Categoria: Análise&Opinião

  • A República e o mito de Floriano Peixoto

    Trecho do livro A Espada de Floriano,

    à venda na banca da ARI na Feira do Livro de Porto Alegre:

    Na manhã de 15 de novembro de 1889 as tropas cercaram o Quartel-General onde o Conselho de Ministros  passara a noite reunido.
    Assestaram metralhadoras e canhões leves contra o prédio e gritaram Vivas à República. O líder dos amotinados entrou a cavalo no pátio.
    Desmontou, subiu as escadas e intimou todos a se retirarem para suas casas. O governo estava destituído.
    Horas depois, o Imperador, ainda sem acreditar no que lhe dizem, recebe três emissários dos sediciosos. Ele e sua família deviam deixar o país naquele mesmo dia.
    Herdeiro de um trono vitalício, desde os 15 anos,  Pedro II não representava mais nada.
    O Império fundado por seu pai, ao declarar o Brasil independente de Portugal, há  66 anos, estava acabado. Daria lugar a uma República Federativa em que o poder seria conferido a um presidente através do voto popular e renovado periodicamente.
    Não chegou a ser a revolução que poderia ter sido.  Depois do surto de radicalismo  jacobino dos primeiros anos, os grupos dominantes do regime imperial – os barões do café de São Paulo, os coronéis dos engenhos do Nordeste, os grandes charqueadores do Sul – se reorganizam e retomam o poder. Não foi contudo uma simples manobra, que muda na superfície para no final deixar tudo como sempre esteve.
    Os ativistas republicanos expressavam as classes médias e proletárias que surgiam nas cidades com as mudanças na economia. Alguma coisa dessas novas forças e de seus interesses a nova situação teve que incorporar, até para assegurar a própria sobrevivência.
    Até hoje se discute o que efetivamente mudou.  Ficou a pergunta que não esconde a frustração e o desencanto: os “ideais republicanos”, da igualdade, da fraternidade, da liberdade, a República do cidadão, dos direitos civis, do interesse público, a República dos sonhos de Silva Jardim, em que desvão da história se extraviou?.
    As tentativas de resposta desdobram-se em inúmeras variantes e o resultado é que nenhuma delas explica, talvez, pelo simples fato de que as teorias nunca conseguem apreender a realidade inteira.
    Deodoro, o chefe militar que proclamou a República, é um homem acossado pelas circunstâncias. Quase todos os participantes das reuniões na casa dele, nos dias anteriores ao golpe, registram sua relutância.
    Até o último momento, ele queria apenas a deposição do Ministério e afastava a ideia de República. Relutou, depois, em aceitar a chefia do governo. Comanda o golpe, toma o poder mas não consegue sustentação e cai um ano depois de derrubar o imperador.
    Floriano Peixoto, o vice que assumiu,  era um “soldado por instinto”, um dos heróis da Guerra do Paraguai que ainda estava na memória de todos. Vice de Deodoro, toma seu lugar e diz que seus inimigos são os inimigos da República. Consegue unir o Exército, ao mesmo tempo em que divide a Marinha, onde é maior a resistência.
    Apoia-se nos Jacobinos e usa seu grande prestigio no meio militar para esmagar os movimentos armados que o desafiam.
    Os jacobinos vão contribuir com o discurso que sustentará seu governo.
    O Exército, que não apoiou o golpe de Deodoro, coloca-se inteiro ao lado de Floriano, quando ele diz que a República está em perigo. Muitos de seus oficiais mais valorosos deram a vida para cumprir a ordem de defender o novo regime a qualquer preço, como fez o coronel  Gomes Carneiro, que morreu defendendo a Lapa. Outros mataram friamente, como fez o coronel Moreira Cesar, que fuzilou 185 pessoas em Florianópolis.
    Euclides da Cunha, que o chamou de “esfinge”, diz que Floriano foi um ditador que cresceu às avessas, “avultando no cenário político da pátria pela depressão que se escavara em seu entorno”.
    Para Rui Barbosa, Floriano foi o sinônimo de militarismo. “O militarismo está para o Exército assim como o fanatismo para a religião, o charlatanismo para a ciência”, dizia.
    Nelson Werneck Sodré, militar e historiador, diz que as forças  militares encarnadas por Floriano foram naquele momento “criadoras da vontade do povo”, “porta-vozes dos anseios populares”. O “Marechal de Ferro” pagaria até hoje, segundo Sodré, o crime de ter defendido as causas populares. “Quem deseja estudar-lhe a figura singular não encontra fontes idôneas, todas transmitem a imagem deformada, carregada de vícios morais e descomedimento…”
    A interpretação de Sodré, intelectual de formação marxista, revela que a ditadura não é só um recurso da direita para impedir as mudanças, mas também um mito da esquerda que não descarta um regime de força, com apoio popular para acelerar as mudanças”.
    Uma vez no poder, os militares republicanos relutaram em devolver aos civis. Achavam que o regime novo ainda não estava consolidado, precisava da proteção – das armas, subentendia-se. Mas não tiveram unidade para manter Floriano nem para encontrar um substituto para ele.
    Quando todos pensam que Floriano vai resistir, ele vai para casa.
    Ficou esse sentimento de que a ditadura republicana, inaugurada por Deodoro, continuada por Floriano, teve fim prematuro, “antes de completar sua obra”, que ainda hoje aparece no fundo de uma frustração geral com o projeto republicano.
    Parece ter ficado como uma nostalgia na memória nacional, essa ideia de que nossas instituições republicanas, por terem uma incompletude original, são sempre frágeis enjambrações, que de tempos em tempos precisa da proteção das armas para não sucumbir.   .
    O Floriano que conhecemos hoje ainda é “um homem cercado de sombras”. O certo é que depois dele, o imaginário popular não se livrou mais de ideia de que só uma ditadura militar pode salvar o Brasil.

