O dilema do PT nas eleições do Congresso

Pinheiro do Vale
O PT está com pé de cada lado do muro na sucessão do Senado Federal.
Com o pé direito o partido de Lula se mantém no jogo participando da mesa diretora da Casa.  Com o pé esquerdo reafirma sua oposição ao governo golpista de Michel Temer.
Para a esquerda o importante é ter voz no processo legislativo.  É este o sentido para composição com o PMDB para ter a Secretaria Geral da Mesa e não o objetivo menor, como diz a imprensa, de assegurar entre 20 e 30 vagas para assessores parlamentares para correligionários.
Participando da Mesa o PT terá lugar nas comissões. De outro lado, um grupo se manifesta dissidente, que defendeu não integrar um colegiado que será comandado pelos partidos governistas.
Trinta por cento da bancada petista rejeitou votar em Eunício Oliveira (PMDB/CE). OU seja, de 10 senadores, três não aceitaram o acordo: Lindbergh Faria. Gleise Hoffmann e Fátima Bezerra.
Os demais, incluindo o gaúcho Paulo Paim marcharam com o situacionismo.
A mesa diretora fica assim: PMDB com a Presidência.2ª Vice-presidência e uma 1ª Suplência; PSDB, 1ª Vice-presidência e 4ª Secretaria; PT, 1ª Secretaria (ou secretaria geral); P 2ª Secretaria; PSB 3ª Secretaria. As demais três suplências ficam com PR, PSD e DEM.
O secretário geral, José Pimentel (PT/PE), vai administrar um orçamento de 4,2 bilhões de reais. É muito poder.
Um ponto obscuro desse desdobramento ainda é o mencionado “acordão”, fechado na calada da noite de 31 de agosto, quando foi selada a sorte da ex-presidente Dilma Rousseff, nos últimos minutos do mês fatídico.
Em troca do fatiamento da pena da mandatária os golpistas cederiam a primeira secretaria das duas casas do Congresso ao PT, garantindo, assim, uma parcela de poder ao partido defenestrado. Em troca, os petistas votariam no candidato do PMDB. O acordo foi cumprido.
Mas há outra nuance no acordo: é do interesse dos grandes partidos varrer o chamado “Centrão” do picadeiro, reservando a arena somente às grandes forças, quais sejam; PMDB PSDB e PT.
Esses três partidos protagonistas comandarão o espaço político.
Em resumo: os grandes asseguram a governabilidade. O irrequieto e imprevisível ”Centrão” fica excluído, perdendo seu poder de barganha.
O que hoje se chama “centrão” não é a mesma coisa que um bloco com essa denominação representou na Constituinte de 1988.
Naquela época formou-se um grande bloco conservador para se opor ideologicamente à esquerda e, também, a uma extrema direita que expressava, por exemplo, a antiga UDR (União Democrática Ruralista) do deputado goiano Ronaldo Caiado.
Atualmente o “centrão” é uma força ideologicamente difusa integrada pelos partidos integrados por quadros fisiológicos, cuja atuação se caracteriza pelo posicionamento caso a caso diante das demandas do governo.
Este “centrão”, no governo Dilma, era comandado pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) e foi a principal causa da sua desestabilização.
São as chamadas “legendas de aluguel”, engrossada por dissidentes e descontentes dos grandes partidos, como era o caso do próprio Cunha.
Na Câmara, onde esse bloco informal é poderoso, o “centrão” ameaça a candidatura oficial do deputado Rodrigo Maia DEM/RJ), alinhado com o Palácio do Planalto e com apoio das três grandes forças.
No entanto, não obstante as orientações do ex-presidente Lula, o PT está relutando para cumprir o acordo. Os parlamentares do partido temem ser crucificados na próxima eleição em 2018.
A bancada petista na Câmara dos Deputados vive seu dilema: se ficar no bloco dos grandes pode ser execrado por seu eleitorado. Se refugar corre o risco de ser incluído como inocente útil no exdruxulo bloco do “centrão”.
Como diria o velho Blau: “é duro nadar de poncho”.
 
 
 

