Categoria: Análise&Opinião

  • Dilma, largue o Zé!

    andres vince*
    Desde sempre tive o péssimo hábito de acompanhar a vida política do país. Tudo começou quando eu tinha uns sete anos e enquanto administrava o trânsito da minha gigantesca frota de carros miniaturizados escutei o presidente falar na TV sobre sua preferência ao odor de um estábulo ao cheiro do povo. Não eram essas as palavras literais, mas, o sentido, como eu constatei na prática, até uma criança percebia.

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    Até uma criança entendia o general Figueiredo

    É o primeiro pensamento do tipo “mas que porra é essa?” o qual tenho lembrança. Muitos outros vieram depois desse. Talvez milhares. Tanto o Executivo, como o Legislativo, e mais recentemente o Judiciário (atraído pela luz dos holofotes), alimentam com fartura esse pensamento. Desde que o então presidente general João Figueiredo proferiu aquela infeliz declaração, muita coisa absurda já aconteceu e já foi dita neste país.
    Porém, nunca uma figura pública me chamou tanto a atenção pela incapacidade de produzir algum resultado concreto como o atual advogado de defesa da presidenta eleita Dilma Rousseff. Nunca vi alguém primar tanto pela neutralidade, ineficiência e teatralidade.
    Seu desempenho como ministro da Justiça foi abaixo da linha do medíocre. É inexplicável como se manteve no cargo por tanto tempo. Se um ministério pudesse ser comparado a uma equipe de futebol, ele seria aquele jogador aipim, que fica plantado esperando os outros jogar a bola pra ele. Só que quando alguém passava a bola, ele devolvia. O passe era bonito e refinado, mas, inútil.
    Fez um golaço de bicicleta quando estava no cargo. Só que foi contra. Como pôde não cair depois de ser flagrado num grampo afagando um governador que foi preso pela PF por porte ilegal de arma durante uma operação de busca e apreensão por suspeita de corrupção? Só conseguiu manter-se no time porque o jogador da equipe adversária, ministro Gilmar Mendes, também fez o mesmo golaço contra. “Que loucura!”, afirmaram os dois ministros no grampo onde eles referiram-se ao fato de o governador ter sido preso depois de sua casa ser vasculhada. Pois é, que loucura mesmo ministros, que loucura. Toda a preocupação que o Zé não teve com a Justiça, ele teve com a “injustiça” praticada naquele episódio. Pobre governador.
    Quando a sua inutilidade foi reclamada até pela oposição, foi retirado do cargo de ministro indo parar na AGU. Com o novo cargo, uma nítida transformação ocorreu. De jogador aipim da equipe ele foi promovido à categoria de raivoso Poddle Toy da Dilma. Sabe aquele cachorro que late do quinto andar quando alguém abre a porta do prédio no térreo? Sabe aquele cachorro que todo mundo odeia, menos a dona? Essa foi a imagem do Zé Cardozo como advogado geral da União. Só serviu pra irritar as pessoas, enquanto a dona achava tudo muito lindo.
    Agora como defensor pessoal da presidenta não poderia ser diferente. A mesma linda e rebuscada ineficiência de sempre. Não me entendam mal, não acho que ele seja uma pessoa inepta. Que pessoa seria capaz de citar o senador romano Cícero enquanto um pitbull morde suas partes pudendas? Pois nesta quinta (02/06), durante a defesa de Dilma na comissão do especial do impeachment no Senado, ele foi capaz disso. Fantasticamente incrível. E inútil.
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    “Tchau, querido”: Sob forte ataque do senador Moka, o Zé disse não ser Catilina

    É o que os especialistas poderiam chamar de reação desproporcional, só que ao contrário. Enquanto sofria o ataque desrespeitoso do senador Waldemir Moka, foi um perfeito gentleman, porém, quando o trator passou por cima e enfiou goela abaixo o parecer “isento” do relator senador Anastasia, aprovando e desaprovando os requerimentos de acusação e defesa como bem entendeu, ele não foi capaz de nenhuma reação. Deixou o trator passar por cima sem nem sair da frente. Patético.
    Os senadores, da agora oposição, tiveram que praticamente arrancá-lo da mesa, de onde  retirou-se com muitas vênias, sem nem ao menos chamar o senador Moka lá fora, onde poderiam resolver as diferenças sem ferir o decoro da casa, saindo sob gritos debochados de “tchau querido!”. Duplamente patético.
    Desculpem pelo sexismo, mas a senadora Vanessa Grazziotin teve mais hombridade que ele, indo bater na mesa do presidente da comissão, senador Raimundo Lira, depois de tão descarada manobra processual. Atitude também inútil, mas, já que é teatro, vamos quebrar uns vasos pelo menos, pra deixar a peça mais dramática.
    E a Dilma não abre mão dele. Isto me lembra muito a cena epíloga do filme Titanic, certamente a maior geradora de lágrimas em cascata da história do cinema: quando a mocinha acorda segurando a mão do mocinho, nessas alturas já transformado num picolé.
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    Paradoxo de Dilma: “largar ou não largar o Zé?, eis a questão!”

