraram 80 famílias ali no Kédi. Agora  falam em doze, não se sabe ao certo, todo o dia tem gente se mudando. Levam as tralhas e voltam para derrubar a casa, condição exigida para receber a indenização de R$ 180 mil negociada com a prefeitura mas paga por uma empresa privada, segundo denunciou ao MPF a Frente Quilombola.     

    Outra exigência para fazer jus ao pagamento é assinar um termo em que renuncia à identidade de quilombola.

    Leonardo nasceu e se criou ali, tem 32 anos.  Já fechou negócio, está levando seus pertences, vai construir duas peças no terreno de sua mãe, na Restinga. Ele não quer falar: “Só quero sair daqui, isso aqui virou inferno, só rato, sujeira, água podre”, diz entrando e fechando a porta da pequena casa de tijolo, onde vivia com a mulher e dois filhos.

    No sábado, representantes do Movimento Quilombola se reuniram no local para debater a situação e discutir as possibilidades de resistência.

    Desde 2023 tramita no Incra um processo para reconhecer a área como um quilombo, território ancestral de escravizados.  O problema é que o reconhecimento da condição quilombola é um processo coletivo e a prefeitura adotou um programa de compra assistida, negociando isoladamente com cada família. No processo do Incra, que inclusive já tem o laudo antropológico, estão cadastradas 41 famílias. Mas o quadro real se tornou confuso com o surgimento de aproveitadores desde que começaram as compras assistidas com a prefeitura. Consta que 120 acordos já foram feitos. “Muita esperteza, teve gente que pegou um quadradinho, só para receber”, diz Sérgio Valentim, da Frente Quilombola.

    “Extirpar” é a palavra que o representante do Movimento Quilombola usa para o que está sendo feito com o Quilombo Kédi, um enclave de pobreza que restou numa das regiões mais valorizadas de Porto Alegre, cercado de condomínios e imóveis de alto padrão.  

    São duas fileiras de casinhas, muitas de tijolos sem reboco, ao longo de uma ruela, formando uma nesga com pouco mais de 30 metros de largura por 100 metros  de comprimento, espremida entre o muro do  Country Club e um condomínio de luxo.

    A ocupação do território remonta ao fim da escravidão. Quando foi proibido o trabalho escravo no Brasil, em 1888, os negros escravizados nas fazendas da região, como ocorreu em todo o pais,  foram largados à própria sorte. Alguns preferiram continuar com os antigos senhores, a maioria foi se instalando numa faixa de terra ao longo do riacho que corta uma grande extensão daqueles campos.

    Moradores mais antigos ainda conheceram os avós que cuidavam do gado nessas fazendas e foram se arranchar na beira do riacho.  Desse movimento nasceram várias comunidades negras na região: o Quilombo Silva, a Volta da Cobras e o Quilombo Kédi, que é uma corruptela de caddies, como são chamados os carregadores dos tacos nos jogos de golfe. Deriva dos jovens da comunidade que prestavam esse serviço aos jogadores de golfe do vizinho Country Club, desde  o início do século passado. (segue)

  • Bactéria no detergente: Ypê suspende decisão, mas Anvisa mantém o alerta

    Bactéria no detergente: Ypê suspende decisão, mas Anvisa mantém o alerta

    A Química Amparo, dona da marca Ypê, conseguiu derrubar a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que suspendia a fabricação e comercialização de vários de seus produtos*.

    Anvisa acolheu o recurso da empresa mas manteve o alerta de risco sanitário e orienta os consumidores a não usar os 23 itens com lotes de final 1, nos quais a fiscalização detectou a presença de uma bactéria.

    O rótulo da embalagem é ilegível e o número do lote gravado na garrafa PET ´é invisível.

    Com o recurso administrativo, os produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquido e desinfetantes podem continuar sendo fabricados e comercializados até nova manifestação da Anvisa.

    A Anvisa informou que mantém o entendimento técnico sobre os riscos identificados na linha de produção da unidade da Química Amparo, em Amparo, São Paulo. 

    A agência destacou que o julgamento definitivo do recurso pela Diretoria Colegiada deve ocorrer nos próximos dias.

    Enquanto isso, o órgão orienta que os consumidores não utilizem os produtos envolvidos, “por segurança”.

    Segundo a Anvisa, cabe à empresa orientar consumidores sobre:

        recolhimento;

        troca;

        devolução;

        ressarcimento;

        demais medidas necessárias.

    As informações devem ser prestadas por meio do Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da fabricante.

    Entenda

    Na quinta-feira (7), a Anvisa determinou a suspensão da fabricação, distribuição e comercialização de diversos produtos fabricados pela unidade da Química Amparo, responsável pela marca Ypê. 

    Segundo a agência, a medida foi tomada após avaliação de risco sanitário identificar “falhas graves na produção”.

    Entre os problemas apontados estão:

        -falhas no controle de qualidade;

        -descumprimentos em etapas críticas da fabricação;

        -problemas nos sistemas de garantia sanitária.

    A agência afirmou que essas exigências são fundamentais para garantir a segurança dos consumidores.

    Lotes afetados

    A decisão da Anvisa atinge apenas produtos com lotes terminados no número 1.

    A relação completa foi publicada na Resolução nº 1.834/2026 no Diário Oficial da União.

    Recall voluntário

    A Ypê informou que já havia iniciado, em novembro de 2025, um recolhimento voluntário de alguns lotes de lava-roupas líquidos após identificar a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em produtos específicos.

    Na ocasião, a empresa divulgou orientações aos consumidores sobre possíveis riscos à saúde e os procedimentos para troca ou devolução dos produtos.

