A solidão no poder: Lula contra todos os partidos

Paulo Baía *

O Brasil político de agora é uma máquina de fingimentos. Lula, no centro da engrenagem, governa com ministros que representam partidos que, na prática, não o apoiam. Ocupam espaços no Executivo, circulam com a liturgia do poder, mas no Congresso Nacional agem como sabotadores discretos. A base que o sustenta é a mesma que o solapa. A coalizão formal não passa de um corpo sem nervos, sem alma, sem fidelidade. É uma dança sem música entre o presidente e forças que não querem dançar, só arrancar concessões.

Essa encenação diz muito mais do que parece. Trata-se de uma forma de dominação que opera por dentro da institucionalidade, esvaziando-a de sentido. O presidencialismo de coalizão, antes pragmático, tornou-se um jogo de sequestro e resgate. O governante se vê obrigado a pagar resgates diários para manter o governo refém de pé. Ministérios são entregues como moeda de troca, mas não há entrega política em contrapartida. Há apenas o parasitismo elegante de quem finge governabilidade para manter as aparências enquanto o poder real escorre por entre os dedos.

Lula, nesse cenário, emerge como uma figura trágica: o político mais experimentado do país, com um vínculo afetivo profundo com os setores mais pobres da população, mas isolado no comando de um governo que é dele e não é. Um presidente que fala para o povo, mas é silenciado por um Parlamento que fala apenas para si. Ele carrega um mandato que lhe foi dado pelo voto, mas está cercado por forças que desconfiam do voto como expressão legítima da soberania popular. O Congresso atual é um espelho invertido da vontade coletiva: projeta um país que não existe e combate o país que existe.

Essa forma de operar o poder é mais do que cálculo. É uma cultura, uma prática social arraigada, uma antropologia do cinismo. Os partidos se tornaram agremiações negociantes, onde o conteúdo ideológico foi dissolvido na ambição por espaços. Não há aliança possível com projetos que desejam o colapso silencioso do próprio governo que integram. A política virou um mercado onde se vende estabilidade a preços exorbitantes e se entrega sabotagem com recibo institucional. A traição é sistemática, mas cuidadosamente protocolada.

O que torna essa situação ainda mais brutal é o fato de que não há exceções. Nenhum partido com representação no Congresso Nacional atua hoje com coerência em defesa do governo que ajudou a compor. Os que indicaram ministros estão mais interessados em benefícios orçamentários do que em apoiar efetivamente um programa de governo. Os que se dizem de centro apenas calculam seus ganhos em silêncio. E os que integram o Executivo se tornaram operadores do seu próprio projeto, divorciado da Presidência. Nenhum partido, de fato, se compromete com a travessia política de Lula. Todos, de maneira direta ou omissa, colaboram para a erosão de sua autoridade.

A resposta possível a esse estado de coisas seria a ruptura com o pacto podre. Não no sentido antidemocrático da ruptura institucional, mas na dimensão simbólica de abandonar a hipocrisia. Convocar o povo, não para protestos desesperados, mas para a construção de uma nova linguagem política. Uma linguagem que não aceite mais a conciliação como destino, mas que reivindique o conflito como terreno legítimo da transformação. Isso exigiria um gesto raro: renunciar à zona de conforto do governismo e encarar de frente a realidade brutal do país que se nega a mudar.

Há um poder novo que só emerge quando tudo parece perdido: o poder de quem não deve nada ao cinismo. Um presidente cercado por inimigos elegantes, que vestem a institucionalidade como disfarce, pode descobrir nesse cerco uma liberdade radical. A liberdade de nomear as coisas como são. A coragem de dizer ao povo que o governo está cercado por aqueles que se beneficiam do fracasso do país. Não se trata de heroísmo, mas de lucidez. A lucidez de quem compreende que a governabilidade que hoje se oferece ao Brasil é um pacto de mediocridade.

A corrosão da democracia brasileira não se dá apenas pelo autoritarismo explícito, mas pela captura do processo democrático por interesses privados. O Congresso se converteu numa federação de negócios, impermeável à dor social, alheio ao povo e devotado apenas à manutenção de seus próprios privilégios. Suas decisões raramente ecoam as urgências do país. É um poder que fala uma língua que ninguém mais entende, porque já não fala com ninguém.