  • Mina Guaíba e o Polo Carboquímico

    Geraldo Hasse

    “A Mina Guaíba é um projeto de mineração de carvão mineral, areia e cascalho…”, informa, na primeira linha, o preâmbulo do estudo de impacto ambiental sobre a exploração da jazida de carvão mineral situada na divisa dos municípios de Charqueadas e Eldorado do Sul, no baixo vale do rio Jacuí, na região metropolitana de Porto Alegre.

    O objetivo do extenso documento apresentado pela Copelmi MIneração Ltda – a maior mineradora gaúcha — é obter da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fepam) a licença para instalar a mina num local em que o cascalho e a areia figuram como detalhes extremamente secundários de um projeto de inédita abrangência para a economia do Rio Grande do Sul, na qual o carvão mineral está presente há mais de 100 anos.

    Consciente de que não há mercado para o carvão como simples insumo da geração de eletricidade, a Copelmi propõe o aproveitamento desse mineral – muito abundante no território gaúcho — como matéria-prima de uma cadeia de produtos: a partir do gás sintético a ser extraído do carvão e usado como fonte de produção de eletricidade, projeta-se chegar à utilização completa das sobras do processo termelétrico por indústrias de fertilizantes, cerâmica, cimento e construção civil.

    Tudo isso conformaria o chamado polo carboquímico de Charqueadas, articulado pelas mais recentes autoridades estaduais, especialmente pelo governo de José Ivo Sartori (2015-2018), o mesmo que em 2017, contraditoriamente, extinguiu a Cientec, a fundação estadual que pesquisava a extração de gás do carvão gaúcho, visando aumentar a eficiência do processo de aproveitamento do mineral, sem emissão de partículas de sua queima.

    Como é natural, o projeto da Copelmi desencadeou uma polêmica envolvendo empresários, técnicos, ambientalistas e a população residente nas vizinhanças da Mina Guaíba — na realidade, o coração do futuro polo carboquímico de Charqueadas. Enquanto promovia audiências públicas, o Ministério Público Estadual abriu processo sobre a validade dos polos carboquímicos gaúchos — há outro previsto em Candiota, no sul do Estado.

    Já a Fepam, após uma primeira avaliação do projeto apresentado pela Copelmi, interpôs dezenas de exigências para a adequação ambiental do empreendimento, que vem gerando temores também em habitantes da capital quanto ao risco de contaminação da água do rio Jacuí, sua única fonte de abastecimento.

    Surpreendentemente, ninguém questiona a viabilidade econômica do projeto: mesmo sabendo-se que a Copelmi não tem cacife financeiro nem tecnológico para bancar todo o empreendimento, acredita-se que a mineradora tem o direito de buscar parceiros que entrem com o capital e a tecnologia para gaseificar o carvão, desviando-se assim do método convencional de queima de um produto que, além de estigmatizado como altamente poluidor, tem alto teor de cinzas.

    No calor da discussão, os defensores do polo carboquímico argumentam que a gaseificação do carvão para fins energéticos é uma tecnologia nova e limpa que vem sendo usada na Alemanha, na China e…por que não no Rio Grande?  De propósito ou não, a Copelmi articula uma façanha.

    Se for concretizado, o empreendimento de Charqueadas/Eldorado do Sul pode dar um impulso significativo à economia gaúcha, tanto no aspecto da autossuficiência energética quanto no aproveitamento de resíduos para a fabricação de outros produtos como fertilizantes nitrogenados, de uso intenso pelos agricultores do Rio Grande do Sul.

