Benedito Tadeu César**
Nesta quarta, 4 de maio de 2016, na Câmara Municipal de Porto Alegre, seria reavaliada a Moção de Repúdio ao Reitor, ao Vice Reitor e a um professor da Faculdade de Direito da UFRGS por terem permitido e participado de debates sobre o momento político atual na universidade.
Na votação realizada na semana passada, a moção foi aprovada por 14 votos contra 13.
Os debates foram acalorados. O auditório da CMPA foi ocupado por manifestantes a favor e contra a moção e os ânimos se exaltaram, tanto no Plenário quanto no Auditório.
A ala da direita urrava impropérios contra o “comunismo” e pela “escola sem ideologia”. A da esquerda gritava por democracia e contra o fascismo.
Todos os vereadores que se manifestaram, a não ser o proponente da moção, declararam voto contrário a ela, em nome da liberdade de pensamento e de expressão. O proponente, em seu discurso, em dado momento, fez menção a mim, afirmando que o professor Benedito Tadeu César, militante do Partido dos Trabalhadores, se utiliza dos bens públicos para fazer pregação ideológica em sala de aula, utilizando equipamentos e emails da universidade para isso.
Ao final dos debates, a moção em discussão foi retirada, obedecendo a um acordo feito entre as partes em disputa. O vereador que censurava a UFRGS, seu reitor, vice e professores, retirou a moção em troca da retirada de moção anterior que censurava o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) pelo apoio que expressou à médica pediatra que se recusou a atender ao filho da suplente de vereadora do PT, Ariane Leitão, por motivos ideológicos.
Na saída do Auditório da CMPA, cruzei com o vereador proponente da Moção de Repúdio à UFRGS e que havia feito referência a mim. Tentei esclarecer, cordialmente, que ele estava mal informado a meu respeito.
Disse-lhe que, mesmo que eu quisesse me utilizar dos bens, do ambiente e dos alunos da UFRGS para fazer pregação ideológica, eu não poderia pelo simples fato de já ter me APOSENTADO desde o mês de julho de 2010.
Disse-lhe que a desinformação pode provocar erros graves e que ele deveria ser mais cuidadoso em suas afirmações. Ele respondeu que eu havia proposto à Associação dos Docentes da UFRGS uma nota contra a sua moção, ao que eu lhe respondi que ele continuava mal informado, pois, não obstante eu tenha sido diretor da ADUFRGS, me encontro há anos afastado da militância docente.
Exaltado, ele pôs-se a gritar, chamando-me de filho da puta!
Subi o tom, respondendo-lhe que lhe faltava educação e que ele me devia desculpas, tanto pela calúnia relativa ao uso indevido da posição de docente universitário, quanto pela ofensa que ele acabava de me fazer.
Afirmei que se ele não o fizesse eu o processaria por calúnia e injúria. Chamei-o de mal educado e de mentecapto* e, ao mesmo tempo, afirmei que ele sequer deveria saber o significado desta palavra.
Ânimos serenados, dirigi-me à saída do edifício, quando fui alcançado por um funcionário da CMPA, informando-me que três integrantes da Banda Loca, que compunham a maioria da platéia favorável à Moção de Repúdio aos Reitores e Professor da UFRGS, estavam planejando me bater na saída do prédio.
Caminhamos até a porta principal, no andar superior, e, ali, o funcionário chamou dois seguranças que se encarregaram de retirar os indivíduos que me esperavam, com cara de poucos amigos, na rampa de acesso.
Enquanto esperava para sair em segurança, algumas senhoras de idade avançada e moças aproximaram-se do vereador Adeli Sell (PT), celular em punho, chamando-o de “corno”, na tentativa de fazer com que ele revidasse.
Outros integrantes da Banda Loca surgiram, também com celulares em punho, e tentaram provocar tumulto, nos empurrando e insultando, com o objetivo de criar uma reação e filmá-la.
Antes disso, ainda durante os debates em Plenário, eles já haviam provocado um tumulto envolvendo uma aluna da UFRGS, que foi intimidada, e um professor universitário de outra universidade que saiu em sua defesa.
