Autor: Elmar Bones

  • Otávio Rocha: viaduto restaurado, praça ainda abandonada

    Otávio Rocha: viaduto restaurado, praça ainda abandonada

    No coração do Centro Histórico de Porto Alegre, a poucos quarteirões do viaduto restaurado, está a pracinha que também homenageia o prefeito Otávio Rocha. A construção é do início dos anos 30 e segue estilo semelhante do viaduto.

    A praça em 1930, na época do término das obras de ligação da Otávio Rocha com a então Rua São Rafael.

    A praça foi projetada pelo arquiteto Christiano de la Paix Gelbert (1899-1985), o mesmo que projetou o Pronto Socorro e a Prefeitura da capital gaúcha. O local da praça é um terreno triangular, em declive, sobra de desapropriações feitas para alargar as ruas naquela área, por volta de 1930.

    É das poucas praças na cidade que mantém sua forma original. Na parte baixa, destaca-se um busto de Otávio Rocha, esculpido por André Arjonas: está com as mãos decepadas, sinalizando o abandono da bela pracinha, o que se confirma nas instalações depredadas. O lugar onde funcionou um café serve de abrigo para mendigos.  

    Pequeno chalé, onde funcionou uma cafeteria, abandonado. Foto EB/JÁ

    Em 2024, a prefeitura chegou a firmar uma parceria com uma empresa privada (Infinita Town), que adotou a praça e chegou a iniciar uma reforma em abril daquele ano, mas desistiu do projeto no início de 2025.

    Com isso, as obras pararam e o espaço voltou a sofrer com a falta de manutenção e ocupações.

    Construção é dos anos 30. Foto Elmar Bones/JÁ
    Antigo chalé precisa de reforma completa. Foto Elmar Bones/JÁ

    Novo grupo assume revitalização

    Em janeiro de 2026, a Prefeitura de Porto Alegre reabriu um edital buscando parceiros da iniciativa privada para revitalizar e manter o local, incluindo a reativação da tradicional cafeteria. Nove empresas se inscreveram.

    Novo grupo será responsável pela limpeza e manutenção da praça. Foto Elmar Bones/JÁ

    O grupo de gastronomia MuleBule foi o escolhido e será responsável pela reabertura do café no chalé. O modelo proposto pela prefeitura foca na manutenção e conservação do espaço em troca da exploração comercial da cafeteria. O adotante assume a responsabilidade pela revitalização, manutenção constante, limpeza e paisagismo da praça.

    A expectativa é de que o termo de adoção seja assinado neste mês de maio.

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  • Viaduto Restaurado (3): Revestimento que dá cor original foi o maior desafio

    Viaduto Restaurado (3): Revestimento que dá cor original foi o maior desafio

    O maior desafio da reforma do viaduto Otávio Rocha, recém concluída, foi o revestimento, degradado por décadas de poluição e pichações. Foi preciso remover a crosta de sujeira sem agredir os cristais de mica da cobertura original. O revestimento do viaduto não é pintura, mas uma massa conhecida como Cirex, nome da empresa que fabricava o produto e que não existe mais. Trata-se de uma mistura de cimento branco, cal, mica e pó de mármore ou granito. 

    Restauração do cirex

    Nos locais onde o reboco havia caído, os técnicos da Concrejato precisaram criar uma mistura idêntica à de 1928. Isso envolveu testes de laboratório para acertar a mistura e garantir que as partes novas não ficassem com cor diferente das antigas.

    A mica presente no pó de granito é o que dá aquele brilho discreto quando o sol bate na estrutura. Diferente da tinta, o cirex não descasca, é uma camada de “pedra artificial” que adere profundamente ao concreto.

    Sobre o revestimento, foi aplicada uma camada de hidrofugante (produto químico que repele a água), que permite a remoção rápida de pichações, com o uso de lavadoras de alta pressão (lava-jato).

    Houve adaptações para atender as exigências de segurança e mobilidade. Nos arcos e no piso da avenida Borges de Medeiros, por exemplo, foram instaladas 342 lâmpadas de LED, controladas por fotocélulas com economia de 50% no consumo de energia, segundo a prefeitura.

    Foram instaladas quatro estruturas de vidro no topo do viaduto, para abrigar áreas de serviço e infraestrutura.  

    As adaptações para atender às normas de acessibilidade incluíram piso tátil nas calçadas e corrimões de metal nas escadarias. O plano de prevenção de incêndio foi refeito.

    Há novas adaptações nas calçadas da Avenida Borges de Medeiros e da Rua Duque de Caxias para facilitar o acesso de cadeirantes aos pontos de ônibus e às lojas, deixando o trajeto no entorno nivelado.

    Elevadores foram descartados

    Um dos pontos mais debatidos do projeto de revitalização foi a instalação de elevadores, ligando o térreo às escadarias. A ideia foi descartada, em nome das características originais do viaduto, tombado pelo município desde 1988. Ao final, a instalação de elevadores externos ou internos “perfurando” a estrutura original foi considerada uma intervenção muito agressiva pelo EPAHC (Equipe de Patrimônio Histórico e Cultural).

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  • Viaduto restaurado (2): Quase centenária, a grande obra nunca teve  uma inauguração oficial

    Viaduto restaurado (2): Quase centenária, a grande obra nunca teve uma inauguração oficial

    Pela primeira vez, quase aos cem anos, o Viaduto Otávio Rocha terá uma “inauguração festiva”. Pelo menos é o que está previsto para marcar a  restauração recém concluída. Quando foi construído, ele não teve inauguração formal.

     O viaduto  foi construído entre 1928 e 1932 para ligar o centro com os novos bairros que se expandiam em direção à Zona Sul.

    Foi preciso rasgar o “morrinho da Rua da Igreja”, um corte no rochedo de 30  metros de altura para abrir a avenida – que se chamaria Borges de Medeiros, em homenagem ao governador que recém deixara o cargo, depois de cinco mandatos consecutivos. 

    Depois de aberta a passagem, a primeira etapa foi restabelecer o tráfego na Rua da Igreja, hoje Duque de Caxias.

    Entregue ao tráfego aos poucos (em 1931 já podiam transitar os bondes, mas só em 1933 foi liberada a última rampa), o “Viaduto da Borges” entrou em uso sem batismo e sem inauguração formal. 

