Categoria: Análise&Opinião

  • Qual é, Mister Bols?

    Estamos sendo fritos em óleo do pré-sal
    GERALDO HASSE
    O pessoal estranhou quando, ainda candidato, o capitão bateu continência para a bandeira dos EUA.
    Tudo bem, a bandeira é um símbolo nacional, portanto, pode-se argumentar que ele reverenciou o povo americano.
    Agora, convenhamos, não pegou bem esse lance de bater continência para uma subautoridade do governo americano.
    Não precisava ser tão subserviente. Se em vez de um conselheiro viesse o próprio presidente Trump, Mr. Bols se ajoelharia?
    A franqueza do presidente eleito vem tornando fácil o entendimento das coisas. Parece que ele quer deixar claro que se orienta para entregar o comando nacional aos gringos. Como se não bastasse a influência vigente. Talvez seu projeto de aposentadoria seja morar em Miami. Mas para isso não precisa se jogar aos pés dos poderosos.
    Quando diz que os médicos cubanos eram agentes secretos infiltrados, Mr. Bols está admitindo implicitamente que o Brasil deve renunciar a qualquer veleidade de soberania diante da potência hegemônica.
    Pelo que tem deixado escapar em declarações e desabafos, ele vai ajudar no desmonte dos direitos dos trabalhadores, quer restringir a liberdade de expressão do magistério, afrouxar a legislação ambiental, aprofundar a desnacionalização do petróleo e atender às pressões dos EUA para acuar Cuba, afastar-se da China e abrir novas brechas ao capital estrangeiro (leia-se americano) em nichos privilegiados da economia.
    São vários retrocessos encadeados. No fundo, temos aí não apenas um caso de inépcia, mas de ruptura de compromissos históricos e o abandono de princípios inerentes à soberania.
    No popular, a palavra que define esse comportamento é entreguismo. No léxico, pode ser traição.
     
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    ENTREGUISMO – Termo utilizado de forma pejorativa a partir do final da década de 1940 para designar a corrente que defendia um modelo de desenvolvimento para o Brasil baseado na participação do capital internacional e na “entrega” da exploração das riquezas naturais a grupos estrangeiros. Aos entreguistas se opunham os nacionalistas, defensores do desenvolvimento baseado no capital nacional. Surgido a partir da campanha para a exploração do petróleo, o termo percorreu toda a década de 1950, caindo em desuso após 1964.

    (Verbete do Centro de Pesquisa e
    Documentação da História Contemporânea
    da Fundação Getúlio Vargas)

  • Carta a Luiz Schwarcz

    Pedro Paulo Graczcki
    Carta de amor aos livros uma ova.
    O sr. Luiz Schwarcz, da Cia das Letras, escreveu uma pseudo-carta de amor aos livros e nos pede algo que ele nunca teve: solidariedade e defesa de classe. Pois bem, qualquer estagiário sabe que ter somente um fornecedor, ou somente um ou dois clientes é burrice. Ou erro estratégico se preferir.
    Quer saber? Bem feito, vocês nos ferram há muitos anos. Sou pequeno livreiro em Cachoeira do Sul (RS), faço 200 feiras de livros por ano. Sem ajuda governamental. E faz muitos anos que o Sr. Schwarcz me ignora e tenta me derrubar. Ele com a Saraiva, a Cultura, a Fnac e as grandes editoras, fizeram de tudo para destruir o mercado livreiro, e agora que destruíram ele pede solidariedade, clama por socorro. Bem feito!!!!
    Aprendam, nunca apostem todas as fichas numa única jogada e nunca menosprezem pequenos parceiros.
    Nossa maior incoerência é termos muito mais editoras que livrarias. É como se tivéssemos 1.000 frigoríficos e 50 açougues no Brasil inteiro. E os frigoríficos ainda tentassem acabar com os açougues. Dá pra imaginar? Pois é assim mesmo no mercado livreiro. E para piorar as “grandes editoras e livrarias” tem 100% de isenção de impostos enquanto as pequenas pagam 7,8% sobre o faturamento.
    Agora a vaca foi atirada no precipício. Que momento lindo, que oportunidade única para sentarmos todos, pela primeira vez em pé de igualdade e discutirmos de igual pra igual nosso futuro. Ao invés de uma mega-caloteira, por que não, 200 pequenas livrarias?
    O Brasil tem mais de 5 mil municípios, mas os senhores só querem vender nas capitais. Dos 200 milhões de habitantes quantos compram na internet?.
    Não existe associação de livrarias. As associações que estão por aí são todas tomadas por grandes editoras ou grandes livrarias. Quem fala em nosso nome, dos pequenos livreiros?
    Schwarcz pede atenção aos protagonistas, mas nunca consideraram o protagonismo dos livreiros que são os Dom Quixote do mercado, correndo para cima e para baixo com caixas de livros para levar nossa literatura onde os senhores jamais foram. O senhor demitiu seis empregados de salários gordos? Eu vi muitos colegas mudando de profissão depois de 20, 30, 40 anos de estrada por que os descontos praticados pela Saraiva eram muito superiores ao preço que vocês nos vendiam.
    É no andar de baixo que a vida pulsa mais profundamente. No andar de cima os acionistas têm capacidade financeira pessoal para salvar suas empresas. Que bom, então tá tudo ok? Agora é arrumar a casa, pedir umas orações, uma ajudinha pra galera e seguir em frente!
    Caro Sr. Schwarcz, nós livreiros estamos aqui, sempre estivemos e estaremos, mesmo quando os senhores tiverem desistido de publicar livros por que o lucro é baixo. Se querem ajuda pra arrumar a casa, então queremos ser convidados pra festa quando ela acontecer.
    Querem ideias pra sair da crise? Tenho várias, coloco elas em prática todos os dias. E é por isso que vou reabrir a Livraria São Paulo ainda em dezembro. Maior, mais bonita e mais prática, com a certeza que sem os senhores dando as cartas terei mais chance de sucesso no mercado.
    Quer saber? Bem feito.

