Categoria: Análise&Opinião

  • Queimando as pontes

    PINHEIRO DO VALE
    A presidente afastada Dilma Rousseff fez sua primeira aparição pública, na quarta feira, deixando-se fotografar no Palácio da Alvorada à frente de uma tela de computador comunicando-se pelas redes sociais.
    Não se ouviu sua voz nem se leu o conteúdo de suas mensagens.
    Não seria esse um bom dia para dar o troco a seus algozes, pois o carteiro levara, há pouco, um ofício expedido pela ministra Rosa Webber, do Supremo Tribunal Federal, pedindo que a “presidenta” se explicasse sobre o que ela quer dizer com “golpe”.
    Devido a esse discurso desqualificando o ritual do afastamento, Dilma estaria criando mais uma aresta a lhe dificultar o caminho de volta para o Palácio do Planalto.
    Como disse o ex-governador e senador paranaense, Roberto Requião, a presidente afastada está queimando as pontes.
    Seus assessores que ainda têm voz, cuidadosamente ponderam que ela deve preservar o que sobrou da debacle. O Supremo é uma possibilidade longínqua, mas é uma luz no fim do túnel.
    Isto não quer dizer que o tribunal vá lhe devolver diretamente a cadeira, mas dali pode sair uma fresta estreita que sirva para botar o pé lhe abrindo a porta do gabinete do terceiro andar.
    Em breve, talvez na semana que vem, pode estar chegando à praia uma primeira onda do esperado tsunami da Lava Jato, com o julgamento do recurso do presidente da Câmara , Eduardo Cunha, pedindo sua reintegração na Câmara e, por conseguinte, na presidência da Casa.
    Uma sentença negativa a Cunha pode ser a porteira aberta para que o ministro Teori Zavaski dispare os primeiros mandatos na orbita do foro privilegiado, pegando a turma que ficou sob sua jurisdição. Aí pode se dar o estouro da boiada.
    Os observadores, em Brasília, estimam que devam ocorrer mais de 200 prisões. Esse maremoto levará por diante tudo o que sobrou.
    Se conseguir surfar esta onda gigantesca, Dilma poderá chegar à praia e, mesmo arranhada e com algum membro quebrado, voltar a seu lugar. É um fio de esperança.
    A tática é que ela fique quieta sem provocar marolas antecipadas, porque a onda grande está quase chegando.
    Neste momento, o aconselhável é deixar o embate verbal para sua tropa de choque no Congresso. Neste particular, é interessante observar os discursos exibidos pelas tevês da Câmara e Senado.
    Quem vem acompanhando desde antes do impeachment fica com a sensação de que não pode crer nos seus próprios ouvidos.
    Os discursos têm os mesmos conteúdos de antes, apenas trocaram-se os oradores. A antiga bancada governista diz o que falavam os opositores e vice versa. Para uns a crise vem das antigas culpas; para os outros os programas sociais são obra do novo governo.
    E assim vai.  O novo governo já lançou seu bordão: “abrir a caixa preta”. Isto, no dizer dos assessores de Michel Temer, vai bater diretamente em entidades (ONGs) que têm convênios com o governo federal e que não prestaram contas.
    Só no Ministério do Planejamento havia mais de 20 mil projetos em exigência, isto é, em dívida. Isto se refere a pequenas organizações tão minúsculas que não têm condições técnicas para cumprir as intrincadas exigências pra prestação de contas da  burocracia do serviço público.
    Com isto, ficaram vulneráveis, impossibilitadas de receber novos aportes ou, mesmo, de se apropriar de recursos já aprovados.
    Uma dessas “caixas pretas” seria o Ministério da Cultura, onde artistas e promotores culturais captaram pequenas quantias, irrelevantes, e ficaram com suas contas pendentes.
    Além disso, há milhares de outros projetos que embora aprovados, estão em exigências burocráticas, esperando para receber o dinheiro.
    Entretanto, muitos desses projetos já fizeram despesas e ainda não puderam pagar seus fornecedores, deixando os promotores com dívidas reais no comércio. É uma situação angustiante.
    Segundo informações extraoficiais, o presidente interino teria dito que liberaria 200 milhões de reais para cobrir esse rombo. Essa promessa poderia acalmar protestos que se espalham pelo país, com ocupação de dependências do Ministério da Cultura.
    Neste particular, o novo governo assustou-se com a reação da classe artística. Mexer com os famosos, mesmo pequenos saltimbancos, é cutucar uma casa de marimbondos. Michel Temer quer se livrar rapidamente desse incômodo.
    No entanto, não conseguiu recuar, como ensaiou, recriando o Ministério da Cultura, como chegou a fazer e voltou atrás duas vezes.
    O plano de seus gestores é levar o setor de volta para o Ministério da Educação, mesmo que seja por um tempo limitado, para desmontar a bomba relógio que foi ativada com a atabalhoada providência de simplesmente dar um canetaço num espaço tão sensível.
    Com menor impacto, mas tão incômodo quanto o MinC, foi a intervenção na EBC, a empresa Brasileira de Comunicação.
    Ali está a TV Brasil, uma emissora regida por um estatuto especial e gerida por um conselho integrado por segmentos da sociedade civil. É outro vespeiro.
    Neste caso, porém, ressalva-se a Agência Brasil, uma agência de notícias do governo com grande aceitação no mercado. Esta empresa é, em milhares de casos, a única fonte de material jornalístico de pequenos e médios jornais das cidades brasileiras. Este segmento não estaria ameaçado.
    Sua redação é comandada por um jornalista do mercado, o gaúcho Paulo Totti, veterano das mais categorizadas redações da história da Imprensa dos anos 1950 para cá.
    Ali se produz um noticiário isento, informativo, que atende a toda a demanda de informações especificas sobre regiões e segmentos da administração, que estão além do foco da chamada grande imprensa, comprometida com noticiário de interesse dos grandes centros urbanos onde os jornais e tevês têm seus mercados principais.
    A EBC pode escapar da caça às bruxas.

