As eleições no Rio Grande do Sul têm sua singularidade. Qualquer balanço sobre o último processo eleitoral precisa levar em conta, entre outros fatores, as tradições históricas e políticas do Estado, as características da construção do PT no RS, seu crescimento ao longo da década de 90 e os resultados deste período, que expressam, entre outras coisas, o reconhecimento da população mais pobre e dos setores médios sobre aquilo que fizemos. A partir de 1989, com a eleição de Olívio Dutra para a prefeitura de Porto Alegre, o PT iniciou uma ascensão sistemática, que acabou se confirmando, no plano eleitoral, pelas quatro sucessivas vitórias na capital, pelos oito anos na prefeitura de Caxias do Sul (segunda cidade do Estado), pelos quatro anos em Pelotas (terceira cidade do Estado), pelas importantes vitórias em várias cidades do anel metropolitano e, sobretudo, pela vitória e experiência de governar um Estado moderno no período 1999-2002.
Nossas virtudes, neste período, se expressaram concretamente na melhoria da qualidade de vida, principalmente da população mais pobre, através de serviços públicos e obras estruturais, muitas delas decididas e ordenadas pelo Orçamento Participativo (OP). A idéia de democratização das decisões sobre os investimentos públicos transformou-se em uma materialidade objetiva na vida de setores da população até então extremamente marginalizados. Fomos responsáveis por uma experiência única e inédita no mundo, que foi a de implementar um OP em escala estadual, que atingiu quase 10 milhões de pessoas e 497 municípios. É importante lembrar que, no período do governo Olívio, tínhamos no máximo 30 prefeituras. E interviemos em 497 cidades, discutindo os interesses da população, com apoio da igreja, de sindicatos e de movimentos sociais. É preciso lembrar também os Fóruns Sociais Mundiais que fizeram dessas experiências referências mundiais. Com tudo isto tivemos um papel decisivo na resistência à “avalanche neoliberal”.
Então, não é nem pretensioso, nem bairrista, dizer que o patamar de compreensão política da população gaúcha, que já tinha uma tradição importante (o trabalhismo getulista e brizolista), estabeleceu uma relação positiva com as nossas políticas, aprovando-as em sucessivas eleições. É neste contexto que, a partir de 1994, estabelece-se uma polarização indiscutível no Estado. O que o PT fez ou não fez passa a ser uma referência incontornável no debate estadual, passando a constituir um dos pólos. É neste universo de acumulação positiva de mais de uma década que os nossos adversários políticos do campo mais conservador, com a imprescindível assistência do monopólio midiático representado pela Rede Brasil Sul de Comunicações (RBS), passam a reposicionar suas forças e seu modo de agir para tentar interromper a continuidade desse acúmulo crescente.
O papel da RBS como agente político
Cabe, aqui, uma observação mais detalhada sobre o papel da RBS. Mais do que uma mera afiliada da rede Globo, ela é uma organização independente de grande potência e irradiação. A capacidade de intervenção desse grupo na sociedade é composta, nada mais nada menos, pelos seguintes instrumentos: 18 emissoras de televisão aberta, 2 emissoras locais de televisão, 8 jornais diários, 26 emissoras de rádio, 2 portais de internet, operação orientada para o agronegócio, editora, gravadora, empresa de logística, empresa de marketing para jovens e fundação de responsabilidade social. Essa rede de veículos articula sistemática e organicamente a agenda dos setores mais conservadores no Estado. Nenhum tema escapa. Soma-se a esse poderio quantitativo uma eficácia qualitativa muito grande de intervenção, baseada em um exame escrupuloso dos vários segmentos da sociedade gaúcha. O lançamento do jornal Diário Gaúcho, no início do governo Olívio, é um exemplo disso.
Voltado para a população mais pobre de Porto Alegre e da Região Metropolitana, além de sortear panelas e outros brindes entre seus leitores, passou a articular diariamente, com uma linguagem simples e direta, pautas em terrenos sensíveis, como saúde e segurança pública. Assim, para cada segmento da sociedade, a RBS passou a ter um veículo jornalístico específico, com uma linguagem específica, que nos atacou dia e noite, noite e dia. Dito de outra maneira, um jornal para cada setor e uma rádio para cada gosto. Durante o governo Olívio Dutra, o grupo começou a definir a pauta da oposição já no primeiro dia com a exploração do episódio do aparecimento de uma bandeira de Cuba na sacada do Palácio Piratini, na festa da posse. Todos os movimentos da esquerda transformaram-se em temas de máxima repercussão: a bandeira de Cuba, a queima do relógio da Globo (500 anos), os transgênicos, MST, a Ford, o combate à corrupção na polícia, apenas para listar alguns. A vida interna do PT e de seus governos foi e segue sendo permanentemente devassada.
O papel da RBS acaba sendo o de articular vários setores políticos, institucionais e econômicos, homogeneizá-los na ofensiva e unificar as palavras de ordem.
Derrota eleitoral, vitória política
É levando em conta este cenário, que quero sustentar que o resultado do processo eleitoral deste ano no RS representou uma derrota eleitoral e uma vitória política. Para entender porque é legítimo afirmar que obtivemos uma vitória política é preciso levar em conta o tamanho da dificuldade em que estávamos metidos. Não é preciso nenhuma sofisticação analítica maior para compreender que, na mesma proporção em que conquistamos crescentes espaços e consolidamos nossa posição como um dos pólos da disputa política no Estado, lutando até o último voto com o bloco conservador em todas as últimas quatro eleições, nossos adversários empreenderam uma reação com a mesma intensidade (ou maior ainda) e em sentido contrário. O cerco implacável a que foi submetido o governo Olívio foi um exemplo disso. O nível brutal de estigmatização deste governo foi operado sistematicamente e em todas as áreas, desde o seu início.
