Autor: Elmar Bones

  • Eleições 2026: o enigma das pesquisas que brigam com os fatos

    Eleições 2026: o enigma das pesquisas que brigam com os fatos

    Pesquisa do Datafolha, a primeira depois do início da campanha, dá Lula com 47% e Flávio com 43 no segundo turno, empate técnico, portanto.

    É um resultado semelhante ao de  pesquisas anteriores e posteriores, todas igualmente inexplicáveis à luz dos fatos da campanha em andamento.

    Vejamos:

    Os eventos de Flávio Bolsonaro são um fracasso que nem a imprensa favorável consegue esconder, não junta gente nem no Rio, seu território.

    Seu discurso é raso, medíocre, seu plano econômico está sendo feito por assessores do Paulo Guedes, os partidos aliados lhe negaram um nome para vice, no centro de Porto Alegre  candidato a deputado pelo PL omite a sigla do partido nos folhetos que distribui aos passantes.

    Já Lula, em seu terceiro mandato, vive seu melhor momento, pela desenvoltura, pelo discurso, pela segurança com que assume a sua condição de líder, pelas multidões que tomam seus eventos, pelas relações com o parlamento, pelo reconhecimento dos maiores líderes internacionais.

    Nesta quinta-feira falou uma hora ao telefone com o presidente dos Estados Unidos e acertou negociações sobre o tarifaço imposto por Trump.

    As pesquisas que apontam o risco dele  perder a eleição para um candidato sem biografia, como Flávio Bolsonaro.   

    A explicação mais recorrente dos “analistas políticos” que escrevem nos jornais é a “polarização”.

    Dividido em dois blocos ideologicamente antagônicos, o eleitorado manteria um comportamento rígido, de rejeição sistemática ao outro lado.

    Um comportamento novo que fez praticamente desaparecer a figura do  indeciso (entre 1 e 4% em todas as pesquisas).     

    Ambos os candidatos teriam um “teto de crescimento” determinados pelas altas taxas de rejeição.

    Segundo dados da pesquisa Quaest, Flávio possui 54% de rejeição e Lula aparece colado com 52%.

    O antipetismo justificaria a alta rejeição a Lula. Nesse contexto, a campanha só fará sentido na reta final do segundo turno para definir aqueles poucos eleitores que farão a diferença na hora do voto.  

    È possível que estas pesquisas por amostragem reflitam uma realidade construída em pelas proprias pesquisas e, por isso. estão em confronto com os fatos da campanha que está nas ruas.

       

  • Em cada cinco gaúchos, um é idoso: são mais de 2 milhões acima dos 60 anos

    Em cada cinco gaúchos, um é idoso: são mais de 2 milhões acima dos 60 anos

    O Rio Grande do Sul tem de 2,19 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, que representam 20,15% da sua população. Ou seja: um em cada cinco gaúchos é idoso.

    Pela primeira vez, há oficialmente mais idosos do que crianças e adolescentes de até 14 anos de idade no Estado. Porto Alegre é a capital brasileira com o maior percentual de idosos.

    Mais: das 20 cidades mais envelhecidas de todo o Brasil, 19 estão localizadas no Rio Grande do Sul.

    Especialistas projetam que a população do Rio Grande do Sul começará a diminuir em termos absolutos a partir de 2027. No Brasil, a redução da população só deve começar por volta de 2042. Os números são do censo do IBGE/2022 e projeções a partir deles.


  • Feminicídio é o tema do 43º Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo

    Feminicídio é o tema do 43º Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo

    Márcia Turcato

    O 43º Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo foi lançado nesta quinta-feira (06) no evento Cidade do Advogado, realizado no Cais Embarcadero, em Porto Alegre. Nesta edição, o certame elege o feminicídio como tema. Para marcar o lançamento, um painel de especialistas debateu o assunto e apresentou sugestões de enfrentamento e prevenção. A iniciativa é do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) e da Ordem dos Advogados do Brasil Rio Grande do Sul (OAB/RS).

    O painel de especialistas reuniu a advogada Alice Bianchini, conselheira de Notório Saber do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, e a professora e pesquisadora da Universidade do Noroeste do Estado (UnIjuí), doutora em Direito, Joice Graciele Nielsson, com mediação da advogada Fabiane Cavalcanti, conselheira da OAB/RS e mestre em Ciências Criminais. Também participaram do lançamento do prêmio os coordenadores da Comissão de Direitos Humanos Sobral Pinto (CDH) da OAB/RS, Rodrigo Puggina e Roque Reckziegel, e o presidente do MJDH, Jair Krischke.

    O Rio Grande do Sul vive uma escalada de violência contra as mulheres e concentra 38,8% dos assassinatos por feminicídio de toda a região Sul. Enquanto a média nacional de feminicídios subiu 4,7%, o índice no estado gaúcho saltou 11,1% entre 2024 e 2025, totalizando 80 assassinatos confirmados e 4.189 tentativas. Além das vidas perdidas, o rastro da violência é extenso, em 2025, o estado registrou 258 tentativas de feminicídio e o crime deixou 116 órfãos (filhos com até 18 anos).

    Os números também mostram a dificuldade de proteção estatal, das 80 vítimas de feminicídio no Rio Grande do Sul, cinco possuíam medida protetiva de urgência vigente no momento do crime. A maioria delas, 59 mulheres, tinham registro de ocorrência policial prévio por violência doméstica. 