  • As unhas do Cunha

    P.C. DE LESTER
    O Cunha saiu dos holofotes e muitos analistas o consideram um cadáver político, que só falta enterrar.
    Mas a verdade é que Eduardo Cunha está vivo e os sinais de sua vitalidade aparecem diariamente, não mais nas manchetes, nem por isso menos eloquentes.
    “Cunha manobra para manter Maranhão na presidência da Câmara”, foi o título de uma nota secundária do Estadão, na sexta-feira.
    Há um zumzum na Câmara e há quem dê como certa  a eleição de um novo presidente nos próximos dias. Jarbas Vasconcelos, do PMDB de Pernambuco, remanescente dos extintos “autênticos” do partido, é dado como o mais provável.
    Até agora, no entanto, lá está o Waldir Maranhão, submerso depois do fiasco, mas no exercício do cargo.
    Nesta segunda-feira, outra notícia: 300 deputados votaram em André Moura, do PSC, para líder do governo Temer. Moura é um dos aliados de Cunha na Câmara.
    Mais: Arthur Lira, investigado na Lava Jato e também aliado de Cunha foi eleito para presidir a Comissão de Orçamento da Câmara.
    Outra coisa que se diz: a influência do Cunha no governo Temer é próxima de zero. Mas outra notícia dá conta de que um ex-assessor de Cunha, Carlos Henrique Sobral, assumiu a chefia do gabinete do ministro Geddel Vieira.
    Também Gustavo Rocha, que atuou como advogado de Cunha, foi nomeado para a sub-chefia de assuntos jurídicos da Casa Civil.
    Por fim, informa-se que o próprio Cunha comparecerá nesta quinta-feira para fazer sua defesa na Comissão de Ética.
    Será uma boa oportunidade para se ver se o Cunha é mesmo um cadáver a ser enterrado ou um incômodo fantasma a assombrar o governo Temer?
     