O balanço do governo Olívio, com todas as políticas positivas que avaliamos que fizemos, ficou impregnada por esse bombardeio sistemático e os erros foram potencializados. E nós entramos nas eleições de 2006 com essa impregnação, esse estigma. Assim, nossas virtudes – pois algumas de nossas políticas só foram exitosas porque ousaram enfrentar setores e pautas conservadoras – também eram os nossos limites. Além disso, entramos com uma outra conta, relativa a episódios do governo Lula. O impacto da Reforma da Previdência, por exemplo, junto a setores importantes de nossa base social, foi devastador. Não custa lembrar o peso da classe média no RS, especialmente nas grandes cidades, e também o alto peso relativo e irradiador de opinião do funcionalismo público. Uma parte dele está no miolo da classe média. Nas nossas vitórias, a capacidade de atrair esses setores foi decisiva.
O impacto da Reforma da Previdência entortou nossa posição junto ao funcionalismo público. Isto, somado aos trágicos eventos da crise política de 2005, provocou um grande rombo em nossas posições. Mais alto havíamos chegado em termos de reconhecimento junto à sociedade gaúcha, conseguindo ampliar muito além de nossas fronteiras partidárias e de nossos aliados mais tradicionais (como o PC do B e o PSB), maior foi o tombo que sofremos. É importante lembrar àqueles que nos criticavam por uma suposta incapacidade de ampliar nosso leque de alianças que foi com esses setores sociais e com essas fronteiras partidárias que conquistamos no RS (isto não quer dizer que a discussão de ampliação não seja legítima). E, este ano, quando muitos achavam que nós tínhamos acabado, fizemos mais de 46% dos votos tendo o PC do B como aliado no primeiro turno, o PSB no segundo e o apoio de mais de duas centenas de prefeitos e vice-prefeitos de outros partidos, entre eles o PDT, o PMDB e, em menor escala, o PP e o PTB. Não se pode esquecer o impacto do efeito dossiê e da não ida ao debate do Presidente Lula. Nesta sociedade gaúcha “tão a flor da pele” cortou o nosso ritmo de ascensão na boca do 1º turno.
A ampliação política do 2° turno
Essa ampliação junto à base de outros partidos poderá ter repercussões importantes. Há uma crise no PMDB, dividido entre o grupo do deputado federal Eliseu Padilha, apoiador de primeira hora da candidatura Yeda Crusius, e o grupo do governador Germano Rigotto, que optou por uma posição de neutralidade no segundo turno. Há ainda o tema da possibilidade de uma reconstrução das relações com o PDT, afinal de contas 55 prefeitos trabalhistas apoiaram Olívio Dutra no segundo turno. E, em terceiro lugar, mas não menos importante, vimos a retomada de laços importantes com os movimentos sociais do campo e da cidade. Ocorreram, portanto, alguns deslocamentos políticos importantes no Estado, que ainda devem ser melhor avaliados. O que é importante destacar é que o fruto do segundo turno foi uma inteligente e bem-sucedida busca de ampliação. O encontro no Hotel Embaixador, onde Olívio recebeu mais de 260 apoios, entre prefeitos e vice-prefeitos de outros partidos, é o principal símbolo disso.
E foi com esse leque de alianças e apoios que enfrentamos o segundo turno. Perdemos, mas fizemos 46% dos votos. Os números das votações de Olívio e de Lula mostram, de modo objetivo, que o impacto dos problemas relativos ao PT Nacional e ao governo federal acabou sendo maior do que aquele relacionado com a pauta do governo Olívio. O ex-governador Olívio obteve 2.884.092 votos no RS (46,06% dos válidos), enquanto Lula atingiu 2.811.658 (44,65% dos válidos). Neste quadro, é importante lembrar que vínhamos de duas derrotas importantes: a eleição estadual de 2002 e a eleição municipal de 2004, quando perdemos a prefeitura de Porto Alegre. Em 2004, fizemos 378.099 votos na capital. Em 2006, chegamos a 416.193, com uma vantagem um pouco acima dos 5 mil votos. Além da retomada da maioria em Porto Alegre, tivemos a volta das bandeiras vermelhas às ruas, presença que havia sido atropelada pela crise política de 2005.
Mais que os números, a maioria de nós acha que a sincronia Lula/Olívio X Alckmin/Yeda alimentou reciprocamente a clareza e o significado tanto de Lula quanto de Olívio. Ficou mais nítido, mais fácil e impediu que a direita nos infligisse uma grande derrota.
Considerando tudo o que foi dito acima, esse resultado está longe de ser desprezível. Muita gente dizia que estávamos mortos politicamente. Não estamos. Some-se a isso o significado da vitória consagradora de Lula no país e a possibilidade que se abre para o aprofundamento das políticas sociais que ajudaram a constituir nossa identidade até aqui, e temos uma posição razoável de onde podemos tentar reconstruir coisas que perdemos. A ampliação que obtivemos no segundo turno (que tem o governo Olívio como uma das causas fundamentais, pelo tipo de relação que estabeleceu com os municípios, sem discriminar prefeitos de outros partidos), e a divisão no campo daqueles que sempre estiveram unidos contra nós talvez tenha aberto um flanco justamente quando menos esperávamos, em um de nossos mais difíceis momentos. Por fim, é preciso fazer uma observação sobre a grandeza e a qualidade política de Olívio Dutra. Não se trata de “confete”, mas sim de um reconhecimento político sobre valores que sempre foram muito caros a nós.
