Categoria: Análise&Opinião

  • 10 anos sem Abbas Kiarostami: o legado do mestre iraniano

    Abbas Kiarostami | Foto de Hamed Malekpour para a Agência de Notícias Tasnim

    Por Cristiano Goldschmidt

    Há uma duração — nem sempre exata, mas frequentemente próxima — em que a memória transita do luto agudo para a sedimentação histórica. Dez anos é esse tempo em que a ausência de um artista deixa de ser uma ferida aberta para se tornar uma lacuna estrutural na forma como compreendemos o mundo. Em 4 de julho de 2016, quando Abbas Kiarostami partiu em Paris, o cinema perdeu não apenas um de seus maiores diretores, mas o seu mais gentil filósofo da imagem. O mundo que ele deixou para trás, em 2016, ainda tateava as incertezas de uma era de pós-verdade e fragmentação digital, mas o mundo de 2026, onde nos encontramos agora, parece ter mergulhado definitivamente em uma saturação visual que torna o seu cinema mais do que um legado: torna-o um antídoto. O silêncio que Kiarostami deixou não foi um vácuo de produção — sua influência ecoa em cada cineasta que ousa demorar o olhar —, mas a ausência de uma perspectiva: aquela capacidade quase mística de encontrar o universal no particular, o eterno no efêmero e a verdade na mais descarada das encenações.

    A filosofia do olhar: O automóvel como confessionário

    Para Kiarostami, a câmera nunca foi um instrumento de captura passiva, mas uma ferramenta de interrogação constante que desafiava o espectador a completar a obra com sua própria subjetividade. Talvez em nenhum outro lugar essa filosofia tenha sido tão pungente quanto no interior dos automóveis que serviram de cenário para obras-primas como Gosto de Cereja (1997) e Dez (2002). O carro, sob sua direção, transmutou-se: de meio de transporte em estúdio móvel, de estúdio móvel em confessionário laico. A intimidade era forjada pela proximidade física e pela paisagem que passava — imutável, indiferente — do lado de fora da janela. Ao confinar seus personagens a esse espaço restrito, Kiarostami eliminava as distrações do mundo para focar na essência do diálogo e na microexpressão da alma humana.

    Em Gosto de Cereja, a busca de um homem por alguém que o enterre após o suicídio não é um exercício de niilismo, mas uma celebração da vida mediada pelo olhar do outro, revelando que a redenção habita o sabor de uma fruta, o pôr do sol através de um para-brisa empoeirado. Nesse filme, a morte não é o tema; é apenas o pretexto para uma conversa sobre a razão de viver. Cada encontro dentro do carro é uma pequena epifania, um instante em que a vida se justifica por sua própria persistência.

    A fronteira borrada: A verdade da mentira

    A genialidade de Kiarostami residia na sua recusa em aceitar a dicotomia entre documentário e ficção, uma fronteira que ele não apenas cruzou, mas que dissolveu com a precisão de um alquimista. Em Close-Up (1990), ao reconstruir o caso real de um homem que se passou pelo cineasta Mohsen Makhmalbaf, ele criou uma obra que questiona a própria natureza da identidade e do desejo de ser reconhecido. Da mesma forma, a chamada Trilogia de Koker — composta por Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), E a Vida Continua (1992) e Através das Oliveiras (1994) — representa um dos exercícios metalinguísticos mais sofisticados da história da arte.

    Ao retornar ao local de um terremoto devastador para procurar os atores de seu filme anterior, Kiarostami transformou o “fazer cinema” no tema central da narrativa, revelando que a arte não é um espelho da realidade, mas uma construção que, paradoxalmente, é a única forma de alcançarmos uma verdade emocional profunda. Ele nos ensinou que a encenação é, frequentemente, o caminho mais direto para a honestidade — uma lição que desmente séculos de desconfiança entre arte e verdade.

    O legado digital e a imagem fixa

    Nos seus últimos anos, Kiarostami abraçou a tecnologia digital não como uma facilidade técnica, mas como uma nova fronteira para a experimentação poética. Sua transição para a fotografia e para obras experimentais culminou em 24 Frames (2017), seu testamento visual póstumo, onde ele deu vida a imagens estáticas, fossem elas fotografias autorais ou pinturas clássicas. Nesse projeto, cada quadro é uma meditação sobre o tempo e o movimento, um convite para que o espectador recupere a capacidade de observar o detalhe mínimo: o balanço de uma folha, o voo de um pássaro ou a queda da neve.

    Essa fase final de sua carreira revelou um artista que, embora mestre do diálogo, estava cada vez mais interessado no que as imagens dizem quando as palavras calam. O digital, para ele, era uma forma de libertar o cinema das amarras industriais e devolvê-lo à sua essência de observação pura, quase pictórica, onde a tecnologia servia apenas para ampliar a sensibilidade humana. Em 24 Frames, o tempo não passa — ele respira.