    No cenário nacional, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Entre janeiro e março de 2026, foram registradas 399 vítimas de feminicídio, um aumento de 7,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. O alarmante número de crimes consta do relatório Retratos do Feminicídio no Brasil, divulgado em 2026. Link para o relatório:

    https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/dados-e-fontes/pesquisa/retrato-dos-feminicidios-no-brasil-fbsp-2026

    “No mundo, o Brasil ocupa um ranking vergonhoso, é o quinto país que mais mata mulheres”, salientou a advogada Alice Bianchini. Os demais países, pela ordem, são El Salvador, Guatemala, Colômbia e Rússia. A advogada disse também que a Lei Maria da Penha, de 2006, é uma das normas jurídicas mais avançadas do mundo, mas que advogados e juízes a questionaram, deixando de aplicá-la. Foi necessário que a OAB recorresse ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que a constitucionalidade da lei fosse confirmada, em 2012. “Mesmo assim, houve decisões que não contemplavam a lei”, lamentou Alice.

    A advogada também lastimou que até o ano de 2023, os autores de crimes contra as mulheres podiam alegar que agiram em legítima defesa da honra para escapar da prisão ou ter sua pena atenuada. “A cultura da violência e da tolerância aos crimes praticados pelos homens era facilitada até três anos atrás. Vivemos em uma sociedade em que essa memória da impunidade está muito viva e presente entre nós”. 

    Para a professora Joice Graciele Nielsson, é necessário conhecer o perfil dos autores de crimes contra as mulheres para identificar padrões de escalada de violência. “A pesquisa que fazemos na UnIjuí tem o objetivo de conhecer o criminoso para que possamos proteger as mulheres e a rede geracional que as cercam, porque elas são mães, filhas e irmãs. Isso provoca um impacto entre gerações e também social”. Joice destaca que é necessário acabar com os álibis utilizados para desculpabilizar os crimes praticados contra as mulheres, como, por exemplo, alegar que a importunação sexual foi praticada porque a mulher usava uma roupa decotada ou curta. “Ciúmes, roupa ou alguma discordância doméstica não podem ser fatais e nem servir de atenuante para o crime”, declara.

    A professora finalizou sua intervenção afirmando ser necessário agir de forma preventiva, fazer gestão de risco e criar protocolos que acabem ou diminuam os riscos para as mulheres, como dificultar o acesso às armas, estar atento aos sinais das crianças nas escolas e das mulheres nas unidades de saúde e “que paternidade não é sinônimo de poder e autoridade, é cuidado e responsabilidade social”. 

    O Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo é uma realização do MJDH e da OAB/RS. Apoiam a iniciativa a Regional Latino-Americana da União Internacional dos Trabalhadores da Alimentação (Rel UITA), a Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio Grande do Sul (ARFOC-RS) e a Caixa de Assistência dos Advogados do RS (CAARS).

    As inscrições para o 43º Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo poderão ser feitas no período de primeiro a 25 de outubro de 2026 no portal do MJDH: https://www.direitoshumanosbr.org.br/home/index.php

    Legislação

    A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) é a principal norma jurídica no Brasil para prevenir, punir e erradicar a violência doméstica e familiar contra a mulher. Sancionada em 7 de agosto de 2006, ela define os tipos de agressão de gênero, garante medidas protetivas de urgência e endurece as penas para os agressores.

    A lei é uma homenagem à biofarmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, que ficou paraplégica após sofrer duas tentativas de homicídio realizadas por seu marido em 1983. Diante da omissão do Estado brasileiro em julgar o caso na época, ela levou a denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH/OEA), resultando na cobrança internacional para que o Brasil criasse uma legislação específica de proteção às mulheres.

    O crime de feminicídio (Lei 13.104/2015) é o homicídio doloso praticado contra a mulher por razões da condição de sexo feminino, ou seja, desprezando, menosprezando, desconsiderando a dignidade da vítima enquanto mulher, como se as pessoas do sexo feminino tivessem menos direitos do que as do sexo masculino. Antes desta lei, não havia nenhuma punição especial pelo fato de o homicídio ser praticado contra a mulher por razões da condição de sexo feminino. O crime era punido, de forma genérica, como sendo homicídio. Ou, no caso de violência sem morte, como vias de fato. 

  • Manchetes coincidentes marcaram início do processo que derrubou Dilma

    Manchetes coincidentes marcaram início do processo que derrubou Dilma

    As manchetes publicadas pelo Globo, Estadão e Folha, neste 31 de julho, constituem realmente um fato inédito pela absoluta coincidência: as mesmas  palavras, exatamente na mesma ordem, o que seria matematicamente impossível de ocorrer sem uma prévia combinação entre os editores dos três jornais.

    Há, porém, um precedente neste comportamento dos três, aparentemente concorrentes entre si no mercado da comunicação.

    No dia 7 de outubro de 2015, os três também circularam com a mesma manchete, embora com pequenas variantes (foto).

    Na noite anterior, por 5 votos a 2, Tribunal Superior Eleitoral havia decidido desarquivar as ações propostas pelo PSDB que investigavam abuso de poder econômico e político na campanha de reeleição de 2014.

    “TSE reabre ação que pede cassação de Dilma e Temer”, foi a manchete, com mínimas variações, publicada pelos três jornais.  

    Das manchetes ao afastamento temporário da presidente (quando o Senado aceitou a denúncia), o intervalo foi de 7 meses e 5 dias.