    Ressalvado seu incerto impacto ambiental, ainda em avaliação, o polo carboquímico configura um arranjo produtivo comparável a projetos históricos como o da indústria naval de Rio Grande, o polo petroquímico de Triunfo e o projeto da Aços Finos Piratini em Charqueadas.

    Geraldo Hasse é jornalista.

  • Bolsonaro funda partido e dá um salto no escuro

    José Antônio Severo
    Nesta terça-feira, dia 12, o presidente Jair Bolsonaro dá um salto no escuro. Ele e seus  filhos decidiram formar um partido político próprio em tempo recorde para enfrentar as forças adversas no seu próprio campo político/ideológico. Com isto, o chefe do governo pretende se libertar das amarras do sistema partidário tradicional e assumir sozinho o comando das bases eleitorais. Os líderes do PSL dizem pagar para ver.
    O futuro partido, já batizado de Aliança pelo Brasil, lembra o nome histórico da Arena (Aliança Renovadora Nacional), o partido que absorveu todas as forças que apoiaram o regime militar no tempo do bipartidarismo, em 1967, até ser extinga na reforma partidária de 1979.
    Entretanto, naquele tempo a Arena emergiu de algumas das legendas mais poderosas da época, como UDN, um pedaço majoritário do PSD e uma dezena de outras siglas consolidadas, que se opuseram ao governo do ex-presidente João Goulart. Nesta feita, Bolsonaro sai do seu partido, o PSL, sem nenhum apoio partidário, levando consigo apenas uma parte da agremiação. Terá de disputar o mercado eleitoral de um a um.
    Um desafio familiar
    Essa tarefa de organização ele vai dividir com seus três filhos, que serão seus lugares-tenentes. A tropa de choque será de Carlos, o 02, com suas redes sociais. O presidente do PSL em São Paulo, Eduardo, o 03, cuidará da organização; o senador Flávio, o 01, do PSL do Rio, fará o trabalho decampo. Assim, os quatro Bolsonaros pretendem enfrentar as forças políticas organizadas já na eleição municipal do ano que vem. Um trabalho hercúleo, diria o Conselheiro Acácio (personagem do romancista português Eça da Queiroz).
    Seus antigos aliados prometem colocar obstáculos ao projeto da família Bolsonaro. O presidente do PSL, Luciano Bivar, está preparando uma força-tarefa para impugnar assinaturas de adesistas nos cartórios eleitorais. Com isto, os remanescentes do partido pretendem atrapalhar a formação da documentação mínima necessária. O prazo final para registro na Justiça Eleitoral e participar das eleições municipais será março/abril do ano que vem.
    O presidente, em sua vida parlamentar, foi pouco ativo. Sua marca foi um proselitismo vigoroso. Aprovou apenas dois projetos de sua autoria e uma PEC. Nesse tempo, desde que se elegeu vereador pelo Partido Democrata Cristão (PDC) no Rio de Janeiro, e, por esse partido, venceu sua primeira eleição de deputado federal. Depois disso, passou por outros sete partidos políticos: PPR (1993/95), PPB (95/2003), PTB (2003/05), PFL (2005), PP (2005/16), PSC (20016/17) PSL (20018). Além desses, esteve em negociações, não concluídas, para integrar os quadros do Prona, PEN e Patriota. Sempre foi um livre-atirador.
      A estratégia de lançamento
    A estratégia de 01 e 02 será concentrar a captação de adesões no Sudeste e no Nordeste, que embora seja território das oposições, seriam mais fáceis de chegar aos números mínimos, porque a meta é proporcional às populações dos estados. Menos gente, menos assinaturas. É aí, no Nordeste, o território do arquirrival, o chefe nacional do PSL, deputado federal Luciano Bivar (PSL/PE), que desafiou o presidente Jair Bolsonaro criou essa crise que implodiu seu próprio partido. Os Bolsonaros confiam na eficiência das redes sociais para juntar essas multidões frente às listas de adesões. Missão para Carluxo dar o toque de reunir.
    Em 2018, quando o então candidato Jair Bolsonaro filiou-se ao PSL, o partido tinha apenas um deputado federal, o delegado Waldir (Soares de Oliveira), de Goiás, ex-líder da bancada, destronado por Eduardo Bolsonaro, numa ação conflituosa que abriu o racha no partido, implodindo a base aliada na Câmara. Hoje é o segundo maior partido parlamentar, menor apenas do que seu feroz adversário, o PT do ex-presidente Lula. O presidente conta com a fidelidade de seu eleitorado.
    O salto do paraquedista
    Será sua primeira experiência em organização político/eleitoral Não obstante tenha sido eleito e reeleito sucessivas vezes, na área política sempre operou no corpo-a-corpo com o eleitorado. Nunca teve nenhum comitê à retaguarda, nem cargo de direção ou participou em trabalhos de organização.
    Devido a seu êxito em eleições, algumas com resultados espetaculares, sempre foi cobiçado por partidos pequenos e médios como puxador de votos, ou seja, aqueles parlamentares eleitos com votações acima do quociente mínimo, produzindo as chamadas sobras, que levam consigo candidatos menos votados. Nessas vagas, muitas vezes, é que chegam à Câmara Federal os chefes das legendas que os acolhem. Bolsonaro é um caso raro de político ‘puxador”. Normalmente esses campões de votos são artistas, atletas, apresentadores de rádio, tevê e celebridades. Políticos puros de viés ideológico, como o presidente, são raros.
    O presidente Bolsonaro sempre foi um político ousado, que não temia enfrentar sozinho seus adversários, como o comprova sua carreira parlamentar. Nesta empreitada, poderia usar como metáfora sua atitude como paraquedista militar, um soldado que enfrenta o inimigo atrás de suas linhas. Neste caso o salto será na forma mais perigosa, um salto no escuro, noturno, quando o paraquedista sequer tem visão de lutar onde irá pousar. Tanto pode cair suavemente no chão, como afundar numa lagoa ou descer em cima de uma árvore, quase sempre uma queda fatal. A sorte está lançada.
    José Antonio Severo é jornalista.
     

