Autor: Elmar Bones

  • “Sou um cidadão que não se conforma com o que estão fazendo com Porto Alegre”

    “Sou um cidadão que não se conforma com o que estão fazendo com Porto Alegre”

    Felisberto Seabra Luisi nasceu em Porto Alegre, mas viveu infância e adolescência em Cruz Alta, para onde  se mudaram seus pais.

    Tinha 15 anos quando voltou à cidade natal. Estudou no Rosário, formou-se em Direito na Ufrgs, especializou-se em Direito Agrário na Itália. Tinha 40 anos quando começou a realmente conhecer sua cidade. Não descansou mais.

    Em 2026, aos 75, aposentado, ele comemora 35 anos de dedicação quase exclusiva aos movimentos comunitários de Porto Alegre. É com essa autoridade que ele fala ao JÁ e faz um balanço de mais de três décadas de atuação nos movimentos comunitários de Porto Alegre, critica a falta de participação popular e alerta: “O Plano Diretor avança (em votação na Câmara Municipal) sem debate e favorece interesses privados”.        

    JÁ – Tem uma data que marque o início dessa tua militância nos movimentos comunitários?

    Felisberto – Em 1991 eu fui contratado por uma “invasão” na Zona Sul. Eles tinham ocupado uma área e precisavam de um advogado para a defesa. Cheguei nessa comunidade num domingo, onze horas da manhã, nos reunimos embaixo de  uma árvore e eles perguntaram: “Doutor, você vai resolver o nosso problema?” Eu disse: “Não, nós vamos resolver o problema”.

    JÁ – Eles entenderam?

    Felisberto – Sim, começamos a criar uma estrutura na própria comunidade para respaldar a defesa jurídica e também reunir dinheiro para a eventualidade de comprar a área. E foi o que aconteceu.

    JÁ – E eles compraram a área?

    Felisberto – Em quatro anos conseguimos comprar a área. Primeio, foi arrecadado R$ 50 mil e, aí, sentamos para negociar com o proprietário. Ele pediu 100 mil, a gente disse: “Damos 50 mil de entrada  e queremos negociar os outros 50 mil”.

    JÁ – O dono topou…

    Felisberto – Topou. Eu queria 24 meses. A comunidade disse: “Não, nós vamos pagar em 12 meses”. E pagaram em 12 meses.

    JÁ – Que comunidade é essa?

    Felisberto – Jardim das Estrelas. Fica na Cristiano Kleber quase esquina com a Juca Batista. Hoje está urbaniza, com calçamento, água, luz, esgoto… Só ainda não está regularizada a área, não estão individualizados os terrenos. É um processo, eles seguem  tratando disso.

    JÁ – Essa foi tua iniciação no movimento comunitário?

    Felisberto – Foi a partir daí que conheci o Orçamento Participativo (OP), entrei como delegado dessa comunidade… e não saí mais. Fiquei fora dois anos, de 2007 a 2009, pela doença da minha filha, mas isso é outra história.

    JÁ – Como funcionava o OP na época?

    Felisberto – Estava começando, com o Olívio Dutra na prefeitura. Nas reuniões, na mesa, sentavam os representantes do governo, só. Na primeira reunião, eu disse: “Tem uma coisa errada nesse processo aqui”. Os caras me olharam: “Como?”. “Só tem governo aí, vocês trazem a pauta, decidem os assuntos, nós temos que democratizar essa relação. Tem que ter alguém da comunidade aí na mesa”. Aí foi criada a comissão paritária.

    JÁ – O que que é essa comissão paritária?

    Felisberto – Ela coordenava o processo. Eram oito, quatro do governo e quatro da comunidade. Se reuniam, faziam a pauta e coordenavam as reuniões.

    Mas isso era uma primeira parte de todo o processo. Porque não basta demandar, tem que estabelecer uma relação, para acompanhar a execução orçamentária, determinar o início da obra, não só a critério do governo.

    Na sequência, em 2002, foi criada a comissão de receita e despesa. Foi o avanço possível na época. A minha proposta era mais ousada, era ter um membro do OP na junta financeira, acompanhando as decisões. Não conseguimos, nem lá e muito menos agora?

    JÁ – E as discussões sobre o Plano Diretor?

    Felisberto – Pois, é… Nesse período, começaram as discussões sobre o Plano Diretor e eu comecei a participar. O secretário era o Newton Burmeister, foi constituída uma coordenação e começamos a fazer o Plano Diretor que foi aprovado em 99, já no governo do Raul Pont.

    Como eu era muito envolvido nas ocupações, e questões de  regularização fundiária, fui eleito vice-presidente do Conselho Municipal.  

    Além de estar no OP, eu também participava do PMDUA, eu era delegado pela região 1 de planejamento, que abrange o Centro. Hoje eu sou conselheiro.

    JÁ – Estás no conselho desde quando?

    Felisberto – Eu fui eleito em 2018 e reeleito naquela votação maravilhosa lá em janeiro de 2024, com mais de 1.500 pessoas lá na Câmara, com 941 votos.

    JÁ – Foi surpreendente aquela eleição, não?

    Felisberto – Até hoje é uma coisa que não tenho ainda bem elaborada. Imagina as pessoas ficarem num sol, num verão, nas férias, até meia-noite, para votar numa eleição que não era obrigatória. Foi uma vitória contra a especulação imobiliária.

    JÁ – Mas o novo Plano Diretor que está em votação na Câmara… .

    Felisberto – Claro, o plano é deles, eles têm maioria. Nós vencemos numa região. Em outras regiões a gente não conseguiu vencer.  

    JÁ – Esse projeto que está na Câmara vai ser aprovado?

    Felisberto – A tendência é aprovar. Infelizmente…  Não sem luta, né?  

    JÁ – Qual é o ponto mais crítico nesse plano?

    Felisberto – A falta de participação e transparência do plano, para que as comunidades tenham noção do impacto que as mudanças propostas no plano vão ter na região onde elas moram.

    JÁ – A comunidade não tem noção do impacto na vida dela?

    Felisberto – Não, não tem mesmo a noção. A gente nota isso nos bairros, nas reuniões. Hoje há um poder de sedução do capital, fazem as grandes obras e oferecem alguma contrapartida. E as pessoas se deixam seduzir pela contrapartida. Por exemplo: precisa melhorar uma creche. A prefeitura diz que não tem como fazer e aí usa o recurso da contrapartida para fazer. Então, é uma obrigação do governo que o governo não faz, vai buscar o dinheiro do empresário, e dá em troca uma vantagem. O projeto é viabilizado com essa lógica.

    JÁ – Falta discussão sobre essas questões, é isso?

    Felisberto – A coisa mais crítica que eu vejo no processo é a falta de discussão das estratégias da cidade. Não há uma discussão com a sociedade. Que cidade a gente quer? Nós temos 700 comunidades vivendo em áreas irregulares, ocupações, invasões, loteamentos clandestinos… Se fizéssemos uma operação urbana consorciada, como foi feito em Fortaleza, seria uma revolução.

    JÁ – O que que significa essa regularização? Qual é o tamanho do problema?