Naquele momento, ele filmaram a reação do professor e estão divulgando o vídeo editado na página da Banda Loca e do MBL.
A direita raivosa e obscurantista avança.
Na verdade, por trás do aparente recuo advindo da retirada da Moção de Repúdio à UFRGS, o que ocorreu foi uma vitória, ainda que relativa, desta direita babona.
Ao que tudo indica, a Moção contra a UFRGS foi uma reação contra a Moção de Repúdio ao Simers e seu apoio à discriminação ideológica a uma criança.
Atacaram a UFRGS para conseguir um acordo que sepulta um ato de barbárie contra a inteligência e a tolerância política.
O acordo feito, ainda que necessário para manter o equilíbrio na CMPA, favorece enormemente às forças do atraso e da incivilidade.
* mentecapto adjetivo substantivo masculino
1. que ou quem é mentalmente desordenado; que ou quem perdeu o juízo, o uso da razão; alienado, louco.
2. que ou quem é destituído de inteligência, de bom senso; tolo, néscio, idiota.
**Benedito Tadeu César é cientista político
Categoria: Análise&Opinião
A marcha dos mentecaptos*
Como diria Honório Lemes…
PINHEIRO DO VALE
A quinta-feira amanheceu com fogo nas ventas.
A batalha do Planalto Central chega ao clímax. As duas frentes se inflamam e entram em nos grandes entreveros.
Na frente judicial a ofensiva é um ataque maciço: o procurador geral Rodrigo Janot despejou um balde de pedidos de indiciamentos para possíveis réus de foro privilegiado; no Supremo, o ministro Teori Zavascki pede a suspensão do mandato de deputado federal do presidente da Câmara Eduardo Cunha, que significará, no fim, sua retirada do tabuleiro .
No front politico, o processo do impeachment chega a seu ápice.
Batendo em retirada com pouca munição, assim pode-se entender a declaração do senador Lindemberg Farias, depois de ouvir a leitura do relator da Comissão Especial do Impeachment, Antônio Anastasia.
Isto quer dizer: a bancada de sustentação da presidente Dilma Rousseff no Senado jogou a toalha na Comissão e se prepara para a batalha do Plenário, que deve se iniciar dia 11 de maio, quando se votará o parecer o senador tucano de Minas Gerais.
Que nem Honório de Lemes, autor da frase da abertura, os dilmistas estão dispostos a não se entregar, pois acrescentariam a oração subordinada do Leão do Caverá: “mas peleando”.
Com isto, o senador Lindemberg inicia o recuo da tropa de choque para a segunda linha de defesa, no plenário do Senado.
Não há muitas expectativas de melhorar resultados no primeiro embate, pois já se dão como favas contadas que o processo será instaurado. Leia-se: Dilma vai ser afastada nesta primeira fase.
A aposta é que na votação final não se repita o resultado de 11 de maio. O desastre anunciado do governo de Michel Temer pode levar o núcleo indecisos, cerca de 10 senadores, a barrarem o impeachment.
No placar atual a bancada leal tem 21 senadores. Faltariam sete para melar o golpe.
Já na frente de batalha judiciária, tudo pode acontecer: a metralhadora giratória de Janot botou todo o mundo escondido na trincheira para escapar das balas. No Supremo, o primeiro passo de Teori indica que vem chumbo grosso, pois ele começou atirando diretamente no chefe do bando, o famigerado Cunha, alvo das balas de todos os lados.
Voltando ao velho Honório: “Não ‘tá morto quem peleia”.Porque Lula não foi ao Anhangabaú
PINHEIRO DO VALE
Em boca fechada não entra mosca. Foi atentando a esse ditado popular que o ex-presidente Lula tomou a decisão de não comparecer ao palanque oficial do Vale do Anhangabaú, em São Paulo, no 1o de Maio.
As grandes expressões das forças remanescentes da Base Aliada subiram e se postaram ao lado da presidente Dilma Rousseff no ato político contra o impeachment, mas que, também, poderia ser qualificado de semioficial, uma vez que ela anunciou ali algumas medidas de governo, como o reajuste do Bolsa Família e a correção do Imposto de Renda.
