Categoria: Análise&Opinião

  • LUIZ-OLYNTHO TELLES DA SILVA/ Uma parábola para os dias de hoje

    Luiz-Olyntho Telles da Silva

    Terminava o ano de 1348 e com ele a devastadora peste negra. A Europa estava um caos. Aos sobreviventes tocava elaborar o luto. Muitos perderam seus pais, avós, amigos e irmãos, sem falar nas famílias das quais não sobrou ninguém. Boccaccio foi um desses que sofreu todas essas perdas e encontrou na escrita um meio de trabalhar sua dor. Daí saiu seu Decameron, organizado em torno de dez jornadas nas quais se contam, a cada dia, dez novelas. Santo Ambrósio já havia louvado os seis dias da criação, intitulados com uma expressão grega, o Hexameron, e Boccaccio achou por bem repetir a ideia para os seus dez conjuntos de dez, por vezes luxuriosos, ora melancólicos, ingênuos, ora espirituosos, etc., etc.

    A história que escolhi para hoje, está na base da formação dessas locuções que os franceses chamam de mot d’esprit, um dito espirituoso, um dito que requer inteligência para ser compreendido.

    Estamos já quase ao final da sexta jornada, o dia se prepara para começar a perder suas cores, acendem-se os candelabros e a rainha Elissa começa a nona história, anunciando que sua conclusão será com uma sentença tão brilhante que talvez ainda não se tenha narrado nenhuma com tanta sabedoria.

    Em tempos passados, continuou ela, houve em Florença costumes muito galantes, agora perdidos pela avareza que junto com a riqueza prosperou. Entre os hábitos banidos estava o de cavalheiros de diferentes bairros da cidade reunirem-se a cada tanto para jantar, convidando, quando era o caso, algum estrangeiro, ou mesmo algum expoente conterrâneo para homenagear e, a cada vez, era um que pagava a conta. Formavam assim diferentes brigadas que cavalgavam juntos e exibiam-se em justas nos dias de festa. Entre elas, estava a brigada de Messer Betto Brunelleschi, antepassado do famoso arquiteto Filipo Brunelleschi – construtor da cúpula do Duomo, da igreja de São Lourenço, do palácio Riccardi e do palácio Pitti –, e que muito se esforçou, junto de seus companheiros, para incorporar Guido Cavalcanti às suas fileiras. Filho de Messer Cavalcante dei Cavalcanti, Guido era um importante poeta, amigo de Dante Alighieri, homem educado, bem falante, de boa aparência e muito rico; sempre voltado às suas meditações, alheava-se de outros homens e, dedicado ao epicurismo, diziam que buscava demonstrar a inexistência de Deus. Então, certa manhã, quando Guido fazia seu trajeto habitual, ao passar pelo cemitério San Giovanni, onde havia grandes sarcófagos de mármore (hoje em Santa Reparata), além de muitos outros, e estando ele entre aquelas colunas de pórfiro, daquelas rochas vermelhas contemporâneas do período pré-cambriano – um presente dos pisanos para Florença, em retribuição à guarda que lhes fizeram quando foram conquistar a ilha de Maiorca –, avistou-o Messer Betto que vinha com sua brigada, a cavalo, pela praça de Santa Reparata, e logo teve uma ideia: – Andiamo a dargli briga. Vamos incomodá-lo um pouco, traduziu Maurício Santana Dias para a Ed. Cosac Naify, em 2013, enquanto Urbano Tavares Rodrigues, em 1976, ao fazer a tradução para a Ed. Formar, em coedição com a Libraria Bertrand, de Portugal, preferiu Vamos disfrutá-lo um pouco (escrito assim, com i mesmo). Enfim, tratava-se de implicar um tanto com Guido, de fazer bullying, como se diria hoje, e, decididos, esporearam seus cavalos. Antes que Guido se desse conta, o cercaram fazendo-lhe a seguinte pergunta: Guido, você se recusa a entrar em nossa brigada; mas, quando descobrir afinal que Deus não existe, o que fará? Sem dar-se por achado, Guido logo respondeu: Senhores, estais em vossa casa, podeis dizer-me o que quiserdes. A seguir, ágil que era, saltou por sobre uma alta tumba e sumiu-se por entre os sarcófagos. Os brigadianos, pasmos, ficaram a olhar entre si. Aquele homem era um smemorato – inconsciente, traduziu Maurício Santana Dias; louco, preferiu Urbano Tavares Rodrigues –, sua resposta não fazia sentido. Foi então que Messer Betto, voltando-se para os companheiros, falou: – Os smemorati são vocês que não entenderam nada: com poucas palavras e na maior elegância, ele nos disse a pior das vilanias. Vejam, esses túmulos são as casas dos mortos, aí estão os defuntos; mas ele diz que são nossas casas para nos mostrar que nós e os ignorantes como nós, em comparação a ele e aos filósofos, somos piores que os mortos. Logo, se estamos aqui, estamos em nossa casa. Assim foi construída a brilhante sentença anunciada pela rainha Elissa e, tendo todos entendido a tirada espirituosa de Guido Cavalcanti, nunca mais o incomodaram e Messer Betto passou a ser considerado um cavalheiro sutil e inteligente.

     

  • IVANIR BORTOT/Queda de juros é insuficiente para evitar a recessão

    Uma provável nova redução da Taxa Selic deixará o Banco Central com uma arma a menos contra a crise econômica gerada pelo novo coronavírus.

    Entre os remédios estudados está a utilização das reservas internacionais, uma montanha de dinheiro de cerca de U$ 360 bilhões

    Por
     Ivanir José Bortot

    O BC (Banco Central) deverá promover uma nova  queda das taxas de juros para se ajustar a uma inflação menor, fruto de uma estimativa de  encolhimento no Produto Interno Bruto (PIB), mesmo sabendo que a medida é insuficiente para evitar a recessão que vem pela frente.

    O mercado já trabalha com a estimando uma queda de 5,8 % no do PIB  para 2020.

