Autor: Análise & Opinião

  • DÉCIO GUIMARÃES/ Saudades do Brasil

    Mudei eu, ou mudou tudo, de uma hora para outra, e não me avisaram?. Só assim se explica esta nova versão do brasileiro e do país que chamamos Brasil.

    Por estes caminhos e descaminhos da vida, sofremos e ficamos abalados com o surgimento da pandemia.
    Que devastou o mundo, e tocou fogo na cozinha e nos quartos de todos nós. Deixou-nos desamparados, e sentados à beira do caminho, como diz a música do
    inesquecível mestre Erasmo Carlos.
    Estamos ainda apagando incêndios, e procurando entender o que se passou, e quais são as sequelas e ensinamentos que nos deixou o Coronavírus.
    Houve uma mudança brusca na vida do brasileiro, trocamos abruptamente de rotina, e do modo como víamos o Mundo.
    Nossa interação com o Planeta, e com seus habitantes e o meio ambiente, também, sofreram interrupções.
    Acrescente-se a tudo isso às eleições presidenciais, e a forma como reagiram as partes envolvidas.
    No meio da realidade que grita por mudanças, e persegue um novo caminho, encontramos pessoas e organizações que têm dificuldade em aceitar o resultado do pleito.
    Dia após dia, desde o encerramento das urnas, pessoas e organizações resolveram abrigar-se em frente aos quarteis e assemelhados, numa forma de protestar, e dizer que era preciso outra solução, armada, para que não se promovam mudanças “que retiram a liberdade e são contra a Família.”
    Ignoram eles que houve eleição, onde foram escolhidos e aprovados nomes, de maneira incontestável, portanto, não é mais possível voltar atrás e dar outro veredicto.

    Mas o que mais impressiona a nós outros, que não frequentamos quarteis e nem fazemos barricadas, é o desapego à Democracia e seus valores intrínsecos, que
    demonstram os seguidores do candidato derrotado.
    Segundo o ex-Primeiro Ministro Winston Churchill ‘“A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que foram tentadas.”
    Então, o momento que se segue é o de obedecer ao rito normal de país democrático, que é visto pelo Mundo como um parceiro a ser admitido no concerto das nações.
    A alternância do poder e a mudança, via transição, de governo para o outro, devem servir de modelo a ser ensinado nas escolas e obedecido por todos os cidadãos.
    A forma com está sendo conduzida a transição, coloca em xeque as opções acima referidas, pois numa atitude negacionista e revanchista, somos mantidos em um estado de tensão, o que nos obriga a chamar às falas os dirigentes de fim de mandato.
    Passado mais de mês do fechamento das urnas, e da divulgação do resultado, era natural que se obedecesse ao rito normal da sucessão.
    Como ainda não foi superado o evento eleitoral, é preciso trazer à baila uma reflexão episódios marcantes da história, que muito bem podem servir de exemplo para as
    gerações vindouras.
    Ou, como afirma o jornalista Charles W. Brow, num recente artigo na Folha de S.Paulo, “A democracia está sendo salva pela pura força de vontade de pessoas que estão escalando uma montanha que nunca deveria ter sido colocada diante delas“.
    Desde do advento da democracia em nosso país, depois de 1964, os períodos eleitorais sempre sofreram percalços, e deixaram um rastro de discórdia.
    O que se viu em 2022, na eleição presidencial, com candidaturas bastante heterodoxas, conflitantes e de matizes bem delineadas, não deveriam trazer nenhuma surpresa. Mas não foi o que aconteceu.
    E o Brasil como fica, diante desta situação?
    É preciso relembrar que temos instituições sólidas, pessoas de bom senso em lugares estratégicos, e um país de fazer inveja.
    Sim, temos manguezais, praias, somo produtores de alimentos, fazemos carnavais e festas regionais.
    Temos, também, pessoas famintas, favelas e pessoas morrendo de covid, além de uma dívida social impagável.
    No entanto, somos incensados em todos os lugares que andamos, seja pelo futebol-arte, seja pela música atemporal, ou pela resiliência em ressignificar as vontades do povo, pelos exemplos de solidariedade e compaixão.

    Muitos deles foram, exemplarmente, mencionados durante a pandemia, como o pedido de socorro no Amazonas, ou pelo histórico da vacinação ordeira e pacífica, e, por último, mas não menos importante, eleições livres e limpas.