     
     

  • Dilma chuta o balde

    PINHEIRO DO VALE
    Parece que a presidente afastada Dilma Rousseff resolveu chutar o balde. Desiludida com a possibilidade de recuperar a base parlamentar que lhe devolveria o cargo e estimulada pelos correligionários de que a melhor tática agora é deixar Michel Temer sucumbir na crise e olhar para as eleições de 2018.
    Ao se aferrar ao bordão do golpe, Dilma se afasta de vez dos senadores que a traíram, mas que seriam a tábua de salvação caso voltassem atrás.
    Neste caso a melhor tática seria recolher-se ao Palácio da Alvorada como a princesa da fábula e esperar que viesse o príncipe sapo para resgatá-la da maldição.
    Mas a presidente não quer o papel de Bela Adormecida. Vai à luta nas ruas e junto à militância, nos mesmos moldes da última trincheira em que se defendeu antes do impeachment.
    Isto não resolve para reconquistar o terço mínimo do Senado, mas tira das costas da esquerda o fardo da crise nos seus aspectos mais negativos que lhe ameaçavam os votos: o desemprego e a inflação.
    O problema do PT é estancar a hemorragia de adeptos e simpatizantes. As agruras da crise que recaiu sobre o partido fizeram desabar sua plataforma de lançamento de 27% para os 8% ou 9% que ficaram com Dilma até o final.
    A eleição municipal está aí e logo à frente a nacional, pois fechadas as urnas em outubro já começa a nova corrida para o Palácio do Planalto.
    A presidente ficou muito animada com os resultados de sua jornada final, quando teve espaço diário no Jornal Nacional.
    Ali o povo pela primeira vez a viu na telinha como ela é, a mulher braba e decidida que não se intimida, bem distante da tecnocrata tímida dos pronunciamentos oficiais lidos no primeiro mandato. A Dilma guerreira do refrão. Ela pensa em manter essa chama acesa.
    Para isto ela precisa correr o País e falar duro denunciando os golpistas. Ou seja: esquecer-se de fazer média com os políticos que poderiam devolver-lhe o mandato.
    Este movimento já estaria em curso, iniciando-se com sua pressa de voltar a Brasília, quando o plano era passar uns dias em Porto Alegre esperando esfriar o seu caldeirão, enquanto se bota lenha no fogão do Michel Temer.
    As dúvidas são: onde conseguir recursos financeiros para cobrir os custos de suas viagens pelo país? Como presidente afastada, reduzida à condição de simples liderança esquerdista, ela terá o mesmo espaço no Jornal Nacional? Ninguém sabe responder, nem mesmo se pode usar o avião da FAB para esse projeto.
    Nesta semana ela vai reunir seu ministério paralelo. Ainda não dá para saber o quanto será possível manter seus ex-colaboradores na ativa, pois como todos estão cobertos pelos salários da quarentena, por seis meses, talvez estejam impedidos.
    Os juristas do PT estão examinando o caso.
    Na verdade, os ativistas do partido estão se mobilizando para as campanhas municipais, até porque algumas vitórias poderiam amenizar as ameaças de desemprego que turvam o horizonte de muitos militantes.
    Neste caso da campanha eleitoral, dizem ser melhor Dilma ficar como vítima, longe dos palanques. Não seria produtiva sua presença ostensiva no terreno minado dos comícios.
    Nada disso, contudo, está resolvido, pois se espera a palavra final do ex-presidente Lula, que está afastado dos holofotes, mas não ausente de todas as articulações que ocorrem nos bastidores.
    A prioridade de Lula é correr para recuperar o tempo perdido nos embates do impeachment e costurar as alianças nos municípios, que passam na maioria dos casos, pelos partidos traidores.
    Na política brasileira, cada espaço é um espaço: nos municípios as legendas de aluguel têm força. Por isto, não vale muito a pena ficar dando pauladas nesses aliados a torto e a direto.
    Os algozes da Câmara e do Senado têm muitas caras. Realpolitik é a força do ex-presidente Lula. Nos municípios ele pretende tecer o pano de fundo para 2018.

  • PM paulista faz escola em Porto Alegre

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    A posse de Michel Temer refletiu uma importante mudança de atitude na política de segurança pública do estado do Rio Grande do Sul. Em dois dias de manifestações pacíficas, duas violentas e desnecessárias repressões policiais.