Romper esse ciclo exige mais que força. Exige beleza, forma, narrativa. É preciso reencantar a política com um discurso que não tema a frontalidade. O Brasil precisa ouvir, com clareza, que está sendo governado contra si. E que há, sim, uma saída: não pelos atalhos do autoritarismo, mas pela reinvenção do poder como espaço de verdade. A verdade, nesse caso, é cruel, mas libertadora: o presidente está só. E justamente por isso pode ser mais livre do que nunca. Porque nada mais o prende aos ritos de uma aliança que nunca existiu.

O país está diante de um espelho. De um lado, a imagem oficial da institucionalidade, feita de siglas ocas e discursos calculados. Do outro, o reflexo cruel de um governo que tenta sobreviver num ambiente que o quer sangrar até o fim. Lula ainda é o único elo entre o povo real e a política possível. Mas esse elo está sendo testado, esticado até o limite. A história não perdoa aqueles que fingem que tudo está bem quando o mundo desmorona. Talvez tenha chegado a hora de não fingir mais. A solidão do poder pode ser, também, o início de sua purificação. E essa solidão, hoje, é absoluta: Lula está só diante de todos os partidos. E diante da história.

* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

Ricardo Chaves, Kadão: anotações para um perfil

“Morreu o Kadão”!

Estava num bar no Bom Fim com Jorge Polydoro, quando ele recebeu a notícia no celular. Minha memória disparou, vi o menino,  filho do Hamilton Chaves, na sede da Ecad no centro de Porto Alegre, em 1967.

Hamilton, jornalista, compositor, vereador, cassado em 64, estava empenhado, junto com Lupicínio Rodrigues, na valorização do trabalho dos músicos locais.

Tentavam organizar a sociedade arrecadadora de direitos autorais, que não tinha representação no Rio Grande do Sul. Lupicínio, na verdade, só emprestava o nome e o prestígio. Dinâmico, bem relacionado, cheio de ideias, Hamilton Chaves é que dava vida àquela pequena sala, alugada num edifício na rua da Praia.

Kadão teria 13 anos, ia encontrar o pai no final do expediente. Fui revê-lo dez anos depois,  já como fotógrafo profissional, na Coojornal. Trabalhava na Veja, mas era sócio da cooperativa e colaborador ligado à equipe de Assis Hoffmann.

Foi, quem sabe, o mais bem dotado herdeiro daquela tradição representada por Assis Hoffmann e que tinha raízes na Última Hora gaúcha, o mais original dos jornais da rede de Samuel Wainer.  O repórter e o fotógrafo formavam uma unidade empenhada em produzir uma reportagem.

O fotógrafo não era mais o retratista, que trazia uma imagem formal para “ilustrar” o texto do repórter. A fotografia tinha que trazer a informação complementar ou, às vezes, a mais importante, para passar ao leitor o que realmente havia acontecido.

O papel que, segundo Luiz Cláudio Cunha, Kadão teve no desvendamento do “sequestro dos uruguaios”, é exemplar desse novo papel dos fotógrafos na cobertura jornalística, naqueles anos remotos.

Na passagem pela Veja, em São Paulo, convivendo no dia-a-dia com os melhores fotojornalistas em atividade no país, Kadão consolidou sua vocação. Daí em diante, cresceu exponencialmente.

Outra característica daquele grupo, que em determinado momento se aglutinou na Coojornal, foi o espírito solidário, de generosidade, que o Kadão requintou.

Sempre lembro o caso do Arfio Mazzei, que morreu recentemente, fotógrafo respeitado. Estava perdido na vida, teve uma chance na fotografia do jornal A Platéia, de Livramento.  Não sabia nada, nem máquina tinha. Kadão recebeu-o, ministrou-lhe um treino intensivo e, se não me engano, ainda emprestou uma câmera.

Kadão morreu na sexta-feira, 4 de abril de 2025. Ainda está muito próximo para que possamos perceber toda a sua dimensão e seu devido lugar na história do fotojornalismo brasileiro. (Elmar Bones)

 

 

Por que o súbito interesse dos EUA na Groelândia?

Henrique Casanova

Donald Trump escandalizou o ambiente da geopolítica internacional quando declarou sua intenção de anexar a Groelândia. O Presidente norte-americano é conhecido como um excêntrico e a afirmação foi vista com certo humor por parte dos seus seguidores.