    O vice-presidente, Michel Temer, assumiu interinamente a presidência da República no dia 12 de maio de 2016 – 218 dias após as manchetes.

    Ao final do processo, 319 dias depois, em 31 de agosto de 2016, o plenário do Senado Federal condenou Dilma Rousseff por crimes de responsabilidade fiscal, com base em duas acusações técnicas principais: a edição de decretos de crédito suplementar sem aval do Congresso e o atraso de repasses a bancos públicos (as “pedaladas fiscais”).

    Não houve nenhuma acusação ou prova de corrupção pessoal, desvio de dinheiro público ou enriquecimento ilícito contra ela no escopo do processo.

    O relatório final apresentado pelo Senado Federal concluiu que a então presidente infringiu a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e a Lei Orçamentária.

    A acusação e a perícia apontaram que os decretos foram editados de forma incompatível com a meta de superávit fiscal vigente na época, o que exigiria aprovação prévia do Congresso. Ficou comprovado também que o Tesouro Nacional atrasou deliberadamente o repasse de fundos ao Banco do Brasil para cobrir os subsídios do Plano Safra.

    Como o banco público usou recursos próprios para pagar os produtores rurais antes de receber do governo, o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Senado entenderam que isso configurou uma operação de crédito ilegal (um “empréstimo” camuflado do banco para a União, o que é proibido pela LRF)

    A ação por improbidade administrativa contra Dilma pelas “pedaladas fiscais” foi arquivada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) em agosto de 2023.

    O tribunal concluiu que não houve ato ímprobo civil ou dolo (intenção de cometer fraude ou causar prejuízo ao erário). Juristas e ministros ressaltam que essa decisão do TRF-1 tratou da esfera civil e não anula o julgamento do impeachment.

    O processo que cassou seu mandato foi de natureza político-jurídica, focado exclusivamente no descumprimento de normas administrativas da Lei dos Crimes de Responsabilidade (Lei nº 1.079/50).

    Contraditoriamente, Dilma foi afastada por Crime de Responsabilidade, mas não perdeu seus direitos políticos.

  • Fábrica de 25 bilhões para exportar celulose: de quem é a pressa?

    Fábrica de 25 bilhões para exportar celulose: de quem é a pressa?

    A CMPC fala de uma “janela de oportunidade” que pode “fechar” no ano que vem, conforme as tendências do mercado mundial de celulose.

    A empresa alega que já gastou 400 milhões de dólares em três anos de preparação para aproveitar a tal janela .

    Tem 80 equipes envolvidas num projeto de R$ 25 bilhões, com a previsão de iniciar as obra em 2027, para dar partida na fábrica em 2029.

    Depois de ameaçar transferir o projeto para outra região ou outro país, se o licenciamento não sair no prazo esperado ( ainda este ano), os diretores da empresa passaram a dizer que o projeto “pode ficar na gaveta”.

    Entende-se que uma grande empresa pressione por um licenciamento a toque de caixa para aproveitar uma oportunidade de negócio.   

    Difícil é entender que se aceite  minimizar os riscos de um empreendimento industrial deste porte.

    Mais que a intervenção drástica numa área de reserva ambiental protegida (uma RPPN), trata-se do ar, da água que abastece milhões, trata-se de um ecossistema cujo equilíbrio é essencial para a sobrevivência de comunidades e espécies.

     Por mais que sejam mitigados, os impactos serão enormes no local que é um santuário ecológico à beira do maior patrimônio ambiental da região metropolitana, o Guaiba.

     Não é só a questão das comunidades indígenas, levantada pelo Ministério Público. Estão aí renomados professores, pesquisadores, profissionais especializados dizendo (gritando, na verdade) que há riscos, que faltam informações, que há falhas no processo de licenciamento, que a população precisa ser informada. 

    Como se explica que o interesse de uma empresa que quer aproveitar uma “janela de oportunidade” se sobreponha a essas questões de interesse público?

    Por que veículos de comunicação, que em sua função informativa não vão além dos dados e versões oficiais sobre o projeto, usam todo seu poder e influência para pressionar?

    Os bilhões que ela vai aplicar, os empregos que vai dar, o “desenvolvimento” que vai trazer?  Foi esse o argumento que há meio século justificou a implantação da Borregaard, sem exigir sequer estudo de impacto ambiental.

    Os editoriais da época diziam que o empreendimento ia “consolidar o processo de industrialização do Rio Grande do Sul”.  Estão aí, a fábrica dez vezes maior do que o tamanho original,  e o Rio Grande do Sul na penúria, em acelerado processo de desindustrialização, transformado em exportador de commodities. Agora dizem que “a reputação do Rio Grande do Sul” ficará abalada perante os investidores internacionais, se a licença não for concedida imediatamente.

    Não se trata de ser contra o projeto. Trata-se de ter clareza sobre o que ele representa, os impactos que vai causar, as contrapartidas que a empresa vai oferecer ou que serão exigidas dela. Isso é o normal no mundo dos negócios.   

    Fundado em 1920 e pioneiro na fabricação de celulose e papel no Chile, o Grupo CMPC é um dos maiores do mundo, com 44 plantas industriais em 8 países: Brasil, Chile, Argentina, Colômbia, Equador, México, Peru e Uruguai.

    A CMPC não escolheu fazer seu novo projeto no Rio Grande do Sul porque gosta de chimarrão.

