Autor: Elmar Bones

  • Ele estava lá: entrevista de Flávio Tavares sobre o golpe de 1964

    Ele estava lá: entrevista de Flávio Tavares sobre o golpe de 1964

    Três jornalistas estavam na sessão de emergência do Congresso Nacional, na madrugada de primeiro de abril de 1964.

    Um deles era Flávio Tavares, um jovem de 29 anos, que assinava a coluna política do jornal Última Hora.

    Ali, em três minutos, atropelando o bom senso e a legalidade, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, declarou  vaga a Presidência da República e abriu o caminho político para o golpe que, militarmente, já tinha sido deflagrado pelo general Mourão Filho, em Minas.

    “Assisti a tudo, mas só agora, 50 anos depois, fui descobrir os elos da conspiração e da articulação do golpe”, diz Tavares no livro 1964, O Golpe, que escreveu para contar essa tenebrosa história.

    (Esta entrevista foi publicada na edição especial da Revista JÁ, alusiva aos cinquenta anos do golpe militar que derrubou  o presidente João Goulart e implantou uma ditadura que durou 21 anos)

    JÁ – Como foi aquele dia em Brasília? 

    Flávio Tavares – Estávamos isolados em Brasília, sem telefone, sem telex… O aeroporto estava fechado desde as nove horas da manhã, não sabíamos de nada. A única fonte era a embaixada americana, que tinha comunicação com o Rio. Então, sabíamos alguma coisa indiretamente.

    Da mobilização do Mourão, sabiam?

    Da mobilização do Mourão se soube vagamente, pois na verdade ela começou dia 30, com um manifesto lançado pelo governador de Minas, Magalhães Pinto. Unindo o PSD juscelinista com a UDN, ele queria criar um estado de beligerância, para ser reconhecido pelos Estados Unidos. Tanto que antes de divulgá-lo, enviou o texto por telex para  a embaixada americana no Rio. A Casa Branca e o presidente Lyndon Johnson conheceram o manifesto antes dos mineiros.

    Um manifesto ambíguo, no estilo mineiro…

    Era mineiro a tal ponto que o Jango ainda no Rio recebeu telefonema de um deputado do PTB de Minas se congratulando: “O Magalhães lançou um manifesto pelas reformas”. É que  no final do texto, ele fala nas reformas. Esse manifesto deixou o  Mourão furioso, porque ele queria que fosse incisivo, contra o Jango. Mas o Magalhães, como bom mineiro, deixava espaço para um recuo, caso o golpe não desse certo.

    E quando o Jango chegou a Brasília?

    Quando o Jango chega em Brasília no fim da tarde do dia primeiro de abril,  já em fuga, fui de fato o  único jornalista a estar com ele. Estávamos no Planalto eu e Fernando Pedreira, do Estadão, mas o Estadão era radical contra o Jango, chamava-o de “presidente totalitário”…  o Pedreira logo saiu. Tinha também uma repórter do Correio Braziliense, era comunista, amiga pessoal do Jango… Ficamos eu e essa moça, Maria da Graça Dutra, entramos no gabinete, o Jango estava arrumando uns papéis e falou: “Vou instalar o governo no Rio Grande do Sul. Nomeei o general Ladário para o III Exército…”

    Mas o general Ladário Telles ainda nem tinha chegado a Porto Alegre…

    Sim, ele chegou já na madrugada do dia primeiro de abril. Era general-de-divisão, foi comissionado para poder assumir o III Exército e acreditou que o Jango queria resistir.

    O Jango falou em resistir?

    Na verdade o Jango já saiu do Rio em fuga, ele queria negociar. O Jango não sabia resistir, ele era um grande negociador. Havia um serviço de rádio e por ele o Jango fala com Porto Alegre, com o Brizola. Havia um serviço de rádio do III Exército, que funcionava muito bem e era operado pelo major Álcio. Só que o major Álcio gravava tudo e depois passava para o pai dele, o general Costa e Silva [risos]. Havia também no Planalto um telefone no gabinete presidencial, era uma espécie de “telefone vermelho”, levantava e dava direto com a central telefônica no Rio. Por esse telefone Jango falou com o general Moraes Âncora, comandante do I Exército. Era um homem corretíssimo, legalista. Era asmático, estava com uma crise de asma, falava com dificuldade.  Ainda não havia tomado providência nenhuma, aguardava ordens… O ministro do Exército estava no Hospital, numa posição dúbia… O ministro da Aeronáutica estava em cima do muro e o ministro da Marinha, que mandava pouco, havia recém-assumido…

    Ele decide então instalar o governo em Porto Alegre?

    Sim, mas fundamentalmente para negociar enquanto o Congresso votaria o impeachment, o que demoraria uns oito dias…

    Por que ele hesitou em autorizar a resistência?

    Provavelmente porque, num conflito, como aconteceu em 1961, ele seria o menos importante. Os beligerantes é que seriam importantes, o Ladário Telles ou o Brizola… Na verdade, nada deu certo naquele dia. O Jango havia requisitado um Coronado da Varig, um jato intercontinental.  Saiu da Granja do Torto depois de gravar um “Manifesto à Nação” que foi redigido pelo Waldir Pires, pelo Almino Afonso e pelo Tancredo Neves. Só que usaram um gravador caseiro, a gravação ficou péssima, foi impossível reproduzir na rádio. Tínhamos tomado a Rádio Nacional, um grupo de jornalistas liderados pelo deputado José Aparecido, dissidente da UDN. Não adiantou nada.

    Aí o Jango vai para a Base Aérea…

    Sai por volta da oito, para a tomar o avião.  Só que o Coronado da Varig teve um “mal súbito”.  O velho amigo do Jango, o nosso Rubem Berta, o presidente da Varig, provavelmente se deu conta de que a coisa já tinha virado, ele ia ficar muito mal… Nunca se comprovou, mas foi uma ordem. O Jango embarca e o avião tem uma pane…

    Dizem que foi sabotagem…

    Não houve sabotagem. Houve um “mal súbito”, como eu chamo.  Então decidem passar para um Avro, porque o Viscount presidencial estava no conserto há 15 dias… e aí não tinha tripulação. Até que o coronel Ernani Fittipaldi, da Casa Militar, assume o comando e decolam. O Avro era um bimotor, lento. Saem às onze e meia da noite de Brasília. O Coronado faria a rota Brasília/Porto Alegre em duas horas. O Avro demorou quatro horas ou mais. Sem telefone, sem informação, pensávamos que o Jango já estava chegando a Porto Alegre e ele estava ainda saindo de Brasília.

    Perdeu um tempo precioso...

    A capacidade de resistência estava minada. Em Brasília, o Mazzili já estava tomando posse como presidente. O Congresso tinha feito uma artimanha: numa sessão de três minutos, sem debate, nem votação, o Auro Moura Andrade declarou vaga a Presidência da República. O Darcy Ribeiro, como chefe da Casa Civil, tinha feito um ofício ao presidente do Congresso, dizendo que em vista dos acontecimentos o presidente da República o havia incumbido de comunicar que deixara Brasília para instalar o governo em Porto Alegre junto com o seu Ministério, “para proteger-se da tentativa de esbulho”. O Auro nem considerou: “A Presidência da República está acéfala… Declaro vaga a Presidência, com base no do artigo 79 da Constituição… está encerrada a sessão”.  O Zaire Alves Nunes, deputado do Rio Grande do Sul, avançou para bater no Auro: “Seu filho da puta…” Não havia o que fazer… Na saída passo no gabinete do Tancredo Neves, ele diz: “Está tudo terminado”. Como bom mineiro, o Tancredo não era de resistir, pelo contrário…

    No palácio do Planalto, como foi?

    Naquela caminhada da Câmara dos Deputados até o Planalto, às três da madrugada, me veio à cabeça um consolo… Puxa, isso até é bom, porque o Brizola não vai ter mais incompatibilidade, vai poder ser candidato à Presidência…” Ingenuidade nossa, pois o golpe era, mais do que tudo, para impedir a eleição e, mais do que isso, para impedir o Brizola. Engraçado é que, depois eu conto isso para o Brizola, em Montevidéo, e ele diz: “Tu sabes que tive a mesma ideia naqueles minutos iniciais… fiquei tão decepcionado com o Jango que pensei: ‘Pelo menos, agora posso ser candidato”.  Pura ingenuidade…

    E a posse do Mazzili, também foi a jato, né?

    Fomos para o Planalto, onde ele ia tomar posse.  Na hora alguém disse: “Falta um general”. Aí  saíram para buscar um general… Um grupo de deputados entra no gabinete do Darcy Ribeiro e se deparou com o general Nicolau Fico, que era de Bagé, mas já tinha virado. Darcy estava furioso, expulsa todo o mundo, xingando. Meia hora depois, conseguem o general André Fernandes, chefe do Gabinete do ministro da Guerra, um general apagado, que em seguida vai ser chefe da Casa Civil do Mazzilli, que então toma posse.

    A que hora foi dada a posse?

    Pouco antes das quatro da madrugada… dez pras quatro mais ou menos.

    O Jango chegou a Porto Alegre às 3h15 minutos…

    A essa altura o Auro já havia declarado vaga a Presidência… E menos de uma hora depois foi dada a posse. Quer dizer, quando ele chegou ao Rio Grande, estava decidido…

    O Auro tinha raiva do Jango, não é?

    Isso foi decisivo. O Auro tinha ódio do Jango e com razão. O Jango tinha feito uma grande sacanagem com ele, coisa da honra pessoal. O Jango achava que tinha feito uma grande jogada política, mas…

    Foi sacanagem mesmo…

    Era típico das manobras do Jango. Ele convida o Auro para ser primeiro-ministro.  O Auro aceita, tem o voto de confiança no Congresso e passa a escolher o Ministério, ministros de confiança dele. O Jango queria influir, mas o Auro não o consultou. O Auro, que era inteligente, sagaz, com aquela história de ser primeiro-ministro… Jango pede a ele que assine uma carta de renúncia, alegando que podia surgir algum problema insolúvel entre os dois. Na ânsia de ser primeiro-ministro, ele aceitou. Uma carta de três linhas: “Por esse meio renuncio ao cargo de primeiro-ministro tal e tal…” O Jango guarda na gaveta. Dias depois, o Auro está no Congresso, já tinha convidado alguns ministros, tinha começado a escolher… O Auro está no gabinete dele no Senado… Há um alto-falante que transmite as sessões… de repente o líder trabalhista, deputado Almino Afonso, pede a palavra e anuncia que o primeiro-ministro acaba de renunciar. Auro fica sabendo que renunciou pelo alto falante.

    Uma manobra do Jango?

    Ele telefonou para o Almino Afonso. Disse, textualmente: “Me diz… pelo Regimento Interno tu, como líder, podes pedir a palavra a qualquer momento, para uma comunicação?” O Almino diz: “Posso”. “Podes pedir agora?” “Sim…” “Então há uma comunicação urgentíssima… Comunica que o Auro renunciou”. O Almino se espanta: “Como?”. “Pode anunciar, tenho uma carta dele aqui…” Almino vai para a tribuna e anuncia. Foi o Almino quem me contou isso, tempos depois… Então, o Auro tinha um ódio visceral do Jango… Em 1961, quando os militares tentaram impedir Jango de assumir, o Auro foi a favor da posse.  Então, do ponto de vista da honra pessoal, o Auro tinha razão.

    O Jango não era dado a deslealdades, não é?

    Não, mas essas coisas eram bem do estilo da época. Era uma coisa getuliana, só que o Getúlio Vargas fazia as coisas de uma forma mais astuta.  O Getúlio faria com que o próprio Auro se visse na contingência da renunciar… O Getúlio era o grande espelho de Jango, só que ele não era o Getúlio. Não tinha a experiência do Getúlio, que tinha sido presidente do Rio Grande do Sul, ministro da Fazenda, chefe da Revolução de 30… A experiência do Jango era parlamentar. Sua passagem pelo Ministério do Trabalho foi curta… O Jango era muito moço, tinha quarenta e poucos… Ele morreu com 57 anos, muito novo.