    Já de algum tempo, o atual presidente do BC, Roberto Campos Neto, manifestou uma opinião divergente do ex-presidente da instituição, Henrique Meirelles, sobre a intensidade da queda da taxa selic.

    De fato, uma nova queda mais acentuada de juros deixará a taxa selic praticamente equivalente à inflação e, neste caso, seus efeitos monetários para estimular o crescimento serão praticamente nulos, como definiu o economista John Maynard Keynes no seu estudo sobre a “armadilha da liquidez”.

    Com indicadores de aumento de desemprego, perda de renda dos brasileiros em isolamento social pelo coronavírus e queda da atividade econômica, haverá redução dos preços.

    O enfraquecimento da economia e a queda do poder de compra apontam para uma inflação menor.

    Um cenário futuro com as atuais taxas nominais de juros de 3,0% e inflação menor implicaria juros reais maiores, desestimulando ainda mais o consumo e a atividade produtiva.

    É dado como certo que os juros nominais vão cair este ano para cerca de 2%.

    A autoridade monetária está seguindo as normas e protocolos dos Bancos Centrais do resto do mundo para enfrentar a crise de liquidez no sistema financeiro, com injeção de recursos e redução dos juros básicos.

    A eficácia da queda das taxas de juros utilizada antes da crise do coronavírus teve pouco impacto sobre a retomada do crescimento, como foi observado ao longo do ano de 2019, em função da perda de emprego, renda e investimentos públicos e privados.

    Diante da magnitude da atual crise de liquidez uma queda da taxa selic daria pouca contribuição para a expansão da demanda agregada da economia.

    O maior beneficiado, na verdade, seria o Tesouro Nacional, que teria uma redução de custos de emissão ou rolagem da sua dívida pública.

    Com as medidas de injeção de dinheiro na economia com pagamento do auxílio de R$ 600 para cerca de 30 milhões de brasileiros, sem falar na liberação dos recursos do FGTS e linhas de crédito, haverá uma expansão dos meios de pagamentos, especial o M1, papel moeda em poder do público, e depósitos a vista.

    No entanto,ainda não há dados sobre o impacto destes recursos sobre o consumo das famílias.

    O certo é que uma maior oferta de moeda em uma situação em que os juros nominais estão muito próximos aos números de inflação contribuem muito pouco, como já previa Keynes, para estimular a atividade econômica.

    O economista John Maynard Keynes é autor do estudo sobre a “armadilha da liquidez”.

    Diz Keynes: “A medida que a taxa de juros cai para zero, a demanda torna-se horizontal. Isso implica que quando a taxa de juros é igual a zero, aumentos adicionais de oferta de moeda não produzem efeito sobre a taxa nominal de juros”.

    Roberto Campos Neto chegou a dizer que não é com emissão de papel moeda que a economia vai se recuperar. Ele sabe que juros nulos ou até negativos tem baixa potencialidade na política monetária.

    A recuperação da economia vai depender da conquista de um equilíbrio fiscal e de investimentos públicos e privados em infraestrutura e setor produtivo. O reequilíbrio fiscal deverá ser buscado pelo governo com corte de gastos obrigatórios, receitas de privatizações e aumento de impostos sobre patrimônio.

    O ministro da Economia, Paulo Guedes, verbalizou a alguns senadores a possibilidade de usar parte das reservas internacionais, que hoje estão na casa dos US$ 360 bilhões, para cobrir as despesas que está fazendo para enfrentar o coronavírus.

    A ideia de reservas não é nova. Há um ano em um seminário da Instituição Fiscal Independente (IFI), ligado ao Senado Federal, a economista Monica de Bolle, defendeu a utilização de um terço das reservas do Brasil para que seus recursos em reais fossem investidos em obras públicas.

    Monica de Bolle informou na época que o montante de reservas que poderiam ser utilizadas, sem que isso criasse algum risco soberano ao Brasil, foi definido em estudo por técnicos do Fundo Monetário Internacional.

    De fato, se Paulo Guedes levar adiante sua intenção, utilizando por hipótese cerca de U$ 100 bilhões da reservas do Brasil, poderia cobrir a maior parte das despesas projetadas pelo governo, pois estes valores serão da ordem de R$ 550 bilhões.

    O Brasil continuaria com mais de US$ 200 bilhões de reservas para fazer frente a seus compromissos externos e enfrentar os ataques especulativos de câmbio.

    Alguns economistas têm criticado a manutenção das reservas ao longo das últimas décadas com custos elevados ao Tesouro Nacional.

    A realidade é que estas reservas foram constituídas para o Brasil enfrentar momentos de crise financeiras internacionais como esta em estamos vivendo.

    Se não forem utilizados neste momentos, o Tesouro Nacional ficará apenas com o ônus de seus custos sem qualquer benefício no atual momento.

    Um dos benefícios seria trocar estes dólares no mercado neste momento a um preço que em muitos casos deve ser o dobro de quando foram comprados.

    A operação de venda dos dólares faria com que um valor equivalente em reais deixaria de circular na economia, tendo em vista que iria para o governo.

    A autoridade monetária ficaria com as mãos livres para administrar com maior eficiência a quantidade de dinheiro em circulação na economia.

    Com a utilização destes recursos de reservas para cobrir as despesas com o coronavírus, grande parte do déficit primário das contas públicas estimado em R$ 1,3 trilhões até o final do ano, seriam resolvidos.

    O reequilíbrio fiscal abriria espaços para novos programas de investimentos públicos, sem falar nos benefícios na condução da sua política monetária.

    A queda na taxa de juros tem pouca influência na decisão das pessoas de consumir ou dos empresários investirem neste momento.

    É que os bancos para conceder crédito estão avaliando os riscos que terão em função das incertezas no longo prazo. Suas taxas de juros continuam nas alturas em função dos spreads bancários.

    Ainda ninguém sabe quando a pandemia vai passar e o  como será a volta da normalidade.

    Nenhum empresários fará investimento sem a segurança de demanda para seus produtos. As pessoas, por sua vez, sem emprego e renda tendem a reduzir cada vez mais o consumo.