    Só em 1954, recebeu um nome oficial em homenagem ao “Intendente” que autorizou a obra e não a viu sequer iniciada: Otávio Rocha morreu em fevereiro de 1928, pouco antes do início das obras.

    Primeiro Plano Diretor já previa o viaduto

    A abertura de uma saída em direção ao Sul já estava no Plano de Melhoramentos, o primeiro de Porto Alegre, de 1914, que, em grande parte, ficou no papel, devido a suas propostas arrojadas. Uma delas era desafogar o centro, furando o morro, sem interromper  a rua que passava em cima, a rua da Igreja, rua da elite e do poder – um viaduto.

    Só dez anos depois, o prefeito Otávio Rocha, eleito com o respaldo do governo estadual, assumiu decidido a tirar do papel as melhorias propostas no Plano de 1914. A obra do viaduto era a principal.

    Dois projetos foram feitos pela Comissão de Novas Obras, mas o escolhido foi um terceiro, do arquiteto Manoel Itaqui. Consta que “depois de uma conversa informal com o prefeito, seu amigo”, ele fez um esboço a lápis num pedaço de papel.

    Primeiro esboço de Manoel Itaqui para o viaduto.

    Esse esboço foi a origem do projeto. A elaboração e o detalhamento da obra contaram com a participação do também engenheiro e arquiteto Duílio Bernardi, colega de Itaqui na então renomada Escola de Engenharia de Porto Alegre. Bernardi era autor de um dos projetos preteridos.

    Itaqui, arquiteto muito influente, teve seu projeto escolhido, principalmente, graças à solução que ele deu para a ligação das avenidas: a da Borges, embaixo, e a Duque de Caxias, no alto. Os concorrentes projetaram lances de escada, ele propôs rampas escalonadas, como passeios para estimular o trânsito de pedestres. Além do Viaduto, Manoel Itaqui projetou dois prédios hoje tombados no Centro Histórico: o Observatório Astronômico da Universidade Federal, preservado, e a Confeitaria Rocco, em estado de abandono.

    Uma Obra de Arte Especial

    Retrato de uma época, além da função de trânsito, o viaduto Otávio Rocha é um monumento artístico. Na nomenclatura do patrimônio cultural urbano é uma Obra de Arte Especial (OAE).

    Possui elementos artísticos-decorativos do escultor alemão Alfredo Adloff – dois grandes nichos com estátuas e o famoso Passeio das Quatro Estações, nas escadarias; além dos detalhes das balaustradas e outros ornamentos que dão o estilo característico da obra.

    Adloff moldou as estátuas numa mistura de cimento e areia para que tivessem a mesma textura granulada das paredes. Imigrante alemão, radicado em Porto Alegre, ele é também o autor das esculturas da fachada do Museu de Arte do RS e da Igreja das Dores.

    Pioneira do concreto armado executou a obra

    Em licitação internacional, foi selecionada a construtora alemã Dyckenthoff & Widmann para executar a obra.

    Fundada em 1865, a D&W era pioneira no uso do concreto armado no mundo.

    Para romper o maciço granítico (o “morrinho” do Centro) a empresa teve que usar dinamite, com muitos transtornos para os moradores, o que atrasou em um ano o início efetivo da obra. 

    No início das obras, em 1928, explosões de dinamite para abrir passagem no ‘morrinho da Rua da Igreja”.

    A empresa Dyckerhoff & Widmann ainda existe e hoje é conhecida globalmente como DYWIDAG.

    É uma multinacional de tecnologia de construção e engenharia de infraestrutura, com sedes em diversos países e atuação em grandes projetos de pontes, túneis e reparos estruturais. No Brasil, ela tem participação em outras duas obras icônicas: a ponte pênsil de Florianópolis e a ponte Rio-Niterói. 

    Doze anos, do projeto à conclusão

    A reforma atual começou em novembro de 2022, na gestão de Sebastião Melo, com prazo para conclusão em 18 meses, conforme a placa colocada no canteiro de obras. Terminou em meados de abril de 2026 – 40 meses. Quase quatro anos, praticamente o mesmo tempo gasto na construção. O orçamento também estourou, dos R$ 13,7 milhões iniciais para mais de R$ 20 milhões.   

    A Concrejato Serviços Técnicos de Engenharia, de São Paulo, executou a reforma a partir de um projeto dos arquitetos Alan Furlan e Cristiane Gross, entregue à prefeitura em 2014.

    A pressão por uma reforma, na verdade, começara antes, com um movimento dos permissionários das lojas do Viaduto. Em 2006 a ARCOV, associação dos comerciantes do viaduto, foi à Câmara levar uma proposta. Eles denunciavam o abandono e a falta de manutenção, que corroíam a estrutura do viaduto.

    Câmara Municipal, 2006: permissionários dos pontos comerciais denunciam abandono e cobram reformas/Div. ARCOV

    Restaurar não só a infraestrutura, mas as características originais, que fazem do viaduto um monumento, foi a orientação da reforma agora concluída.  

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  • Viaduto restaurado (1): Guarda Municipal vigia 24 horas para evitar pichações antes da inauguração

    Viaduto restaurado (1): Guarda Municipal vigia 24 horas para evitar pichações antes da inauguração

    Desde 1º de abril, está oficialmente concluída a mais completa restauração do Viaduto Otávio Rocha, uma das maiores obras viárias e, ao mesmo tempo, o principal monumento de Porto Alegre.

    Retirados os tapumes e aberto ao público e ao trânsito, o viaduto está, desde então, sob a vigilância permanente da Guarda Municipal para evitar as pichações antes da inauguração. “Nossa presença aqui afugenta eles”, disse um dos guardas, explicando porque os pichadores ainda não apareceram.

    Apesar das câmeras de segurança, que monitoram toda a extensão do Viaduto – mais as do totem no canteiro central da avenida, que registram imagens em 360 graus -, as características do local, com muitas colunas e arcos, permitem a aproximação sem registro das câmeras. Por isso, um furgão e um carro da Guarda Municipal ficam estacionados, e agentes vigiam em ambos os lados do Viaduto.