    Esse deve ser o paradoxo de Dilma que, com certeza, nutre algum afeto por ele: “largar ou não largar o Zé?, eis a questão!”. Só tem essa explicação. Nem vou julgar se esse sentimento é maternal ou não. Sei que muitas mulheres têm apreço por ele. Outras tantas também têm pelo DiCaprio. Só que o Zé já cumpriu o seu papel no filme. Já colocou a mocinha sobre a tábua de salvação e ficou ali segurando na mão dela, congelando, muito embora, há suspeitas que os dois cabiam na tábua. Agora a Dilma está lá, sozinha, no meio dos destroços, esperando resgate. Viu como até comparado ao filme, o Zé não se sai bem? E ele lá, que nem um picolé de DiCaprio, segurando a mão de Dilma, esperando pra ir direto pro fundo.
    Então, por tudo isso, se desse o acaso de eu esbarrar com a presidenta eleita na esquina democrática, sexta-feira passada, eu só iria conseguir dizer: “Dilma, largue o Zé!”.

  • Estupros: desde 1964, na linha reta do tempo

    RAUL ELLWANGER
    Uma jovem brasileira foi estuprada por mais de duas dezenas de homens cidadãos, em maio de 2016. Foi vitima de tortura, mais especificamente, de tortura sexual.
    O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi condenado por ofender a colega gaúcha Maria do Rosário (PT) no plenário da Câmara em 2014:
    — Há poucos dias você me chamou de estuprador e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece — disse o deputado durante uma sessão.
    Em que consiste a ofensa ? Na ameaça de estupro ? No livre arbitro do deputado em estuprar ou não ?
    Tortura consiste em submeter outrem a dor violenta, com objeto de extrair confissão ou informação, ou sem este objeto. A tortura policial ou política tem uma finalidade, é funcional, seu objetivo é destruir o outro.
    A tortura sem finalidade aponta apenas para a doença mental do seviciador. A que serve este tormento ? Para o gozo do perpetrador ? Há prazer em fazer sofrer ?
    Estupro é submeter outrem pela força à perda do domínio e da privacidade de seu corpo, através de relações de tipo sexual, sejam genitais ou não.
    É de sua natureza orgânica um brutal constrangimento moral, dada a auto-estima que toda pessoa tem, convicções religiosas, associação com maternidade, conceitos de hombridade, tradição cultural.
    Qual o objeto do estupro?
    A repressão policial e politica com frequência combina tortura com violência sexual, assim se fala em tortura sexual. Por experiência, o repressor sabe que a força de ‘demolição’ do tormento material e moral sobre o torturado se incrementa quando tem conotação sexual.
    Isto é denotado pelas ofensas verbais, carregadas de sexismo supostamente ofensivo, assim como pela minucia com que se devassa e mortifica cada parte do corpo vitimado.
    O mesmo deputado em reiteradas ocasiões tem feito o elogio de torturadores do regime militar, assim definidos oficialmente pelo Estado Brasileiro no Relatório da Comissão Nacional da Verdade de 2014.
    Na prática da vida real, o mais importante na situação atual é a impunidade de cerca de 400 criminosos listados, tendo à frente generais e ditadores.
    Quando dezenas de homens violam uma moça, estão praticando tortura e tortura sexual. Não buscam informações ou destruição de um ‘inimigo’ (o subversivo, o ladrão), pois o martírio que realizam não tem objetivo.
    Tampouco se pode supor a fruição de prazer e deleite. Estaremos diante de enfermos, de psicopatas ? Fizeram o que fizeram por pura diversão ?
    Ligando a fala do parlamentar com a violação múltipla, temos que o elogio atual do torturador do passado estimula a violência do estuprador do presente. A fala daquele torna natural, comum, banal e aceitável a violação.
    Quando o falador diz que depende dele torturar sexualmente a deputada ou não faze-lo, está dizendo que a tortura é corriqueira, vulgar, que ele opta por ela ou não segundo seu critério.
    Ademais, fala disso aos gritos em pleno Congresso Nacional. Os homens que arrasaram a jovem seguem a mesma lógica, de praticar a violência sem respeitar a outra pessoa nem as barreiras morais e legais criadas pela sociedade.
    Para tais criminosos, vale apenas seu arbítrio, a imposição da força bruta sobre uma mulher indefesa, como fizeram os Ustra, Fleury, Malhães, Seelig, Cerqueira, Curió, Correia Lima, Audir, Dulele e demais ícones de Bolsonaro sobre cidadãs e cidadãos sequestrados nos DOI-CODI.
    No terreno da moral, da lei e da política, o nostálgico Bolsonaro estimula e é cúmplice da violação atual.
    Na falta de ‘subversivos’, dispara sua baixeza contra a colega parlamentar e mulher. Imaginemos o que faria contra uma jovem simples do povo, não parlamentar. Imaginemos o que faria contra uma raptada oculta de 1971, na penumbra e solidão de um quartel remoto.
    Há algo comum entre os violadores de hoje, o deputado militar e os torturadores de 1964: a idéia da banalidade. Esses rapazes acreditam que se com aqueles grandes criminosos seriais nada acontece, se até mesmo um parlamentar diz que torturar é banal e vulgar, então estuprar uma mulher é fato corrente e comum.
    Como nem os agentes de 1964 nem o parlamentar são punidos, se divulga a idéia de que nada acontecerá, que ficarão impunes seus crimes como milhares de outros seguem sem punição desde mais de 50 anos.
    Se os atormentadores da ditadura tinham um motivo ou pretexto para torturar e violar sequestradas e sequestrados, os estupradores de hoje não dispõem (segundo as noticias atuais) de alguma justificativa ou explicação para seu ato. Nem motivo passional, nem vingança, nem roubo, nem acerto de contas, nem disputa de território. Nem podemos supor perguntados pelo motivo de tão hediondo crime, dirão que o praticaram… qualquer ressaibo de prazer. Entre a impunidade e a banalidade, porque sim.