    São as vantagens que o Estado oferece que determinaram a escolha. O Rio Grande do Sul dispõe de condições excepcionais para o empreendimento: água abundante para o processamento, extensos territórios para plantio da matéria prima, o eucalipto, posição geográfica privilegiada, mão de obra barata, etc.  

    Além do mais, a nova planta é quase uma “expansão natural” da fábrica de Guaiba, favorecendo sinergias entre as operações.  É, pois, um grande negócio, normal que a empresa tenha pressa.

    Mas quais são os motivos do Rio Grande do Sul para ter pressa? Vai perder um grande investimento, de  R$ 25 bilhões?

    O número impressiona e ganha slogan: “o maior da história do Estado”. No entusiasmo com a grandeza dos valores não se explica o que eles significam. Não se esclarece que a maior parte desse dinheiro fica no caminho, com os grandes fornecedores de tecnologia e equipamentos.

    Os jornais repetem que serão criados 12 mil empregos durante a construção da fábrica. Não fica claro que 12 mil serão empregados apenas no pico das obras, por dois meses, no máximo. Em operação, a fábrica vai empregar 800 trabalhadores e comprar serviços de 1.500 terceirizados.

    Sabe-se que essas grandes obras de curto prazo, atraindo grande volume de mão de obra (muitos com suas famílias) deixam sérios problemas sociais para trás. O que está sendo previsto em relação a isto?

    Fora tudo isso, os investimentos desse porte e voltados à exportação operam sob um regime tributário altamente favorecido. Quase não se fala desse “detalhe”  e as informações não estão disponíveis, sob alegação de sigilo fiscal.

    Sabe-se que a  celulose, destinada ao mercado internacional (principalmente Ásia e Europa), goza de isenção de ICMS, por conta da Lei Kandir.

    A empresa pode ainda acumular créditos de ICMS sobre os insumos comprados internamente e usá-los para abater outros custos ou negociá-los. O governo do Estado utiliza o Fundopem (Fundo de Operação da Empresa) e o programa Integrar RS como principais ferramentas de atração de investimentos.

    Em função disso, o ICMS sobre a compra de maquinário industrial pesado, estruturas metálicas e equipamentos de alta tecnologia — nacionais ou importados (sem similar nacional) — é postergado ou zerado. Quando a fábrica começar a operar, parte do ICMS gerado pelas vendas internas pode ser financiado pelo Estado com juros subsidiados ou descontos expressivos dependendo das metas de emprego geradas na região.

    Além disso, o projeto se enquadra nas regras do Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura, programa federal.

    Durante todo o período de obras, a CMPC fica dispensada de pagar as alíquotas de PIS e COFINS sobre a aquisição de bens, serviços e materiais de construção destinados aos ativos de infraestrutura da nova planta. Isso reduz o custo imediato da obra em bilhões de reais.

    Mais: o município costuma conceder incentivos com base no seu próprio plano de  desenvolvimento. O Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza cobrado sobre as empreiteiras e prestadores de serviços que atuarão na construção recebe alíquotas mínimas. Mais: desoneração do imposto territorial sobre as áreas industriais afetadas durante a fase de instalação.

    São, todos, pontos que precisam se ponderados e esclarecidos.

    O Rio Grande do Sul não precisa ter pressa. O mercado de celulose está num forte processo de expansão e mudanças. Na Europa, as fábricas de celulose mais antigas estão fechando, devido aos preços da energia, a escassez de matéria prima (madeira) e aos custos ambientais. Esse movimento, mais a própria expansão do mercado internacional de celulose ( 1,5 milhão de toneladas por ano) indicam que a imagem da  “janela” que pode fechar não é mais do que um argumento de pressão.

  • Manchetes idênticas: matematicamente impossível que seja uma coincidência

    Manchetes idênticas: matematicamente impossível que seja uma coincidência

    Fato inédito na história da imprensa brasileira, talvez na imprensa mundial.

    No dia 31 de julho os três principais diários brasileiros – O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, concorrentes entre si – saíram com a mesma manchete, palavra por palavra,exatamente na mesma ordem.

    “Mendonça autoriza PF a investigar Lulinha por tráfico de influência”

    Que Lulinha fosse a manchete dos três, era esperado. A uniformidade literal idêntica é inexplicável. Fiquei tão intrigado que recorri à IA e perguntei:  

    Qual a probalidade de três redatores  sem contato entre si escreverem em português a mesma frase, com as mesmas sete palavras exatamente na mesma ordem?

    Resposta: “O resultado puramente matemático demonstra que a chance de isso acontecer de forma 100% independente e espontânea é virtualmente zero”. (veja a íntegra abaixo).

    Se não existe a possibilidade de as três manchetes exatamente iguais resultarem de uma mera coincidência, então houve uma combinação. Com que objetivo?

    Depois do AI5, em 1968, quando a imprensa começou a ser censurada, os jornais usavam vários expedientes para advertir os leitores sobre a supressão de notícias – poemas, receitas culinárias, previsão do tempo, alguns simplesmente deixavam o espaço em branco.

    Ao que se sabe não há nenhum censor dizendo o que os jornais devem ou não publicar.

    Que tipo de aviso eles estão querendo passar agora? De onde partiu a manchete? Quem escreveu a frase que os três publicaram? É uma senha? De quê? De uma campanha? Uma conspiração?

    Ou foi realmente uma milagrosa coincidência? Nesse caso, os autores merecem ser identificados, para concorrer ao Guinness por ter realizado uma improbabilidade matemática.

