A Unidade como ponto de partida

Roberto Amaral
Sempre que o debate político – chamado pela realidade – se volta para a discussão sobre a unidade (como necessidade) das esquerdas, torna-se relevante, e até mesmo pedagógico, revisitar experiências como as de 1954 e 1955. Elas precisam ser lembradas como lições e advertências aos que desconhecem nossa história recente, e, ignorando-a, tendem a repetir os erros passados.
Em 1954 – primeira etapa do golpe que se consolidaria em 1964 com a ditadura militar – as esquerdas se deram ao luxo de se dividir na defesa x denúncia de Getúlio Vargas, envolvidas, lamentavelmente não pela última vez, pelo discurso moralista articulado pela direita para dar justificativa à deposição do presidente.
O Partido Comunista, liderado por Luís Carlos Prestes, então carente de visão estratégica, associou-se ao udenismo e ao lacerdismo, ao que havia de pior na imprensa brasileira (Diários Associados e O Globo) e às forças militares golpistas (nomeadamente Eduardo Gomes, Juarez Távora e Pena Boto) no pleito da renúncia do presidente.
Uma vez mais tomava-se a aparência pela realidade, e, em nome do combate a uma corrupção jamais demonstrada, os pecebistas associaram-se na operação de desmonte de um governo nacionalista, comprometido com o trabalhismo e o desenvolvimento nacional.  Assim facilitaram o golpe que se consumaria na posse de Café Filho, e na ascensão, dentre outros, de Eugenio Gudin (que combatia a industrialização do país) ao Ministério da Fazenda, além de Raul Fernandes (que entendia que o Brasil deveria ser uma ‘província’ dos EUA), antecipando-se em tantas dezenas de anos ao atual chefe do Itamaraty.
No dia do suicídio de Vargas, sem lideranças, as grandes massas saíram às ruas para prantear o presidente morto, e, em sua rebeldia tardia, incendiaram viaturas de O Globo e depredaram as dependências da Voz Operária, jornal do PCB, que, na véspera, circulara encimado por uma manchete de letras garrafais acusando Getúlio Vargas de “lacaio do imperialismo”, imperialismo que sabidamente estava por atrás de todas as conjurações golpistas.
Nada mais simbólico, mas igualmente denotativo do fracasso de nossas lideranças.
Em 1955, as esquerdas, que já se haviam unificado no processo eleitoral, ampliam sua unidade e atraem setores liberais na frente ampla que defenderia a legalidade, e asseguraria a eleição de Juscelino Kubistcheck e João Goulart, e ainda desmontariam o segundo golpe da direita civil-militar, que visava a impedir sua posse.
Na primeira fila dos que conosco defendiam a legalidade (e por força dela a posse dos eleitos) estava, entre outros, o líder católico, conservador, Sobral Pinto, que voltaria aos nossos palanques quando, novamente unidos, construímos a Frente ampla pelas Diretas-jáque implodiria o colégio eleitoral montado pela ditadura para nomear seu delfim e, rebelado, elegeria Tancredo Neves.
Desaprendemos?
O 24 de janeiro que se aproxima para nós como um desafio é uma etapa, importantíssima, na luta das forças populares contra o governo entreguista e as ameaças crescentes ao processo eleitoral democrático. Por óbvio todos os democratas estarão envolvidos na mobilização popular que visa a expressar a vontade majoritária do povo brasileiro e impedir a usurpação anunciada.
Uma etapa, importantíssima, mas que não encerrará a luta toda. Pode ser, até, apenas um ponto de partida. Para enfrentar o farisaico julgamento político de Lula, quando três juízes podem ditar a sentence redigida pelas forças antipopulares, e as demais ameaças que já estão em laboratório, o primeiro passo é a unidade política das esquerdas, o que não implica necessariamente aliança eleitoral, mas compromissos estratégicos, conditio sine qua non para a formação de uma grande e ampla aliança nacional em defesa da democracia, do desenvolvimento e da soberania nacional.
A esquerdas desunidas fazem a festa da direita; unidas mas isoladas, não terão forças para derrogar o projeto da direita; unificadas em torno de objetivos concretos que não se limitam a eventuais alianças eleitorais, poderão ampliar suas forças para além de seu campo. O caminho óbvio é este: concertar o discurso, adotar um programa mínimo de ação claro e exequível, ampliar sua composição e suas perspectivas de lutas, de sorte a conquistar setores ainda refratários, dialogar com a classe média e liderar os trabalhadores. É preciso conquistar novas forças para vencer nossos adversaries, que jamais estiveram (nem mesmo em 1964) tão unidos como presentemente.