     

     

  • ALDO REBELO/ Guerra civil

    A nota do ministro Augusto Heleno, aquela das “consequências imprevisíveis”, desencadeou uma outra, de seus colegas de escolas militares, na qual a expressão “desfecho imprevisível” é seguida de outra mais inusitada: a hipótese de guerra civil, para resolver a disputa institucional entre o Poder Executivo e o Supremo Tribunal Federal.

    A memória me aponta algumas das terríveis guerras civis que ensanguentaram o solo pátrio: durante a Regência tivemos quatro, simultâneas, no Rio Grande do Sul, a Farroupilha; na Bahia, a Sabinada; no Maranhão, a Balaiada e no Pará a Cabanagem, que geraram massacres, ameaçaram a unidade do Brasil e a integridade do território e criaram sequelas indesejáveis na vida nacional.

    Depois da República vivemos a Revolta Federalista, com suas degolas de lado a lado, e no ocaso do século XIX a tragédia de Canudos com todos os seus horrores.

    No início do século XX o País conheceu uma guerra civil entre militares rebeldes e legalistas, o tenentismo, guerreando ao longo de dois anos por todo o território nacional.

    Todas estas lutas fratricidas deixaram marcas indesejáveis na alma e no corpo da Pátria.

    Cogitar reproduzi-las para resolver uma disputa entre poderes e corporações não passa de inconsequência inaceitável e testemunho da imaturidade e alienação daqueles que assim raciocinam.

    Os que reclamam do enfraquecimento do Poder Executivo, vis a vis os demais poderes, estão cobertos de razão, mas cometem desatino quando imaginam, em delírio anacrônico, que podem resolver o conflito via a ameaça, como fez o ministro Heleno ou a guerra civil como fazem seus amigos de escola.

    Aliás, a agenda motivo de queixas do presidente da República e de seus aliados, e que resultou na fragmentação do Orçamento da União em emendas paroquiais e interesses corporativos, foi um dos instrumentos usados para enfraquecer a presidente Dilma Rousseff e o seu governo, tudo conduzido pelo então presidente da Câmara Eduardo Cunha, com a celebração e os votos dos atuais detentores do poder.

    E se a presidente Dilma tivesse dado posse a Lula como seu ministro da Casa Civil à revelia do Supremo Tribunal Federal?

    E se a mesma presidente mandasse prender na época o juiz de primeiro grau que cometeu crime contra a Lei de Segurança Nacional, ao violar o sigilo telefônico da Presidência da República em matéria que já estava fora de sua alçada?

    E se o presidente Michel Temer tivesse desconhecido a ordem do Supremo bloqueando a nomeação de sua ministra do Trabalho?

    Provavelmente, aos olhos dos atuais defensores da separação de poderes, teríamos motivo para uma guerra civil pelas razões contrárias às que enxergam hoje como suficientes para ameaçar o País com os ventos da violência.

    Em meio a uma profunda crise social, ao desemprego e ao sofrimento da pandemia, quem levaria a notícia da guerra civil aos milhões de jovens que vivem afundados na pobreza e na desesperança na periferia das grandes cidades brasileiras?

    Qual seria o papel desses jovens no curso de uma guerra civil?

    As guerras civis do passado foram desencadeadas por ódio e violência incontroláveis, mas apresentaram pretextos políticos e plataformas legitimadoras.

    Haveria uma plataforma para os que cogitam uma guerra civil contemporânea?

    Quando norte-americanos e norte-vietnamitas iniciaram as negociações para encerrar a carnificina da Guerra do Vietnã, a esquerda francesa censurou os vietnamitas por aceitar negociar com os agressores.

    Dizia-se na época que nas mesas dos cafés do Quartier Latin a esquerda francesa defendia que o Vietnã resistisse até o último vietnamita.

    É de se perguntar aos corifeus da nova guerra civil brasileira até quantos brasileiros precisariam ser sacrificados para que a Presidência da República tivesse suas prerrogativas respeitadas pelo Poder Judiciário, e se eles também estariam dispostos a oferecer sua cota de sangue para que o nobre objetivo fosse alcançado.

    Não. As mazelas e deformidades institucionais do Brasil exigem, é verdade, o confronto, a coragem, a determinação e a clareza nas ideias e na ação política.

    O resto é bravata inconsequente, que cobre o horizonte com a poeira da desorientação e não da luz que deve iluminar os caminhos do Brasil e do seu povo.

  • ANTÔNIO BRITTO: Seremos penetras onde poderiamos estar como anfitriões

    Não é nada fácil responder qual o maior dos erros cometidos pelo governo Bolsonaro na condução de políticas e providências relacionadas com a pandemia.

    Um forte candidato está lentamente aparecendo no noticiário: a participação pífia do Brasil na pesquisa, produção e recebimento da vacina que, espera-se em tempo recorde, venha oferecer prevenção contra o vírus.

    Conquistamos, com um esforço de décadas, uma importante posição mundial em vacinas, em um nível muito superior ao nosso papel no desenvolvimento de medicamentos.

    Até pouco tempo atrás, o programa brasileiro de imunização podia ser considerado exemplar em termos globais com a presença de  excelentes centros de pesquisa e produção como FioCruz e Butantan;  algumas boas iniciativas  para parcerias entre eles e grandes laboratórios mundiais de modo a simultaneamente aproximar nossos cientistas dos melhores projetos de inovação e, em contrapartida, garantir acesso ao amplo mercado brasileiro.

    O cenário da imunização no país tornou-se menos exemplar com os erros cometidos nos últimos anos, responsáveis por vexames como a volta do sarampo e uma brusca e perigosa redução nos níveis de cobertura, com a ajuda de fanáticos que colocam em dúvida a necessidade de imunizar pessoas. (Terão mudado de opinião?)

    Ainda assim, o Brasil podia e merecia estar ao menos participando ativamente do que é hoje a principal urgência mundial –chegar a uma vacina contra o covid-19. No front científico, aliando-se a algumas das mais de cem pesquisas em andamento.