    Mas que Diabo aconteceu com as pessoas que, ao contrário dos demais, insistem e vocalizam falsas promessas, clichês de um politica equivocada, pedindo à volta dos militares, e clamando por um processo que se mostrou equivocado ao longo da história.
    Ser de direita, também, requer obediência ao rito democráticos, ganhar ou perder é do jogo eleitoral, mas ficar se lamentando em porta de quartel, ultrapassa todos os limites da consciência cidadã.
    Volte Brasil a ser o que você sempre foi, não ao passado de triste memória, ele só servirá para relembrar o que não deveríamos repetir.
    Volta Brasil, sinto saudade!

    *Décio Guimarães é advogado e poeta

  • MÁRCIA TURCATO/ Uma armadilha do golpe de 2016

    Por Márcia Turcato*

    Manter a lei de responsabilidade das estatais tal como foi sancionada em 2016 é dar sobrevida ao golpe de Michel Temer contra a presidenta Dilma Rousseff e o estado democrático de direito.

    A lei é, basicamente, o resultado de negociação entre PSDB e MDB, de autoria do senador Tasso Jereissati (PSDB/CE), e tem o objetivo de resguardar espaço para esses dois partidos nos altos cargos das estatais.

    Os dois partidos, afastados há muito da liderança dos grandes centros de negociação política e, por isso mesmo, sem chances de ocupar a gestão de estatais, fizeram uma espécie de reserva técnica para si mesmos.

    É praticamente impossível que uma grande liderança política, com destaque em várias áreas de atuação da vida pública, viva três anos sem participar de eleições. A exigência da lei de 36 meses de vida anônima é absurda, só favorece pessoas sem vida pública conhecida e que podem servir de fantoche para espertalhões da política.

    Essa lei é apenas uma das incongruências do cenário de insensatez que o Brasil experimenta desde o golpe de 2016 e que contou com a conivência do Congresso e do Judiciário.

    O mesmo Judiciário para o qual agora batemos palmas por ter saído do estado letárgico. Essa letargia permitiu a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, que construiu uma fantástica estratégia de comunicação, baseada em informações falsas, e para a qual o TSE não estava preparado, não buscou se preparar e não se preocupou em enfrentar, apesar dos esforços da sociedade civil, em especial de entidades de jornalistas profissionais, em oferecer sugestões e mão-de-obra para o enfrentamento.

    Agora, às vésperas da posse do presidente Lula, vemos estarrecidos o Brasil ter 960 mil CACs (Caçadores, Atiradores e Colecionadores de Armas), quando eram 203 mil em 2018 e 4.900 registros mensais de armas de fogo. Hoje, são 37.400 registros ao mês.

    Atualmente, dois milhões de civis têm armas em casa, desde revólver a fuzis com mira telescópica e muita munição. É um exército, não institucional, e de pessoas armadas andando pelas ruas.

    A maioria tem autorização de posse e pode levar a arma para onde quiser, como fez a deputada bolsonarista Carla Zambelli e o ex-deputado Roberto Jefferson, também bolsonarista.

    O Brasil, que tem uma lei que regulamenta a compra, o registro e o porte de armas, deu milhares de passos atrás neste tema durante o governo Bolsonaro.

    A Lei 10.926, que disciplina o tema, foi sancionada por Lula em 23 de dezembro de 2003, em seu primeiro mandato. O principal escopo da matéria, de autoria do então senador Gerson Camata (PSDB/ES), é autorizar que apenas as Forças de Segurança tenham autorização para o porte de armas de fogo.

    Por ironia do destino, o senador, que também foi governador do Espírito Santo, foi assassinado com um tiro em 26 de dezembro de 2018.

    Nada é por acaso. Há uma rede de fatos interligados e que sustentam o arbítrio vivido pelo país desde o golpe de 2016. A estrutura do golpe precisa ser desconstruída e, para tanto, todas as armadilhas constitucionais enterradas ao longo do caminho, como minas de guerra, e que colocam em risco a democracia, precisam ser exumadas e sepultadas para sempre.

    *Jornalista, autora do livro ” Reportagem: da ditadura à pandemia”.