    A Anvisa informou que as vigilâncias sanitárias estaduais e municipais foram orientadas a intensificar a fiscalização para impedir a circulação de lotes considerados irregulares.

    O órgão também recomendou que consumidores verifiquem a numeração dos lotes antes do uso dos produtos.

    *Os produtos de lotes de final 1 que tiveram a comercialização suspensa na quinta-feira foram os seguintes:

       – Lava-louças Ypê Clear Care

       – Lava-louças com enzimas ativas Ipê

        -Lava-louças Ypê

        -Lava-louças Ypê Clear Care

        -Lava-louças Toque Suave

        -Lava-louças concentrado Ypê Green

        -Lava-louças Ypê Clear

        -Lava-louças Ypê Green

        -Lava Roupas líquido Tixan Ypê Combate Mau Odor

        -Lava-roupas líquido Tixan Ypê Cuida das Roupas

        -Lava-roupas líquido Tixan Ypê Antibac

        -Lava-roupas líquido Tixan Ypê Coco e Baunilha

        -Lava-roupas líquido Tixan Ypê Green

        -Lava-roupas líquido Ypê Express

        -Lava-roupas líquido Ypê Power ACT

        -Lava-roupas líquido Ypê Premium

        -Lava-roupas Tixan Maciez

        -Lava-roupas Tixan Primavera

        -Desinfetante Bak Ypê

        -Desinfetante de uso geral Atol

        -Desinfetante Perfumado Atol

        -Desinfetante Pinho Ypê

        -Lava-roupas Tixan Power ACT 

    A bactéria Pseudomonas aeruginosa, encontrada em diversos produtos da indústria Ypê, é uma bactéria de grande resistência a antibióticos, segundo o  infectologista Celso Ferreira Ramos Filho, em entrevista à Agência Brasil.

    Ele explica que, como se trata de uma bactéria ambiental, esponjas usadas normalmente para lavar louça ou panos de chão podem estar contaminados, já que a bactéria permanece viva na água.

    De acordo com ele, a Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria de “vida livre”, ou seja, diferente de outras bactérias como a Escherichia coli, que vive dentro do intestino, ou o meningococo, que vive nas fossas nasais das pessoas.

    “Nós não vivemos em um ambiente que não tem micro-organismos. Existem outras bactérias de vida livre, como a Burkholderia que, eventualmente, podem causar doenças no homem”.

    Segundo ele, a bactéria pode causar uma série de problemas em pessoas imunocomprometidas, desde infecção urinária a infecção respiratória em pessoas que têm problemas de pulmão crônicos, como enfisema, ou em pessoas submetidas a tratamento com cateter na veia.

    “Colocam um tubo na traqueia e a bactéria pode entrar por ali. Também pode ocorrer em pessoas que estejam fazendo quimioterapia, o que faz com que haja um comprometimento maior e prévio da saúde da pessoa”, explicou Celso Ferreira.

    A médica Raiane Cardoso Chamon, professora do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirmou à Agência Brasil que o maior problema dessa bactéria ocorre quando pessoas imunocomprometidas, que têm o sistema imunológico enfraquecido, entram em contato com ela.

    “Ela consegue causar infecções em pessoas que têm o sistema imune debilitado”.

    Em pacientes que têm fibrose cística, por exemplo, ela é causa comum de pneumonia. E o tratamento é muito difícil. Advertiu, por outro lado, que ela pode causar também problemas em pessoas saudáveis.

    “Dependendo da cepa da Pseudomonas, mesmo a pessoa saudável pode desenvolver uma infecção, como a otite de nadador, em pessoas que nadam em águas recreativas, como piscinas, rios, praias”, ressaltou Chamon.

    Para a profissional de saúde, o maior problema é quando a bactéria chega ao ambiente hospitalar, e a porta de entrada, geralmente, são as pessoas que trabalham ali ou entram no hospital, explicou a profissional de saúde.

    A médica relatou ainda que, dentro do ambiente hospitalar, onde uma pressão seletiva de antibióticos é muito grande, a bactéria carrega dentro dela uma série de resistências.

    Segundo Chamon, isso pode provocar infecções mais graves, associadas a pessoas que usam sonda urinária, têm infecção de corrente sanguínea, estão com pneumonia, pessoas com ventilação mecânica, E o tratamento, por conta da gravidade da infecção, é mais difícil, além da questão de a bactéria aumentar o poder de resistência.

    “Esse é o pior cenário de todos”, afirmou.

    Contaminação

    Como a Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria que vive muito bem no solo, na água e em ambientes úmidos, Raiane acredita que a contaminação pode ter ocorrido no momento de produção.

    “Não houve um controle microbiológico adequado. Provavelmente, algum reagente na hora de fabricação desses produtos estava contaminado pela Pseudomonas, e acaba que ela consegue se multiplicar nesses ambientes úmidos também”, explicou.

    “Na falta do controle microbiológico nas etapas necessárias de fabricação, pode ter havido um crescimento descontrolado de uma cepa específica, que vive melhor em ambientes com detergentes, por exemplo, e a gente acaba detectando-a nesses materiais”.

    Segundo a médica, existem níveis aceitáveis de contaminação microbiana em todos os produtos. O que não pode é ultrapassar esse nível para não oferecer risco à saúde, principalmente nos indivíduos que estão mais comprometidos em seu sistema imune.

    Comunicado

    Em comunicado divulgado na quinta-feira (7), a Ypê esclareceu que está colaborando integralmente com a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) “e conduzindo todas as ações necessárias com máxima prioridade, responsabilidade e transparência”.

    A empresa informou ainda que vem realizando análises técnicas e avaliações complementares, incluindo testes e laudos independentes, que estão sendo apresentados à Anvisa, “reforçando o compromisso da empresa com a qualidade, a segurança e a conformidade regulatória dos seus produtos”.