O valor que cultivamos em torno da importância da construção política coletiva não deve impedir que reconheçamos a dimensão de alguns dos nossos quando enfrentam dificuldades gigantescas e conseguem resultados acima dos cálculos da obviedade política. Esse é o caso dos companheiros que compuseram nossa chapa majoritária – Olívio Dutra, Jussara Cony e Miguel Rossetto -, com uma observação especial em relação ao primeiro. Depois de uma dura saída do Ministério das Cidades, assumiu a presidência do partido no RS, em um momento crítico de nossa história, e aceitou uma candidatura ao governo do Estado em condições fortemente adversas. Por meio de seu exemplo e de sua conduta, Olívio acabou sendo uma espécie de catalisador que uniu de forma singular e incomparável a história do Rio Grande e a história das lutas sociais desse Estado. A sua candidatura acabou unindo, também, a militância dos partidos que integram a Frente Popular em torno da certeza de que é possível avançar, recuperar o terreno perdido e retomar a construção do projeto que tornou o RS fonte de esperança e inspiração para a esquerda mundial.
*Deputado Estadual do PT
Autor: Elmar Bones
Vitória política no RS: elementos para um balanço
Comunicado a comunidade porto-alegrense
Comunicamos aos clientes que não iremos trabalhar com produtos da RBS PUBLICAÇÕES e (CD’s,DVD’s e livro) devido ao fato desta empresa ter decidido de forma truculenta e unilateral de reduzir a comissão dos jornaleiros de 25% para apenas 15% da margem de venda destes produtos.
A RBS para defender esta atitude ESPOLIADORA, usa o argumento de que busca a redução de custos, sob o falso discurso de oferecer produtos mais baratos para o consumidor final. Uma mentira, já que os DVD’s estão saindo com preço majorados que o antes desta atitude antietica.
Portanto, não houve e nem haverá redução de preços para os consumidores, mas somente a transferência de renda dos jornaleiros para o grupo RBS, que busca assim engordar mais seus vultosos lucros com o acharque dos quem trabalha de forma honesta e ética.
A RBS mostra sua verdadeira face, truculenta e gananciosa onde pouco importa a remuneração justa dos seus parceiros comerciais, mas tão somente seus lucros exorbitantes.
Lamentamos assim não podermos melhor atender aos nossos clientes, mas não podemos nos submeter a esta atitude infame e desleal, de uma empresa que se vale do seu poderio econômico e monopolista para acharcar aqueles que realmente trabalha de forma honsta nesta cidade.
Porto Alegre, 19 de outubro de 2006
Assinado grupo de jornaleiros de Porto AlegreManifesto pela revisão do Plano Diretor
Associação dos Moradores da Bela Vista *
Boa noite a todos os presentes, e, especialmente aos nossos convidados os presidentes de associações de bairros ou seus representantes que compõe a Região de Planejamento 1, o Conselheiro da Região de planejamento 1 na Secretaria do Planejamento do município Arq. Rogério Dal Molin, O Presidente do POA VIVE entidade que engloba quase os bairros da cidade Arq. Nestor Nadruz, representantes da imprensa, entre outros.
Hoje estamos aqui reunidos para discutirmos um assunto que atinge a todos de uma maneira ou de outra, e o assunto é a MODIFICAÇÃO DO PLANO DIRETOR. Como os Srs. devem estar lembrados em nossa reunião mensal de agosto passado o convidado da noite foi o Secretário do Planejamento municipal Sr. Isaac Ainhorn, que na última hora mandou dizer que não poderia comparecer por estar adoentado, mas nem um subalterno enviou numa demonstração de toda sua arrogância e prepotência com que tem tratado as associações, num desrespeito e descaso total sobre os interesses da comunidade que o elegeu, aliás nas tantas vezes que se elegeu vereador ele veio buscar seus votos aqui nos bairros e os recebeu, porém quando foi alçado a secretaria de Planejamento esqueceu disso, e não dá atenção justamente a quem o colocou lá.
Diante disso e de tudo o que vem acontecendo de baixo de nossos olhos; nós, os moradores, que seremos os mais duramente atingidos, decidimos nos reunir com os demais representantes de associações de bairros, para, em conjunto decidirmos o que fazer para sermos ouvidos, pois que está em ritmo aceleradíssimo o projeto de modificação do plano diretor da cidade, ou melhor já está pronto para ser apresentado para votação na câmara de vereadores, mas foi elaborado sem a presença dos representantes de associação de bairros, mas os representantes dos que destroem os bairros estão muito bem representados, entidades como SINDUSCON , SECOVI e SPM, obviamente com o expresso consentimento da Prefeitura Municipal, por seu Secretário de Planejamento.
Além do que soubemos que estão segurando o máximo possível a apresentação do projeto para votação na câmara para ganhar tempo, enquanto isto, as construtoras estão demolindo a ritmo aceleradíssimo e fechando com tapumes extensas áreas para garantir a construção de edifícios de até 18 andares, eis que com a modificação do plano a altura permitida será/seria de 12 andares, e que o afastamento lateral entre os prédios que era de 18% da altura do prédio, passaria para 25% proposta aceita pela comunidade. Ex: Prédio de 30 mts de altura: p/ sistema atual terá obrigatoriamente um afastamento lateral de 5,40 metros. Já o mesmo prédio p/ nova proposta terá obrigatoriamente um afastamento de 7,50 metros.
Assim com a maior urgência, precisamos traçar estratégias para demonstrar nosso total descontentamento com o que está ocorrendo, seja da maneira que for, e, para isso, precisamos discutir com todos os representantes de associações de bairros, e, especialmente, os que compõe a Região de Planejamento 1 a qual pertencemos, qual a sugestão de cada um, a fim de contra-atacarmos.