    Além das câmeras do totem, um furgão estacionado para afugentar pichadores. Foto EB/JÁ

    A inauguração ainda não tem uma data marcada. Depois de restaurado, o viaduto está sendo repassado à gestão de um consórcio (“Confia no Centro”) que ganhou a concessão e está fazendo a seleção dos empreendimentos que vão ocupar 29 das 36 pequenas lojas embutidas na lateral do Viaduto, sob as escadarias. Estima-se que até julho esse processo estará concluído. Só então será realizada a inauguração festiva do viaduto restaurado.   

    O plano é resgatar também o viaduto como polo comercial-cultural, seguindo a proposta do projeto original, que previu as galerias com espaços para lojas, que estimulem o movimento de pessoas, “evitando que as calçadas da avenida se tornem espaços vazios e perigosos”.

    O consórcio “Confia no Centro” reúne dois empreendimentos já vinculados ao viaduto: o Justo Bar e o projeto Porto Alegre Mal Assombrada.

    O Justo Bar é um empreendimento multiuso localizado junto a uma das escadarias do Viaduto Otávio Rocha. Funciona como bar, restaurante, mercearia e espaço cultural. 

    O Justo Bar integra o consórcio que vai selecionar os ocupantes dos espaços sob as escadarias. Foto EB/JÁ

    A Porto Alegre Mal Assombrada oferece roteiros culturais que exploram o lado misterioso e as lendas urbanas do Centro Histórico, partindo do próprio viaduto.

    Faz parte do contrato de concessão a promoção de pelo menos quatro eventos culturais por ano, com funcionamento das lojas estendido até as 22h.

    A seguir: Viaduto restaurado (2): foram 20 anos entre a decisão e a conclusão da reforma

  • “Sou um cidadão que não se conforma com o que estão fazendo com Porto Alegre”

    “Sou um cidadão que não se conforma com o que estão fazendo com Porto Alegre”

    Felisberto Seabra Luisi nasceu em Porto Alegre, mas viveu infância e adolescência em Cruz Alta, para onde  se mudaram seus pais.

    Tinha 15 anos quando voltou à cidade natal. Estudou no Rosário, formou-se em Direito na Ufrgs, especializou-se em Direito Agrário na Itália. Tinha 40 anos quando começou a realmente conhecer sua cidade. Não descansou mais.

    Em 2026, aos 75, aposentado, ele comemora 35 anos de dedicação quase exclusiva aos movimentos comunitários de Porto Alegre. É com essa autoridade que ele fala ao JÁ e faz um balanço de mais de três décadas de atuação nos movimentos comunitários de Porto Alegre, critica a falta de participação popular e alerta: “O Plano Diretor avança (em votação na Câmara Municipal) sem debate e favorece interesses privados”.        

    JÁ – Tem uma data que marque o início dessa tua militância nos movimentos comunitários?

    Felisberto – Em 1991 eu fui contratado por uma “invasão” na Zona Sul. Eles tinham ocupado uma área e precisavam de um advogado para a defesa. Cheguei nessa comunidade num domingo, onze horas da manhã, nos reunimos embaixo de  uma árvore e eles perguntaram: “Doutor, você vai resolver o nosso problema?” Eu disse: “Não, nós vamos resolver o problema”.

    JÁ – Eles entenderam?

    Felisberto – Sim, começamos a criar uma estrutura na própria comunidade para respaldar a defesa jurídica e também reunir dinheiro para a eventualidade de comprar a área. E foi o que aconteceu.

    JÁ – E eles compraram a área?

    Felisberto – Em quatro anos conseguimos comprar a área. Primeio, foi arrecadado R$ 50 mil e, aí, sentamos para negociar com o proprietário. Ele pediu 100 mil, a gente disse: “Damos 50 mil de entrada  e queremos negociar os outros 50 mil”.

    JÁ – O dono topou…

    Felisberto – Topou. Eu queria 24 meses. A comunidade disse: “Não, nós vamos pagar em 12 meses”. E pagaram em 12 meses.

    JÁ – Que comunidade é essa?

    Felisberto – Jardim das Estrelas. Fica na Cristiano Kleber quase esquina com a Juca Batista. Hoje está urbaniza, com calçamento, água, luz, esgoto… Só ainda não está regularizada a área, não estão individualizados os terrenos. É um processo, eles seguem  tratando disso.

    JÁ – Essa foi tua iniciação no movimento comunitário?

    Felisberto – Foi a partir daí que conheci o Orçamento Participativo (OP), entrei como delegado dessa comunidade… e não saí mais. Fiquei fora dois anos, de 2007 a 2009, pela doença da minha filha, mas isso é outra história.

    JÁ – Como funcionava o OP na época?

    Felisberto – Estava começando, com o Olívio Dutra na prefeitura. Nas reuniões, na mesa, sentavam os representantes do governo, só. Na primeira reunião, eu disse: “Tem uma coisa errada nesse processo aqui”. Os caras me olharam: “Como?”. “Só tem governo aí, vocês trazem a pauta, decidem os assuntos, nós temos que democratizar essa relação. Tem que ter alguém da comunidade aí na mesa”. Aí foi criada a comissão paritária.

    JÁ – O que que é essa comissão paritária?

    Felisberto – Ela coordenava o processo. Eram oito, quatro do governo e quatro da comunidade. Se reuniam, faziam a pauta e coordenavam as reuniões.

    Mas isso era uma primeira parte de todo o processo. Porque não basta demandar, tem que estabelecer uma relação, para acompanhar a execução orçamentária, determinar o início da obra, não só a critério do governo.

    Na sequência, em 2002, foi criada a comissão de receita e despesa. Foi o avanço possível na época. A minha proposta era mais ousada, era ter um membro do OP na junta financeira, acompanhando as decisões. Não conseguimos, nem lá e muito menos agora?

    JÁ – E as discussões sobre o Plano Diretor?

    Felisberto – Pois, é… Nesse período, começaram as discussões sobre o Plano Diretor e eu comecei a participar. O secretário era o Newton Burmeister, foi constituída uma coordenação e começamos a fazer o Plano Diretor que foi aprovado em 99, já no governo do Raul Pont.

    Como eu era muito envolvido nas ocupações, e questões de  regularização fundiária, fui eleito vice-presidente do Conselho Municipal.  

    Além de estar no OP, eu também participava do PMDUA, eu era delegado pela região 1 de planejamento, que abrange o Centro. Hoje eu sou conselheiro.

    JÁ – Estás no conselho desde quando?