  • Pacto Alegre

    CARLOS ALBERTO CASTRO
    Há décadas Porto Alegre se desmilingue enquanto o Rio Grande do Sul
    retroage à condição de “latifúndio agropastoril” de um século atrás.
    E a capital que já foi um centro de desenvolvimento [“inovação”]
    técnico e gerencial importante é hoje periferia dos outros dois polos
    econômicos da Região Sul – Paraná e Santa Catarina.
    Sem dúvida é preciso fazer alguma coisa!
    E o que não estou entendendo?
    Não estou entendendo as “circunstâncias” que conformam este Pacto
    Alegre da Aliança pela Inovação. E cito algumas destas
    “circunstâncias” [“intrigantes”]:

    • As universidades em Porto Alegre dispensaram recentemente professores
      e fizeram radicais mudanças nos seus currículos e na suas ofertas de
      titulação;
    • Centros de pesquisa do Governo do Estado – fundações fortemente
      integradas com as universidades – foram EXTINTOS, apesar dos
      insistentes alertas da própria comunidade universitária;
    • A sede de grupos empresariais importantes de origem gaúcha deixaram
      Porto Alegre em função do declínio econômico;
    • Diversos setores, como o da saúde, constituíam polos locais com
      densidade tecnológica “enraizada” nas nossas universidades mas foram
      “colonizados” por corporações geralmente estrangeiras;
    • A RBS, uma das “âncoras” assumidas do Pacto Alegre, está numa
      “trajetória” no mínimo estranha, pois desde 2014 faz movimentos em
      sentido contrário daqueles que se supõem serão “sustentados” pelo
      pacto;
    • E o mais intrigante: a CRISE FISCAL que infelicita e mina
      absolutamente as possibilidades de reversão da anomia e estagnação no
      Brasil, no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre não é ao menos motivo de preocupação, portanto, não terá nenhum tratamento dispensado pelo  Pacto Alegre.

    Então não sei se foi feliz este nome de Pacto Alegre, pois para mim
    não passa otimismo. Antes, me soa como ironia triste…