Não podemos silenciar diante da destruição que está ocorrendo sob os nossos olhos. Afinal as Associações de Moradores foram criadas exatamente para defender os interesses destes. Nós, da AMOBELA, entendemos que o referido projeto precisa ser apresentado ainda este ano, embora o próprio Presidente da Câmara de Vereadores, em reunião ocorrida há dois meses aqui neste mesmo local, tenha afirmado alto e bom som, que o referido projeto não será votado este ano. Então, cabe a nós nos manifestarmos para este projeto entre em pauta com a maior urgência, caso contrário as construtoras farão terra arrasada antes da votação do projeto, ou então que os prédios que hoje estão tendo seus projetos aprovados pelo sistema antigo tenham um prazo para iniciar a construção, senão o que irá ocorrer é que os terrenos tapados com tapumes poderão ficar 10 anos sem construção e quando o prédio for construído, será de acordo com o plano antigo, pois o projeto já estará aprovado.
Em resumo, o que queremos: direito de participar da elaboração do projeto de modificação do plano. Seja o projeto votado ainda este ano na câmara de vereadores. Por quê? Porque se esperarmos mais um pouco não sobrará pedra sobre pedra, nos poucos terrenos que ainda restam, e os projetos de construção apresentados e aprovados antes da aprovação da modificação do plano podem ficar adormecidos 10 anos, mas quando forem construídos estarão ainda regidos pelo Plano Diretor antigo.
Se os Srs. caminharem poucas quadras dentro do nosso bairros e de outros da vizinhança verão que estão sendo demolidas ás vezes 3 a 4 casas, uma ao lado da outra perfazendo em alguns casos, quase uma quadra de terrenos, sem respeitar as árvores que cobrem o terreno, sem respeitar nada, para dar lugar a uma construção de edifícios.
Os proprietários de terrenos com casas são assediamos diuturnamente pelas construtoras para venderem suas casas e o assédio é tal que as pessoas acabam vendendo, e não se pode criticar os proprietários de casas, eles estão no direito deles de vender o que lhes pertence, o que precisamos é aprovar com urgência um plano diretor que venha a beneficiar os moradores ou melhor, pelo menos não prejudicar os moradores, mas para isto se faz necessário a presença e a opinião dos representantes de moradores, pois que até agora o que vimos foi valer apenas a opinião dos representantes das construtoras, haja vista o que está ocorrendo com o adiamento do envio do projeto a câmara para ganhar tempo.
Ainda, existem outros motivos para querermos estancar esta corrida desenfreada para construir e construir sem olhar a quem o que estará sendo prejudicado. Vejam os Srs. Com a construção de mais prédios altíssimos e sem recuo lateral do que os que já temos, perderemos de vez a cantada em prosa e verso qualidade de vida, ficaremos ainda mais sufocados, sem sol, sem iluminação natural, com apartamentos mofados e insalubres, aumentará ainda mais o número de pessoas circulando nos bairros, e principalmente o número de veículos, com isto atraindo mais a insegurança, os engarrafamentos, as quedas ou falta de luz, esgoto, inundações pela impermeabilização do solo etc.
Nosso Conselheiro da RP 1 , faz parte como representante das entidades que compõe a região, bem como os outros conselheiros de outras regiões, porém as entidades que compõe as RPs, na sua grande maioria, com raras exceções são dos Sindicatos ligados a Construção civil, de tal sorte que só os conselheiros não podem fazer muita coisa, pois representam os dais lados o dos moradores e o das construtoras, por isso a necessidade de representantes das Associações de bairros.
Srs. Representantes da imprensa escrita, falada e televisada, aqui presentes, gostaríamos de solicitar que façam circular em seus meios de comunicação da importância das Associações de bairros, hoje não resolve um, dois ou três cidadãos se manifestarem, a cidade cresceu muito, e os moradores precisam se conscientizar da necessidade de eleger seus representantes em Associações de bairros, onde pessoas, fazendo trabalho exclusivamente voluntário, sem objetivar lucro de espécie alguma, trabalham, pelo bem comum e representam os moradores junto aos governos.
Os moradores poderão replicar, mas nós elegemos os vereadores para isso, mas infelizmente não basta, e isto já está mais do que provado, porque os Srs. Vereadores se elegem, visando lucro, e são escravos de seus partidos, votam o que o partido achar por bem. Por isso da importância das Associações de bairros, estas pessoas quando da votação de um projeto na câmara têm o poder de pressionar, para que seja votado aquilo que é o melhor para os moradores, e isto pudemos comprovar na prática, nos vários projetos que foram a votação na câmara, e só com a pressão exercida pelos moradores, lá presentes, com faixas cartazes e contatos pessoais com os vereadores, é que se conseguiu fosse decidido pelo bem dos moradores.
Nós da AMOBELA de antemão estamos apresentando nossa sugestão que é a seguinte: Uma representação junto ao MP expondo tudo o que vem acontecendo. Envio de ofício ao sr. Prefeito, devidamente protocolado, dizendo de nossa inconformidade, com cópia aos meios de comunicação interessados para divulgação do mesmo.
Gostaria ainda de deixar bem claro que não somos ingênuos a ponto de acreditar que conseguiremos alguma coisa, pois os nossos opositores têm o poder junto a prefeitura, mas devemos usar o “jus esperniandis” com o se diz no direito, o nosso direito de espernear, e é isto que estamos propondo.