Os segredos de Dona Laila

Cláudia Rodrigues
Dona Laila não vive mais,  mas deixou na memória de suas filhas e filhos uma lembrança alegre de tempos tristes de enfastio. “Mamãe se esforçava ao máximo para que a comida durasse o mês inteiro, mas não havia jeito, sempre chegava o dia do passeio ao Bosque de Rio Preto. Para nós aquilo era pura alegria, chegávamos famintos da escola e ela já estava com a panela enrolada em um pano dizendo: hoje é dia de piquenique! Esquecíamos a fome e seguíamos debaixo do sol ardente até o Bosque. No Bosque, além de ver os animais, podíamos correr e brincar nos balanços e escorregadores, enquanto ela estendia o pano no chão e começava a moldar bolinhas de arroz que comíamos indo em vindo, numa verdadeira labuta de lava a mão, come o bolinho, brinca mais um pouco, suja a mão, lava a mão, outro bolinho. A água do bebedouro era gelada no ponto, não chegava a doer a testa, mas era muito refrescante, a tarde passava lenta e à noite, muito cansados, era hora do bolinho frito. Ganhava um bolinho a mais quem encontrasse um ovo no quintal para dar liga. Levei anos para desconfiar que só havia arroz, o único alimento que não faltava em casa, além de ovos.
ClaudiaRodrigues27012017E assim passei a infância acreditando que minha vida era ótima, não nos faltava nada e podíamos ir sempre ao Bosque, passeio que muitos de nossos amigos não faziam porque era passeio de rico. Sobre comprar coisas e comidas prontas, ela lamentava pelos outros: coitados, não olhem, eles não sabem fazer piquenique, ficam com ciúme da gente! Ela era assim, minha mãe, se chovesse ela inventava banho de chuva, se faltava luz brincava de teatro de sombras e quando a coisa encrencava, ela era o Sr Sargentão e nós os soldados enfileirados para entrar no banho um a um. Hoje, quando fico brava com meus filhos por causa de nada, por causa de pressa, eu, uma senhora que tem máquinas e faxineira, uma imagem que me vem é dela no tanque lavando roupa a mão a me chamar: vem cá, criança, vem escutar o barulho que faz essa espuma quando aperto bem e quando aperto menos. Ela era assim, até passeio nos trilhos do antigo trem ela inventava, uma simples pena de galinha nas suas mãos, contra o sol, virava foco de admiração em mil cores. Ela não dava conta de ver a gente triste por causa de uma prova ou qualquer rusga no colégio, então sempre tinha o que dizer, mostrar e nos faz sentir para esquecermos os pensamentos ruins.”
Dona Laila, na sua simplicidade, buscava uma solução ótima para que a responsabilidade e os problemas da vida de adultos pobres com uma família de sete pessoas não pesasse sobre as crianças. Mais do que isso, fez altas viagens sem sair do mesmo lugar, soube ser sem ter, fez literatura sem escrever, foi artista e poeta sem nunca ter visto o mar, conhecido pântanos, montanhas, cânions ou cachoeiras.
No seu aniversário de 80 anos os filhos e filhas a levaram para comemorar em um hotel fazenda. Foi a primeira vez dela em um hotel, ficou muito alegre quando subiram um pequeno monte para fazer um piquenique perfeito, de cinema, ideia da filha caçula. Foi lá em cima, com a família toda, todos os filhos, filhas, noras, genros e crianças netas que ela contou, rindo muito, sobre a razão dos piqueniques no Bosque, os banhos de chuva, os passeios sobre os trilhos, o teatro do corte de luz.
Provocada pela filha mais velha, que a aconselhou a ter uma ajudante em casa e descansar porque teve uma vida dura, Dona Laila fez um pequeno discurso.
“Vocês acham que um tive uma vida dura, mas eu levei a vida que é minha e ainda levo. Vocês acham que se divertir é só ir para hotel e ficar sem fazer nada, fazer viagens longas para ver paisagens, isso tudo é bonito também, eu vejo nas fotos que vocês mandam, eu vejo agora aqui como tem coisa bonita para ser ver no mundo, mas se vocês somarem as férias de vocês, os feriados e toda vida que eu tive, eu me diverti mais porque a vida minha é eu que faço todo dia e todo dia nasce novinho em folha só para a gente se distrair até a noite chegar. Amanhã de manhã vocês vão estar correndo da vida a postar fotos do dia de hoje sem prestar atenção no dia de hoje de vocês, que é amanhã. Para mim o dia de hoje vai morrer hoje e amanhã eu vou estar lá olhando as galinhas se estão bem e vou ficar tão feliz se nenhuma estiver empesteada, vou lá no fundo do pátio ver se o cacho de banana já está bom, se não estiver vou ficar animada para voltar dois dias depois, se estiver bem bom eu já vou colher e isso vai ser tão alegre. Depois do almoço, em vez de costurar as roupas de madame, como eu fazia quando era jovem para sustentar a casa, vou fazer as roupinhas de boneca para as minhas clientes da feira, as meninas de 8 anos que pedem vestidos de bruxa, noivas e dançarinas espanholas sem jamais reclamar do feitio, só exclamando que tudo é tão fofo e lindo”
Mamãe, diz o filho mais velho, é que nós nos preocupamos com sua saúde, seu bem-estar…
“Bem lembrado, gostaria de falar para vocês que qualquer dia eu vou morrer porque a vida acaba e a minha já está no fim, vocês que são doutores e tão inteligentes em matemática devem saber fazer as contas e calcular que uma pessoa de 80 anos já está no fim da vida, então não me venham socorrer com ambulância caso me falte o ar. Me deixem ir, façam um piquenique bem lindo para as crianças, nem que seja com bolo de arroz e prezem por esse tal de meu bem-estar me deixando ir. Se vou subir ou vou descer, isso é preocupação minha de adulta mais velha, não é da conta de vocês para onde vão os que morrem. A função de vocês é distraírem-se do tédio trabalhoso da vida, seja em hotel ou no bosque, aqui mesmo em Rio Preto, na Pindaíba ou em Paris porque em qualquer lugar do mundo haverá uma criança para banhar, alimentar e fazer dormir, nem que essa criança seja cada um de vocês sozinhos por conta própria.
Então, se acham ruim eu morrer vão se distraindo disso desde já com qualquer coisa melhor para sentir, que pode ser água fria ou água morna, sol ou sombra, a maior das piscinas dos parques aquáticos ou qualquer bacia no pátio porque o poder de sentir boas sensações não depende só da visão, do que aparenta, do que aparece, do que parece, é uma coisa de dentro da pessoa. Querem que eu prove?
Me digam vocês, que já experimentaram tantas dessas comidas de chefs; quando alguém fala em melhor arroz do mundo, que arroz é que os riquinhos lembram?”