    No ambiente diplomático,  sendo ouvido na queda de braço que se aproxima envolvendo como e onde produzir, como e para quem distribuir a futura vacina. Uma corrida contra a morte movida pela geopolítica.

    Salvo iniciativas isoladas de alguns dos nossos centros, estamos simplesmente fora de tudo.

    A participação na pesquisa e desenvolvimento da vacina exigiria que houvesse por parte do governo compreensão da importância do assunto; competência e capacidade de iniciativa para liderar a busca de parcerias entre nossos institutos e governos e laboratórios farmacêuticos mundiais, tendo como trunfos a capacidade de produção aqui instalada e especialmente a dimensão do mercado brasileiro.

    Óbvio que nada consequente e estratégico foi feito. Em consequência, amanhã quando a vacina estiver viabilizada seremos penetras em um evento onde poderíamos ter a condição de anfitriões, minoritários, mas anfitriões.

    Pior ainda: o desenvolvimento da vacina parece, hoje, a parte mais fácil do que vem por ai. Imagine-se: anunciada a vacina, haverá sete bilhões de interessados nela.

    Onde produzir? A quem entregar inicialmente? Em que quantidades? Como conciliar a necessidade de declará-la um bem comum da humanidade com o respeito aos acordos mundiais sobre propriedade intelectual?

    Os absurdos cometidos em política externa, especialmente em saúde,  deixam-nos em que condição para discutir e negociar no âmbito da OMS, depois do tanto que a desrespeitamos e afrontamos? Como defender nossos interesses se a vacina vier da China? E se ela for obtida  primeiro nos laboratórios ingleses?

    A menos que nossos fundamentalistas contem com a generosidade norte-americana e infantilmente pensem que Washington (se vencer a corrida cientifica) colocará o Brasil como destino prioritário em parcerias, produção e recebimento da vacina.

    Nossos graves erros em inovação e no campo diplomático, fazem mais do que nos fragilizar na guerra das vacinas. Passam um atestado de como o Brasil, rapidamente, pôde colocar fora toda a presença que construíra, em décadas, na definição de políticas mundiais de saúde.

    E nos condena hoje a uma sequência de fatos constrangedores (lembremos apenas os desta semana): a participação envergonhada de um militar especialista em logística falando pelo Ministério da Saúde na Assembléia Geral da OMS;  o ministro astronauta arriscando-se ao ridículo na tentativa de considerar seria uma pesquisa sem crédito. Ou ainda a inexplicável criação pelo presidente da República da categoria de “remédio ideológico”, logicamente de direita, contra todas as evidências e recomendações dos médicos.

    A vacina chegará. E com ela, pelos dados atuais, uma grande derrota para a saúde no Brasil. E um dos maiores e mais prejudicais erros cometidos pelo governo.

    Não serão os milhares de mortos as únicas vitimas da epidemia no Brasil. A ciência, o bom senso e nosso prestigio internacional, também.

    (Publicado originalmente no Poder 360)

  • A TORRE EIFFEL/ Luiz Olyntho Telles da Silva

    “A grandeza da oração reside, em primeiro lugar, em não ser respondida, e em não entrar nessa troca a feiura de um comércio”.

    SAINT-EXUPÉRY, Cidadela.

    ***

    Conheci a Torre Eiffel no princípio dos anos 80 e fiquei tão impressionado que ao longo dos anos voltei a visitá-la algumas vezes. O amplo jardim circundante, as fontes, os museus próximos, tudo dizia de seu valor.

    Lembro-me ainda, na primeira vez, de ter tirado uma foto, apoiado em uma de suas bases, buscando seguir suas linhas em direção aos céus. Outra vez, foi em uma ensolarada manhã de um domingo outonal.

    Tinha terminado de dar um passeio pelos jardins do Trocadero e começava a descer a Avenue du Président Wilson, quando fui abordado por uma jovem; queria saber se podia indicar-lhe a direção para chegar à Torre.

    Imaginem, era francesa e nunca a vira de perto; morava no interior e, há seis meses, viajava semanalmente a Paris para estudar balé. Naquela manhã, roubava-se um tempo para conhecer o grande monumento.

    É preciso dizer que voltei dez passos para apresentar-lhe, pessoalmente, o símbolo maior da cidade luz? Ah!

    E o entardecer no último domingo de verão que aí estive?! Eu sentara em um bar da Avenue Desaix com a Avenue de Suffren, o Firmine, com uma ampla visão do Champ de Mars, para aguardar o pôr-do-sol, degustando uma pression bem fria.

    Seria próximo das dezoito horas. Às vinte horas o dia continuava claro e, às vinte e uma, com a sensação de que esse dia não terminaria nunca, encomendei uma porção de carpaccio e preparei-me para jantar.

    Estava informado de que a noite, nesta época do ano, e nessa região, custava a cair, mas nunca imaginara tardasse tanto.

    Foi exatamente às vinte e três horas quando, num repente, como se as luzes do dia tivessem sido desligadas no interruptor, que a noite entrou e, ato contínuo, num átimo, acenderam-se as luzes da Torre Eiffel, por inteiro. Um espetáculo deslumbrante!

    As obras de Eiffel, desde que o conheci, constituíram-se em um marco para mim. Nem falo da impressão que me causou o Elevador de Santa Justa, em Lisboa, do qual, embora conste, hoje se duvida de sua efetiva participação no projeto, mas suas pontes, como a Dona Maria Pia, unindo a cidade do Porto à Vila Nova de Gaia, por sobre o rio Douro, e os seus monumentos, como a estrutura da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, sempre me pareceram notáveis.

    Pois outro dia, lendo um pequeno livro de Ferenc Molnár, O Poste de Vapor, quando contava que a primeira ponte, ligando Buda a Peste, por sobre o Danúbio, a Ponte Margarida, fora também um projeto dele, bem antes de ser famoso, um pequeno comentário chamou-me a atenção.