    Agora, os erros da esquerda…

    Faço essa revisão há muito tempo. O Francisco Julião, por exemplo, foi um dos maiores embustes que este país conheceu. Mantinha uma aparência de simplicidade e humildade absoluta, coisa que ele não era. Era um farsante, um místico de esquerda, convencido de que ia ser o Fidel Castro do Brasil. Isso naquele contexto em que o Fidel era a grande figura não só da esquerda mundial, era a grande figura heróica e humana daqueles tempos. Ele havia vencido uma ditadura odiosa e vencido mesmo, pelas armas. Para ter uma ideia, o Fidel foi aplaudido nos Estados Unidos quando visitou o país. Foi aclamado pela multidão em Buenos Aires. Quando veio ao Brasil foi elogiado até pelo Carlos Lacerda. O Julião queria ser o Fidel brasileiro e foi o grande provocador daqueles anos.

    O homem das Ligas Camponesas…

    Vou contar um detalhe: em 1969, eu saí do país no grupo dos 15 presos políticos que foram trocados pelo embaixador americano Burke Elbrick, junto estava o Gregório Bezerra, o grande dirigente comunista que organizava os sindicatos rurais no Nordeste. Era pernambucano como o Julião. Quando chegamos ao México, eu digo para o Gregório: “Vamos visitar o Julião”. O Julião estava asilado lá. Aí, noto que o Gregório não quer aparecer do lado do Julião. Ele me diz: “Camarada Flávio, não tenho nenhum interesse em falar com Julião”. Gregório era um homem respeitabilíssimo, era o Velho, tinha sessenta e tantos anos. Depois é que fui saber: o Gregório tinha feito um trabalho sério no Nordeste de organização dos sindicatos rurais. O Julião fazia agitação.  Pegou as Ligas Camponeses, articuladas pelo Pedro Teixeira, um grande líder, assassinado em 1962, e fazia demagogia pura. Só que ninguém sabia… Ele foi eleito deputado federal por Pernambuco, mas foi comparecer pela primeira vez na Câmara no dia 30 de março de 1964, para não perder o mandato por faltas continuadas. Não era conhecido nem pelos guardas da Câmara, que não queriam deixar ele entrar. Chega à tribuna, no meio daquela crise, e fala como um general… Anuncia que 60 mil homens das Ligas Camponesas, armados, estão prontos para se rebelar no Brasil inteiro… Cinco mil só no distrito federal… Na verdade, não tinha nada…

    Mas figuras respeitáveis, como o Prestes, erraram também…

    É, tem a célebre reunião em Moscou em que ele diz que não havia a mínima chance de golpe, pouco antes do golpe… Depois se soube também que Prestes disse nesta reunião que no Comitê Central do Partido Comunista do Brasil tinha um monte de generais… Essas coisas davam um vigor falso para a esquerda. Eu tenho muito respeito pelo Prestes, pela figura íntegra dele, mas ele foi sempre um sonhador, sempre acreditou nas coisas sem penetrar no âmago das coisas. Na revolução de 30, o Prestes recebeu uma proposta do Getúlio aqui no Palácio Piratini, ele mesmo conta isso… Ele vivia na Argentina e veio clandestino falar com o Getúlio, que oferece a ele a chefia militar da revolução, ele era o grande herói, o capitão Luiz Carlos Prestes, da Coluna. Ele começa a falar, diz que só acredita na revolução socialista, proletária, que não acredita naquela revolução burguesa… Getúlio só ouvindo… No fim, segundo o próprio Prestes, Getúlio  diz mais ou menos o seguinte: “Sua dialética é bela, profunda e convincente, mas a mim não convenceu…”. O Prestes queria outra revolução… preparar o proletariado… nem havia o proletariado, no sentido sociológico.  Havia pobres, sem cultura urbana, sem organização… Então, esses otimismos do Prestes…

    O Brizola também foi um pouco irrealista, em 1962, por exemplo…

    Aí, é outra coisa. O Brizola ia ser deputado pelo Paraná, foi convencido… que tinha que ser candidato pelo Rio de Janeiro,  para enfrentar o Carlos Lacerda,  governador do Rio de Janeiro. O problema do Brizola é outro. O Brizola nunca preparou herdeiros.   O Brizola nunca foi corrupto… Foi investigado de todo jeito nunca acharam nada…

    Nem herdeiros, nem concorrentes…

    Terminou com todos os concorrentes aqui no Rio Grande do Sul: José Diogo Brochado da Rocha, Fernando Ferrari, Loureiro da Silva… a consequência é que na eleição para governador em 1962 não havia um candidato, então o trabalhismo no Rio Grande do Sul foi escolher Egydio Michaelsen, diretor  jurídico do  Banco Agrícola Mercantil (que depois veio a ser o Unibanco), nada representativo do trabalhismo.

    E então sofreu uma derrota que foi decisiva em 1964…

    As melhores e as piores recordações da minha vida foram com o Brizola… Quando cheguei do exílio, por exemplo, tive uma recepção calorosa no Rio. Quando desembarquei o Galeão, um funcionário me disse: “O Brizola chegou de manhã cedo e está no aeroporto à sua espera”. Ele tinha chegado do México, de uma reunião da Internacional Socialista. Chego e estão lá umas 50 pessoas, a tevê Globo vem me entrevistar. Estou junto ao Brizola e a Neusa. Uma das perguntas que me fazem: “para qual partido vai entrar?” Respondi com uma expressão que ele usava: “Na camisa de força do regime militar, partido nenhum. Meu partido é o jornalismo”. No que digo isso, o Brizola se retira. À noite, vou ao Hotel Everest, onde o Brizola estava hospedado. Havia uma reunião do PTB, ele me diz: “Fica aí, é só o pessoal do Rio…”, e me dá um chá-de-banco. Quarenta minutos depois, ele sai: “Flávio, vem aqui. Tu fizeste nessa manhã algo terrível, tomei como uma agressão. Eu estava ao teu lado,  e disseste que não vais te filiar a partido nenhum. Isso é uma afronta…”  Não admitia posições discordantes…

    Os erros da esquerda alimentaram o discurso golpista.

    Isso é muito esquemático. Não foi o discurso da esquerda que alimentou ou deu pretexto à conspiração e ao golpe. O que fez o golpe foi a Guerra Fria. Isso hoje está provado.  No dia 30 de julho de 1962, na Casa Branca, Lincoln Gordon convence o Kennedy que o Brasil está sendo comunizado e eles têm que intervir, para evitar uma outra Cuba. Transcrevo todo o diálogo no meu livro.

    Mas o discurso da esquerda radical assustou…

    Sem dúvida, o discurso do Julião… e do Brizola, também.  Agora, quem atiçou o golpe foi a Guerra Fria. Em 1962, quando Vernon Walters vem ao Brasil como adido militar para preparar o golpe, quem o recebe no aeroporto é o general Ulhoa Cintra, que não se conformou com a solução que levou Jango ao poder. Quem atua como contato com o coronel Vernon Walters e os militares da conspiração é o Ulhoa Cintra. São os derrotados de 1961, engajados na Guerra Fria. O general Golbery dizia que o Jango não poderia ser presidente porque era homem dos interesses da União Soviética no Brasil.

    O IPES foi criado três meses depois da posse de Jango…

    Foi antes, já em setembro de 1962 ele está em gestação. O general Golbery pede a reforma ainda em setembro e já estava conspirando. Em novembro formaliza, se instala no Rio. O IPES foi o grande instrumento na guerra psicológica. O Golbery auxiliado por um sujeito que hoje é um romancista conhecido, o Rubem Fonseca… Começou a fazer ficção ali, nos filmes que ele fazia para o IPES, que são muito bem-feitos, maravilhosos, tecnicamente falando. O IPES foi o “grande contubérnio”.

    Até panfletos com listas de pessoas a serem eliminadas eram forjados…

    Tudo inventado, falsificado, para assustar. O IPES foi a grande arma ideológica. Antes, já no governo do Juscelino, funcionava o IBAD, que fazia o trabalho sujo. Uma comissão de inquérito da Câmara de Deputados provou isso. Bancava os caras, isso está mostrado no filme “O Dia que Durou 21 Anos”. Os Estados Unidos, imediatamente, reconheceram os golpistas e estavam prontos a intervir, se necessário.

    Foi por saber disso que Jango não quis resistir?

    Jango nunca soube. O que San Thiago Dantas disse a Jango é que Minas Gerais seria reconhecida como Estado beligerante… Mas da movimentação da esquadra americana, ele só foi saber em 1976, quando liberaram os papéis reservados.  La Nación, de Buenos Aires, publicou uma nota sobre o livro de Phyllis Parker que revelou isso. Jango ficou sabendo aí, no exílio.

    Mas ele havia sofrido pressões…

    Sim, muitas pressões… Quando o Jango visita os Estados Unidos, em 1962, o John Kennedy foi esperá-lo na escadinha do avião. Já no helicóptero que transporta os dois até a Casa Branca, Kennedy o questiona sobre a reforma agrária. Jango desfilou em Nova York sob chuva de papel picado, tudo programado, para impressioná-lo. O Lincoln Gordon sugeriu outra coisa: uma visita do Jango à Base Militar de Offutt. Ele foi o primeiro chefe de Estado a ser recebido lá. Um general chamado Thomas Powell começa a mostrar num computador… Ninguém tinha visto antes… mostrava na tela a rota dos  B52 com bomba atômica, voando 24 horas… Em seguida disse: “Vou lhe mostrar uma outra coisa”, e levou Jango para ver o silo subterrâneo onde estava o foguete intercontinental Atlas, a mais poderosa arma do planeta, capaz de eliminar 500 mil pessoas em Moscou, Pequim, ou São Paulo. Jango, com o general Kruel, chega à base sorridente e sai completamente acabrunhado…

    Lincoln Gordon foi o grande artífice…

    Sim, isso hoje está provado. Reproduzo no meu livro os documentos e gravações que foram liberados depois de 30 anos. Ele e Vernon Walters alimentaram a conspiração, com muito dinheiro inclusive.

     

  • 1964: O golpe, segundo o general que botou as tropas na rua

    1964: O golpe, segundo o general que botou as tropas na rua

    Noite de 31 de março de 1964.

    À uma e meia da madrugada, o general Olympio Mourão Filho desiste de tentar dormir e retoma as anotações em seu diário.

    Há quase uma semana se considera pronto para um golpe, mas desconfia que o estão traindo.

    Esperava um manifesto do governador de Minas, que seria a senha para colocar as tropas na rua.

    Em vez de mandar o texto antes, para ele, o governador entregou o manifesto à imprensa. E o conteúdo não era o que haviam combinado!

    “Eu estava uma verdadeira fúria”, anotou. “Meu peito doía de rachar. Tive que pôr uma pílula de trinitrina embaixo da língua”

    Olympio Mourão Filho, general de três estrelas, comandante da 4ª Região Militar, uma das principais forças terrestres do Exército brasileiro, estava mesmo descontrolado.

    “Idiotas. O Chefe Militar sou eu. Magalhães não terá desculpa perante a história… E o Guedes [Carlos Luís Guedes, comandante militar em Minas Gerais], um falastrão vaidoso que aceitou o papel triste… Fizeram isto, bancando os heróis, porque sabiam que eu era a própria revolução. Do contrário não se atreveriam a dar um passo. Irresponsáveis! Arriscando uma revolução tão bem planejada num momento de vaidade!”

    Depois da explosão, acalma-se: “Acendi o cachimbo e pensei: não estou sentindo nada e, no entanto, em poucas horas deflagrarei um movimento que poderá ser vencido porque sai pela madrugada e terá que parar no caminho. Não faz mal…”

    Em seu plano original, Mourão previa sair de Juiz de Fora, no início da noite, com 2.300 mil homens. Cobriria os 200 quilômetros até o Rio de Janeiro em cinco ou seis horas. Antes de clarear o dia, tomaria de surpresa o prédio do Ministério da Guerra e o Palácio das Laranjeiras, onde estaria ainda dormindo o presidente João Goulart. Depois começava a caçar os comunistas.