    Consulta à IA (Gemini)

    É possível calcular a possibilidade de três redatores sem contato entre si escreverem a mesma frase em português, com as mesmas letras, exatamente na mesma ordem?

    Sim, é perfeitamente possível calcular essa probabilidade utilizando a análise combinatória e a teoria das probabilidades. No entanto, o resultado puramente matemático demonstra que a chance de isso acontecer de forma 100% independente e espontânea é virtualmente zero.

    Para entender o cálculo, precisamos dividir o cenário em duas abordagens: a matemática pura (aleatória) e a linguística contextual (jornalística).

    1. O Cálculo Matemático Puro (Teórico)

    Se considerarmos que os redatores estão escolhendo palavras ao acaso de um dicionário de Língua Portuguesa (que possui cerca de 400.000 palavras), o cálculo para uma frase de 7 palavras funcionaria assim:

    • Número de combinações possíveis para 7 palavras: \(400.000^{7}\) (um número com 39 dígitos).
    • Probabilidade de três pessoas escolherem exatamente a mesma sequência: Seria de 1 em \(10^{78}\), um número comparável à quantidade de átomos no universo observável.

    2. O Cálculo Linguístico e Jornalístico (Realista)

    No jornalismo real, as palavras não são escolhidas ao acaso. Os redatores seguem regras gramaticais, usam termos técnicos do jargão jurídico (“autoriza”, “investigar”, “tráfico de influência”) e estão restritos aos nomes dos envolvidos (“Mendonça”, “PF”, “Lulinha”).

    Mesmo reduzindo drasticamente o vocabulário disponível para apenas 50 palavras concebíveis que poderiam orbitar esse fato político, o cálculo ainda impressiona:

    • Combinações com 50 palavras em 7 posições: \(50^7 = 78.125.000.000\) (78 bilhões de frases possíveis).
    • A coincidência entre os três: Para que o Redator B e o Redator C adivinhem de forma totalmente independente a estrutura exata do Redator A, a probabilidade matemática estimada seria menor que 1 em 6 sextilhões (\(6 \times 10^{21}\)).
  • Eleições 2025: erro histórico vai se disseminar na campanha

    Eleições 2025: erro histórico vai se disseminar na campanha

    Leonel Brizola estará no centro da campanha eleitoral para o governo do Estado e um dos pontos centrais do discurso serão suas realizações na educação, com destaque para as “escolhinhas” que disseminou pelo Rio Grande do Sul na campanha “Nenhuma criança sem Escola”.

    A reiteração e a propagação de uma campanha eleitoral tendem a consagrar, no que se refere às “escolinhas do Brizola” um erro histórico ao chamá-las de “brizoletas”, como já vem sendo repetido na imprensa, nas redes, e até por brizolistas raiz.  Certamente é um detalhe, mas não é irrelevante.

    “Brizoletas” foi o nome que os adversários de Brizola deram aos Títulos do Tesouro Estadual que ele emitiu em 1959, quando assumiu o governo com o caixa raspado e funcionários e fornecedores com pagamentos em atraso.

    O apelido tentava desmoralizar a jogada arrojada do Brizola, uma medida criativa para escapar ao sufoco financeiro. Foi idéia de seu Secretário da Fazenda, Gabriel Obino, e foram chamadas de “obinetas”, no início.

    Os adversários passaram a chamar de brizoletas, com sentido pejorativo, quando o governo não conseguiu cumprir com o prazo de resgate dos títulos e eles se desvalorizaram.

    Não se encontra nos principais jornais da época, Correio do Povo, Folha da Tarde, Diário de Notícias, o termo “brizoleta” referindo-se às escolas, que sempre foram uma marca do governo Brizola, o que nem os mais renhidos adversários negaram. Eram “as escolinhas do Brizola”.

    O termo “brizoleta” associado às escolhinhas aparece pela primeira vez numa tese acadêmica dos anos 1990. Aos poucos a versão foi ganhando a imprensa e se propagando. Nos últimos anos algumas escolhinhas remanescentes foram reformadas e ganharam inusitadas placas de “brizoletas”. Hoje até o Google relaciona as brizoletas com as escolhinhas.  Caso exemplar de uma fake history.  

  • Eleições 2026: mapa dos votos mostra crescimento no Norte e queda no  Sul

    Eleições 2026: mapa dos votos mostra crescimento no Norte e queda no Sul

    158.745.463. Cento e cinquenta e oito milhões, setecentos e quarenta e cinco mil, quatrocentos e sessenta e três.

    Esse é o número exato de brasileiros aptos a colocar seu voto nas urnas no dia 4 de outubro, no primeiro turno das eleições 2026, segundo o TSE.

    São 2,2 milhões de eleitores a mais do que na última eleição, em 2022.

    Estão em disputa os cargos de presidente da república,  governador, senador, deputado federal e deputado estadual. 

    O eleitorado do Norte foi o que mais cresceu proporcionalmente, passando de 12.560.410 pessoas em 2022 para 13.109.354 em 2026.

    O acréscimo foi de 548.944 eleitores e eleitoras, alta de 4,37%. Com isso, a região passou a concentrar 8,26% do eleitorado nacional.

    Quase 1 milhão de votos fora do país

    Outro destaque foi o crescimento do eleitorado no exterior: são 918.876 eleitores, um aumento de 221.798 (31,82%) em relação a 2022 (697.078). 