     

     

  • ELMAR BONES / João Borges de Souza (anotações para um perfil )

    O jornalista João Borges de Souza morreu no dia  de junho de 2022, aos 87 anos. Não se escreverá uma história do jornalismo no Rio Grande do Sul sem passar pela biografia dele.

    Jornalista de alto quilate numa geração de grandes talentos, João Souza ainda se sobressaia  por uma qualidade rara entre os jornalistas, sempre suscetíveis de personalismos: a capacidade de aglutinar e alcançar consensos.

    Um dos primeiros negros numa redação em Porto Alegre, integrou a lendária equipe da Última Hora, da rede de Samuel Wainer,  que mudou a maneira de fazer jornalismo  no Brasil dos anos 1960.

    Foi o primeiro a acompanhar o movimento sindical como repórter de A Hora e, depois, da Última Hora, onde cobriu greves históricas, como a dos ferroviários em Santa Maria, em 1958 – época em que os, então, chamados “movimentos paredistas” não mereciam mais que tímidas notas nos jornais.

    Quando a polícia empastelou a Última Hora, no golpe de 1964, e muitos tiveram que fugir, João se refugiou na Secretaria da Saúde, onde o amigo Tarso de Castro lhe havia arranjado um emprego na assessoria de imprensa.

    Quando o jornal voltou a circular com outro nome (Zero Hora) e outra orientação política (a favor dos militares), aquele grupo da redação da UH, sempre sob a liderança de João Aveline, se reconstituiu na redação da ZH e ele voltou. Seria repórter e depois editor de política.

    Foi nessa condição que o conheci na Folha da Manhã, em 1972. Tinha trinta e poucos anos, mas já era uma referência para jovens e veteranos. Não se tomava uma decisão importante na redação sem ouvir o “nego João”.  Nêgo, no caso era uma espécie de título nobiliárquico, algo como um xamã ou príncipe, que seu porte, sua elegância natural e suas palavras precisas referendavam.

    Apesar da filiação ao Partido Comunista, não fazia proselitismo e colocava acima de tudo a fidelidade aos fatos.

    Quando os editores da Folha da Manhã , num embalo de manchetes bem-sucedidas, acreditaram que haveria uma revolução no Chile, depois do assassinato de Allende, ele foi o único a sugerir um ponto de interrogação no título afirmativo, com o que poupou a redação de um vexame.

    Nessa época, elegeu-se presidente do Sindicato dos Jornalistas, rompendo uma longa tradição de peleguismo na representação dos profissionais de imprensa. Levantou a bandeira da dedicação exclusiva num tempo em  que grande parte dos jornalistas eram ao mesmo tempo funcionários públicos ou assessores.

    Vinculou o movimento dos jornalistas gaúchos à questão nacional das liberdades democráticas, em sintonia com o que acontecia em São Paulo sob a liderança de Audálio Dantas e resultou em importantes conquistas na constituição de 1988.

    Depois de tudo isso, perdi-o de vista até uma tarde em que nos reencontramos na Lancheria do Parque, ele já aposentado, havia completado 70 anos. Estava entusiasmado, trabalhando numa biografia do dr. Breno, o lendário Breno Caldas, do Correio do Povo, com a colega Núbia Silveira. O projeto não foi adiante, mas ele seguia animado com a ideia de escrever biografias como se fossem reportagens.  Fomos juntos levar ao presidente da Assembleia, Vieira da Cunha, o projeto para um perfil do ex-presidente João Goulart, uma lacuna inexplicávei na série de Perfis Parlamentares do legislativo gaúcho. Aceitamos o desafio de produzir em três meses o perfil político de Goulart. Teria que ser um trabalho em equipe. Ele  se incumbiu de compilar e analisar discursos de Jango quando deputado. Kenny Braga fez a pesquisa bibliográfica e o repórter Cleber Dioni colheu testemunhos de familiares, amigos e auxiliares próximos do ex-presidente.

    Resultado foi tal que fomos contratados para fazer o Perfil Parlamentar de Leonel Brizola, que havia morrido naquele ano, de 2004.

    Com ânimo juvenil ele e o repórter Cleber Dioni foram a campo, atrás dos testemunhos de família e amigos na região de Carazinho onde  nasceu e de onde saiu adolescente o Brizola.  Depois de entrevistas na cidade, restava ir ao cemitério a 40 quilômetros sob um vento gelado, no fim da tarde. “Não vale a pena”, sugeriu Dioni, já exausto. Ele lembrou da velha lição da Última Hora: “Sempre vale a pena ir no local”.