  • Combinando com os russos

    PINHEIRO DO VALE
    A antecipação dos prazos, pela comissão do impeachment no Senado, vai acelerar o início da segunda fase da campanha de Dilma para recuperar o seu mandato: seus estrategistas vão antecipar o corpo a corpo com senadores, previstos para o começo de julho.
    A segunda fase, que se inicia com o comício da Esquina Democrática, nesta sexta-feira, em Porto Alegre, inclui os protestos contra o golpe se ampliam e tendem a crescer e se espalhar pelo país.
    Para isto, conta-se com a crescente impopularidade do Governo Provisório do presidente interino Michel Temer.
    Sem soluções para o desemprego crescente e a inflação de preços, o descontentamento tende a passar dos espaços militantes para generalidade das ruas.
    Somente a partir dessa fase será prudente a própria presidente Dilma assumir a linha de frente das negociações com os parlamentares eleitores do Senado Federal.
    Uma proposta de movimento tático é reproduzir, em parte, a experiência grega.
    O primeiro ministro Aléxis Tsipras, cargo com eleição direta, venceu a situação conservadora em janeiro e 2015 com um programa de aumento dos gastos públicos, ampliação de benefícios sociais e moratória da dívida externa.
    O projeto não funcionou devido à resistência do sistema financeiro europeu de alargar prazos de pagamento. Ameaçado de exclusão da Zona do Euro o novo governo entrou em semi-colapso. Era queda iminente, nos moldes do sistema político local.
    Tsipras deu um lance de grande coragem política: foi para as ruas com um mea culpa, assumiu que seu programa era inexequível e propôs uma nova política econômica diametralmente oposta. Ninguém esperava que ele fizesse isto.
    Com a mesma votação de janeiro, reforçando sua legitimidade, venceu novamente em 20 de setembro e deu a guinada que, pouco a pouco, vai tirando a Grécia do buraco.
    Também no Brasil a presidente afastada pode usar seu respaldo de legitimidade para propor um novo pacto com seu eleitorado.
    Para isto Dilma precisa mudar, pelo menos, oito votos no plenário do Senado, dando, desde já, como perdida a batalha na comissão especial, esmagadoramente favorável ao impeachment.
    Seu argumento principal seria a possibilidade real de com ela encontrar uma saída para a crise econômica e abrir espaço para negociações políticas consequentes. Sua força real é a legitimidade dos 54 milhões de votos. Isto é inegável. Tsipras é uma prova palpável.
    Em segundo, ela viria com uma nova política econômica que, respeitando a austeridade, aproveitando-se, também, dos avanços no legislativo de propostas que ela apresentou, mas foram rejeitadas.
    Apresentaria alguns fatos novos. Primeiro: Lula assumiria ostensivamente o comando político.
    Com o ex-presidente dando fiança, a antiga base aliada poderia voltar, aceitando como efetivos os acertos políticos. Esta seria uma queixa removida.
    Neste sentido, também com apoio de Lula poderia manter a equipe de Henrique Meirelles, com as bênçãos do ex-presidente. Seria a base de credibilidade para descongelar a atividade econômica.
    Tal demonstração de flexibilidade seria o aval para a retomada da confiança para investidores, interna e externa.
    Nesse projeto de retomada do crescimento, tendo ênfase as concessões de infraestrutura e joint ventures nas estatais, seriam um elemento poderoso para robustecer o mercado de trabalho nos empreendimentos de engenharia pesada.
    Também seriam tomadas medidas para reativar a economia no varejo e serviços, encorajando pequenas indústrias e lojistas a abrirem suas portas, chamarem de volta empregados dispensados e assim dar um sofre no no desemprego.
    Não é descartada a proposta de um lance ousado, como convocação de eleições em curto prazo ou de uma constituinte exclusiva para a reforma política. Também nesses casos o estado estaria sob Dilma, pois ela confere a legitimidade.
    Tanto no País como no Exterior, a volta da presidente afastada seria um sinal poderoso de normalidade constitucional, algo importante para recuperar a imagem externa abalada pelas tropelias do golpe e a confiança interna de segurança jurídica para a retomada dos negócios.
    O projeto de ação com um desenho nesse quadro está sendo examinado.
    O desafio a Dilma será recompor seu relacionamento com os parlamentares, incluindo, neste caso, uma modus vivendi com o presidente interino Michel Temer e seu PMDB. Sem o centrão seria impossível governar.
    Ela teria de, com esses movimento, comprovar que pode oferecer governabilidade. Esse é o ponto central, pois Temer tampouco está conseguindo domar as forças centrífugas que arrebentam o pacto da coalisão.
    Até chegar a uma reforma política, o Executivo terá de se conformar com o multipartidarismo em vigor.
    A percepção é que se as ruas não votam no Senado, elas podem ajudar a mover votos contrários. Afinal, a última pesquisa já apontou Dilma com 33% de apoio, um crescimento significativo, pois quando levou o golpe não tinha mais de 11 por cento.
    Enquanto isto, Temer está parado nos oito por cento, ou seja, 92 por cento de impopularidade. É um bom desenho, no entender dos estrategistas. O desafio para a presidente afastada é conseguir combinar com os russos.