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    Registro de 12 de maio: despreparo. Foto: Guilherme Santos/Sul21

    A primeira repressão só multiplicou o número de pessoas da segunda manifestação. Se na quinta-feira eram centenas, no dia seguinte eram milhares. E a repressão aumentou na mesma medida. Nova saraivada de bombas e balas de borracha, mas, desta feita, foram realizadas prisões. Três perigosas manifestantes foram humilhadas, eletrocutadas e arrastadas pela avenida Perimetral.  Mais tarde, uma outra cidadã desavisada, foi prestar queixa da violência policial e recebeu voz de prisão. Seria, no mínimo, hilário, se não fosse real.
    Segundo o tenente-coronel Mário Ikeda, comandante do Comando de Policiamento da Capital, “a ação da BM foi natural, com artefatos não letais, exatamente para garantir a segurança dos manifestantes”. Ikeda alega que o uso da força ocorreu porque “um pequeno grupo permaneceu com intuito de permanecer bloqueando a via”. Desviar o trânsito nem pensar, coronel?
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    Policial infiltrado ajuda na detenção de manifestante. Identificado, deletou sua pagina no Facebook. Foto: Mídia Ninja.

    Havia a necessidade urgente de desocupar aquela via às 21h de uma sexta-feira? Valeu correr o risco de uma tragédia para que uma minoria de motoristas não fossem importunados, em detrimento de uma maioria que estava expressando sua insatisfação? Quem será responsabilizado se tudo sair do controle? Não há responsáveis, pois tudo é tratado na maior naturalidade, literalmente. O que não dá pra explicar como “natural” é a presença de um agente da polícia militar infiltrado e insuflando os manifestantes a agir com violência. Isso revela uma tremenda má fé.
    Porém, sem sombra de dúvida, é uma mudança radical de postura. Até semana passada, haviam ocorrido pelo menos três manifestações sem nenhum tipo de confusão. Por que a BM decidiu agora simplesmente atacar os manifestantes? Falo em ataque porque foi exatamente isso que aconteceu. Não houve o menor aviso, nenhum pedido para desocupar a avenida, nenhum tipo de negociação, que poderia ser facilmente intermediada pela EPTC.
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    Policiais tem dificuldades em dominar apenas uma manifestante. Foto: redes sociais

    É preocupante que toda imprensa trate o assunto como confronto. Entendo por confronto quando há ataques de ambos os lados. Não houve reação por parte dos manifestantes. A maioria dispersou com as bombas e as balas. Meia dúzia ficou pra fazer jus ao lema “vai ter luta”. E, mesmo assim, policiais também foram feridos. E se a reação fosse maior? Se houvesse contra ataque? E se a BM fosse encurralada pelos manifestantes? O que aconteceria? São perguntas que eu nem quero imaginar a resposta. Mas, parece que o governo estadual e o alto comando da BM, também não. É muita irresponsabilidade, sempre acobertada descaradamente pela imprensa amiga, rápida no gatilho em justificar a ação truculenta. Nossa querida ZH por exemplo, cunhou a intrigante manchete: “Protesto contra Temer tem ação da Brigada Militar com bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo”. Parece até que a BM é a atração de alguma festa. Na linha de apoio: “Polícia iniciou ação para desobstruir vias na Cidade Baixa”. Um primor.
    O uso de força policial passou de ultimo recurso para primeira medida assim que Temer tomou posse. Parece clara a nova política, afinal, é o governo da união dos gaúchos, e agora, dos brasileiros.
    A PM paulista faz escola de repressão na capital dos gaúchos. Disposição parece que já há. Só ficam faltando o efetivo treinado, o equipamento adequado e o salário em dia.

  • Nelson Rodrigues e a Globo

    P.C.DE LESTER
    Acabo de ver o jornal das 10, da Globo News.
    Um espanto: seis comentaristas e uma clamorosa unanimidade. Uma simplificação espantosa.
    Resumo: toda a crise que atinge a economia brasileira resulta dos erros da presidente Dilma.
    E toda a crise política, que acaba por afastá-la do cargo, também é culpa exclusiva da inabilidade dela.
    Nelson Rodrigues cunhou a frase: “Toda unanimidade é burra”.
    Acho que, no caso, não é burrice, não. É manipulação mesmo!
    Eles podiam disfarçar um pouco e colocar alguém para fazer um contraponto!
         