O muro de Natal e os territórios da criminalidade

PINHEIRO DO VALE
O “Muro da Vergonha” assenta seus primeiros tijolos.
Não se trata do muro da vergonha do Donald Trump para separar os Estados Unidos do México, mas refere-se ao “muro” do Michel Temer, que seu ministro da Justiça, Alexandre Morais, mandou levantar dentro da Penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, para separar o país do Primeiro Comando da Capital (PCC) da nação do Comando Vermelho (CV).
Do lado de fora das muralhas da penitenciária, a Força Nacional (também chamada de “farsa nacional”, devido à sua inutilidade prática) assegura a Constituição da República Federativa do Brasil.
Em espaço exíguo temos três estados diferentes, numa área inferior aos 0,44 km² do Vaticano, até então o menor país do mundo.
PCC e CV constituem, nos subúrbios de Natal, frações dos “estados do crime”, como se definem em suas constituições escritas, territórios demarcados, com força para serem reconhecidos, pois têm povo, limites, legislações e pleno domínio dos territórios.
O CV, no Rio de Janeiro, é senhor absoluto e indiscutível de territórios e tem sob sua legislação uma população de mais de dois milhões de pessoas.
O PCC, em São Paulo, tem um a área maior e uma população de três milhões de habitantes. Em outros lugares, os estados do crime têm outro tanto ou mais.
Esses “países” têm uma população maior que o Uruguai, mais gente que o Paraguai; detêm cerca de 0,5% da população da República Federativa do Brasil. Não é pouco.
Com isto, chega à América do Sul um modelo legal semelhante ao implantado pelo pelos fundamentalistas do Estado Islâmico nas porções do Iraque e Síria, em que tribunais próprios implantaram um código penal baseado da sharia primitiva do Século IX, com degolas e suplícios aos incréus.
Nos países do PCC e CV os “tribunais da criminalidade” impõem seu código penal nos moldes da Europa nos tempos bárbaros do Século V. Com suas tábuas de leis escritas, esses tribunais do crime têm um colegiado de juízes, defensores e acusadores, absolvendo os inocentes ou condenando os culpados a penas de morte cruel, esquartejamento, tortura ou mutilação.
Assim como no cenário político partidário do Brasil, as grandes facções criminosas abrigam mini facções que, tal qual as legendas de aluguel, gravitam em torno dos grandes comandos. Só PCC e CV têm diretórios em todos os estados.
Recentemente surgiu uma nova federação, a Família Do Norte (FDN), que atua na Bacia Amazônica e em alguns estados do Nordeste.
A FDN traz uma novidade, que é a articulação internacional, pois vem associada aos remanescentes das FARC da Colômbia que, recusando-se à pacificação política, decidiram se manter no tráfico de drogas.
A FDN e os dissidentes das FARC abriram a “rota do Solimões”. Esta rota abriu-se com a fragilização da ligação direta dos carteis colombianos com os mercados consumidores da América do Norte e Europa.
No Sul, sob coordenação do PCC, estabeleceu-se o Narcosur, que, segundo o jornal uruguaio El País, tem sede em Montevidéu, associando cartéis Argentinos, Bolivianos, Brasileiros, Paraguaios e Uruguaios.
O Narcosur é comandado pelo brasileiro Marcos Willian Herbas Camacho, o Marcola.
Segundo denunciou a polícia paraguaia dia 25 de janeiro, o crime multilateral está operando seu suprimento numa ação conjunta do PCC com a facção gaúcha Bala na Cara, que tem seus escritórios no Presídio Central de Porto Alegre.
O Muro da Vergonha do presidente Trump visa impedir não só a imigração ilegal, mas também o contrabando (de drogas e mercadorias) do México para os Estados Unidos. É uma providência de resultados duvidosos.
No fim do século XIX sugeriu-se que se fizesse uma muralha humana entre o Rio
Grande do Sul e o Uruguai, ao que reagiu, incrédulo, o senador Gaspar Silveira Martins: “Se botar um soldado ao lado do outro por toda a fronteira, a contrabando passa pelo meio das pernas”.

Sempre a dúvida

WALMARO PAZ
Foi acidente ou foi sabotagem para queima do maior arquivo vivo da cena política brasileira? A Globo e todo o restante da grande imprensa tem repetido que “tudo leva a crer que foi um acidente”. Já as dúvidas foram levantadas pela família da mais importante das vítimas e possível alvo de atentado.
O filho do ministro Teori, Francisco Zavascki, foi o primeiro. Quer uma investigação profunda sobre a morte do pai. “ Não quero ser órfão de um ministro assassinado”, expressou claramente.
Sua tia, a irmã do ministro morto, em entrevista ao Estadão, afirmou “ deve haver coisa grande por trás disso”. Ela lembrou que ele sempre tranquilizava a família afirmando estar sempre cercado de seguranças. A pergunta que ela deixa no ar é: “ onde estavam os seguranças do ministro Zavascki quando ele embarcou naquele avião?
Outra questão que ninguém levanta: a quem serviu a morte de Teori? Quantos indiciados pelas delações da lava jato ganharão mais tempo, como disse o ministro Eliseu Padilha. Alguém já especulou: “ este avião caiu que nem uma luva”.
Creio, sem sombra de dúvida, que esta morte e suas investigações terão o mesmo destino de outras que a antecederam. O acidente do avião que matou o marechal Castello Branco, no Ceará; o acidente de automóvel de Juscelino Kubistchek; a morte em acidente de carro  de Zuzu Angel durante da ditadura; a morte súbita de Carlos Lacerda; a morte de João Goulart; a queda do helicóptero com Ulysses Guimarães, também em Parati…
Enfim são várias dúvidas que permanecem em um curto espaço de tempo na história política deste Brasil. Sem falar com as de centenas de desaparecidos menos ilustres durante a ditadura que até hoje suas famílias andam atrás dos corpos.