    Há uma semana “estava pronto”, mas vinha sendo retardado por artimanhas do governador Magalhães Pinto que, mineiramente, temia “se envolver numa aventura”.

    Agora está decidido: “Vou partir para a luta às cinco da manhã… Ninguém me deterá. Morrerei lutando. Nosso sangue impedirá a escravização do Brasil”.

    Depois se acalma novamente: “E o mais curioso de tudo isto é que, passada a raiva (já estou normal, bebi água e café) não sinto nada, nem medo, nem coragem, nem entusiasmo, nem tristeza, nem alegria. Estou neutro.”

    Anotou alguns nomes num papel e, quando o relógio marcou cinco horas, chamou a única telefonista de plantão na central de Juiz da Fora: “Quero prioridade absoluta e rápida para as ligações que vou pedir. Estou mandando a PM ocupar a Estação e a senhorita não diga palavra a ninguém”.

    Considerou-se em ação: “Eu já havia desencadeado a Operação Silêncio”, anotou.

    Mourão, ainda embuído da Operação Popoye, ouve o governador mineiro Magalhães Pinto, “chefe-civil da revolução”. Com eles, o general Carlos Muricy. No primeiro telefonema, tentou alcançar o tenente coronel Everaldo Silva, que estava de prontidão no QG, “o telefone estava enguiçado”. Tocou, então, para o major Curcio e mandou desencadear a “Operação Popeye”, o plano militar que ele, Mourão, havia traçado e ao qual batizara com o apelido que lhe haviam dado no quartel pelo uso constante do cachimbo.

    Em seguida, convocou os coronéis Jaime Portela e Ramiro Gonçalves para que se apresentassem imediatamente no quartel (nenhum dos dois apareceu).

    A seguir, ligou para o almirante Silvio Heck, comandante da Marinha, golpista de primeira hora: disse que estava partindo em direção ao Rio, para depor Goulart.

    O próximo foi o deputado Armando Falcão, para que avisasse Carlos Lacerda, governador da Guanabara, o mais notório inimigo do presidente.

    Falcão, assustado, ligou para o general Castello Branco, que era o líder militar da conspiração e que evitara sempre se envolver com Mourão.

    Castello, que não tinha tropas, tentou falar com Amaury Kruel, o comandante do II Exército, a maior força militar do país. “Isso não passa de uma quartelada do Mourão, não entro nessa”, disse Kruel, quando foi alcançado por emissários. Kruel ainda era amigo de João Goulart.

    Nesse meio tempo, Castello recebeu uma ligação do general Antonio Carlos Muricy, outro conspirador sem comando.

    Muricy diz que foi chamado a Minas por Mourão, “que está rebelado”. Castello aconselha que vá “para prevenir qualquer bobagem”.

    Enquanto isso, Mourão segue anunciando o golpe por telefone. Ao final de sua rajada de chamadas, fez questão de registrar que “estava de pijama e roupão de seda vermelho”. E não esconde o “orgulho pela originalidade”: “Creio ter sido o único homem no mundo (pelo menos no Brasil) que desencadeou uma revolução de pijama”.

    Subiu um lance de escada até o quarto onde estava seu hóspede e cúmplice, o desembargador Antonio Neder, “que dormia como um santo”.

    Gritou: “Acabo de revoltar a 4ª Divisão de Infantaria e a 4ª Região Militar”. O amigo “entre espantado e incrédulo”, perguntou: “Você agiu certo? Tem elementos seguros?”.

    Mourão desdenha : “Vocês, paisanos, não entendem disso”. Eu estou certo, pode crer”. Na verdade não tinha certeza de nada, nem mesmo se conseguiria tirar suas tropas do quartel.

    Entrou no banheiro, fez a barba e leu alguns salmos da Bíblia, como fazia todos os dias. “Eu era um homem realizado e feliz. Não pude deixar de ajoelhar-me no banheiro e agradeci a Deus a minha felicidade, havia chegado a hora de jogar a carreira e a vida pelo Brasil!”

    Abriu o chuveiro, banhou-se calmamente. Só então vestiu o uniforme de campanha e foi tomar café com Maria, sua mulher (“Não consigo me lembrar se o Neder tomou café conosco”, diz ele nos registros que fez dias depois).

    A notícia de um golpe militar se espalhava rapidamente pelo país, mas o comandante do levante ainda não saíra de casa.

    “A insurreição estava envolta numa nuvem que se parecia ora com uma quartelada sem futuro ora com uma tempestade de boatos”, registra Elio Gaspari.

    Por volta das dez horas, ainda sem saber direito o que realmente estava acontecendo, o general Castello Branco saiu de seu apartamento, em Ipanema. Foi para o Ministério da Guerra, no centro, onde tinha seu gabinete de trabalho, no sexto andar.

    De lá ainda insistiu com o general Luis Guedes, comandante da 4ª Divisão de Infantaria em Belo Horizonte, e o governador Magalhães Pinto para que detivessem Mourão. “Senão voltarem agora serão esmagados”.

    Guedes, em suas memórias, tentou associar-se à ousadia de Mourão, dizendo que àquela hora também já estava rebelado, mas a verdade é que até aquele momento Mourão estava sozinho.

    Mourão registra, desde o primeiro encontro entre ambos, a frase que Guedes repetia: “Quem levantar a cabeça primeiro, leva pau”.

    O governador Magalhães Pinto, a quem Guedes seguia, desenvolvia um plano que permitisse recuos. Sua intenção era declarar Minas Gerais em “estado de beligerância”, contra o governo federal.

    Esperava obter o reconhecimento dos Estados Unidos e, então, forçar João Goulart a renunciar. Seria instalado um mandato tampão até as eleições de 1965 , quando ele, Magalhães, seria o candidato imbatível – o libertador que afastara o perigo comunista.

    O manifesto que lançou no dia 30 de março, escrito pelo mineiríssimo Milton Campos, defendia reformas de base e era tão cauteloso que o deputado federal Wilson Modesto, do PTB de Minas, leu a íntegra por telefone para Jango e o presidente respondeu: “Diga a Magalhães que está muito bom estou de acordo com ele”.

    Tanques e jipes do II Exército descem para o Vale do Paraíba. O golpe venceu. As ações do general Guedes, àquelas alturas, se limitavam à Prontidão da Polícia Militar, força estadual, e a consultas ao cônsul dos Estados Unidos em Belo Horizonte, para saber se os americanos estavam dispostos a ajudar com “blindados, armamentos leves e pesados, munições, combustíveis, aparelhagens de comunicações…”. Para “mais tarde”, precisaria de “equipamento para 50 mil homens”.

    Enquanto isso, Mourão enfrentava dificuldades para levar as tropas à rua. O comandante do 10º Regimento de Infantaria, coronel Clóvis Calvão, não apoiava o levante. Mourão contornou o impasse dando férias ao coronel.

    Dois outros coronéis e o comandante da Escola de Sargentos de Três Corações, também rechaçaram a ordem de botar a tropa na rua e foram para casa.

    Nada disso influiu no apetite do general. À uma da tarde, ele foi para casa almoçar e não dispensou sequer a sesta. Nessa hora, já se movimentavam forças para atacá-lo a meio caminho do Rio.

    “Na avenida Brasil, principal saída do Rio e caminho para Juiz de Fora, marchavam duas colunas de caminhões. Numa iam 25 carros cheios de soldados, rebocando canhões de 120 mm… Noutra, em 22 carros ia o Regimento Sampaio, o melhor contingente de infantaria da Vila Militar. De Petrópolis, a meio caminho entre o Rio e Mourão, partira o 1º Batalhão de Caçadores” (Gaspari).

    “Tinham-se passado oito horas desde o momento em que se considerara insurreto. Salvo os disparos telefônicos e a movimentação de um pequeno esquadrão de reconhecimento que avançara algumas dezenas de quilômetros, sua tropa continuava onde sempre estivera: em Juiz de Fora.” (Gaspari)

    Fardado, de capacete, Mourão, auto-intitulado Comandante em Chefe das Forças Revolucionárias, foi fotografado no meio da tarde, no QG da 4ª DI. Mas aos jornalistas ainda negava que estivesse rebelado.

    O general Antonio Carlos Muricy, que Mourão chamou para chefiar a vanguarda da tropa que desceria em direção ao Rio, só foi chegar a Juiz de Fora às 18 horas.

    Os recrutas de Mourão começam a se deslocar em direção ao Rio de Janeiro. Ao inspecionar as forças de que dispunha, Muricy comprovou que mais da metade eram recrutas mal preparados e a munição dava para poucas horas.

    “Ele não é bem visto no Exército e provavelmente não liderará uma conspiração contra o governo, em parte porque não tem muitos seguidores. É visto como uma pessoa que fala mais do que pode fazer”, dizia um informe da embaixada americana.

    A maioria dos 60 generais em atividade naquele momento, achava que Mourão não conseguiria tirar os soldados do quartel. Lacerda lhe disse isso diretamente. O general Muricy, que ele convidou para comandar a vanguarda de suas forças em direção ao Rio, disse-lhe: “Você está louco? Acha que pode fazer uma operação dessas com soldados meninos com um mês de treinamento!”

    Seis meses antes, quando Mourão chegou a Minas para assumir o comando da 4ª Região Militar, o governador Magalhães Pinto, depois da primeira conversa que tiveram, comentou: “Este general que veio comandar a Região ou é agente provocador do governo ou é louco, quer fazer uma revolução logo!” O general Costa e Silva, a quem  Mourão procurou várias vezes, sempre esquivou-se. “Não temos nada”.

    Para o historiador Hélio Silva, Mourão era um “homem bom, sofredor, pitoresco, capaz de assomos de cólera”.

    O embaixador americano soube da rebelião por volta do meio dia do dia 31 de março. Imediatamente avisou Dean Rusk, chefe do Departamento de Estado. Ele não tinha Mourão em boa conta, mas ponderou: “(…) pode ser a última boa oportunidade para apoiar uma ação contra Goulart”.

    A segunda vitória de Mourão aconteceu já na madrugada do dia primeiro de abril, quando o Regimento Sampaio, a mais bem treinada e equipada força militar do Rio, saiu para atacá-lo. Ao alcançar a dianteira das tropas rebeladas, em vez de atirar, os oficiais simplesmente aderiram ao golpe. Os calejados “tarimbeiros” do Regimento Sampaio abraçaram os “soldadinhos meninos” de Mourão. “Eles passaram-se quando tudo parecia indicar nossa derrota”, anotou o general em seu diário.

    Pouco depois, quando se deslocava para assumir a vanguarda das tropas que se dirigiam ao Rio, soube pelo rádio do carro que não havia mais resistência. O golpe vencera e o general Costa e Silva havia assumido o Comando Supremo da Revolução, por ser o general mais velho em atividade.

    Não lhe restou mais que ir ao QG e apresentar-se ao novo comandante. Costa e Silva dormia e atendeu-o de cuecas. Ele quis reclamar, Costa colocou a mão em seu ombro: “Mourão, foi tudo resolvido na base da hierarquia ( …) Não se preocupe, velho, isso vai dar certo”. E recomendou-lhe ficar mais uns dias no Rio antes de regressar com as tropas. “Achei razoável , de vez que Costa e Silva não contava com quase nada, não dispunha de tropa. Minha obrigação era ficar e garanti-lo”. Ele  já era carta  fora do baralho.

    Conspiração começou em Santa Maria

    Mourão conta em suas memórias que “acordou para o perigo comunista” em janeiro de 1962. Ele recém chegara a Santa Maria, no Rio Grande do Sul, para assumir a 6ª Divisão de Infantaria.