    Foram e encontraram um amigo de infância, colega da escola primária de Leonel Brizola, rezando e limpando o túmulo.

    Com o mesmo entusiasmo, no ano seguinte se meteu pelo interior do Uruguai em buscas dos vestígios de Bento Gonçalves, para uma reportagem biográfica do herói farroupilha, que talvez tenha sido seu último trabalho e permanece inédita.

     

     

     

     

     

  • VILSON ROMERO/Famélica Pátria verde-amarela

    Vilson Antonio Romero (*)

    O planeta Terra está faminto.

    A ONU denuncia que há 193 milhões de pessoas em 53 países em situação de insegurança alimentar aguda, ou seja, precisam de assistência urgente para sobreviver.

    E o Brasil não está fora deste famélico mapa mundi, como revela a Rede Penssan: 33 milhões de brasileiros passam fome, e mais da metade (58,7%) da população tem pouco ou quase nenhuma comida no prato.

    Como causas, além da pandemia, a crise econômica, o desemprego e a inflação impulsionando a favelização e a população em situação de rua. Os mais de 12 milhões de desempregados e de 5 milhões de desalentados (que desistiram de procurar trabalho) estão na ponta deste iceberg da fome.

    O número de favelas e palafitas nas médias e grandes cidades dobrou desde 2010, passando de 6.329 em 323 municípios para 13.151 em 743 cidades.

    A renda média domiciliar “per capita” caiu para R$ 1.353, menor nível desde 2012, segundo o IBGE. O FGV Social acrescenta que quase 11% dos brasileiros, mais de 23 milhões de pessoas, terminaram 2021 abaixo da linha da pobreza, com menos de R$ 7 ao dia.

    Com o preço do gás de cozinha nas alturas, os gravetos, os tocos de árvores e a lenha voltaram a ser fonte de energia nas casas e malocas, consumindo em 2021, 24 milhões de toneladas, o maior patamar desde 2009.

    Outro drama que salta aos olhos em cada esquina, semáforo, marquise ou viaduto é o aumento das “pessoas em situação de rua”, os “homeless”, o lumpesinato que o êxodo rural, a desocupação, a vagabundagem ou a drogadição empurra para as cidades

    Levantamento da UFMG aponta que só em 2022, mais de 26 mil pessoas foram morar nas ruas. Essa população saltou de 158 mil em 2021, para 185 mil em maio último, em contagem, inequivocamente, subavaliada, em todo o Brasil.

    As iniciativas voluntárias têm se revelado insuficientes para enfrentar essa tragédia, pois desde quando, nos anos 90, Herbert de Souza liderou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, apesar de as campanhas comunitárias continuarem, involuímos, como diagnostica a rede Penssan, pois as políticas públicas de combate à pobreza e à miséria que, entre 2004 e 2013, reduziram a fome a apenas 4,2% dos lares brasileiros, foram abandonadas.

    Os parlamentares e governantes que assumem em 2023 devem se comprometer com essa meta: comida no prato dos brasileiros.

    Como, na nona maior economia do mundo e no segundo maior exportador de alimentos, tem tanta gente passando fome? A calamidade do prato vazio está nas ruas. Alimentos para nossos irmãos!

    ……………………………..

    (*) jornalista, auditor fiscal aposentado, vice-presidente da Associação Riograndense de Imprensa e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Anfip)

     

    rea de anexos

  • VILSON ROMERO/ Dia da Imprensa e o protagonismo da ARI

    Vilson Antonio Romero (*)

    A história do Dia da Imprensa, comemorado em 1º. de junho, desde que, em 13 de setembro de 1999, o então presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei 9.831, nos traz rememorações da história iniciada em 1774, quando, em 13 de agosto, nasceu, na localidade de Colônia de Sacramento, hoje no Uruguai, o cidadão Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, aliás Hipólito da Costa.

    Pois a biografia de Hipólito foi esmiuçada e retratada pelo saudoso jornalista e pesquisador Raul Quevedo, pelotense de quatro costados, nos livros “Em nome da liberdade” e “Hipólito da Costa: Pioneiro da Independência do Brasil”, deixando muito escancarado o vanguardismo do fundador do Correio Braziliense.