    Felisberto – Um exemplo é o Jardim das Estrelas, essa comunidade na Estrada Cristiano Fischer. Até hoje ela não tem a regularização. Tem a infraestrutura conquistada pelo OP, porque tinha liderança que brigava e conseguiu levar as melhorias. Mas a regularização da área eles não têm, ninguém tem matrícula individualizada.

    Na maioria das comunidades não há sequer o mínimo de urbanização. Se estimular essa regularização e serviços urbanos, isso vai gerar trabalho e renda na própria comunidade, pois com o título do terreno, o morador consegue financiamento para construir uma casa ou reformar a que já tem. Em muitos casos, já tem a mão de obra ali mesmo na comunidade…

    JÁ – Estimularia uma economia local…

    Felisberto – Sim, hoje a construção civil da cidade traz mão de obra de fora. Se fizer uma pesquisa hoje, grande parte da mão de obra nos grandes projetos vem de fora, do Norte e do Nordeste. Tem muito baiano, carioca. Essa reforma do viaduto Otávio Rocha, na Borges de Medeiros… a empresa é de São Paulo, trouxe toda a mão de obra de lá, nordestinos que vivem lá. Noutras obras é a mesma coisa. Então, há uma falsa ideia de que a construção civil emprega as pessoas da cidade.

    JÁ – A cidade sabe disso?

    Felisberto – O que determina é o interesse do capital, não o interesse da cidade… Sempre, infelizmente, o interesse privado em detrimento do público. A prefeitura governa para o privado. Ou melhor, com o privado. Porque a maioria das pessoas que ocupam cargos na prefeitura são ligadas a empresas. O ex-secretário de Parcerias Estratégicas, Bruno Vanuzzi, saiu da prefeitura e foi trabalhar no Golden Lake, da Multiplan. Agora, voltou para o poder público como diretor do Dmae, com a “missão de fazer a concessão à iniciativa privada”. Pode? 

    JÁ – É uma privatização do serviço público?

    Felisberto – Não se valoriza mais o servidor, aquele de carreira, que teria a memória dos processos. Veja a concessão da usina do Gasômetro: não visa o interesse público, mas o interesse privado. Essa lógica tomou conta da cidade.

    Há 35 anos na luta comunitária, Felisberto Luisi aponta que um terço da população da cidade vive em áreas irregulares.

    JÁ – Um dos maiores projetos da prefeitura é essa “Operação Urbana Consorciada Regenera Dilúvio”, ao longo da avenida Ipiranga… como ele se insere aí?

    Felisberto – Eles gostam dessa palavra regenerar… revitalizar… para quem? Essa operação grandiosa da Ipiranga, começa com dinheiro público. Mais de R$  200 milhões, empréstimo do BNDES, para limpar o riacho. Aí, aqueles que já compraram os melhores terrenos ganham incentivos para construir condomínios e grandes torres sem restrições ou limites. Ao longo da avenida plantam-se algumas árvores e faz-se uma ciclovia, como contrapartida. É isso, hoje a gerência dos grandes espaços públicos está sob controle privado.

    JÁ – O prefeito Sebastião Melo tem uma sólida maioria que aprova todos os seus projetos…

    Felisberto – Essa maioria esmagadora que ele tem na Câmara, foi construída através de emendas e de indicação de CCs…

    JÁ – A questão central do Plano Diretor que está na Câmara é o adensamento – mais gente no mesmo espaço?

    Felisberto – Há questões essenciais aí. Primeiro, é a falta de infraestrutura. Segundo, é a descaracterização dos bairros e da paisagem urbana. Daqui a dez anos não veremos mais os morros que contornam Porto Alegre. Há uma descaracterização da cidade, como algo diferente das outras.  

    JÁ – O adensamento é justificado como possibilidade para o trabalhador morar no Centro…

    Felisberto – Os pobres vão vir morar no Centro? Isso é uma mentira, uma conversa. As pessoas já moram na periferia em situações que precisam ser regularizadas. Por isso digo que seria revolucionário se tivéssemos um prefeito que tivesse a capacidade de ter essa visão. Vamos melhorar o que já tem.

    JÁ – Se você fosse prefeito, tivesse a caneta, faria o quê?

    Felisberto – Primeiro ia regularizar as 700 comunidades que precisam ser regularizadas. Isso geraria trabalho, renda e melhorias para mais de 500 mil pessoas.

    JÁ – É tanta gente assim?

    Felisberto – É, quase meio milhão de pessoas, mais de um terço da população de Porto Alegre, quase 40%, que vivem  em situação irregular, ilegal na verdade.

    JÁ – Que universo é esse?  

    Felisberto – Envolve desde situações relativamente sustentáveis até as situações dramáticas, como comunidades que esperam há mais de 30 anos pela regularização.

    JÁ – Mas a prefeitura anuncia entrega de títulos…

    Felisberto – Não adianta dar título se não urbaniza. É simplesmente a garantia para a pessoa. E a maioria vai vender. As pessoas estão de tal maneira espremidas pela necessidade que aceitam qualquer coisa.

    Por exemplo, tem uma série de estudos sobre as mudanças climáticas, dizendo que a cidade está sujeita a ilhas de calor,  enchentes… E o que se faz na cidade é o oposto do que deveria ser feito levando em conta essa realidade. O centro de Porto Alegre, por exemplo, foi todo lajotado. A temperatura deve chegar a 50 graus ali, nos dias mais quentes. O Paulo Brack mediu ali no Harmonia onde retiraram as árvores, deu mais de 45 graus.

    O prefeito captou quase 7 bilhões de financiamento para aplicar em obras de reconstrução, melhorias e revitalização da cidade. Vai ver as obras, são aquelas em que os empresários têm interesse. Vi o representante do Sinduscon dentro do plenário da Câmara, negociando com vereadores. Muitos vereadores não sabem nem o que é o plano diretor e a lei de uso e ocupação do solo. Separaram o plano diretor da lei de uso e parcelamento do solo. Por que  separaram?

    Agora, onde é o Teatro do Pôr-do-Sol, querem fazer um centro de eventos, uma marina – agora se diz Orla 2.. É tudo mega ideias, tudo com dinheiro público. Financiado pelo BNDES, pelo BRDE… Aí é maravilhoso. Além disso, o Estado se endivida para privilegiar os interesses privados, não o interesse público. Não há melhoria das vilas, como eu disse. Hoje é um débito da prefeitura com as emendas do OP de mais de R$ 1 bilhão.

    JÁ – O que acontece que essas informações não chegam à população?

    Felisberto – São muitos fatores. Um deles é que a população está tão premida pela necessidade que se preocupa em sobreviver, certo? Ela não vai se preocupar. Plano de emergência não é uma coisa que afeta ela, vamos dizer, diretamente, mas afeta, mas ela não percebe. Se percebe, não é um problema imediato na vida dela. Então acabam deixando de lado.

    A população, ela não consegue perceber com a linguagem técnica, não é acessível para ela entender. Então, eu acho que isso é um grande problema.

    E os meios de comunicação também, não é?

    JÁ – Qual é a situação do OP hoje?