    A indústria se compromete ainda a incorporar de forma imediata eventuais aprimoramentos e recomendações regulatórias da Agência ao seu Plano de Ação e Conformidade Regulatória, desenvolvido em conjunto com a própria Anvisa desde dezembro de 2025.

    (Com Agência Brasil)

  • Governo Lula manda quatro ministros prestar contas da reconstrução no RS

    Governo Lula manda quatro ministros prestar contas da reconstrução no RS

    Nesta quinta-feira, 7 de maio, quatro ministros*, liderados por Miriam Belchior, chefe da Casa Civil, estavam na mesa do evento na Casa da Reconstrução, em Porto Alegre, em que o Governo Federal apresentou um balanço das obras de reconstrução no Rio Grande do Sul, dois anos depois da grande enchente de 2024.

    O total já liberado pela União para obras e auxílios emergenciais chega perto dos R$ 90 bilhões. Somados os incentivos fiscais e desonerações, vai a mais de R$ 110 bilhões o montante de verbas federais destinadas a mitigar os estragos da maior enchente já registrada no Estado.

    Segundo a ministra, 94% desses recursos “já foram executados”, o que significa que estão liberados, embora apenas uma parte tenha sido efetivamente aplicada até agora. No cronograma da reconstrução, há obras que só estarão concluídas em 2031.

    Governo libera R$ 5,4 bilhões para obras contra cheias

    No encontro foram assinadas novas ordens de serviços contra enchentes. Foto: Ramiro Sanchez/@outroangulofoto/JÁ

    Além do balanço das ações de reconstrução, foi anunciada a liberação de R$ 5,4 bilhões para obras de prevenção a enchentes no Estado. Os recursos fazem parte do Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (Firece), que reserva R$ 6,5 bilhões para oito grandes intervenções estruturantes. “O que estamos assinando aqui hoje prepara o Rio Grande do Sul para o futuro. São ações estruturais que marcam um novo ciclo neste estado: um ciclo de planejamento, prevenção e segurança”, disse a ministra Miriam Belchior.

    Entre as obras anunciadas estão intervenções nos sistemas de prevenção de cheias do Arroio Feijó, da Bacia do Rio Gravataí, de Eldorado do Sul e da Bacia do Rio dos Sinos, beneficiando 16 municípios gaúchos, incluindo Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo e Novo Hamburgo.

    Quinze prefeitos da Região Metropolitana de Porto Alegre, incluindo o prefeito da capital, Sebastião Melo, estiveram presentes para a formalização dos repasses.

    Na área habitacional, foram autorizadas mais de mil unidades do programa Minha Casa, Minha Vida, sendo 540 moradias em 22 municípios e outras 632 casas voltadas a famílias atingidas pelas enchentes.

    O governador Eduardo Leite também solicitou à União a ampliação de recursos para o dique de Eldorado do Sul, cujo custo subiu após revisão do projeto, além da prorrogação da suspensão da dívida do Estado com a União para financiar ações de segurança hídrica e irrigação.

    O tom político na reunião foi dado pelo deputado federal Paulo Pimenta, líder do governo na Câmara em Brasília e ex-ministro da Reconstrução, que destacou as características do governo Lula e a vontade pessoal do presidente em atender com presteza as populações atingidas.

    A ministra Miriam Belchior e o deputado Paulo Pimenta, representantes do governo Lula. Foto: Ramiro Sanchez/@outroangulofoto/JÁ

    Pimenta se declarou “inconformado” com a “burocracia que emperra obras urgentes”. O governador Eduardo Leite, a seu lado, percebeu a indireta e disse que também se angustia, mas que as obras mais complexas nem sempre podem ser aceleradas.

    Visto por seu aspecto político, o evento foi um lançamento no Rio Grande do Sul da campanha pela reeleição do presidente Lula.

    (*) Ministros presentes:

    Miriam Belchior: Ministra da Casa Civil, que comandou a apresentação do balanço.

    Vladimir Lima: Ministro das Cidades.

    Leonardo Barchini: Ministro da Educação.

    André de Paula: Ministro da Agricultura e Pecuária.

  • Otávio Rocha: viaduto restaurado, praça ainda abandonada

    Otávio Rocha: viaduto restaurado, praça ainda abandonada

    No coração do Centro Histórico de Porto Alegre, a poucos quarteirões do viaduto restaurado, está a pracinha que também homenageia o prefeito Otávio Rocha. A construção é do início dos anos 30 e segue estilo semelhante do viaduto.

    A praça em 1930, na época do término das obras de ligação da Otávio Rocha com a então Rua São Rafael.

    A praça foi projetada pelo arquiteto Christiano de la Paix Gelbert (1899-1985), o mesmo que projetou o Pronto Socorro e a Prefeitura da capital gaúcha. O local da praça é um terreno triangular, em declive, sobra de desapropriações feitas para alargar as ruas naquela área, por volta de 1930.

    É das poucas praças na cidade que mantém sua forma original. Na parte baixa, destaca-se um busto de Otávio Rocha, esculpido por André Arjonas: está com as mãos decepadas, sinalizando o abandono da bela pracinha, o que se confirma nas instalações depredadas. O lugar onde funcionou um café serve de abrigo para mendigos.  

    Pequeno chalé, onde funcionou uma cafeteria, abandonado. Foto EB/JÁ

    Em 2024, a prefeitura chegou a firmar uma parceria com uma empresa privada (Infinita Town), que adotou a praça e chegou a iniciar uma reforma em abril daquele ano, mas desistiu do projeto no início de 2025.

    Com isso, as obras pararam e o espaço voltou a sofrer com a falta de manutenção e ocupações.