De novo o risco de tomar as aparências como a realidade: é uma extrema tolice confundir a proliferação (tática) de pré-candidaturas reacionárias como divisão da direita. Há algum cisma entre o capital financeiro nacional e internacional, a CNI e a Fiesp, o império midiático, a reação parlamentar, o poder judiciário, a Polícia Federal, o Ministério Público e seus salvacionistas?
Nada disso, porém, deve soar como convite à retomada da política de conciliação que limitou os avanços dos governos Lula e levou ao colapso do governo Dilma. A frente de agora tem um objetivo imediato e concreto: impedir o avanço do programado ataque à democracia.
A primeira tarefa é óbvia, a luta por assegurar eleições limpas e livres de golpes de mão, e a primeira condição é a presença de Lula na disputa. É inadmissível aceitar que três togas substituam o povo brasileiro, representado por um colégio de mais de 140 milhões de leitores. Isso é inadmissível, como é inaceitável qualquer alteração relativa às atribuições do Executivo e às competências do presidente da Republica.
“Presidencialismo mitigado” ou “parlamentarismo à Alemanha” seriam apenas mais um golpe contra as regras constitucionais e a vontade popular que em dois plebiscitos rejeitou o regime de gabinete. É preciso explicar às grandes massas que o enfrentamento ao golpe em processo continuado e ao seu projeto antipopular depende da força da democracia, e que as forças sociais é que são seu sustentáculo.
Vencida essa travessia, estará à nossa frente a via eleitoral e a exigência histórica de um candidato com força suficiente para estancar o desmonte da economia nacional, reconciliar a nação e retomar o desenvolvimento, o que implica, necessariamente, a revogação das principais medidas recessivas e antipopulares do regime ilegítimo.
Ou seja: nosso candidato precisará ganhar em condições de governar.
As forças não petistas, partidárias ou não, muito contribuirão para o avanço coletivo na medida em que entenderem, e não lhes resta muito tempo, que o que está em jogo, correndo risco de vida, não é nem o PT nem Lula, mas o processo democrático, sem o qual dificilmente avançarão os interesses populares, ou sobreviverá o movimento sindical, ou as forças populares e os movimentos sociais de um modo geral. E essa aglutinação de forças é que decidirá o rumo que tomará a História.
Nossas organizações e suas lideranças deverão entender que ninguém e nenhum força de nosso campo avançará sobre eventuais despojos do PT e de Lula, e que é ainda muito cedo, qualquer que seja o resultado do julgamento de 24 de janeiro, para falar no ‘pós-Lula’ (uma utopia dos ‘cientistas’ do sistema), pois sua liderança – e eis uma das poucas evidências que podemos colher do cenário de nossos dias — permanecerá ativa enquanto houver pobres e desamparados neste País.
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O guerreiro que se despede – Havendo dedicado sua vida à luta contra a tragédia social, Pedro Porfírio foi finalmente derrotado pela tragédia biológica, e deixa mais um grande vazio  entre os lutadores pela democracia e o socialismo. Conheci-o ainda adolescente, mas já líder estudantil e de esquerda, nos idos dos anos 60, atuando em Fortaleza. Cedo, como muitos de sua geração, migrou para a cidade grande onde cumpriu uma longa carreira como jornalista e escritor e político, trabalhista à moda Pasqualini, e amigo de Leonel Brizola, com quem conviveu e cuja memória reverenciou.
Pelo PDT foi vereador do Rio de Janeiro. Jamais ensarilharia as armas. Quando não mais lhe foi permitido atuar nas redações (já doente, porém, ousou disputar eleições) transformou seu computador em sua arma de guerra e através de seu blog e em seu ‘exílio doméstico’, como chamava sua dacha em Vargem Grande, manteve-se na trincheira da luta, animando-nos, encorajando-nos, mantendo-nos de pé com seu exemplo edificante.
Há passos que passam e pegadas que ficam, como raízes fundas e firmes, diz-nos o Pe. Vieira em seu sermão da Primeira Dominga do Advento. As pegadas de Porfírio permanecerão.