    Felisberto – Hoje o recurso direcionado para o OP é de R$ 20 milhões. Desse total, 16 ou 17 milhões vão para as regiões do orçamento participativo, que são 17. Vai um milhão para cada uma, mais ou menos. E o restante vai para as temáticas que são seis, em torno de 500 ou 600 mil para cada. Parece que neste ano serão R$ 25 milhões. Eu sou de uma época em que o OP tinha R$ 500 milhões nos valores de hoje.  

    JÁ – O OP perdeu as suas características e representatividade

    Felisberto – É o que já falei: os conselheiros estão tão premidos que se contentam com qualquer coisa.

    JÁ – Quando conheceste o prefeito Sebastião Melo?

    Felisberto – Melo chegou em Porto Alegre, em 1977 ou 78, foi trabalhar numa lancheria, ali na avenida Borges de Medeiros, como chapista, e morava em cima. Ele diz também que foi carregador de caixas no Ceasa… Claro, ele tem mérito, tornou-se advogado, fez nome, entrou na política, era da esquerda do MDB. O que lamento é um cara que condecorou o Che Guevara, quando era presidente da Câmara, trabalhar hoje para a direita, para dizer o mínimo.

    Ele subia numa caixa, na Esquina Democrática, junto com o José Fogaça, em atos contra a ditadura, sabe? E outros defendendo, sabe? Hoje é um cara aliado com a extrema direita. Essa transformação, ou essa adaptação, me decepciona, porque eu era amigo dele. Ainda tenho amizade com ele, mas me afastei dele.

    JÁ – Ele é o grande defensor do tal adensamento, quer dobrar o número de moradores no Centro Histórico, para aproveitar a infraestrutura.

    Felisberto –Eu bato de frente contra isso. Porque não existe um estudo sobre isso, não há mínima avaliação do que a infraestrutura da região central pode suportar. Quero que me provem. Eu acompanho isso há muito tempo, nunca vi um estudo que diga: “Tem infraestrutura ociosa, rede de esgoto, água, telefonia”. Nessa reforma do Viaduto Otávio Rocha, tiveram que refazer todas as canalizações, estava tudo entupido, sucateado. E mais: vai ter posto de saúde, vai ter escola, creche, transporte para essa população?

    O prefeito se gaba de conhecer a cidade melhor que muito porto-alegrense. Ele não conhece o centro, não conhece a história da cidade, não entende a alma da cidade.

    JÁ – As vilas, ele conhece?

    Felisberto – Não, nem as vilas ele conhece. Ele é um personagem, cumpre um papel. Ele vai lá porque o levam. Ele não conhece a história da cidade, nem do bairro que ele morou.

    JÁ – Qual é o bairro?

    Felisberto – Morava lá na zona sul. O mais grave de tudo não é a ousadia dele, é a omissão geral. Eu não sou técnico, não sou engenheiro, não sou urbanista. Sou um cidadão que tem uma visão de cidade e não se conforma com o que estão fazendo com ela.

  • Terreno à venda no alto do viaduto Otávio Rocha tem projeto para prédio de seis andares

    Terreno à venda no alto do viaduto Otávio Rocha tem projeto para prédio de seis andares

    Último espaço disponível no local, um terreno de quase 200 metros quadrados (9,5mx 20m) está à venda no alto do viaduto Otávio Rocha, no Centro de Porto Alegre.

    A área, que pertencia ao município, foi adquirida num leilão pelo corretor de imóveis Ademir Carraro, em 2003.

    Ele chegou a aprovar um projeto de um prédio residencial com 18 apartamentos em seis andares para o local.

    A falta de acesso à água e energia elétrica impediu a realização da obra, até agora. Com a reforma do Viaduto, a situação mudou. Carraro peticionou junto à prefeitura e conseguiu a instalação da infraestrutura necessária – água, energia e esgoto.

    Espaço fica na escadaria, entre o prédio da ARI e o Teatro da Arena.

    Agora, com a finalização da reforma, colocou o terreno à venda e se dispõe a repassar o projeto do prédio residencial para o comprador. O valor estimado do imóvel é de aproximadamente R$ 600 mil.

  • Extinto o processo que pedia falência do Jornal JÁ

    Extinto o processo que pedia falência do Jornal JÁ

    Foi extinto o processo judicial que o empresário Luiz Henrique Sanfelice movia contra o jornal JÁ desde 2014.

    Sanfelice cobrava uma indenização por dano moral e desde março do ano passado pedira a falência do jornal.

    Em fevereiro deste ano, o juiz João Garcez de Moraes Neto, expediu um “Mandado de Penhora, Avaliação, Depósito, Intimação e apreensão” em que autorizava “o arrombamento se necessário” para penhorar “tantos bens quantos bastem para garantir a dívida”.

    Nesta sexta-feira, o juiz homologou “o pedido de desistência da parte autora” e julgou extinto o processo “sem resolução de mérito”. Ainda não obtivemos detalhes sobre a decisão.

    Sanfelice processou a editora pela reportagem “Ela foi queimada viva”, de Renan Antunes de Oliveira, publicada no site do jornal JÁ em 2010.

    O texto descrevia as circunstâncias do assassinato da jornalista Beatriz Rodrigues de Oliveira, ocorrido em 2004, em Novo Hamburgo, e relatos do julgamento, em que o empresário, marido da vítima, foi condenado a mais de 20 anos de cadeia, num dos processos mais rumorosos no Estado, com repercussão nacional. 

    Condenado pelo assassinato, Sanfelice fugiu, foi recapturado. Cumpriu pouco mais de três anos de reclusão, ganhou liberdade condicional e processou o jornal e o autor da reportagem, que dá detalhes do bárbaro crime que ele cometeu.  

    O repórter, Renan Antunes de Oliveira (já falecido) foi absolvido porque não foram apontados erros na reportagem.  

    O jornal foi condenado à revelia, sob a alegação (contestada) de que não apresentou defesa em tempo hábil. Todos os recursos para que fosse julgado o mérito da ação foram inúteis. 

    O jornal foi condenado a pagar uma indenização por “dano moral” , cujo montante em valores atualizados chega a mais de R$ 60 mil.

    Por conta disso, o jornal já teve suas contas bloqueadas e, por último, o pedido de falência, que agora também se anula com a extinção do processo.

  • “Herança de Brizola sempre foi causa de conflitos”

    “Herança de Brizola sempre foi causa de conflitos”

    ELMAR BONES

    O jornalista Cleber Dioni Tentardini garimpou ao longo de 20 anos os mínimos detalhes da vida de Leonel Brizola. Encontrou um amigo de infância chorando à beira do túmulo da família, em Cruzinha. Na escola agrícola onde Brizola estudou, localizou a ficha de matrícula, que a escola já dava por perdida. Até a desconhecida filha que o líder trabalhista teve fora do casamento ele achou e convenceu a falar. No início de 2025, ele lançou “No Fio da História – a Vida de Leonel Brizola”, com 290 páginas e fotos de todas as fases de vida dele, cuja edição está esgotada.