  • O dia seguinte

    PINHEIRO DO VALE
    Afastada Dilma Rousseff da presidência da República, levando consigo o PT para a oposição, volta ao primeiro plano uma agenda da reforma política, defendida, aliás, por todos os grandes  partidos e temida pelas pequenas agremiações, tanto as ideológicas como as de aluguel.
    A maior incógnita dessa possível evolução está na reorganização da esquerda, caso vingue a proposta aparentemente invencível de uma reforma partidária no curto prazo.
    Nos meios políticos há o temor de que a reorganização venha pela via da Justiça Eleitoral, daqui a dias sob o comando do último ministro nomeado por Fernando Henrique Cardoso, o paulista Gilmar Mendes, que assume a presidência do TSE.
    Neste caso, supõe-se que Mendes daria um canetaço proibindo as coligações partidárias nas eleições proporcionais, o que, por si só, precipitaria o desbloqueio desse tema no Congresso.
    Sem o guarda-chuva das grandes legendas, desaparecem do cenário parlamentar quase todos os partidos que atualmente têm suas mini representações no Congresso.
    Nas agremiações de direita a extinção das legendas de aluguel varre quase todos os micros partidos criados para obter tempo em televisão nos horários eleitorais das eleições e engordar as quotas de cada bloco no rateio do Fundo Partidário.
    Na esquerda é um tumulto.
    No segmento conservador, sem grandes definições ideológicas, essa reacomodação é tranquila.
    Na esquerda essa cirurgia tráz graves consequências, pois tira de cena partidos ideologicamente definidos e com grande tradição nas lutas política do País, tanto em tempos normais como na clandestinidade em ditaduras.
    O mais notório perdedor é o PCdoB, o Partido Comunista do Brasil, herdeiro direto dos fundadores da esquerda revolucionária no Brasil, há quase 100 anos, desde a década de 1920.
    Outro perdedor importante é o filho pródigo do PT, o PSOL, duro opositor da presidente Dilma Rousseff, mas que teve uma participação decidida na campanha contrária ao golpe recém-aplicado pelo vice-presidente em exercício Michel Temer.
    Fundado pela então deputada gaúcha pelo PT, Luciana Genro, para se opor ao presidencialismo de coalizão do presidente Lula, o PSOL evoluiu e se desenvolveu em vários pontos do Brasil, avançando para se tornar um partido nacional. Esta carreira pode ser interrompida.
    Esta evolução do PSOL se concretizava depois do êxito de sua candidata nos debates televisivos nas últimas eleições presidenciais de 2014. O PSOL se colocava como alternativa à esquerda do PT, uma posição disputada por outras mini legendas que, no entanto, jamais conseguiram passar das esferas corporativas ou estudantis.
    Esta barreira foi ultrapassada, mas com nova legislação das coligações provavelmente esse partido perderá sua representação parlamentar com bandeira própria.
    Tudo seria facilmente resolvido se a esquerda se articulasse com facilidade, tal como o PMDB, por exemplo, que tem grande experiência na formação de frentões.
    Entretanto, nesse segmento as composições são difíceis, como dizia Gaspar da Silveira Martins, autor da célebre frase “ideias não são metais que se fundem”.
    A convivência entre esses aliados sempre foi complicada. É um desafio de engenharia política abrigar todos sob uma mesma legenda, principalmente sob a hegemonia do PT.
    Porém, depois do fracasso do modelo de coalização, tido como o principal responsável pelaq ueda da presidente Dilma, pois é um monstrengo ingovernável, as restrições de acesso ao parlamento tendem a se impor, eliminando os pequenos partidos.
    Os chefões da política, que foram os inventores do sistema de legendas de aluguel, pesando o resultado do custo e benefício, tendem a se conformar com o final dessa fórmula rotulada de esdrúxula.
    Na esteira dessa primeira reforma podem levar a reboque e se acrescentar outros dispositivos, como um semiparlamentarismo com eleições antecipadas, com dissolução da Câmara no caso de desabarem as maiorias parlamentares, preservando a presidência da República, que seria mais cerimonial que executiva.
    Também pode mudar o sistema proporcional, com a reserva de 50 por cento da Câmara para o voto distrital.
    Neste caso haveria antecipação das eleições, como está sendo proposto. Se for assim, não é de se descartar uma interrupção do processo de impeachment em curso no Senado, convocando-se à presidente Dilma para presidir a transição, pois ela seria uma figura neutra nesse cenário.
    Esta seria uma saída, pois a solução judicial, pelo TSE, com a proibição das coligações proporcionais, somente poderia entrar em vigor depois do pleito de 2018.
    Até lá o País viveria nas incertezas de um presidencialismo de coalizão sem um presidente com força suficiente para implementá-lo.
    Se Dilma não pode mexer os pauzinhos com 54 milhões de votos, que se dirá de Michel Temer, sem nenhum.