O ano que terminou antes

Elmar bones
Politicamente, 2017 terminou em outubro quando o Congresso rechaçou, pela segunda vez, a denúncia contra Temer.
Ali fixou-se um dos marcos que vão balizar as eleições gerais de 2018, quando apenas prefeitos e vereadores vão escapar ao crivo das urnas.
Ali ficou decidido que Temer vai conduzir o processo cuja meta central é a legitimação, pelas urnas, do golpe parlamentar comandado por Eduardo Cunha. Temer fará poses de árbitro, mas tem as cartas e joga de mão.
Tem contra si a impopularidade e a idade. Impopularidade reverte-se com propaganda e mídia a favor, já as crises renais podem surpreender mesmo os melhores médicos.
O outro fator que antecipou o 2018 político foi a campanha popular de Lula pelos Estados, como pré-candidato.
Com seis meses de antecedência ele se firmou como o único em condições de derrotar o golpe nas urnas.
Temer, apesar de todas as evidências, gravações, malas, imagens, só poderá ser investigado quando deixar o cargo.
Lula, com base em evidências questionáveis, já foi condenado e pode ser barrado por uma decisão de três juízes do Tribunal Federal da 4ª Região, em Porto Alegre.
As mobilizações de apoio a Lula prometem transformar Porto Alegre na capital política do Brasil neste janeiro.
Sempre vazia no  “veraneio”, a cidade estará irreconhecível.
Este janeiro de 2018 em Porto Alegre, politicamente falando, já está lá em setembro, em plena campanha.
 
 

Eles não querem diminuir o desemprego

ANDRES VINCE
No início de 2014, quando o Brasil beliscou o pleno emprego, do alto da mesa mais cara, do restaurante mais caro, da cidade mais cara, foi decretado: “isso tem que acabar!”.
A gota d’água, que transbordou a taça da elite econômica brasileira, havia pingado de algum lugar entre a cozinha e os corredores das mesas, por onde circulam os serviçais.
Estava decidido: nenhum membro daquela elite iria tolerar mais ser submetido aos desmandos dessa ditadura de trabalhadores que se instalou no país. Nenhum deles iria aceitar mais negociar em igualdade de condições. “Aumento real de salário?”. Abusados. “Tem quem pague?”. Mentira! Que absurdo! “Participação maior nos lucros crescentes?”. Um acinte! “Ampliar direitos trabalhistas?” Vândalos! Estão acabando com a livre iniciativa! Como vamos investir num país onde somos reféns “dessa gente”?
Menos de três anos depois, tudo já está resolvido. Não só resolvido, como definitivamente remediado. A cobra está morta, e agora, orgulhosa, a elite mostra o pau.
Não adiantou nem tomar a mesa do Senado à unha, para evitar que o trabalhador fosse servido de sobremesa. E a cena das senadoras comendo quentinhas na mesa do Senado, patética para os elitistas, era apenas o ensaio do que o trabalhador será submetido daqui pra frente.
Porque é assim que funciona: hoje, te tiram meia hora de almoço; amanhã será: “pra que almoço?”. Tudo em nome da modernidade e da competitividade
Mas, a verdade é que essa elite nacional não quer competir com ninguém. Nâo conseguem dar conta nem do mercado interno! Eles não precisam de (mais) dinheiro, já tem o suficiente para incontáveis gerações. O problema não é o dinheiro. O objetivo que eles buscavam, e atingiram com méritos, era retomar o poder e, consequentemente, as políticas públicas: “chega de crédito pra pedreiro e açougueiro, nós queremos é o garçom!”.
Certa senadora destes pagos, orgulhosa representante do agronegócio nacional, disse da tribuna, no dia seguinte ao da revogação da lei áurea, que a atitude das senadoras de tomar a mesa foi bolivariana, e que “o Brasil não é uma Venezuela.”.
É uma pena que não seja senadora, pois lá, seja de direita ou de esquerda, as pessoas estão nas ruas, lutando por seus interesses, e, as mortes que esses conflitos geram, são muito mais valorosas que as mortes causadas pela negligência administrativa a qual essa mesma senadora dá suporte. Pelo menos, por lá, as pessoas morrem lutando pelos seus ideais, não por inanição.
Por aqui, ao contrário da Venezuela, onde a resistência é admirável, a elite conseguiu seu objetivo: enfraquecer a classe trabalhadora e as minorias, para que esteja sempre abaixo da sola do sapato do sistema.
Tudo sem causar traumas. Para eles, é claro.
 