Assim coloco a disposição dos representantes de associações que queiram se manifestar para ouvirmos às suas opiniões a respeito do assunto, e possíveis sugestões que agregadas as nossas possamos fazer algo.
Muito Obrigada!Homenagem a Carlos Fayet
Margarete Moraes*
Muitas pessoas ao morrer permanecem vivas naqueles que as amaram, na memória daquilo que ensinaram e transmitiram. Enquanto alguém lembrar delas, suas vidas continuam, e nem a morte pode interrompê-las.
Outras pessoas fazem parte da memória da cidade. Estão inscritas naquilo que criaram. É uma memória de todos, parte da vida da cidade. É neste grupo que se inscreve Carlos Maximiliano Fayet, arquiteto que deu vida à idéia de um teatro popular no coração da cidade. O Araújo Vianna, antes na Praça da Matriz, veio para a Redenção composto em seus traços: aberto, pleno, tão disponível que, em sua primeira versão, tinha a protegê-lo apenas as paredes laterais, e por teto o céu, que muitas vezes fez parte do espetáculo, para o bem e para o mal.
Mas, tal como a cidade a sua volta, o Araújo teve que se adaptar ao tempo e aos novos tempos. Foi preciso repensa-lo. E, de novo, coube ao arquiteto Fayet, com o carinho do criador para com a sua criatura, dar-lhe uma cobertura, deixando a chuva e o ruído do lado de fora.
Nesta semana Porto Alegre perdeu um de seus desenhistas. O Araújo, em involuntária solidariedade, acompanha a perda, esquecido pela cidade para a qual foi erguido. Há mais de dois anos fechado, o auditório Araújo Vianna está entregue às pombas, que o ocupam e emporcalham, excluído de seu destino.
Em setembro Porto Alegre recebe o Porto Alegre em Cena. Seria uma bela homenagem a Fayet que espetáculos para grande público acontecessem em nosso maior teatro, o único erguido para a arte ser para todos, sem exclusão social, e não em casas distantes do centro e locadas a altos preços.
A cidade não merece este esquecimento. Homenageemos o arquiteto Carlos Fayet com palmas, renovadas a cada espetáculo em nosso auditório Araújo Vianna.
*Vereadora PT/Porto Alegre, ex-secretária da Cultura de Porto AlegreA cobra que parece gente
Mario Pirata
Nascido em Vila Pinhal, Tupanciretã, no estado do Rio Grande do Sul (1898-1984), Raul Bopp lançou, em 1931, seu principal livro e um dos mais importantes do Modernismo: Cobra Norato.
Murilo Mendes afirmou que “Cobra Norato é o documento capital dessa ruptura de um poeta que, tendo viajado tanto e conhecido culturas tão diferentes, permaneceu tipicamente brasileiro e levou a termo, em pleno século XX, o que os outros descobridores do Brasil tinham tentado em vão desde o início do século XVII. Na linguagem, Bopp, forjador de um léxico saboroso, fundiu sabiamente vozes indígenas e africanas, alterando a sintaxe, sem cair nos exageros e preciosismos de Mário de Andrade”.
Digo isto para assinalar que a montagem de Cobra Norato, pelo grupo Giramundo de Minas Gerais, encerrou neste domingo ensolarado, em Porto Alegre, o fantástico evento “SESI BONECOS DO BRASIL”. E foi emocionante ver o brilho no olhar de um público imenso, ao céu aberto, em um dos palcos e nos quatro ou seis telões espalhados pelo Parque da Redenção (era tanta coisa por ver, difícil enumerar).
Esta amostragem, incluindo feira, exposição e oficinas, constrói assim um painel, desde Mestres Mamulengueiros, da tradição mais popular, até grupos contemporâneos locais e de outros estados, e pelas capitais por onde passa deixa um rastro colorido de encantamentos e cantorias. Reproduções e originais da manufatura dos bonequeiros, bonecos gigantes, pequenos, finos, grossos, que se espalham pela cidade cenotécnica, e uma estrutura extremamente bem montada fazem da festa um acontecimento grandioso.
Ainda tocado pela magia e pela beleza, ouso aqui levantar dois pontos para serem analisados pelos organizadores e colaboradores do evento, esperando dar uma pequena colaboração para a caravana que segue a estrada e certamente voltará em anos posteriores. Pensem comigo, por favor, e vejam como uma pequena tentativa de contribuição para o trabalho, já portentoso e digno de total respeito.
Qual o significado da palavra para a realização de um espetáculo, como dimensionar a importância dos autores que elaboram o texto que sairá dos “lábios” dos bonecos. Um cabloco pernambucano, gaúcho ou mineiro, que trabalha com base no improviso e com um arsenal de “cantos” simples e tradicionais não poderia ter o mesmo espaço dos grupos mais ousados e requintados nas artes da manipulação? Qual o valor da origem autoral para o teatro de bonecos?
Tentarei explicar melhor: não consegui acompanhar a apresentação de dois Mestres Mamulengueiros, pois o espaço destinado a eles era bem menor e de difícil visualização (estavam ao nível do chão e suas imagens não apareciam nos telões, e o público amontoava-se em pé na frente das estantes), pensei comigo, e com a minha filha ao meu lado: – Puxa, estivessem nos palcos grandes, um público maior poderia beber com mais qualidade desta água de fonte, onde os demais grupos mergulharam e se saciaram. E por que não? Um pequeno detalhe, uma pequena reconfiguração na ordem das apresentações, na sua disposição, propiciaria-nos este requinte. Não seria possível? Deixo a indagação com a rapaziada que pegou no pesado para montar o circo!