    Kiarostami em 2026: A fragilidade da memória

    Chegamos a julho de 2026 e a relevância de Abbas Kiarostami é celebrada por cineastas e estudiosos em todo o mundo, um reconhecimento que demonstra como sua estética continua a fecundar a imaginação de jovens realizadores de todas as nacionalidades. No entanto, essa celebração convive com a melancolia da perda material. A deterioração de espaços que abrigaram sua obra — como sua antiga residência em Teerã — serve como metáfora dolorosa para a fragilidade do legado físico diante do tempo e da negligência política. A deterioração de sua casa nos lembra que, embora as ideias sejam perenes, os espaços que as abrigaram são vulneráveis.

    Preservar Kiarostami em 2026 exige mais do que revisitar seus filmes: exige uma resistência ativa contra o esquecimento e contra a simplificação de sua obra, que muitas vezes é reduzida a um exotismo geográfico, ignorando sua universalidade radical e seu compromisso inabalável com a dignidade do indivíduo. Sua importância não reside em ser um “cineasta iraniano”, mas em ser um cineasta que, através da experiência iraniana, tocou o coração universal.

    A necessidade do olhar humano

    Ao completarmos uma década sem a sua presença física, percebemos que o cinema de Abbas Kiarostami é mais necessário hoje do que em qualquer outro momento da história. Em uma era dominada por algoritmos que antecipam nossos desejos e por uma estética de choque que anestesia a sensibilidade, a simplicidade de Kiarostami surge como um ato de rebeldia. Seus filmes não nos dão respostas prontas; eles nos devolvem as perguntas fundamentais.

    Ele nos ensinou a olhar para a estrada, para a árvore na colina e para o rosto do estranho com uma curiosidade desarmada e um respeito profundo. A complexidade da alma humana, para ele, não estava nos grandes dramas épicos, mas nos pequenos gestos de persistência e na beleza resiliente da vida que insiste em continuar, mesmo após os terremotos e as perdas. Dez anos depois, sua obra permanece como lembrete: o cinema não existe para explicar o mundo, apenas para nos deixar a sós com o mistério das coisas.

  • Geografia do desamparo: entre o calor e o dilúvio

    Por Cristiano Goldschmidt

    O ar em Roma, nestes dias de junho e início de julho, não é mais um elemento invisível que se respira, é uma presença sólida, uma massa translúcida que se impõe sobre os ombros de quem se atreve a caminhar pelas praças de pedra. Não se trata apenas de calor, no sentido meteorológico do termo, mas de uma alteração na própria textura da realidade urbana. Quando os termômetros em Saarbrücken, na Alemanha, tocam os 41 graus Celsius e as fontes de Viena parecem evaporar antes mesmo de a água atingir o mármore, percebemos que não estamos diante de uma estação, mas de um veredito. A Europa, esse jardim temperado que moldou a nossa ideia de civilização e equilíbrio, está derretendo sob uma cúpula de fogo que ignora fronteiras e tradições.

    Fonte da imagem: https://www.esa.int/ESA_Multimedia/Images/2026/06/Europe_feels_the_heat_beneath_our_feet 

    Amigos que residem em diferentes pontos do continente me enviam relatos que transcendem os dados dos institutos de meteorologia. Eles descrevem uma rotina de confinamento térmico, onde o simples ato de abrir uma janela se tornou uma concessão perigosa. Na Itália, o alerta vermelho em dezoito cidades não é apenas um aviso de saúde pública, é o reconhecimento de que a infraestrutura clássica, as ruas estreitas pensadas para o frescor das sombras medievais, não dão mais conta de um sol que parece ter se aproximado alguns quilômetros da superfície. O asfalto que amolece na Alemanha é o mesmo que, no Brasil, é arrancado pela força das enxurradas.

    Ao mesmo tempo, do outro lado do Atlântico, o Brasil vive o avesso desse mesmo drama. Enquanto o europeu busca desesperadamente por uma sombra que não queime, o brasileiro no Nordeste e no Sul tenta se equilibrar sobre o que restou de suas ruas, agora transformadas em leitos de rios improvisados. A água que caiu sobre Pernambuco e as cidades catarinenses e gaúchas neste último final de semana não foi a chuva que abençoa a colheita, foi o excesso que destrói a memória. Há uma ironia trágica nessa sincronia: o mundo parece ter perdido a medida. Onde falta umidade, a terra racha e a vida se esconde; onde ela sobra, a terra desliza e a vida se perde.

    Essa simultaneidade de extremos não é uma coincidência estatística, é o sintoma de uma Terra que parou de sussurrar seus avisos para começar a gritar. Ao observar as ondas de calor na Hungria ou na Áustria, não podemos nos limitar a falar em mudanças climáticas como se fosse um conceito abstrato de laboratório. É preciso falar sobre a falência da previsibilidade. A Europa sempre foi o continente da ordem, das estações bem marcadas, do tempo que se podia cronometrar. Hoje, Berlim e Milão experimentam uma tropicalização perversa, onde o calor não traz o frescor do mar, mas o peso de um forno industrial. É o fim da Europa Temperada e, com ela, o fim de uma certa segurança ontológica que o homem ocidental cultivou por séculos.