    Aos 18 anos, depois de viver alguns anos em Pelotas, Hipólito foi cursar Direito, Filosofia e Letras na Universidade de Coimbra, em Portugal. Após passagens atribuladas nos Estados Unidos e também em terras lusas, exilou-se na Inglaterra, aonde passou, em 1º de junho de 1808, a publicar o Correio, com posicionamento bastante crítico à política praticada por Portugal no Brasil.

    Suas principais bandeiras, amplamente divulgadas nas edições com larga circulação cá em Pindorama, eram a independência, a abolição da escravatura e a interiorização da capital brasileira.

    Com essa retrospectiva, em 1º. de julho de 1996, a Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e o sindicato gaúcho dos jornalistas lançaram o Manifesto à Nação pugnando a alteração da data alusiva à imprensa, até então relacionada ao surgimento da Gazeta do Rio de Janeiro, em 10 de setembro, cuja circulação iniciou três após a do Correio Braziliense.

    Essa tese, por solicitação expressa da ARI, foi encampada pelo então deputado federal Nélson Marchezan, resultando no projeto de lei (PL) nº 3.559, publicado no Diário da Câmara dos Deputados em 2 de setembro de 1997, com apoio de diversos parlamentares federais da época, como Germano Rigotto, Valdeci Oliveira, Wilson Cignachi, Luis Roberto Ponte, Odacir Klein, Júlio Redecker, Yeda Crusius, Airton Dipp, Adroaldo Streck, Jair Soares, Paulo Ritzel, Fetter Junior e Carlos Cardinal.

    Pois esta proposta pluripartidária teve a acolhida dos congressistas, tendo sido aprovada pela Câmara em 1º. de dezembro de 1998 e pelo Senado em 3 de agosto de 1999 (sob número de PLC 60/98) e sancionada logo em seguida por FHC.

    Portanto, nossa saudação a Hipólito, ao Correio Braziliense (apesar de outro, mas ainda circulando na capital brasileira), à Associação Riograndense de Imprensa (ARI), protagonista desta mudança e à toda a imprensa brasileira, tão importante e fundamental nestes tempos turbulentos de radicalização e desinformação. Feliz Dia da Imprensa.

    (*) Vilson Romero, jornalista, vice-presidente da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

     

    VILSON ROMERO

  • MARCIA TURCATO/ A desinformação e o ataque às mulheres jornalistas

    Por Márcia Turcato*

    A máxima “informação é poder” foi atualizada para “desinformação é poder”.  A desinformação é uma estratégia global e concorre com a ética na informação. A desinformação integra o arcabouço das convicções ideológicas e para combatê-la um importante passo a ser dado é deixar de chamá-la de fake news. Uma notícia, por definição, não é falsa, ela foi apurada com ética por um/uma jornalista profissional. Falsas são as narrativas publicadas em portais que, embora pareçam ser sítios de notícia, publicam conteúdo sem responsabilidade social com o objetivo de prejudicar a capacidade de avaliação da audiência.

    Conhecidas como fake news, as versões distorcidas da informação se apropriam de algum traço da realidade de forma a conferir credibilidade às teses de grupos de ideologia indefensável.  A desinformação imita o jornalismo na forma, mas não nos procedimentos. São criados personagens e inventados fatos para construir mentiras estratégicas para que pareçam verídicas e ganhem impulso nas redes sociais e, com isso, conquistar a simpatia de cidadãos de boa fé.

    Em alguns casos, o discurso não é alterado, mas é feita edição das imagens, modificando a velocidade dos frames, ou o áudio da gravação, para que o protagonista aparente estar alterado e perca credibilidade junto a plateia. Essa é outra face da manipulação tecnológica que precisamos enfrentar.

    Embora já exista um esboço de controle, as redes sociais ainda são um mundo de penumbra, onde nem sempre é possível identificar autores e seus propagadores. É um espaço sem impressão digital. Não sabemos de fato quem está teclando e não há regras claras sobre o seu uso. No entanto, é preciso reconhecer a importância da comunicação digital na sociedade e a popularização, a baixo custo, da produção de conteúdo que ela proporciona.