Segundo, segurando o mundo, bem fundo, e este ponto bateu forte também, doeu outro tanto: – Puxa, este público imenso acabou de assistir a encenação do texto do poeta Raul Bopp, e ele é o autor das palavras que viraram essa fantasia linda que assistimos, e não foi dito o seu nome, não foi pronunciada a sua autoria. Caramba, Bopp nasceu aqui, nesta terra, e seu poema está encerrando a festa. Bastaria o porta-voz do grupo, nos agradecimentos ao público, ou ao apresentador, citarem o seu nome (poderia ser dito até pela loquacidade de um fantoche ou de um marionete) e a platéia porto-alegrense teria conhecido quem escreveu e que ele nasceu por aqui, junto de nós. Plausível, não é incrível? Gente, por favor, o que estou tentando dizer é que o que separa um descuido de uma indelicadeza é um fio tão frágil quanto o que sustém a mão de um boneco no ar.
Ora, pode parecer uma gauchada, uma coisa pequena – por aqui dizemos que os bois com nomes, pelos nomes devem ser chamados. No entanto, vejam só: eu sei, de fonte segura, e de forma não menos irônica, que o autor do espetáculo do Grupo Caixa do Elefante, que antecedeu ao do texto de Raul Bopp, também era de um poeta daqui – não tão importante, e, certamente, menos significativo, mas agora com um outro pormenor: este está vivo, e estava lá, assistindo, aplaudindo com imensa e intensa alegria no coração.
Voltem, bonecos, sempre! Com suas companhias, suas famílias e seus criadores. Seus sonhos e seus amores. E os de seus autores.
Um grande e apertado brincabraço.Desigualdade social, a prioridade
Frei Betto
O maior mérito do governo Lula é contribuir efetivamente para reduzir a desigualdade social no Brasil. Em 2002, nosso país ocupava o vergonhoso 3º lugar em desigualdade social no mundo. Hoje, somos o 10º; se não é motivo de orgulho, já representa um avanço nesta nação tão populosa.
O pico da desigualdade ocorreu na segunda metade dos anos 80, efeito da política de concentração de renda implementada pela ditadura militar – o herético “milagre brasileiro”, que levou o general Médici a admitir: “a economia vai bem, mas o povo vai mal”.
Desde 2001 há progressiva redução no fosso da desigualdade. A renda dos mais pobres tem crescido cerca de 4,5% ao ano. No governo Lula isso se acentuou graças às políticas sociais, em especial o Bolsa Família, que hoje distribui renda a mais de 30 milhões de pessoas pobres e, segundo o Ipea, há maior número de pessoas da família inseridas no mercado de trabalho.
Pesquisa do Ipea aponta que, em 2001, uma família de quatro pessoas dispunha de uma renda média mensal (em valores de hoje) de R$ 209. Em 2004 passou a R$ 239, um aumento de 14%.
Como fatores indiretos dessa melhora do quadro social temos a Constituição de 1988, que ampliou os direitos do trabalhador; o aperfeiçoamento de nossa democracia, que possibilitou mais controle das instituições e, em especial, a fiscalização do poder público (embora isso ainda esteja longe do razoável); e o maior profissionalismo dos funcionários do governo. Um dos desafios da reforma política, pela qual a nação tanto anseia, será a drástica diminuição dos cargos de confiança, de modo a vetar o uso da máquina pública como moeda eleitoral e compensação de alianças partidárias.
A questão social, tão efêmera nos governos anteriores ao de Lula e, quase sempre, restrita à dedicação da primeira-dama, tornou-se central a partir de 2003. Somada à expansão da educação fundamental, iniciada no governo FHC, influi na mudança do perfil da desigualdade no país.
Se o governo Lula merecer um segundo mandato, como anseio, terá como desafios, para melhorar esse perfil, reformar a política de juros, que hoje asfixia os gastos públicos e impede o desenvolvimento sustentável; massificar a educação de qualidade (a aprovação do Fundeb é um passo importante nesse sentido); e incluir na reforma tributária a tributação progressiva, de modo a obrigar os mais ricos a pagarem mais impostos.
Hoje a carga tributária é regressiva. Quem ganha até dois salários mínimos por mês arca com 48,8% do total, enquanto os privilegiados que recebem mais de 30 salários mínimos pagam apenas 26,3%. Eis aqui uma das principais causas da violência urbana. Não é a pobreza que revolta, é a desigualdade, essa odiosa convivência entre a miséria e a ostentação reforçada pela cultura do consumismo. Basta dizer que 70% dos recursos canalizados para atenuar a dívida pública (o famoso superávit primário) são amealhados por apenas 20 mil famílias. Ou seja, o Bolsa Marajás abocanha três vezes mais recursos que o Bolsa Família. Enquanto a Saúde dispõe de um orçamento anual de R$ 36 bilhões e a Educação de R$ 16 bilhões, os credores da dívida pública embolsam cerca de R$ 150 bilhões por ano.
Ainda não há motivos para comemoração. São raros os brasileiros dotados de liberdade substantiva, ou seja, em condições de vislumbrar alternativas para o seu projeto de vida, poder escolher uma delas e realizá-la, inclusive alterando-a parcial ou totalmente. A maioria está privada do direito à vocação e se submete à oportunidade de emprego, condenada a um trabalho que raramente se traduz em satisfação subjetiva, espiritual.
Um dos efeitos da desigualdade social é o desprezo pelos valores éticos. Na ânsia de livrar-se da pobreza e ingressar no mundo do consumo sofisticado (que os anúncios de TV propagandeiam como único reduto de dignidade e felicidade), ampliam-se a sonegação, a corrupção, o nepotismo e o corporativismo.