    A filosofia do Antropoceno nos ensina que o impacto humano sobre o planeta atingiu uma escala geológica, mas o que sentimos na pele é algo muito mais íntimo. É o desconforto de um corpo que não reconhece mais o seu habitat. O paralelismo entre o calor europeu e as chuvas brasileiras revela a nossa profunda interconexão na tragédia. Não existe mais um lá e um aqui quando se trata do colapso dos sistemas reguladores do planeta. A umidade que falta na bacia do Danúbio é a mesma que se concentra de forma desordenada sobre o Atlântico Sul, precipitando-se em volumes que desafiam qualquer planejamento urbano. O que une o cidadão de Budapeste ao morador de uma encosta em Maceió é a vulnerabilidade diante de uma natureza que perdeu a paciência com os nossos protocolos de intenções.

    Podemos refletir sobre o conceito de exílio climático sem que ninguém precise sair de casa. O cidadão que vive hoje em Viena ou Munique, trancado em apartamentos que não foram projetados para o calor extremo, é um exilado de sua própria cultura climática. Ele não reconhece mais o verão de sua infância. Da mesma forma, o brasileiro que vê sua casa submersa pela terceira vez em um ano é um estrangeiro em sua própria terra, um sobrevivente de um regime de chuvas que não segue mais o calendário dos seus avós. O mundo tornou-se um lugar estranho, e essa estranheza é o que define a nossa era.

    É profundamente melancólico ver a Europa, o berço do Iluminismo, sucumbir a um calor que cega a razão. A Alemanha, com sua precisão técnica, vê seus trens pararem e sua energia vacilar diante da demanda por resfriamento. É a prova de que a técnica, por mais avançada que seja, não pode substituir a estabilidade dos ciclos naturais. No Brasil, a tragédia das águas no Nordeste e no Sul expõe a nossa ferida aberta: a desigualdade. Pois, se o calor na Europa mata o idoso isolado em seu apartamento, a chuva no Brasil mata o pobre que não tem para onde fugir quando o morro desce. O clima é o grande equalizador da dor, mas o impacto social é cruelmente seletivo.

    Precisamos de uma nova ética da existência, uma que vá além do pragmatismo econômico. O que as ondas de calor na Europa e as inundações no Brasil nos dizem é que a Terra não é um cenário para a nossa história, ela é a própria história. Quando ignoramos o limite do planeta, estamos ignorando o limite da nossa própria sobrevivência. A imagem de uma Itália a ferver e de um Brasil a submergir deveria ser o quadro definitivo deste século, uma obra de arte trágica que nos obriga a repensar cada gesto de consumo, cada política de desenvolvimento.

    O intelectual não pode mais se dar ao luxo do pessimismo passivo. É preciso uma indignação ativa. O calor extremo que atinge a Áustria e a Hungria neste momento é um lembrete de que a estabilidade é uma ilusão que custa caro. A água que devasta o Sul do Brasil é o eco desse mesmo lembrete. Estamos todos no mesmo barco, e o casco está furado. A diferença é que alguns estão na proa, tentando ignorar o sol escaldante, enquanto outros já estão com a água pelo pescoço na popa. Mas o naufrágio, se não mudarmos o curso, será coletivo.

    Enquanto o sol se põe sobre uma Europa exausta e as águas começam a baixar em algumas cidades brasileiras, resta-nos a reflexão sobre o que restará de nós quando o clima terminar de redesenhar o mapa do mundo. Seremos capazes de construir uma solidariedade que atravesse oceanos, unindo a dor do calor europeu à urgência da água brasileira? Ou continuaremos a tratar cada evento como uma fatalidade isolada, uma anomalia em um sistema que já se provou falido? A resposta não está nos dados meteorológicos, mas na nossa capacidade de sentir a dor do outro como se fosse a nossa, porque, no fim das contas, a atmosfera que nos sufoca é a mesma que nos afoga.

  • O Estado sucumbiu antes dos seis jovens de Rio das Pedras

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Na manhã deste domingo, 28 de junho, acompanhei pela GloboNews a reportagem sobre o desaparecimento de seis jovens em um intervalo de apenas três meses em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

    Confesso que fui tomado por uma indignação profunda e pela perturbadora percepção de que, no Brasil, nos habituamos a coexistir com o intolerável. A notícia trazia um dado que, em uma nação verdadeiramente comprometida com a dignidade humana, seria irrelevante: nenhum dos seis jovens possuía antecedentes criminais ou, segundo seus familiares, qualquer vínculo com facções criminosas. Testemunhas relatam que foram abordados e executados por milicianos. A Polícia Civil investiga os casos. Contudo, a verdadeira tragédia reside justamente nesse detalhe.