Falar manso depois de tudo que Lula andou dizendo em outros palanques pareceria incoerente ou sugeriria um recuo. Abrir a boca era correr um risco desnecessário.
O exemplo está à frente: o líder da Contag, Aristides dos Santos, dias antes fora chamado a depor na comissão especial do INCRA e FUNAI da Câmara dos Deputados.
Aristides fez uma daquelas bravatas comuns nos discursos de lideranças sem-terra, mas como foi dita no Palácio do Planalto, em frente à presidente da República, deu pretexto para a bancada da direita convocá-lo a depor.
Se fosse ao Anhangabaú, Lula iria falar num palanque que tinha a bordo a presidente. Por ter assinado atos de governo, o recinto poderia ser chamado de um puxado do Palácio. E aí as palavras pronunciadas naquele ambiente poderiam ganhar foros de ameaças concretas em ambiente oficial, oferecendo à oposição os requisitos para levar Lula a depor na Câmara. Seria muito arriscado.
Lula pautou-se pela análise de custo-benefício de sua presença naquele evento. Suas palavras não mais poderiam mudar nada. Na Comissão do Senado as cartas já estão abertas e o resultado dessa fase selado. O que ele falar daqui por diante já estará noutro contexto, será parte de sua campanha eleitoral.
Correr o risco de ter de depor na Câmara acusado de incitar violências seria uma exposição infantil. Os exemplos estão fresquinhos: convocações inúteis de depoentes protegidos por habeas corpus para se negarem a responder a perguntas muitas vezes capciosas. É só vexame inútil.
Melhor não se expor. Sua garganta anda mal, constituindo-se num álibi perfeito para justificar sua ausência. A campanha das eleições está na rua.
No domingo à noite a TV Brasil já botou no ar uma cartão pedindo antecipação das eleições presidenciais. É quase oficial.
Há um movimento forte entre essas correntes no sentido de que a presidente Dilma Rousseff encaminhe o quanto antes, enquanto ainda está na presidência, uma Proposta de Emenda Constitucional mudando as regras e convocando eleição imediata.
Há dúvidas se uma PEC pode mexer numa cláusula pétrea como o mandato presidencial. Mas seu encaminhamento, originado no Executivo, tem força suficiente para botar o assunto no espaço político-legislativo.
Por isto, Lula teria ponderado: se Aristides Santos teve de ouvir calado ofensas a título de inquirição, proferidas com tamanha violência, ele tendo de ouvir calado a tantas ofensas, diante das câmeras, assistido na tevê por sua família, amigos e correligionários, sem pode dizer palavras, era uma verdadeira cadeira do dragão.
Por outro lado, responder aquelas afirmações de deputados protegidos pela imunidade seria um verdadeiro tiro no peito. Melhor não ir ao comício.Eleições já ganha adeptos
RANDOLFE RODRIGUES
Para além das superficialidades e dos escândalos que tendem a apontar soluções simples para problemas complexos, a verdadeira crise que o Brasil experimenta é a de representação.
O Governo não governa, o Parlamento não legisla nem fiscaliza e o Povo não é chamado a decidir.
Do ponto de vista econômico, os anos de bonança animados pela alta das commodities deram lugar sucessivamente à carestia desenfreada, uma profunda recessão e à quebradeira de empresas.
Só no comércio varejista, no ano passado, quase 100 mil empreendimentos foram fechados. A consequência é o desemprego em massa.
Manter a popularidade em alta enquanto os preços aumentam, quando há escassez de postos de trabalho e ainda sobra mês depois que acaba o salário ,é uma missão impossível no Brasil e em qualquer lugar.
A opção neoliberal do segundo Governo Dilma a afastou de sua plataforma eleitoral, agravou os gargalos na infraestrutura do país, enfraquecendo a competividade e acentuando nosso atraso tecnológico, com graves reflexos na produtividade.
A economia parou.
Do ponto de vista institucional, vivemos o maior desencontro entre Legislativo e Executivo do qual se tem notícia.
O eclipse total do diálogo levou a presidente da República e o presidente da Câmara dos Deputados a atuarem não como chefes de poderes independentes, mas sim como comandantes de tropas inimigas.