  • Os passos para a libertação de Lula

    PUBLICADO EM 15 DE OUTUBRO DE 2019
    O noticiário dos últimos dias começa a deixar claro que  a opinião pública em todos os níveis vem gradativamente sendo preparada para o impacto do “Lula livre”. Um grande acordo vem sendo costurado há algum tempo.
    A própria afoiteza do procurador Deltan Dallagnol, artífice da condenação do ex-presidente, ao acenar com o regime semi-aberto para Lula, se afigura como uma tentativa de se antecipar e desviar o processo em andamento.
    A reação de Lula ao rechaçar de pronto a ideia do semi-aberto, indica que ele percebeu a “casca de banana” no meio do caminho.
    Agora, o ministro Dias Toffolli, presidente do STF, que desde setembro do ano passado vem cozinhando uma decisão a respeito do assunto, decidiu colocar em pauta, o que provavelmente será o primeiro passo para libertar Lula: a validade das prisões após a condenação em segunda instância.
    Ministros ouvidos em off encorajaram O Globo a informar que “a tendência é que Lula possa recorrer em liberdade”. Ou seja ele só estará condenado pra valer, depois que o STF decidir. Há uma filigrana jurídica a esclarecer, não altera o conjunto.
    Isso em relação ao triplex do Guarujá, pelo qual foi condenado em segunda instância e preso em 2018.
    Restaria a condenação pelo Sítio de Atibaia que está suspensa por conta de uma pendência sobre o direito do delatado de falar por último. O STF já decidiu que sim, e agora terá que julgar o caso concreto de Lula. A decisão pode levar a anulação da condenação pelo Sitio de Atibaia.
    Os militares não tolerarão? O influente general Etchegoyen confidenciou recentemente a um grupo de empresários que a ideia transita no meio.
     
     
     
     
     
     