    O simples fato de a biografia de uma vítima precisar de escrutínio para que sua morte desperte comoção revela uma deformação severa do nosso senso ético. É como se o direito à indignação estivesse condicionado a um atestado de idoneidade, uma espécie de certificado de respeitabilidade que separa as vidas que merecem luto daquelas que podem ser descartadas. Por isso, tantas famílias, imersas no luto e antes mesmo de clamarem por justiça, veem-se compelidas a blindar a honra de seus filhos. Este é, talvez, um dos sintomas mais perversos da degradação moral fomentada pela violência endêmica: a vítima é julgada antes do algoz.

    No entanto, há uma camada ainda mais sombria e estrutural. O sumiço desses jovens não é apenas um dado na mórbida estatística fluminense; ele simboliza o colapso histórico de um Estado que, há décadas, demonstra incapacidade de garantir sua premissa elementar: a salvaguarda da vida. É impossível tratar o tema sob a ótica asséptica com que dramas humanos são convertidos em indicadores de gestão. Há mais de quarenta anos, o Rio de Janeiro sobrevive a promessas de pacificação, planos estratégicos e operações pirotécnicas. Mudam-se os governadores, secretários e slogans, mas o medo permanece imutável. O que não se altera é o rastro de famílias em busca de respostas e a certeza de que existem territórios onde a soberania legítima foi revogada por poderes paralelos que operam à luz do dia.

    Um Estado não fracassa apenas ao falhar na captura de criminosos. Ele sucumbe quando perde o monopólio legítimo da força e, consequentemente, a confiança da população. Quando grupos armados ditam quem circula, quem trabalha e quem deve desaparecer, a autoridade pública dissolve-se em uma irrelevância burocrática. Essa erosão institucional não é súbita; ela é um processo lento de normalização do absurdo, onde a exceção se torna a regra e o crime organizado assume funções de ordenamento social. Rio das Pedras, berço histórico das milícias, é o laboratório desse experimento de falência republicana.

    É aviltante. Não há termo mais preciso para descrever a sensação de impotência diante do Estado que assiste, inerte, ao sequestro de sua própria autoridade. É aviltante que moradores de uma metrópole global vivam sob o jugo de milícias, sendo retirados de transportes públicos sob a mira de fuzis. É ultrajante que mães peregrinem por meses enquanto o silêncio institucional agrava a angústia. Toda autoridade pública deveria sentir o peso do constrangimento diante dessa falência. Governar não é gerir coletivas de imprensa nem produzir gráficos de redução de criminalidade que não se traduzem na segurança das calçadas; governar é assegurar o direito básico de ir e vir sem o risco do extermínio.

    A palavra “desaparecido” carrega uma crueldade singular: ela suspende o luto. Diferente da morte confirmada, que permite o rito de passagem e o início da cicatrização, o desaparecimento condena os familiares a uma clausura emocional. Não permite o repouso da esperança nem a finitude do desespero. É uma tortura psicológica continuada, onde cada dia sem respostas é uma nova violação da dignidade humana. A repetição dessas tragédias gera uma anestesia coletiva, transformando o extraordinário em corriqueiro. Uma sociedade que perde a capacidade de se horrorizar diante do bárbaro começa a aceitá-lo como destino inevitável, uma característica geográfica do Rio de Janeiro.

    O Rio de Janeiro não merece esse fardo. Sua população não pode ser refém da dicotomia entre a beleza exuberante de sua geografia e a brutalidade de seu cotidiano. Nenhuma democracia é plena enquanto o poder paralelo legisla, julga e executa à revelia das instituições republicanas. Quando o crime exerce funções estatais, assistimos ao encolhimento da própria República, que se retira das periferias e deixa o cidadão à mercê da “lei da força”. A ausência do Estado não é um vácuo; ela é preenchida por uma ordem arbitrária e violenta que ignora os direitos fundamentais.

    A pior violência não é apenas o ato do algoz, mas a inércia persistente das instituições que deveriam impedir que isso continuasse acontecendo. Os seis jovens de Rio das Pedras expõem uma ferida que transcende a segurança pública: é uma crise política, moral e civilizatória. É a prova de que o contrato social foi rompido em determinadas áreas do território nacional. A memória coletiva, anestesiada pelo excesso de escândalos e tragédias, torna-se curta demais para enfrentar problemas que exigem soluções estruturais e coragem política.

    O desaparecimento mais inquietante, afinal, não é apenas o desses jovens, mas o da convicção de que o Estado ainda existe para proteger o cidadão comum. Quando essa crença se esvai, a violência deixa de ser um crime isolado para se tornar uma ausência sistêmica. A imagem mais dolorosa do Brasil contemporâneo não é apenas a das ausências em Rio das Pedras, mas a de um país que segue seu curso como se certas vidas pudessem ser apagadas sem que, com elas, desaparecesse também a nossa própria humanidade. Resta o silêncio das autoridades e o grito sufocado de mães que, contra todas as evidências, ainda esperam pelo retorno de quem o Estado permitiu que sumisse.