  • Nos tempos da barbárie é que era bom

    Andres vince
    Nos bons e velhos tempos da barbárie, a violência fazia parte do cotidiano. Naqueles tempos, tudo se resolvia na base da melhor espada, do maior machado, do melhor preparo para o combate. Havia algum equilíbrio nisso.
    Nos bons e velhos tempos da barbárie, não existiam os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, protagonizando ações, ou até inações, que fariam os bárbaros sentir vergonha alheia.
    Nos bons e velhos tempos da barbárie, não havia um grupo especial e treinado para reprimir manifestações de pensamento.
    Nos bons e velhos tempos da barbárie, um líder não iria durar muito no posto se fosse pego de braço erguido gritando: “eu não vou cortar”, ao mesmo tempo em que segura com a outra mão uma tesoura escondida nas costas.
    Nos bons e velhos tempos da barbárie, um líder não mandava tirar a moradia de quem está em piores condições de lutar.
    Nos bons e velhos tempos da barbárie, alguma cabeça rolaria se alguém declarasse que iria proteger as mulheres, logo depois de ter feito tudo pra menospreza-las e diminuí-las.
    Nos bons e velhos tempos da barbárie, se uma mulher fosse pega brincando com armas que fazem parte do seu ambiente, isso não serviria de justificativa para estuprá-la. Muito menos se ela estivesse drogada. E muito menos ainda, o pessoal sairia por aí contando isso pra todo mundo.
    Nos bons e velhos tempos da barbárie, gorilas não davam pitaco na educação das crianças, mesmo que esse gorila falasse.
    Nos bons e velhos tempos da barbárie, se um garoto conspirasse contra um líder, conclamando um motim espontâneo, livre e independente e fosse apanhado com a mão no pote dos adversários do líder, bom, nesse caso, acho que o garoto seria anistiado, visto que a própria desmoralização já seria suficiente.
    Por essas e outras que acho uma injustiça dizerem por aí que vivemos em tempos de barbárie. Nos tempos da barbárie é que era bom.
    Mas, aos saudosos dos bons e velhos tempos da barbárie, ainda resta alguma esperança. Existe um grupo empenhado em revogar o Estatuto do Desarmamento, devolvendo a todos os nobres cidadãos o direito de portar uma arma de fogo.
    Aí sim, teremos de volta os bons e velhos tempos da barbárie, quando poderemos consertar o para-choque do carro com dois tiros no peito do motorista que causou o amassado.
    Ah, os bons e velhos tempos da barbárie.
     

  • A Globo e o golpe

    Em 1964 também diziam que não era golpe. Era “intervenção preventiva”.
    O jornal o Globo (a Rede ainda não existia) saudou a “Democracia restaurada” quando o senado declarou vaga a presidência e empossou Rainieri Mazzilli, presidente da Câmara, no lugar João Goulart, o “presidente afastado”.
    Um governo de salvação nacional seria instalado, eleições seriam convocadas, a normalidade democrática seria restabelecida.
    O Globo era o porta voz desse discurso. A crise militar se seguiu, a linha dura se impôs, a ditadura mostrou a sua cara. A Globo se cevou à sombra desse descaminho. Foi a rede oficial do regime, enaltecendo-lhe os feitos, mascarando os mal feitos.
    É o papel que assume hoje em relação ao impeachment e ao governo Temer. Até agora parece bem sucedida e é clara sua aposta no governo Temer para voltar a florescer à sombra do oficialismo.
    O problema é que estamos em 2016.  E, segundo dizem alguns, a história só se repete como farsa.
     
     
     

  • O gravador do Machado

    PINHEIRO DO VALE
    O gravador do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, está causando mais sucesso que o gravador do Cacique Juruna.
    Quarta-feira ele quase botou fogo no circo quando foram publicadas as transcrições de suas conversas com o presidente do Senado Federal, senadorRenan Calheiros (PMDB/AL).
    A tática de Sérgio Machado é tão parecida que até parece plágio da tática do célebre cacique da tribo dos Xavantes para embaraçar e comprometer seus interlocutores.
    Nos seus contatos com autoridades, Juruna (que depois chegou a deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro)acionava o aparelho e usava as transcrições como documento para comprovar a desfaçatezdesses funcionários e governantes que, certos de sua ingenuidade, prometiam tudo e depois davam as costas.
    Com tudo na mão, certo dia o cacique apareceu em Brasília e exibiu suas provas à imprensa. Foi um grande escândalo de mídia. Jornais botaram a boca do mundo; as tevês deram espaço.
    O Cacique Juruna virou uma celebridade. Com seu gravador escancarou a hipocrisia e a má fé dos ativistas da FUNAI que, nas cidades, se pavoneavam como defensores das causas indígenas.
    O mesmo se repete agora com o Gravador do Machado. O ex-diretor da subsidiária da Petrobrás pegou sua maquininha e foi à luta. Procurou os manda chuvas, gente envolvida em captações para campanhas políticas, todos poderosos que lhe deviam favores e, com grande habilidade, arrancou deles falas comprometedoras.
    Quando o Lava Jato virou sua mangueira em cima dele, abriu o bico e deixou a todos na saia justa. Embora as conversas não tenham muita profundidade, deixam claro ao bom entendedor que ali se ouvia apenas a pontinha do iceberg.
    Derrubou um ministro de primeira linha e botou o governo do presidente interino Michel Temer na defensiva.
    O mesmo pode-se dizer do vazamento de Renan Calheiros. As críticas do senador à delação premiada não emocionam muito, mas o antagonismo do Supremo em relação à Dilma pode abrir um leque de suspeições.
    Afinal, naqueles dias, o STF indeferiu muitos pedidos de liminares dos advogados da presidente.
    No mínimo pode-se perguntar: quanto de má-vontade e de despeito poderiam conter as decisões dos ministros?
    O tsunami vem aí. Dizem que a próxima gravação de Machado vai pegar o ex-presidente José Sarney, que também foi um dos chefes peemedebistas que abandonou Dilma, mandando seus seguidores votarem pelo impeachment. O voto do ex-ministro Edson Lobão é a prova mais contundente.
    Por fim, vale destacar a pérola dessa fita, no trecho em que Renan Calheiros diz, embora de forma incompleta, que estava sendo negociada uma saída com o ex-presidente Lula.
    Pelo que se entendeu da conversa, Lula assumiria o poder, seria um chefe da Casa Civil com formato de primeiro-ministro. Pois é: Dilma perdeu o bonde. Se abrisse espaço para o ex-presidente certamente ainda estaria despachando no Palácio do Planalto.