Caça às bruxas favorece o Centrão

pinheiro do vale
A caça às bruxas já começou. Embora o presidente ilegítimo Michel Temer tenha dado garantias de que não passaria o rodo sobre os remanescentes do governo da presidentedeposta Dilma Rousseff, os dedos-duros estão apontando petistas que permanecem nos cargos depois do golpe.
Nesta semana as denúncias começaram a se explicitar. O colunista Cláudio Humberto, jornalista bem informado sobre os bastidores de Brasília está dando nomes e cargos dos remanescentes do antigo regime que ainda não foram afastados, cobrando providências aos degoladores de cargos do Palácio do Planalto.
Os observadores do que estaria ocorrendo nestas águas turvas sugerem que pode ser uma manobra do “centrão” para aumentar a animosidade entre petistas e peemedebistas com a finalidade de torpedear o “acordão” entre os dois maiores partidos no Congresso para a partilha dos principais cargos nas duas casas do parlamento.
Os dois antigos aliados, compostos com o PSDB, haviam  chegado a uma fórmula para a divisão do mando no Poder Legislativo. Com isto, deixariam o volúvel “centrão” de fora, extinguindo essa fonte de instabilidades, como se viu na gestão do defenestrado Eduardo Cunha.
A montagem dos grandes partidos é a seguinte: no Senado, PMDB fica com a presidência com o senador Eunício Oliveira, do Ceará, representante do esquema sarneysista, com apoio de Renan Calheiros; a vice-presidência, cargo importante, mas sem poder de gestão, com o senador Paulo Bauer, do PSDB de Santa Catarina, contemplando o Sul. Ao PT caberia a secretaria geral.
Na Câmara, algo parecido: na presidência o deputado carioca Rodrigo Maia, do DEM (ex-PFL), partido satélite do PSDB, algo semelhante ao PCdoB na sua aliança eterna com o PT. O vice   poderia caber ao PMDB e a secretaria geral também ao PT. Ao “centrão”, nas duas casas,caberiam as posições periféricas nas mesas diretoras.
Essa partilha de poder é coerente, pois ao PT, partido de oposição, cabe os cargos mais importantes para a administração das duas Casas, enquanto os governistas ficam com o
comando das pautas de votações. Como disse um senador: “A Secretaria Geral é a prefeitura do Congresso”. Ou seja, os secretários gerais administram uma população de mais de 25 mil funcionários, um númer  equivalente ao efetivo da Marinha de Guerra ou do tamanho da força de trabalho da Volkswagen. Sem falar do orçamento, maior que de muitas capitais de estados.
Tudo certinho: só faltou “combinar com os russos”. Uma fração do PT não está engolindo o “acordão” da cúpula e ameaça somar-se ao “centrão”, só para complicar a vida do governo, que se veria diante de uma direção incontrolável no Legislativo, tal qual Dilma.
Isto explica a dúvida especulada na abertura desta matéria. Caçando as bruxas petistas o governo estaria criando uma área de atrito que poderia desaguar na implosão do “acordão”, favorecendo o “centrão” e enfraquecendo a esquerda orgânica.
O “centrão”, é bom lembrar, origina-se numa anomalia recente na história política do Brasil. No passado, o poder central já se defrontou com a fragmentação em partidos estaduais, que formavam frentes nacionais, tal como hoje é o PMDB. Este novo bloco, entretanto, deriva de partidos municipais.
As tais legendas de aluguel nascem nos municípios para compor alianças para prefeituras ou abrir espaço para candidaturas avulsas. Quando se apresentam em nível estadual já se transformam num ente esdrúxulo. No âmbito federal, os partidecos se convertem em balcões de negócios, imprimindo um fisiologismo até então desconhecido.
Estas forças, o chamado “centrão”, são insensíveis e impermeáveis ao chamado interesse nacional. Por isto os grandes partidos se propuseram a desidratá-lo e, com a reforma partidária já aprovada no Senado, extinguir de vez.
Nessa reforma não seria difícil acomodar parlamentares despartidarizados nas grandes legendas sobreviventes. Assim como seus partidos de aluguel, também os parlamentares serão sensíveis a convites apetitosos.
O grande problema, aí, não é na direita, mas na esquerda. Como absorver os pequenos partidos ideológicos e históricos?
São históricos porque têm divergências ideológicas de muitas décadas. É uma questão tão grave que já se propôs uma lei especial para eles. Mas se um dispositivo salva um pequeno partido da esquerda, a legislação valeria para a direita. Com isto, a reforma vai por águas abaixo.
Aí está um problema insolúvel. Traz de volta a sentença vocalizada e nunca escrita por Gaspar Silveira Martins: “Ideias não são metais, que se fundem” ou “ Ideias não são metais que se fundem”. Persiste a dúvida da vírgula.

«Grândola Vila Morena»: o hino da contestação portuguesa

A partida de Mário Soares – um dos principais líderes do campo democrático português –, no último dia 7 de janeiro, entristece a todos os democratas. Co-fundador do Partido Socialista português, sua oposição ao ditador Salazar lhe valeu o exílio em São Tomé e, depois, na França, de onde voltou três dias após a Revolução dos Cravos, em abril de 1974. Ocupou o cargo de primeiro-ministro por três mandatos e o de presidente por duas vezes.
O texto que segue, escrito pela professora Maria-Noëlle Ciccia, da Universidade Paul-Valéry, resgata a história e a significação da canção-símbolo da Revolução dos Cravos – Grândola Morena – e presta uma homenagem a este grande personagem da história de Portugal.