  • Ditadura Nunca Mais: Manifesto da AJURD e do CDDEDD

    “Todos os atos decorrentes deste ato são insuscetíveis de revisão pelo Judiciário”: este era o artigo 11 do Ato Institucional n. 5, do qual o deputado Eduardo Bolsonaro disse ter saudades, ameaçando a nação com sua reinstitucionalização, caso haja “radicalização da esquerda”. E atestando a absoluta onipotência do regime ditatorial, no artigo 5º, parágrafo 1º: “O ato que decretar a suspensão dos direitos políticos poderá fixar restrições ou proibições ao exercício de qualquer direito, público ou privado”.
    A declaração do deputado não foi devidamente desmentida pelo General Augusto Heleno, chefe do gabinete institucional da presidência da República, quem, em vez de repudiar, apenas acrescentou: “tem de estudar como fazer”.
    O AI 5 foi o instrumento mais terrível da ditadura militar, pelo qual foram cassados centenas de mandatos nos diversos níveis parlamentares, retirados três ministros do Supremo Tribunal Federal, presos e expurgados professores, sindicalistas, servidores públicos civis e militares, profissionais liberais e trabalhadores das mais diversas categorias, suspendeu-se o habeas corpus, censurou-se a imprensa e foram cometidas as mais diversas atrocidades contra a democracia.
    Os democratas do Brasil devem repudiar com veemência esse tipo de atitude. A lista de crimes cometidos em nome do Ato Institucional n. 5, agora relembrado pelo deputado, já estão elencadas no panteão das vítimas da ditadura, devendo servir de exemplo daquilo que nunca mais deve ser repetido, nem mesmo no plano da cogitação.
    A declaração do deputado e a implícita concordância do general acendem a luz amarela da democracia. Por isso, nós, os democratas da Associação de Juristas pela Democracia – AJURD e do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito – CDDEDD, dizemos: AI 5 nunca mais. E que, além do repúdio, exigimos que sejam acionados os mecanismos que compõem a engenharia institucional da República, a começar pela Comissão de Ética da Câmara, pois que a ameaça à Democracia exige a instauração de processo para o julgamento da afronta à Constituição e ao Estado Democrático de Direito, buscando-se a imediata punição do ato.
    Porto Alegre, 1º de novembro de 2019.

  • Chile 49 anos: tudo mudou, nada mudou

    raul ellwanger
    Salvador Allende foi eleito presidente do Chile em 4 de setembro de 1970, com um programa democrático com duas características marcantes: intensa política de promoção social e nacionalização de setores estratégicos da economia, especialmente a exploração do cobre.
    Cercado de uma festa popular com mais de um milhão de pessoas reunidas em Santiago, num grande fervor cívico, tomou posse em 3 de novembro do mesmo ano, atraindo também forte apoio internacional, desde os governos democráticos até imensas franjas de simpatia da academia, dos sindicatos, da gente do povo.
    Junto a centenas de exilados latino-americanos, tive a felicidade de viver esse momento.
    Na semana anterior à posse, o proprietário do jornal El Mercurio passou a residir em Washington, com acesso liberado ao Salão Oval da Casa Branca, de onde coordenou a oposição legal e ilegal, e regressou somente após a derrubada do presidente constitucional do Chile.
    Num primeiro período, a aplicação das 33 Medidas do programa da Unidade Popular ( que incluía desde meio litro de leite diário para cada criança, até a aceleração da reforma agrária), trouxe crescimento do apoio popular ao governo, refletindo-se nas eleições parciais de março de 1973.
    As debilidades próprias da economia chilena, os erros da equipe de governo, a feroz ofensiva da mídia anti-UP, o cerco internacional, a sabotagem interna (manifesta numa quilométrica e não motivada “greve” de caminhoneiros), entretanto, já vinham minando esse apoio a as possibilidades de reanimar os investimentos e a economia em geral.
    Já no outono de 1973 a abortada tentativa de golpe de estado conhecida como Tancazo revelou a decisão das castas dominantes de abandonar a via constitucional e passar às vias da violência para derrocar Allende.
    Com articulações preservadas dentro das estruturas armadas, conseguiram colocar como ministro da Defesa o Gal. Augusto Pinochet, articulador profundamente oculto da traição a quem o nomeara.
    As águas geladas do Rio Mapocho se tingiram do rubro sangue de mulheres e homens, ativistas e gentes do povo, espalhando sem distinção o terror por todo o território.
    Chegou a brutalidade até mesmo ao exterior, com atentados cruentos ou letais nos EEUU, na Argentina e na Italia.
    Passada a primeira fase de razia exterminadora, que aniquilou entre 4 a 7 mil pessoas, pode o regime conseguir certa estabilidade. Mais de uma centena de brasileiros padeceu as torturas em campos de concentração, enquanto são 8 nossas vítimas fatais no Chile.
    No âmbito econômico, aplicou as receitas de “império do mercado” pregadas pelos operadores de Chicago, traduzidas em estatísticas otimistas que ocultavam a feroz apropriação da riqueza por uma pequeníssima minoria.
    No âmbito institucional, emplacou uma viciosa Constituição, tisnada pelo nome do próprio ditador. No âmbito dos Direitos à Memória, Verdade e Justiça, conseguiu também um longo período de impunidade para os criminosos de lesa-humanidade, embora certas frestas jurídicas tenham permitido posteriormente condenar algumas dezenas de operadores.
    Na atual insubordinação de multidões populares no Chile, na primavera de 2019, há um fundo brutal de injustiça social, de miséria econômica, de preconceitos raciais, de ensino privatizado, de sistema previdenciário público inexistente, de falta de perspectiva e futuro.
    Quero ressaltar dois outros fatores:
    Primeiro, a sobrevivência da Constituição pinochetista, que justamente organiza, consagra e defende a extensa gama de privilégios de classe. Isto significa mais de 40 anos de padecimentos da maioria da população.
    Segundo, a permanência das castas militares sucessivas e coordenadas, amestradas ano após ano na doutrina de ódio e violência estimulada contra a população. Estas castas, cevadas na impunidade, se mantém enraizadas nas casernas, com os fuzis engatilhados e as mentes doutrinadas.
    Após as primeiras manifestações de outubro, o Presidente Piñera deu uma declaração espantosa: que havia uma conspiração organizada para promover uma guerra interna para derrubar o governo.
    Tais palavras lembram os ditadores dos anos 70 invocando uma “teoria do inimigo interno”, enjambrada em Washington para permitir o holocausto de mais de 60 mil latino-americanos, adotada por todos os generais joõezinhos do passo certo.
    As palavras de Piñera não foram sem efeito: no dia seguinte, vimos as espantosas imagens de soldados disparando armas largas na linha da cabeça dos manifestantes, disparos que buscavam claramente assassinar. O resultado são cerca de 20 mortos no Chile. Estavam combatendo e matando o “inimigo interno”!
    Ante o clamor internacional, Piñera mudou seu discurso, e os fuzis passaram a atirar somente na altura das pernas. Pelo menos, a letalidade recuou. Espero que este recuo indique uma rota diferente de governo, com a depuração dos aparelhos repressivos  e o chamado a um nova Constituinte.
    A experiência mostrou que juntar-se aos delinquentes (nomeação de Pinochet), tolerar os criminosos dentro do aparelho estatal (impunidade), manter a Constituição do totalitarismo (instancias parlamentares),  estimular o crime desde o mais alto posto nacional (Piñera), são as piores receitas. Podemos aprender algo para nosso futuro?
     