  • O mistério do vazamento

    PINHEIRO DO VALE
    O mistério da República é localizar a quem interessava detonar o ministro do Planejamento de Michel Temer, o senador roraimense Romero Jucá, com a divulgação do conteúdo de conversas embaraçosas entre ele e um aliado há mais de três meses.
    Deitar na lona um peso pesado como Jucá é uma proeza de múltiplos resultados, todos negativos para o governo recém-instalado.
    Não obstante estar envolvido em fase de indiciamento em sete processos tramitando no Supremo, Jucá emergia no colégio de cardeais, não era membro da banda do baixo clero no ministério Temer.
    Ao contrário, o senador nortista faz parte da banda virtuosa do gabinete peemedebista, ao lado de Henrique Meirelles. Wellington Moreira Franco e outros astros do segundo escalão, como Pedro Parente. Pois não é que ele caiu de quatro logo ao levar o primeiro tiro?
    De fato, Jucá não era tão ficha limpa assim como se pintava na nova imagem, pois desde sempre, como político dos fundões remotos, construiu lá carreira passando por cima de obstáculos que, no Sul, já teriam acabado com ele há muito tempo.
    No jovem estado de Roraima esses tropeços não passavam de pecadilhos. Não adiante se espantar: o Brasil é assim.
    Antes de cair nas malhas dos templários de Curitiba, Jucá já passara pelos incômodos do fisiologismo da política naquelas bandas, envolvido numa negociata de desvio de madeira de terras indígenas quando ainda de sua estreia na esfera federal, como simples e jovem presidente da FUNAI.
    Na Justiça o processo se extinguiu por prescrição. Na política foi absolvido com a alegação então aceita de que a madeira não era dele, o dinheiro foi para o partido, com os apoios decorrentes foi catapultado para o governo do Estado e daí para a arena nacional na Câmara, no Senado e, desta feita, num ministério de primeira linha.
    Tudo isto para dizer que Jucá não é pouca coisa. Quem olhasse sua posição até a noite de domingo diria que se tratava de uma nova estrela no firmamento. Deixava obscuras bancadas periféricas para se lançar como teórico da economia, gestor de primeira linha, articulador político de alto desempenho, conselheiro de pé de ouvido do presidente. Ou seja: um manda chuva.
    Já se sabe que a gravação era parte do material da delação premiada de seu interlocutor, o ex-presidente da Transpetro, empresa subsidiária da Petrobrás, Sérgio Machado, já nas malhas do juiz Sérgio Moro. Ou seja: o autor da gravação foi o próprio delator Sérgio Machado.
    Então por que se botou a boca no trombone? Os primeiros suspeitos são os próprios membros do Judiciário, agastados com o que consideraram uma desfaçatez de Michel Temer passar por cima dos indiciamentos e outros que tais, nomeando Jucá ministro de linha de frente sem a menor cerimônia.
    Esta suposição ganharia verossimilhança porque estaria repetindo o episódio das gravações de Dilma e Lula.
    Consta que, ao se convencerem de que a presidente levava Lula para a Casa Civil como uma manobra para tirá-lo da frente do juiz Sérgio Moro, jogaram na rua a evidência que tinham para que ninguém duvidasse. E Lula caiu.
    Agora repetem a dose com Jucá: Temer desconheceu as evidências aceitas pelo juiz e ministros do Supremo e, então, levou. E Jucá recebeu um tiro no meio da testa, não nas costas como seria numa outra versão, de cunho conspirativo, que também corre (irresponsavelmente, pois não se sabe de onde saiu) em Brasília.
    Na capital federal o menor segredo é a origem de um boato. Quando não tem dono, todo o mundo fica alerta. É o caso deste, atribuído a forças ocultas que teriam como objetivo fortalecer a posição do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Vejam os leitores como se explica esta fantasia: Jucá seria uma ameaça à candidatura de Meirelles para 2018. É pouco?
    Nessa narrativa entram vários por quês. Meirelles é candidato a Fernando Henrique, o ministro da economia salvador da Pátria.
    A se confirmar que Meirelles fica com Fazenda e Planejamento (com todo seu cortejo de bancos e outras instituições), configura-se o desenho que Lula sugeriu a Dilma.
    Então Temer comprou a peça, podendo haver um acerto de bastidores para leva-lo como nome da chamada base aliada, catalisando uma coligação considerada impossível no cenário atual.
    Entretanto, ela poderia se compor para a eleição de 2018, se não no primeiro, no segundo turno. Se fosse assim, outro candidato dentro do mesmo governo seria um empecilho. Melhor matar a cobra de pequena.
    Se for isto que ocorreu inocenta o PT, pois estaria por traz de tudo o trio dos “imperdoáveis”, quais sejam: o juiz Sérgio Moro, o procurador geral Rodrigo Janot, e o ministro do Supremo Teori Zavascki (este mencionado por Jucá como “inconversável”).
    Há outra também alicerçada na ambição de Jucá de chegar a uma candidatura presidencial: o  PMDB de São Paulo, apoiado pelas frações sulistas, não veria com bons olhos a recondução do grupo liderado pelo ex-presidente José Sarney. Também é improvável, mas possível.
    Há tantas versões que se desfiarmos todas aqui, não caberiam no servidor da Internet. A verdade é que há muito mais coisas no ar do que aviões de carreira, diria o gaúcho Barão de Itararé.
    Quem morre de rir destas trapalhadas é a presidente afastada Dilma Rousseff. Embora saiba que estes fatos não influem no resultado da votação deu impeachment no Senado.
    Sua tropa parlamentar tem se mostrado muito limitada, não conseguindo ir além de um discurso considerado simplório. Como comentou um velho comunista veterano deste tipo de embates, relembrando a origem desses debatedores: “é nível secundarista”.
    Nas ruas, nas assembleias, nos espaços públicos em que pode se manifestar, Dilma se aproveita para, como fizeram com ela os tempos em que tinha as mãos atadas pelo cargo, fazer sangrar o governo golpista. Como diz o provérbio sueco: “a espada das mulheres está na boca delas”.