    Construção é dos anos 30. Foto Elmar Bones/JÁ
    Antigo chalé precisa de reforma completa. Foto Elmar Bones/JÁ

    Novo grupo assume revitalização

    Em janeiro de 2026, a Prefeitura de Porto Alegre reabriu um edital buscando parceiros da iniciativa privada para revitalizar e manter o local, incluindo a reativação da tradicional cafeteria. Nove empresas se inscreveram.

    Novo grupo será responsável pela limpeza e manutenção da praça. Foto Elmar Bones/JÁ

    O grupo de gastronomia MuleBule foi o escolhido e será responsável pela reabertura do café no chalé. O modelo proposto pela prefeitura foca na manutenção e conservação do espaço em troca da exploração comercial da cafeteria. O adotante assume a responsabilidade pela revitalização, manutenção constante, limpeza e paisagismo da praça.

    A expectativa é de que o termo de adoção seja assinado neste mês de maio.

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  • Viaduto Restaurado (3): Revestimento que dá cor original foi o maior desafio

    Viaduto Restaurado (3): Revestimento que dá cor original foi o maior desafio

    O maior desafio da reforma do viaduto Otávio Rocha, recém concluída, foi o revestimento, degradado por décadas de poluição e pichações. Foi preciso remover a crosta de sujeira sem agredir os cristais de mica da cobertura original. O revestimento do viaduto não é pintura, mas uma massa conhecida como Cirex, nome da empresa que fabricava o produto e que não existe mais. Trata-se de uma mistura de cimento branco, cal, mica e pó de mármore ou granito. 

    Restauração do cirex

    Nos locais onde o reboco havia caído, os técnicos da Concrejato precisaram criar uma mistura idêntica à de 1928. Isso envolveu testes de laboratório para acertar a mistura e garantir que as partes novas não ficassem com cor diferente das antigas.

    A mica presente no pó de granito é o que dá aquele brilho discreto quando o sol bate na estrutura. Diferente da tinta, o cirex não descasca, é uma camada de “pedra artificial” que adere profundamente ao concreto.

    Sobre o revestimento, foi aplicada uma camada de hidrofugante (produto químico que repele a água), que permite a remoção rápida de pichações, com o uso de lavadoras de alta pressão (lava-jato).

    Houve adaptações para atender as exigências de segurança e mobilidade. Nos arcos e no piso da avenida Borges de Medeiros, por exemplo, foram instaladas 342 lâmpadas de LED, controladas por fotocélulas com economia de 50% no consumo de energia, segundo a prefeitura.

    Foram instaladas quatro estruturas de vidro no topo do viaduto, para abrigar áreas de serviço e infraestrutura.  

    As adaptações para atender às normas de acessibilidade incluíram piso tátil nas calçadas e corrimões de metal nas escadarias. O plano de prevenção de incêndio foi refeito.

    Há novas adaptações nas calçadas da Avenida Borges de Medeiros e da Rua Duque de Caxias para facilitar o acesso de cadeirantes aos pontos de ônibus e às lojas, deixando o trajeto no entorno nivelado.

    Elevadores foram descartados

    Um dos pontos mais debatidos do projeto de revitalização foi a instalação de elevadores, ligando o térreo às escadarias. A ideia foi descartada, em nome das características originais do viaduto, tombado pelo município desde 1988. Ao final, a instalação de elevadores externos ou internos “perfurando” a estrutura original foi considerada uma intervenção muito agressiva pelo EPAHC (Equipe de Patrimônio Histórico e Cultural).

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  • Dois anos do incêndio na Pousada Garoa: 11 vítimas ainda sem justiça

    Dois anos do incêndio na Pousada Garoa: 11 vítimas ainda sem justiça

    Um ato simbólico marcou, neste domingo, 26/04, os dois anos do incêndio na Pousada Garoa, albergue conveniado com a prefeitura de Porto Alegre, na avenida Farrapos. Na tragédia, 11 pessoas morreram queimadas e, ao menos, outras 15 sofreram ferimentos.

    “O que houve aqui, há dois anos, independentemente da origem do fogo, é um absurdo no que tange à falta de fiscalização, falta de cuidados e consideração do Poder Público, responsável pela contratação e terceirização do serviço de assistência social”, destacou o vereador Pedro Ruas (PSOL), um dos organizadores do ato.

    Na sua avaliação, “as obrigações de prover toda a atenção em termos de cuidados de segurança é do município, mesmo quando os serviços, como no presente caso, são terceirizados”. Segundo ele, “esses dois anos marcam uma tragédia que tem culpados e continuam impunes”.

    Acompanhado por lideranças da Pastoral dos Povos de Ruas da Cúria Metropolitana, o vereador pediu um minuto de silêncio em homenagem aos mortos. Junto a uma faixa com o nome das onze vítimas foram depositadas rosas brancas.

    “Fazemos esse ato como forma de chamar a atenção da sociedade para a falta de justiça, nesse caso. Mas também para deixar claro que os problemas da falta de moradia digna e segura, para muitas pessoas, ainda é um problema da maior seriedade o que exige muito planejamento e atenção das autoridades responsáveis”, disse Ruas.

    Os nomes dos mortos no incêndio, bordados em um quadro de tecido verde, pela jornalista Iara Maurente, foram lidos. Onze rosas brancas foram depositadas junto aos nomes.

    Presidente da CPI sobre o incêndio, realizada de fevereiro a julho de 2025 na Câmara Municipal, Pedro Ruas destacou sua inconformidade com a demora em decisões sobre a aplicação de penas aos responsáveis. “O fato de termos feito nossa parte, indicando agentes responsáveis pela tragédia, é mais um fator que me obriga a aguardar que a justiça seja feita”.