    Num jantar, testemunhou uma conversa do governador Leonel Brizola com o general Osvino Ferreira Alves, comandante do I Exército, brizolista, que passava suas férias em Santa Maria…

    “Ficamos conversando no jardim interno. Foi aí que percebi que os dois acreditavam que eu pertencia ao lado político deles. Abriram o papo. Fiquei horrorizado com o que ouvi”.

    Desde agosto de 1961, quando Brizola frustrou a primeira tentativa de golpe com o movimento da “Legalidade”, o  país vivia sob o regime parlamentarista, manobra para esvaziar o poder de Goulart.

    Nessa conversa em Santa Maria, segundo Mourão, Brizola falou de seus planos para apressar o plebiscito para voltar ao presidencialismo, da campanha pelas reformas de base, elegibilidade dos sargentos, extensão do voto aos soldados e analfabetos… Nada mais do que a plataforma publicamente defendida por Brizola, que tinha pretensões à Presidência.

    Para Mourão foi a explanação de “um vasto plano de subversão em todo o Brasil”.

    Naquela noite, quando chegou em casa, Mourão anotou em seu diário: “Nada tenho contra João Goulart. Acho-o até um homem bom e simpático. Mas ele não porá fogo no Brasil”.

    A partir daí ele entra num processo de conspiração delirante, movido por uma ideia fixa: Jango e Brizola, aliados aos comunistas, preparavam um golpe para implantar uma república sindicalista.

    A saída era um golpe antes. Além de aliciar adeptos entre a oficialidade, procura também lideranças do meio civil.

    “Em Santa Maria articulei-me com o prefeito da cidade, médico Miguel Sevi Viero e com o bispo Dom José Sartori que era um revolucionário entusiasmado”.

    No dia 15 de janeiro de 1962 , foi a Porto Alegre falar com o presidente da poderosa Farsul, Antônio Saint Pastous, que o apoiou.

    Em setembro de 1962 foi convidado para um encontro na casa do bispo para expor suas ideias e planos a um seleto grupo de líderes políticos: o governador Ildo Meneghetti, o senador Daniel Krieger, o deputado Peracchi Barcelos e o secretário de Meneghetti, João Dêntice.

    Krieger anota em seu livro de memórias que “aquele foi o primeiro contato de civis com militares” para uma conspiração contra Jango.

    Em Porto Alegre teve um colaborador entusiasta no jornalista Tadeu Onar, que o colocou em contato com lideranças e autoridades. Conseguiu até uma audiência com o arcebisbo, D. Vicente Scherer, que o ouviu mas evitou se comprometer.

    Em março de 1963, Mourão foi para a 2ª Região Militar, em São Paulo,  “primeiro comando de prestígio”.

    Logo tinha um grupo, com o qual conspirava: “Reuníamos, em geral nas quartas-feiras, depois que eu vinha do meu passeio na Praça da Sé. Fazia isto muitas vezes nos dias quentes, sem paletó, com um terno surrado, sem gravata e uns sapatos velhos… Sumia no meio do povo…”

    Filho de um advogado, que foi deputado e líder político em Diamantina e na região Norte de Minas, Mourão era uma figura polêmica desde os temos da Escola Militar, quando era um cadete magrinho (49 quilos) e se sentia marginalizado pelos colegas, os quais invariavelmente desprezava. “Eu fui sempre desconhecido, vivia entocado, ninguém me dava a menor importância”.

    Tinha desprezo também pelos políticos: “Vil raça danada que vem desgraçando este país.Se pudesse metia-os todos na cadeia”.

    Era igualmente inimigo da Escola Superior de Guerra, “escola onde se estuda uma doutrina totalitária importada dos EUA”. Achava os homens da ESG – os verdadeiros articuladores da conspiração (Cordeiro de Faria, Golbery do Couto e Silva, Castelo Branco) – “uns cérebros doentios”.

    Obcecado, Mourão Filho fez pelo menos três planejamentos para o golpe, desde que começou a conspirar. Quando ainda estava na 3ª  DI, em Santa Maria, tinha um plano pronto (“Operação Junção”) para atacar Porto Alegre e prender Brizola, que ainda era governador.

    Em março de 63, pouco depois de assumir a 2ª Região Militar em São Paulo, escreveu outro plano, com direito a “Departamento de Preparação Psicológica das Massas”, “Seção de Espionagem e Contra-espionagem”, “Serviço de Sabotagem e contra-sabotagem”.

    Via-se no poder:

    “Já pensei vagamente no que farei ao chegar ao Rio. Tomo o QG no peito e mando buscar o Cordeiro de Farias em casa, passo-lhe o Comando Geral e assumo o Comando das Forças em Operações (…) daremos ordem para que Mazzilli assuma a Presidência da República e formamos uma junta à parte, para tratar dos seguintes assuntos:

    a)escolher o candidato, que será civil, para completar o quinquênio;

    b) traçar diretrizes gerais para modificar a Constituição, a fim de evitar no futuro o acesso de políticos corruptos e subversivos.

    Tinha um plano para mudar o Brasil. Sua reforma tinha oito pontos, entre eles a “inelegibilidade dos atuais políticos, de seus ascendentes e descendentes e colaterais até o segundo grau”, e a criação de uma “Câmara de Planificação”, à base de concurso rigoroso de provas e títulos. “Câmara vitalícia à base dos mais altos salários da República”.

    “O movimento se for vitorioso elegerá um presidente civil para completar o quinquênio, ao passo que um Conselho Militar por mim presidido estudará e apresentará as reformas à constituição com mudança da forma de governo”.

    Até o fim ignorou a grande trama – que envolveu chefes militares, empresários, a CIA e a embaixada norte-americana – que preparou o terreno para a derrubada do governo reformista de Goulart.

    Achava que tinha feito tudo sozinho. “A maior conspiração do Brasil foi feita por mim”, dizia.

    Um “golpe comunista”

    Planejar golpes parecia uma obsessão do general Olympio Mourão Filho. Quando era capitão ficou conhecido como autor do célebre “Plano Cohen”, uma das maiores farsas da história brasileira.

    Era o plano de um golpe comunista, que previa atentados, sequestros e assassinato de autoridades para o assalto ao poder. Com grande estardalhaço, o governo divulgou o “plano terrorista”, “descoberto” pelos serviços de segurança.

    Ante a ameaça, o presidente Getúlio Vargas pediu “Estado de Guerra” e o Congresso, atemorizado, aprovou.

    Os comunistas foram caçados e encarcerados e Vargas aproveitou o apoio político e popular e impôs uma nova constituição, que eliminava o Parlamento. Foi ditador por oito anos, com todo o apoio das Forças Armadas.

    Em 1945, quando o ditador já estava em desgraça, o general Góes Monteiro, chefe do Estado Maior, ex-ministro da Guerra de Vargas, denunciou a farsa e acusou o então capitão Mourão Filho de ser o autor.

    Segundo a versão de Góes Monteiro, num dia sem expediente no QG do Estado Maior do Exército, no Rio, Mourão foi flagrado por um colega datilografando o texto do que viria a ser o Plano Cohen.

    Mourão não negava a autoria, mas insistiu sempre que se tratava de um texto para estudo, que foi usado sem o seu consentimento.

    Na época, Mourão era chefe do Serviço Secreto da Ação Integralista e os integralistas (fascistas) aproximavam-se de Vargas.  O  plano, feito a pedido de Plínio Salgado, teria sido uma contribuição para que o presidente pudesse golpear os comunistas, que lhe atazanavam a vida.

    Em seguida, depois de se livrar dos comunistas, Vargas acertou os integralistas também.

    (Texto publicado originalmente na revista JÁ)

     

  • Jornalismo sem fins lucrativos avança nos Estados Unidos, berço da mídia comercial

    Transcrito do The New York Times

    “É provável que o coronavírus apresse o fim da mídia direcionada à publicidade. E o governo não deve resgatá-la”.

    Por Ben Smith 

    o    Publicado 29 de março de 2020

    o    Atualizado 30 de março de 2020, 4:14 ET

    Você poderia, neste domingo, comprar a Gannett, a maior cadeia de  jornais do país, por meros US $ 261 milhões – cerca de um quarto do que Michael R. Bloomberg gastou em sua campanha presidencial.

    Elizabeth Green, fundadora da organização de notícias educacionais sem fins lucrativos Chalkbeat , é uma das poucas pessoas que podem arrecadar dinheiro para fazer um acordo como esse.

    Mas ela rapidamente percebeu que Gannett não valia a pena: comprá-lo significaria se inscrever para pagar um empréstimo com juros altos de uma gigante empresa de private equity de Nova York e confiar em um modelo de negócios de publicidade que pode estar em sua morte por causa do coronavírus.

    É um momento de profunda crise para o setor de notícias local, que poderia ter sido derrubado por uma brisa leve e agora está enfrentando um furacão.

    Mas também é um momento de grande promessa para uma nova geração de publicações locais sem fins lucrativos.

    Agora é a hora de fazer uma mudança dolorosa, mas necessária: abandone os jornais locais com fins lucrativos, cujo modelo de negócios não funciona mais, e vá o mais rápido possível para uma rede nacional de novas e ágeis redações online.

    Dessa forma, podemos resgatar a única coisa que vale a pena nas empresas de jornais locais estripadas e amplamente mal administradas da América – os jornalistas.

    “Precisamos aceitar que as notícias locais de hoje já estão morrendo”, disse Green, 35 anos.

    Ela percebeu isso há 12 anos quando era repórter de educação local.

    Seu jornal, The New York Sun, faliu e ela criou uma nova organização sem fins lucrativos para se manter no ritmo que amava.

    Agora, sua visão se expandiu. Ela co-fundou o American Journalism Project , que visa criar uma enorme rede de agências sem fins lucrativos, algumas organizadas em torno de assuntos como educação ou justiça criminal, outras focadas em cobrir uma cidade, uma cidade ou um estado.

    Ela quer substituir as centenas de jornais locais agora pertencentes a fundos de hedge que estão sendo lentamente secados.

    “Precisamos manter os valores, manter as pessoas, manter as lições aprendidas – e nos livrar dos acionistas e obter um melhor modelo de negócios”, disse ela.

    Green tem trabalhado para expandir uma área de cobertura obviamente necessária, a saúde pública, para todos os 50 estados, trabalhando com o serviço de notícias sem fins lucrativos Kaiser Health News.

    E no nível local, ela e John Thornton, outro fundador do American Journalism Project, estão trabalhando em um novo projeto: apoiar uma agência sem fins lucrativos na Virgínia Ocidental.

    Será liderado por Greg Moore, ex-editor executivo do Charleston Gazette-Mail, e Ken Ward, repórter do jornal, que ganhou uma bolsa MacArthur “Genius” por sua cobertura dos danos causados ​​pelas indústrias de carvão e gás à vida das pessoas.

    O novo canal ainda não nomeado (os candidatos incluem “Mountain State Muckraker”) começará com uma equipe de cerca de 10, sete deles jornalistas, uma equipe de notícias na mesma escala do jornal local diminuído.

    “Existe toda essa ‘desgraça e tristeza para as histórias de jornalismo local’ que aconteceram na última semana, e espero que outras pessoas vejam o que estamos fazendo e entendam que o importante é o jornalismo – são as histórias, são as investigações – é isso que importa ”, disse Ward.

    Ele também estará na equipe da potência de investigação ProPublica, sem fins lucrativos, e terá o apoio do Report for America, outra organização sem fins lucrativos em crescimento que envia jovens repórteres para redações em todo o país.

    O setor de notícias, como todo negócio, está procurando toda a ajuda que pode obter nessa crise.

    Os analistas acreditam que o novo pacote de ajuda federal ajudará por um tempo e que o setor tem fortes argumentos a fazer.

    Os governos estaduais consideraram o jornalismo um serviço essencial para divulgar informações de saúde pública.

    Os repórteres empregados por todos, desde o grupo sem fins lucrativos mais valioso até a cadeia cínica de fundos de hedge, estão arriscando suas vidas para obter aos leitores fatos sólidos sobre a pandemia e estão responsabilizando o governo por seus fracassos.