    O autor falou ao JÁ sobre a polêmica em torno de uma entrevista de Brizola, que será lançada como livro, e que adquiriu dimensão política por envolver a ex-deputada estadual Juliana Brizola, neta do ex-governador, e pré-candidata ao governo do Rio Grande do Sul. A autora da entrevista, historiadora Silvana Moura, acusa Juliana de se apropriar indevidamente do seu trabalho.

    JÁ – Sabias dessa entrevista inédita do Brizola?

    Cleber – Sim, falei várias vezes com a Silvana. Ela é historiadora de Carazinho, com várias pesquisas sobre o trabalhismo. Em abril de 1996, ela e outro historiador receberam Brizola e um pessoal que o acompanhava na Câmara de Vereadores de Carazinho, isso tem fotos e tudo, e gravaram mais de quatro horas com ele. Foram quatro fitas cassetes que ficaram guardadas com a Silvana por todos esses anos. Não tive acesso ao texto, mas conversei com ela a respeito, é um material impressionante. Ela me convidou inclusive para um debate sobre o Brizola no ano passado e falou muito da entrevista.

    Reprodução da foto da entrevista de Brizola em 1996. Arquivo pessoal da professora Silvana Moura

    JÁ – O que tem de novidade nessa entrevista?

    Cleber – Olha, eu conhecia muitos dos fatos por ter entrevistado os irmãos dele, a sobrinha que guardava na memória e em álbuns quase tudo sobre a família, falou sobre a sua chegada em Porto Alegre, as dificuldades na cidade grande, afinal era um menino de 14 anos, sozinho, vindo do Interior, o trabalho de engraxate na Galeria Chaves. A importância é que são coisas narradas por ele, coisas que ficaram na memória… por exemplo, o ressentimento que guardou a vida toda por não ter convivido com o pai, que foi assassinado, as dificuldades de sua mãe para manter quatro filhos e uma sobrinha… e ainda fazer de tudo para o Leonel seguir os estudos mesmo longe de casa. E a Silvana na sua frente, captando todas suas reações, isso é muito valioso numa entrevista.

    JÁ – E essa polêmica com a Juliana?

    Cleber – Eu falei com a Silvana logo depois que saiu a matéria no jornal O Globo. Fiquei surpreso porque não havia o nome dela. Ainda confirmei se era esse o seu trabalho. Ela ainda parecia atônita com tudo. Porque a Silvana entrevistou, fez as transcrições, imprimiu e deu uma cópia para o Romeu Barleze, amigo trabalhista e conterrâneo, levar a entrevista para o Brizola no Rio. Suponho que a Juliana tenha tido acesso, soube do interesse da Editora Insular publicar em livro e convidou uma amiga dela, jornalista, a assinar a publicação. Como assim?

    JÁ – Tu tens contato com a Juliana?

    Cleber – Olha, a família do Brizola é um tanto difícil de conversar hoje em dia. Ele mesmo disse certa vez que não tinha sido muito feliz na questão com os filhos porque quase nunca estava disponível, demonstrava muito carinho, claro, inclusive com a dona Neusa, a quem fazia declarações de amor públicas, mas trabalhava dia e noite e não raro, de madrugada. O João Otávio, que era o mais próximo do pai, publicou um livro que achei bem pesado, um desabafo, cheio de mágoas. E essa família, assim como tantas outras, foi muito marcada pela vida no exílio… foi muito vigiada, perseguida, uma confusão, nem imagino as dificuldades. Quando estava finalizando o meu livro, tentei várias vezes falar com os netos, mas não me deram retorno.

    A Juliana, que já havíamos entrevistado e fotografado posando ao lado de vários documentos do avô, dessa vez não me atendeu. Eu queria saber dos arquivos do Brizola, retirados do apartamento em Copacabana, que foi vendido. Soube por intermédio de outras pessoas que os documentos foram colocados no contêiner de um depósito no Rio, porque não se entenderam sobre o que fazer com o material. Cogitaram doar para o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, mas o José Vicente, filho mais velho, não permitiu. Deu rolo até durante a mudança dos móveis do apartamento em Copacabana depois que Brizola morreu, segundo jornalistas no Rio, teve até polícia no local. Tanto a herança material de Brizola como a política sempre foi causa de conflitos. Depois, quando revelei a existência de uma filha do Brizola não reconhecida pela Justiça, mesmo com o exame de DNA positivo, também não consegui falar com a Juliana.

    JÁ – E o que tem nesses arquivos do Brizola?

    Cleber – A jornalista Dione Kuhn, da Zero Hora, teve acesso ao material depois da morte do Brizola, e munida desses documentos e das entrevistas que realizou com o ex-governador, publicou um livro “Da Legalidade ao Exílio”. Muito bom.

    JÁ – E a lendária farda de oficial da Brigada Militar que ele usou como disfarce para sair do Brasil em 1964?

    Cleber – Não se sabe onde foi parar. A companheira dele, a dona Marília, me disse que viu a farda na casa lá no Uruguai, a estância El Repecho. Quando foi negociar a venda da estância, Brizola estava sozinho, não se sabe onde foi parar o que tinha lá. A lendária metralhadora que ele carregava a tira colo durante a Campanha da Legalidade eu encontrei num cofre da Brigada Militar. As que estão expostas no Museu da BM e no porão do Piratini são réplicas. Ganhei autorização para fotografá-la e publicar no meu livro. A história é que ela foi trazida desmontada do Uruguai.

    JÁ – Eram três os filhos de Brizola?

    Cleber – José Vicente, João Otávio e a Neusinha, na ordem, e todos já morreram. Dos irmãos, apenas o mais jovem está firme e forte, o seu Jesus, com 93 anos.

    JÁ – E a filha fora do casamento, no teu livro é a primeira vez que ela aparece?

    Cleber – Sim. Eu vi uma nota na coluna do Anselmo Góis, do Globo, dizendo que enfim ia ser conhecido o resultado dos testes de paternidade de uma possível filha do Brizola, a cabeleireira Giselda Topper. Nem era cabeleireira. Depois, não se divulgou mais nada. Fui atrás e cheguei à esteticista gaúcha. Aí fiquei um ano insistindo até que ela confirmou a história. Mais um tempo insistindo e consegui conhecê-la pessoalmente. Quase caí pra trás com a semelhança. Giselda não conseguiu ser reconhecida, mas o exame de DNA não deixa dúvida, 99,99% de certeza do vínculo. Confirmei com o biólogo perito, da UFRJ.

  • Porto Alegre: grupo de Santa Catarina arremata por R$ 10 mil o que resta do porto

    Porto Alegre: grupo de Santa Catarina arremata por R$ 10 mil o que resta do porto

    O Cais Navegantes, o último dos terminais portuários de Porto Alegre capaz de receber embarcações de grande porte, foi arrematado em leilão na Bolsa de Valores de São Paulo, nesta sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026.

    Com um lance de R$ 10 mil, o Consórcio Portos do Sul, de Santa Catarina, ganhou o direito para explorar a área de 22 mil metros quadrados, por 10 anos, período em que deverá realizar investimentos de R$ 21,13 milhões. Será a primeira operação estruturada da empresa nesse modelo de arrendamento. O início das operações está marcado para ainda este ano. O projeto prevê dois novos armazéns, além de obras de pavimentação, drenagem, iluminação e cercamento.