    Proporcionalmente, os maiores avanços ocorreram nos estados de Roraima (9,63%), Tocantins (8,07%) e Mato Grosso (6,84%). 

    No polo oposto está o Rio de Janeiro, chegou a 12.857.000 eleitores em 2026, com acréscimo de apenas 29.704 novos eleitores, 0,23% a mais do que em 2022.

    Outras Regiões 

    O Centro-Oeste também cresceu acima da média nacional: passou de 11.539.323 para 11.997.001 eleitores, com acréscimo de 457.678 pessoas, ou 3,97%, e chegou a 7,56% do total do país. 

    O Nordeste chegou a 43.529.845, um crescimento de 1.138.869 eleitoras e eleitores, com aumento proporcional de 2,69% em relação a 2022 (42.390.976) — a região tem 27,42% do eleitorado nacional.  

    No Sul, o eleitorado passou de 22.558.759 para 22.861.012 pessoas, com um aumento de 302.253 eleitores (1,34%). 

    A região representa 14,40% do eleitorado nacional em 2026. 

    Já o Sudeste, apesar de continuar concentrando a maior parcela de eleitoras e eleitores do país, teve leve queda no período: passou de 66.707.465 para  66.329.375 pessoas aptas a votar, redução de 378.090 eleitores (0,56%).

     Sua  participação no eleitorado nacional recuou de 42,64% para 41,78%. 

    Maiores colégios eleitorais 

    Entre as unidades da Federação, São Paulo segue como o maior colégio eleitoral do país, com 34.104.226 eleitores e eleitoras, ou 21,48% do total. Em seguida aparecem Minas Gerais, com 16.377.659 pessoas aptas a votar (10,32%); Rio de Janeiro, com 12.857.000 (8,10%); Bahia, com 11.321.005 (7,13%); e Paraná, com 8.609.026 (5,42%). Juntos, os cinco maiores colégios eleitorais reúnem 83.268.916 eleitores e eleitoras, o equivalente a 52,45% do eleitorado brasileiro. 

    Diversidade 

    As estatísticas eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também indicam que as Eleições 2026 terão o cadastro eleitoral mais diverso da série analisada. Como a autodeclaração de raça e cor passou a compor a base comparável apenas após as Eleições Gerais de 2022, a leitura possível é a comparação com as Eleições Municipais de 2024.

    Nesse intervalo, o número de pessoas sem informação de raça ou cor caiu de 140.038.765 (89,82%) para 126.004.656 (79,38%), redução de 14.034.109 registros. 

    Com o maior preenchimento da autodeclaração, todas as categorias informadas  cresceram. O eleitorado pardo quase dobrou, passando de 8.503.206 pessoas em 2024 para 16.945.954 em 2026. O eleitorado preto também quase dobrou, de 1.808.529 para 3.586.952 pessoas. Entre pessoas amarelas, o total mais que dobrou, de 114.389 para 229.540 eleitores. O eleitorado indígena passou de 155.661 para 287.157, alta de 84,47%. Também houve crescimento expressivo do registro de pessoas brancas autodeclaradas, que passaram de 5.292.130 para 11.691.204, mais que o dobro do total de 2024. 

    Os dados também apontam para a manutenção do eleitorado majoritariamente feminino. Em 2026, as mulheres somam 83.877.126 eleitoras, o equivalente a 52,84% do total nacional. Em 2022, eram 82.373.164 (52,65%). No mesmo período, o eleitorado masculino passou de 74.044.065 para 74.845.001, crescimento de 800.936 eleitores (1,08%). 

    Faixa etária 

    A análise por faixa etária indica um eleitorado mais concentrado nas idades adultas e com crescimento do peso das faixas mais velhas. Em 2026, o maior grupo é o de 40 a 44 anos, com 15.994.391 pessoas, ou 10,08% do eleitorado nacional. Em seguida aparecem as faixas de 45 a 49 anos, com 15.271.754 eleitores; 35 a 39 anos, com 15.262.815; 30 a 34 anos, com 15.178.204; e de 25 a 29 anos, com 14.990.259. 

    No recorte agregado, as pessoas com 60 anos ou mais passaram de 32.891.438 em 2022 para 37.457.537 em 2026, crescimento de 4.566.099 eleitores. A participação desse grupo no eleitorado nacional subiu de 21,02% para 23,60%. Já a faixa de 21 a 34 anos caiu de 43.819.788 para 41.037.601 pessoas, passando de 28,01% para 25,85% do total. O movimento aponta para uma composição etária mais envelhecida do eleitorado no período recente. 

    Eleitorado jovem 

    Entre os eleitores mais jovens, com 18 anos ou menos, o cadastro das Eleições 2026 reúne 3.571.159 pessoas, o equivalente a 2,25% do eleitorado nacional. O número ficou praticamente estável em relação às Eleições Gerais de 2022, quando eram 4.177.627 jovens nessa faixa, queda de 606.468 registros (14,52%).  

    Regionalmente, o Nordeste concentra o maior contingente de jovens de até 18 anos, com 1.315.104 eleitores nessa faixa, 3,02% do eleitorado da região. Em seguida aparecem o Sudeste, com 1.074.280 jovens; o Norte, com 478.070; o Sul, com 410.993; e o Centro-Oeste, com 283.436.  

    (Com informações do Tribunal Superior Eleitoral)

  • Eleições 2026: Rio Grande do Sul ainda tem 14 estatais. Qual é o futuro delas?