  • Dilma cai atirando

    Nesta quarta feira o Senado vota e na quinta sai o PT e entra o PMDB, levando de volta para a Esplanada dos Ministérios o mesmo séquito de partidos que compunham e ainda compõem a chamada “base aliada”.
    Excluindo PT, PCdoB e PSOL, todos os antigos apoiadores sentam de novo nas suas cadeiras.
    Os partidos da esquerda voltam às ruas, trabalhando os dois desafios eleitorais que têm pela`frente, as municipais de outubro e as nacionais de 2018. Este é o cenário geralmente aceito pelos analistas.
    Aí está o golpe, que, embora as forças majoritárias neguem o vocábulo, deu-se dentro do Palácio do Planalto, como nos saudosos filmes de capa e espada tirados dos romances de Alexandre Dumas.
    Portanto, muito simples: o PT perdeu o comando político e seu aliado PMDB passou-lhe uma rasteira. É assim que acontece.
    Já a presidente Dilma Rousseff não aceitara a manobra quando rejeitou o banqueiro Henrique Meirelles como tutor, como era o desejo do líder de suas forças de sustentação, o ex- presidente Lula.
    Ali ela assinou sua carta de alforria, mas selou seu destino como presidente, pelo menos por enquanto (ainda vai correr muita água por debaixo da ponte antes de tirarem definitivamente seu mando, se conseguirem).
    Meirelles que naquela vez chegara triunfante ao Planalto Central, levando consigo uma queda na cotação do dólar e uma disparada ascendente nas cotações das bolsas, mas deu com a cara na porta, agora volta triunfante.
    Nada como um dia depois do outro, repetiria o Conselheiro Acácio.
    Os antigos aliados da presidente passam para os escaleres de salvamento, deixando aos fiéis precárias tábuas de salvação que, uma a uma, vão afundando.
    Entretanto, Dilma não se entrega. Neste final ela não titubeou e foi para a rua clamar ao povo, mostrando o que acontecia.
    Todos os dias ela apareceu no Jornal Nacional denunciando o golpe, mostrando um inimigo visível, o presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.
    Poupou os desertores.
    Entretanto, cada dia fica mais claro que os verdadeiros algozes estavam dentro de sua própria trincheira.
    Agora não adianta mais esbravejar contra Michel Temer. A raposa paulista, mesmo desqualificada pelas ruas (sua popularidade é menor que a de Dilma, que amarga o fundo do poço), soube recompor as forças majoritárias que, no início do ano compunham a base parlamentar do governo.
    A peça chega ao fim do primeiro ato. A surpresa que não estava no script é que Dilma não se conforma com o papel de velhinha roubada pelo trombadinha que a nova oposição pretendia colar à sua imagem.
    Ela deveria recolher-se ao Palácio da Alvorada e ficar regando as plantas, abrindo a porta aos turistas e aparecer de vítima indefesa nos telejornais, beijando criancinhas. Dilma vai à luta.
    Ela surpreende: esperava-se que se comportasse como uma mineira ensaboada, deixando que o governo Temer se afundasse em suas próprias contradições, e assim ganhando espaço para derrubar o impeachment no plenário, daqui a seis meses. Não será assim.
    Dilma decidiu pegar o touro à unha. Fora de suas características de tecnocrata, como fez no primeiro mandato, vai para a rua. Deixa para traz a economista de falas confusas e sai como uma oradora feroz botando o dedo na cara dos golpistas.
    No lugar da mineira maneirosa ela ressuscita a gaúcha de faca na bota e sai a campo para, sem medo, dar murros em facas de ponta.