    Praticamente todos os meios de comunicação informam que o número de leitores está no máximo de todos os tempos.

    Todos precisamos saber urgentemente sobre onde e como o coronavírus está afetando nossas cidades, vilas e bairros.

    Mas o negócio de publicidade que sustentou os jornais locais – revendedores de automóveis, varejistas e cinemas que, por gerações, encheram suas páginas de anúncios – passou do lento declínio para a queda livre .

    Portanto, os líderes que tentam levar a indústria de notícias local através desse choque econômico precisam enfrentar a realidade.

    A receita da publicidade impressa e do envelhecimento dos assinantes já estava desaparecendo. Quando a crise acabar, é improvável que volte. Alguns semanários locais fecharam recentemente para sempre .

    Muitas das sugestões dignas para salvar o setor de notícias evitam esse problema central.

    Margaret Sullivan, do Washington Post, sugeriu um amplo “plano de estímulo ao coronavírus”, e uma coluna no The Atlantic pedia um enorme gasto do governo em anúncios de saúde pública.

    Sem restrições cuidadosas, grande parte desse dinheiro do governo será destinada a cadeias de jornais condenadas, para as quais um objetivo importante, como disse o executivo-chefe da Gannett em sua última demonstração de resultados no final de fevereiro, está pagando dividendos aos acionistas imprudentes o suficiente para investir em seu condenado negócio.

    (Os executivos da Gannett se recusaram a falar comigo para esta coluna.)

    Então, o que vem a seguir? Essa decisão será tomada nos próximos meses – por funcionários públicos, filantropos, Facebook (que deverá anunciar outra onda de financiamento de notícias locais em breve) e outras empresas de tecnologia e pessoas como você.

    A decisão certa é olhar consistentemente para o futuro, que vem de várias formas. O mais promissor agora é o sonho de Green de uma grande e nova rede de organizações de notícias sem fins lucrativos em todo o país, segundo o modelo do The Texas Tribune , que Thornton co-fundou.

    Existem também algumas agências de notícias locais com fins lucrativos, do The Seattle Times ao The Philadelphia Inquirer e ao Boston Globe, com proprietários ricos e de espírito cívico.

    E há uma geração de sites pequenos e independentes de associação ou assinatura e boletins como o Berkeleyside .

    Centenas de jornalistas locais dedicados estarão procurando emprego assim que puderem pensar em algo que não seja o que o coronavírus está fazendo nos lares e hospitais locais.

    Deveríamos ajudá-los e pagar por eles para construir essas novas instituições, grandes e pequenas.

    O apoio do governo, como sugere Steven Waldman, o co-fundador do relatório na América , pode dar dicas para as novas organizações sem fins lucrativos e pequenas empresas.

    O Facebook e o Google poderiam se concentrar em apoiá-los, em vez de pagá-los para criar vídeos do YouTube.

    Um grupo de jornalistas da Califórnia está agora trabalhando em um “Plano Marshall” para levar as agonizantes do estado a fazer “transições instantâneas de força bruta” para um modelo digital sustentável, disse Neil Chase, ex-editor executivo do San Jose Mercury News que agora lidera o CalMatters sem fins lucrativos.

    As pessoas que dirigem as grandes redes de jornais – Gannett, Tribune, McClatchy, falida, mas ambiciosa , e o implacável Media News Group – discordam, é claro.

    Eles argumentam que o sonho da publicidade digital em uma escala que pode competir com o Google, um argumento original para fusões, ainda está ao alcance; e que eles podem cortar e centralizar seu caminho para a estabilidade.

    Eles também apontam que esses novos modelos carregam riscos reais, e estão certos quanto a isso. Eu aprendi em primeira mão. Eu era presidente do conselho da redação sem fins lucrativos de Nova York, The City – uma das mais promissoras da nova guarda – enquanto tentava ler suas histórias.

    Eu assisti minha esposa construir um pequeno canal de notícias do zero no solo difícil de publicidade e assinaturas locais na Bklyner .

    Os recém-chegados terão que se esforçar para manter as equipes do tamanho das redações locais mais estripadas.

    E o jornalismo sem fins lucrativos pode ser chato, mais atento aos doadores do que ao público.

    “É uma má idéia deixar o governo e as pessoas ricas assumirem o negócio de notícias e deixar os distribuidores completamente fora do gancho”, disse David Chavern, presidente e diretor executivo da News Media Alliance, o principal grupo de lobby da indústria jornalística, que representa redes e pequenos editores locais e está buscando ajuda do governo. (Um ativo legado do setor de jornais é ter um bom lobista em Washington.)

    Ele argumenta que a melhor política pública e a salvação para seus membros é forçar o Google e o Facebook a pagar pelas notícias em suas plataformas.

    Nada disso é resolvido ou fácil. O debate mais acalorado em locais onde os executivos de notícias sem fins lucrativos se reúnem – atualmente, principalmente uma discussão inesperada sobre o Slack – é se é sempre seguro ou ético receber financiamento do governo.

    Ben Smith é o colunista da mídia. Ele ingressou no The Times em 2020, depois de oito anos como editor-chefe do BuzzFeed News. Antes disso, ele cobriu política para Politico, The New York Daily News, The New York Observer e The New York Sun. E-mail: ben.smith@nytimes.com @benyt

    Uma versão deste artigo aparece impressa em 30 de março de 2020, Seção B , página 1 da edição de Nova York, com a manchete: Bailing Out Publishers Is Pure Folly . 

     

  • Isolado, Bolsonaro faz pronunciamento suicida

    Isolado, Bolsonaro faz pronunciamento suicida

    O pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro na noite desta terça-feira, 24, beira a insanidade.

    Ou ele vai dar um golpe ou vai ser interditado.

    Bolsonaro disse que começou a enfrentar o novo coronavírus desde a chegada dos brasileiros que estavam de quarentena em Wuhan. Ele e o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, lutaram “quase contra tudo e contra todos”, afirmou.

    Para Bolsonaro, os meios de comunicação “espalharam a sensação de pavor” no Brasil e promoveram o que ele chamou de “histeria” no país.

    O presidente mais uma vez minimizou a doença que já matou mais de 16 mil pessoas nos últimos três meses. Segundo ele, a realidade que afeta a Itália não será a mesma no Brasil por conta do clima – o que não é comprovado cientificamente.

    Indiretamente, ele atacou o Jornal Nacional – ao citar um pedido de “calma” feito pelos âncoras do telejornal – e a TV Globo, usando o médico Dráuzio Varella, que em janeiro havia apontado que o cenário no Brasil seria outro em razão de pesquisas que circulavam naquela época.

    O presidente mais uma vez mostrou-se mais preocupado com a economia do que com o contágio da doença e defendeu que se voltasse à normalidade do país.

    “Nossa vida tem que continuar. Os empregos devem ser mantidos. Devemos sim voltar à normalidade. Algumas autoridades devem abandonar medidas de isolamento”, afirmou, atacando governadores e negando orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

    “O que se passa no mundo mostra que o grupo de risco são as pessoas maiores de 60 anos. Não tem por que fechar escolas”, disse  o presidente.

    No pronunciamento, que durou cerca de 4 minutos, Bolsonaro ainda voltou a citar a cloroquina como uma possível cura da doença, exaltando o Hospital Albert Einstein, em São Paulo. “Acredito em Deus que irá capacitar médicos e pesquisadores”, disse ainda.

    Até esta terça-feira, o Brasil registrou 46 mortes pela Covid-19 e mais de 2,2 mil casos confirmados de coronavírus em todo o país.

    Trump

    O pronunciamento do presidente brasileiro seguiu na mesma linha do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que defendeu em entrevista nesta quarta-feira (24) que o país volte ao normal. Segundo a OMS, os EUA devem ser o novo epicentro da pandemia do novo coronavírus. O país já registra mais de 50 mil casos e 703 mortes.

    Presidente do Senado, David Alcolumbre, diz que país precisa de “liderança séria”. Em nota emitida logo após o pronunciamento do presidente em rede nacional, ele diz que Bolsonaro “está na contramão”:

    “Neste momento grave, o País precisa de uma liderança séria, responsável e comprometida com a vida e a saúde da sua população. Consideramos grave a posição externada pelo presidente da República hoje, em cadeia nacional, de ataque às medidas de contenção ao Covid-19. Posição que está na contramão das ações adotadas em outros países e sugeridas pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS). Reafirmamos e insistimos: não é momento de ataque à imprensa e a outros gestores públicos. É momento de união, de serenidade e equilíbrio, de ouvir os técnicos e profissionais da área para que sejam adotadas as precauções e cautelas necessárias para o controle da situação, antes que seja tarde demais. A Nação espera do líder do Executivo, mais do que nunca, transparência, seriedade e responsabilidade. O Congresso continuará atuante e atento para colaborar no que for necessário para a superação desta crise.”

    O presidente da Ordem dos Advogados recomendou à população que “não quebre a quarentena”:

    “Entre a ignorância e a ciência, não hesite. Não quebre a quarentena por conta deste que será reconhecido como um dos pronunciamentos políticos mais desonestos da história.”

    Gilmar Mendes, ministro do STF:

    “A pandemia da Covid-19 exige solidariedade e co-responsabilidade. A experiência internacional e as orientações da OMS na luta contra o vírus devem ser rigorosamente seguidas por nós. As agruras da crise, por mais árduas que sejam, não sustentam o luxo da insensatez”. 

    (Com Forum e G1)

     

  • Enquanto EUA tornam-se o novo epicentro da Covid-19, China assume liderança mundial no combate à epidemia

    Enquanto EUA tornam-se o novo epicentro da Covid-19, China assume liderança mundial no combate à epidemia

    Com pelo menos três meses de vantagem sobre todos os demais países, a China dá sinais de que não pretende perder a oportunidade de expandir sua influência em todos os continentes.

    Na segunda-feira, o porta voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, informou que “a China pediu aos Estados Unidos que parem de politizar a COVID-19 e estigmatizar o país”.

    Segundo o porta-voz, Donald Trump disse a repórteres no sábado que desejava que “a China tivesse nos dito mais sobre o que estava acontecendo na China”.

    Geng cita “reportagens relevantes” sobre o plano de comunicação da Casa Branca, “com foco em acusar a China de orquestrar um encobrimento e criar uma pandemia global”.

    O porta-voz chinês lembrou que na semana passada, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, acusou a China, a Rússia e o Irã de “realizarem campanhas de desinformação relacionadas à pandemia do coronavírus”.

    Qualificando as acusações dos EUA de ”calúnia desajeitada”, Geng afirmou que a China “vem mantendo a Organização Mundial da Saúde  e os países e regiões relevantes, incluindo os Estados Unidos, atualizados com sua situação epidêmica nacional de maneira aberta, transparente e responsável”.

    “Os esforços da China vêm sendo apreciados pela comunidade internacional”, disse Cheng, “acrescentando que o povo chinês nos últimos dois meses e ganhou um tempo precioso para outros países”.

    “Com trocas rotineiras de informações com a OMS e outros países, incluindo os Estados Unidos desde 3 de janeiro, a China anunciou o fechamento das saídas de Wuhan em 23 de janeiro”, assinalou o porta-voz.

    “Em 2 de fevereiro, o governo norte-americano anunciou sua decisão de proibir os estrangeiros que visitaram a China nos últimos 14 dias de entrar no país, quando apenas dez casos confirmados eram registrados”.

    Em 50 dias, o número subiu para cerca de 30 mil, disse Cheng. “Que medidas efetivas os Estados Unidos tomaram nos 50 dias?”, questionou.

    “Estados Unidos desperdiçaram completamente o precioso tempo ganho pela China na luta com a COVID-19”, disse Cheng.

    Essa retórica do porta-voz chinês faz parte de uma estratégia.

    Nesta terça-feira, a Organização Mundial da Saúde reconheceu que os Estados Unidos podem se tornar o novo epicentro da epidemia, dada a aceleração do contágio no país.