  • A avalanche antidemocrática

    Passado um mês das eleições presidenciais, o eleito ignora a oferta de medalhões da política e, fora os notórios Paulo Guedes na Economia e Sergio Moro para a Justiça, escolhe figuras obscuras e afinadas com um ideário retrógrado.
    Preso a uma camisa-de-força ideológica, ele está sendo coerente com o que pregou na campanha eleitoral, desdenhando dos direitos humanos e ignorando o conceito elementar de cidadania.
    Há quem diga que o Brasil está voltando a 1964, mas não precisamos ir tão longe: basta que fiquemos em 1979, quando imperava o arbítrio ditatorial, e o casuísmo político era moeda de troca na vida nacional.
    A maioria do eleitorado, com os 55% dados à Direita, colocou o país à mercê de uma avalanche conservadora que, a pretexto de combater a corrupção, encaminha-se para a destruição de programas sociais criados nos governos petistas.
    Seja lá que nome se dê a isso — harakiri ou tiro-no-pé –, o eleitorado deu carta branca para a privatização de estatais, todas estigmatizadas como antros de empreguismo e focos de corrupção, tendo como referência o que se descobriu na Petrobras.
    Assim, também por “culpa do PT”, empresas tradicionais como Banco do Brasil, BNDES, Caixa, Correios, Eletrobrás e outras foram colocadas no mesmo patamar da ineficiência e vulnerabilidade.
    A esta altura do desenvolvimento brasileiro,  privatizar estatais eficientes é rasgar páginas da história nacional. Retrocesso!
    Custa crer que compactuem com isso as Forças Armadas, que estão passando a exercer a tutela do governo do seu ex-pupilo desgarrado.
    Se por um lado ele foi treinado para respeitar a hierarquia militar e seguir os regulamentos – dos quais se afastou, sendo por isso “reformado” para não ser banido –, por outro passou tanto tempo na Câmara a desfrutar da imunidade parlamentar que pode se achar no direito de ultrapassar os limites, como fez ao enaltecer a tortura e o estupro.
    Quem vai com muita sede ao pote, corre o risco de quebrá-lo. Por enquanto, o eleito desfruta da leniência que protege os neófitos, mas em algum momento alguém precisará lhe ensinar bons modos. Quanto tempo levará para descobrir que o mundo não é binário e que o Brasil tem uma bem-sucedida tradição de altivez e pluralidade no concerto das nações?
    A pressa em agradar os donos do Mercado alimenta a desesperança e a frustração da maioria sem recursos.
    Quando diz que os médicos cubanos eram agentes secretos infiltrados, ele está admitindo implicitamente que o novo governo renunciou a qualquer veleidade de soberania diante da potência hegemônica.
    Esse primarismo político, ideológico e diplomático é do tempo da Guerra Fria.
    Voltamos, portanto, à doutrina de segurança nacional formulada em 1949 pelos intelectuais da Escola Superior de Guerra liderados por Golbery do Couto e Silva.
    Essa doutrina de alinhamento automático aos EUA foi reformulada no governo Geisel (1974-1979), que ousou dar uma guinada para a Europa, a Africa e a Asia por meio de uma série de acordos técnicos e econômicos.
    Acordo nuclear com a Alemanha; acordo tecnológico e comercial com o Japão para colonização do cerrado e exportação de soja; abertura com a Africa para obras de empreiteiras que abriram caminho para a exportação de serviços e equipamentos.
    Pragmatismo responsável, esse o nome do jogo.
    Pelo que tem deixado escapar em declarações e desabafos, o futuro presidente não conhece esses detalhes da História ou, com a cabeça feita não se sabe por quem, nutre por isso tudo um profundo desprezo.
    O que o Brasil tem de melhor, do ponto de vista econômico, será mesmo concedido aos investidores internacionais? A parca experiência adquirida na gestão das riquezas nacionais vai para a cucuia? Qual o papel das Forças Armadas na atual conjuntura: serão agora pilares da nacionalidade ou correias da globalização financeira?
    Quem poderá resistir a essa avalanche conservadora?
    A Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o Supremo Tribunal Federal, as instituições nacionais: universidades, sindicatos, os movimentos sociais, a sociedade civil representada pela OAB, ABI e, no fundo, a população.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “Às favas os escrúpulos de consciência, senhor Presidente!”
    Coronel Jarbas Passarinho ao apoiar a edição do Ato Institucional Nº 5 em 13/12/1968