Analistas mais bem informados, porém, rapidamente ligaram a surpreendente fala com o fato de que a Groelândia tem solo rico em minérios relevantes na produção de energias alternativas.

A Groelândia, que é um território autônomo vinculado à Dinamarca, tem grandes reservas de minérios, alguns destes raros, necessários no desenvolvimento dos  carros elétricos. Importante lembrar que famosos bilionários do setor estão literalmente na cúpula do governo Trump. É esperado um boom de mineração naquele território para os próximos anos.

 

Tensões com China e Rússia

Com o progressivo recuo das geleiras, devido ao aquecimento global, as rotas marítimas do círculo polar ártico tornam-se cada vez mais navegáveis. O país com mais território nessa região é a Rússia, adversário histórico dos Estados Unidos, mas também a China (contra quem o Império norte-americano prevê uma guerra) tem o mar ártico como importante rota da sua pujante economia.

Restringir o acesso da China àquela região é a preocupação estratégico-militar dos Estados Unidos quando falam que anexar a Groelândia é uma questão de “segurança nacional”. A intenção é ampliar a presença militar naquele território (os EUA já possuem uma base militar ao Norte da ilha). Donald Trump, em reunião com o Secretário Geral da OTAN, Mark Rutte, semana passada, afirmou que controlar a Groelândia é do interesse da segurança de todo o bloco Ocidental.

O que pensa disso tudo o povo Groelandês?

Uma pesquisa realizada com a população nativa em janeiro deste ano mostra que 85% da população se opõe a fazer parte dos Estados Unidos. O grupo de pesquisa Verian, endossado por jornais locais e dinamarqueses, levantou ainda que foram apenas 6% os que responderam favoráveis, com 9% de indecisos.

Considerada a maior ilha do mundo, a Groelândia tem clima hostil, já que seu território está localizado nas altas e gélidas latitudes polares. Sua população concentra-se na costa Oeste e compõe cerca de 60 mil habitantes, a maioria da etnia esquimó “Inuíte”. Seu governo é autônomo, com parlamento próprio. O país tem sistema de saúde e ensino superior gratuitos.

Os Groelandeses cultivam distanciamento até mesmo com a Dinamarca, almejando sua completa independência enquanto país. Seu primeiro ministro, Mute Egede, é de etnia nativa e afirmou, neste 13 de março, que “é necessário endurecer a rejeição a Trump. As pessoas não podem continuar nos desrespeitando”.

 

 

 

 

 

 

Arfio Fontoura Mazzei: anotações para um perfil

1981. Precisávamos de um fotógrafo no jornal A Platéia, de Santana do Livramento.

Pedi uma indicação ao Danilo Ucha, meu sócio naquela empreitada insana.

Teria que ser um principiante porque o salário era exíguo. Estávamos tentando reabilitar um jornal falido.

Ninguém queria ir para o interior ganhando pouco.

Ucha apresentou uma alternativa: o Arfio Fontoura Mazzei, seu enteado, estava interessado na vaga. Tinha 27 anos, não sabia nada de fotografia, mas estava disposto a aprender.

Ricardo Chaves, o Kadão,  cuja generosidade é inexcedível, era fotógrafo da Veja em Porto Alegre e aceitou  acolher o candidato a fotógrafo em seu laboratório e passou-lhe os fundamentos do ofício, sem qualquer ônus.  Aplicado e meticuloso, em pouco tempo era um craque.

Um dos orgulhos que guardo é ter acreditado no “Alemão”.  A fotografia era sua vocação e ele soube honrá-la.

Deixou sua pegada no JÁ, no Jornal da Noite e na Zero Hora, entre outros.

Não sei se  seu acervo está organizado, nem se está preservado. Sei que tem valor, principalmente  no que tem de sensível  ao registrar a vida no campo e a natureza do pampa, hoje ameaçada.

Arfio Mazzei tinha 71 anos e faleceu nesta  terça-feira 14 de janeiro de 2025.

https://www.jornaldocomercio.com/geral/2025/01/1187176-fotografo-gaucho-arfio-mazzei-morre-aos-71-anos-em-porto-alegre.html

(Elmar Bones)

Semana Farroupilha: quando o marketing se apropria da História

A chamada “Revolução Farroupilha” tornou-se um caso exemplar de apropriação da história por interesses do presente, com graves prejuízos para o entendimento dos fatos históricos.