    Já o coordenador da Pastoral dos Povos de Rua da Cúria Metropolitana, Elton Bozzetto, destacou que além de se esperar justiça é muito importante que o ocorrido ali sirva de lição para a evolução em termos humanitários, em relação ao atendimento das camadas sociais mais carentes. “Precisamos evoluir e, apesar da tragédia, temos que buscar forças, coragem e ousadia para sermos melhores”, enfatizou.

    O incêndio ocorreu na madrugada de 26 de abril de 2024, por volta das 2h, no albergue conveniado com a prefeitura para acolher pessoas em situação de vulnerabilidade. À época, foi constatado que o estabelecimento operava sem alvará de funcionamento e sem o Plano de Proteção contra Incêndio (PPCI).

    As investigações apontaram uma série de irregularidades, incluindo falhas estruturais e negligência na manutenção. O relatório final da CPI, concluído em junho de 2025, indicou responsabilidade do proprietário da rede, André Kologeski, destacando problemas como extintores vencidos, fiação exposta e ausência de rotas de fuga adequadas.

    Por outro lado, o documento não indiciou agentes públicos municipais, sob a justificativa de falta de elementos suficientes.

    Na esfera judicial, o caso segue em andamento em duas frentes: criminal e cível. A Polícia Civil indiciou três pessoas por incêndio culposo — o proprietário da pousada, o ex-presidente da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), Cristiano Roratto, e uma fiscal do contrato. O Ministério Público entendeu que os responsáveis podem responder por dolo eventual, o processo ainda tramita na Justiça.

    Paralelamente, a Defensoria Pública do Estado ajuizou, em agosto de 2025, uma ação civil pública que pede mais de R$ 10 milhões em indenizações por danos morais coletivos contra o município e o proprietário.

    Decisões liminares já determinaram que a prefeitura apresente um plano de moradia digna para os sobreviventes, além de garantir atendimento psicológico e psiquiátrico especializado.

    As vítimas:

    Adair Cruz,

    Anderson Correa,

    Cleiton Mello,

    Dionatan Cardoso da Rosa,

    Douglas de Lima Alves,

    João Batista Ebani,

    João Luiz Gomes,

    Julcemar Cardoso Amador,

    Lenita Aparecida Scheleck,

    Maribel Terezinha Padilha,

    e Silvério Roni Martin.

  • “Sou um cidadão que não se conforma com o que estão fazendo com Porto Alegre”

    “Sou um cidadão que não se conforma com o que estão fazendo com Porto Alegre”

    Felisberto Seabra Luisi nasceu em Porto Alegre, mas viveu infância e adolescência em Cruz Alta, para onde  se mudaram seus pais.

    Tinha 15 anos quando voltou à cidade natal. Estudou no Rosário, formou-se em Direito na Ufrgs, especializou-se em Direito Agrário na Itália. Tinha 40 anos quando começou a realmente conhecer sua cidade. Não descansou mais.

    Em 2026, aos 75, aposentado, ele comemora 35 anos de dedicação quase exclusiva aos movimentos comunitários de Porto Alegre. É com essa autoridade que ele fala ao JÁ e faz um balanço de mais de três décadas de atuação nos movimentos comunitários de Porto Alegre, critica a falta de participação popular e alerta: “O Plano Diretor avança (em votação na Câmara Municipal) sem debate e favorece interesses privados”.        

    JÁ – Tem uma data que marque o início dessa tua militância nos movimentos comunitários?

    Felisberto – Em 1991 eu fui contratado por uma “invasão” na Zona Sul. Eles tinham ocupado uma área e precisavam de um advogado para a defesa. Cheguei nessa comunidade num domingo, onze horas da manhã, nos reunimos embaixo de  uma árvore e eles perguntaram: “Doutor, você vai resolver o nosso problema?” Eu disse: “Não, nós vamos resolver o problema”.

    JÁ – Eles entenderam?

    Felisberto – Sim, começamos a criar uma estrutura na própria comunidade para respaldar a defesa jurídica e também reunir dinheiro para a eventualidade de comprar a área. E foi o que aconteceu.

    JÁ – E eles compraram a área?

    Felisberto – Em quatro anos conseguimos comprar a área. Primeio, foi arrecadado R$ 50 mil e, aí, sentamos para negociar com o proprietário. Ele pediu 100 mil, a gente disse: “Damos 50 mil de entrada  e queremos negociar os outros 50 mil”.

    JÁ – O dono topou…

    Felisberto – Topou. Eu queria 24 meses. A comunidade disse: “Não, nós vamos pagar em 12 meses”. E pagaram em 12 meses.

    JÁ – Que comunidade é essa?

    Felisberto – Jardim das Estrelas. Fica na Cristiano Kleber quase esquina com a Juca Batista. Hoje está urbaniza, com calçamento, água, luz, esgoto… Só ainda não está regularizada a área, não estão individualizados os terrenos. É um processo, eles seguem  tratando disso.

    JÁ – Essa foi tua iniciação no movimento comunitário?

    Felisberto – Foi a partir daí que conheci o Orçamento Participativo (OP), entrei como delegado dessa comunidade… e não saí mais. Fiquei fora dois anos, de 2007 a 2009, pela doença da minha filha, mas isso é outra história.

    JÁ – Como funcionava o OP na época?

    Felisberto – Estava começando, com o Olívio Dutra na prefeitura. Nas reuniões, na mesa, sentavam os representantes do governo, só. Na primeira reunião, eu disse: “Tem uma coisa errada nesse processo aqui”. Os caras me olharam: “Como?”. “Só tem governo aí, vocês trazem a pauta, decidem os assuntos, nós temos que democratizar essa relação. Tem que ter alguém da comunidade aí na mesa”. Aí foi criada a comissão paritária.