Patrícia Reuillard

Maria-Noëlle Ciccia
Em Fevereiro de 2013, no momento em que o Primeiro Ministro português Passos Coelho se preparava para pronunciar um discurso sobre o orçamento diante da Assembleia Nacional, um grupo de manifestantes conseguiu interromper o debate parlamentar durante longos minutos, entoando  a canção  « Grândola Vila Morena » nas galerias do Parlamento (vídeo). A escolha desta canção de José Afonso não se  fez ao acaso. Faz hoje parte do património cultural da democracia portuguesa, sacralizada como hino da contestação, embora não tenha sido concebida com tal objetivo. A letra (poema escrito em 1964 em homenagem à Sociedade Musical Grandolense na ocasião da festa da « Fraternidade Operária de Grândola ») e o caminho percorrido graças à transmissão por agentes ligados à dissidência, deram-lhe o caráter subversivo que ela não aparentava inicialmente.
Posta em música pelo próprio Zeca Afonso em 1971, a canção permaneceu clandestina até que foi escolhida como senha pelos capitães da Revolução dos Cravos do 25 de Abril de 1974. Esse destino sacralizou-a enquanto canção política que faz hoje parte do imaginário da nação portuguesa. Esse imaginário é a utopia de uma revolução militar que derrubou a ditadura salazarista, prometendo futuro melhor ao povo. Mesmo que hoje não se tenham concretizado totalmente os ideais revolucionários da altura, a canção continua divulgando as esperanças de mudança política e social em Portugal.
Existem dois tipos de canções políticas, as que foram escritas com conteúdo expressamente político (como por exemplo, « A Internacional »), e as que são recebidas como políticas sem terem sido concebidas nesse intuito (por exemplo « Lili Marleen »). Por razões diversas, elas tornam-se indissociáveis de um momento intenso da vida coletiva.  Assim é « Grândola Vila morena », cuja letra inclui palavras politicamente conotadas quando inseridas no contexto e época em que foram escritas.
A própria música, um cante alentejano de tipo tradicional, remete para um canto popular mas também para um canto litúrgico cantado a capella, por grupos de homens, em comunião, dando-lhe um aspeto sagrado. A rítmica dada pelo barulho das botas dos homens a caminho do trabalho na roça « etniciza »  o conjunto e remete para o inconsciente coletivo da população rural, pobre, sofrendo condições de vida difíceis (ver o exemplo neste vídeo ). Assim, Zeca produziu uma canção que, embora fosse criação nova, inseriu-se sem dificuldades no património cultural no seu país porque « falava » ao povo. A transmissão oral das canções populares e tradicionais funcionou também aqui para a reapropriação popular da canção. A performância artística dobrou-se de um forte poder integrador, ligando todas as camadas populacionais à volta de uma canção-património que estabeleceu uma ponte entre a tradição e o momento pré-revolucionário e revolucionário. O vínculo entre música e nacionalismo  é muito forte pois a música junta os homens, acompanha as manifestações de massa e difunde o sentimento de pertença. Atua mais no afeto do que na razão das pessoas ; daí, o seu impacto mais forte e durável. Ainda por cima, o cante alentejano acompanha-se do movimento unido do grupo de cantores que se move num ritmo binário (balanço de uma perna sobre a outra), dando potência maior às vozes : esse movimento único remete para a imagem de uma união que parece indestrutível. Assim a canção tornou-se canto mobilizador graças às suas qualidade musicais, capazes de despertar um sentimento de pertença e de união popular.
Mas não se pode esquecer o valor da letra que faz de Grândola, cidadezinha do Alentejo, a metonímia feminizada (« morena ») de um país que confraterniza (« terra da fraternidade ») na união da terra e do povo. O verso « O povo é quem mais ordena » lembra o ideal social das terras alentejanas tradicionalmente comunistas. Mas, além do povo na sua globalidade, cada grandolense também é considerado por si só e como amigo de todos os outros. A letra exprime uma alternância entre individualidde e coletividade que permite a cada um de encontrar o seu lugar numa sociedade em que os valores mais importantes são a fraternidade, a igualdade e a vontade, valores humanos e humanistas que lembram o combate iluminista pela revolução e a democracia.
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Dez dias depois do golpe falhado de 19 de março de 1974, Zeca cantou « Grândola » no Coliseu dos Recreios, a grande sala de espetáculos de Lisboa, no Primeiro Encontro da Canção Portuguesa. Curiosamente os censores da PIDE/DGS deixaram-no cantar como também deixaram os outros cantores entoarem a canção no palco. Esse momento de união foi imediatamente sentido como ato militante pelos espetadores ali presentes que a descodificaram logo como canção comprometida. Receberam-no como uma « proposta política », enquanto a canção apenas evocava a condição do povo em termos gerais e simples, sem convite preciso para a luta. Foi o contexto político que levou a tal fenómeno de compromissão e fez da canção uma tribuna política.

Em Abril de 1974, o processo revolucionário dos militares está lançado. Sendo os meios de comunicação insuficientes, eles decidem usar a Rádio Renascença para difundir a senha da marcha sore Lisboa, a canção « Grândola Vila Morena », às 0 h 20 na madrugada do 25 de Abril. A partir desse momento, a canção torna-se definitivamente subversiva e ainda hoje  ao contrário da maioria das canções que dificilmente resistem ao envelhecimento, « Grândola », pela sua aura e força simbólica, continua a gozar de prestígio.
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Nos momentos de descontentamento social e político, a canção sai à rua. Assim, em Fevereiro de 2013, começou uma onda de grandoladas (substantivo derivado do neologismo grandolar, que significa vaiar uma personalidade cantando « Grandola » para a impedir de falar). A população portuguesa, exausta pelas medidas de restrição impostas pelo governo de Passos Coelho, manifestou o seu descontentamento repetidas vezes. Para tal, não usou o hino oficial português mas, sim, « Grândola » como hino de união nacional. Também nos cartazes dos manifestantes nas ruas, pôde-se ler na altura « Que se lixe a Troika [o FMI, o BCE e a União Europeia]. O povo é quem mais ordena ». « Grândola », ficou hino da revolta, da reivindicação social, institucionalizado numa tradição em Portugal. Pacificamente, a canção tem-se tornado arma de combate para a maior parte da população. Exerce um efeito  igualizador, suprimindo a diferença entre as camadas populacionais. O intérprete da canção já não é Zeca Afonso mas o povo português. Arma perfeita porque não violenta, ela consegue mandar calar os homens políticos, reivindicando os valores de uma democracia  de que eles próprios se declaram partidários : só podem calar e sorrir. Assim conclui Leonete Botelho : « Como se controlam manifestações avulsas, espontâneas e desenquadradas politicamente ? Não se controlam. Evitam-se. Não fechando as portas dos palácios, porque elas não serão suficientes para conter a indignação. Nem evitando os contactos com as pessoas, porque a sua voz virá sempre pelas ondas hertzianas e electrónicas ».

Atentado de Berlim confirma a verdade de Goebbels

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O tablóide sensacionalista BZ condenou Anis Amri antes mesmo da polícia