  • A pororoca

    GERALDO HASSE
    Como diriam Gabeira e Mangabeira, não se pode ignorar a força de um resultado como o de 28 de outubro, algo que os narradores radiofônicos de outrora descreviam como “um placar elástico”.
    No entanto, é preciso olhar os fatos com uma perspectiva histórica – um olho na frente, outro no retrovisor – e tentar compreender como e porque a maioria dos 5 a 4 caiu na cantilena dos missionários, nos slogans dos milionários e nas palavras-de-ordem dos militantes reacionários.
    Dúvidas vêm e vão sem resposta. Quem está certo não precisa sair por aí gritando — a hora do grito passou.  A verdade virá ao natural, como a água que brota no alto e forma o rio a caminho do mar.
    O que os governos petistas fizeram de coisas boas seria suficiente para mantê-los no poder por mais tempo, mas os famosos malfeitos pesaram na balança. Além disso, a conjuntura adversa ajudou a formar a pororoca que aí está.
    Se Lula pretendia ser uma ideia (de gerar oportunidades para o lado pobre da sociedade), o que temos no bolso, agora, é uma anti-ideia ou uma não-ideia.
    Seja o que for, é potencialmente perigoso. Não é o perigo em si, mas uma representação dele. Algo como um ator que adentra o palco sem a conveniente preparação, e passa a recitar falas sopradas por assessores, amigos, familiares e gurus secretos situados sabe-se lá aonde.
    A pororoca capturou arrivistas, evangélicos, saudosistas da ditadura, revoltados com o PT, empresários sequiosos por oportunidades, jovens carentes, medrosos e ignorantes — enfim, uma magna malta de oportunistas de bíblia na mão e uma vontade indomável de trocar o dedo em riste por um trintão. Tudo isso turbinado por um merchandising de Primeiro Mundo, expresso no Facebook e em outros mecanismos eletrônicos.
    A pregação embutida nesse arrastão desconexo procura levar o país para o Norte, onde impera Tio Sam, no momento representado por um bufão pior do que o canastrão Ronald Reagan. O que nos leva a uma conclusão pesarosa: quanto mais o mundo avança tecnologicamente, menos progride no campo da ética.
    Por Trump e outros eleitos sabemos que o regime republicano, com todas suas instituições, é uma representação teatral do sistema capitalista. Ou, seja:
    Um rico vale mais do que uma multidão de pobres
    O patrão é mais importante do que os empregados
    Se tem amigos no poder, um indivíduo possui mais direitos do que a comunidade
    O voto é submisso ao dinheiro.
    A curto prazo, os símbolos se sobrepõem aos fatos; e as ideias rolam subjugadas pela força da correnteza.
    Nada a fazer, por enquanto. Só observar e talvez fazer prognósticos sobre quando lhes cairão os butiás do bolso.
     
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “Manter-se unido traz boa fortuna”
    Livro do Tao (I Ching).

  • Temer x Moro

    Sem o foro privilegiado, os processos contra Michel Temer terão outro andamento.
    À luz dos fatos publicados e documentados, dificilmente ele escapará de uma condenação.
    Como vai ser? Vai para a cadeia, como Lula?
    Num governo que tem o combate à corrupção como bandeira, que papel terá o Ministro da Justiça nesse caso?
    Ou vão arranjar um álibi para Temer? E Jucá? E Eunício?
    O Ministro Moro não morrerá de tédio.

  • Birutas: Atem os cintos, o piloto não é confiável

    GERALDO HASSE 
    A História não registra quem inventou a biruta, o prosaico saco de pano hasteado nos aeroportos para orientar os pilotos de avião sobre o sentido do vento.
    Talvez tenha sido ideia do Alberto dos Santos Dumont, um dos brasileiros mais criativos da História.
    Pra quem inventou um veículo capaz de voar, criar a biruta foi fichinha: certamente Beto a bolou na mesma hora em que teve a ideia de atar o relógio no pulso, porque não tinha uma terceira mão pra tirar o patek philipe do bolsinho da calça enquanto fazia suas experiências aéreas nos arredores de Paris.
    Por que falo de biruta? É a metáfora da hora.
    Estamos sob nova direção pela vontade de 55% dos eleitores que decidiram: o Brasil deve caminhar pela direita após andar por alguns anos pela via da centro-esquerda.
    Cabe perguntar se os brasileiros votaram baseados na biruta ou inspiraram-se em alguma sugestão do vento (“Blowing in the Wind”, como diz a canção) ou, ainda, no desejo secreto de cantar “Marcha, Soldado”?
    É simplesmente absurdo que o exercício do voto, pilastra da democracia, tenha se tornado um espasmo quadrienal praticado a partir de sinais de fumaça emitidos por alguns aprendizes de feiticeiro que assopram dicas para os candidatos: “Diga que vai fazer isso porque é isso que as pessoas querem ouvir…”
    Aí, depois de algumas semanas de bate-boca no rádio e na TV, os eleitores vão lá e apertam algumas teclas com a convicção de que estão fazendo a coisa certa.
    Agora praticado em urnas eletrônicas que não emitem comprovante, o voto se tornou um exercício mais simbólico do que efetivo porque as campanhas eleitorais caíram nas mãos dos falastrões da marquetagem, que aplicam aos candidatos as técnicas de venda de produtos de consumo.
    Encerradas as votações, os eleitos passam a responder à orientação de equipes que obedecem a planos macro de dominação político-ideológica.
    A partir daí, os eleitores são arquivados por quatro anos e passam a ser considerados apenas consumidores.
    Pergunnta-se por que não se usam os recursos da eletrônica, celulares, internet etc. para aprimorar de fato a democracia mediante consultas periódicas — mensais, bimestrais ou trimestrais, por exemplo — sobre questões fundamentais da vida das pessoas, famílias, comunidades?
    Se as pessoas se acostumaram a digitar coisas  nos teclados em geral, por que não poderiam teclar SIM ou NÃO em relação a temas como PREVIDÊNCIA?
    Por que as decisões fundamentais têm de ficar exclusivamente na mão de parlamentares que trocam seus votos por favores oferecidos por intermediários poderosos?
    No fundo, birutas somos nós, os cidadãos.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “É preciso que o fruto apodreça antes que a semente nova possa se desenvolver”.
    (Do I Ching)