    Verdade que ele diz muitas coisas interessantes aí. Ele menciona, por exemplo, para mostrar como vão se processando sua associação de ideias, Jean Giraudoux.

    Seus pensamentos percorrem o fio das estruturas e Molnár lembra-se da Oração sobre a Torre Eiffel, um dos capítulos do livro Julieta no país dos homens, desse autor, onde conta que, tendo subido um dia na Torre, enquanto observava Paris, ocorreu-lhe pensar que confiança teve na lei das massas o engenheiro que construiu esta torre de ferro!

    Mas o ponto que mais me tocou foi a comparação da ponte com a torre: a ponte tinha a vantagem de estar deitada! Pois foi neste momento que se formou, para mim, como uma Gestalt, a imagem que quero contar-lhes.

    Precisei relatar os antecedentes para verem como sou lento, ou como pode ser lenta a formulação de certas ideias.

    Pois o que percebi, naquele momento, foi que a Torre Eiffel pode ser vista assim: suas quatro grandes bases representam os quatro cantos do mundo com as mãos postas, noite e dia, em oração, voltadas aos céus.

    E então compreendi que assim deveriam ser todas as orações, obras para o usufruto e deleite de todos.

     

  • JORGE BARCELLOS/Por que é falso o argumento do coronavírus como promotor da crise capitalista

    Foi Branko Milanovic, em sua obra Desigualdade Global: Uma Nova Abordagem para a Era da Globalização (Harvard University Press, 2019) que apontou a falsidade do argumento da crise do capitalismo. Para ele, “a insatisfação ocidental com a globalização é erroneamente diagnosticada como insatisfação com o capitalismo, quando na verdade é o produto da distribuição desigual dos ganhos da globalização”.

    Ele critica a avalanche de artigos e livros que apontam para a crise do capitalismo, literatura semelhante, em seu entendimento, a produzida sobre o fim da história, nos anos 90. O ponto é particularmente importante por dois motivos: primeiro, para afinar a argumentação de esquerda, que aposta na crise geral do capitalismo para justificar a luta social e o segundo, para compreender o contexto de emergência da pandemia do coronavírus, geralmente associado às condições de desenvolvimento e/ou crise capitalista em cada país.

    Nossa hipótese é a de que, na linha do autor, em ambas as questões, à esquerda ao repetir o erro e menosprezar o problema dos efeitos da globalização, perde um argumento essencial para considerar a evolução da pandemia, distinta entre países onde o capitalismo esteja consolidado para países em desenvolvimento.

    Essa inflexão permite, por exemplo, reavaliar o papel das elites empresariais e do Estado no combate à pandemia. É o caso da Suécia, onde Milanovic afirma que o setor privado emprega mais de 70% da força de trabalho e dos Estados Unidos, onde emprega 85%, ou da China, onde o setor privado organizado capitalisticamente produz 80% do valor agregado.

    Nos três países citados, o capitalismo vai bem como modo de produção dominante e, em que pese a obvia exploração do trabalho já criticada pela esquerda, obviamente passou por diferentes processos de tomada de decisão em relação ao coronavírus. Por exemplo, tanto a Suécia quanto os Estados Unidos foram países em que a opção de isolamento horizontal não foi adotada imediatamente, retardando-se a decisão política ou preferindo-se o isolamento vertical com o argumento nefasto de não prejudicar a economia… capitalista! A opção é clara: entre os riscos financeiros e os riscos humanos, estes países preferem os últimos.

    Por isso o exemplo da China é notável no combate a pandemia. Como uma economia de mercado que enfrentou o problema do vírus em primeiro lugar com uma politica de isolamento horizontal, hoje a China lucra os dividendos de uma economia que não perdeu seu lugar no cenário econômico mundial, ao contrário. Por esta razão, a esquerda e os defensores do isolamento radical precisam reelaborar seu discurso para enfatizar que isolamento e economia não são equidistantes, ao contrário daqueles que optaram pela economia e não pela defesa das vidas. Basta lembrar que os indicadores da Suécia chegaram a cerca de 311 pessoas mortas por milhão de habitantes, enquanto que países próximos que adotaram o isolamento horizontal, não passaram de 40 pessoas por milhão de habitantes. Quer dizer, economias que optaram pelo sacrifício da população, obtiveram uma pequena redução do PIB, incapaz de justificar a politica adotada. Da mesma, os Estados Unidos, que iniciaram o ataque tardiamente a pandemia, resultando em mais de três mil mortes por milhão de habitantes, hoje amargam a imposição de uma quarentena muito maior do que a que teriam realizado se tomassem a decisão no momento certo, e com isso, tem hoje um prejuízo maior.

    As economias que optaram pelo sacrifício da sua população em vez do sacrifício da economia fracassaram ao menos em parte, nesse objetivo. Se for assim, a questão ainda é investigar como a pandemia a afeta a economia. No Brasil vê-se que os novos mercados surgidos com a globalização foram profundamente afetados pela pandemia, desde o Uber, Airbnb, bem como os mercados de trabalhadores precarizados. Esse processo não foi homogêneo, já que os mercados de tarefas de compras e entrega de comida foram dinamizados em valores que ainda precisam ser determinados, mas estão longe de serem insignificantes.

    Se não produziram certo equilíbrio do sistema, a pandemia não foi responsável direta pelo fechamento econômico, já que a manutenção da abertura de mercados, farmácias, bancos e outros serviços novos como cuidados com animais de estimação (pets), etc., que em muitas cidades foram considerados essenciais, apontam para o fato de que mesmo em crise pandêmica foi possível à criação de novo capital. Aponta-se, por exemplo, áreas que inclusive aumentaram seus preços para níveis maiores do que os anteriores a pandemia, o que nas palavras do autor significa que “eles criam novo capital e, colocando um preço em coisas que não tinham antes, transformam meros bens (valor de uso) em mercadorias (valor de troca)”. A conclusão é que os novos mercados foram afetados de forma desigual pela pandemia, o que significa dizer que podemos andar menos de Uber, mas compensamos pedindo mais tele-entregas, o que significa que as perdas financeiras causadas pela pandemia podem encontrar um ponto de equilíbrio e até, reforçar certos mercados.