O atentado de Berlim, às vésperas do Natal, reafirma a tese consagrada pelos nazistas. Ela diz que uma mentira contada uma vez continua sendo uma mentira mas, contada mil vezes a mentira se torna verdade.
Seu autor foi o ministro da Propaganda do III Reich, Joseph Goebbels, um pioneiro da manipulacão da mídia de massa. Olhando com calma para os detalhes do ataque recente é inevitável ver na narrativa da imprensa um desafio à verossimilhanca e uma prova da maleabilidade da verdade factual.
Na reportagem “ao vivo via Internet” no Jornal Nacional (http://www.youtube.com/watch?v=U-4x7PDuUAg) fica clara que a intencão de “vender a notícia” se sobrepoe à precária atividade de apuracão dos fatos.
O jornalista da Globo se esmera em construir sua estória com pouquíssimas informacões, dando espaco a “rumores”, entre eles o de que “o Estado Islâmico” teria assumido” a autoria do atentado. Até hoje essa informacão só foi confirmada por páginas de neo-nazistas em redes sociais.
A cobertura oficial da mídia alemã nao ousa tanto, mas quem acompanhou o notíciário desde os primeiros momentos pôde perceber a manipulacão. A primeira delas relacionada à dúvida de que se tratava de um acidente. Nas primeiras 24 horas depois da tragédia nenhum político alemão se atrevia a falar em atentado. Por que?
O caminhão entrou por uma avenida altamente movimentada que desemboca em um cruzamento de outras avenidas importantes e cortou apenas uma pequena ponta do mercado de Natal, parando no meio de uma outra avenida transversal.
Se tivesse realmente a intencão de matar o maior número possível de pessoas, como terroristas normalmente fazem, poderia ter cortado o mercado de fora a fora, aumentando em dezenas de vezes o número de vítimas.
O quase acidente foi uma questão de poucos segundos. Os primeiros policiais que chegaram ao caminhão encontraram o banco do motorista vazio. No banco do passageiro estava um homem sem documentos morto com um tiro na cabeça.
Nas primeiras horas, ninguém sabia de quem era o corpo encontrado, e nem mesmo a causa da morte, visto que ao invadir o mercado o caminhão teve o parabrisa estilhaçado. Tudo eram suposicoes. Uma das poucas certezas era a de que quem conduziu o veículo por cima do público havia fugido sem deixar vestígios.
Ao lado do mercado de natal fica uma das mais importantes estacoes de trens, metrôs e ônibus da cidade, a Zoologischer Garten. Curiosmente a polícia assumiu que o suspeito tinha fugido a pé. Deu o alarme geral e prendeu nas primeiras horas um refugiado paquistanês nas imediacoes do parque Tiergarten, a poucos quilômetros de distância do local do ataque.
Por 24 horas o gaiato do Paquistao foi troféu da eficiência policial berlinense. Depois de apanhar durante o interrogatório (http://www.zeit.de/gesellschaft/zeitgeschehen/2016-12/anschlag-berlin-vorwuerfe-polizei-dementi) ele foi solto por ter provas e várias testemunhas de que nao estava nas proximidades quando ocorreu o crime.
Assim que a notícia da liberacao do primeiro suspeito circulou, “novos indícios” sobre o autor do atentado surgiram pela mao da polícia federal do país. Os fatos apresentados em seguida parecem tirados de um filme de James Bond e semelhancas com outros casos de terrorismo nao parecem ser mera coincidência.
A essa altura, dois dias depois do atentado, já sabendo que o corpo encontrado dentro da Scania era o do verdadeiro motorista, as autoridades apresentaram a identidade do terrorista. Um jovem Tunisiano, Anis Amri. Ele estava na Europa como refugiado desde 2011. Acusado de arruaça e pequenos crimes ficou preso na Italia por quase três anos, onde continuava procurado por seu envolvimento com islamistas. O argumento é de que ele tinha se radicalizado na prisao.
No primeiro semestre de 2016, Amri fez seu pedido de asilo em Berlin. Em Julho o pedido foi negado, e desde setembro ele estava desaparecido. Anis Amri completaria 25 anos três dias depois do atentado.
Todas essas informacoes sao oficiais (http://www.zeit.de/gesellschaft/zeitgeschehen/2016-12/berlin-breitscheidplatz-gedaechtniskirche-weihnachtsmarkt). Como eles chegaram à identidade do Tunisiano? Óbvio, durante a eficiente acao terrorista ele deixou cair dentro do caminhao a carta do governo alemao com o pedido de asilo negado. Parece mentira, mas é essa a versao oficial.
Ou seja, o terrorista nao esqueceu de dar fim na identidade do verdadeiro motorista da carreta executado, visando dificultar a investigaçao do caso, mas lembrou de esquecer um pedaco de papel para lhe incriminar. Amri foi morto pela polícia em Milao, na Italia, exatamente na data do seu aniversário, e um dia depois do seu retrato circular pelos tablóides sensacionalistas da Alemanha. Caso encerrado.
Mais interessante ainda sao os desdobramentos da história. Na Alemanha, o atentado botou lenha na fogueira do debate sobre os refugiados. A primeira ministra Angela Merkel (CDU), ja anunciou medidas para acelerar ainda mais a deportacao de refugiados que tenham seu pedido de asilo negado. O ministro do Interior, Thomas De Maizière (CDU), aproveitou para propor uma reestruturacao do aparato policial do país, visando dar mais poder e agilidade ao governo federal. Até o prefeito de Berlim, Thomas Müller (SPD), saiu defendendo um maior controle através de câmeras de seguranca em locais públicos. Tudo muito conveniente para o ressurgente discurso nacionalista.
Vale lembrar, que a área onde o ataque aconteceu, é cercada por centros de compras, cafés, restaurantes, lojas de grife, cinemas e hotéis. Cada estabelecimento ali já tem sua própria câmera de seguranca. É estranho que nenhum dos equipamentos já instalados nessa área tenha pego o momento do atentado. Sem falar que, com ou sem câmeras, ninguém poderia prever ou evitar o ocorrido.
Mas a propaganda da imprensa vai em outra direcao. Parecem seguir deliberadamente uma cartilha política  onde refugiados sao quase sinônimo de criminosos. O jornal sensacionalista “BZ” estampava em sua capa do dia 22 de dezembro a cara de Anis Amri com a manchete: “Eles conheciam ele e nao fizeram nada”. A frase cabe como uma luva no fato de muitos refugiados continuarem na Alemanha ilegalmente depois de terem o pedido de asilo negado.
 
A centenas de metros da praca onde estava montada a feira de Natal existe um alojamento coletivo onde estao concentrados cerca de 1.300 refugiados de diversas origens. Ali moram homens, mulheres e criancas desprovidos de conforto, seguranca e privacidade. Logo depois do caminhao atropelar 12 pessoas na praca, o alojamento foi invadido pela polícia de Berlim em busca de suspeitos. Como a polícia concluiu que lá poderia estar algum suspeito do atentado continua sendo um mistério.
 