    A tragédia desses jovens é um espelho onde o Brasil deveria se olhar para enxergar o tamanho de sua omissão. Enquanto o poder público se ocupar apenas de administrar a própria imagem, Rio das Pedras continuará sendo o símbolo de uma República que encolhe diante do fuzil. O desaparecimento dos seis jovens é o desaparecimento da nossa esperança em um país onde a vida, independentemente de antecedentes ou endereços, seja o valor supremo. Sem isso, não há democracia, apenas uma convivência forçada com o bárbaro.

    Abaixo, os seis jovens desaparecidos em Rio das Pedras de janeiro a junho (fotos: Reprodução TV Globo): Josimar dos Santos Ferreira, 36 anos, Ryan Palhares, 25 anos, Pedro Henrique Lopes Guimarães, Luan Victor, 15 anos, Gustavo Henrique Nascimento Francisco e João Ícaro Alves Souza.

    Josimar dos Santos Ferreira, 36 anos

    Ryan Palhares, 25 anos

    Pedro Henrique Lopes Guimarães

    Luan Victor, 15 anos

    Gustavo Henrique Nascimento Francisco

    João Ícaro Alves Souza

  • Quando a Terra treme e a humanidade falha

    Por Cristiano Goldschmidt

    Alguns acontecimentos desafiam qualquer tentativa de explicação. O instante em que a terra rompe o pacto de silêncio que mantém com a humanidade talvez seja um deles. Um terremoto não pede licença, não escolhe o momento oportuno nem distingue fronteiras, ideologias, crenças ou classes sociais. Apenas acontece. E quando acontece, recorda-nos uma verdade que insistimos em esquecer: por mais grandiosa que seja a obra construída pelas mãos humanas, continuamos habitando um planeta dotado de forças próprias diante das quais nossa tecnologia, nosso poder econômico e nossas pretensões de controle ainda revelam seus limites.

    Foi exatamente essa lembrança que voltou a ecoar diante do terremoto que atingiu a Venezuela. Em poucos segundos, famílias inteiras viram desaparecer a segurança do cotidiano. Casas deixaram de ser abrigo. Ruas transformaram-se em corredores de incerteza. O medo invadiu uma rotina que para muitos já era de dificuldades e milhões de pessoas passaram a viver a angustiante expectativa de reencontrar parentes, contabilizar perdas e reconstruir aquilo que parecia sólido até o instante anterior.

    Terremoto na Venezuela foi em 24/6/26 | Foto: Reprodução Reuters/Agência Brasil

    Diante da dimensão de tragédias naturais, os números impressionam e as imagens chocam. Mas nenhuma estatística consegue traduzir a dor silenciosa de quem perde um filho, uma mãe, um companheiro ou simplesmente o lugar que chamava de lar. A verdadeira extensão de um desastre nunca cabe nos boletins oficiais. Ela permanece inscrita na memória daqueles que sobreviveram.

    Ao longo da história, aprendemos a conviver com fenômenos que escapam completamente à nossa vontade. Terremotos, erupções vulcânicas, furacões, secas prolongadas, enchentes e tsunamis fazem parte da dinâmica de um planeta em permanente transformação. São expressões da própria vida geológica da Terra, cuja existência antecede em bilhões de anos a presença humana.

    Essa constatação deveria produzir humildade. Entretanto, produzimos, muitas vezes, exatamente o contrário.

    Se existem tragédias inevitáveis, há também aquelas que são cuidadosamente arquitetadas pelo próprio homem. Enquanto a natureza, ocasionalmente, rompe seu equilíbrio e impõe sofrimento, o ser humano parece empenhado em fabricar desastres cotidianos que poderiam simplesmente não existir.

    Talvez seja essa a contradição mais dolorosa do nosso tempo.

    Como se não bastassem os desafios impostos pelas forças naturais, insistimos em ampliar o sofrimento coletivo por decisão própria. Enquanto equipes de resgate procuram sobreviventes entre os escombros deixados por terremotos, outras pessoas, em diferentes regiões do planeta, precisam fugir não dos movimentos da crosta terrestre, mas das ofensivas conduzidas por tanques, mísseis e aviões de guerra.

    A guerra entre Rússia e Ucrânia já produziu uma sucessão de cidades destruídas, famílias fragmentadas e gerações marcadas pelo trauma. No Oriente Médio, sucessivos ciclos de violência continuam transformando crianças em refugiadas antes mesmo que tenham conhecido plenamente a infância. Em ambos os casos, não foi a natureza que decidiu espalhar destruição. Foram escolhas humanas.

    Essa diferença é moralmente decisiva.