Foram quase dez anos de guerra – do dia 20 de setembro de 1835, com a tomada de Porto Alegre, até fevereiro de 1845, quando a paz foi assinada em Ponche Verde, no acampamento das tropas rebeldes, reduzidas a algumas centenas de homens, mal armados, já sem roupas para aguentar o inverno que se avizinhava.

Houve feitos heroicos e eventos memoráveis, sem dúvida.

No conjunto, foi uma aventura política mal sucedida. Começou como uma rebelião, desandou numa sedição, proclamando uma república, que nunca se instituiu, e terminou de forma melancólica, com acusações, brigas entre os líderes, e até assassinatos.

Em todo caso, foi a primeira experiência republicana no Brasil e, meio século depois, quando a luta pela República tornou-se um movimento nacional, foi inevitável o resgate dos farroupilhas, “heróis que se levantaram contra a opressão do regime imperial”.

Construiu-se, então, a lenda do “decênio heroico” e uma corrente de historiadores se dedicou a desentranhar as ações e as ideias “dos homens de 1835”.

Essa apropriação da história farroupilha para fins políticos e ideológicos, com graves prejuízos para a verdade histórica, se estendeu por todo o século XX, embora várias tentativas de revisão tenham sido feitas.

Sérgio da Costa Franco, que muito pesquisou e escreveu sobre os farrapos, disse numa entrevista*: “Toda a historiografia do ciclo farroupilha é marcada pela devoção reverencial, senão por sua apaixonada mitificação. Dessa fatal parcialidade provavelmente nunca se livrará a bibliografia histórica rio-grandense por mais revisões que se faça”.

Neste início de século 21, uma outra forma de apropriação se superpôs, no bojo de um modelo econômico que busca oportunidade de lucros no real e no imaginário. O apelo popular do “decênio heroico” despertou interesses comerciais e mercadológicos e o marketing identificou no gauchismo um “nicho de mercado”.

A apropriação da história para fins políticos já foi bem dissecada  por Yeda Guttfreind e outros historiadores. A leitura dos principais autores desse período levou o então sociólogo  Fernando Henrique Cardoso a concluir que “o gaúcho tinha uma autoimagem deformada”.

Sobre essa atual apropriação da história pelo marketing, pouco ou nada se estudou, ainda.  Mereceria porque, sem dúvida, é exemplar, embora não seja original.

De um lado tem-se o MTG, movimento tradicionalista com seus dois mil centros de tradições gaúchas no Estado, no Brasil e no exterior. O circuito de bailes e eventos se desenvolveu em torno dos CTGs, criando um mercado para músicos, produtores e outros profissionais, sustentado por um público urbano, nostálgico de suas raízes rurais, às vezes imaginárias.

O movimento tradicionalista nasceu em 1948, numa reação, de um lado, ao sufocamento das identidades regionais, promovido pela ditadura do Estado Novo e, de outro, à invasão cultural americana.

Paixão Cortes e Barbosa Lessa foram às fontes populares resgatar os cantos, as danças, a indumentária e as manifestações da cultura regional nas diversas comunidades do Rio Grande do Sul. Eles descobriram um rico e diversificado acervo, que por razões a serem buscadas, acabou reduzido ao “gaitaço galponeiro”, o “gritedo”, de que reclamava Luiz Carlos Borges, hoje elevado à expressão principal da dita “cultura gaúcha”.

Outro vetor desse processo é a televisão, especialmente o programa “Galpão Gaúcho”, da RBS TV, lançado em 1982, não por acaso um ano depois do primeiro Acampamento Farroupilha, em Porto Alegre, a cidade que na história real sempre rechaçou os farrapos.

Mesmo oscilando ao sabor da grade de programação da Rede Globo, o Galpão Crioulo, pelo grande alcance da RBS através de suas retransmissoras no interior, deu tração ao movimento tradicionalista, dele se alimentou e se alimenta.