    Fortemente atingido pela enchente de 2024, o Cais Navegantes retomou operações em janeiro de 2026, quando voltou a receber navios de longo curso (internacionais) e foi autorizado a navegação noturna, algo suspenso há décadas.

    Segundo o governo do Estado, foram investidos R$ 40 milhões, recursos do Fundo de Reconstrução (federal), para reparar os danos causados pela enchente.

    As cargas que movimenta são, principalmente, fertilizantes, sal, grãos vegetais e transformadores. 

    O leilão do Cais Navegantes foi promovido pelo Ministério de Portos e Aeroportos e a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Para o presidente da Portos-RS, Cristiano Klinger, o arrendamento “reforça a confiança da iniciativa privada e marca mais um passo na reconstrução e fortalecimento da atividade portuária da capital”.

    A região portuária de Porto Alegre é dividida em três áreas – o Cais Navegantes, ao norte; o Cais Mauá, no centro da cidade, com 3,2 km de extensão, e que está desativado e abandonado há mais de 30 anos; e o Cais Marcílio Dias, o menor, reduzido a atividades logísticas e de apoio.

    O que restou, na prática, foi uma separação clara: o Navegantes ficou com a economia e a logística, enquanto o Mauá espera se tornar o “cartão postal” da cidade a partir de um projeto de remodelação com recursos privados.

    O cais Marcílio Dias concentra a navegação interior, com embarcações de pequeno e médio porte, para transporte de areia principalmente. O trecho, entre o Mauá e o Navegantes, serve como área de apoio e possui uma rampa pública para acesso de embarcações.

    Um “pilar do desenvolvimento”

    O porto de Porto Alegre já foi considerado “um dos pilares do desenvolvimento do Rio Grande do Sul”.

    Começou a ser construído em 1910, com o início das operações em 1º de agosto de 1921. Era, então, o maior porto fluvial do país.

    O crescimento seguiu ao longo dos anos com as inaugurações do Cais Navegantes, em 1949, e do Cais Marcílio Dias, em 1956. A conclusão da estrutura como se conhece hoje aconteceu em 1962.

    A partir de 2005, as operações foram concentradas no Cais Navegantes, uma decisão que permitiu a ampliação das atividades e a aquisição de novos e modernos equipamentos.

    No primeiro semestre de 2023, o cais público porto-alegrense movimentou 375.697 toneladas. Entre os maiores fretes estavam fertilizantes, trigo, cevada, sebo bovino, sal.

    Nesse período, o Porto recebeu 66 embarcações, transportando produtos vindos do Egito, da China, de Marrocos, da Arábia Saudita, entre outros.

    Com a enchente de 2024, ele ficou desativado, retomando atividades no início de 2026.

  • Cais Mauá: dois anos depois da concessão, é incerto futuro do projeto

    Cais Mauá: dois anos depois da concessão, é incerto futuro do projeto

    Dois anos depois da concessão do Cais Mauá a um consórcio privado, é incerto o futuro do projeto para devolver à população aquela área simbólica de Porto Alegre, abandonada há mais de 30 anos.

    Começa que o contrato que formaliza a concessão ainda não foi assinado.

    Em entrevista ao Jornal do Comércio, no início de fevereiro, o secretário Pedro Capeluppi disse que o prazo final é 11 de março e que o governo ainda aguarda documentos.

    O Consórcio Pulsa RS, vencedor do leilão, declarou em nota que está “cumprindo as etapas previstas no edital e que a entrega da documentação segue os prazos estabelecidos para a assinatura do contrato em março”.

    “As enchentes de 2024 não alteraram a concepção do projeto, mas impactaram o cronograma”, diz o consórcio formado pela Spar Participações e Desenvolvimento Imobiliário e a Credilar Empreendimentos Imobiliários.

    É a segunda concessão do Cais Mauá, na verdade. A primeira, formalizada em dezembro de 2010, terminou em maio de 2018, quando uma operação da Polícia Federal revelou uma enorme fraude financeira que dilapidou R$ 130 milhões captados junto a fundos de previdência. Esta história já foi contada pelo JÁ em edição especial.

    A atual concessão, como a primeira, é por 30 anos. O concessionário se compromete a investir cerca de R$ 350 milhões ( R$ 210 milhões nos primeiros quatro anos) para “revitalizar” uma área de três km de extensão, desde a Usina do Gasômetro até a Estação Rodoviária no entorno do centro histórico.  

    As intervenções incluem a recuperação de 12 armazéns (para lazer e comércio) e reestruturação das Docas (para prédios comerciais e residenciais). Em troca desses investimentos, o Estado entrega para o consórcio o terreno das docas, avaliado em R$ 144 milhões.

    O leilão, que só teve um concorrente, foi realizado no dia 7 de fevereiro de 2024, na bolsa de valores de São Paulo.

    Três meses depois, a maior enchente da história de Porto Alegre, alterou completamente o cenário. O Guaíba subiu quase seis metros e manteve a área do porto submersa por um mês. Quando as águas baixaram, ficou a dúvida: quando vai ocorrer outra vez?

    As condições do edital, que admitiam até a retirada de parte do “Muro da Mauá”, tiveram que ser inteiramente revistas. O projeto foi transferido da Secretaria de Parcerias e Concessões para a Secretaria de Reconstrução que passou a centralizar os projetos estratégicos atingidos pela enchente em todo o Estado.

    Na área das Docas (extremo norte do Cais, próxima à Rodoviária), onde estão previstas 9 torres de até 150 metros, a água alcançou quase dois metros. De acordo com o modelo de negócios do consórcio Pulsa RS, essa área é fundamental para a viabilidade financeira da concessão. As torres teriam uso misto – residencial (apartamentos), corporativo (escritórios)  e comercial (lojas no térreo).

    Especialistas e entidades civis levantam diversos questionamentos sobre o impacto das construções de grande porte (torres de até 150m) na área das Docas e a revitalização como um todo.

    O Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS) afirma que a construção de torres altas pode criar uma “barreira” entre a cidade e o Guaíba, prejudicando a visibilidade do pôr do sol e alterando a paisagem histórica do Centro.

    Prédios dessa magnitude podem também gerar grandes áreas de sombra na orla e nos espaços públicos adjacentes, afetando o conforto térmico e a vegetação local.

    O aumento da densidade populacional e comercial nas Docas terá também grande impacto no trânsito já saturado da região central e da Avenida Mauá. 

    A substituição de áreas abertas por grandes massas de concreto pode intensificar o efeito de ilha de calor na região central.

    Os especialistas questionam se o adensamento imobiliário em uma zona de inundação é prudente e se as soluções de contenção propostas são suficientes para os novos cenários climáticos.

    Grupos de urbanistas e movimentos sociais continuam solicitando maior transparência e a realização de novos debates públicos, alegando que o cenário hidrológico de Porto Alegre mudou drasticamente e exige um novo Estudo de Viabilidade. 