Com o País jogado ao caos, a Esquina Democrática foi profanada

ANDRES VINCE
Rebelião nos presídios do Norte que se espalham pelo País. Rio de Janeiro e Espírito Santo completamente fora de controle. RS e RJ sob intervenção federal branca. Enquanto isso, Temerildo nomeia um comparsa como ministro para ele escapar dos ferozes juízes de primeira instância. Mas foi pouco, não contente, Temerildo indica outro comparsa, de carreira jurídica questionável e suspeito de enriquecimento ilícito, para a mais alta corte do País, de onde poderá dar mais uma mãozinha para outros comparsas da gangue.
O caos se espalha rapidamente pelo País, sem encontrar nenhuma resistência, pois, quem deveria estar no comando, está mais preocupado em salvar a própria pele, não sem antes agradar ao empresariado, aprovando “reformas” que só tiram direitos do cidadão, cada vez mais desprotegido e entregue à própria sorte.
Pois ontem (9), esse avanço vertiginoso da deterioração da democracia atingiu seu ápice aqui na cidade de Porto Alegre. Não que surpreenda a violência e a truculência nas ações da BM, já incorporada ao velho “é assim mesmo”. O que surpreende é o simbolismo do local escolhido para efetuar uma prisão completamente sem motivos, porém com um objetivo bem específico: baixar a moral dos manifestantes. E, assim, com esse objetivo torpe, a esquina democrática foi profanada no que tem de mais sagrado: um local historicamente de resistência e de lutas.

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Prisão sem motivos: manifestante foi detido por ajudar os feridos pela BM. Até em guerras os socorristas são preservados, mas, não aqui

Se quem deveria representar a lei, age ilegalmente sob a desculpa de manter a ordem, o que está faltando pra ser caracterizada a ditadura? O rapaz que foi detido era um socorrista, devidamente identificado através da placa/escudo que carregava e outros acessórios que não deixavam dúvidas das intenções do manifestante. Teve todo seu equipamento apreendido e teve que assinar um termo circunstanciado por, alegadamente, impedir o avanço do ônibus do batalhão de choque. Nem ao menos fizeram uma alegação decente.
É claro que muitos são contra os atos de depredação, não poderia ser diferente, afinal já estão todos condicionados a se posicionarem contra tudo que coloque em risco “a ordem” estabelecida pelas autoridades.
Também, é claro que esse mesmo pessoal não ligue tanto para o fato que no interior do estado, os bandidos estão explodindo agências bancarias todo santo dia, usando a população como escudo humano e sambando na cara das autoridades. Até viatura da polícia foi incendiada. Contra isso não há nenhuma repressão, nenhuma operação de guerra é montada com o deslocamento de grandes efetivos, nem ao menos há PMs disponíveis pra policiar as ruas.
Mas, isso não tem problema, contra isso ninguém se revolta, afinal, os assaltos a bancos estão acontecendo bem longe do nosso umbigo.
A criminalidade já está fora de controle há tempos e a BM continua sendo usada como ferramenta política, para abafar protestos legítimos.
Se há depredação, que concentrem as ações para coibir esse tipo de atitude. Mas, usam isso como desculpa pra encerrar os protestos na base do gás e bala de borracha. Imagine que haja um grande evento. Alguém dá queixa que teve ser celular furtado. O que a polícia faz? Manda gás no meio de todo mundo e acaba com o evento pra pegar o ladrão ou vai pegar a descrição do sujeito que roubou e tentar localiza-lo? É óbvio que seria a segunda opção, mas por que agem diferente quando é um protesto político? O secretário de segurança disse aos jornais que não iria tolerar via trancada (como se isso fosse algum crime), mas não mandou a polícia baixar o cacete quando trancaram a avenida Goethe, bem diferente do que ocorreu em outras manifestações. Alguma dúvida do uso político da BM?
Por aqui o governador nada de braçadas na maré do golpe. Já conseguiu a Força Nacional, que não disse a que veio até agora. Conseguiu oxigênio com o não pagamento da dívida federal, que não vai resolver coisa nenhuma, só empurrar pro próximo. Conseguiu extinguir fundações importantes para o funcionamento do Estado, economizando pouco mais que o dobro do que gasta em propaganda pra anunciar a crise financeira.
Porém, aos poucos, as consequências vão aparecendo.
O pessoal de cima pensou que ia dar o golpe e que tudo ia ficar por isso mesmo? A população reage a sua maneira, afinal, que mal tem pegar uma TV de LED ali na loja saqueada se os políticos de Brasília removeram uma presidente eleita honesta só pra salvar os seus próprios rabos e estancar a sangria? Já diziam nossas avós: “o exemplo vem de cima”.
 