Enquanto Dilma não demonstrava capacidade de reagrupar a base e de dialogar com o Congresso, o presidente da Câmara passou a atuar de modo deliberado para restringir a mobilidade do governo, usando para isso manobras regimentais sucessivas.
Asfixiado, o Palácio do Planalto capitulou, demonstrando que aquilo que parecia o ocaso de um governo era, de fato, o réquiem final do presidencialismo de coalizão.
O sumário julgamento do relatório que pede o impedimento da presidente a partir de argumentos frágeis foi apenas o corolário desse desencontro trágico.
Do ponto de vista político, os escândalos de corrupção envolvendo a quase totalidade dos partidos e lideranças, de situação e de oposição, descredenciaram o maniqueísmo e com ele uma saída a frio para a crise.
O impasse não tem mais como ser resolvido ignorando o desejo de participação da ampla maioria da população. O dique está prestes a ser rompido.
O que vem das ruas claramente é a rejeição de um modelo. Pesquisa recente do Instituto Datafolha mostrou que 61% desejariam afastar a presidente Dilma, enquanto 58% mandariam o vice-presidente Michel Temer, o sem voto, igualmente para casa.
A rejeição ao vice-presidente, inclusive, consegue a proeza de unir os movimentos favoráveis e contrários ao impeachment.
Dando conta da contaminação do ambiente político e das narrativas fragmentadas que estão sendo construídas, a revista britânica The Economist que circulou no dia 21 de abril, data de Tiradentes, o herói traído da Inconfidência, cunha a palavra “traição” como fio condutor das articulações de bastidores no Congresso Nacional.
Lembra a célebre frase de Leonel Brizola: “A política ama a traição e abomina os traidores”.
Reconhecendo a fragilidade do governo e a iminência do impedimento de Dilma, os editores da revista afiançam, com propriedade, que o vice Michel Temer “dificilmente será percebido como alguém com legitimidade para governar o país”.
O eco das ruas que atravessou o Oceano Atlântico também anima juristas e políticos de diferentes vertentes.
Em palestra na manhã de sexta-feira, 22 de abril, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa defendeu, de modo fundamentado, a realização de novas eleições presidenciais.
“Deem ao povo a oportunidade de decidir”, sugeriu o ex-ministro, que também se posicionou em relação ao impeachment, dizendo não enxergar “razões justas” para o afastamento da presidente.
“Organizem eleições, deixem que o povo resolva”, conclamou Barbosa.
Com a presidente e o vice sem apoio das ruas e o terceiro na ordem de sucessão prestes a experimentar o frio do cárcere, percebe-se claramente que um problema excepcional exige uma solução excepcional — e proporcional à gravidade do momento: eleições.
É preciso devolver à soberania popular a escolha dos novos mandatários da Nação.
Em resposta ao impasse político presente, um grupo suprapartidário de senadores apontou para o futuro e assinou a PEC 20/16, que prevê excepcionalmente uma eleição presidencial simultânea com as eleições municipais de outubro de 2016.
Ora, se a saída da crise de representação pela via do voto já ganhou as manchetes internacionais, o parecer de juristas renomados e a opinião majoritária das ruas, inclusive de lados opostos do espectro político, o que falta para que o eleitor seja chamado para dizer quem é que ele quer que dirija os destinos da Nação?
As eleições diretas estão para a democracia como a água benta está para o rito católico: purifica a matéria, espanta o mal e potencializa os efeitos positivos da oração.
Só os agentes das sombras podem temer a luz das urnas.- Randolfe Rodrigues, historiador, é senador pelo Amapá e líder da REDE no Senado.
E no Cunha, não vai nada?
P.C.DE LESTER
O “Fora Cunha” é o unico bordão que frequenta manifestações dos dois lados, contra e a favor do impeachment de Dilma.
Talvez a única unanimidade nacional neste momento tumultuado seja o mal estar que ele provoca em todos: enquanto Eduardo Cunha permanecer na presidência da Camara, não se poderá levar nada disso a sério.
Mas ele está lá, entrando para mais uma semana triunfante. É o recordista em protelações na Comissão de Ética, com quase 200 dias empurrando o processo com as mais diversas manobras.