    Até o novo Plano Diretor, que está em discussão na Câmara Municipal, prevê mudanças que afetam a área do Cais. Isso poderá levar a novas exigências técnicas para o concessionário.

    O Ministério Público  tem questionado a segurança do sistema de proteção contra cheias e a legalidade da transferência definitiva de terras públicas para o consórcio.

    Referência em hidrologia, professores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas, da Universidade Federal,  têm alertado que as cotas de inundação previstas no projeto original do Cais (pré-2024) podem estar subestimadas diante do novo cenário climático.

    Ações jurídicas lideradas por coletivos como o Cais Mauá de Todos pedem a anulação do leilão. O argumento central é que o cenário de risco hidrológico mudou completamente após maio de 2024, invalidando os estudos de viabilidade originais.

    *Clique aqui para ler mais sobre a concessão do Cais na coluna Economics

    Imagem da apresentação do projeto no Palácio Piratini: nove torres no Cais Mauá
  • Afastamento de Dias Toffoli do caso Master sela a mais grave crise do judiciário desde o Império

    Afastamento de Dias Toffoli do caso Master sela a mais grave crise do judiciário desde o Império

    A saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master, que se deu após a Polícia Federal encontrar no celular de Daniel Vorcaro, dono do Master, menções ao ministro da Suprema Corte, culmina em uma crise sem precedentes na história do judiciário brasileiro.

    Há juristas e historiadores que consideram a mais grave desde o Império. Além dos fatos que chocam a opinião pública e, independente dos interesses que promovem vazamentos seletivos em inquéritos sigilosos, há uma conjuntura política que turbina a gravidade do quadro.

    Em tempos recentes, desde o caso do “Juiz Lalau” nos anos 90, o judiciário não se via numa posição tão crítica. Uma pesquisa simples nos sites de busca aponta pelo menos 100 agentes do judiciário que estão ou condenados ou sob suspeita de ilícito – desde venda de sentenças, manipulação de processos, até assédio sexual, e o problema atinge desde ministros do STF a juízes de primeira instância.

    A atuação de Toffoli no caso do Master ficou comprometida com as menções ao seu nome em perícias de celulares e transações financeiras relacionadas a um resort no Paraná. Há indicações de milionários pagamentos para a empresa Maridt, que Toffoli assumiu ser sócio, junto com familiares.

    No Superior Tribunal de Justiça (STJ), o ministro Marco Aurélio Gastaldi Buzzi foi afastado de suas funções em 10 de fevereiro de 2026. Ele é investigado por denúncias de assédio sexual. O afastamento, sem prejuízo do salário, foi decidido pelo próprio STJ enquanto as investigações prosseguem.

    O desembargador Divoncir Schreiner Maran, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), recebeu a pena máxima administrativa: aposentadoria compulsória pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) neste fevereiro de 2026. Ele foi punido por conceder um habeas corpus, em apenas 40 minutos e sem laudo médico, ao narcotraficante Gerson Palermo (condenado a 126 anos), que fugiu logo em seguida.

    Atualmente, o Judiciário brasileiro enfrenta uma série de investigações sobre venda de sentenças e corrupção. A PF, na operação Sisamnes, investiga esquema de manipulação e venda de decisões judiciais no STJ. Funcionários e assessores de gabinetes dos ministros teriam antecipado decisões mediante propina.

    Ainda em 2024, outras investigações apontaram a participação de pelo menos 16 desembargadores e sete juízes em esquemas de venda de sentenças em seis estados diferentes.

    A “Operação Faroeste” no Tribunal de Justiça da Bahia continua sendo um dos maiores casos de corrupção no Judiciário, com diversos desembargadores afastados por envolvimento em grilagem de terras e propinas.

    A classificação da atual crise como “sem precedentes” é sustentada por diversas vozes do direito e da academia, que apontam não apenas a corrupção isolada, mas uma “erosão ética estrutural nas cúpulas do Poder Judiciário”.

    Marco Antônio Villa, historiador, frequentemente classifica o momento atual como crítico devido à impunidade de magistrados envolvidos em venda de sentenças e sinaliza uma falência ética sem paralelos na história recente.

    Lênio Streck, jurista e professor, fala em “perda do pudor institucional”.

    Em dezembro de 2025, um manifesto reuniu mais de 15 mil assinaturas de acadêmicos e figuras públicas exigindo regras imediatas de conduta para o STF.

    Para esses especialistas, o que torna a crise atual (2024-2026) única é a combinação de três fatores:
    – Abertura de investigações da PF contra gabinetes de tribunais superiores;
    – Frequência de “contratos de êxito” multimilionários envolvendo esposas e filhos de magistrados;
    – Resistência interna do Judiciário em aceitar qualquer forma de controle externo ou código de conduta rigoroso.

    Casos relevantes entre 2024 e 2026:

    Além do caso Master no STF, que envolve as suspeitas contra o ministro Dias Toffoli e também o ministro Alexandre de Moraes, já que sua esposa teria um contrato de dezenas de milhões junto ao Master, há muitos investigações em andamento. Em outubro de 2024, a Polícia Federal deflagrou a Operação Ultima Ratio, que resultou no afastamento de cinco desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.

    Em novembro de 2024, o CNJ aposentou compulsoriamente a desembargadora Lígia Maria Ramos Cunha Lima, investigada em esquema de venda de decisões relacionadas a disputas de terras na região oeste da Bahia. No mesmo processo, em fevereiro de 2026, o STJ prorrogou por mais um ano o afastamento da desembargadora Maria do Socorro Barreto Santiago e da juíza Marivalda Almeida Moutinho.

    O desembargador Ivo de Almeida foi afastado do TJ-SP em junho de 2024 por suspeita de negociar decisões judiciais. Mesmo afastado, o magistrado recebeu cerca de R$ 2 milhões em salários e benefícios nos últimos 12 meses, evidenciando as limitações das punições administrativas atuais.

    A PF conduz a Operação Sisamnes, que investiga uma rede de venda de sentenças envolvendo assessores de gabinetes de ministros e lobistas dentro do STJ.

    Em fevereiro de 2025, a PF indiciou três desembargadores e dois juízes por um esquema de fraude de R$ 18 milhões envolvendo alvarás judiciais.

    Em fevereiro de 2026, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aplicou a pena de aposentadoria compulsória ao desembargador Divoncir Schreiner Maran por soltar um chefe do tráfico do PCC.

    “Juiz Lalau” foi símbolo de escândalo nos anos 90

    Nicolau dos Santos Neto, o juiz Lalau, protagonizou o maior escândalo de corrupção do Judiciário brasileiro nos anos 90, tornando-se o símbolo da impunidade que motivou a criação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

    Como presidente do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-SP), Nicolau liderou o desvio de verbas destinadas à construção do Fórum Trabalhista de São Paulo. O valor desviado foi de aproximadamente R$ 1 bilhão.

    Após ter a prisão decretada em 2000, ele fugiu e ficou escondido por sete meses, sendo capturado na fronteira com o Paraguai.

    “Juiz Lalau” foi um dos poucos magistrados que chegou a ser preso por corrupção.