O golpe passou e ninguém viu

ANDRES VINCE
Dizem os entendidos que, lá pelo final do século XV, os índios não avistaram a chegada das caravelas no horizonte porque seus cérebros não conseguiam processar aquela imagem, pois, jamais haviam visto nada que tivesse qualquer semelhança com aquilo que vinha chegando pelo mar. Portanto, a chegada dos invasores passou despercebida.
Não era uma questão de inteligência, era um fenômeno mais profundo. Apenas quando os estrangeiros desembarcaram na praia, teriam sido notados pelos índios, pois ali, haveria uma semelhança óbvia.
Verdadeira ou não, quinhentos anos depois, a teoria de que os nativos deste lado do continente não conseguem distinguir algo que não conhecem, mesmo diante dos seus narizes, ganhou um notável reforço.
O golpe passou e ninguém viu, pelo menos a grande maioria não. E quando essa maioria escuta falar em golpe fica logo à espera dos tanques nas ruas. Não (re)conhecem esse novo tipo de golpe. Afinal, o silêncio do STF atesta que tudo é constitucional.
Só não vê quem não quer o recrudescimento da violência contra as minorias e, em especial, contra as mulheres. Quem acha que isso não tem nada a ver com as mudanças no comando do país não pode estar falando sério. O governo que usurpou o poder, claramente, está se lixando pras políticas sociais. Claramente, está envolvido em falcatruas até o pescoço. Claramente, mandou uma imensa banana pras políticas públicas em prol das minorias. Claramente, está recebendo tratamento diferenciado da imprensa.
São essas e outras tantas coisas, claramente erradas, que, por mais mobilizado que se esteja, não se consegue combater. A população já não distingue mais o certo do errado, só quer conseguir chegar no fim do mês com alguma coisa pra pôr na mesa. Crise econômica é o ingrediente perfeito pra silenciar o povo.
Hoje, no Brasil, temos no comando dos poderes executivo e legislativo, só gente citada nas delações dos executivos da Odebrecht. Não escapa um. E não é só. Ainda tivemos dois ministérios criados para acomodar mais um delatado, não sem antes fazer uma “média” nomeando uma mulher negra para os Direitos Humanos, pasta essa disputada a tapas, como se sabe.
Salário mínimo sem ganho real, caça aos direitos trabalhistas, tungada na aposentadoria, aumento vertiginoso do déficit, desemprego a galope, atividade econômica em franca retração, ataque aos direitos indígenas, entrega da soberania nacional… São tantas ações, claramente, danosas à população que o resultado de 6% que consideram a atual administração como boa/ótima é pra lá de surpreendente.
Esses 6% aí, não viram nem as caravelas, nem os invasores levando todas as riquezas, bem na cara deles.
 

Os verdadeiros black blocs estão usando terno

ANDRES VINCE
Quando o oficial da Brigada anunciou numa entrevista de rádio que os grupos de “black blocs” estavam todos identificados, por um décimo de segundo, deu pra imaginar que a depredação do Estado ia ter fim.
Mas, infelizmente, o comandante não se referia aos que dilapidam o patrimônio do Estado e jogam no desemprego milhares de técnicos qualificados, com a desculpa de que vendendo os móveis é que vamos salvar a casa.
O alto comando da Brigada não se referia ao grupo formado pelo governador e a esmagadora maioria dos deputados que passou como um trator por cima de estruturas administrativas que levaram anos para se consolidar, e, que não tem equivalentes no setor privado. Uma verdadeira destruição.
A Brigada tem sido usada como marionete do poder Executivo e, agora, do Legislativo, pois até hoje, ninguém achou a tal requisição para o isolamento da AL pela BM, que deveria ter sido aprovada pela mesa diretora, ao menos, pelo pouco que se sabe.
Ministério Público quieto que nem guri cagado (atualizado a pedido dos nativistas, pois a expressão que usei estava equivocada), como dizem por esses pagos. Soube-se depois que representantes do Judiciário transitavam livremente fazendo lobby pela AL, enquanto o povo tomava bomba lá na porta. “Democracia” no seu estado puro, porque agora protestar virou crime e coisa de vagabundo, então “pau neles” cantam em coro os acéfalos de plantão.
vince20170109bOs primeiros confrontos com a Brigada foram todos creditados a presença de grupos que usam  táticas black bloc. Isso foi dito pela própria Brigada e reverberado como verdade absoluta por todos os veículos de comunicação e abraçado como a origem de todo mal pelo funcionalismo público concentrado na praça. Correram os “black blocs”. E, continuaram apanhando, mas, agora sem a proteção dos famigerados “black blocs” que ficam sempre na linha de frente com o que dá pra se defender na mão. Resultado: um servidor da Susepe não ficou cego por um detalhe. Outro detalhe: quem atira bala de borracha na altura da cabeça não está tentando conter ninguém, quer causar dano mesmo.
Os deputados “black blocs” votaram a favor de tudo que era contra o funcionalismo, mas, quando a água bateu na bunda com o projeto dos duodécimos… Aí não João! Rapidamente o grupinho de vândalos se dissolveu e então todos queriam debater, não muito depois de terem “acusado” a oposição por estar tentando fazer exatamente isso.
Existem estruturas inchadas e instituições desnecessárias ao funcionamento do Estado? É claro que existem. Não há dúvida nenhuma. Mas como vamos falar em austeridade quando o Executivo ainda assina jornais em papel, usa publicidade e torto e a direito e gasta milhares de reais em estruturas de repressão (até helicóptero) contra protestos? Isso, sem falar na verdadeira orgia com dinheiro público que acontece no Legislativo e no Judiciário.
Se a massa soubesse o nível de privilégios que realmente reina por esses dois setores, iriam canonizar o Eduardo Cunha.
O que dizer da destruição da FEE, Fundação Piratini e outras autarquias? Austeridade? Piada pronta. Austeridade é quando a empresa começa a controlar o copo do cafezinho. Fechar departamentos e demitir em qualquer empresa é arrocho. Tem nada de austeridade aí.
O povo vai ver a austeridade quando o Estado economizar no copo de cafezinho, não quando ele vender a cafeteira dizendo que é pra salvar o café, enquanto distribuí açúcar apenas para os amigos.