  • O fantasma que assombra Temer

     P.C. de Lester                  
    O Globo destacou duas repórteres – Junia Gama e Isabel Braga – para apurar a real influência de Eduardo Cunha junto ao governo interino de Michel Temer.
    Elas produziram duas matérias no fim de semana, concluindo que Temer aposta numa gradativa redução da força Cunha, pelo afastamento das instâncias formais do poder.
    A primeira matéria reproduz uma declaração de Cunha, feita a vários deputados da sua bancada: “Se eu renunciar vocês tem alguma dúvida de que vou ser preso? Se for preso, vocês acham que vou sozinho?”
    Isso foi dito, dias depois do afastamento de Cunha da presidência da Câmara. É um recado e uma ameaça, que seus interlocutores trataram logo de fazer chegar ao Planalto.
    As expectativas de Temer, segundo O Globo: à medida que seu isolamento vai se consolidando, Cunha vai perdendo a influência junto aos deputados de sua bancada, mais preocupados com suas próprias trajetórias.
    O jornal estima que hoje Cunha tem 50% de sua força na Câmara, “ou menos”. Chegará um momento em que para , salvar os dedos, ele entregará os anéis.
    Cunha certamente não pensa assim, ainda. Montou seu gabinete em casa e segue despachando e conversando com seus aliados como se estivesse na ativa. Mais: nesta segunda-feira, promete voltar a frequentar a Câmara, numa clara afronta ao STF que determinou seu afastamento.
    Por enquanto, segundo O Globo, a ordem do Planalto é atender no que for possível as demandas de Cunha e evitar ataques a ele. Elio Gaspari, no mesmo O Globo, diz que “Cunha tem um aliado em André Moura (lider de Temer na Câmara) e não se pode dizer que tenha uma adversário no Planalto”.
    Ao desafiar o STF, voltando a frequentar seu gabinete na Câmara, como anuncia, Cunha joga uma cartada decisiva.
    Não só para ele, como para o governo Temer que já enfrenta várias frentes de desgaste – desde o recuo em relação ao Ministério da Cultura até a reforma da previdência, que quer elevar a idade para aposentadoria, quando o próprio presidente interino se aposentou como Procurador aos 55 anos.
                                                                                                 
     