PDT: sonhos de uma noite de verão

Pinheiro do Vale
O presidente nacional do PDT, Carlos Luppi, entrou na primeira noite do verão de 2016/17 sonhando arrebatar a bandeira da esquerda das mãos do ex-presidente Lula, aproveitando-se que o fundador do PT está meio combalido pelo cerco implacável à sua pessoa e seu partido ainda lambe as feridas do desastre eleitoral do último pleito municipal.
Passo a passo, o político carioca vai pavimentando seu caminho. De início fechou questão com a resistência ao golpe, mas com ressalvas: não impôs posição partidária à bancada, pois poderia cair do cavalo. Deixou a bola passar pelo meio das pernas: os três senadores do PDT votaram contra Dilma no impeachment. Luppi engoliu em seco.
Nesse mesmo tempo lançou um candidato presidencial para enfrentar ou, conforme o caso, tomar o lugar do PT na cabeça de chapa para 2018, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes.
Nesta virada de ano, quando se inicia a formação das candidaturas presidenciais, Luppi aumenta o tom de suas advertências aos dissidentes, ameaçando-os de expulsão, em pronunciamentos públicos, mas sem admoestar nenhum deles oficialmente.
Não há um papel do partido traçando limites ou orientando seus parlamentares nas votações.
O passo seguinte virá neste verão: limpar a área de nomes incômodos para receber as adesões da esquerda parlamentar.
No Senado o PDT já se livrou de quatro cadeiras incômodas: as duas do Distrito Federal, Cristovam Buarque (foi para o PPS) e José Reguffe (sem partido), e o mineiro Zezé Perrela, que pousou seu helicóptero no PTB. Nesta quarta-feira, o gaúcho Lasier Martins se antecipou às ameaças de Lupi e pediu sua desfiliação.
Faltam dois: Telmário Motta, que acusa o PT de Roraima de traição ameaçando romper a aliança estadual e Acyr Gurgacz, estrategicamente em licença. Os dois também apoiaram o golpe na cassação da presidente Dilma Rousseff.
O sonho de Luppi é estar com seu cavalo cearense na ponta dos cascos, no partidor, quando a candidatura do ex-presidente Lula sucumbir ao cerco de ameaças de forças hostis combinadas para torná-lo inelegível.
Há, entretanto, uma pedra no caminho do chefão pedetista: em seu próprio estado, o Rio de Janeiro, está o chefe da resistência parlamentar e líder inconteste da oposição ao governo ilegítimo, o senador Lindbergh Farias. Livre concorrência.
Luppi e Lindbergh procuram avançar um sobre o terreno do outro. Luppi tem uma bancada que vai da direita à esquerda, busca colher frutos no petismo envergonhado; Lindbergh propõe uma frente de “salvação nacional” encabeçada pela esquerda, procurando aliança no “centrão” decepcionado. É uma briga de foice no escuro.
Tudo isto vai se mostrar as claras assim que sair a tal reforma política, que extinguirá, na prática, os pequenos partidos. PDT e PT serão legendas de tradição esquerdista sobreviventes e devem estar prontas a receber minipartidos, ditos de aluguel, que estão à procura de um pouso.
A grande dúvida é se Luppi conseguirá abocanhar os quadros do PT e seus aliados tradicionais. O chefe pedetista está de olho na inelegibilidade de Lula. Entretanto, o ex-presidente ainda não mostrou suas cartas. Ele é um dos políticos mais hábeis da História do Brasil.
Lula não joga para a torcida. No último episódio crucial, o impedimento judicial do presidente do Senado, Renan Calheiros, o ex-presidente manobrou no sentido de evitar a desestabilização precipitada do governo de Michel Temer. No quadro atual, melhor deixar o presidente ilegítimo sangrar.
Enquanto se esvai, Temer leva consigo o PSDB para a vale de lágrimas. Cada dia seu governo fica mais tucano e menos peemedebista. Parece uma jogada maquiavélica, pois isto poderia reconfigurar uma futura aliança eleitoral do PMDB com o PT, a fórmula vencedora das últimas três eleições presidenciais. Não se subestime a capacidade de manobra de Lula. Tampouco se esqueça do nome de Henrique Meirelles.
Luppi é ingênuo ou arrojado? Ingênuo se acreditar que pode engolir o PT; arrojado se acredita que Ciro Gomes poderá empolgar a esquerda, atraída no vácuo da inelegibilidade de Lula?
A verdade é que as cartas não estão embaralhadas, como se pensa a olho nu. Como diz o velho conselheiro Acácio: “Quem ver verá”