    Isso ocorre no momento em que a China, onde surgiu o novo coronavirus há quatro meses, dá demonstrações  de que venceu a epidemia e está voltando a normalidade.

    Todas as escolas de ensino fundamental  e médio voltaram a funcionar normalmente desde segunda-feira na região de Xinjiang, noroeste da China, a primeira de nível provincial do país a retomar o ano letivo.

    A reabertura ocorreu após 34 dias sem relato de novos casos de infecção do coronavírus.

    Mais de 4 milhões de estudantes voltaram às aulas em 5.004 escolas de ensino fundamental, médio e profissional em toda a região.

    A Província de Hubei,  cuja capital Wuhan foi o epicentro da epidemia no país, anunciou que suspenderá nesta quarta-feira as restrições a circulação de pessoas em todas as áreas.

    A  capital Wuhan continua com restrições, que serão levantadas a partir de 8 de abril, segundo as autoridades locais.

    Nesse contexto, o porta voz do Ministério das Relações Exteriores afirmou em entrevista coletiva que “a China vai aumentar seu apoio aos esforços de todos os  países no combate à COVID-19”.

    Geng disse  que a ajuda de emergência do governo chinês com materiais anti-epidemia vai chegar a 54 países do continente africano.

    “O país também continuará a coordenar e incentivar as empresas e instituições privadas chinesas a fornecerem ativamente apoio anti-epidemia aos países africanos”.

    “A China presta estreita atenção à situação da epidemia na África e fornece ativamente aos países africanos e à União Africana (UA) vários tipos de assistência material, incluindo testes de reagentes e produtos de proteção médica”, informou Geng, acrescentando que alguns materiais já chegaram.

    Especialistas chineses estão organizando videoconferências para orientar  equipes médicas chinesas que já atuam na África.

    “Muitas empresas, organizações não-governamentais e cidadãos chineses que vivem na África também prestaram assistência ao continente”, acrescentou Geng.

    Não é só a  África. Na segunda-feira  uma equipe sete de médicos chineses chegou a Phnom Penh, a capital do Camboja, para ajudar o país a combater a pandemia da COVID-19, segundo  Geng Shuang.

    O presidente do Camboja recebe médicos chineses

    O governo chinês também doou um lote de materiais anti-epidêmicos ao Camboja, incluindo kits de teste, máscaras de proteção N95, máscaras cirúrgicas, roupas de isolamento e roupas de proteção médicas, disse Geng em uma coletiva de imprensa.

    “Isso não é apenas um reflexo da amizade especial China-Camboja, mas também o que devemos fazer como uma comunidade com um futuro compartilhado e amigos de ferro”, salientou o porta-voz.

    Na segunda-feira, a Fundação Jack Ma, do fundador da multinacional chinesa  Alibaba Group, anunciou planos de doar suprimentos médicos a 24 países latino-americanos para ajudá-los em sua batalha contra a propagação da COVID-19.

    Dois milhões de máscaras, 400 mil kits de teste e 104 respiradores serão doados a 24 países latino-americanos, incluindo Argentina, Brasil, Chile, Cuba, Equador, República Dominicana e Peru.

    Material destinado a países da América Latina

    Também a Itália está recebendo ajuda. Desde segunda feira, especialistas da China estão em contato com médicos da Itália para ajudar no tratamento dos pacientes idosos infetados.

    Segundo a agência oficial do governo chinês, foram especialistas italianos que “pediram pelos compartilhamento de experiências dos colegas chineses”.

    Os especialistas chineses “compartilharão mais experiência e responderão a perguntas”, segundo  Zhang Junhua, do Centro de Desenvolvimento de Recursos Humanos da Saúde da Comissão Nacional de Saúde.

    “Estamos ansiosos para aumentar o intercâmbio e a cooperação científica e de pesquisa entre instituições de pesquisa médica chinesas e italianas”, disse Zhang.

    Na noite de segunda-feira, o presidente chinês, Xi Jinping, disse que a China apoia os esforços do Egito de prevenção e controle da epidemia e está pronta para combater conjuntamente o surto da COVID-19.

    Xi fez as observações em uma conversa telefônica com o presidente egípcio, Abdel-Fattah al-Sisi, segundo a agência chinesa.

    “A humanidade é uma comunidade que compartilha tristeza e alegria, e todos os países devem se unir e trabalhar juntos para lidar com a epidemia”, disse Xi Jingping.

    “A China trabalhará com outros países para intensificar a cooperação internacional em prevenção e controle epidêmicos, enfrentar juntos as ameaças e desafios comuns e salvaguardar a segurança de saúde pública global com base na noção de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade”, destacou.

    Ele disse que a China está disposta a compartilhar com o Egito informações relacionadas à epidemia, sua experiência em prevenção e tratamento e os resultados de pesquisas médicas, além de fornecer suprimentos médicos para apoiar seus esforços de prevenção e controle e vencer juntos a doença.

    A China atribui grande importância ao desenvolvimento de suas relações com o Egito e está disposta a trabalhar  para aprofundar a cooperação prática em diversos campos e transformar sua relação em um modelo piloto de uma comunidade de um futuro compartilhado China-Países Árabes e China-África.

    No sábado, uma equipe médica chinesa com experiência na luta contra a COVID-19 chegou à capital da Sérvia, “para ajudar na batalha do país balcânico contra o vírus”.

    A equipe de seis membros, segundo as fontes chinesas  “foi recebida com aplausos calorosos do presidente sérvio, Aleksandar Vucic, do ministro da Saúde, Zlatibor Loncar, do ministro da Defesa, Aleksandar Vulin e de outros funcionários do governo no Aeroporto de Belgrado”.

    “Com experiência em conter a propagação do coronavírus, espera-se que os especialistas chineses forneçam conselhos valiosos à Sérvia, que declarou estado de emergência há cinco dias em um esforço para conter a propagação do vírus e pediu ajuda à China”.

    A equipe médica chinesa chegou com respiradores, máscaras médicas, kits de teste e outros suprimentos médicos no primeiro lote de 16 toneladas de doações. Um segundo lote foi carregado em outro voo partindo da China.

    O presidente sérvio disse em um discurso de boas-vindas que a chegada dos especialistas chineses para ajudar é de “imensa importância para o nosso país” e que a ajuda médica é “salva-vidas”.

    “De agora em diante, vamos ouvir tudo o que eles dizem. Isso excede a política. Queremos mostrar respeito às pessoas que conseguiram derrotar o maior inimigo do mundo de hoje, a COVID-19”, disse ele.

    “Vucic também agradeceu ao presidente chinês Xi Jinping, ao Partido Comunista da China e ao povo chinês a amizade e o apoio que prestaram ao povo sérvio neste momento difícil”, segundo a Xinhua News.

    “Nós lhes damos nossa imensa gratidão, especialmente por enviar seus especialistas. Eles provaram ser amigos nos momentos mais difíceis em que lutamos pela vida do povo sérvio”, disse o presidente sérvio, acrescentando que “cada um desses respiradores significa uma vida humana salva aqui na Sérvia”.

    O embaixador chinês na Sérvia, Chen Bo, disse que os especialistas da Província de Guangdong, no sul da China, vieram diretamente das linhas de frente da batalha chinesa contra a COVID-19.

    “Estamos nos momentos mais difíceis, China, Sérvia e todo o mundo. O novo coronavírus representa um inimigo para toda a humanidade, e a solidariedade é mais importante neste momento”, observou Chen.

    Outro país que recebe ajuda chinesa é a Grécia. Na manhã de sábado, segundo as fontes chinesas, oito toneladas de suprimentos médicos, fornecidos pelo governo chinês “após o pedido urgente, chegaram na manhã de sábado ao aeroporto internacional de Atenas em um voo da Air China”.

    A ajuda consiste em 550 mil máscaras e conjuntos de equipamentos de proteção, de acordo com um comunicado emitido pela embaixada chinesa na Grécia. Também chegaram nesse voo 10 toneladas em equipamentos doados por empresas e organizações chinesas.

    Os suprimentos foram coletados e enviados para a Grécia dentro de oito dias, em um momento em que a China ainda estava sob imensa pressão para conter a epidemia e os materiais médicos ainda estão em falta, disse a embaixadora chinesa na Grécia, Zhang Qiyue, em uma cerimônia de entrega com o ministro grego da Saúde, Vasilis Kikilias, na pista do aeroporto Eleftherios Venizelos.

    Citando as palavras do filósofo grego Aristóteles (“O que é um amigo? Um amigo significa uma única alma habitando dois corpos”), Zhang disse que “a China e a Grécia têm trabalhado estreitamente em conjunto na luta contra a COVID-19, mostrando evidências da profunda amizade entre as duas nações”.

    “Agora, quando a situação na China está melhorando um pouco, estamos fazendo o nosso melhor para ajudar o povo grego no combate a isso. Acreditamos na solidariedade, acreditamos na cooperação. Achamos que a solidariedade e a cooperação são a melhor arma para combater esse vírus”, acrescentou Zhang.

    “Estamos profundamente honrados e gratos, e esperamos que você continue a mostrar esses sentimentos de ajuda e apoio ao povo grego”, disse Kikilias.

    Após o evento de entrega, Zhang disse à Xinhua que “a epidemia na Grécia está ficando cada vez mais séria (…). China e Grécia são excelentes amigas e parceiras, e por isso estamos fazendo tudo o que podemos para ajudar.”

    O ministro grego do Estado, Giorgos Gerapetritis, o ministro do Meio Ambiente e Energia, Kostis Hatzidakis, e o ministro alternativo das Relações Exteriores para Assuntos Europeus, Miltiadis Varvitsiotis, também estavam presentes no evento, de acordo com um comunicado do Ministério da Saúde grego.

    No início desta semana, Kikilias visitou a embaixada chinesa em Atenas, onde Zhang lhe entregou 50 mil máscaras faciais doadas pela comunidade chinesa na Grécia.

    Até sexta-feira à noite, a Grécia havia registrado 10 mortes pela epidemia, de acordo com as informações da agência nacional de notícias do país. Mais cedo, o Ministério da Saúde grego informou 495 casos confirmados de COVID-19 em todo o país.

    Também, segundo a Xinhua, dez países asiáticos receberam suprimentos médicos doados pela Fundação  Jack Ma, para ” ajudá-los na luta contra o novo coronavírus”.

    Afeganistão, Bangladesh, Camboja, Laos, Maldivas, Mongólia, Mianmar, Nepal, Paquistão e Sri Lanka receberão um total de 1,8 milhões de máscaras, 210 mil kits de teste de COVID-19, 36 mil peças de trajes de proteção e outros materiais, como respiradores e termômetros de testa.

    “Entregar rápido não é fácil, mas vamos conseguir”, postou Jack Ma, fundador do Alibaba Group, em sua conta no Twitter. “Força, Ásia!”

    As fundações anunciaram na quinta-feira que doarão 2 milhões de máscaras faciais, 150 mil kits de teste e 20 mil trajes de proteção para Malásia, Indonésia, Tailândia e Filipinas.

    A cidade de Fuqing, Província de Fujian, leste da China, enviará 700 mil máscaras faciais doadas a países como Itália, Grã-Bretanha e Japão para ajudar os chineses no exterior a combaterem a COVID-19, segundo as autoridades locais.

    As máscaras foram doadas por empresas e instituições de caridade da cidade, de onde são mais de 1,6 milhão de chineses que moram no exterior.

    Nesta terça-feira, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, e o presidente do Paquistão, Arif Alvi, reuniram-se em Beijing, prometendo “aumentar a cooperação na prevenção e controle da epidemia da COVID-19”.

    Após início do surto, o Paquistão, como amigo da China, ofereceu assistência rapidamente ao povo chinês, lembrou Li.

    Ele disse que os dois países estão enfrentando desafios da epidemia no momento, e a China está disposta a compartilhar experiências de controle e fornecer suprimentos médicos ao Paquistão.

    Li assinalou que os esforços da China para conter a COVID-19 “alcançaram um ímpeto sustentado e sólido, já que a disseminação do novo coronavírus foi basicamente controlada”.