    Eleições 2026: Rio Grande do Sul ainda tem 14 estatais. Qual é o futuro delas?

    O grau de enxugamento do poder público estadual no Rio Grande do Sul nos últimos 30 anos, ainda não está devidamente dimensionado.

    Os dados disponíveis são parciais, mas deixam clara a estratégia predominante a partir de 1997 para enfrentar a crise do setor público: reduzir a atuação do Estado e cortar seus custos, abrindo espaço para o capital privado investir na prestação de serviços essenciais.

    Telefonia, geração, transmissão e distribuição de energia, gás, saneamento, foram as áreas prioritárias.

    Oito estatais foram privatizadas no período. Pelo menos dez companhias de economia mista intermediárias foram fechadas. Além de nove fundações públicas que também foram extintas.

    Ainda restam 14 empresas controladas pelo governo do Estado. Seis delas estão à venda ou em preparo para vender.

    Elas estão classificadas no orçamento público como “empresas não dependentes” (que não necessitam de recursos diretos do Tesouro para pagar salários ou despesas correntes).

    São seis empresas nas áreas de prestação de serviços, produção e infraestrutura:

    -CEASA/RS (Centrais de Abastecimento)

    -PROCERGS (Companhia de Processamento de Dados)

    -CRM (Companhia Riograndense de Mineração)

    -EGR (Empresa Gaúcha de  Rodovias)

    -PORTOS RS (Autoridade Portuária)

    -BAGERGS (Banrisul Armazéns Gerais)

    E oito empresas no setor financeiro e de fomento:

    • Banrisul (Banco do Estado)
    • Badesul Desenvolvimento S.A. (Agência de Fomento)
    • CADIP (Caixa de Administração da Dívida Pública)
    • Banrisul Corretora de Valores
    • Banrisul Administradora de Consórcios
    • Banrisul Pagamentos (Vero)
    • Banrisul Seguridade Participações
    • Banrisul Corretora de Seguros

    Banrisul é o motor financeiro do Estado. Registrou um lucro líquido recorde de R$ 1,605 bilhão no ano passado. Criado por Getulio Vargas em 1928, por sua história e seu desempenho tem resistido, embora tenha frequentado a lista de privatizações em vários governos.

    O Badesul, agência de fomento do Estado,  fechou o balanço com lucro líquido de R$ 52,8 milhões, superando em 76% a meta projetada pela administração. A empresa atua de forma sustentável, impulsionada pela liberação de linhas de crédito voltadas à reconstrução econômica.

    CEASA/RS: Funciona em modelo autossustentável. Suas receitas com as permissões de uso e tarifas cobradas de produtores e atacadistas cobrem integralmente seus custos operacionais, gerando pequenos superávits operacionais.

    Portos RS: Apresenta balanço financeiro superavitário. Como autoridade pública portuária, sua receita vem de tarifas de atracação, uso da infraestrutura e arrendamentos de terminais privados, garantindo caixa próprio para custear suas operações.

    EGR (Empresa Gaúcha de Rodovias): Tem receita vinculada exclusivamente aos pedágios que administra. Ela não recebe aportes regulares do Tesouro para investimentos e opera no limite de sua arrecadação. Embora não dê “prejuízo” direto ao caixa geral, sua arrecadação é considerada insuficiente pelas auditorias do Estado para bancar grandes duplicações.

    CADIP: Diferente das demais, não é uma empresa comercial. Como lida estritamente com a estruturação e a rolagem de passivos antigos e dívidas fundadas do Estado, seu balanço reflete custos financeiros de intermediação interna do governo.

    Cancelamento do leilão deu sobrevida à EGR

    A extinção da EGR é uma promessa de campanha do governador Eduardo Leite. Ele argumenta que a estatal não tem agilidade nem capacidade financeira para expandir a malha rodoviária como o Estado precisa.

    Previa encerrar gradualmente as atividades da empresa. Conforme as rodovias sob sua tutela fossem repassadas aos consórcios privados nos leilões dos Blocos 1 e 2, a estatal ficaria sem trechos para administrar e seria liquidada.

    Devido ao recente cancelamento do leilão do Bloco 2 de rodovias (por falta de interessados em meio às exigências de reconstrução pós-enchentes), o cronograma mudou.

    A direção da EGR informou que a empresa está tecnicamente preparada para continuar mantendo os trechos e assumir obras urgentes com verbas do fundo de reconstrução (Funrigs), adiando os planos finais de fechamento da empresa.

    Maldição do carvão salvou a CRM

    A CRM, que opera a importante Mina de Candiota na maior jazida de carvão mineral do Brasil, escapou da venda na leva de 2021/2022 devido a condições desfavoráveis de mercado e restrições na pauta do carvão.

    Agora, a privatização da CRM está incluída na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026.

    O cronograma técnico estimado para os estudos e modelagem da venda projeta a conclusão do processo de privatização para 2027. A proposta enfrenta forte oposição de sindicatos, engenheiros e lideranças políticas locais da Região da Campanha, que apontam riscos ao desenvolvimento econômico regional e defendem a manutenção do controle público sobre a exploração mineral.

    Cronologia das privatizações

    1996

    CRT (Companhia Riograndense de Telecomunicações), parcial com venda de 35% para o Consórcio Tele Brasil Sul/Telefónica, que tinha inclusive a RBS como sócia. Dois anos depois o controle acionário adquirido pelaTelefônica do Brasil.