    Felisberto – Eu fui eleito em 2018 e reeleito naquela votação maravilhosa lá em janeiro de 2024, com mais de 1.500 pessoas lá na Câmara, com 941 votos.

    JÁ – Foi surpreendente aquela eleição, não?

    Felisberto – Até hoje é uma coisa que não tenho ainda bem elaborada. Imagina as pessoas ficarem num sol, num verão, nas férias, até meia-noite, para votar numa eleição que não era obrigatória. Foi uma vitória contra a especulação imobiliária.

    JÁ – Mas o novo Plano Diretor que está em votação na Câmara… .

    Felisberto – Claro, o plano é deles, eles têm maioria. Nós vencemos numa região. Em outras regiões a gente não conseguiu vencer.  

    JÁ – Esse projeto que está na Câmara vai ser aprovado?

    Felisberto – A tendência é aprovar. Infelizmente…  Não sem luta, né?  

    JÁ – Qual é o ponto mais crítico nesse plano?

    Felisberto – A falta de participação e transparência do plano, para que as comunidades tenham noção do impacto que as mudanças propostas no plano vão ter na região onde elas moram.

    JÁ – A comunidade não tem noção do impacto na vida dela?

    Felisberto – Não, não tem mesmo a noção. A gente nota isso nos bairros, nas reuniões. Hoje há um poder de sedução do capital, fazem as grandes obras e oferecem alguma contrapartida. E as pessoas se deixam seduzir pela contrapartida. Por exemplo: precisa melhorar uma creche. A prefeitura diz que não tem como fazer e aí usa o recurso da contrapartida para fazer. Então, é uma obrigação do governo que o governo não faz, vai buscar o dinheiro do empresário, e dá em troca uma vantagem. O projeto é viabilizado com essa lógica.

    JÁ – Falta discussão sobre essas questões, é isso?

    Felisberto – A coisa mais crítica que eu vejo no processo é a falta de discussão das estratégias da cidade. Não há uma discussão com a sociedade. Que cidade a gente quer? Nós temos 700 comunidades vivendo em áreas irregulares, ocupações, invasões, loteamentos clandestinos… Se fizéssemos uma operação urbana consorciada, como foi feito em Fortaleza, seria uma revolução.

    JÁ – O que que significa essa regularização? Qual é o tamanho do problema?

    Felisberto – Um exemplo é o Jardim das Estrelas, essa comunidade na Estrada Cristiano Fischer. Até hoje ela não tem a regularização. Tem a infraestrutura conquistada pelo OP, porque tinha liderança que brigava e conseguiu levar as melhorias. Mas a regularização da área eles não têm, ninguém tem matrícula individualizada.

    Na maioria das comunidades não há sequer o mínimo de urbanização. Se estimular essa regularização e serviços urbanos, isso vai gerar trabalho e renda na própria comunidade, pois com o título do terreno, o morador consegue financiamento para construir uma casa ou reformar a que já tem. Em muitos casos, já tem a mão de obra ali mesmo na comunidade…

    JÁ – Estimularia uma economia local…

    Felisberto – Sim, hoje a construção civil da cidade traz mão de obra de fora. Se fizer uma pesquisa hoje, grande parte da mão de obra nos grandes projetos vem de fora, do Norte e do Nordeste. Tem muito baiano, carioca. Essa reforma do viaduto Otávio Rocha, na Borges de Medeiros… a empresa é de São Paulo, trouxe toda a mão de obra de lá, nordestinos que vivem lá. Noutras obras é a mesma coisa. Então, há uma falsa ideia de que a construção civil emprega as pessoas da cidade.

    JÁ – A cidade sabe disso?

    Felisberto – O que determina é o interesse do capital, não o interesse da cidade… Sempre, infelizmente, o interesse privado em detrimento do público. A prefeitura governa para o privado. Ou melhor, com o privado. Porque a maioria das pessoas que ocupam cargos na prefeitura são ligadas a empresas. O ex-secretário de Parcerias Estratégicas, Bruno Vanuzzi, saiu da prefeitura e foi trabalhar no Golden Lake, da Multiplan. Agora, voltou para o poder público como diretor do Dmae, com a “missão de fazer a concessão à iniciativa privada”. Pode? 

    JÁ – É uma privatização do serviço público?

    Felisberto – Não se valoriza mais o servidor, aquele de carreira, que teria a memória dos processos. Veja a concessão da usina do Gasômetro: não visa o interesse público, mas o interesse privado. Essa lógica tomou conta da cidade.

    Há 35 anos na luta comunitária, Felisberto Luisi aponta que um terço da população da cidade vive em áreas irregulares.

    JÁ – Um dos maiores projetos da prefeitura é essa “Operação Urbana Consorciada Regenera Dilúvio”, ao longo da avenida Ipiranga… como ele se insere aí?

    Felisberto – Eles gostam dessa palavra regenerar… revitalizar… para quem? Essa operação grandiosa da Ipiranga, começa com dinheiro público. Mais de R$  200 milhões, empréstimo do BNDES, para limpar o riacho. Aí, aqueles que já compraram os melhores terrenos ganham incentivos para construir condomínios e grandes torres sem restrições ou limites. Ao longo da avenida plantam-se algumas árvores e faz-se uma ciclovia, como contrapartida. É isso, hoje a gerência dos grandes espaços públicos está sob controle privado.

    JÁ – O prefeito Sebastião Melo tem uma sólida maioria que aprova todos os seus projetos…

    Felisberto – Essa maioria esmagadora que ele tem na Câmara, foi construída através de emendas e de indicação de CCs…

    JÁ – A questão central do Plano Diretor que está na Câmara é o adensamento – mais gente no mesmo espaço?

    Felisberto – Há questões essenciais aí. Primeiro, é a falta de infraestrutura. Segundo, é a descaracterização dos bairros e da paisagem urbana. Daqui a dez anos não veremos mais os morros que contornam Porto Alegre. Há uma descaracterização da cidade, como algo diferente das outras.  

    JÁ – O adensamento é justificado como possibilidade para o trabalhador morar no Centro…

    Felisberto – Os pobres vão vir morar no Centro? Isso é uma mentira, uma conversa. As pessoas já moram na periferia em situações que precisam ser regularizadas. Por isso digo que seria revolucionário se tivéssemos um prefeito que tivesse a capacidade de ter essa visão. Vamos melhorar o que já tem.