    O problema da fragmentação dos novos mercados e sua demanda parcial é que a pandemia reforça a precarização da massa de trabalhadores através da exploração de fornecedores de serviços, como entregadores de pizza, produtos de mercados ao mesmo tempo em que estimula a produção de máscaras artesanais e escudos de proteção para satisfação das novas necessidades produzidas pelo isolamento, que reforçam, mais uma vez, ainda que indiretamente, a reprodução do mercado. Portanto, quando o governo enfatiza que é preciso terminar com o isolamento porque ele está matando os CNPJ, as empresas, o governo está sinalizando para um fato que pode ser questionado em parte, de que a pandemia é a causa da crise capitalista no país, o que, para o autor, confunde o problema real que é a distribuição desigual dos ganhos, que é o que existe de fato, e não crise do capitalismo. Não é exatamente isso que ocorre quando o Governo Federal, sob o pretexto de salvar a economia, libera milhões para os bancos privados? Ele não está novamente, redistribuindo de forma desigual a riqueza? Não é esse o problema que precisa ser apontado pela esquerda?

    O argumento do autor é uma defesa do capitalismo, é claro, mas o faz de uma maneira útil à esquerda já que aponta para o fato de que a premissa da globalização, de que beneficiaria a todos, não foi cumprida, inclusive no Brasil. Ao contrário, apenas alguns países, como a China, se beneficiaram “É a diferença entre as expectativas recebidas pelas classes médias ocidentais e o crescimento das de baixa renda, bem como a queda na posição de renda global, que alimenta a insatisfação com a globalização. Isso é erroneamente diagnosticado como insatisfação com o capitalismo”. É claro que nós não estamos satisfeitos de jeito nenhum com o capitalismo, mas o que ocorre quando no Brasil, a politica de combate ao coronavírus evidencia esta desigualdade? Veja o exemplo do que aconteceu quando o país correu ao mercado mundial para obter insumos para o combate à pandemia. Logo ficou claro que o país estava em desvantagem em relação a outros países como os Estados Unidos, que, inclusive, chegou a piratear produtos comprados pelo Ministério da Saúde. As expectativas das classes médias, de acesso a respiradores, logo começaram a ruir pela insegurança da prestação de serviços médicos por ocasião de uma explosão do sistema, como ocorreu em Manaus (AM).

    Há também outra questão. Milanovic afirma que a expansão da abordagem de mercado também transforma a política em uma atividade comercial. Quer dizer, as relações políticas passaram a ser mediada por trocas, e com isso, a política tornou-se mais corrupta “agora é considerado semelhante a qualquer outra atividade, pois mesmo que não se envolva em corrupção explícita durante seu mandato político, eles usam as conexões e o conhecimento adquiridos através da política para ganhar dinheiro posteriormente”. É por essa razão que Ministros de Estado que são desligados da função pública entram em período de quarentena e o autor afirma com razão que é este tipo de mercantilização que ampliou o desencanto com a política e com os políticos. No caso da pandemia, isso ficou evidente com o aceno de Jair Bolsonaro aos partidos e políticos do chamado Centrão, com o objetivo de garantir suas medidas anticientíficas como o fim do isolamento social e o uso de cloroquina pelo SUS. Além disso, Bolsonaro busca apoio para um projeto polêmico, que isenta as autoridades – o presidente, inclusive – de quaisquer responsabilidades por erros na condução da pandemia.

    A contribuição de Milanovic assim é de levar a esquerda a considerar a importância da crise subsequente do coronavírus não como uma crise do capitalismo, mas uma crise “provocada pelos efeitos desiguais da globalização e pela expansão capitalista para áreas que tradicionalmente não eram consideradas aptas à comercialização”. Esse argumento, ainda que reforce o grande poder do capitalismo, põe em evidência a produção de uma colisão com valores, direitos e crenças que é o campo de atuação da esquerda, que deverá se colocar a questão de como evitar que outras esferas da vida sejam comercializadas ou lutar para que seja controlado o campo de expansão do capitalismo.

    Jorge Barcellos é historiador, mestre e doutor em Educação. Autor de O Tribunal de Contas e a Educação Municipal (Editora Fi, 2017) e A impossibilidade do real: introdução ao pensamento de Jean Baudrillard (Editora Homo Plásticus, 2018). Mantém a página jorgebarcellos.pro.br.

     

     

  • ALDO REBELO/ Regularização fundiária: urgente e necessária

    Aldo Rebelo*

    Está em debate na Câmara dos Deputados projeto de lei que trata do destino de centenas de milhares de pequenos proprietários rurais, mas também de médios e grandes, bloqueados no acesso ao crédito e outros benefícios por não serem detentores plenos de suas propriedades.

    O relator do projeto é o deputado Marcelo Ramos, representante do Amazonas, experiente e com espírito público e patriótico. O autor do projeto é o deputado Zé Silva, de Minas Gerais, agrônomo e produtor rural, de comprovada competência como legislador.

    A ambição da lei é alcançar desde o pequeno proprietário de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, enredado nas dificuldades das normas para legalizar posses mansas e pacíficas oriundas de partilhas antigas e de heranças, até assentados da Amazônia e de outras regiões, e proprietários do interior do Pará que adquiriram áreas do governo em processo licitatório, receberam os contratos de alienação de terras públicas e até hoje não conseguiram legalizar suas glebas.

    Recebi sugestões que encaminhei ao relator no sentido de tornar a lei mais justa e mais eficaz, principalmente a remoção de entraves burocráticos e armadilhas de redação passíveis de serem utilizadas pelos adversários dos agricultores nos órgãos de controle e na administração pública.

    Aos que acham que a matéria não tem pressa, peço que se coloquem no lugar dos proprietários, privados do usufruto pleno de seus bens. Eles já foram prejudicados por muito tempo, esperaram, alguns por décadas, providências dos poderes que muito tardaram e não podem ficar à mercê daqueles que tiveram todo o tempo e pouco ou nada fizeram.