    Nessa terra árida que é a web, as mulheres que exercem a profissão de jornalista são as maiores vítimas de ataques de toda a natureza. Em 2021, o relatório da Abraji- Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, identificou 1.270 agressões contra veículos de imprensa, sendo que em 91,3% dos casos o ataque foi contra mulheres jornalistas que haviam assinado os artigos publicados.

    O relatório da Abraji aponta uma tendência de misoginia, machismo e descalabro que cresceu a partir de 2018 com a chegada de Jair Bolsonaro à presidência da República. O ataque às jornalistas, e às mulheres de um modo geral, parece refletir uma tendência de comportamento coletivo que imita o perfil do chefe do Executivo federal.

    Diante desses fatos, é urgente a formação de um grupo temático que discuta o que é informação, identifique as estratégias de desinformação em circulação no Brasil, suas conexões no mundo da web, atue para encontrar caminhos que exponham essa rede global da desinformação como uma ferramenta de manipulação ideológica e crie mecanismos de proteção para os profissionais da imprensa. Para isso é fundamental discutir os temas relacionados a desinformação, regulação do uso das redes sociais, informação e poder, desinformação e governabilidade, informação e ética e deepweb (web profunda, que não pode ser acessada por mecanismos de buscas).

    *Jornalista profissional formada na UFRGS, autora do livro “Reportagem: da ditadura à pandemia”.

  • FRAGA/ Rosvita Saueressig, anotações para um perfil (2)

    Após 12 anos no mercado publicitário do Rio, mudei para SP em 1º/5/97.
    Uma mão na frente e outra atrás, tive uns dois anos difíceis: vivia de escassos frilas.

    Ao circular por eventos, encontrei a Rosvita num deles e daí resultaram algumas visitas à casa dela e do Nei. Ela estava no Valor Econômico e o Nei tinha seu restaurante em Vinhedo, na Grande SP. Esses encontros eram um porto seguro afetivo.

    Até que certa vez o cinto apertou e não tinha dinheiro nem para pagar a pensão da minha ex-mulher e os 3 filhos.

    Recorri à Rosvita e ela prontamente me deu um help. Prometi pagar quando as coisas melhorassem. E quando melhoraram, me tornei redator da Made Brasil, braço de design da W/Brasil.

    Procurei a Rosvita para saldar a dívida e ela, prontamente, recusou o dinheiro. E como era natal, sugeriu que eu comprasse mais presentes para a família.

    Contando assim, parece apenas mais um gesto solidário entre velhos amigos. Mas foi mais que isso, e a diferença estava na atitude afetuosa da Rosvita.

    Em seguida ela foi atuar no marketing de um cartão de crédito, trocamos alguns telefonemas, e acabei de volta aos pagos.

    Agora que a Rosvita se foi, poderia desfiar a baita admiração pela sua extraordinária capacidade jornalística e tantos outros méritos profissionais e pessoais dela, que todos reconhecem e podem relembrar.

    Mas nesse momento de perda e saudade prefiro destacar esse episódio humanitário. Rosvita sabia dar o melhor de si a todos com quem convivia, bem-humorada, atenta, sempre disposta e disponível. Uma fortaleza entre nós.

     