    Diante de um terremoto, resta-nos socorrer, reconstruir e confortar. Diante de uma guerra, antes de reconstruir, é preciso perguntar por que aceitamos que ela exista. Afinal, terremotos pertencem à geologia. Guerras pertencem à política, ao poder, ao fanatismo, aos interesses econômicos e à incapacidade de reconhecermos no outro alguém igualmente digno de viver em paz.

    Vivemos uma época curiosa. Nunca produzimos tanto conhecimento científico. Nunca dominamos tecnologias tão sofisticadas. Somos capazes de enviar sondas a milhões de quilômetros da Terra, desenvolver inteligência artificial, decifrar parte do código genético da vida e estabelecer comunicação instantânea entre continentes. Apesar disso, permanecemos incapazes de resolver aquilo que talvez seja o problema mais elementar da civilização: aprender a conviver sem transformar diferenças em motivo para destruição.

    Também enfrentamos outra tragédia silenciosa, concebida lentamente ao longo de décadas. A degradação ambiental deliberadamente provocada altera ecossistemas, intensifica eventos climáticos extremos, compromete a disponibilidade de água, acelera a perda da biodiversidade e amplia a vulnerabilidade de populações inteiras. Embora um terremoto não seja consequência das mudanças climáticas, ele se soma a um cenário global em que desastres naturais encontram sociedades frequentemente fragilizadas por escolhas econômicas e políticas equivocadas.

    Não é a Terra que se tornou mais cruel. Em muitos aspectos, somos nós que a tornamos mais difícil de habitar.

    Talvez por isso cada tragédia devesse produzir mais do que comoção passageira. Deveria produzir consciência.

    O sofrimento dos venezuelanos não pertence apenas à Venezuela. Assim como a dor dos ucranianos não pertence exclusivamente à Ucrânia, e o drama vivido por milhares de famílias no Oriente Médio não diz respeito apenas àquela região. Num mundo profundamente interligado, toda dor humana ultrapassa fronteiras. Cada desastre revela nossa vulnerabilidade compartilhada. Cada vítima nos recorda que a nacionalidade é um acidente geográfico; a condição humana, porém, é universal.

    Há momentos em que a solidariedade deixa de ser virtude para tornar-se necessidade civilizatória. Não se trata apenas de enviar ajuda humanitária, alimentos ou recursos materiais — embora tudo isso seja indispensável. Trata-se de preservar a capacidade de sentir a dor alheia como algo que também nos diz respeito. Uma sociedade começa a fracassar quando se acostuma ao sofrimento dos outros.

    Talvez nunca consigamos impedir que a terra volte a tremer. Certamente continuaremos convivendo com fenômenos naturais que escapam ao nosso controle. Mas há uma escolha que permanece inteiramente sob nossa responsabilidade: decidir se continuaremos produzindo guerras, alimentando discursos de ódio, devastando o meio ambiente e multiplicando sofrimentos evitáveis.

    A natureza já impõe desafios suficientes. Não deveríamos competir com ela na produção de tragédias.

    Que o terremoto na Venezuela não seja lembrado apenas como mais um episódio registrado nas páginas do noticiário internacional. Que ele permaneça como um convite à compaixão e, sobretudo, como um lembrete de que, diante da imensidão das forças da natureza, todos pertencemos à mesma condição humana. Se somos incapazes de impedir que a Terra se mova sob nossos pés, ainda podemos escolher caminhar juntos sobre ela com mais solidariedade, mais responsabilidade e muito mais paz.

  • Durante anos ela foi apenas a “mudinha do Belói”

    Cristiano Goldschmidt

    Talvez por estar prestes a completar 50 anos em setembro próximo, ultimamente tenho pensado muito na minha infância e no início da adolescência em Portão do Ocoí, no oeste do Paraná, durante a década de 1980 e começo dos anos 1990. Muitas lembranças surgem aos poucos. Algumas trazem acontecimentos extraordinários. Outras permaneceram porque se repetiram tantas vezes que acabaram se confundindo com a própria paisagem daquele tempo. Entre elas está a figura de uma menina que atravessava a comunidade quase todos os domingos, visitando casas, entrando em cozinhas, ocupando varandas e participando, à sua maneira, da vida de praticamente todos os moradores.

    Para nós, ela era a “mudinha do Belói”.

    O Belói era seu pai, um próspero produtor rural da região. E aquela era a forma pela qual a comunidade a identificava. Hoje, é importante dizer, sabemos que a expressão “surdo e mudo”, tão comum décadas atrás, é inadequada. O termo correto é pessoa surda ou simplesmente surda. Mas estou falando de um tempo em que essa discussão inexistia no cotidiano das pequenas comunidades. Naquele contexto, “mudinha do Belói” não carregava maldade nem intenção pejorativa. Era apenas o nome pelo qual todos sabiam de quem se tratava.

    Eu mesmo a conhecia apenas assim.

    E isso talvez explique uma das maiores surpresas que essa história me reservou.

    Mas essa revelação viria muitos anos mais tarde.