Com o novo viés da RBS, de potencializar negócios, esse tradicionalismo, que é “uma doença infantil do gauchismo”,  se apresentou como um nicho perfeito: sela  a aliança com o “público gaúcho” e mobiliza os grandes anunciantes nacionais que querem falar  a esse “público gaúcho”.

O problema é que essa apropriação da história pelo marketing  não se faz sem danos. O marketing tende a simplificar para produzir mensagens sucintas e convincentes, mesmo a custa dos fatos.

É o que está acontecendo, em dose cavalar (sem trocadilho).

Basta dizer que fizeram do 20 de setembro o “Dia do Gaúcho”, em reverência aos heróis de 1835, homens de uma época em que chamar alguém de “gaúcho” era uma ofensa. (Elmar Bones)

 *República Riograndense”, Revista JÁ, 2016

 

Trabalhistas falam em reconstrução na Inglaterra

A vitória da esquerda na França e a volta do Partido Trabalhistas na Inglaterra são sinais de algo maior do que meros movimentos de opinião traduzidos em disputas partidárias.

Há um movimento profundo em toda a Europa de reação às políticas neo-liberais que com pequenos hiatos há meio século se impõe a todos os países e não só lá.

A Inglaterra, com Margareth Tatcher, foi um marco inicial desse processo, foi referência para sua difusão pelo mundo inteiro.

Hoje os ingleses conhecem a face cruel desse modelo.

Agora, os trabalhistas voltam ao poder com uma acachapante maioria (412 contra 121 dos conservadores) sob a liderança de Keir Starmer, de 52 anos.

Ele será primeiro ministro e sinaliza  uma mudança de rumo. Os analistas dizem que ele surpreendeu os céticos e reconstruiu o Partido Trabalhista “Agora ele deve fazer o mesmo pela Grã Bretanha”, disse um deles.

Andrew Rawnsley, do Observer, escreveu que “Sue Gray, chefe de gabinete de Keir, tem uma “lista de merda” que são as emergências que podem surgir já no inicio do governo, variando da falência de universidades  a uma crise total nas prisões”.

“A dívida do governo em relação à produção está no seu maior nível em 60 anos”.

“Os impostos como proporção do PIB estão caminhando para o nível mais alto desde 1948”.

“Ao mesmo tempo, serviços públicos críticos estão de joelhos ou no chão”.

Reconstruir é a palavra que os jornais já estão usando.

(Elmar Bones )

Roberto Müller: anotações para um perfil

Fiquei uma manhã em choque com a notícia da morte do Roberto Müller.

Sim, a morte dos velhos amigos é quase uma rotina para um octogenário, mas o Roberto Müller no meu imaginário era daquelas figuras arquetípicas que deviam ficar como referência para muitas gerações – no caso dele, para muitas gerações de profissionais que se dediquem a esse ofício de  “informar o que acontece”.

Levei um segundo choque ao ver que a dita imprensa, os veículos tradicionais do jornalismo, praticamente ignorou a morte de um profissional como ele,  que foi um baluarte dessa profissão, no que ela tem de melhor.

No que li nas redes sociais, faltaram dois momentos fundamentais que dão a dimensão da importância do jornalista Roberto Müller:

1) o papel de catalisador que a Gazeta Mercantil teve na articulação que levou a elite empresarial do país a desembarcar da ditadura, com os dois manifestos, de 1978 e 1983;

2) o afastamento dele da direção do jornal que resistia ao processo da financeirização da economia, que acabou se consumando, com a falência da Gazeta e o surgimento do Valor.

Duas histórias a ser contadas, dois pontos cruciais da história brasileira recente em que Roberto Müller foi protagonista. (Elmar Bones)

ENIO SQUEFF/ Quando a alternativa é só a política

É notável e significativo que os principais protagonistas das enchentes do Rio Grande do Sul nomeadamente o prefeito Sebastião Melo, de Porto Alegre e o governador gaúcho, Eduardo Leite, tentem impedir que as tragédias sejam, como eles dizem,politizadas. É um engodo. Os dois políticos não sabem ou fingem não saber o que é política. A palavra vem do grego “polis”. Política referese tudo ao que diz respeito à “polis” cidade, em grego. Ora, a se considerar que os centros urbanos gaúchos, seus arredores e seus segmentos, as áreas agriculturáveis que as alimentam, foram afetadas, quando não destruídas, se existe uma questão a ser discutida é exata e indiscutivelmente, a política. Tudo o que se refere à “polis”, como é o caso, é do âmbito da política; não existe absolutamente nada mais urgente e prementemente a ser debatido que não a política.  