    JÁ – Se você fosse prefeito, tivesse a caneta, faria o quê?

    Felisberto – Primeiro ia regularizar as 700 comunidades que precisam ser regularizadas. Isso geraria trabalho, renda e melhorias para mais de 500 mil pessoas.

    JÁ – É tanta gente assim?

    Felisberto – É, quase meio milhão de pessoas, mais de um terço da população de Porto Alegre, quase 40%, que vivem  em situação irregular, ilegal na verdade.

    JÁ – Que universo é esse?  

    Felisberto – Envolve desde situações relativamente sustentáveis até as situações dramáticas, como comunidades que esperam há mais de 30 anos pela regularização.

    JÁ – Mas a prefeitura anuncia entrega de títulos…

    Felisberto – Não adianta dar título se não urbaniza. É simplesmente a garantia para a pessoa. E a maioria vai vender. As pessoas estão de tal maneira espremidas pela necessidade que aceitam qualquer coisa.

    Por exemplo, tem uma série de estudos sobre as mudanças climáticas, dizendo que a cidade está sujeita a ilhas de calor,  enchentes… E o que se faz na cidade é o oposto do que deveria ser feito levando em conta essa realidade. O centro de Porto Alegre, por exemplo, foi todo lajotado. A temperatura deve chegar a 50 graus ali, nos dias mais quentes. O Paulo Brack mediu ali no Harmonia onde retiraram as árvores, deu mais de 45 graus.

    O prefeito captou quase 7 bilhões de financiamento para aplicar em obras de reconstrução, melhorias e revitalização da cidade. Vai ver as obras, são aquelas em que os empresários têm interesse. Vi o representante do Sinduscon dentro do plenário da Câmara, negociando com vereadores. Muitos vereadores não sabem nem o que é o plano diretor e a lei de uso e ocupação do solo. Separaram o plano diretor da lei de uso e parcelamento do solo. Por que  separaram?

    Agora, onde é o Teatro do Pôr-do-Sol, querem fazer um centro de eventos, uma marina – agora se diz Orla 2.. É tudo mega ideias, tudo com dinheiro público. Financiado pelo BNDES, pelo BRDE… Aí é maravilhoso. Além disso, o Estado se endivida para privilegiar os interesses privados, não o interesse público. Não há melhoria das vilas, como eu disse. Hoje é um débito da prefeitura com as emendas do OP de mais de R$ 1 bilhão.

    JÁ – O que acontece que essas informações não chegam à população?

    Felisberto – São muitos fatores. Um deles é que a população está tão premida pela necessidade que se preocupa em sobreviver, certo? Ela não vai se preocupar. Plano de emergência não é uma coisa que afeta ela, vamos dizer, diretamente, mas afeta, mas ela não percebe. Se percebe, não é um problema imediato na vida dela. Então acabam deixando de lado.

    A população, ela não consegue perceber com a linguagem técnica, não é acessível para ela entender. Então, eu acho que isso é um grande problema.

    E os meios de comunicação também, não é?

    JÁ – Qual é a situação do OP hoje?

    Felisberto – Hoje o recurso direcionado para o OP é de R$ 20 milhões. Desse total, 16 ou 17 milhões vão para as regiões do orçamento participativo, que são 17. Vai um milhão para cada uma, mais ou menos. E o restante vai para as temáticas que são seis, em torno de 500 ou 600 mil para cada. Parece que neste ano serão R$ 25 milhões. Eu sou de uma época em que o OP tinha R$ 500 milhões nos valores de hoje.  

    JÁ – O OP perdeu as suas características e representatividade

    Felisberto – É o que já falei: os conselheiros estão tão premidos que se contentam com qualquer coisa.

    JÁ – Quando conheceste o prefeito Sebastião Melo?

    Felisberto – Melo chegou em Porto Alegre, em 1977 ou 78, foi trabalhar numa lancheria, ali na avenida Borges de Medeiros, como chapista, e morava em cima. Ele diz também que foi carregador de caixas no Ceasa… Claro, ele tem mérito, tornou-se advogado, fez nome, entrou na política, era da esquerda do MDB. O que lamento é um cara que condecorou o Che Guevara, quando era presidente da Câmara, trabalhar hoje para a direita, para dizer o mínimo.

    Ele subia numa caixa, na Esquina Democrática, junto com o José Fogaça, em atos contra a ditadura, sabe? E outros defendendo, sabe? Hoje é um cara aliado com a extrema direita. Essa transformação, ou essa adaptação, me decepciona, porque eu era amigo dele. Ainda tenho amizade com ele, mas me afastei dele.

    JÁ – Ele é o grande defensor do tal adensamento, quer dobrar o número de moradores no Centro Histórico, para aproveitar a infraestrutura.

    Felisberto –Eu bato de frente contra isso. Porque não existe um estudo sobre isso, não há mínima avaliação do que a infraestrutura da região central pode suportar. Quero que me provem. Eu acompanho isso há muito tempo, nunca vi um estudo que diga: “Tem infraestrutura ociosa, rede de esgoto, água, telefonia”. Nessa reforma do Viaduto Otávio Rocha, tiveram que refazer todas as canalizações, estava tudo entupido, sucateado. E mais: vai ter posto de saúde, vai ter escola, creche, transporte para essa população?

    O prefeito se gaba de conhecer a cidade melhor que muito porto-alegrense. Ele não conhece o centro, não conhece a história da cidade, não entende a alma da cidade.

    JÁ – As vilas, ele conhece?

    Felisberto – Não, nem as vilas ele conhece. Ele é um personagem, cumpre um papel. Ele vai lá porque o levam. Ele não conhece a história da cidade, nem do bairro que ele morou.

    JÁ – Qual é o bairro?

    Felisberto – Morava lá na zona sul. O mais grave de tudo não é a ousadia dele, é a omissão geral. Eu não sou técnico, não sou engenheiro, não sou urbanista. Sou um cidadão que tem uma visão de cidade e não se conforma com o que estão fazendo com ela.

  • Terreno à venda no alto do viaduto Otávio Rocha tem projeto para prédio de seis andares

    Terreno à venda no alto do viaduto Otávio Rocha tem projeto para prédio de seis andares

    Último espaço disponível no local, um terreno de quase 200 metros quadrados (9,5mx 20m) está à venda no alto do viaduto Otávio Rocha, no Centro de Porto Alegre.