Protesto não é micareta, nem vandalismo, é um direito constitucional

ANDRES VINCE
Parece cristalizada a ideia, tanto na mídia corporativa como na alternativa, que os atos de resistência protagonizados por alguns pequenos grupos são atos de vandalismo.
Os comunicadores recorrem a vários expedientes para justificar esse pensamento, que, assim, vem ganhando força junto à população, que já aplaude o uso do aparato que falta no combate ao crime, na repressão de um ato garantido pela Constituição.
Um dos argumentos prediletos e mais bem aceito é o de que trancar via é impedir o direito de ir e vir das pessoas. Argumento falso como uma nota de três reais. Trancar via impede o direito de ir e vir dos veículos, não das pessoas. E, por mais que se procure na Constituição, não será encontrado nada que refira ou garanta o direito de ir e vir dos veículos automotores.
Assim sendo, em casos de via trancada, o órgão público responsável é a EPTC, não o batalhão de choque da BM. Alguns dirão que a polícia está lá por causa das depredações. Excelente argumento, não fosse o caso da polícia ter atacado antes, sem nenhum aviso, manifestações onde não ocorreu nenhuma depredação. As depredações vieram depois que a polícia atacou e prendeu violentamente alguns manifestantes. Portanto, causa e consequência.
Esse mesmo pessoal que condena a via trancada por manifestações é o mesmo que apoia e divulga o trancamento de uma via para montar um toboágua para um evento comercial, num bairro nobre de Porto Alegre. Claro que, nesse caso, está tudo bem, pois, usa-se todo um aparato público pra dar cobertura a um interesse privado. Portanto, cinismo puro.
Outro argumento bem aceito é o de que os manifestantes estão mascarados. Os comunicadores transmitem a ideia que o uso da máscara torna o elemento automaticamente num delinquente pronto a incendiar toda a cidade. Isso parece causar um medo histérico coletivo nas pessoas tão violento, que elas nem percebem que a polícia de choque também está mascarada. Portanto, não há o que dizer nesse caso.
Sempre prontos em enaltecer tudo que vem de fora, os comunicadores amestrados esquecem ou preferem ignorar o que acontece em protestos na Europa, por exemplo. Os conflitos que ocorreram na França foram extremamente violentos. Nem por isso, os franceses foram chamados de vagabundos, desocupados ou vândalos.
Parece óbvio que será dito que o uso da violência está sendo defendido aqui. Simplificação barata, como todas as simplificações são, pois, estão calcadas nesses falsos argumentos citados neste artigo. Quem usa a violência e causa desordem é a próprio poder público que coloca a BM pra reprimir manifestações legítimas, levando medo à população e desmobilizando as pessoas. Isso sim que é violência, e, como tal, gera um direito legítimo de defesa. Defesa do direito constitucional de livre manifestação.
Quando um direito constitucional é atacado abertamente, não existe mais espaço para manifestações simbólicas e artísticas. Dancinhas e enterros simbólicos não vão sensibilizar ninguém, muito menos os políticos, que estão se sentindo bem à vontade depois que deram um golpe parlamentar e nada aconteceu. Nada.
O País foi tomado por uma corja que é comprovadamente mais pilantra do que alegadamente eram os que foram removidos do poder, e, nada aconteceu. Nada.
O Congresso já está a ponto de anistiar seus próprios crimes e parece que ninguém entendeu direito o que está acontecendo. Só essa meia dúzia que resiste a opressão que se instalou no país. Meia dúzia que será rapidamente criminalizada por aqueles que esperam que a democracia vá reflorescer espontaneamente nesse jardim imundo que se tornou a política nacional com a volta do toma lá da cá. Esperem sentados que cansa menos.
 