  • 31 de outubro é Dia das Bruxas, sim!

    Miriam Gusmão
    A cada 31 de outubro vem o mesmo lero-lero de quem defende o tal do “dia do Saci” e é contra as centenárias festas de muitos povos, que celebram bruxas, morcegos, zumbis, gatos pretos e outros seres rejeitados e assombrosos. Ora, me digam se festas populares são verdadeiras quando surgem de projetos de lei e decisões governamentais, como foi o caso do tal “dia do Saci”, nestes anos 2000??!!!!
    Políticos que não estudam História acharam por bem rivalizar com a festa que, na visão precária deles, seria norte-americana e também, vá lá, um pouco inglesa!!!!  Inventaram artificialmente uma festa nacional para, supostamente, se opor à influência dos  Estados Unidos, ou da Inglaterra, e, segundo esses mesmos políticos e seus cegos adeptos, “para valorizar o folclore nacional”.
    Se resolvessem estudar, minimamente, as culturas populares nos quatro cantos do mundo, como na Irlanda ou no Canadá por exemplo,  chegariam a antigas celebrações pagãs da fartura das colheitas, com bebidas e comilanças, das fogueiras queimando o joio, das adivinhações e ritos de predizer o futuro e as datas das mortes, coisas que incomodavam a igreja católica. Foi assim que a igreja católica  mudou seu calendário (há controvérsia se foi no século 16 ou em outro século), deslocando o Dia de Todos os Santos, que era em maio, para primeiro de novembro, a fim de misturar com datas dessas celebrações pagãs. Uma dessas festas bem antigas era o festival celta de Samhain, que começava em 31 de outubro e durava três dias. Foi a partir dessa mudança do calendário católico que a festa começou a ser chamada de Halloween  – hallow é um termo antigo para santo; eve é véspera: véspera de todos os santos. A festa teria chegado aos Estados Unidos lá por 1845, com imigrantes que fugiam da “grande fome”.
    É possível que, no Brasil,  essas celebrações tenham iniciado nos cursos de línguas, embora seja necessário verificar melhor como chegaram  aqui,  e também as congruências com antigas festas populares praticadas no país.  Não há a menor razão para olhar o dia das bruxas pela janela da xenofobia e tentar montar, pelas mãos de elites políticas, o que deva ser festa popular no Brasil. As festas populares são vivas e verdadeiras nos cafundós deste país e têm histórias que esses políticos e essa classe média urbana nem suspeitam, nem valorizam.  Sem contar que houve muita pressão da igreja católica para que não se deixasse disseminar aqui essa festa pagã de 31 de outubro. A alegação da valorização do folclore nacional é tão artificial quanto a decretada “festa do Saci”.
    Podem trazer o saci urbano de vocês, ou qualquer outra figura que quiserem, mas 31 de outubro é, sim, festa de bruxas, de seres que assombram, de divertidas figuras feias, de malditos, de não-salvos, de abóboras iluminadas para os mortos, de zumbis cobrando a conta dessa vida sem graça, certinha e fingida que querem que se leve. Querem só festas “nacionais”? Se vão por esse rumo absurdo, precisam fazer uma cruzada  contra o rock, precisam desaconselhar a guitarra e sair por aí distribuindo só chocalhos e tambores!!!! Parem com essas bobagens! As festas e as artes caminham pelo mundo, são vivas,  misturam-se, são incontroláveis. Bom dia das bruxas pra tod@s, especialmente pra quem, como eu, é bruxa antes e depois do Halloween!!!!
    Miriam Gusmão é jornalista e educadora
  • O Chile luta pela segunda independência