    A área, que pertencia ao município, foi adquirida num leilão pelo corretor de imóveis Ademir Carraro, em 2003.

    Ele chegou a aprovar um projeto de um prédio residencial com 18 apartamentos em seis andares para o local.

    A falta de acesso à água e energia elétrica impediu a realização da obra, até agora. Com a reforma do Viaduto, a situação mudou. Carraro peticionou junto à prefeitura e conseguiu a instalação da infraestrutura necessária – água, energia e esgoto.

    Espaço fica na escadaria, entre o prédio da ARI e o Teatro da Arena.

    Agora, com a finalização da reforma, colocou o terreno à venda e se dispõe a repassar o projeto do prédio residencial para o comprador. O valor estimado do imóvel é de aproximadamente R$ 600 mil.

  • Extinto o processo que pedia falência do Jornal JÁ

    Extinto o processo que pedia falência do Jornal JÁ

    Foi extinto o processo judicial que o empresário Luiz Henrique Sanfelice movia contra o jornal JÁ desde 2014.

    Sanfelice cobrava uma indenização por dano moral e desde março do ano passado pedira a falência do jornal.

    Em fevereiro deste ano, o juiz João Garcez de Moraes Neto, expediu um “Mandado de Penhora, Avaliação, Depósito, Intimação e apreensão” em que autorizava “o arrombamento se necessário” para penhorar “tantos bens quantos bastem para garantir a dívida”.

    Nesta sexta-feira, o juiz homologou “o pedido de desistência da parte autora” e julgou extinto o processo “sem resolução de mérito”. Ainda não obtivemos detalhes sobre a decisão.

    Sanfelice processou a editora pela reportagem “Ela foi queimada viva”, de Renan Antunes de Oliveira, publicada no site do jornal JÁ em 2010.

    O texto descrevia as circunstâncias do assassinato da jornalista Beatriz Rodrigues de Oliveira, ocorrido em 2004, em Novo Hamburgo, e relatos do julgamento, em que o empresário, marido da vítima, foi condenado a mais de 20 anos de cadeia, num dos processos mais rumorosos no Estado, com repercussão nacional. 

    Condenado pelo assassinato, Sanfelice fugiu, foi recapturado. Cumpriu pouco mais de três anos de reclusão, ganhou liberdade condicional e processou o jornal e o autor da reportagem, que dá detalhes do bárbaro crime que ele cometeu.  

    O repórter, Renan Antunes de Oliveira (já falecido) foi absolvido porque não foram apontados erros na reportagem.  

    O jornal foi condenado à revelia, sob a alegação (contestada) de que não apresentou defesa em tempo hábil. Todos os recursos para que fosse julgado o mérito da ação foram inúteis. 

    O jornal foi condenado a pagar uma indenização por “dano moral” , cujo montante em valores atualizados chega a mais de R$ 60 mil.

    Por conta disso, o jornal já teve suas contas bloqueadas e, por último, o pedido de falência, que agora também se anula com a extinção do processo.

  • “Herança de Brizola sempre foi causa de conflitos”

    “Herança de Brizola sempre foi causa de conflitos”

    ELMAR BONES

    O jornalista Cleber Dioni Tentardini garimpou ao longo de 20 anos os mínimos detalhes da vida de Leonel Brizola. Encontrou um amigo de infância chorando à beira do túmulo da família, em Cruzinha. Na escola agrícola onde Brizola estudou, localizou a ficha de matrícula, que a escola já dava por perdida. Até a desconhecida filha que o líder trabalhista teve fora do casamento ele achou e convenceu a falar. No início de 2025, ele lançou “No Fio da História – a Vida de Leonel Brizola”, com 290 páginas e fotos de todas as fases de vida dele, cuja edição está esgotada.

    O autor falou ao JÁ sobre a polêmica em torno de uma entrevista de Brizola, que será lançada como livro, e que adquiriu dimensão política por envolver a ex-deputada estadual Juliana Brizola, neta do ex-governador, e pré-candidata ao governo do Rio Grande do Sul. A autora da entrevista, historiadora Silvana Moura, acusa Juliana de se apropriar indevidamente do seu trabalho.

    JÁ – Sabias dessa entrevista inédita do Brizola?

    Cleber – Sim, falei várias vezes com a Silvana. Ela é historiadora de Carazinho, com várias pesquisas sobre o trabalhismo. Em abril de 1996, ela e outro historiador receberam Brizola e um pessoal que o acompanhava na Câmara de Vereadores de Carazinho, isso tem fotos e tudo, e gravaram mais de quatro horas com ele. Foram quatro fitas cassetes que ficaram guardadas com a Silvana por todos esses anos. Não tive acesso ao texto, mas conversei com ela a respeito, é um material impressionante. Ela me convidou inclusive para um debate sobre o Brizola no ano passado e falou muito da entrevista.

    Reprodução da foto da entrevista de Brizola em 1996. Arquivo pessoal da professora Silvana Moura

    JÁ – O que tem de novidade nessa entrevista?

    Cleber – Olha, eu conhecia muitos dos fatos por ter entrevistado os irmãos dele, a sobrinha que guardava na memória e em álbuns quase tudo sobre a família, falou sobre a sua chegada em Porto Alegre, as dificuldades na cidade grande, afinal era um menino de 14 anos, sozinho, vindo do Interior, o trabalho de engraxate na Galeria Chaves. A importância é que são coisas narradas por ele, coisas que ficaram na memória… por exemplo, o ressentimento que guardou a vida toda por não ter convivido com o pai, que foi assassinado, as dificuldades de sua mãe para manter quatro filhos e uma sobrinha… e ainda fazer de tudo para o Leonel seguir os estudos mesmo longe de casa. E a Silvana na sua frente, captando todas suas reações, isso é muito valioso numa entrevista.

    JÁ – E essa polêmica com a Juliana?

    Cleber – Eu falei com a Silvana logo depois que saiu a matéria no jornal O Globo. Fiquei surpreso porque não havia o nome dela. Ainda confirmei se era esse o seu trabalho. Ela ainda parecia atônita com tudo. Porque a Silvana entrevistou, fez as transcrições, imprimiu e deu uma cópia para o Romeu Barleze, amigo trabalhista e conterrâneo, levar a entrevista para o Brizola no Rio. Suponho que a Juliana tenha tido acesso, soube do interesse da Editora Insular publicar em livro e convidou uma amiga dela, jornalista, a assinar a publicação. Como assim?