  • O plano (2)

    O Programa de Recuperação Fiscal defendido pelos dois candidatos ao governo do Estado como caminho certo para tirar o Rio Grande do Sul da crise revela uma visão de curto prazo dos dois concorrentes, que tanto falam em futuro.
    Há 20 anos um plano muito semelhante e com as mesmas motivações deste foi apresentado como a solução para a grave crise financeira que o Estado então vivia, subjugado por uma dívida de R$ 9 bilhões.
    Não só o governador da época, Antonio Britto, e os partidos aliados celebravam o acordo da dívida como a solução. Foi decisivo o apoio da mídia escrita falada e televisionada que era tudo naqueles tempos sem interntet, mas já com fake news. .
    O jornal Zero Hora chegou a manchetear sobre a foto em quatro colunas de um sorridente Britto ao lado do ministro Malan, no dia em que foi assinado o acordo de renegociação da dívida com a União: “Rio Grande Liquida a Dívida” .
    Não mereceu uma linha num canto de página o discurso naquele dia do líder da oposição, deputado Flávio Koutzii, denunciando que o acordo “atendia a interesses políticos imediatos, mas era lesivo aos interesses do Estado”.
    Nestes 20 anos, o Estado já pagou R$ 25 bilhões e ainda deve R$ 53 bilhões.
    O atual acordo, contido no Programa de Recuperação Fiscal, suspende a dívida com a União por três anos, deixando o Estado de pagar R$ 11,3 bilhões.
    Segundo cálculo do CEAPE, quando retomar os pagamentos em 2022 estará devendo R$ 65 bilhões. E o desembolso anual pulará para mais de R$ 4 bilhões por ano.
    Dizem que não há outro caminho, como se dizia há 20 anos.
     
     
     