    Aldo Rebelo
    No último dia 10 de outubro, o presidente do Chile, Sebastian Piñera, em entrevista à televisão, aclamava seu país como um “oásis” de crescimento econômico, geração de empregos e estabilidade democrática na América Latina, cercado de crises, no Brasil, no México, na Argentina, no Paraguai, na Bolívia e no Peru.
    No dia 20,  Piñera voltava à televisão, desta vez acompanhado de seu ministro da Defesa, para atacar “um inimigo poderoso, implacável, que não respeita nada nem ninguém, e que está disposto a usar a violência e a delinquência sem nenhum limite”.
    Esse inimigo era o próprio povo chileno, que desencadeava uma inédita onda de mobilizações contra o aumento das tarifas de transporte e de denúncia das desigualdades sociais.
    As autoridades chilenas convocaram as forças de segurança para reprimir as manifestações e a violência se espalhou pelas ruas de Santiago, resultando em mais de uma dezena de mortos.
    Três dias depois, no dia 23, Piñera retornava mais uma vez às redes de televisão para pedir perdão à população por ter compreendido tardiamente suas reivindicações. Prometeu reformar a Previdência, a educação e a saúde, elevar o salário mínimo e reduzir as tarifas de energia.
    Depois, pelo Twitter, Piñera elogiou as manifestações como “caminhos para o futuro e esperança”.
    No esforço para conter a crise, pediu a todos os seus ministros que colocassem seus cargos à disposição, ou seja, que renunciassem. Sebastian Piñera, finalmente, dobrava-se à força dos acontecimentos.
    O que se passa com o Chile? Visto por seu presidente como o “oásis” latino-americano, elogiado pelo ministro da Fazenda do Brasil, Paulo Guedes, como a “Suíça” da América do Sul, a ebulição social caiu sobre o país como um raio em céu azul.
    A verdade é que o laboratório chileno de crescimento econômico apoiado na concentração de renda e privatizações dos serviços públicos explodiu.
    Sem renda, sem Previdência e sem serviços públicos o modelo chileno exibia as deformidades que esgotaram a paciência popular. Os rancores acumulados pelas frustrações da vida difícil da classe média e do povo desencadearam as mais vigorosas manifestações da história recente do país.
    Os chilenos travam nas ruas de Santiago a sua segunda Batalha de Maipú. Na primeira, em 1818, conquistaram a independência ao Império colonial espanhol. Agora tratam de emancipar o Chile, sua classe média e seu povo do modelo excludente imposto pela elite rentista.
    Aldo Rebelo
    Aldo Rebelo é jornalista, foi ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais; do Esporte; da Ciência e Tecnologia e Inovação e da Defesa nos governos Lula e Dilma.
     