    Lalau foi condenado a 26 anos de prisão por crimes como peculato, estelionato e corrupção passiva. Mas, devido à idade e saúde, passou grande parte da pena em prisão domiciliar em seu apartamento de luxo, o que gerou revolta popular.

    Em 2014, o Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu indulto humanitário a Nicolau devido ao seu estado de saúde (demência e depressão). Ele morreu em maio de 2020, aos 91 anos, em um hospital em São Paulo.

    A Advocacia-Geral da União (AGU) conseguiu repatriar cerca de US$ 7 milhões que estavam escondidos na Suíça e leiloar imóveis de luxo vinculados a Lalau.

    Diferente dos casos atuais (como o do Banco Master), onde a tecnologia bancária facilita o rastreio, o caso Lalau dependia de malas de dinheiro e remessas físicas para o exterior via doleiros. A punição dele, embora demorada, foi uma das raras vezes em que um magistrado de alto escalão cumpriu pena de prisão efetiva no Brasil.

    Desde a sua criação em 2005 até o início de 2026, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) puniu cerca de 175 magistrados (entre juízes e desembargadores).

    A aposentadoria compulsória é a punição mais comum para infrações graves, como venda de sentenças ou corrupção, representando aproximadamente 60% de todas as sanções aplicadas pelo conselho. Entre 80 e 100 magistrados estão atualmente nessa condição de “aposentadoria-punição”.

    A demissão (perda total do cargo e salário) é extremamente rara, ocorrendo em apenas 7 casos entre 2006 e 2025, o que representa apenas 1% das punições.

    A aposentadoria compulsória é a sanção administrativa máxima prevista na Lei Orgânica da Magistratura. Embora o juiz seja afastado definitivamente do cargo, ele mantém o direito a proventos proporcionais ao tempo de serviço.

    Em 2025, estimou-se que o pagamento desses magistrados punidos custou cerca de R$ 41 milhões aos cofres públicos.

    Alguns magistrados nessa situação chegam a receber valores brutos que ultrapassam R$ 100 mil em determinados meses devido a benefícios acumulados.

    A perda definitiva do salário (demissão) só ocorre após o trânsito em julgado de uma ação judicial específica na esfera criminal, processo que costuma levar muitos anos.

    O cenário atual de escândalos no Judiciário — como o caso do Banco Master envolvendo Dias Toffoli e as investigações de venda de sentenças — é o principal combustível para o projeto do ministro Edson Fachin, atual presidente do STF, de implementar um Código de Ética para a Corte em 2026.

    O presidente do STF, Edson Fachin, promete implantar um Código de Ética, na tentativa de melhorar a imagem do STF. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

    Fachin estabeleceu a criação desse código como prioridade de sua gestão (iniciada em setembro de 2025) para tentar frear a “erosão institucional” e recuperar a confiança pública.

    A ministra Cármen Lúcia é a relatora da proposta, sendo uma das poucas vozes a apoiar abertamente a iniciativa internamente.

    O código visa criar regras claras sobre conflitos de interesse, transparência em remunerações por palestras e limites para a atuação de parentes de ministros em processos na Corte (que hoje representam cerca de 70% dos casos em certos gabinetes).

    A maioria dos ministros se opõe à ideia, argumentando que a conduta ética deve ser individual ou que um código específico poderia expor ainda mais o tribunal a críticas.

    A pressão por um código de ética ocorre em paralelo ao debate sobre o fim dos privilégios para magistrados infratores. Existe uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) no Congresso que visa extinguir a “aposentadoria-punição”, transformando-a em demissão sem salário para juízes que cometem crimes graves.

    Fachin também defende, via CNJ, um levantamento para barrar pagamentos abusivos e verbas indenizatórias que inflam os salários de magistrados, mesmo aqueles sob investigação.

    Enquanto o Código de Ética busca prevenir novos casos (como Toffoli e Buzzi), a PEC foca em punir de forma mais rigorosa casos como o do desembargador que soltou o chefe do PCC.

    Nos últimos dez anos, nenhum dos 473 pedidos de suspeição feitos por terceiros contra ministros foi aceito pelo colegiado; os afastamentos só ocorrem quando o próprio ministro se autodeclara suspeito.

    Diante desse cenário, o projeto do ministro Edson Fachin para um novo Código de Ética (2026) busca estabelecer limites mais claros para a atuação de familiares e evitar que escritórios de parentes sejam usados como instrumentos de pressão institucional.

    Se no passado a resposta às crises foi a criação do CNJ, o diagnóstico atual é que o CNJ se tornou insuficiente, pois a punição de “aposentadoria compulsória” passou a ser vista pela sociedade como um prêmio, e não um castigo.

    Por isso, o projeto de Edson Fachin (Código de Ética) e as PECs de demissão de juízes no Congresso são vistos como a tentativa de uma “Segunda Reforma do Judiciário”.

  • Caso Master: Cais Mauá foi laboratório do esquema que lesou 100 fundos de previdência

    Caso Master: Cais Mauá foi laboratório do esquema que lesou 100 fundos de previdência

    As investigações da Polícia Federal que levaram à prisão do empresário João Carlos Mansur, indicam que o Fundo Cais Mauá foi um ensaio do esquema fraudulento que carreou R$ 17 bilhões dos fundos de previdência para os papéis podres do banco Master.

    Segundo a Polícia Federal, mais de 100 fundos colocaram dinheiro em carteiras do Master, através da Reag, de João Carlos Mansur.

    O Banco Central e a PF identificaram que a estrutura criada por Mansur servia como uma “fábrica de fundos” para ocultar patrimônio através de operações fraudulentas.

    No Cais Mauá foram testadas as “táticas de captação” em institutos de previdência que seriam escaladas para as fraudes bilionárias que culminaram com a liquidação do Master.

    Um projeto ambicioso

    O Fundo de Investimento e Participações Cais Mauá foi criado em outubro de 2012, para captar recursos que financiariam um ambicioso projeto de conversão do principal cais de Porto Alegre, desativado, em área de lazer, turismo e comércio.

    Uma faixa de três quilômetros num sítio histórico da cidade, à beira do Guaíba. Previa-se investimento de R$ 1 bilhão para reurbanizá-la e reequipá-la, inclusive com nove torres com hotéis, escritórios e apartamentos de luxo.

    Nas maquetes e na propaganda, um alto negócio. Na realidade, um projeto contestado, com manifestações de rua e campanhas de opinião publica, além de entraves burocráticos, que foram menosprezados.

    O contrato de concessão com o consórcio Cais Mauá do Brasil, assinado com pompa e circunstância no final do governo Yeda Crusius, em dezembro de 2010, não tinha, por exemplo, a anuência da Antaq, a autarquia federal que regula as áreas portuárias.

    Detalhes que travaram o projeto, mas não impediram que o fundo fosse ao “mercado” em busca de investidores.

    Em 2018, quando a PF entrou em cena, com a operação “Gatekeepers” não havia um tijolo assentado na área do Cais Mauá, mas o fundo havia captado R$ 130 milhões.