  • GERALDO HASSE / Respeito aos que vivem na pior

    A maioria das pessoas se enternece diante de um cão perdido, um gatinho faminto ou um pássaro ferido. Alguns se revoltam ao ver um cavalo magro puxando uma carroça pelas ruas. De uma forma ou de outra, todo mundo se dispõe a ajudar os animais perdidos ou explorados, mas não se vê a mesma disposição quando o perdido ou judiado é um ser humano.
    Com frequência se veem pessoas incomodadas ou até revoltadas com mendigos, pedintes, carentes ou catadores – todos mais ou menos confundidos com “vagabundos” ou identificados como “essa gente que não gosta de trabalhar”.
    Também cresce o número de pessoas que se dispõem a proteger árvores ou defender o verde, mas não dão refresco nem estendem a mão aos que, supostamente, “vivem encostados no Bolsa Família…”
    Quem já se defrontou com um flagelado (da fome, da seca ou das enchentes) sabe que uma pessoa nessa situação fica fora do eixo, abalada no seu equilíbrio, perdida e sem rumo.
    Antigamente havia até uma expressão – “abobado da enchente” – usada para definir pessoas perturbadas pela perda da casa, de utensílios domésticos ou de algum parente durante uma cheia. Às vezes a pessoa parecia lesada apenas por ter ficado sem dormir ou sem comer na noite em que as águas invadiram sua casa.
    A expressão caiu de uso, mas a situação se repete periodicamente nas chamadas zonas ribeirinhas ou nas encostas – áreas de baixo valor onde o povo acaba construindo suas moradas.
    Agora imagine-se alguém que durma na rua, passe frio, e não faça refeições regularmente, não tenha onde tomar banho e vestir uma roupa limpa antes de se acomodar num ambiente minimamente confortável para sorver, por exemplo, uma canja, a mínima comida de sal, e depois desfrutar de um sono reparador.
    Agora imagine-se o pobre flagelado (pela miséria) comendo um prato de arroz + feijão com bife a cavalo, batata fria, e a sobremesa sendo um quindim ou um camafeu feito em Pelotas, RS.
    Por isso são dignas de admiração e aplauso essas pessoas que toda noite saem pelas ruas e oferecem sopa aos famintos espalhados pelos viadutos e marquises. É o mínimo de humanismo para seres degringolados.
    É claro que não basta o prato de comida, como também não resolvem a esmola, as campanhas do agasalho. É preciso dar o passo seguinte, encaminhá-los, pobres carentes, aos serviços públicos capazes de lhes oferecer a ajuda mínima para que recuperem a estima e, a seguir, consigam a mínima inserção na sociedade e na economia.
    Nesse aspecto, o Bolsa Família é o primeiro degrau da porta que leva à redenção do cidadão degradado não importa por que motivo. É degrau porque exige que as famílias mantenham os filhos na escola – a porta capaz de levar a um mundo novo, longe da miséria.
    A relação custo/benefício do Bolsa Família precisa ser reconsiderada pelos críticos dos programas de inserção social dos caídos do caminhão da economia. O custo do BF representa menos de 10% do que o Tesouro Nacional paga de juros da dívida pública, na qual estão pendurados miles de investidores de países ricos.
    Que cada um pense nisso ao ver um perdido na noite dormindo na rua nesse último inverno do mentecapto no Planalto.
    ORAÇÃO DO DIA
    “Senhor, dai pão a quem tem fome/e fome de justiça a quem tem pão”
  • BENEDITO TADEU CÉSAR / Sem alarmismo, mas com força. Não ao golpe!

    Benedito Tadeu César*

    Setores bolsonaristas atacam cada vez mais o sistema eleitoral e os democratas o defendem enfaticamente. Seria possível pensar na possibilidade de estarmos sendo manipulados para defender as urnas eletrônicas e o processo de apuração enquanto os próprios bolsonaristas se preparam para atacá-los de fato, com o objetivo de alterar o resultado eleitoral em favor de Bolsonaro? Se isso acontecesse, nós ficaríamos sem argumentos para discordar do resultado.

    Que fique claro: não existe sistema eletrônico que seja infalível e inviolável. Fosse assim, não existiriam tantas empresas de segurança eletrônica e nem seriam contratados tantos hackers para testar os sistemas de proteção existentes nas instituições financeiras, militares etc. em todo o mundo.

    Esta pode parecer uma hipótese paranoica, mas quando começaram o processo do impeachment da Presidente Dilma Rousseff e o processo contra o ex-Presidente Lula da Silva, pouquíssimos analistas e/ou militantes acreditavam que Dilma seria derrubada e, menos ainda, que Lula pudesse ser preso. Achávamos que o apoio popular a Dilma e principalmente a Lula seriam suficientes para impedir qualquer golpe e, principalmente, para impedir a prisão de Lula. A todos, parecia loucura alguém sequer tentar prender Lula.

    Desta vez, estejamos alertas.

    Isto significa a possibilidade de estarmos encurralados? Não devemos mais defender as urnas eletrônicas e o processo eletrônico de apuração dos votos? Claro que não, a Justiça Eleitoral e o processo eleitoral eletrônico devem ser preservados e defendidos. O que precisamos, além disto e com urgência, é construir uma forte barreira democrática na sociedade civil, capaz de resistir a qualquer tentativa de golpe.