  • O recado do Cunha

    P.C. de Lester
    A mídia rapidamente descartou a hipótese de que Eduardo Cunha tenha sido o inspirador do tresloucado gesto de Waldir Maranhão, o presidente da Câmara em exercício, que anulou a sessão do impeachment e, horas depois, voltou atrás.
    É conveniente, para os que fomentam o golpe, que tudo pareça mais uma trapalhada de um governo em frangalhos.
    Por isso, sem apuração, apenas com base em algumas evidências e em declarações interessadas, concluiu-se que o presidente interino foi pura e simplesmente aliciado pelo governador Flávio Dino e pelo ministro José Eduardo Cardoso, da PGR.
    Para que a “narrativa”  ficasse convincente, quase se ignorou o encontro que Maranhão teve com Cunha, na sexta-feira, antes de sair de Brasilia. Dali, ele foi falar com Temer?. Qual o recado? Não vem ao caso.
    Depois disso, pelo que se pode ver no noticiário, é que ele foi a São Luís. De lá retornou num avião da FAB com o governador Flávio Dino.
    É verossímil descartar Cunha desse enredo?
    Convém lembrar que Maranhão surpreendentemente votou contra o impeachment, mas ao justificar seu voto referiu-se a Cunha e proclamou sua fidelidade ao “sr. presidente”.
    Cunha emitiu uma nota descartando qualquer envolvimento na manobra da anulação e desqualificando Maranhão. Talvez esta seja a única parte que não combinaram. Não precisava, Maranhão sempre foi da confiança de Cunha.
    Não foi por outro caminho que ele chegou à vice-presidência da Câmara, apesar de seu gritante despreparo.
    Waldir Maranhão não é uma raposa cheia de manhas e espertezas. Ele é mais um porco espinho, que sabe uma coisa essencial: ele sabe que o chefe é o Cunha.
    E o chefe só queria mandar um recado aos que estão tentando abandoná-lo à própria sorte.
     
     
     
     

  • Um homem bomba

    P.C. de Lester
    A decisão do Supremo Tribunal a respeito de Eduardo Cunha ainda está sendo decifrada. Não dá para perceber até o momento toda motivações e todo o alcance de seu afastamento do centro da cena´.
    Uma vez mais, com essa decisão, fica evidente que há um script  por trás de todos esses movimentos que culminam com o impeachment da presidente Dilma.
    Cunha se colocou como uma peça essencial num determinado momento, depois se tornou um incômodo, um constrangimento para os golpistas, uma bandeira para os que contestam a legalidade do impeachment.
    Agora é removido num lance cheio de controvérsias. Sai dos holofotes, ninguém pode  pode falar em impunidade, fica talvez mais confortável para manobrar.
    É dificil acreditar que ele vai se simplesmente descartado e entregue às feras. Ele tem muita gente na mão, a começar pelo presidente Michel Temer.
    Nesse ponto é forçoso concordar com Mino Carta: Eduardo Cunha tornou-se um homem bomba no meio da crise política brasileira.
     
     
     