    JÁ – O que que é essa comissão paritária?

    Felisberto – Ela coordenava o processo. Eram oito, quatro do governo e quatro da comunidade. Se reuniam, faziam a pauta e coordenavam as reuniões.

    Mas isso era uma primeira parte de todo o processo. Porque não basta demandar, tem que estabelecer uma relação, para acompanhar a execução orçamentária, determinar o início da obra, não só a critério do governo.

    Na sequência, em 2002, foi criada a comissão de receita e despesa. Foi o avanço possível na época. A minha proposta era mais ousada, era ter um membro do OP na junta financeira, acompanhando as decisões. Não conseguimos, nem lá e muito menos agora?

    JÁ – E as discussões sobre o Plano Diretor?

    Felisberto – Pois, é… Nesse período, começaram as discussões sobre o Plano Diretor e eu comecei a participar. O secretário era o Newton Burmeister, foi constituída uma coordenação e começamos a fazer o Plano Diretor que foi aprovado em 99, já no governo do Raul Pont.

    Como eu era muito envolvido nas ocupações, e questões de  regularização fundiária, fui eleito vice-presidente do Conselho Municipal.  

    Além de estar no OP, eu também participava do PMDUA, eu era delegado pela região 1 de planejamento, que abrange o Centro. Hoje eu sou conselheiro.

    JÁ – Estás no conselho desde quando?

    Felisberto – Eu fui eleito em 2018 e reeleito naquela votação maravilhosa lá em janeiro de 2024, com mais de 1.500 pessoas lá na Câmara, com 941 votos.

    JÁ – Foi surpreendente aquela eleição, não?

    Felisberto – Até hoje é uma coisa que não tenho ainda bem elaborada. Imagina as pessoas ficarem num sol, num verão, nas férias, até meia-noite, para votar numa eleição que não era obrigatória. Foi uma vitória contra a especulação imobiliária.

    JÁ – Mas o novo Plano Diretor que está em votação na Câmara… .

    Felisberto – Claro, o plano é deles, eles têm maioria. Nós vencemos numa região. Em outras regiões a gente não conseguiu vencer.  

    JÁ – Esse projeto que está na Câmara vai ser aprovado?

    Felisberto – A tendência é aprovar. Infelizmente…  Não sem luta, né?  

    JÁ – Qual é o ponto mais crítico nesse plano?

    Felisberto – A falta de participação e transparência do plano, para que as comunidades tenham noção do impacto que as mudanças propostas no plano vão ter na região onde elas moram.

    JÁ – A comunidade não tem noção do impacto na vida dela?

    Felisberto – Não, não tem mesmo a noção. A gente nota isso nos bairros, nas reuniões. Hoje há um poder de sedução do capital, fazem as grandes obras e oferecem alguma contrapartida. E as pessoas se deixam seduzir pela contrapartida. Por exemplo: precisa melhorar uma creche. A prefeitura diz que não tem como fazer e aí usa o recurso da contrapartida para fazer. Então, é uma obrigação do governo que o governo não faz, vai buscar o dinheiro do empresário, e dá em troca uma vantagem. O projeto é viabilizado com essa lógica.

    JÁ – Falta discussão sobre essas questões, é isso?

    Felisberto – A coisa mais crítica que eu vejo no processo é a falta de discussão das estratégias da cidade. Não há uma discussão com a sociedade. Que cidade a gente quer? Nós temos 700 comunidades vivendo em áreas irregulares, ocupações, invasões, loteamentos clandestinos… Se fizéssemos uma operação urbana consorciada, como foi feito em Fortaleza, seria uma revolução.

    JÁ – O que que significa essa regularização? Qual é o tamanho do problema?

    Felisberto – Um exemplo é o Jardim das Estrelas, essa comunidade na Estrada Cristiano Fischer. Até hoje ela não tem a regularização. Tem a infraestrutura conquistada pelo OP, porque tinha liderança que brigava e conseguiu levar as melhorias. Mas a regularização da área eles não têm, ninguém tem matrícula individualizada.

    Na maioria das comunidades não há sequer o mínimo de urbanização. Se estimular essa regularização e serviços urbanos, isso vai gerar trabalho e renda na própria comunidade, pois com o título do terreno, o morador consegue financiamento para construir uma casa ou reformar a que já tem. Em muitos casos, já tem a mão de obra ali mesmo na comunidade…

    JÁ – Estimularia uma economia local…

    Felisberto – Sim, hoje a construção civil da cidade traz mão de obra de fora. Se fizer uma pesquisa hoje, grande parte da mão de obra nos grandes projetos vem de fora, do Norte e do Nordeste. Tem muito baiano, carioca. Essa reforma do viaduto Otávio Rocha, na Borges de Medeiros… a empresa é de São Paulo, trouxe toda a mão de obra de lá, nordestinos que vivem lá. Noutras obras é a mesma coisa. Então, há uma falsa ideia de que a construção civil emprega as pessoas da cidade.

    JÁ – A cidade sabe disso?

    Felisberto – O que determina é o interesse do capital, não o interesse da cidade… Sempre, infelizmente, o interesse privado em detrimento do público. A prefeitura governa para o privado. Ou melhor, com o privado. Porque a maioria das pessoas que ocupam cargos na prefeitura são ligadas a empresas. O ex-secretário de Parcerias Estratégicas, Bruno Vanuzzi, saiu da prefeitura e foi trabalhar no Golden Lake, da Multiplan. Agora, voltou para o poder público como diretor do Dmae, com a “missão de fazer a concessão à iniciativa privada”. Pode? 