    A regularização fundiária, como diz documento assinado por Hilário Gottselig, diretor de Políticas para a Agricultura Familiar e da Pesca da Secretaria de Agricultura e Pesca de Santa Catarina é “promotora da melhor distribuição da terra, do desenvolvimento socioeconômico da população beneficiada e, de forma mais ampla, compreendida como instrumento de fortalecimento da produção de alimentos e da agricultura familiar.”

    Aldo Rebelo é jornalista, foi presidente da Câmara dos Deputados; ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais; do Esporte; da Ciência e Tecnologia e Inovação e da Defesa nos governos Lula e Dilma

     

  • GERALDO HASSE/ Fora da casinha

    Uma amiga brasileira que viveu 30 anos em NY me pergunta por que Bolsonaro não cai, se está aparentemente na corda bamba.

    Respondo que o principal fio a sustentá-lo é a legitimidade dos votos que o elegeram até 2022. Em outras palavras, ele é sustentado por Dona Democracia da Silva.

    Frágil mas respeitável, essa senhorinha tem a sustentá-la um monte de instituições: o STF, o Congresso, o MP, as Forças Armadas, a PF, todas de olho na Constituição.

    Complementarmente, trabalham pela mesma causa a ABI, OAB, a Igreja, a Mídia e até os chamados Mercados, nome genérico das forças do Capital, naturalmente amplas, abrangentes, variáveis e volúveis, mas sempre focadas na estabilidade institucional.

    Entonces, esclareço a amiga, o presidente só poderá ser impedido ou substituído caso incorra em crime comum ou de responsabilidade.

    Ou se cometer algum ato que possa levá-lo a ser considerado inapto para o cargo. Por exemplo, “dar um tiro na cuca”, como sugeriu o general João Figueiredo, ao ser indicado para ocupar o cargo em que agora está seu ex-colega de farda, que foi excluído do Exército por comportamento “fora da casinha”.

    E aqui chegamos ao tema recorrente nos últimos dias, quando todo mundo assiste às diatribes presidenciais contra ministros e outras autoridades, incluindo a Polícia Federal.

    Há indícios de que JB teria envolvimento com grupos fora-da-lei, dirigidos por ex-militares, mas até agora não foram juntadas provas judiciais disso.

    Supostamente, poderia estar implicado em crimes de extermínio como o da vereadora carioca Marielle Franco, mas esse caso, por alguma razão, parece insolúvel.

    De concreto se sabe que, sem dúvida, fez apologia pública da tortura e do estupro, dois crimes hediondos, mas nada disso lhe rendeu algum problema. Até a Mídia agiu complacentemente em relação a esses temas.

    Fora daí, no final das contas, tudo se resume a opiniões, desabafos, ataques, fofocas e manifestações – contra e a favor — que não surpreendem nem escandalizam ninguém, desde que se popularizou o emprego das diversas ferramentas de comunicação social via tecnologia da informação, a endeusada TI.

    O uso dos computadores e dos telefones celulares equipados com câmara fotográfica e diversos aplicativos banalizou a denúncia, o escracho, o humor etc.

    Tudo é passível de “viralizar”. Há nas redes sociais uma pandemia de estupidez.

    Assim, chegamos a esse ponto: sem ser médico, o presidente se acredita no direito de dar orientação técnica na área da saúde em plena crise do vírus covid-19.

    Mal comparando, isso equivale a colocar militares nas redações de jornais e revistas, rádios e TV com a ordem de “escrevam isso” ou “é proibido falar daquilo”.

    Ex-tenente voluntarista, hoje orientado pelos filhos parlamentares e aconselhado por sabe-se lá que amigos, ele se mostra desesperado para dar ordens sem ter se preparado para tal.

    É nitidamente movido por ímpetos juvenis. Dias atrás, a psicóloga Rita de Almeida escreveu no GNN que a idade emocional dele é 5 anos.

    Agressivo, autoritário, neurótico, montou um séquito de fanáticos que põem em polvorosa cidadãos, eleitores, professores, cientistas, países vizinhos e distantes.

    Por motivos óbvios para alguns, conta com o apoio de empresários, políticos e militares. Sem projeto explícito de governo, sua meta é reeleger-se em 2022.

    Não faz sentido, mas é parte da Democracia.

    LEMBRETE DE OCASIÃO

    “Trate seu povo como trata a uma mulher”

    Benito Mussolini, ditador italiano enforcado em 1945

  • CLAUBER CRUZ/ O movimento dos orgânicos não parou

    *Clauber Cobi Cruz

    Perder vidas para um vírus agressivo é o que pode acontecer de pior para a sociedade. No entanto, a principal marca dessa pandemia foi o isolamento social para conter o COVID-19 e preservar o setor de saúde.

    De quarentena, os habitantes das grandes cidades retomaram uma atividade à qual há muito não se dedicavam: cozinhar! E foi cozinhando que se deram conta da importância dos alimentos para a manutenção da saúde.

    Alimentar-se com produtos saudáveis e naturais é decisivo para ter imunidade e proteger-se de qualquer doença.

    Essa conscientização provocou um aumento na demanda por frutas, legumes e verduras – a chamada sessão de FLV nas redes varejistas – justamente os produtos que abrem as portas do mercado de orgânicos aos novos consumidores.

    Resultado: o setor não perdeu o vigor ao longo dessa crise. Ao contrário, a expectativa é a de manter as estimativas de crescimento na ordem de 10% em 2020.

    Dependendo do cenário, essa previsão poderá inclusive ser ampliada. Nas sondagens com diversos players do setor de orgânicos, percebemos um claro otimismo, já que muitos sentiram um crescimento expressivo na procura por seus produtos durante o período de quarentena.

    De fato, o consumo de alimentos orgânicos, livres de agrotóxicos e cultivados de forma a preservar seus atributos nutritivos e ambientais, está associado pelo consumidor com a manutenção de um estilo de vida natural e saudável.