    Pela gestão do fundo haviam passado a Positivo, NSG, ICLA e finalmente a Reag, que substituiu a ICLA, quando ela se tornou alvo da PF. Todas ligadas a João Carlos Mansur.

    A operação da Polícia Federal revelou que havia fraude na captação de recursos junto aos fundos de previdência. E alguns estavam entrando na Justiça para obter o resgate dos valores aplicados.

    Em julho de 2020, quando o governo do Estado rescindiu o contrato com a Cais Mauá do Brasil, consórcio que tinha a concessão, a Reag foi substituída na gestão do fundo pela Lad Investimentos.

    A partir daí, o assunto saiu do noticiário e… o dinheiro nunca apareceu. Segundo os gestores do fundo, R$ 40 milhões teriam sido gastos em despesas correntes -prestadoras de serviços, segurança, descontaminação dos armazéns, funcionários, etc. Os R$ 90 milhões restantes teriam sido usados para comprar a parte dos sócios espanhóis que haviam deixado o negócio em 2011.

    Absolvição e prisão

    Uma nota no Valor Econômico registrou o fato no dia 17 de dezembro de 2025: os dez acusados de fraude na administração do Fundo Cais Mauá do Brasil foram absolvidos pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

    A maioria do Colegiado seguiu o voto do relator João Accioly, concluindo que não houve dolo (intenção deliberada de fraudar). Não houve prova de má fé, como se registrou na ata da sessão.

    A diretora Marina Copola deu o único voto contrário, afirmando que houve “omissões graves e equívocos reiterados” e pedindo a condenação dos acusados, com a aplicação de multas.

    Entre os dez absolvidos estava a Reag Trust e seu presidente João Carlos Mansur.

    Um mês depois, em 15 de janeiro de 2026, Mansur foi preso pela Polícia Federal e a Reag teve liquidação decretada pelo Banco Central.

    A reviravolta, pelo menos, abre uma chance para os investidores que foram lesados com a falência do Fundo Cais Mauá. Entre eles o Instituto de Previdência do Estado (IPE Prev) que teria aplicado 17,7 milhões.

    Os principais fundos de previdência identificados em relatórios e auditorias, com os valores aproximados investidos no FIP Cais Mauá, na época:

    Fundo de Previdência Valor Aplicado (Aprox.)
    Igeprev (Tocantins)R$ 21 milhões
    PreviPalmas (Palmas/TO)R$ 15 milhões
    Prev-Amapá (Amapá)R$ 10 milhões
    Manaus Previdência (Manaus/AM)R$ 10 milhões
    AparecidaPrev (Aparecida de Goiânia/GO)R$ 5 milhões
    Cajamar (Cajamar/SP)

    IPE-Prev (Rio Grande do Sul)

    R$ 2 milhões

    R$ 17,7 milhões

                                              

  • Frei Sergio (1956-2026), o missionário dos assentados

    Frei Sergio (1956-2026), o missionário dos assentados

    Geraldo Hasse

    Conheci Frei Sérgio em pessoa na feira do livro de Porto Alegre, onde ele lançou em 2017 “Trincheiras da Resistência Camponesa”, um catatau de 616 páginas editado pelo Instituto Cultural Padre Josimo, que dá suporte ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

    Depois do autógrafo – “Na luta, sempre” – fiquei por perto, disposto a aproveitar as brechas para entrevistá-lo, mas não deu: a todo momento, ele era reconhecido, abraçado, festejado.

    A única frase dele foi sobre o conteúdo do livro: “São textos militantes”, disse.

    Acabei indo embora, mas lembro que dias depois vi no Facebook uma foto dele cercado por várias pessoas, entre elas os jornalistas Caco Schmidt e Carlos Wagner, que o conheciam do movimento dos agricultores sem terra.

    Em casa, mais tarde, vi que as “Trincheiras” são um apanhado cronológico de textos escritos para cartilhas, documentos para instituições e reflexões em favor dos movimentos pela reforma agrária, distribuição de terras para brasileiros(as) determinados(as) a trabalhar como autônomos na agricultura.

    Como padre franciscano, morador num assentamento em Hulha Negra, ele se mostrava um otimista defensor dos trabalhadores rurais na busca por uma vida melhor, livres da sujeição à agricultura empresarial, hoje resumida pela palavra “agronegócio”, que abrange desde proprietários de terras até os produtores de commodities de exportação, comerciantes de máquinas e insumos de lavouras, transportadores, exportadores, prestadores de serviços etc.

    Nessa luta, ele foi um missionário como tantos religiosos e civis que se dedicam a combater a desigualdade social.

    Folheando o livro, observei a precisão dos seus relatos sobre doenças, secas, enchentes e outros problemas que afetam os pequenos agricultores, que respondem pela oferta de metade dos alimentos consumidos pela população brasileira, embora trabalhem em cima de apenas 24% das terras agricultáveis. É um livro denso, quase um manual de agricultura ecológica, voltado para os praticantes da agricultura familiar.

  • Audiência pública sobre maior projeto agro-industrial do RS não é notícia?

    Audiência pública sobre maior projeto agro-industrial do RS não é notícia?

    Não mereceu manchete nos jornais tradicionais de Porto Alegre a audiência pública sobre a nova fábrica de celulose da CMPC em Barra do Ribeiro, que ocorre neste 29 de janeiro de 2026, às 16h, no Parque Municipal Nenê Naibert.

    A reunião aborda o Projeto Natureza, com investimentos de R$ 24 bilhões, e previsão de 12 mil vagas temporárias na construção  e 1,5 mil empregos diretos/indiretos na operação da fábrica.

    As manchetes tem saudado este chamado “Projeto Natureza”  como o maior investimento privado na história do Rio Grande do Sul, mas tem silenciado sobre o impactos ambientais dessa mega-fábrica, que vai exigir a ampliação dos plantios de eucalipto de 1 milhão de hectares plantados atualmente para 4 milhões de hectare.

    Quando esta área for alcançada nos próximos dez anos no máximo, o Estado terá mais da metade de sua área produtiva (área apta para a agropecuária) ocupada por duas monoculturas, duas commodities, matérias primas de exportação, que pagam pouco ou nenhum impacto.

    Quanto à fábrica,  as entidades ambientalistas alertam para o despejo de mais de 240 milhões de litros de efluentes por dia no Guaíba.

    “Entre os diversos aspectos que preocupam as entidades socioambientais, está a localização do emissário de efluentes líquidos da fábrica — a 3,5 km de Belém Novo, na Capital, próximo de duas novas estações de captação e tratamento de água do Dmae —, além da vazão de efluentes, com substâncias tóxicas, em volumes de 240 mil m3/dia, acima do volume de efluentes de toda a cidade de Porto Alegre”, registrou o Sul21, na quarta-feira..

    A audiência pública desta quinta-feira é a primeira e única prevista no processo de licenciamento ambiental deste mega-projeto.  Por que ela não é notícia? Por que os protestos dos ambientalistas são praticamente ignorados?

    (Cartas para a Redação)

    Obras da nova fábrica estão confirmadas para iniciar em 2026, com operação prevista para 2029.