  • Catadores, cuidado

    GERALDO HASSE
    “Ei, Tio, tem um real aí?”
    Para atender a pedidos como esse, há pessoas que carregam algumas moedas. A doação não é solução, mas ameniza a situação do infeliz e alivia a culpa do doador por viver alguns degraus acima do subemprego.
    No entanto, como as coisas estão piorando, cabe perguntar quando chegará o dia em que não bastarão moedinhas ou notas de baixo valor para contentar os subtrabalhadores esfarrapados que nos estendem as mãos, sem esperança em promessas do Mercado de Trabalho ou de algum governo. É impossível não reconhecer o aumento do número de catadores que vão passando com seus carrinhos de compras.
    Com base nos dados do Censo de 2010, havia então 398,3 mil catadores de lixo no país. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), eles obtinham um ganho médio mensal 10% acima do salário mínimo – hoje seria um pouquinho acima de 1 mil reais. O problema é que hoje há mais catadores do que antes e, com a crise econômica, o volume do lixo diminuiu.
    Em 1988, um catador precisava de 40 latinhas para reunir um quilo de metal. Hoje, vinte anos depois, para fazer o mesmo quilo do metal reciclável, é preciso juntar 70 latinhas, pois elas ficaram mais levianas, menos espessas.
    Quanto ao valor recebido, as latinhas deixaram de ser o top de linha da reciclagem. Papelão está na frente, seguido pelos plásticos. Garrafa de vidro, junto com o papel jornal, não vale quase nada. Enfim, também no valor dos materiais recicláveis, quem manda é o Mercado.
    Desanimado, o catador apela:
    “Ei, Tio, tem um real aí?”
    E aí desponta nítido o outro lado da moeda: o R$ que começou numa incrível paridade com  o dólar (R$ 1,00 para US$ 0,86) nos idos de 1994, marco zero do Plano Real, está valendo menos de um terço do que valia há 24 anos.
    Ou, seja, comparado com a moeda internacional mais cotada no mundo, o real perdeu mais de 200% do seu poder de compra original, coisa que se reflete nas trocas internacionais do Brasil, inclusive na cotação dos títulos que o governo brasileiro coloca no mercado de capitais para financiar a dívida pública, cujo montante se aproxima do total do Produto Interno Brasileiro.
    O ex-governador cearense Ciro Gomes (PDT) bateu nessa tecla durante a campanha eleitoral do primeiro turno: metade do Orçamento federal está comprometido com o pagamento de juros e amortizações da dívida. Não é por acaso que investidores estrangeiros estão comprando empresas brasileiras ou ocupando espaços econômicos que poderiam ser preenchidos por capitais nativos.
    O interesse público é um clichê jogado no lixo.
    O resultado de toda essa brutal desigualdade é visível nas ruas, onde se amontoam os pobres diabos que tentam tirar o sustento do lixo descartado pela sociedade estabelecida.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “Existe um povo que a bandeira empresta  
    P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…  
    E deixa-a transformar-se nessa festa  
    Em manto impuro de bacante fria!…  
    Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,  
    Que impudente na gávea tripudia?  
    Silêncio.  Musa… chora, e chora tanto  
    Que o pavilhão se lave no teu pranto!
    Auriverde pendão de minha terra,  
    Que a brisa do Brasil beija e balança,  
    Estandarte que a luz do sol encerra  
    E as promessas divinas da esperança…  
    Tu que, da liberdade após a guerra,  
    Foste hasteado dos heróis na lança  
    Antes te houvessem roto na batalha,  
    Que servires a um povo de mortalha!”
    Trecho do poema Navio Negreiro, de Castro Alves (1847-1871).
  • O plano

    Os dois candidatos que disputam o segundo turno na eleição para o governo do Rio Grande do Sul no dia 28 de outubro tem a mesma âncora para estabilizar as finanças do Estado: o Programa de Recuperação Fiscal.
    Os dois fazem propaganda enganosa a respeito deste assunto.
    Sartori dá a entender que o plano é seu (“Nós temos um plano”) e que já está aprovado.
    Eduardo Leite diz que é favorável ao plano, “que é do governo Temer”, e que vai “sentar com o próximo presidente” e negociar condições mais favoráveis.
    O Programa de Recuperação Fiscal resulta de um projeto do governo Temer, aprovado e transformado em lei pelo Congresso Nacional.
    Na lei estão as regras e as condições para a adesão dos Estados, que pleiteiam a suspensão do pagamento das dívidas com a União por três anos, renováveis por mais três.
    O Estado negocia há dois anos e meio e ainda não conseguiu cumprir as principais exigências do Programa, que é a privatização de estatais e o grau de comprometimento da receita líquida com pessoal.
    Tanto Sartori quanto Leite apostam que, uma vez eleito, qualquer um deles terá respaldo para remover rapidamente os entraves e obter condições para assinar a adesão do programa.
    Não levam em conta que a partir do dia 28 haverá um novo presidente eleito e que esse fato há de condicionar todos os atos do governo até o fim do ano.
    A partir de janeiro haverá um novo governo se instalando e numa situação crítica. E há 16 estados querendo aderir ao Programa de Recuperação Fiscal.
    Se for Haddad, uma de suas propostas é revogar as medidas de ajuste fiscal adotadas por Temer. Nada leva a crer que levaria adiante esse programa.
    Se for Bolsonaro, as chances são melhores, mas nada garante que o socorro aos estados será uma prioridade. Sem falar que o governo vai começar com o presidente no hospital, passando por duas cirurgias…
    Quanto à “sentar com o novo presidente para negociar melhores condições” é mero jogo de palavras. As regras estão na lei, não é o presidente que decide.