    JÁ – Tu tens contato com a Juliana?

    Cleber – Olha, a família do Brizola é um tanto difícil de conversar hoje em dia. Ele mesmo disse certa vez que não tinha sido muito feliz na questão com os filhos porque quase nunca estava disponível, demonstrava muito carinho, claro, inclusive com a dona Neusa, a quem fazia declarações de amor públicas, mas trabalhava dia e noite e não raro, de madrugada. O João Otávio, que era o mais próximo do pai, publicou um livro que achei bem pesado, um desabafo, cheio de mágoas. E essa família, assim como tantas outras, foi muito marcada pela vida no exílio… foi muito vigiada, perseguida, uma confusão, nem imagino as dificuldades. Quando estava finalizando o meu livro, tentei várias vezes falar com os netos, mas não me deram retorno.

    A Juliana, que já havíamos entrevistado e fotografado posando ao lado de vários documentos do avô, dessa vez não me atendeu. Eu queria saber dos arquivos do Brizola, retirados do apartamento em Copacabana, que foi vendido. Soube por intermédio de outras pessoas que os documentos foram colocados no contêiner de um depósito no Rio, porque não se entenderam sobre o que fazer com o material. Cogitaram doar para o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, mas o José Vicente, filho mais velho, não permitiu. Deu rolo até durante a mudança dos móveis do apartamento em Copacabana depois que Brizola morreu, segundo jornalistas no Rio, teve até polícia no local. Tanto a herança material de Brizola como a política sempre foi causa de conflitos. Depois, quando revelei a existência de uma filha do Brizola não reconhecida pela Justiça, mesmo com o exame de DNA positivo, também não consegui falar com a Juliana.

    JÁ – E o que tem nesses arquivos do Brizola?

    Cleber – A jornalista Dione Kuhn, da Zero Hora, teve acesso ao material depois da morte do Brizola, e munida desses documentos e das entrevistas que realizou com o ex-governador, publicou um livro “Da Legalidade ao Exílio”. Muito bom.

    JÁ – E a lendária farda de oficial da Brigada Militar que ele usou como disfarce para sair do Brasil em 1964?

    Cleber – Não se sabe onde foi parar. A companheira dele, a dona Marília, me disse que viu a farda na casa lá no Uruguai, a estância El Repecho. Quando foi negociar a venda da estância, Brizola estava sozinho, não se sabe onde foi parar o que tinha lá. A lendária metralhadora que ele carregava a tira colo durante a Campanha da Legalidade eu encontrei num cofre da Brigada Militar. As que estão expostas no Museu da BM e no porão do Piratini são réplicas. Ganhei autorização para fotografá-la e publicar no meu livro. A história é que ela foi trazida desmontada do Uruguai.

    JÁ – Eram três os filhos de Brizola?

    Cleber – José Vicente, João Otávio e a Neusinha, na ordem, e todos já morreram. Dos irmãos, apenas o mais jovem está firme e forte, o seu Jesus, com 93 anos.

    JÁ – E a filha fora do casamento, no teu livro é a primeira vez que ela aparece?

    Cleber – Sim. Eu vi uma nota na coluna do Anselmo Góis, do Globo, dizendo que enfim ia ser conhecido o resultado dos testes de paternidade de uma possível filha do Brizola, a cabeleireira Giselda Topper. Nem era cabeleireira. Depois, não se divulgou mais nada. Fui atrás e cheguei à esteticista gaúcha. Aí fiquei um ano insistindo até que ela confirmou a história. Mais um tempo insistindo e consegui conhecê-la pessoalmente. Quase caí pra trás com a semelhança. Giselda não conseguiu ser reconhecida, mas o exame de DNA não deixa dúvida, 99,99% de certeza do vínculo. Confirmei com o biólogo perito, da UFRJ.

  • Porto Alegre: grupo de Santa Catarina arremata por R$ 10 mil o que resta do porto

    Porto Alegre: grupo de Santa Catarina arremata por R$ 10 mil o que resta do porto

    O Cais Navegantes, o último dos terminais portuários de Porto Alegre capaz de receber embarcações de grande porte, foi arrematado em leilão na Bolsa de Valores de São Paulo, nesta sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026.

    Com um lance de R$ 10 mil, o Consórcio Portos do Sul, de Santa Catarina, ganhou o direito para explorar a área de 22 mil metros quadrados, por 10 anos, período em que deverá realizar investimentos de R$ 21,13 milhões. Será a primeira operação estruturada da empresa nesse modelo de arrendamento. O início das operações está marcado para ainda este ano. O projeto prevê dois novos armazéns, além de obras de pavimentação, drenagem, iluminação e cercamento.

    Fortemente atingido pela enchente de 2024, o Cais Navegantes retomou operações em janeiro de 2026, quando voltou a receber navios de longo curso (internacionais) e foi autorizado a navegação noturna, algo suspenso há décadas.

    Segundo o governo do Estado, foram investidos R$ 40 milhões, recursos do Fundo de Reconstrução (federal), para reparar os danos causados pela enchente.

    As cargas que movimenta são, principalmente, fertilizantes, sal, grãos vegetais e transformadores. 

    O leilão do Cais Navegantes foi promovido pelo Ministério de Portos e Aeroportos e a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Para o presidente da Portos-RS, Cristiano Klinger, o arrendamento “reforça a confiança da iniciativa privada e marca mais um passo na reconstrução e fortalecimento da atividade portuária da capital”.

    A região portuária de Porto Alegre é dividida em três áreas – o Cais Navegantes, ao norte; o Cais Mauá, no centro da cidade, com 3,2 km de extensão, e que está desativado e abandonado há mais de 30 anos; e o Cais Marcílio Dias, o menor, reduzido a atividades logísticas e de apoio.

    O que restou, na prática, foi uma separação clara: o Navegantes ficou com a economia e a logística, enquanto o Mauá espera se tornar o “cartão postal” da cidade a partir de um projeto de remodelação com recursos privados.

    O cais Marcílio Dias concentra a navegação interior, com embarcações de pequeno e médio porte, para transporte de areia principalmente. O trecho, entre o Mauá e o Navegantes, serve como área de apoio e possui uma rampa pública para acesso de embarcações.