    Se de um lado a conscientização aumentou, de outro, não faltou poder aquisitivo para esse flerte com os produtos orgânicos.

    Da mesma forma que se dispõe a pagar mais pelo prazer de, por exemplo, degustar uma cerveja artesanal, o consumidor percebeu que é viável manter alimentos orgânicos na sua dieta, para agregar mais valor em termos de saúde e bem-estar.

    O crescimento do e-commerce nesse período de quarentena também jogou a favor dos orgânicos. Os serviços de entrega on-line, com fornecimento de cestas orgânicas, garantiram o abastecimento regular e trouxeram uma nova experiência de compra e venda.

    Os produtores, de repente, viram-se diante da necessidade de ampliar sua presença no ambiente digital, encontrando formas de divulgar suas ofertas e solucionar os problemas de logística diferenciada.

    Para o setor de orgânicos, a volta à normalidade terá um impacto mais positivo do que aquele sentido por outros setores.

    Sem aeronaves no pátio esperando para decolar, sem taxas de ocupação com que se preocupar, os produtores orgânicos vão se beneficiar da conquista de novos consumidores, que experimentaram e aprovaram seus produtos. Essa conquista não tem volta.

    Inserido na dinâmica do agronegócio, o setor de orgânicos tende a seguir em sua trajetória de crescimento. Apesar da baixa previsibilidade que a carência de dados abrangentes ainda nos impõe, esse otimismo é reflexo do aumento contínuo que vínhamos percebendo no número de unidades produtivas cadastradas no MAPA.

    Além disso, o espaço que os orgânicos vêm ocupando nas redes varejistas de todo o país é cada vez maior. O potencial para aumentar a produção é enorme, enquanto que o número de consumidores dispostos a consumir mais orgânicos só aumenta.

    Diante da crise provocada pelo COVID-19, o setor de orgânicos não só está conseguindo se manter, como também é um dos poucos com expectativa de crescimento e aumento de produção.

    Produtores, varejistas e prestadores de serviço, confinados nesse período de quarentena, estão aproveitando muito bem as oportunidades para aprender, planejar e inovar.

    Clauber Cobi Cruz é diretor da Organis, entidade setorial dos orgânicos.

  • LIDIANE KLEIN / Nossos idosos precisam de demonstrações de amor

    O momento é crítico não só no Brasil, mas em todo mundo, frente à pandemia. O isolamento tem afetado a saúde mental de toda a população, impreterivelmente. E a terceira idade é a mais vulnerável, o que pode desencadear muitas repercussões psíquicas negativas.

    Nas últimas décadas, houve um crescente incentivo a esta parcela da população para que saísse de suas casas, frequentasse grupos de idosos, fosse fazer atividades que lhe desse prazer. Os idosos sentiram o gosto deste protagonismo e a liberdade proporcionada, aprenderam a se valorizar e a viver de uma forma mais plena. Eis que chega este vírus e a orientação agora é que fiquem em casa.

    As relações sociais, que sempre foram fatores protetivos a sua saúde mental, agora são restritas a ligações e a vídeo chamadas, na sua maioria.

    Eles estão sofrendo com estas restrições. Seus direitos de ir e vir foram tolhidos. A saudade que eles estão dos familiares, dos amigos e, principalmente, dos netos faz o peito apertar. Sentem falta do toque, dos abraços e beijos.

    Muitas famílias se fazem presentes da forma que conseguem, porém denúncias à delegacia do idoso mostram que há filhos usando a desculpa do coronavírus para abandonarem seus pais.

    Com a proximidade do Dia das Mães e a orientação para manter-se o distanciamento social, as famílias têm ficado indecisas sobre como proceder nesse dia. Essa é uma data muito especial, quando são celebrados e demonstrados afetos pela sua matriarca. Mas, infelizmente, um dos desafios mais dolorosos da quarentena é ficar distante de pessoas queridas, sem podermos tocar, abraçar e beijar.

    Neste momento, precisamos ser responsáveis e conscientes de não colocarmos a nós e nem os nossos em risco. Este período irá passar e depois estaremos todos juntos novamente. Sua mãe, ou qualquer outro familiar idoso, precisa sentir-se amparado emocionalmente e sentir que os vínculos afetivos estão fortalecidos.

    O distanciamento que a quarentena nos impõe é físico, mas ele não precisa ser emocional.

    Existem diversas formas de demonstrar o carinho que sentimos por nossa mãe, o mais importante é que ela possa ter a certeza deste sentimento. Muitas vezes deixamos de dizer para as pessoas o quanto elas são importantes para nós, pois deduzimos que elas já saibam. Será mesmo? Nunca é demais um ‘eu te amo’, ou demonstrar gratidão por tudo que a sua mãe lhe proporcionou.

    A quarentena está sendo um tempo de nos reinventarmos em vários aspectos da vida, e essa data comemorativa às mães não será diferente. Teremos que ser criativos para que essas pessoas tão especiais nas nossas vidas possam sentir-se valorizadas e amadas.

    Algumas dicas para surpreender sua mãe:

    Programe um café ou almoço por vídeo-chamada, assim conseguirão compartilhar deste tempo juntos;

    Prepare um vídeo com fotos de momentos que passaram juntos, ela poderá matar sua saudade;

    Deixe flores, presente ou mesmo uma sexta de café na manhã na sua porta;

    Escreva uma cartilha para sua mãe, demonstrando todo carinho que sente por ela.

    É importante termos em mente que este período difícil irá passar, e cada um fazendo a sua parte, prevenindo-se, sairemos mais exitosos.

    Nem todas as pessoas possuem recursos internos de enfrentamento para a situação, ajuda profissional pode se fazer necessária. Se você perceber que seu familiar idoso está com dificuldades de adaptação e enfrentamento, busque um auxílio profissional especializado, ninguém precisa sofrer sozinho.

    • Lidiane Klein é psicóloga, especialista em Neuropsicologia, mestre em Psicologia e Saúde, doutoranda em Ciências da Reabilitação.