  • A falência da Democracia

    Andres Vince
    A invasão do congresso iraquiano pela população foi apenas mais um sinal incontestável da total falência da Democracia como forma de governo. No passado, o Iraque foi um rico e moderadamente próspero país governado por um tirano. Hoje, é um país democrático onde a população tem que invadir o Congresso, localizado em uma área militarizada, cercada de altos e pesados muros, para exigir que seus representantes sejam, pelo menos, nomeados, mesmo que sem votos.
    Esse é o modelo de democracia imposto ao mundo pelos Estados Unidos. Esse é o modelo que vem de um país, dito democrático, onde o cidadão precisa de uma calculadora científica pra conseguir saber quem foi eleito.
    Mapa da democracia_mundo AfricaPartindo desse princípio, o quadro da democracia no mundo é bem desanimador. Saindo um pouco da caixa, podemos vislumbrar um continente africano praticamente tomado de sistemas de governo antidemocráticos. Séculos de colonialismo não são fáceis de superar. Os países que não caíram nas governanças monoteístas, ou estão na mão de ditadores, ou estão em guerra civil. Há raras e isoladas exceções. Depois do apartheid, não me atrevo a citar África do Sul como exemplo de democracia.
    Mapa da democracia_mundo AsiaA Ásia tem boa parte do território ocupado pela China, com um sexto da população do planeta, vivendo sob o regime comunista, fato que a maioria das pessoas faz questão de esquecer, pra conseguir usar sem culpa o seu aparelho eletrônico. A Ásia tem uma cultura milenar, preservada a ferro e fogo, na luta contra os invasores colonizadores. Por lá, a democracia não é um dogma. A sobrevivência da sua cultura é, não importa o custo.
    Mapa da democracia_mundo OceaniaA Oceania, o mais “jovem” dos continentes, é um mundo à parte dentro do nosso planeta. Os cangurus e os koalas provam isso. Nunca deveria ter sido descoberta. Mas é, basicamente, um continente “que não fede nem cheira”, assim como o Canadá na América do Norte. Trocando em miúdos, a sua influência no cenário global é igual a zero. Um continente colônia. Um puxadinho da Europa.
    Mapa da democracia_mundo EuropaE a Europa? Bom, a Europa é a maior ditadura neoliberal já implantada no planeta. O que dizer de um continente governado com mão de ferro por uma troica basicamente financeira, que diz o que seus membros podem ou não fazer com seu dinheiro, com sua produção, com seu governo? No meu tempo, isso era ditadura.
    Fora da caixa ainda sobrou a América Central, agora disputada no palitinho entre a China e os Estados Unidos. Por ali, a ordem sempre foi mantida na base do apoio financeiro, seja para governos instituídos, seja para rebeldes contra governos não simpatizantes. Democracia pura.
    Voltando para a caixinha, a América do Sul, onde a Democracia, esse bebê ainda de colo, vem sendo sufocada com um travesseiro. Por aqui, a festa pelo velório é grande.
    Mal o continente se livrou das ditaduras militares, e o Paraguai foi vítima de um golpe institucional. Tudo dentro da regra claro.
    Temos a Venezuela, provavelmente, a ditadura mais democrática do mundo, sufocada por embargos de todo tipo, causados pela eloquência inconsequente de seu falecido ditador eleito.
    Mapa da democracia_AmsulTambém temos a Colômbia, um país comandado pelo narcotráfico. Para o governo democraticamente instituído, as Farcs não são um problema de Estado. As Farcs são concorrentes no negócio da droga. Quando os EUA interviu para acabar com a farra, o consumo de cocaína por lá quase que duplicou, devido ao crescimento da oferta. Sistema capitalista no seu melhor: aumento na oferta, queda no preço, aumento no consumo. Bingo!
    A Bolívia tenta se reerguer, inutilmente, pois padece da mesma baixa industrialização que a Venezuela. A diferença é que a postura é mais discreta, pois, qualquer embargo e pode faltar até papel higiênico.
    O Chile voltou a flertar com o liberalismo e já se arrependeu. Voltou correndo para os braços de governos mais à esquerda, que não pode fazer muito, frente ao alicerce ultraliberal no qual Pinochet deixou o país apoiado. Vai demorar um século para desconstruir esse paraíso do deus mercado.
    A Argentina, por sua vez, voltou aos braços dos liberais. Vitória do capital financeiro, do financiamento privado de campanha. Não da população.
    Não se pode esperar que seja uma democracia um sistema que elege representantes financiados com dinheiro de empresas. É absurdo, imoral e totalmente carente de ética.
    Se existe algo de verdadeiro na lógica liberal é o fato de que não existe almoço grátis.
    Será que existe alguém neste mundo, possuidor de alguma mínima faculdade mental, que possa conceber que uma empresa, que contrata consultoria pra cortar o custo do cafezinho, está dando milhões para campanha política por simpatia partidária? Sem contar que existem empresas que “doam” para os dois lados!
    E o pobre do cidadão achando que é ele quem escolhe quem governa.
    Sistema consagrado pelos romanos há mais de dois milênios atrás, esse é o atual quadro da nossa Democracia. Falida. No Brasil, ainda está em concordata, mas, com os credores se recusando a negociar.
    E a vida, sempre irônica, deixa o seu recado: a Democracia faliu, por excesso de dinheiro.