O golpe encalacrou-se

Pinheiro do Vale
“Fica Temer” é o novo bordão das forças progressistas. O repetido “Fora Temer” do passado distante agora é o lema da direita golpista. Não há política mais dinâmica que em nosso País.
O presidente ilegítimo começa a cair enredado pela política econômica e propostas de arrocho de seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, antiga tábua de salvação rejeitada em boa hora pela presidente Dilma Rousseff.
Abraçado pelo governo golpista, Meirelles revelou-se o fracasso antevisto por Dilma, que o rejeitou.
No campo político, as chamadas forças consistentes do Congresso se uniram em torno do nome do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para patrolar o Centrão. Outro golpe errado da base de apoio de Michel Temer.
O Centrão, invicto, já derrubou o nome tucano Antônio Imbassahy, para a coordenação política do governo, e parece que vai varrer do Palácio do Planalto os últimos peemedebistas do chamado núcleo duro. Temer fica sozinho.
Ruim com ele, pior sem ele. Eleição direta e solteira já é uma assombração que ressurge com o fantasma de Marina Silva; eleição indireta é o caminho mais curto para a ditadura. É o que dizem.
No caso da indireta, as chamadas forças políticas já detectaram que não há remota possibilidade de botar no Planalto um nome de consenso, nem mesmo entre a direita.
Os mais afoitos apresentam o gaúcho Nelson Jobim, ex-político com algum trânsito em várias correntes, pois serviu a todos os governos, inclusive no primeiro mandato de Dilma. Não passa no Centrão nem nas extremidades da esquerda ou, até, da direita hidrófoba.
A direita saudosista vocaliza o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Há muito tempo ele ainda poderia ser chamado, tal como o velhinho da montanha. Atualmente, está tão envolvido no governo Temer que já não compõe unanimidade entre as forças golpistas.
A solução seria uma não-pessoa, um ser institucional. Vingava a ideia de ressuscitar a fórmula de 1945, entregando o Executivo para uma transição capitaneada pelo Supremo Tribunal Federal.
A ministra Cármen Lúcia era o nome ideal: solteira, antiga adepta da Tradicional Família Mineira, jurista de escol e intransigente. Entretanto, ela pisou na casca de banana Renan Calheiros, colocada à sua frente pelo ministro Marco Aurélio de Mello. Salvou a República, mas caiu de nádegas.
Esgotadas todas as alternativas, restaria a velha e clássica fórmula que vem desde Dom Sebastião e entrou no dito popular: chame o bispo.
Solução difícil. Ficando apenas no catolicismo também, há dúvidas: seria o cardeal primaz do Brasil, Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, arcebispo de Salvador? Ou o prelado que tem o comando efetivo, o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odílio Pedro Scherer? Como tertius poderiam chamar o cardeal do santuário nacional, Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis, que fez quase toda sua carreira eclesiástica em Brasília? Há divergências entre o clero.
Isto para não falar do leque de opções luteranas e pentecostais, na área cristã, antes de chegar a outras confissões reconhecidas oficialmente de seitas afro-brasileiras, judaicas ou islamistas. Também não dá.
Talvez a solução fosse buscar Dom Pedro em Petrópolis. O novo herdeiro é brasileiro nato (seu pai nascera na França), foi simpatizante da VPR nos anos 60, quando era estudante de Agronomia em Piracicaba (na Luiz de Queiroz), apoiou publicamente a República no Plebiscito, graduado engenheiro florestal e ecologista militante.
O golpe encalacrou-se. Como dizia o Conselheiro Acácio: “As consequências vêm depois”.

Meu amigo Ferreira Gullar

ERIC NEPOMUCENO
Foi numa noite de 1975. Não lembro o mês. Foi em Buenos Aires. Tempos de exílio, tempos sombrios. Lembro que Eduardo Galeano ligou dizendo que encontraríamos um desconhecido que, diziam, era um grande poeta. Lembro de ter dito a ele que era, sim, um grande poeta.

 Lembro que estava meu amigo Augusto Boal, com sua Cecilia. Lembro que havia mais argentinos: afinal, estávamos em Buenos Aires.
Lembro que era um apartamento modesto, na distante rua Hipólito Pueyrredón, não na elegante avenida Pueyrredón, que ficava perto de minha casa. Lembro que por isso me enganei de endereço. Lembro que por esse engano, Eduardo e eu chegamos tarde.

Mas o que mais me lembro, a imagem mais permanente na memória, é a de um homem triste. Naqueles meus anos jovens, eu nunca tinha visto alguém tão triste. Mais triste que Ferreira Gullar.
Tinha cabelos negros que caíam como um véu sombrio sobre seu rosto. Falava numa voz baixa e grave. De repente, ria um riso estranho. Um riso nervoso.
Ele vinha de muitos exílios, muitas derrotas. Vinha do Chile de Salvador Allende. Vinha do golpe traidor de Augusto Pinochet, vinha da morte de Allende. Vinha de sonhos frustrados, roubados. E perguntava, perguntava coisas, queria saber. Era como alguém que queria respirar vida.
Anos depois, muitos, voltamos a nos encontrar, no Brasil. E o que agora lembro eram nossos almoços na casa de Vera e Zelito Vianna, ou de quando ele vinha à minha casa, e eu cozinhava e ele gostava, ele e Claudia.
Ferreira Gullar, meu amigo que foi o ser vivo mais triste que vi na vida quando éramos jovens, quando vivíamos os anos jovens, foi também o último grande poeta do idioma que falamos no Brasil.
Era uma espécie de Juan Gelman em português, capaz de em uma ou duas ou três frases fazer desatar temporais de emoção, de vida.
Lembro da noite em que ele, com aquele ar mais triste e mais raivoso do mundo, leu:
Turvo, turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
Menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menor que fosso e muro: menos que furo
escuro
Era o começo do Poema sujo. Era só uma casa, um apartamento modesto na Buenos Aires dos nossos anos jovens. Era a vida, era o mundo.
Sim, sim, voltamos a nos encontrar, anos depois, no Brasil, neste Rio de todos os janeiros. E nos vimos um sem fim de vezes, na minha casa, na casa dele, na casa de Vera e Zelito Vianna.
Uma vez, ouvi dele uma frase definitiva. Gullar falava da poesia, da arte. E disse: “Por que a poesia, a arte? Porque a vida, só, não basta”.
Outra vez, com meu filho Felipe, ouvi outra frase: “Ontem, tive uma discussão com a Claudia”, que era sua derradeira e permanente namorada. “E ela foi embora, e num primeiro momento me senti cheio de razão. E aí cheguei à conclusão: eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz. E liguei para ela”.
Foi talvez o último grande poeta não só do Brasil, mas do idioma português. Um dos últimos grandes poetas dessas comarcas que chamamos de América Latina.
Agora que ele se foi, dirão essas louvações, e muito mais.
Eu fico aqui lembrando sua figura esquis, seu corpo frágil, sua magreza quase mística, seus olhos faiscantes.
Fico lembrando daquela figura triste, triste, de um mês qualquer de 1975, numa Buenos Aires perdida para sempre. E que era capaz de escrever coisas assim:
Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Outra parte de mim
é multidão:
outra parte, estranheza
e solidão
A última vez que ele e Cláudia vieram em casa, faz um bom tempo, preparei camarões. E depois dessa vez, quando nos víamos, ele dizia: “Cadê aqueles camarões?”.
Essa, eu fiquei devendo.
Mas ele ficou me devendo muito mais. Ficou devendo aquela parte dele que era multidão.