  • A morte de Wanderley Guilherme dos Santos

    Luis Nassif*

    Por sua capacidade de analisar os diversos aspectos da realidade, Wanderley foi um visionário. Quando a noite se impôs sobre o país, continuou entrando nas grandes discussões, com a segurança dos que sabem que o país sobreviverá à selvageria
    Haveria pelo menos meia dúzia de motivos para Wanderley Guilherme dos Santos entrar para a história das ciências políticas brasileiras.
    A maior razão é o fato de ter sido não apenas o grande intérprete político do país, mas o professor de várias gerações de cientistas políticos, e coordenador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).
    Quando o ambiente político nublou completamente, com o advento das redes sociais e das manifestações de rua, Wanderley foi dos primeiros a prospectar os novos tempos, a ousar análises e interpretações.
    Mas não apenas isso. Wanderley tinha uma extraordinária percepção sobre os fatos do momento, e uma base teórica sólida que lhe permitia interpretar com acuidade o que acontecia, e os desdobramentos.
    Foi assim no trabalho célebre de 1962, “Quem vai dar o golpe”, quando previu o golpe militar com precisão. Antes, com Carlos Araújo (futuro marido de Dilma Rousseff) foi conhecer as supostamente temíveis ligas camponesas do Nordeste, a grande esperança da revolução popular. E constatou que não passavam de meia dúzia de camponeses, movimento sem expressão que servia apenas para a imprensa da época brandir o fantasma da revolução cubana.
    Em seu estudo, trazia um dado relevante: a análise dos discursos de Carlos Lacerda. Os intelectuais de esquerda ironizavam as análises simplistas e superficiais de Lacerda. Wanderley mostrava que residia ali sua eficácia, pois podia ser disseminado em qualquer ambiente, por qualquer leigo. Só recentemente, com a disseminação das fake news e das redes terraplanistas, o país entendeu melhor a eficácia política dos bordões primários.
    Por sua capacidade de analisar os diversos aspectos da realidade, Wanderley foi um visionário também nos anos 70 quando, através do Iuperj, apresentou um plano educacional revolucionário, englobando conceitos que só seriam assimilados nos países centrais em pleno século 21.
    Seu trabalho constatava a diferença de ritmo de aprendizado das pessoas. Por isso mesmo, considerava ineficaz o modelo tradicional de escola, com o conteúdo compartimentalizado em 50 minutos de aula, apresentado de forma única para todos os alunos.
    Mas como permitir um modelo que respeitasse o ritmo de aprendizado de cada aluno? Recorrendo à informática, dizia ele. E isso muito antes dos computadores pessoais serem inventados. Segundo ele, todo o conteúdo ficaria armazenado em computadores, e seriam acessados pelos alunos, cada qual no ritmo próprio de aprendizado. Permitiria ao Brasil não apenas um salto educacional, mas se inserir, com políticas públicas, na nascente indústria da informática.
    Esse trabalho se perdeu no tempo. Quando escrevi sobre Salma Khan, após uma apresentação dele no país, em 2012 ou 2013, Wanderley me mandou um e-mail com o trabalho. Ali se comprovava que o maior desperdício brasileiro é com as ideias inovadoras, que não germinam em solo pátrio.
    Quando a noite se impôs sobre o país, Wanderley não deixou a peteca cair. Continuou batalhando, entrando nas grandes discussões, com a segurança dos que sabem que, assim como em outros momentos críticos, o país sobreviverá à selvageria.


    São Paulo – Wanderley Guilherme dos Santos, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos mais renomados cientistas políticos da atualidade faleceu na madrugada deste sábado (26), aos 84 anos. Ele estava internado desde quinta-feira (24), com pneumonia.
    Wanderley tinha acabado de escrever um livro em que explica a eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL). A obra deve ser publicada em breve pela Topbooks. Ele também é autor das grandes obras “Sessenta e quatro: anatomia da crise” e “Cidadania e justiça: a política social na ordem brasileira”. Aos 29 anos, Wanderley ficou conhecido pelo texto “Quem vai dar o golpe no Brasil”, que prenunciou o golpe de Estado e a possível derrubada do presidente João Goulart em 1964, tornando-se referência bibliográfica nos meios acadêmicos.
    *Jornal GGN, RBA, Fórum

  • Qual o melhor presente de aniversário para Lula?

    Miriam Gusmão
    Qual seria o melhor presente de aniversário para Lula?
    Sim, por certo é preciso marcar a data do aniversário do líder político preso injustamente  e reforçar a campanha por sua libertação. Quem é de esquerda, quem é democrata, quem é solidário tem total acordo.
    Mas, companheirada do PT e adjacências, pra onde nos leva esse caminho de empreender tanto esforço e até dinheiro em caravanas e festas de aniversário para o Lula?
    Não contaria mais para a luta coletiva fazer caravanas até Brasília e colocar multidões nas ruas contra o neoliberalismo, somando-nos ao que já ocorre no Chile e na Argentina?
    Não poderíamos, nos fortalecendo, ajudar a fortalecer a mobilização da Frente Amplio, no Uruguai?
    Não poderíamos, em lugar do acento em propósitos eleitorais ou da velha briga inútil por hegemonia na esquerda, pensar no protagonismo dos povos latino-americanos, na grande unidade popular por uma vida melhor para todos?
    Não poderíamos nos somar, de fato, à luta contra o neoliberalismo, contra o desmonte das políticas públicas, contra o massacre dos seres humanos que já vivem na miséria?
    Será que o melhor presente de aniversário para o Lula não deveria ser mostrar a ele, com grande mobilização dos trabalhadores como SUJEITOS da História, que valeu a pena a importante contribuição que ele deu?
    *Miriam Gusmão é jornalista e educadora