    JÁ – É uma privatização do serviço público?

    Felisberto – Não se valoriza mais o servidor, aquele de carreira, que teria a memória dos processos. Veja a concessão da usina do Gasômetro: não visa o interesse público, mas o interesse privado. Essa lógica tomou conta da cidade.

    Há 35 anos na luta comunitária, Felisberto Luisi aponta que um terço da população da cidade vive em áreas irregulares.

    JÁ – Um dos maiores projetos da prefeitura é essa “Operação Urbana Consorciada Regenera Dilúvio”, ao longo da avenida Ipiranga… como ele se insere aí?

    Felisberto – Eles gostam dessa palavra regenerar… revitalizar… para quem? Essa operação grandiosa da Ipiranga, começa com dinheiro público. Mais de R$  200 milhões, empréstimo do BNDES, para limpar o riacho. Aí, aqueles que já compraram os melhores terrenos ganham incentivos para construir condomínios e grandes torres sem restrições ou limites. Ao longo da avenida plantam-se algumas árvores e faz-se uma ciclovia, como contrapartida. É isso, hoje a gerência dos grandes espaços públicos está sob controle privado.

    JÁ – O prefeito Sebastião Melo tem uma sólida maioria que aprova todos os seus projetos…

    Felisberto – Essa maioria esmagadora que ele tem na Câmara, foi construída através de emendas e de indicação de CCs…

    JÁ – A questão central do Plano Diretor que está na Câmara é o adensamento – mais gente no mesmo espaço?

    Felisberto – Há questões essenciais aí. Primeiro, é a falta de infraestrutura. Segundo, é a descaracterização dos bairros e da paisagem urbana. Daqui a dez anos não veremos mais os morros que contornam Porto Alegre. Há uma descaracterização da cidade, como algo diferente das outras.  

    JÁ – O adensamento é justificado como possibilidade para o trabalhador morar no Centro…

    Felisberto – Os pobres vão vir morar no Centro? Isso é uma mentira, uma conversa. As pessoas já moram na periferia em situações que precisam ser regularizadas. Por isso digo que seria revolucionário se tivéssemos um prefeito que tivesse a capacidade de ter essa visão. Vamos melhorar o que já tem.

    JÁ – Se você fosse prefeito, tivesse a caneta, faria o quê?

    Felisberto – Primeiro ia regularizar as 700 comunidades que precisam ser regularizadas. Isso geraria trabalho, renda e melhorias para mais de 500 mil pessoas.

    JÁ – É tanta gente assim?

    Felisberto – É, quase meio milhão de pessoas, mais de um terço da população de Porto Alegre, quase 40%, que vivem  em situação irregular, ilegal na verdade.

    JÁ – Que universo é esse?  

    Felisberto – Envolve desde situações relativamente sustentáveis até as situações dramáticas, como comunidades que esperam há mais de 30 anos pela regularização.

    JÁ – Mas a prefeitura anuncia entrega de títulos…

    Felisberto – Não adianta dar título se não urbaniza. É simplesmente a garantia para a pessoa. E a maioria vai vender. As pessoas estão de tal maneira espremidas pela necessidade que aceitam qualquer coisa.

    Por exemplo, tem uma série de estudos sobre as mudanças climáticas, dizendo que a cidade está sujeita a ilhas de calor,  enchentes… E o que se faz na cidade é o oposto do que deveria ser feito levando em conta essa realidade. O centro de Porto Alegre, por exemplo, foi todo lajotado. A temperatura deve chegar a 50 graus ali, nos dias mais quentes. O Paulo Brack mediu ali no Harmonia onde retiraram as árvores, deu mais de 45 graus.

    O prefeito captou quase 7 bilhões de financiamento para aplicar em obras de reconstrução, melhorias e revitalização da cidade. Vai ver as obras, são aquelas em que os empresários têm interesse. Vi o representante do Sinduscon dentro do plenário da Câmara, negociando com vereadores. Muitos vereadores não sabem nem o que é o plano diretor e a lei de uso e ocupação do solo. Separaram o plano diretor da lei de uso e parcelamento do solo. Por que  separaram?

    Agora, onde é o Teatro do Pôr-do-Sol, querem fazer um centro de eventos, uma marina – agora se diz Orla 2.. É tudo mega ideias, tudo com dinheiro público. Financiado pelo BNDES, pelo BRDE… Aí é maravilhoso. Além disso, o Estado se endivida para privilegiar os interesses privados, não o interesse público. Não há melhoria das vilas, como eu disse. Hoje é um débito da prefeitura com as emendas do OP de mais de R$ 1 bilhão.

    JÁ – O que acontece que essas informações não chegam à população?

    Felisberto – São muitos fatores. Um deles é que a população está tão premida pela necessidade que se preocupa em sobreviver, certo? Ela não vai se preocupar. Plano de emergência não é uma coisa que afeta ela, vamos dizer, diretamente, mas afeta, mas ela não percebe. Se percebe, não é um problema imediato na vida dela. Então acabam deixando de lado.

    A população, ela não consegue perceber com a linguagem técnica, não é acessível para ela entender. Então, eu acho que isso é um grande problema.

    E os meios de comunicação também, não é?

    JÁ – Qual é a situação do OP hoje?

    Felisberto – Hoje o recurso direcionado para o OP é de R$ 20 milhões. Desse total, 16 ou 17 milhões vão para as regiões do orçamento participativo, que são 17. Vai um milhão para cada uma, mais ou menos. E o restante vai para as temáticas que são seis, em torno de 500 ou 600 mil para cada. Parece que neste ano serão R$ 25 milhões. Eu sou de uma época em que o OP tinha R$ 500 milhões nos valores de hoje.  