    A força desta barreira dependerá de sua amplitude e enraizamento na sociedade brasileira: todos os setores e instituições da sociedade civil e do Estado democrático, inclusive ex-bolsonaristas, a OAB, a ABI, as organizações religiosas, as centrais sindicais e os sindicatos de trabalhadores, as associações empresariais de todos os setores e níveis, as diversas instâncias da Justiça e do Ministério Público, os partidos políticos e a imprensa de todas as formas e meios precisam ser mobilizados e instados a se manifestarem fortemente contra qualquer tipo de golpe.

    É preciso constituir uma frente tão ampla quanto for possível em defesa da democracia, que reúna todos os candidatos democráticos e seus eleitores no repúdio a qualquer tipo de golpe. Precisamos reunir lulopetistas, ciropedetistas, dória-ou-eduardopeessedebistas, tebetemedebistas, janoneavantistas, dávilanovistas, leonardoupistas e os demais que houver verapessetuistas e todos os demais “istas” do campo democrático.

    Os setores bolsonaristas das forças armadas e da sociedade civil precisam ser fortemente alertados de que eles estarão isolados se tentarem desencadear qualquer tipo de golpe, seja ele eletrônico ou armado. A união dos democratas de todos os matizes é o caminho hoje para garantir a democracia.

    * Cientista político, professor da UFRGS (aposentado) e ex-professor da UFES, integrante da coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito

  • VILSON ROMERO/ Imprensa livre

    Vilson Antonio Romero (*)

    Em 3 de maio, comemora-se no Brasil, o Dia do Parlamento, instituído por lei de 1975, saudando a instalação da primeira Assembleia Constituinte e a criação do Poder Legislativo em território nacional.

    O calendário também assinala a data como o Dia do Sertanejo, Dia do Pau-Brasil, Dia do Sol e, não menos importante, o nascimento do florentino Nicolau Maquiavel, em 1469, entre outros registros.

    Mas, para nós, profissionais da comunicação social, a maior referência do 3 de maio é a celebração do “World Freedom Day”, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

    A comemoração instituída em 20 de dezembro de 1993 pela Assembleia Geral das Nações Unidas celebra o Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Declaração de Windhoek.

    Dois anos antes, em maio de 1991, a Unesco realizou uma conferência em Windhoek, na Namíbia, que encerrou com a Declaração para o Desenvolvimento de uma Imprensa Livre, Independente e Pluralista.

    Esse manifesto sublinhou, entre outras coisas, que "a criação, manutenção e promoção de uma imprensa independente, pluralista e livre é essencial para o desenvolvimento e manutenção da democracia numa nação, e para o desenvolvimento económico".

    Apesar de, anualmente, a data ser saudada em todos os cantos do mundo livre e democrático, os profissionais e veículos de comunicação social seguem sofrendo todo o tipo de atentado ao redor do planeta.

    A ONG Repórteres Sem Fronteiras (Reporters sans Frontiéres), com sede em Paris, já denuncia, em seu barômetro da liberdade de imprensa, a morte de 23 jornalistas, somente em 2022.

    A Inter American Press Association (SIP) encerrou sua reunião semestral em abril, na Flórida, EUA, denunciando um aumento das ocorrências de agressões, prisões e exílio forçado de jornalistas nas Américas, além de ataques à mídia, assédio judicial, estigmatização e um saldo de 15 assassinatos de jornalistas.

    Neste início de maio, a Unesco e o governo uruguaio realizam em Punta Del Este uma conferência para a celebração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, com o tema “Jornalismo sob cerco digital”.

    O encontro abordará o chamado autoritarismo digital, que ocorre quando há controle governamental das informações via ferramentas digitais, de modo a atrapalhar o trabalho jornalístico e colocar em risco repórteres e defensores de direitos humanos.

    Dentro de uma perspectiva muito próxima aos brasileiros, também devem analisar as formas pelas quais o autoritarismo digital pode comprometer eleições, justificar guerras, além de reprimir e desorientar os cidadãos.

    O mundo digital abriu janelas de oportunidade para o exercício da liberdade de imprensa, da ampliação do jornalismo investigativo, mas escancarou a porta de entrada para as ameaças e ataques virtuais, intensificados na última década.

    São fatores importantes a serem objeto de muito reflexão por parte de profissionais da área, na busca de condições plenas de trabalho. Que o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa impulsione um pouco mais as garantias do ato de bem informar à sociedade.
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    (*) jornalista, vice-presidente da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) emembro da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)