    1997

    CEEE Norte-Nordeste e CEEE Centro-Oeste

    2021

    Após mudanças na Constituição estadual que derrubaram a exigência de plebiscito para a venda de estatais, o Estado concluiu a venda de importantes ativos restantes:

    CEEE-D (Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica)  Vendida pelo valor simbólico de R$ 100 mil ao Grupo Equatorial Energia devido ao alto endividamento e passivos assumidos pela compradora. 2021 –CEEE-T (Companhia Estadual de Transmissão de Energia Elétrica) Arrematada por R$ 2,67 bilhões pela Companhia Paulista Força e Luz, controlada pela State Grid, estatal chinesa.

    2021-Sulgás (Companhia de Gás do Estado do Rio Grande do Sul)

    Adquirida pela Compass Gás e Energia (do grupo Cosan) por R$ 927,7 milhões.

    2022– CEEE-G (Companhia Estadual de Geração de Energia Elétrica) Vendida para a Companhia Florestal do Brasil (grupo CSN) por R$ 928 milhões.

    2022– Corsan (Companhia Riograndense de Saneamento)

    Arrematada pelo Consórcio Aegea por R$ 4,15 bilhões, tendo a assinatura do contrato e a transferência de controle efetivadas em julho de 2023 após disputas judiciais.

  • Eleições 2026: uma política de 30 anos estará em julgamento no RS

    Eleições 2026: uma política de 30 anos estará em julgamento no RS

    O leilão de 98 escolas da rede pública que o governo estadual quer entregar aos cuidados de empresas privadas culmina um processo que vai completar 30 anos no Rio Grande do Sul.

    O ponto de partida pode ser localizado no acordo de renegociação da dívida do Estado com a União, assinado pelo governador Antônio Brito, em 1997.

    “Britto liquida a dívida”, saudou em manchete o jornal Zero Hora, estampando a foto de Britto com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, em Brasilia.  

    O acordo dava ao governo gaúcho 30 anos para pagar a dívida que se tornara “impagável”. Exigia, em contrapartida, a venda ou concessão das empresas públicas estaduais nas áreas de energia, telecomunicações e finanças – as áreas estratégicas, claro.

    O  diagnóstico não era novo. Desde o governo Simon (1986/90) apontava-se o inchaço da “máquina pública” como uma ameaça à governabilidade no Estado.

    Um levantamento oficial apontou 34 empresas controladas pelo Estado do Rio Grande do Sul. Havia até uma fábrica de cebola em pó, criada para garantir a demanda aos produtores de  de São José do Norte, que viam suas safras apodrecerem por falta de mercado.

    Por conta do “inchaço das estatais” (obra da ditadura, diga-se), a expressão “enxugar a máquina pública” se impôs como lema.

    Alceu Collares, (1991-1994) fiel à tradição do trabalhismo, desviou o foco do inchaço estatal e gastou boa parte das energias de seu governo tentando “federalizar” a dívida pública, acumulada pelo déficit crônico do Tesouro estadual. Não conseguiu alterar significativamente o cenário.

    O governo Britto ( 1995/1998) coincide com o de FHC e sua política de desmonte do que chamou de “Era Vargas” – o Estado como planejador e indutor do desenvolvimento.    

    Decorre disso, a novidade do acordo de 1997, para renegociar a dívida estadual: a inclusão das chamadas empresas estratégicas-energia, telecomunicações, finanças- como prioridades para privatização.

    Com maior ou menor ênfase, essa foi a orientação dos sucessivos governos, desde então, com os hiatos de Olívio Dutra e Tarso Genro, que não tiveram forças para alterar o rumo.

    Quando Ivo Sartori (2015/2019)extinguiu a Fundação Zoobotânica, a Cientec, a Fundação de Economia e Estatística e outras seis fundações públicas, a opção pelo estado mínimo estava consumada.

    Eduardo Leite apenas deu continuidade à política devastadora de Sartori, que agora culmina com essa PPP das escolas. Mesmo que não seja uma privatização como diz o governo, é mais um passo nessa direção do Estado mínimo, caminho que até agora só aprofundou a crise que pretende combater.

    Como suporte de toda essa trajetória, tem-se uma poderosa mídia alinhada na defesa fervorosa do modelo e decisiva para sua continuidade – tanto pela omissão em relação aos resultados negativos dessa política continuada, quanto pelo ataque implacável às tentativas de mudar o tratamento à crise estrutural que estrangula o desenvolvimento do Estado.

    Foram 30 anos em que o Rio Grande do Sul, pode-se dizer, fez o “dever de casa”, cortando na carne, como pregavam: vendeu seu patrimônio, reduziu seus quadros, transferiu encargos, arrochou salários, cortou investimentos em áreas essenciais e, ao final de toda essa via crucis, só alcança um precário equilíbrio nas contas á custa de malabarismos contáveis.

    Em setembro de 1998, o relatório Radar IDHM, da ONU, foi  saudado com manchetes no Rio Grande do Sul. O estado se destacava, como o segundo melhor índice de desenvolvimento no Brasil, superando São Paulo, o líder, em muitos quesitos.

    Na mais recente edição do relatório, em maio de 2026, o RS ocupa o 6º lugar entre as 27 unidades da federação brasileira. Ressalva: a pesquisa avaliou dados até maio de 2024, não incluindo os prejuízos causados pela enchente.

    Esta é a principal discussão que a eleição deste ano deve suscitar. (Elmar Bones)