No STF onde estão meia dúzia de inquéritos incriminando Cunha, não há sinais de julgamento. Segundo O Globo, que ouviu ministros em reserva, o Supremo não quer julgar agora no calor do impeachment.
Até porque, segundo o jornal, a tendência entre os ministros do Supremo é absolver Cunha.
Junto ao “novo presidente” Cunha está ainda em melhor situação.
Na semana passada, começou a circular nas redes sociais um vídeo em que Michel Temer aparece numa reunião de evangélicos, dizendo que “Eduardo Cunha é um homem de fé”.
Quando recebe uma missão, Cunha cumpre sem hesitação, disse Temer no vídeo gravado durante a campanha de 2014.
Cunha se elegeu, tornou-se presidente, conduziu com maestria o impeachment que abre o caminho para o poder de Temer. O que terá ele a temer?
Uma imagem que vale por mil punhaladas
Andres vince
Se existia uma mínima esperança que a presidenta não seja forçosamente removida do seu cargo, esse fio de esperança se desfez completamente com a contemplação da imagem acima.
“O SFT é o último bastião da cidadania”, repetiu o ministro Marco Aurélio, em sua recente tour midiática-institucional. Suas entrevistas, que pipocaram como sarampo, traziam a certeza que nenhuma injustiça seria cometida no desenrolar do processo de impeachment.
Claro, isso foi antes daquele domingo fatídico, quando presenciamos um evento, no mínimo, traumático para a democracia. Nesse dia ficou mais que provado que não vamos a lugar nenhum sem uma urgente, verdadeira e profunda reforma política.
Agora, com essa não menos traumática imagem, escancara-se também a necessidade de uma reforma jurídica, de forma a criar um mecanismo de proteção da cidadania contra o judiciário. Não há esse controle. Se há, não funciona. Quem afinal de contas fiscaliza o STF?
Atualmente, digo de cadeira, ninguém. Como pode um ministro voto vencido pedir vistas num processo e ficar mais de um ano sentado em cima dele? E, pasmem, esse mesmo ministro dá entrevista afirmando que está sentado em cima do processo porque acha que quem deve decidir isso é o Congresso. E só saiu de cima do processo quando o Congresso votou de acordo com ele. Pode? Pode sim. Pelo menos quando se trata do financiamento empresarial de campanhas políticas.
O que dizer da decisão do STF que mandou o presidente da Câmara abrir processo de impeachment contra o vice Michel Temer? Que foi feita dessa decisão? Jogada na lata do lixo. Simples assim.
Não fosse suficiente toda essa chicana, os maiores formadores de opinião do País não coram em dizer que o grande vendedor desse processo todo é o fortalecimento das instituições. Pausa para as gargalhadas.
O poder Executivo está sendo violentamente estuprado pelo Legislativo e pelo Judiciário, com a mídia transmitindo em close e comentando ao vivo, com requintes de crueldade.
Reprodução redes sociais
Mídia essa, aliás, que ajudou a produzir muitas aberrações nesta vida, mas nenhuma que se compare ao que essa outra imagem traduz, o que, no figurativo imaginário popular poderia ser interpretado como “o cachorro que morde a mão que o alimenta”.
Essa foto foi tirada durante as manifestações a favor do impeachment da comprovadamente não corrupta presidenta Dilma.
Um fenômeno que só pode ser visto como fruto da mais intensa manipulação de informação que se tem notícia na história deste país.
O sujeito dessa imagem, não tem a mínima noção do que lhe espera.Meirelles para presidente
PINHEIRO DO VALE
Na entrevista que deu na tarde de sexta-feira em frente à casa do vice-presidente Michel Temer, em São Paulo, o ex-presidente do Banco Central do governo Lula falou como se já fosse o novo ministro da Fazenda.
Ato falho de Henrique Meirelles, certamente uma das pessoas mais versáteis politicamente no país, ou melhor, um pula-muro que poderia bater o recordista mundial do salto com vara das Olimpíadas.
Há poucos meses Meirelles chegou a Brasília como virtual ministro da Fazenda da presidente Dilma Rousseff, prestigiado pelo ex-presidente Lula e festejado pelo mercado, tanto que só menção de seu nome fez a Bolsa de Valores subir e o dólar despencar.