  • O futuro de Dilma

    PINHEIRO DO VALE
    O presidente do Congresso Nacional, senador Renan Calheiros, visitou pela primeira vez a presidente afastada Dilma Rousseff na quinta feira, para dizer-lhe que o quadro político lhe é muito desfavorável.
    Se já estava perdida, agora piorou, porque mais dois senadores disseram que votam pelo impeachment, aumentando, em vez diminuir, sua desvantagem.
    Os políticos da base de apoio à presidente, em Brasília, estão cada dia mais constrangidos quando falam com ela e ouvem seus propósitos beligerantes.
    Ela não se cansa de chamar Michel Temer de presidente provisório, o que de fato ele ainda é, mas os aliados ficam sem jeito quando ela diz tudo o que pretende fazer quando voltar para o Palácio do Planalto.
    Foi por isto que o senador Jorge Viana, do PT do Acre, pediu a Renan que fosse com ele até o Palácio da Alvorada, para dizer a ela que a situação piorara, pois os dois senadores do PMDB nortista, Jader Barbalho, do Pará, e Eduardo Braga, do Amazonas, que não tinham comparecido na sessão do dia 11 de maio, disseram que agora vão se apresentar e dar seus votos a favor do impedimento.
    Os correligionários de Dilma se dizem preocupadíssimos. Ela parece não estar neste mundo.
    Chama ministros (Eduardo Cardozo e Nelson Barbosa) para despachar, convoca a bancada parlamentar, manda marcar comícios. Quando os mais próximos se referem à situação que, como dizia o sambista Adoniram Barbosa, “está cínica”, ela parece não ouvir, muda de assunto.  “Faz olhar de paisagem”, disse um deles.
    Por isto pediram socorro a Renan, mas não adiantou muito. Diante da evolução política e, principalmente, das eleições que estão logo à frente, o PT e demais partidos que ainda ficaram com ela, precisam se acomodar no quadro eleitoral para não serem tragados nas urnas pela crise.
    As pesquisas revelam que se o presidente interino não é popular e, muito pelo contrário, é
    visto com desconfiança e hostilidade; aos poucos o eleitorado vai percebendo que o discurso de Dilma é falho num ponto essencial: quem botou Temer lá? Ele chegou com a votação do PT, tanto quanto a presidente. Se não fosse isto, não estaria no cargo.
    Temer e seus porta vozes estão esgrimindo com habilidade este fato. Dizem nas entrevistas que o presidente interino não tem toda a força que se espera dele porque chegou ao governo nessa forma enviesada, que tem de quebrar o galho, que não é candidato e não espera ser popular.
    O importante, os novos governistas estão dizendo aos quatro ventos, é contar a verdade, não mentir, não esconder nada. Este discurso vem diretamente da percepção generalizada de que Dilma disse uma coisa, na sua campanha, e fez outra. É o tal “estelionato eleitoral”, uma expressão que está voltando aos poucos contra a esquerda. O PT não pode deixar este bordão colar na sua imagem às vésperas de uma eleição.
    A verdade é que o PT não conseguiu ainda reverter o discurso e com isto não logrou reassumir a trincheira de oposicionista. Falar bem de Dilma ainda é inadequado para a população, quando seus antagonistas brandem contra seu governo com desemprego e inflação.
    As filas dos que procuram novas colocações e as remarcações nas feiras livres ainda falam mais alto.
    Botar a culpa da carestia em Temer requer uma ação urgente.
    Um possibilidade de fazer Dilma virar o cano de sua arma para outro lado é um ideia bastante criativa, inesperada, diriam alguns, estapafúrdia, diriam outros. É preciso criar um movimento positivo de apoio a ela, algo que poderia se não mudar o rumo das coisas em todo o país, pelo menos amenizar as rejeições.
    Neste fim de semana, caiu como um furacão, em Brasília, a entrevista-documentário do deputado gaúcho Ibsen Pinheiro, na TV Câmara.
    É um filme autobiográfico, em que o parlamentar do PMDB conta sua vida e relembra o impeachment de Collor, que foi deflagrado por ele, e faz uma autocrítica de sua carreira, refletindo sobre os motivos de sua queda.
    A entrevista é recente, mas gravada bem antes do impeachment de Dilma. O assunto ainda era uma especulação.
    Relembrando os fatos, dizendo que a crise política era derivada da ruina da economia, Ibsen reconhece que as denúncias de Pedro Collor e o Fiat Elba foram meros pretextos.
    Diz Ibsen que Collor caiu porque levou a economia ao colapso e não tinha mais condições políticas de liderar uma estabilização mínima, muito menos uma recuperação.
    A entrevista foi reprogramada por causa dessa afirmativa, como um recado do parlamento atual sobre a legitimidade do impeachment de Dilma.
    Indo adiante, Ibsen comparou-se a Collor (sem falar ainda de Dilma) para explicar sua queda vertiginosa, caindo de candidato a presidente da República para o olho da rua cassado numa processo de político/parlamentar ancorado numa matéria mentirosa da revista Veja, um erro de revisão que acrescentou três zeros à sua conta bancária no exterior. Onde tinha um depósito de mil dólares a revista da Marginal escreveu um milhão. Só isto bastou.
    Este erro que só anos depois foi admitido, era a causa alegada. Entretanto, diz Ibsen no documentário, ele caiu porque, primeiro, foi levado muito rapidamente de um papel de baixa média intensidade (presidente da Câmara) para os píncaros da glória, com a viabilização de sua candidatura presidencial ( “Aí descobri que tinha inimigos e adversários”) e, o principal, afirma, não tinha cacife político para se sustentar naquela posição.
    Mutatis mutantes seria a situação da presidente Dilma, quando perdeu sua base política majoritária. Alguns assessores lhe dizem que ela precisa reconquistar seu espaço como líder da esquerda, esquecendo-se dos partidos e aliados fisiológicos. A receita seria restaurar suas origens.
    A premissa é consistente: as melhores passeatas a favor de Dilma vêm ocorrendo no Rio Grande do Sul. É o lugar em que se vê maior número de manifestantes avulsos, independentes, é em Porto Alegre. Nos demais estados o pessoal que está indo às ruas são militantes partidários e ativistas sociais.
    Portanto, no Extremo Sul estaria a melhor plataforma de lançamento de um movimento consistente que se propague pelo país. Dilma, dizem, deveria baixar nos pampas para se mostrar à frente desses apoiadores.
    Já a proposta que se forma seria inaceitável por ela, neste momento: Dilma deveria renunciar para preservar seus direitos políticos e eleitorais, assegurando, também, seus proventos de ex- presidente. Se ela for cassada, perde os dois: fica oito anos impedida e perde direito à pensão.
    No Estado, ela poderia ser uma alternativa para a esquerda ter uma candidatura altamente competitiva para o Palácio Piratini. Outros sugerem o Senado.
    O que ela não pode é ficar desvalida. Esta advertência sobre o salário teria sido uma das mensagens que Renan Calheiros levaria a ela. Não se sabe se chegou a falar, pois Dilma não é dada a conversas ao pé do ouvido.
    Esses formuladores de voos estratosféricos ponderam: em 2005, quando Dilma ascendeu das Minas e energia para a Casa Civil falou-se que ela poderia ser uma alternativa para um bloco de esquerda ao governo do Estado.
    Nessa época, quem falasse que ela seria, em 2010, candidata e eleita presidente da República, diriam que estaria delirando. O sonho é livre.
    A exemplo de outros ex-presidentes, um governo estadual ou o Senado são propostas factíveis.