    Naquele tempo, a “mudinha do Belói” era parte da vida cotidiana de Portão do Ocoí.

    Os domingos pareciam pertencer a ela.

    Depois do almoço, iniciava uma espécie de peregrinação que se repetia semana após semana. Visitava uma casa, depois outra, depois mais outra. Algumas vezes permanecia apenas alguns minutos. Em outras, passava boa parte da tarde. Tudo dependia da recepção, do movimento da casa e das pessoas que encontrava.

    Era impossível encontrar alguém que não a conhecesse.

    Quem morava na comunidade inevitavelmente acabava cruzando com ela em algum momento do domingo.

    Hoje penso que poucas pessoas desbravaram tão bem aquele lugar quanto ela. Enquanto muitos de nós circulávamos entre escola, casas e propriedades vizinhas, ela parecia percorrer um território mais amplo. Conhecia os moradores, acompanhava as mudanças das famílias, percebia ausências, reaparecimentos e novidades. Havia algo de profundamente humano naquela necessidade de estar entre as pessoas.

    Nós brincávamos muito.

    E, embora a comunicação pudesse parecer improvável para quem observasse de fora, não me lembro de ter sentido qualquer dificuldade real para me entender com ela. Não conhecíamos Libras. Simplesmente fomos criando nossos próprios sinais e meios para nos entender.

    Um gesto significava uma coisa.

    Outro, algo diferente.

    Certas expressões dispensavam qualquer explicação.

    Com o tempo, construímos uma linguagem inteiramente nossa, feita de convivência, observação e confiança. Era uma língua que não existia em livro algum, mas funcionava perfeitamente para duas crianças que passavam horas brincando juntas.

    Lembro de corridas pelos quintais, de brincadeiras improvisadas e daqueles longos períodos em que o relógio parecia ter pouca importância. Muitas vezes bastava um olhar para que um entendesse o que o outro pretendia fazer.

    Talvez por isso eu nunca tenha pensado nela a partir de sua condição de pessoa surda.

    Ela tinha também um jeito muito particular de ocupar o mundo. Era uma menina simples, mas não pela condição financeira da família, que era boa. A simplicidade estava na forma de viver. Ao mesmo tempo, gostava de adornos, de roupas diferentes e de peças que chamavam atenção. Pulseiras, colares, brincos e outros enfeites pareciam fazer parte de sua linguagem pessoal. Era como se utilizasse cores e brilhos para expressar aquilo que as palavras nunca puderam dizer.

    Enquanto muitas pessoas se preocupavam em seguir padrões, ela parecia seguir apenas a própria intuição. Suas escolhas refletiam uma personalidade livre, espontânea e absolutamente autêntica.

    Lembro de vê-la chegar usando várias pulseiras ao mesmo tempo, colares vistosos ou roupas que se destacavam em meio à discrição predominante da comunidade. Nada daquilo parecia calculado. Era apenas a maneira como gostava de existir no mundo.

    Também gostava de ser maquiada. Bastava aparecer um batom, um pó facial ou qualquer novidade desse universo para que seus olhos demonstrassem interesse.

    E gostava de ganhar presentes. Uma roupa, um colar, uma pulseira ou qualquer bijuteria eram recebidos com uma alegria sincera, daquelas que não precisam ser explicadas. O que a encantava era a atenção contida no gesto.

    Havia ainda outra característica pela qual se tornara conhecida entre nós: seu entusiasmo pelos doces.

    Se havia bolo, pudim, sagu ou qualquer outra sobremesa servida depois do almoço, as chances de repetir eram grandes. E repetia com uma satisfação tão genuína que acabava despertando simpatia em todos ao redor.

    Muitas das minhas lembranças dela estão associadas justamente a esses pequenos momentos. Não a grandes acontecimentos, mas às cenas comuns que acabam sobrevivendo ao tempo: ela surgindo na estrada e entrando pelo portão sem necessidade de convite formal, sentada na cozinha observando o movimento da casa, experimentando um colar novo, repetindo uma porção de doce.

    Durante muito tempo, pensei que essas fossem apenas lembranças de infância.

    Até 2023.

    Foi então que a revi pela primeira vez desde 1993.

    Trinta anos haviam passado.

    E foi nesse reencontro que descobri algo: a “mudinha do Belói” tinha um nome.

    Gorete.

    Com Gorete Pazini, em setembro de 2023 | Arquivo pessoal C.istiano Goldschmidt.

    Confesso que a revelação me emocionou mais do que eu esperava. Não porque o nome fosse importante em si, mas porque ele parecia completar uma história iniciada décadas antes, como se uma peça discreta, ausente durante todo esse tempo, finalmente encontrasse seu lugar.

    Saber seu nome não alterou a imagem que eu guardava dela.

    Ela continua surgindo da mesma forma que sempre surgiu na minha memória: caminhando de casa em casa, carregando seus colares, distribuindo sorrisos, inventando maneiras de conversar e transformando uma comunidade inteira numa extensão do próprio lar.