Corram para as montanhas, a direita tomou o poder pelas urnas

ANDRES VINCE
As eleições municipais foram, de certa forma, um simulacro do plebiscito que a Dilma tardou em pedir. Menos mal, afinal, poderia ter sido bem pior.
A vitória acachapante dos participantes do golpe nas municipais demonstrou claramente que a população quer isso mesmo. Tudo bem o cara ser ladrão, desde que ele não fique toda hora sendo preso com transmissão pela TV. E viva o japonês da federal encarcerando gente adornado por uma tornozeleira eletrônica! O sujeito até virou boneco de Olinda. Cultura nacional.
cacarecoA eleição em primeiro turno do Dória em São Paulo é a vitória do Macaco Tião e do Rinoceronte Cacareco como vice. Uma verdadeira aberração. As pessoas acreditaram na falácia do empreendedor, do cara que veio do nada. Que trabalhou duro para conquistar o que tem.  Uma consultinha inocente no Google já revelaria que o sujeito vem de uma linhagem aristocrática dos tempos do império! Se organizar festas e apresentar pessoas ricas à políticos não fosse considerada uma profissão, poderia se dizer que essa pessoa nunca trabalhou na vida.
Mas, vá lá, o povo está massacrado pela mídia. A população repete sem parar o que lhe dizem pelas TVs, rádios, jornais, em conversas de bar e de alcova: “Quebraram o país, quebraram a Petrobras, entregaram nosso dinheiro aos comunistas de Cuba, tríplex, sítio de Atibaia, pedalinho, barco de lata, heróis da moralidade”… e por aí vai sendo disseminado o simplismo e a ignorância, tudo depositado, sem dó nem piedade, nas urnas do mais recente pleito do País.
A culpa é da mídia? Não, claro que não. Ela só exerceu uma super  exposição dos erros que o PT cometeu. Mas, não fez isso pelo bem do coletivo, fez em causa própria, pois a mídia tem o rabo tão preso quanto qualquer político desses que não sai das manchetes.
Mas o que importa mesmo é que o golpe se consolidou miseravelmente através das urnas.
E, nesse caso, não há muito do que reclamar. Resta aceitar o resultado e fiscalizar de lupa. Nada mais.
 