Há compreensíveis receios dos dois dirigentes a exporem o que não fizeram na administração da “polis”, vale dizer, das cidades gaúchas e tudo o que se refere a elas. A vulgar palavra desleixo ou o mais despectivo conceito, resumido no mais vulgar que é a palavra “esculhambação” são os termos inegáveis a serem aplicados, sem qualquer pejo, ao que ambos fizeram em suas respectivas administrações.  

Desgoverno, incompetência, desprezo pela polis, ou seja, pela coisa pública ou res (coisa, em latim), pública ressumam uma ideologia muito difundida nos últimos anos pelo que está muito próximo do fascismo. Historicamente, o fascio que tomou a Itália não só antes da Segunda Guerra, mas hoje em dia, e que é o nosso popular facho, no caso da Itália expressa de forma suscinta, o que é: tratase de um feixe de varetas amarrados (normalmente com um machado, que sugeria a autoridade e que simboliza a união inquebrantável e ameaçadora das ditaduras). Era com os feixes, ou mesmo fachos de luz, que os exércitos romanos desfilavam para as suas batalhas. Assim como a palavra política, que os dois dirigentes gaúchos, apesar de políticos, não sabem ou fingem não saber o que significa, o neoliberalismo com os quais eles se identificam, pretendem que nos devemos unir em torno do conhecido mercado. Seria ele e não o Estado, o condutor do mundo novo.

Foi por exorcizar o Estado em favor do Mercado, como se quem poderia socorrer as vítimas de quaisquer flagelo fossem os donos da Van e das Americanas, que o governo brasileiro anterior, logrou que morressem mais de setecentos mil brasileiros de Covid19. Os neoliberais que cultuam o mercado, prescindem das milícias fascistas e nazistas (o sucedâneo do fascismo na Alemanha): têm mais nos grupos de informação a grande imprensa, as redes de TV, a imprensa hegemônica, em suma, os promotores da “lavagem cerebral” que hoje se observa no país. Foi a grande imprensa, com as quase inexistentes exceções quem convenceu os eleitores brasileiros a elegerem o pior parlamento que o Brasil já teve, incluídos aí vários chefes dos executivos municipais e estaduais. O prefeito Melo e o governador Leite, fazem parte desta geleia geral que praticamente domina o país. Fácil de explicar.

A imprensa hegemônica é um negócio que se faz vendendo anúncio das grandes corporações capitalistas, do agronegócio, e dos interesses do Império. A coisa chegou a tal ponto, que segmentos inteiros do próprio Estado, como as Forças Armadas, corporações da saúde, do mundo jurídicoformamse em torno do mercado. É o que explica haver generais dispostos a trair seu país, a médicos negacionistas das vacinas, e governantes, como Melo e Leite, a deixarem apodrecer equipamentos que deveriam resguardar as cidades das enchentes, dos incêndios, da bandidagem e assim por diante. Tudo para vender os próprios do Estado, com grande vantagem para os compradores normalmente estrangeiros. Tratase do velho e podre entreguismo.

Quantos militares não trabalharam para o desmonte de fábricas de armamentos nacionais, em favor dos fabricantes dos países hegemônicos? E quantos médicos abdicaram de seu saber contra a vacinação, mas em favor da ineficiente cloroquina para combaterem a recente pandemia, tudo em nome da ideologia neoliberal? E quantos não trabalham contra o SUS, apesar de saberem que é o único remédio para os milhões de pobres do Brasil? No entanto, sem o aparelho estatal Forças Armadas, Corpo de Bombeiros, médicos inseridos no setor público, a máquina do Estado, em suma, o Rio Grande do Sul estaria ainda ao Deus dará, como se manteve nos primeiros dias, quando Melo e Leite, atônitos, agiram como baratas tontas, sem saber o que fazer? O governador Leite chegou ao cúmulo, em sua ideologia neoliberal, de pedir que o Brasil, por meio de seus estados, cessasse de enviar roupas, remédios, e dinheiro, tudo para proteger neoliberalmentea economia gaúcha, completamente destroçada pelas águas. A população gaúcha que ficasse sem abrigos, passando fome, sedenta de águas puras, esperando a enchente baixar. E o mercadinho da esquina a contar com o fim do desabastecimento, só possível com a remontagem das estradas, dos aeroportos e afins, providências que o mercado, por si só, evidentemente não normaliza.