    JÁ – O OP perdeu as suas características e representatividade

    Felisberto – É o que já falei: os conselheiros estão tão premidos que se contentam com qualquer coisa.

    JÁ – Quando conheceste o prefeito Sebastião Melo?

    Felisberto – Melo chegou em Porto Alegre, em 1977 ou 78, foi trabalhar numa lancheria, ali na avenida Borges de Medeiros, como chapista, e morava em cima. Ele diz também que foi carregador de caixas no Ceasa… Claro, ele tem mérito, tornou-se advogado, fez nome, entrou na política, era da esquerda do MDB. O que lamento é um cara que condecorou o Che Guevara, quando era presidente da Câmara, trabalhar hoje para a direita, para dizer o mínimo.

    Ele subia numa caixa, na Esquina Democrática, junto com o José Fogaça, em atos contra a ditadura, sabe? E outros defendendo, sabe? Hoje é um cara aliado com a extrema direita. Essa transformação, ou essa adaptação, me decepciona, porque eu era amigo dele. Ainda tenho amizade com ele, mas me afastei dele.

    JÁ – Ele é o grande defensor do tal adensamento, quer dobrar o número de moradores no Centro Histórico, para aproveitar a infraestrutura.

    Felisberto –Eu bato de frente contra isso. Porque não existe um estudo sobre isso, não há mínima avaliação do que a infraestrutura da região central pode suportar. Quero que me provem. Eu acompanho isso há muito tempo, nunca vi um estudo que diga: “Tem infraestrutura ociosa, rede de esgoto, água, telefonia”. Nessa reforma do Viaduto Otávio Rocha, tiveram que refazer todas as canalizações, estava tudo entupido, sucateado. E mais: vai ter posto de saúde, vai ter escola, creche, transporte para essa população?

    O prefeito se gaba de conhecer a cidade melhor que muito porto-alegrense. Ele não conhece o centro, não conhece a história da cidade, não entende a alma da cidade.

    JÁ – As vilas, ele conhece?

    Felisberto – Não, nem as vilas ele conhece. Ele é um personagem, cumpre um papel. Ele vai lá porque o levam. Ele não conhece a história da cidade, nem do bairro que ele morou.

    JÁ – Qual é o bairro?

    Felisberto – Morava lá na zona sul. O mais grave de tudo não é a ousadia dele, é a omissão geral. Eu não sou técnico, não sou engenheiro, não sou urbanista. Sou um cidadão que tem uma visão de cidade e não se conforma com o que estão fazendo com ela.

  • Chefe do MP-RS: “Plano Diretor de Porto Alegre é mais voltado para construção que para prevenir enchentes”

    Chefe do MP-RS: “Plano Diretor de Porto Alegre é mais voltado para construção que para prevenir enchentes”

    O projeto do novo Plano Diretor de Porto Alegre, que tramita há mais de ano e está em fase final de votação na Câmara Municipal, tem indicativos de aprovação, pela força da maioria que o prefeito Sebastião Melo tem no legislativo.

    Já, estudos do Ministério Público apontam “falhas jurídicas” no processo, que podem levar à judicialização do projeto, depois de aprovado pelos vereadores.   

    “Estamos ajudando os municípios a construir planos diretores que se adaptem às exigências do Estatuto da Cidade, e Porto Alegre não está fazendo e não fez. Nós vamos ter que achar formas de trazer essas políticas de proteção para cá. Não adianta investir em políticas se o plano diretor de Porto Alegre é mais voltado para a construção do que para a prevenção e proteção de enchentes”, disse Alexandre Saltz, chefe do Ministério Público no Rio Grande do Sul, dirigindo-se ao procurador-geral de Porto Alegre, Jhonny Prado.

    A declaração foi feita no dia 1 de abril, no evento Tá Na Mesa, na Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande Sul (Federasul). Não aparece no resumo que a assessoria de imprensa fez de sua palestra e não mereceu destaque na imprensa.

    A afirmação de Alexandre Saltz acabou reproduzida nesta segunda-feira, 20 de abril, na coluna da jornalista Rosane de Oliveira, em GZH. O texto fala das divergências entre o Executivo Municipal, defensor do projeto, e o MP, e expõe o risco de judicialização.

    A fala de Saltz é a mais contundente manifestação de que as “falhas jurídicas” apontadas pelo Ministério Público vão mesmo levar o Plano Diretor à Justiça, depois de aprovado. “Não faltou disposição para o diálogo”, ressaltou Saltz.

    A pedido de vereadores da oposição, o também promotor Cláudio Ari Mello, coordenador do Centro de Apoio Operacional de Defesa da Ordem Urbanística e Questões Fundiárias, foi ao plenário da Câmara em março para apresentar estudos que apontam possíveis ilegalidades e inconstitucionalidades na proposta do Plano Diretor da prefeitura. “A minha preocupação central é de que o texto como está contém tantas incompatibilidades com o direito urbanístico federal, sobretudo com o Estatuto da Cidade, e com a lei de desenvolvimento urbano de Porto Alegre, que a judicialização vai ser inevitável”, alertou o promotor.

    Deveria ser uma revisão do Plano Diretor da capital gaúcha, mas é um novo plano, feito com apoio e influência dos grandes grupos da construção civil e do mercado imobiliário, priorizando o “adensamento” (mais prédios, mais altos, menos distanciamentos) das áreas mais urbanizadas, ou seja, dos principais bairros e do Centro da cidade, região fortemente atingida pela enchente de 2024.

    O prefeito considera que o MP está exorbitando de suas prerrogativas em desrespeito às competências dos vereadores e espera a votação final pra assinar e validar o novo Plano Diretor.