Nesta sexta-feira ele aparece no meio dos jornalistas de plantão em frente à mansão dos Temer dando receita de política econômica.
Para bom entendedor, de aliado de Lula a golpista foi uma chispa. Mais ligeiro que um raio.
Agora vai começar o seu calvário, caia ou não Dilma, pois com isto ele sinaliza que entra na corrida presencial com o apoio de Michel Temer, vice-presidente e dono do PMDB, partido que já anunciou que vai ao pleito de 2018 com nome próprio.
Este nome seria o de Henrique Meirelles. Uma repetição de Fernando Henrique com Itamar Franco. Pega uma crise, resolve o problema e sai do ministério nos braços do povo para o Palácio do Planalto. Só falta combinar com os russos.
A ambição presidencial de Meirelles é notória. Ele não esconde de ninguém, nos meios da plutocracia internacional, que já é um homem realizado.
Nada lhe faltaria, pois tem dinheiro aos borbotões, prestígio mundial como banqueiro, nome na política como mago das finanças do presidente Lula e uma vida tranquila nos Estados Unidos, onde vivia nos últimos tempos.
Só uma coisa faria Meirelles se mexer: a presidência da República. Este seria seu prêmio. Não a cadeira de Dilma, mas a vaga para concorrer, o que, diga-se, não será fácil, pois teria pela frente vários pesos pesados e seu mestre Lula bombando como líder da oposição ao governo Temer.
Por outro lado, não seria difícil repetir a trajetória de Fernando Henrique. Seria até mais fácil, pois o tucano pegou uma economia em frangalhos. Já Meirelles herdaria uma economia plantada em fundamentos macroeconômicos sustentáveis, com inflação cadente e um potreiro de oportunidades para atrair investimentos.
Espertamente, ele vê esse páreo como uma barbada.
Entretanto, ele é um neófito em política. Nem sabe o que é colar no peito um alvo de presidenciável. Vem muita bala.
Veja o caso de Lula: saiu do governo consagrado, continuou no paraíso como ex-presidente, fazendo conferências pelo mundo e recebendo homenagens.
Bastou dizer que pensava voltar em 2018 para desabar o mundo sobre ele e sua família.
Meirelles que ponha as barbas de molho.
O paulista Antônio Mariz caiu antes de entrar por uma declaração bem menos detalhada que a de Meirelles na saída do encontro com Temer.
Procuradores induzem depoimento sobre “sítio de Lula”
Reproduzo texto de Marcos de Vasconcellos, do Conjur:
O cenário é uma casa humilde no interior de São Paulo. Quatro procuradores batem à porta e, atendidos pelo morador — que presta serviços de eletricista, pintor e jardinagem em casas e sítios—, começam a questionar se ele trabalhou no sítio usado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e se conhece um dos donos do imóvel, o empresário Jonas Suassuna. Ao ouvirem que o homem não conhecia o empresário nem havia trabalhado no local, começam o jogo de pressões e ameaças:
Procurador: Quero deixar o senhor bem tranquilo, mas, por exemplo, se a gente chamar o senhor oficialmente pra depor daqui a alguns dias, e você chegar lá pra mim e falar uma coisa dessas…
Interrogado: Dessas… Sobre o quê?
Procurador: Sobre, por exemplo, o senhor já trabalhou no sítio Santa Barbara?
Interrogado: Não trabalho.
Procurador: O senhor já conheceu o senhor Jonas Suassuna?
Interrogado: Nunca… Nunca vi.
Procurador: O senhor já fez algum pedido pra ele em algum lugar?
Interrogado: Nem conheço.
Procurador: Então, por exemplo, aí eu te apresento uma série de documentações. Aí fica ruim pro senhor, entendeu?
A conversa foi gravada pelo filho do interrogado, um trabalhador da região de Atibaia. Os visitantes inesperados eram os procuradores do Ministério Público Federal Athayde Ribeiro Costa, Roberson Henrique Pozzobon, Januário Paludo e Júlio Noronha.