Esse o nível de descomprometimento com a polis, ou seja, com as cidades que levaram os dois políticos, a não querer discutir o essencial, que é a política. 

Poupemonos de garimpar expressões não chulas para classificálos. Os leitores certamente as terão, e irão agradecer por não sermos disfêmicos. 

 

*Enio Squeff é artista plástico.

MÁRCIA TURCATO/ Democracia inabalada

Márcia Turcato, de Brasília
Para nunca esquecer, para que não se repita. Há um ano, nesse dia, milhares de pessoas vestindo camisetas verde e amarela, como se fosse a torcida da Seleção Brasileira de
Futebol, desceram o Eixo Monumental em direção à Esplanada dos Ministérios, em Brasília.
Seguiam protegidos pela Polícia Militar.
Um pouco antes, em 12 de dezembro de 2022, dia da diplomação do presidente da República eleito, Luís Inácio Lula da Silva, os mesmos manifestantes haviam promovido um quebra-quebra no centro de Brasília, inclusive queimando carros e ônibus. Ninguém foi preso. Na antevéspera do Natal, dois desses manifestantes planejaram explodir um caminhão tanque de combustível na área do aeroporto de Brasília. O artefato falhou e o
plano terrorista foi desmontado.
Esse contexto continha informações suficientes de que não havia clima de paz entre os manifestantes e que a marcha do dia 8 de janeiro de 2023 até o Congresso Nacional era, no mínimo, suspeita. Mesmo assim, o policiamento era frouxo, amistoso e conivente. O então
Secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, e que havia sido Ministro da Justiça do ex-presidente Jair Bolsonaro, estava de férias nos Estados Unidos. O governador, Ibaneis Rocha, alegava que a situação era de total tranquilidade.
Nesse dia, eu passei de carro ao lado da fila de manifestantes que ocupava duas pistas do Eixo Monumental e seguia gritando palavras de ordem e era protegida pela polícia. Eu diminuí a velocidade para gritar: “Zumbis, vão pra casa!”. Fui vaiada e eles seguiram. Estavam acampados há meses na Praça dos Cristais, área militar, em frente ao QG do Exército. Lá tinham acesso a eletricidade, água, banheiros químicos, distribuição de marmitas e centenas de barracas. Desnecessário dizer que a praça, obra do paisagista Burle Marx, foi
depredada. E foi assim, xingando o presidente eleito, clamando pela volta de Bolsonaro, que estava em
Miami, e exigindo intervenção militar, que a turba tomou de assalto a Praça dos 3 Poderes e invadiu e depredou o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

Obras de arte e documentos do acervo público foram saqueadas e danificadas, a arte e a cultura não têm valor para a turba. Isso precisa ser lembrado.

Um ano depois, com a ministra da Cultura Margareth Menezes cantando com entusiasmo o hino nacional do Brasil para celebrar o ato Democracia Inabalada, é uma alegria imensa ver as obras restauradas e os poderes funcionando normalmente.  Aliás, 24 horas após a
vandalização, todos os chefes dos Poderes estavam em seus gabinetes trabalhando. O presidente Lula visitou o cenário de destruição, agradeceu a todos que trabalhavam na limpeza do espaço, e no outro dia estava lá dando expediente.

Apesar dos vândalos declararem seu apoio a Bolsonaro e de afirmarem terem feito o que fizeram para que houvesse uma intervenção militar para trazer o ex-presidente, derrotado nas urnas, de volta ao Palácio do Planalto, é incrível que circule nas redes sociais e entre
deputados, senadores, governadores e prefeitos eleitos, todos de direita, a versão de que a desordem foi promovida pela esquerda para fortalecer o novo governo.

A que ponto chegaram as fake news! Como disse o ministro Roberto Barroso, presidente do STF, a
mentira precisa voltar a ser mentira! E rezar para uma pilha de pneus deve ser visto como uma coisa insana e nunca um ato de fé.