    “À medida que o novo coronavírus está se espalhando em outras regiões do mundo, a China está disposta a intensificar a cooperação com a comunidade internacional para proteger conjuntamente a segurança global da saúde pública, ressaltou Li.

    Essa doação faz parte dos esforços globais que a Fundação Jack Ma promoveu para apoiar as áreas mais afetadas pela crise de COVID-19, fornecendo e distribuindo vários tipos de suprimentos médicos para países como  Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos, Itália, Bélgica, França, Espanha, Holanda e Eslovênia.

    Fundada por Jack Ma, criador do conglomerado  Alibaba Group, a Fundação Jack Ma foi criada em 2014 e tem se concentrado em educação, empreendedorismo, liderança de mulheres e meio ambiente.

    Como os casos de COVID-19 continuam aumentando em todo o mundo, algumas empresas de internet com sede em Beijing estão fornecendo serviços de consulta médica e psicológica online gratuitos para as pessoas do exterior, a fim de ajudá-las a combater a epidemia.

    Mais de 100 mil médicos da Baidu Health, uma plataforma de serviços de ajuda direta que integra grandes instituições profissionais de assistência médica na China, fornecem serviços de 24 horas para as pessoas, incluindo os chineses que vivem em outros países.

    Outro portal da internet, a JD Health, também lançou uma plataforma global de consulta de saúde gratuita, reunindo vários especialistas e médicos com uma rica experiência antiepidêmica, incluindo 30 especialistas em medicina tradicional chinesa.

    A JD Health também oferece serviços de consulta em inglês para facilitar que estrangeiros procurem ajuda médica.

    Shenyang, capital da Província de Liaoning, no nordeste da China, doará 10 mil máscaras descartáveis e 500 trajes de proteção para a cidade de Braga, Portugal, segundo informou a prefeitura local.

    Em uma carta ao prefeito de Shenyang, Jiang Youwei, na quinta-feira, Ricardo Rio, o prefeito de Braga, disse que sua cidade espera aprender com a experiência de Shenyang na prevenção e controle do coronavírus, bem como o apoio.

    As autoridades de Shenyang organizaram uma videoconferência na sexta-feira à tarde com funcionários e especialistas médicos de Braga para compartilhar sua experiência na prevenção epidêmica e gerenciamento de crise de saúde pública.

    Shenyang e Braga estabelecerão uma relação de cidade-irmã de acordo com um acordo assinado durante a visita de Ricardo Rio à cidade chinesa em outubro de 2017.

    Especialistas chineses em medicina tradicional chinesa e na ocidental compartilharam, por videoconferência sua experiência no tratamento de pacientes de COVID-19 com seus colegas da Itália, Estados Unidos, Bélgica, Japão e Organização Mundial da Saúde (OMS).

    “A melhor experiência da China é internar todos os pacientes no hospital”, disse Zhou Ning, cardiologista do Hospital Tongji, em Wuhan, o epicentro da epidemia, na chamada de vídeo ocorrida na sexta-feira à noite.

    “Como a COVID-19 é altamente contagiosa, colocar os pacientes com sintomas leves em quarentena domiciliar é como espalhar fogo por toda parte, o que finalmente levará à infecção de toda a família”, disse ele.

    “Internar todos os pacientes também pode impedir que os pacientes com sintomas leves se tornem casos graves, o que, por sua vez, diminui a taxa de fatalidade”, acrescentou Zhou.

    A opinião é compartilhada por Li Guangxi, diretor da divisão pulmonar do Hospital Guang’anmen de Beijing, que acredita que, os pacientes devem receber tratamento precoce. “Precisamos focar na primeira semana da doença. É a janela dourada para evitar o desenvolvimento da doença de leve a grave.”

    A COVID-19,ao contrário do que se diz,  tem uma taxa de letalidade alta quando não tratado a tempo, disse Jeffrey Shaman, professor de Ciências da Saúde Ambiental da Universidade de Columbia, dos EUA. “Há uma cauda longa em que há uma parcela da população para a qual os resultados são bastante severos.”

    Para o tratamento de pacientes graves e críticos, Zhou disse que a experiência do Tongji é usar um sistema de respiração para fornecer oxigênio suficiente, empregando máquinas de oxigenação de membrana extracorpórea (ECMO) e restringindo a tempestade inflamatória da doença com purificação do sangue.

    “Usamos esteróides muito geralmente. É muito útil para os pacientes cujo índice de oxigenação é muito baixo”, disse Zhou. “Mas não acho que antibacteriano seja muito útil, especialmente no estágio inicial, já que a COVID-19 é uma doença de vírus, não é causada por bactérias.”

    Li também recomendou o uso da medicina tradicional chinesa. “Usamos diferentes ervas chinesas para pacientes e eles têm uma boa recuperação.”

    Segundo ele, cerca de 96 % dos pacientes de COVID-19 fora da Província de Hubei, a mais atingida, e 90% em Hubei receberam tratamento de medicina tradicional chinesa, de acordo com a Administração Nacional de Medicina Tradicional Chinesa.

    “O teste de ácido nucleico, a vinculação em casos confirmados ou pessoas que estão expostas a esses casos, e a quarentena de todos foram feitos com muito sucesso em Wuhan. Isso é o que precisa ser feito”, disse Margaret Harris, porta-voz da OMS sobre a COVID-19, na videoconferência.

    “Somos muito gratos pelo grande trabalho que vem sendo feito na China e em outros países asiáticos, porque está demonstrando que é possível parar esse surto”, acrescentou Harris.

    “As crises de saúde pública colocam um desafio comum para a humanidade, e a solidariedade e a cooperação são as armas mais poderosas para combatê-las”, disse o presidente chinês, Xi Jinping, em uma recente mensagem de pêsames à chanceler alemã, Angela Merkel.

    “A China deseja que os EUA reflitam seriamente sobre si mesmos e eliminem seu vírus político de preconceito ideológico”, disse o porta-voz Geng Shuang  em resposta à alegação dos EUA de que as medidas impostas à mídia dos dois países não são recíprocas.

    “A retórica agressiva expôs completamente o preconceito ideológico profundamente enraizado dos EUA”, disse Geng, observando que os EUA sabem claramente que a China é um país socialista liderado pelo PCC desde que os dois países estabeleceram laços diplomáticos, há mais de 40 anos.

    “Desde que as agências de mídia chinesas estabeleceram filiais nos EUA, a natureza delas tem sido claramente entendida pelo lado dos EUA”, disse Geng, acrescentando que a liderança do PCC é ainda a característica mais essencial do socialismo com características chinesas, e a natureza da mídia chinesa permanece inalterada.

    Notando que os países são diferentes nas condições nacionais e em sua maneira de gerenciar e administrar a mídia, Geng perguntou o que levou os EUA “a julgar a mídia de outros países com seu próprio padrão e com base em sua própria ideologia, e rotular, estigmatizar e suprimir irracionalmente a mídia chinesa”.

    Geng disse que o lado chinês não pretende mudar o sistema político dos EUA, e espera que os EUA também respeitem o da China.

    “Se o lado dos EUA acredita na superioridade do seu sistema e na vitória final da democracia e liberdade ocidentais, por que temeria o PCC e a mídia chinesa?”, perguntou o porta-voz.

    Sinais de normalização

    Desde domingo não se registram novos casos de infecção local pelo novo coronavírus na parte continental da China.

    Os novos casos registrados no continente chinês pela Comissão Nacional de Saúde são todos oriundos do exterior.

    O total de casos importados chegou a 353 no domingo.

    Também no domingo, nove mortes e 47 novos casos suspeitos foram relatados no continente chinês, com todas as mortes registradas na Província de Hubei.

    No mesmo dia, 459 pessoas foram curadas e saíram do hospital, enquanto o número de casos graves diminuiu para 1.749.

    No total, os casos confirmados na parte continental da China chegaram a 81.093 até o final do domingo, incluindo 5.120 pacientes ainda em tratamento. O número dos pacientes infectados que receberam alta é de  72.703, segundo as autoridades chinesas.

    O total de mortes na china desde o início da epidemia soma  3.270.

    (Com informações da Xinhia News, G1 e NYT)

  • Crise política pode ser mais danosa que a epidemia no Brasil

    Crise política pode ser mais danosa que a epidemia no Brasil

    “Brevemente o povo saberá que foi enganado por esses governadores e por grande parte da mídia nessa questão do coronavírus”.

    “Espero que não venham me culpar lá na frente pela quantidade de milhões e milhões de desempregados”.

    As declarações do presidente Jair Bolsonaro à Rede Record, na noite deste domingo, 22, são os sintomas mais leves da grave doença institucional que se dissemina  pelo corpo político do país, turbinada pela emergência da epidemia de Covid-19.

    O coronavirus, já sob controle nos países asiáticos, chegou há 35 dias ao Brasil, alcançando já 1.600 casos, com 25 mortes e com a expectativa de que se alastrará em progressão geométrica nas próximas semanas.

    A emergência médico-sanitária que assombra a população, no entanto, ainda não foi suficiente para promover uma trégua na guerra político-ideológica que se radicalizou no país desde o impeachment  da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2015.

    Ao contrário, a divisão se aprofundou e ampliou.

    O virus das ambições político-eleitorais racha a oposição, que nem o golpe de 2016 conseguiu galvanizar e, agora, se dissemina como uma epidemia pelas forças governistas, cujo líder, o presidente da República, de olho na reeleição, parece não ver a realidade.

    Desdenhou dos riscos da epidemia, não foi, até agora, capaz de liderar um esforço conjunto para enfrentar o vírus e, vendo ameaças às suas pretensões em todo o lado, esvazia seu ministro da Saúde e hostiliza governadores que tentam tomar a iniciativa.

    As desastradas manifestações do presidente-candidato solapam a sua popularidade  e estimulam ambições no Congresso (o presidente da Câmara já se move como candidato) e nos Estados (pelo menos quatro governadores são pré-candidatos) e até no Judiciário.

    Panelaços diários nas principais cidades do país registram a inconformidade da população e alimentam os discursos de ruptura – pelo menos três pedidos de impeachment do presidente estão protocolados no Congresso.

    Cinco anos de recessão, desemprego renitente, desigualdade crescente e um pleito municipal à vista -são os ingredientes básicos desse caldo grosso que alimenta o vírus da crise política.

    As estimativas mais pessimista falam em 40 milhões de desempregados em consequência da paralisação da economia por conta do combate à epidemia.

    A disseminação previsível do coronavírus nas cadeias, onde 700 mil prisioneiros estão segregados em condições sub-humanas,  e nas áreas vulneráveis das periferias das grandes cidades do país, onde vivem milhões e falta até água e sabão, completa o quadro da grave ameaça que paira sobre o Brasil.

    A epidemia vai passar, mas as consequências dela para os brasileiros são imprevisíveis.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Bolsonaro ainda chamou os governadores de “exterminadores de empregos” por decretarem medidas restritivas à circulação de pessoas.

     

     

  • Medidas para o sistema prisional

    O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) emitiu nesta terça-feira (17/3) recomendação a tribunais e magistrados para adoção de medidas preventivas à propagação do novo coronavírus no sistema de justiça penal e socioeducativo (Recomendação CNJ 62/2020). As medidas devem vigorar por 90 dias, com possibilidade de prorrogação. A recomendação foi enviada aos presidentes de tribunais para divulgação aos magistrados.

    A recomendação traz orientações ao Judiciário em cinco pontos principais: redução do fluxo de ingresso no sistema prisional e socioeducativo; medidas de prevenção na realização de audiências judiciais nos fóruns; suspensão excepcional da audiência de custódia, mantida a análise de todas as prisões em flagrante realizadas; ação conjunta com os Executivos locais na elaboração de planos de contingência; e suporte aos planos de contingência deliberados pelas administrações penitenciárias dos estados em relação às visitas.