As reformas política e tributária são imprescindíveis para reduzir ainda mais a desigualdade social, mas não suficientes. O passo significativo será dado no dia em que o Brasil comemorar o êxito de sua reforma agrária, pois só o campo é capaz de absorver a mão-de-obra hoje condenada ao desemprego e estancar o êxodo rural que provoca o inchaço de nossas cidades, visivelmente marcadas pelo subemprego e pela crescente favelização.Plano Aquarela projeta o Brasil lá fora
Wilson Muller*
Pela primeira vez na história do trade nacional o país conta com um programa científico de divulgação do Brasil turístico no exterior. Trata-se do Plano Aquarela desenvolvido pelo Ministério do Turismo e posto em prática pela Embratur, em janeiro de 2005. O diferencial do país é reforçado por um símbolo formado por figuras geométricas em verde, amarelo, azul e vermelho em composição com as palavras Brasil e Sensacional, criação que sugere valores como alegria, sinuosidade, luminosidade e modernidade. A marca Brasil foi idealizada a partir de minuciosa pesquisa que se prolongou por vários meses, período em foi colhida a opinião de mais de 6 mil pessoas sobre o Brasil, em 18 dos principais mercados do mundo, entre profissionais do setor e os próprios turistas. Os resultados positivos que o país vem apresentando no setor evidenciam o acerto da iniciativa.
Para você ter uma idéia, só nos três primeiros meses de 2006, os turistas estrangeiros gastaram no Brasil 1,559 bilhão de dólares, ou 20% a mais que em igual período de 2005. Mais: ainda em 2006 o Brasil avançou oito pontos na posição relativa a destinos turísticos do mundo, subindo do 19o lugar, registrado em 2003, para o 11o este ano. Além disso, foi o melhor colocado entre os países da América do sul , no item destino turístico, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.
Números como esses sugerem que não é excesso de otimismo afirmar que nosso país está caminhando para ocupar vigorosa posição de prestígio e relevância no turismo mundial. Para isso contribui uma nova mentalidade sobre a importância do turismo no Brasil de hoje, assunto levado a sério também pela iniciativa privada, estados e municípios, profissionais da mídia e a própria população. Cada qual fazendo a parte que lhe cabe no projeto, porque reconhecem que a indústria do turismo é essencial para fortalecer a economia, gerar empregos e produzir idéias ricas e produtivas.
*Presidente da Câmara de Turismo do RS
Quintanares com outros ares
Fraga*
A julgar pelas comemorações em torno do centenário de Mario Quintana, parece que o poeta já nasceu com 70 anos. Tudo a ver.
Na maioria das mais que merecidas homenagens (muitas com aspas, poucas sem) o que predomina é a visão de um velhinho frágil e bonzinho – distorção que ele mesmo seria o primeiro a desdenhar. Basta reler suas entrevistas, rever seu humor, relembrar sua graça e rabugice nas redações.
Quintana nunca foi como queriam que fosse. Irreverente, anticonvencional e avesso à solenidade, Quintana se mostrava acima de tudo um agudo crítico de costumes. Um sagaz e sarcástico observador das hipocrisias da sociedade e contradições da humanidade.
Debochava das falsas aparências – deste ou do outro mundo – e tinha ironia de sobra para quem o abordasse com clichês. Seu lugar era o oposto do lugar-comum. Justamente o que mais se vê quando o retratam agora, promocionalmente.
Visto sob esses enfoques marqueteiros, a imagem Quintana não passa de mais um produto da mídia. Neste ano, sua poética vende tudo que ele nunca pretendeu vender: sentimentalismo barato, romantismo ingênuo e até pieguismo.
Um recorte às vezes tão simplório que chega a desumanizar sua pessoa. Frágil, provavelmente Quintana não era: tinha humor, um humor ferino, mais que suficiente para encarar de frente tudo o que tenha vivido – afetos desfeitos, conflitos familiares, angústia existencial, inquietação intelectual.
Dar espaço a fatos, traços ou aspectos mais fortes, mais duros ou mais dolorosos da trajetória pessoal de Quintana não seria diminuir sua personalidade nem sua importância literária. Ao contrário, seria reconhecer em tudo isso a fonte principal da sua criação.
Afinal, tudo que Quintana mais fez foi olhar para dentro de si e descrever com bom humor e muita poesia esse reflexo. Por isso soa original, do lirismo à ironia.
Então, neste centenário edulcorado do poeta, o que se perde é a oportunidade de conhecer melhor o ser humano. Pois quase tudo que se vê exposto, escrito, falado, filmado, citado, ou simplesmente relembrado, leva para o enaltecimento de uma figura esquematicamente sob medida para ações e promoções, patrocinadas ou não.
O Quintana que vou lembrar de perto, já que tive esse privilégio, é o do deboche das coisas ao redor da gente, na Caldas Jr. Alguém que era capaz de escrever sobre um mesmo tema com ângulos antagônicos, e resultados maravilhosos. Como fez com casa:
• Amar é trocar a alma de casa.
• Ele morava sozinho. E um dia fugiu de casa.O primeiro verso, um definitivo hino amoroso. O segundo, na minha opinião, o menor conto de terror do mundo. Como se vê, ou não se vê em anúncios bobinhos, comerciais suavezinhos, perfis repetitivos e depoimentos formais, um Quintana de uma estatura que ainda está por ser medida. Talvez no sesquicentenário dele.Quintanares com outros ares
A Casa de Quintana
Christian Lavich Goldschmidt*
Ao comemorarmos o centenário de nascimento do poeta Mario Quintana, ensaios e artigos sobre sua vida e obra estão sendo publicados. Em julho, mês de seu aniversário, as homenagens aumentaram, ultrapassando as fronteiras das páginas dos jornais, transferindo-se para os programas de rádio e televisão. Para quem acompanha a imprensa de outros Estados brasileiros, não resta dúvidas sobre o alcance que têm hoje a obra de Mario Quintana.