Nas duas gravações, obtidas pela ConJur, os membros do MPF chegam na casa do “faz tudo” Edivaldo Pereira Vieira. Sutilmente, tentam induzi-lo, ultrapassando com desenvoltura a fronteira entre argumentação e intimidação, dando a entender que dizer certas coisas é bom e dizer outras é ruim.
Na insistência de que o investigado dissesse o que os procuradores esperavam ouvir, fazem outra ameaça velada a Vieira, de que ele poderia ser convocado a depor e dizer a verdade.
Procurador: É a primeira vez, o senhor nos conheceu agora, e eventualmente talvez a gente chame o senhor pra depor oficialmente, tá? Aí, é, dependendo da circunstância nós vamos tomar o compromisso do senhor, né, de dizer a verdade, aí o senhor que sabe…
Interrogado: A verdade?
Procurador: É.
Interrogado: Vou sim, vou sim.
Procurador: Se o senhor disser a verdade, sem, sem problema nenhum.
Interrogado: Nenhum. Isso é a verdade, tô falando pra vocês.
Procurador: Então seu Edivaldo, quero deixar o senhor bem tranquilo, mas, por exemplo, se a gente chamar o senhor oficialmente pra depor daqui a alguns dias, e você chegar lá pra mim e falar uma coisa dessas…
Investigado ou testemunha
Ao baterem à porta de Vieira, um dos procuradores diz: “Ninguém aqui tá querendo te processar nem nada, não”.
No entanto, o nome de Pereira Vieira aparece na longa lista de acusados constantes do mandado de busca e apreensão da 24ª etapa da operação “lava jato”, que investiga se o ex-presidente Lula é o dono de sítio em Atibaia, assinado pelo juiz Sergio Fernando Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba.
Ao se despedirem, deixando seus nomes e o telefone escritos a lápis numa folha de caderno, os membros do MPF insistem que o investigado escondia algo e poderia “mudar de ideia” e decidir falar:
Procurador: Se o senhor mudar de ideia e quiser conversar com a gente, o senhor pode ligar pra gente?
Interrogado: Mudar de ideia? Ideia do quê?
Procurador: Se souber de algum fato.
Interrogado: Não…
Procurador: Se você resolver conversar com a gente você liga pra gente, qualquer assunto?
Interrogado: Tá.A direita bota um ovo
Pinheiro do Vale
A direita botou um ovo.
Enquanto esperam curtir dois anos no Palácio do Planalto, os golpistas levam uma bola nas costas arremessada pela presidente Dilma Rousseff.
Numa virada de 180 graus, algo comparável a uma bicicleta do futebol, Dilma vai deixar o governo propondo a antecipação das eleições.
Esta manobra agrada a um grupo bem numeroso de senadores, o suficiente para atingir o quórum mínimo de 28 votos para barrar a condenação da presidente na votação do impeachment daqui a 180 dias no máximo.
Esta não é uma proposta nova. Entretanto, dependeria da renúncia de toda a chapa vencedora da eleição de 2014, Dilma e Michel Temer.
Como o vice avança guloso para o cargo, não se imaginava que pudesse apoiar esta reviravolta.
Entretanto, com esta proposta, em negociação sob a coordenação do ex-presidente Lula, o placar de 28 ou mais votos implica na volta de Dilma com o fracasso do impeachment.
A proposta de Dilma é renunciar, abrindo espaço para a convocação de novas eleições. Como é possível, se há um vice-presidente no cargo?
Diante da volta de Dilma, Temer não terá alternativa se não aceitar a proposta, abrindo mão de seu cargo, pois, ao contrário, se insistisse em continuar, ficaria falando sozinho.
As forças políticas que o apoiam preferem voltar às urnas e continuarem com Dilma no poder. O político paulista é suficientemente realista para não impedir esse desdobramento.
A nova eleição viria no bojo de uma grande reforma política, que incluirá a reforma partidária, mandato flexível e um semiparlamentarismo.
É consenso, e até Dilma concorda que o presidencialismo de modelo norte-americano já não é mais adequado.
O exemplo mais significativo examinado pelas lideranças brasileiras é o caso recente da Grécia.
Como Dilma em, 2014, o primeiro-ministro Alexis Tsíprus foi eleito com o programa que logo se verificou inviável, devido ao agravamento brusco da crise internacional.
