Um raro livro sobre a prática do fotojornalismo

Se me fosse dada a chance de escrever um livro sobre minha vida de jornalista, eu tomaria como referência A Força do Tempo (Libretos, 184 páginas), de Ricardo Chaves, repórter-fotográfico que atuou a partir de 1970 no polígono Porto Alegre-Rio-São Paulo-Brasília, voltando em 1992 ao ponto de origem – o diário Zero Hora -, onde segue na labuta como editor do Almanaque Gaúcho, seção que lhe permite ir e voltar ao passado a bordo de fotografias antigas, e praticando com perícia a escrita.
É claro que, no tal livro imaginário, eu teria de me contentar em escrever textos mais ou menos saudosistas, e até recordaria ter feito uma ou reportagem com alguns dos melhores fotógrafos brasileiros – Assis Hoffmann, Leonid Streliaev, Marcelo Curia, Tânia Meinerz, Carlinhos Rodrigues e o próprio Kadão Chaves, entre os gaúchos -, mas me faltaria a matéria-prima fotográfica que, no caso de Kadão, constitui a essência deste livro sem precedentes no panorama jornalístico brasileiro. É muito bom que tenha surgido uma obra desta dimensão no momento em que, atrapalhado por uma convergência de novas mídias sem sustentabilidade econômica, o ofício de jornalista atravessa uma baita crise existencial. Kadão é precisamente um dos últimos moicanos a operar – como PJ, não mais como CLT – num veículo sem perspectiva de sucesso, como a maioria dos newspapers.
Nesse livro editado com maestria por Pedro Haase (Quati Produções) e Clô Barcellos (Libretos), o sessentão Kadão esbanja categoria como fotógrafo e se revela um redator preciso e sensível – uma surpresa para todos aqueles que se acostumaram a ver a maioria dos chamados retratistas limitando-se a ler apenas títulos e legendas, sem paciência para atravessar as colunas cinzentas dos textos, porque lhes bastavam as imagens. Na realidade, se ficasse só com as imagens e suas respectivas legendas, o fotojornalista já formaria uma obra respeitável. Com os textos, dá de relho na concorrência.
Ao lembrar os melhores momentos de sua carreira, sem ter esquecido sequer o nome dos motoristas que o levavam às metas, Kadão Chaves se equilibra bem como autor e personagem de um raro documento sobre a história da reportagem fotográfica no Brasil e no mundo. Tamanho comedimento, sem falsa modéstia, pode ser de extrema utilidade como matéria de estudo em escolas de jornalismo. Kadão Chaves fotografou grandes figuras do século XX – Fidel Castro, o Papa, Pelé, Atahualpa Yupanqui, Erico Verissimo e Chico Mendes, entre outros – mas não perdeu a capacidade de refletir sobre as pequenas grandezas e as grandes misérias deste mundo velho sem porteira. Da capa que mostra a fachada de uma relojoaria desativada de Montevideo à contracapa com a cara do próprio photo worker, A Força do Tempo não desperdiça imagens nem palavras.

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