Entre os gaúchos, não há quem não saiba sobre ele. Sua vida está imortalizada não somente através de suas obras, mas também naquele que é um dos centros culturais mais belos do Brasil. A Casa de Cultura Mario Quintana, situada em pleno centro de Porto Alegre, é o maior reconhecimento que a sociedade gaúcha deu ao poeta que encanta a todos de Norte a Sul do Brasil.
O simbolismo desta Casa de Cultura, acredito, ainda não seja compreensível para a maioria das pessoas. A maior parte dos que a frequentam, vão a Casa em busca de bons filmes, de bons espetáculos teatrais, ou até mesmo em busca do bom café servido no Café dos Cata-ventos. Porém, esse não é somente um centro cultural, ali estão expostas todas as formas de Quintana.
A Casa está imbuída de suas vicissitudes, de suas poesias, de seus passos, de suas mais diversas manifestações. Mas o que mais percebo quando estou nesta Casa, são os olhares de Quintana por detrás das paredes a observar atentamente os visitantes, convidando-os a um passeio pelos meandros desta Casa que em momento algum foi somente sua, e nem mesmo agora a deixam ser.
E eu, sabedor desta observação, fujo de seus olhares, pelo menos tento, nem que seja para brincar um pouco de esconde-esconde. Mas depois me dou por vencido, e entrego-me, deixo Quintana a me guiar e vou mostrando aos poucos que o que desejo é ficar o mais próximo quanto puder de sua vida. Então, o máximo que consigo, é aproximar-me de sua sabedoria e tirar dela proveito devotando-me às suas poesias.
A Casa de Cultura Mario Quintana tem hoje uma programação diversificada e de qualidade que atrai um número cada vez maior de visitantes. Essa pluralidade cultural tem um responsável, é ele Sérgio Napp. Não poderia ser diferente, Napp foi amigo de Quintana, e com responsabilidade, nos brinda com a oportunidade da continuidade de suas poesias. Sérgio Napp está para a Casa de Cultura Mario Quintana, assim como Eva Sopher está para o Teatro São Pedro.
A previdência e os presidenciáveis
Vilson Antonio Romero
As pesquisas de intenção de voto, antes do início da campanha política no rádio e na televisão, apontam para uma polarização entre tucanos e petistas, apesar do crescimento da candidatura P-SOLista, saudada por opositores do atual governo, em razão de possibilitar um segundo turno, o que, em pesquisas do primeiro semestre, era quase inimaginável.
Mesmo ainda restando mais de dois meses para o sufrágio de outubro, período durante o qual ocorrerá – em tese – o escancaramento dos programas de governo ou plataformas eleitorais e onde os eventuais debates entre presidenciáveis podem permitir o surgimento de algumas “saias justas”, em especial dirigidas à atual coligação governante, tentamos vislumbrar o que pode acontecer com a previdência social no próximo governo, seja este ou aquele.
Pesquisando rapidamente nas páginas eletrônicas dos principais partidos oponentes (www.pt.org.br e www.psdb.org.br) temos ainda poucas sinalizações sobre eventuais projetos de mudanças no sistema de seguro social brasileiro. No atual governo, inclusive tem havido manifestações sistemáticas, desde que assumiu o novo ministro da Fazenda, de não haver necessidade de mais reformas na previdência. Editorial de um importante jornal diário do sul do País realça que “as duas reformas previdenciárias já realizadas, uma no governo FH, outra no governo Lula, mostraram-se claramente insuficientes”. Prevê que “o ano de 2006 deve fechar com um rombo nas contas da previdência entre R$ 43 bilhões e R$ 45 bilhões.
No ano passado, já sob o impacto da segunda reforma previdenciária, o déficit havia sido de R$ 38,6 bilhões”. Reforça ainda, espelhando pensamento expressivo do empresariado brasileiro – e, obviamente, dos principais financiadores de campanha – que “são números impressionantes, pois sangram os cofres do Tesouro, inviabilizando investimentos”.
No “site” tucano, há uma entrevista com um de seus próceres, o ex-presidente FHC, onde afirma: “A Previdência tem de passar por uma nova reforma em março”. Na página petista, foram divulgados recentemente os nomes dos integrantes das comissões do programa de governo, onde, no tema Previdência, são listados diversos integrantes, entre eles Helmut Schwarzer, atual secretário ministerial, como formuladores de propostas.
Como se vê, por mais que seja um tema sensível à grande parcela dos mais de 125 milhões de eleitores, há uma possibilidade muito concreta de surgirem propostas de alterações na previdência, envolvendo principalmente dois de seus subsistemas: o regime geral (dos trabalhadores celetistas) e o regime próprio (dos servidores públicos).
Há ainda uma longa trilha até a data da eleição e, maior ainda, até a posse e apresentação de projetos, mas com certeza o debate sobre previdência social abrangerá a intenção ou não de acabar com encargos sobre as folhas salariais, deslocando o financiamento para o faturamento líquido das empresas. Estarão na pauta a universalidade do sistema público e seu papel de instrumento de poupança nacional ou ainda a pura e simples transformação da previdência num programa de renda mínima e a uniformização futura dos sistemas de previdência do setor público e privado ressaltando sempre a preservação dos direitos adquiridos, que nesta fase de palanques eleitorais, será o discurso dos candidatos.