Logo nos primeiros meses de seu governo, entre 15 de janeiro e 27 de agosto de 2015, constatando que seu projeto naufragava diante de situação externa (a União Europeia negou- lhe respaldo para equilibrar as contas públicas e fazer um ajuste fiscal), o líder da Coligação da Esquerda Radical chamou seu eleitorado de volta às urnas com uma mensagem muito clara, algo assim: “Olha pessoal, não deu. Vamos fazer outra tentativa de tal e qual forma”.
O povo apoiou e ele continua no governo até hoje, depois de nova eleição, em 21 de setembro do ano passado.
Esta seria a proposta da esquerda brasileira: “Vamos reajustar nosso projeto e disputá-lo nas urnas com nossos adversários”.
A diferença é que, no Brasil, certamente a esquerda trocaria Dilma por outro nome, o ex-presidente Lula, que está com as melhores chances eleitorais dentre todos os candidatos prováveis.
Ontem no Senado o senador gaúcho Paulo Paim, que lançou a ideia na Câmara Alta, tevevárias adesões de outros parlamentares, que se pronunciaram a favor de eleições já na tribuna da Casa.
Se isto ocorrer, pelas pesquisas, a esquerda vence a nova eleição. A direta bota um ovo.Cartas marcadas
PINHEIRO DO VALE
A tradição da raposice política mineira diz e o ex-presidente Tancredo Neves gostava de repetir: “Só se faz reunião depois que tudo está decidido”. Mais uma vez se confirmou o axioma.
Este cronista esteve fora do ar nos últimos dias, deixando passar a enxurrada que inundou o noticiário com a votação do relatório da Comissão Especial da Câmara que propôs ao Senado a abertura de um processo de impeachment da presidente da República, dona Dilma Vana Rousseff.
Seria um anticlímax sugerir, naqueles momentos, que não haveria surpresa, pois se tratava de um jogo de cartas marcadas.
Dizia o então vice-presidente dos Estados Unidos, Gerald Ford, às vésperas da renúncia do presidente Richard Nixon: “Se não tiver a base parlamentar mínima, de nada vale haver ou não responsabilidade comprovada”.
O impeachment que tentavam aplicar em Nixo, também era baseado em acusações duvidosas, pois não se poderia dizer que mentir para a Imprensa fosse um crime de responsabilidade.
Mais ou menos isto, o que se repete no Brasil: não há crime, mas as forças políticas estão apeando uma presidente eleita. Têm os ¾ dos votos e basta. Assim pensam e fazem.
Uma comprovação desta afirmação é que já havia um acordão, como se chamam no Brasil os grandes conluios. A antiga “base aliada”, a formidável coligação de partidos que apoiava a presidente, roeu a corda e aplicou um golpe no PT, que perde a cadeira da mandatária, mas ganha um espaço mais confortável para se bater nas próximas campanhas eleitorais.
O quadro político ainda é instável, volátil, como dizem os cientistas do ramo. Uma previsão sensata, ou melhor, realista, de realpolitik, diria que Dilma será afastada pelos 180 dias, mas não inteiramente derrubada.
Tudo vai depender das próximas eleições municipais, para se avaliar como se comporão as forças políticas após o pleito.
Assim, tanto ela pode voltar como ser mandada embora, conforme as conveniências dessas forças políticas majoritárias, que se movimentam para ocupar o Palácio do Planalto: PMDB e a corriola de partidos pequenos e nanicos. O chamado “novo centrão”.
Na verdade, nada têm de centro, mas de direitona.
Enfim, hoje em dia, em política, as palavras valem o que se quiser.
Os dois grandes antagonistas, PT e PSDB, ficam de fora. Todos de olho em 2018.
Ninguém quer pagar o preço da crise. Também não querem amargar o efeito do purgante.
Sorrateiramente vão esperar que a economia se ajeite, com Temer ou com a volta de Dilma, para assumir um país melhor arrumado em 2019.
Ainda há muito pano para essas mangas. Mas, por enquanto, basta falar desse acordão, que nos próximos dias vai se explicitar para espanto de muita gente.