  • Relato do front: venceu o bom senso

    Andres Vince
    O final da manifestação da noite de quinta-feira (19/5) foi tenso. Porém, não me resta outra alternativa a não ser elogiar a atitude do tenente-coronel Mário Ikeda, comandante do Comando de Policiamento da Capital. A decisão de não atacar os manifestantes, como ocorreu na semana passada, e evitar uma confronto de consequências imprevisíveis, demonstrou equilíbrio e bom senso.
    Claro que não houve troca afetuosa de gentilezas e abraços carinhosos. A “negociação” começou no bom e velho estilo militar: “vocês tem 20 minutos, depois agiremos” foi o resumo da mensagem enviada pelo oficial Ikeda, através daqueles que se apresentaram a ele como lideranças do movimento.
    A atitude do tenente surtiu efeito. A liderança que “negociou” foi questionada e os manifestantes se dividiram. Alguns obedeceram a “orientação” e se deslocaram para o Largo do Zumbi, enquanto outros permaneceram na avenida Perimetral. Uma terceira parcela decidiu não arriscar e foi embora. Ponto para o comandante, afinal de contas, a estratégia militar se desenvolveu por milênios, não haveria de falhar logo agora. A intimidação verbal, para alguns, ainda funciona.
    Às 21 horas, esgotou-se o prazo dado pelo tenente-coronel e os jornalistas posicionaram-se para conseguir o ângulo mais seguro da batalha que se desenhava na avenida.
    O tempo foi passando e o clima de tensão aumentando. Quem ficou na avenida dava demonstrações que haveria resistência e gritava bordões de protesto. Alguém explodiu um rojão. Pequeno corre-corre. Mais tensão, mais adrenalina.
    Passados 15 minutos, uma nova tentativa de negociação foi feita, desta vez pelas advogadas das meninas presas na semana anterior. Sem sucesso, o recado era o mesmo: “saiam ou vamos agir”.

     | Ramiro Furquim/Jornal Já
    | Ramiro Furquim/Jornal JÁ

    Os manifestantes que se mantinham na avenida cobriram os rostos, preparando-se para o gás lacrimogênio que parecia a caminho de confirmar presença no evento. Cada um se protegeu e se preparou para resistir do jeito que conseguiu. Algumas pedras surgiram para municiar a resistência. Provocações aos oficiais e alguns ânimos mais exaltados deixaram o clima mais pesado. Uma linha de vanguarda foi formada por alguns manifestantes e avançou para mais próximo da posição dos oficiais. Tudo levava a crer que a noite não iria acabar bem.
    Porém, os minutos foram passando, uma falsa calma tomou conta do ar e temperatura baixa da noite parecia ter congelado os ânimos de ambos os lados. O comando da operação não se movia, o que a principio, parecia ser um bom sinal. Assim, por volta das 22 horas, o protesto estava naturalmente disperso, ninguém foi preso, nem agredido, direitos não foram violados, bombas de gás não explodiram, balas de borracha não foram disparadas, processos por abuso de poder não serão abertos, futuros precatórios não serão gerados contra o Estado, e, na melhor das hipóteses, a imagem da BM não sofre um novo arranhão ao ser usada como instrumento de manobra política, como já ocorreu com governos de todas as matizes.
    No entanto, o fato do comandante Ikeda ter exercitado a paciência, virtude que parece ter sido concedida pela sua descendência oriental, e dessa forma ter evitado que as cenas que ele mesmo promoveu na semana anterior se repetissem, não muda o fato de que uma via trancada é um problema de trânsito e não um caso de polícia.
    A Constituição é clara quanto ao papel das policiais militares: “Às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública” (art. 144, IV, p. 5º).
    Não havia desordem em nenhuma das manifestações, portanto não havia motivos para a ação da BM, nem da cavalaria e, muito menos, de agentes infiltrados de um setor da BM de duvidosa legalidade, como demonstra o citado parágrafo da Constituição.
    A desculpa usada para “seguir o protocolo” e liberar o uso da força se encaixa muito bem em uma via rural, mais conhecida como estrada, onde o motorista simplesmente não tem alternativa de desvio. Outra coisa, bem diferente, é uma via urbana, onde um simples desvio no trânsito resolve o incomodo. A insatisfação de uma minoria de motoristas não pode se sobrepor ao direito de manifestação de uma maioria. Seria a inversão da lógica democrática, onde a vontade da maioria deve prevalecer sempre. Não existe na Constituição o “sagrado” direito de ir e vir dos veículos, esse direito é inerente ao cidadão.
    Se seguirmos a lógica “trancou a via, chama a BM”, o que vai ser feito quando um cano estourar e impedir a passagem dos carros? Passar com a cavalaria por cima do buraco e jogar umas bombas de gás pra ver se o trânsito volta a fluir? Parece deboche, mas, viram como não há lógica? A lógica é: chama a EPTC e desvia o trânsito, até removerem o buraco, se possível, sem violência. Mas, e o fato do buraco não ser um movimento espontâneo? Bom, aí o problema é do buraco.