    O texto considera que a manutenção da saúde das pessoas privadas de liberdade, especialmente devido à situação de confinamento e superlotação nos presídios brasileiros, é essencial para a garantia da saúde coletiva e da segurança pública. Destaca, ainda, a importância da adoção de medidas para zelar pela saúde dos profissionais que atuam no sistema de justiça penal e socioeducativo enquanto se mantém a continuidade da prestação de Justiça.

    Sistema prisional

    O texto recomenda a suspensão da realização das audiências de custódia por 90 dias, com a manutenção do controle de prisão pela análise do auto de prisão em flagrante, além de medidas preventivas em outras audiências necessárias. Sugere também a reavaliação de prisões provisórias, especialmente quanto a grupos mais vulneráveis (como mães, portadores de deficiência e indígenas) ou quando o estabelecimento estiver superlotado ou sem atendimento médico. Recomenda, ainda, reavaliação de prisões preventivas com prazo superior a 90 dias ou que resultem de crimes menos graves, além de indicar que novas ordens de prisão devem respeitar ‘máxima excepcionalidade’.

    Quanto aos presos que já cumprem pena, o texto sugere que os magistrados avaliem a concessão de saída antecipada nos casos previstos em lei e na jurisprudência, e também a reconsideração do cronograma de saídas temporárias em aderência a planos de contingência elaborados pelo Executivo. Recomenda a opção pela prisão domiciliar aos presos em regime aberto ou semiaberto ou quando houver sintomas da doença, assim como suspensão da obrigatoriedade de apresentação em juízo pelo prazo de 90 dias nos casos aplicáveis.

    O texto ainda recomenda que os magistrados zelem pela elaboração e implementação de um plano de contingências pelo Poder Executivo com medidas sobre higiene, triagem e circulação, assim como racionalização da organização das visitas para garantir a saúde dos envolvidos enquanto se mantém o fluxo de abastecimento de itens de necessidades básicas trazidos pelos visitantes, muitas vezes essenciais para a manutenção de padrões mínimos de sobrevivência.

    Adolescentes

    Em relação aos adolescentes autores de ato infracional, o texto recomenda aos juízes a aplicação preferencial de medidas socioeducativas em meio aberto e a revisão das decisões que determinaram a internação provisória, especialmente em relação a adolescentes mães, indígenas e portadores de necessidades especiais, adolescentes que estejam em unidades superlotadas ou nas quais não exista equipe de saúde.

  • Pedidos de impeachment têm pouca chance de prosperar

    Pedidos de impeachment têm pouca chance de prosperar

    Dois pedidos de impeachment do presidente Jair Bolsonaro estão protocolados na Câmara Federal.

    Um do deputado Leandro Grass (Rede-DF) e outro de três deputados do PSOl: Fernanda Melchiona, Samia Bonfim e David Miranda.

    Este tem um abaixo assinado em que despontam artistas, acadêmicos e religiosos, como Zélia Duncan, Gregorio Duvivier, Pablo Ortelado, Debora Diniz, Rosana PinheiroMachado, Vladimir Safatle, entre outros.

    Um terceiro pedido, ainda não efetivado, foi anunciado pelo deputado Alexandre Frota, um ex-aliado de Bolsonaro, hoje critico acerbo do presidente.

    Cabe ao presidente da Casa, Rodrigo Maia dar ou não andamento a essas demandas. Ele teria, de saída, que criar uma comissão para analisar os pedidos e ver a consistência de cada um.

    Embora seja um crítico severo do presidente, é pouco provável nas circunstâncias atuais que Rodrigo Maia tome qualquer providência neste sentido.

    Primeiro porque, em função do coronavirus, os trabalhos na Câmara estão reduzidos ao mínimo indispensável.

    Segundo porque um processo de impeachment num ambiente nacionalmente conturbado em função da epidemia seria um transtorno sem precedentes, com terrível desgaste para o parlamento.

    Terceiro porque, conforme a Constituição se houver um impeachment nestas alturas, teria que ser convocada nova eleição o que é impensável neste momento.

    Ou seja, a menos que fatos novos muito graves apareçam, são próximas de zero as chances de um pedido de impeachment do presidente prosperar neste momento.

    Em todo caso, os pedidos estão lá e o coronavirus ainda que faça grandes estragos, em três ou quatro meses estará controlado, conforme todas as evidências.

    Quando a epidemia passar, teremos uma economia devastada e um ambiente político em ebulição. Poderá ser um terreno fértil para manobras radicais.

    Além disso, se o processo se estender até o ano que vem, até muitos bolsonaristas, hoje decepcionados com o presidente, poderão apoiar sua saída, se o lugar for ocupado pelo general Hamilton Mourão.

    Neste caso, até a Rede Globo, epicentro das críticas a Bolsonaro, apoiaria com entusiasmo.

     

  • Os movimentos de Eduardo Leite para “unir o Rio Grande”

    Os movimentos de Eduardo Leite para “unir o Rio Grande”

    Dois fatos divulgados nesta quarta-feira indicam uma inflexão na estratégia política do governador Eduardo Leite.

    O primeiro é a reunião dos deputados da bancada do Partido dos Trabalhadores  com o chefe da Casa Civil do governo estadual, Otomar Vivian, para uma troca de ideias sobre o enfrentamento à estiagem que já causa sérios prejuízos às lavouras.

    Emitido na segunda-feira, para a reunião na terça, o convite surpreendeu a bancada do PT, o principal partido de oposição ao governo Eduardo Leite (PSDB).

    Na reunião da bancada,  houve quem tomasse por brincadeira: um governo tucano convidando deputados petistas para saber de ações acertadas de um governo do PT, num ano de eleição?

    Além do mais, se quisesse saber como o governo Tarso Genro (PT) enfrentou a estiagem em 2011, o governo Eduardo Leite não precisaria ouvir deputados do PT, bastava consultar os arquivos do Piratini.

    Foi um gesto político, entenderam todos. O PT retribuiu, mesmo sem entender bem o significado do convite, e saiu do encontro  entendendo menos ainda.

    Foi levantada a hipótese de ser uma atitude preventiva, ante uma iminente mobilização do MST no Estado, logo descartada ante a constatação da escassa influência do PT nas decisões do MST.

    No fim da manhã desta quarta-feira 11,  24 horas depois do encontro, ainda não havia uma avaliação na bancada do partido. É inegável, porém, a importância dessa atitude, de ambos os lados.

    O segundo fato também ocorreu na terça-feira, desta vez no gabinete do governador, onde Eduardo Leite recebeu uma  comitiva de deputados de dez partidos, capitaneados pelo ex-governador Pedro Simon (MDB) e o presidente da Assembleia, Ernani Polo (PP).

    Eles foram pedir que o governador assuma a liderança de um movimento nacional pelo ressarcimento das perdas de arrecadação de ICMS causadas pela Lei Kandir.

    A Lei Kandir, aprovada em 1996 para estimular as exportações, é uma das causas principais da crise das finanças estaduais.

    Um cálculo feito pela Secretaria da Fazenda diz que o Rio Grande do Sul tem 67 bilhões de reais para receber como ressarcimento pelas perdas com a isenção total de impostos sobre a exportação de produtos primários.

    O estudo da Fazenda que chegou a esse número foi feito em agosto. Até agora o governador havia evitado esse assunto. Seus porta-vozes dizem que falar em perdas da Lei Kandir “é acreditar em Papai Noel” ou “vender ilusões”.

    Entende-se. O governador está numa negociação, que herdou do governo anterior, para suspender o pagamento da dívida do Estado com a União por seis anos.

    Para isso precisaria aderir ao Programa de Ajuste Fiscal transformado em lei no governo Temer e que condiciona o socorro aos Estados, entre outras coisas, à não cobrança de pendências com a União, como a Lei Kandir.

    Nestas circunstâncias, a última pessoa a querer pegar a bandeira  da Lei Kandir, seria o governador  Eduardo Leite.

    Ele não assumiu a causa, mas o fato de ter recebido uma frente parlamentar com representantes de dez partidos, tendo como padrinho Pedro Simon, aos 90 anos, é revelador.

    Embora tenha dito que esta não é a solução para a crise financeira, Leite determinou a criação de um grupo de trabalho com participação da Secretaria da Fazenda, e sugeriu uma articulação com os demais governadores mobilizados.

    Esses dois movimentos do governador se decifrarão nos próximos dias, provavelmente.

    Por enquanto o que eles indicam, claramente,  é que Eduardo Leite está levando a sério aquela sentença que corre no meio político, de que ele só terá  chance no plano nacional se conseguir “unir o Rio Grande”.

    Senão, será o décimo governador tragado pelo buraco do déficit público. O primeiro foi exatamente Pedro Simon.

  • Estudo conclui que prefeitura de Porto Alegre não tem déficit, nem dívidas

    Estudo conclui que prefeitura de Porto Alegre não tem déficit, nem dívidas

    O Simpa apresentou nesta quarta-feira um estudo feito pelo Instituto Idea sobre as finanças públicas de Porto Alegre.

    Os autores apontam fontes oficiais e a conclusão é grave: o governo Marchezan desde que assumiu em janeiro de 2017 mente sobre o orçamento do município.

    Não há déficit e o prefeito cortou serviços, atrasou e parcelou salários com dinheiro em caixa.

    O estudo “A verdade sobre as finanças de Porto Alegre”, concluído no final de fevereiro, foi apresentado na sede do Sindicato dos Municipários de Porto Alegre, com a presença dos autores – Marcia Quadrado, José Mário Neves e Jeferson Miola.

    Os autores são todos ligados às ex-administrações da Frente Popular (1988 a 2004) e o estudo, obviamente, será uma peça importante na campanha eleitoral deste ano.

    A questão é que as fontes dos dados e gráficos que eles utilizam são o Tribunal de Contas do Estado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a Fundação de Estatística, a Fazenda Municipal e o Portal da Transparência da própria Prefeitura.

    E as conclusões apresentadas, com base nesses números oficiais, desmentem o discurso do prefeito, reverberado pela mídia diáriamente.

    “Há mais de 20 anos, Porto Alegre não paga as contas em dia”, é uma frase que o prefeito Marchezan repete desde o início de seu mandato.

    Os números reunidos pelo Estudo mostram o contrário: nos últimos 16 anos (de 2004 a 2019), a prefeitura teve déficit orçamentário em apenas três anos: 2004, 2012 e 2013, nenhum, portanto, no período Marchezan.

    Nos três anos do atual mandato, segundo o trabalho apresentado, o orçamento municipal registra um superávit acumulado de mais de R$ 1 bilhão.

    Em 2017, ano em que a prefeitura previu um déficit de R$ 782,6 milhões, o resultado final foi  um superávit de R$ 175,1 milhões, segundo o estudo.

    Em 2018, a previsão de déficit de R$ 989 milhões deu lugar a um superávit de 378,1 milhões.

    E, em 2019, o déficit previsto pelo prefeito, de R$ 1,16 bilhão,  converteu-se num superávit de R$ 569 milhões.

    Em relação ao exercício de 2019, os dados apurados foram obtidos no Sistema de Despesa Orçamentária da Secretaria Municipal da Fazenda, uma vez que o Balanço das Finanças Públicas ainda não foi fechado.  Os valores estão atualizados pelo IPCA até 31 de dezembro de 2019.

    No período estudado (2004/2019), ao contrário do que têm dito o prefeito e seus auxiliares, o crescimento das receitas do município foi de 58,15% ao passo que as despesas totais cresceram 39,37 % em termos reais.

    “Em todo esse período, as despesas de pessoal sempre ficaram bem abaixo do limite definido pela Lei de Responsabilidade Fiscal”, concluem os autores da pesquisa.

    O endividamento, que é um ponto de fragilidade do setor público nacional, em Porto Alegre não é problema. Os juros e amortizações pagos anualmente pela Prefeitura Municipal estão na casa dos R$ 200 milhões, o que equivale a pouco mais de 2% do orçamento anual.

    A conclusão dos autores do estudo é de que o prefeito criou “um simulacro de crise para apresentar-se como o herói que equilibrou as contas”.