E a direita precisa dizer a que veio. Se os partidos de direita não querem ser confundidos com fascistas, golpistas e vândalos, é necessário que condenem publicamente os atos golpistas e reconheçam que eles foram planejados nos subterrâneos.

Mas onde estão os governadores de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Santa Catarina e do Distrito Federal?

Ibaneis Rocha, governador do DF, este eu sei, está em Miami. Eles não estão no ato Democracia Inabalada, que um ano após o vandalismo que sacudiu o país, festeja o Estado de Direito e o fortalecimento das instituições. Que direita é essa que se diz honesta, seguidora da lei e conservadora mas que parece deitar com o fascismo e beijar o diabo? E nesse grupo suspeito também está o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, que na
última hora alegou doença na família e permaneceu na sua Alagoas.
O ministro do STF Alexandre de Moraes, que também é presidente do Superior Tribunal Eleitoral, reafirmou no ato que celebrou a democracia a importância de lembrar, de nunca esquecer, para que manifestações golpistas não se repitam e pregou a urgente regulamentação das plataformas digitais para impedir o avanço da construção de conteúdos falsos que impulsionam nazistas e fascistas. E declarou que a internet não pode continuar sendo uma terra sem lei e ainda criticou as plataformas digitais, que permitem monetizar perfis de ódio.
O presidente Lula, ao fazer o discurso que encerrou o ato, disse que hoje é um dia muito especial para quem ama e pratica a democracia, é um exercício que precisa ser feito todos os dias. A democracia supera as divergências políticas, porque a divergência faz parte da democracia, e é assim que se vence o fascismo. E chamou o ex-presidente (Jair Bolsonaro) e seus seguidores de golpistas, afirmando que o golpe foi tramado nas redes sociais. O
presidente salientou que não há perdão para quem atenta contra a democracia e foi ovacionado diversas vezes.

É isso, sem anista para golpista!

Câmara de Porto Alegre: O dia do Patriota e a CPI de duas cabeças

Elmar Bones

Rodrigo Lopes disse tudo no artigo sobre o ridículo da promulgação do Dia do Patriota, pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre.

Um detalhe: a desatenção, que Rodrigo justamente cobra do eleitor em relação aos trabalhos do legislativo municipal, tem origem no descaso da própria imprensa com o que se passa no Palácio Aloísio Filho,(sim, esse é o nome)  onde os edis mal ou bem decidem os destinos da cidade.

O Dia do Patriota, projeto de autoria de um vereador que foi cassado, promulgado esta semana, diz muito sobre a Câmara. Mas diz também sobre uma imprensa que não acompanha os trabalhos do legislativo municipal (nem do Estadual e nem no federal, se for ver bem).

Nem no tempo da ditadura havia tanto desinteresse pelo trabalho parlamentar nos municípios e nos Estados.

Na Câmara de Porto Alegre, por exemplo, ocorre um fato inusitado, inédito talvez: formaram-se duas CPIs para investigar os mesmos fatos: as compras de livros e materiais didáticos e esportivos pela Secretaria Municipal de Educação, em licitações de carona (sem licitação, na verdade).

A carona em licitações alheias é permitida por lei em situações emergenciais, mas que emergência havia em adquirir os livros e todo aquele material para deixar acumulados em vários depósitos, inclusive pagando aluguel?

Os livros não se enquadravam no projeto pedagógico da Secretaria Municipal e teriam sido adquiridos numa carona em licitação do Estado de Sergipe,  junto com outras 15 prefeituras, que compraram um total de quatro milhões de exemplares ao preço médio em torno de 40 reais o exemplar. Como e por que a prefeitura entrou nesta carona? E nas outras?

São alguns dos fatos que precisam ser esclarecidos  e há duas comissões de inquérito na Câmara Municipal com esse objetivo.

Uma formada pela oposição que quer explicações do prefeito. Outra da base governista para mostrar que o prefeito já esclareceu tudo, tomou as providências devidas, não há o que explicar.

E a imprensa? Pelo pouco que publicou até agora tende a endossar a versão oficial.  A informação bombástica, de que o prefeito se reuniu com os empresários antes da compra, revelada pelo Matinal,  foi ignorada  pelos demais veículos.

Como é que a população vai se interessar pelo que se passa na Câmara se não há informação sobre o que se passa na Câmara?