Parem as máquinas!, o Jornalismo morreu com a Democracia

andres vince
Onze entre dez jornalistas sonhavam em entrar na redação gritando “parem as máquinas!”. Era o anúncio que o repórter tinha acabado descobrir uma bomba nuclear e que estava disposto a detona-la.
Folclore profissional à parte, teremos cada vez menos manchetes capazes de cometer qualquer abalo ao novo establishment instalado imediatamente após o afastamento de Dilma Rousseff da presidência da república.
A imprensa se esmera em envernizar o golpe. Todo santo dia tentam, miseravelmente, escamotear as trapalhadas do governo (?) Temerildo, realizando uma assessoria de imprensa capaz de colocar inveja em qualquer grande agência de publicidade.
Mais à vontade entre os seus (o empresariado pé de chinelo norte-americano), Temerildo disse com todas as letras, sem edição: “farei uma reforma RADICAL na Previdência” (ênfase do próprio na palavra radical). Nenhuma repercussão, nenhum debate. Ninguém pra perguntar: “Como assim ‘radical’, Temerildo?”.
Enquanto isso, por aqui a imprensa ilude o trabalhador dizendo que a população está crescendo e ficando mais velha, a legislação é de 1940 e tal. Como se o sistema de previdência fosse alheio a esse detalhe. Talvez, em 1940, os estudiosos que formularam a legislação achavam que a população ia ficar estagnada pra sempre e que os avanços da ciência eram pra pessoa morrer aos 50 anos, porém, saudável.
O governo usa os dados do IBGE pra provar que o topo da pirâmide (os mais velhos) está crescendo, mas omite deliberadamente que a base (os mais jovens) cresce na mesma proporção ou até mais. Assim como no caso tal déficit da Previdência, que só é real quando omitidas outras bases de receita, como o imposto de 5% sobre o lucro das empresas. Mostram o total deficitário, mas não mostram como chegaram lá.
Temerildo fala em reforma radical lá fora, e aqui dentro assevera: “não vamos mexer nos direitos do trabalhador”. Então, parece que o objetivo mesmo é exterminar esses direitos. O Temerildo parece aquele porta voz do governo iraquiano, que durante a segunda invasão norte-americana ao país do Oriente Médio dava uma coletiva garantindo que Bagdá estava em segurança, enquanto a imagem ao fundo mostrava os misseis rasgando os céus da cidade. Mentira pura e simples, em rede nacional.
É tão aleatoriamente sincronizado esse golpe, que o Judiciário, até então em preocupante silêncio, sai de trás da cortina pra dizer, via TRF-4 e por 13 votos a 1, que o juiz Sérgio Moro pode fazer o que bem entender, pois, segundo palavras do relator do processo que buscava frear seu ímpeto cadeieiro: “É sabido que os processos e investigações criminais decorrentes da chamada operação ‘lava jato’, sob a direção do magistrado representado, constituem caso inédito (único, excepcional) no Direito brasileiro. Em tais condições, neles haverá situações inéditas, que escaparão ao regramento genérico, destinado aos casos comuns”.
E o paragrafo 37 da Constituição que diz :”Não haverá juízo ou tribunal de exceção”? Lixo nele. Repercussão dessa decisão? Zero. Alguma dúvida que a ditadura já se instalou?
Hoje, quase já não temos as tais ‘máquinas’ e as pessoas capazes de entrar na redação gritando desesperadamente “parem as máquinas!” estão sendo presas e criminalizadas, por um estado de exceção sem precedentes, sem que isso seja visto como um ataque às garantias individuais! Bovinamente bizarro.
Parem as máquinas!, para sempre.

Imprensa: Cinquenta tons de marrom

Incrível como a imprensa nacional transitou da oposição para a situação, sem nem tropeçar no degrau, que, por acaso, é grande.
Os jornais nacionais da vida se transformaram numa descarada assessoria de imprensa do governo. O pessoal dá uma cabeçada de manhã, logo mais à noite já está tudo oficialmente esclarecido.
Com a nova linha editorial, pipocada virou “realinhamento de discurso”. A palavra “recuo” não passa nem perto da boca do apresentador. Afinal, as pipocadas já viraram rotina mesmo.
Estourar a meta de inflação? Tudo bem, já estava previsto pelos especialistas. Até o fim do ano passado parecia que as portas do inferno iam ser abertas se a inflação ficasse acima da meta. E olha que a inflação vai a caminho de ficar dois pontos acima da “meta”.
E a demissão do AGU? E a denúncia de conhecida revista que até pouco tempo saía da gráfica direto pra tela do noticiário? Nada. Só o registro burocrático pra não ficar chato. Ninguém quis saber o por quê. Alguns até disseram que “já era pedra cantada”. Pausa para risos.
O governo Temerildo se apresenta frágil, mas não um frágil que inspira cuidados, como um cristal, por exemplo. É um frágil de débil, de esquálido, de fraco, suavemente repugnante.
O governo da Dilma pode ser acusado de qualquer coisa, menos de frágil, apesar do Zé Cardozo. Segurou o bombardeio de peito aberto. Ela como líder, transmitia total confiança e firmeza, muitas vezes confundida com intolerância e estupidez. Mas, vivia cercada de patifes. Temerildo incluído.  Porém, a Dilma é tipo da pessoa que eu entregaria a chave do carro, se eu tivesse um. Pro Temerildo? Nem pra estacionar.
É triste ver a imprensa tentando convencer o povo brasileiro que o Temerildo é confiável. Um cara que tem um índice de rejeição ainda maior que a da presidenta golpeada. Ainda tentam fazer a conta do pato parecer mais digerível: “Não vamos mexer nos direitos trabalhistas”, repetem sem parar. Mas, então pra que a reforma? Como que não é mexer no direito do trabalhador passar a idade de aposentadoria para 65 anos? Tanto pro homem como pra mulher? Só falta dizer que estão implementando políticas de igualdade de gênero com essa medida. Não duvido.
Outra pergunta: economizar na Previdência pra gastar aonde, se os gastos com saúde e educação vão ser congelados por 20 anos?
É certo que a imprensa conseguiu convencer a população que Dilma era incapaz de governar o país, mas, como diz o ditado: “É mais fácil destruir do que construir”. Quero ver a imprensa conseguir construir a imagem de um estadista sólido com essa matéria prima gelatinosa que está aí.