    Um “pilar do desenvolvimento”

    O porto de Porto Alegre já foi considerado “um dos pilares do desenvolvimento do Rio Grande do Sul”.

    Começou a ser construído em 1910, com o início das operações em 1º de agosto de 1921. Era, então, o maior porto fluvial do país.

    O crescimento seguiu ao longo dos anos com as inaugurações do Cais Navegantes, em 1949, e do Cais Marcílio Dias, em 1956. A conclusão da estrutura como se conhece hoje aconteceu em 1962.

    A partir de 2005, as operações foram concentradas no Cais Navegantes, uma decisão que permitiu a ampliação das atividades e a aquisição de novos e modernos equipamentos.

    No primeiro semestre de 2023, o cais público porto-alegrense movimentou 375.697 toneladas. Entre os maiores fretes estavam fertilizantes, trigo, cevada, sebo bovino, sal.

    Nesse período, o Porto recebeu 66 embarcações, transportando produtos vindos do Egito, da China, de Marrocos, da Arábia Saudita, entre outros.

    Com a enchente de 2024, ele ficou desativado, retomando atividades no início de 2026.

  • Cais Mauá: dois anos depois da concessão, é incerto futuro do projeto

    Cais Mauá: dois anos depois da concessão, é incerto futuro do projeto

    Dois anos depois da concessão do Cais Mauá a um consórcio privado, é incerto o futuro do projeto para devolver à população aquela área simbólica de Porto Alegre, abandonada há mais de 30 anos.

    Começa que o contrato que formaliza a concessão ainda não foi assinado.

    Em entrevista ao Jornal do Comércio, no início de fevereiro, o secretário Pedro Capeluppi disse que o prazo final é 11 de março e que o governo ainda aguarda documentos.

    O Consórcio Pulsa RS, vencedor do leilão, declarou em nota que está “cumprindo as etapas previstas no edital e que a entrega da documentação segue os prazos estabelecidos para a assinatura do contrato em março”.

    “As enchentes de 2024 não alteraram a concepção do projeto, mas impactaram o cronograma”, diz o consórcio formado pela Spar Participações e Desenvolvimento Imobiliário e a Credilar Empreendimentos Imobiliários.

    É a segunda concessão do Cais Mauá, na verdade. A primeira, formalizada em dezembro de 2010, terminou em maio de 2018, quando uma operação da Polícia Federal revelou uma enorme fraude financeira que dilapidou R$ 130 milhões captados junto a fundos de previdência. Esta história já foi contada pelo JÁ em edição especial.

    A atual concessão, como a primeira, é por 30 anos. O concessionário se compromete a investir cerca de R$ 350 milhões ( R$ 210 milhões nos primeiros quatro anos) para “revitalizar” uma área de três km de extensão, desde a Usina do Gasômetro até a Estação Rodoviária no entorno do centro histórico.  

    As intervenções incluem a recuperação de 12 armazéns (para lazer e comércio) e reestruturação das Docas (para prédios comerciais e residenciais). Em troca desses investimentos, o Estado entrega para o consórcio o terreno das docas, avaliado em R$ 144 milhões.

    O leilão, que só teve um concorrente, foi realizado no dia 7 de fevereiro de 2024, na bolsa de valores de São Paulo.

    Três meses depois, a maior enchente da história de Porto Alegre, alterou completamente o cenário. O Guaíba subiu quase seis metros e manteve a área do porto submersa por um mês. Quando as águas baixaram, ficou a dúvida: quando vai ocorrer outra vez?

    As condições do edital, que admitiam até a retirada de parte do “Muro da Mauá”, tiveram que ser inteiramente revistas. O projeto foi transferido da Secretaria de Parcerias e Concessões para a Secretaria de Reconstrução que passou a centralizar os projetos estratégicos atingidos pela enchente em todo o Estado.

    Na área das Docas (extremo norte do Cais, próxima à Rodoviária), onde estão previstas 9 torres de até 150 metros, a água alcançou quase dois metros. De acordo com o modelo de negócios do consórcio Pulsa RS, essa área é fundamental para a viabilidade financeira da concessão. As torres teriam uso misto – residencial (apartamentos), corporativo (escritórios)  e comercial (lojas no térreo).

    Especialistas e entidades civis levantam diversos questionamentos sobre o impacto das construções de grande porte (torres de até 150m) na área das Docas e a revitalização como um todo.

    O Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS) afirma que a construção de torres altas pode criar uma “barreira” entre a cidade e o Guaíba, prejudicando a visibilidade do pôr do sol e alterando a paisagem histórica do Centro.

    Prédios dessa magnitude podem também gerar grandes áreas de sombra na orla e nos espaços públicos adjacentes, afetando o conforto térmico e a vegetação local.

    O aumento da densidade populacional e comercial nas Docas terá também grande impacto no trânsito já saturado da região central e da Avenida Mauá. 

    A substituição de áreas abertas por grandes massas de concreto pode intensificar o efeito de ilha de calor na região central.

    Os especialistas questionam se o adensamento imobiliário em uma zona de inundação é prudente e se as soluções de contenção propostas são suficientes para os novos cenários climáticos.

    Grupos de urbanistas e movimentos sociais continuam solicitando maior transparência e a realização de novos debates públicos, alegando que o cenário hidrológico de Porto Alegre mudou drasticamente e exige um novo Estudo de Viabilidade. 

    Até o novo Plano Diretor, que está em discussão na Câmara Municipal, prevê mudanças que afetam a área do Cais. Isso poderá levar a novas exigências técnicas para o concessionário.

    O Ministério Público  tem questionado a segurança do sistema de proteção contra cheias e a legalidade da transferência definitiva de terras públicas para o consórcio.

    Referência em hidrologia, professores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas, da Universidade Federal,  têm alertado que as cotas de inundação previstas no projeto original do Cais (pré-2024) podem estar subestimadas diante do novo cenário climático.

    Ações jurídicas lideradas por coletivos como o Cais Mauá de Todos pedem a anulação do leilão. O argumento central é que o cenário de risco hidrológico mudou completamente após maio de 2024, invalidando os estudos de viabilidade originais.

    *Clique aqui para ler mais sobre a concessão do Cais na coluna Economics

    Imagem da apresentação do projeto no Palácio Piratini: nove torres no Cais Mauá