    Primeiro aparece ao longe, na estrada.

    Depois atravessa o portão.

    Senta-se na cozinha.

    Observa o movimento da casa.

    Experimenta uma pulseira nova.

    Aceita mais uma porção de doce.

    E segue caminho para a próxima visita.

    Como fazia todos os domingos.

    E, enquanto eu me lembrar dela, continuará atravessando aquele portão.

    Com o lenço verde que ganhou de presente do autor em setembro de 2023.
  • Quando a chuva era apenas música sobre os telhados

    Por Cristiano Goldschmidt

    A chuva sempre foi, para mim, mais do que um fenômeno atmosférico. Foi uma linguagem. Antes mesmo de compreender as palavras que descrevem o mundo, eu já compreendia o significado da chuva. Ela falava através do som repetido das gotas sobre o telhado e a calçada de nossa casa, através do perfume da terra úmida que subia dos canteiros do jardim, através da mudança quase imperceptível da luz que transformava uma tarde comum em um território de recolhimento e imaginação.

    Chuva no horizonte, Ibiporã/PR Foto de Roberto Dziura Jr/AEN

    Cresci no interior, num tempo em que as estações ainda pareciam obedecer a um ritmo antigo, como se a natureza não tivesse perdido completamente sua autonomia diante das urgências humanas. Naquele universo, a chegada da chuva não era uma interrupção da rotina de nossas vidas. Era parte dela. Havia uma espécie de solenidade silenciosa nos primeiros pingos que começavam a desenhar círculos nas poças de água e a escurecer lentamente o concreto da calçada. As árvores pareciam respirar com mais profundidade. As flores inclinavam suas pétalas como quem recebe uma visita aguardada. Até mesmo os pássaros alteravam seus movimentos, anunciando uma transformação que os adultos percebiam menos do que as crianças.

    Tenho a impressão de que algumas das minhas lembranças mais antigas são inseparáveis do som da chuva. Não me recordo apenas das imagens, mas da acústica daqueles dias. O ruído ritmado das gotas sobre o telhado, o gotejar persistente das calhas, a água escorrendo pelos cantos do quintal, o vento atravessando as copas das árvores. Era uma sinfonia cuja maestrina era a própria natureza, uma composição que envolvia toda a paisagem.

    Havia algo de profundamente reconfortante nas noites chuvosas. Deitar-se para dormir enquanto a chuva caía lá fora produzia uma sensação difícil de traduzir em palavras. Era como se o mundo exterior permanecesse desperto para que eu pudesse descansar. O som contínuo das gotas criava uma espécie de abrigo invisível ao redor da cama, uma proteção feita não de paredes, mas de ritmo. Enquanto a água descia dos céus, as preocupações infantis perdiam importância. A chuva transformava o quarto em refúgio e o sono em travessia tranquila.

    Nessas mesmas noites e tardes prolongadas de chuva, quando o mundo parecia recolhido sobre si mesmo, a vida doméstica ganhava outra densidade. Não havia outra saída a não ser reinventar o cotidiano dentro de casa. Brincávamos com os amigos nos corredores, nos quartos, nas pequenas extensões possíveis de um universo fechado pela tempestade. Quando o silêncio das brincadeiras se cansava de si mesmo, a televisão se tornava janela para outros mundos, filmes e histórias que preenchiam o tempo como uma espécie de segundo céu.

    Era também quando minha mãe assumia, com uma delicadeza quase cerimonial, a cozinha como território de invenção. Preparava mate doce com poejo, cujo aroma parecia aquecer não apenas o corpo, mas também o próprio ambiente. A pipoca surgia ora salgada, ora envolvida em melado, como se o doce pudesse alterar a textura do tempo. Em dias mais generosos, havia bolinhos de chuva, pequenos fragmentos fritos de infância, como se a própria tempestade tivesse sido transformada em alimento. A cozinha se tornava, assim, um espaço de criação silenciosa, onde o clima lá fora encontrava tradução sensível dentro de casa.

    Talvez esse encanto estivesse ligado à percepção intuitiva de que a chuva significava vida. Eu a observava alimentar as plantas do jardim, revigorar a grama, devolver brilho às folhas cobertas pela poeira dos dias secos. Depois de uma tempestade, o mundo parecia renascer. As cores ficavam mais intensas. O verde assumia tonalidades quase impossíveis. O ar se tornava mais leve. Havia uma sensação de limpeza que não era apenas física, mas também espiritual.

    Com o passar dos anos, compreendi que a memória possui seus próprios mecanismos de seleção. Ela conserva menos os acontecimentos extraordinários do que os detalhes aparentemente insignificantes. Por isso, quando penso na chuva da minha infância, não me recordo de datas ou eventos específicos. Lembro-me do cheiro das roseiras molhadas. Lembro-me da água acumulada sobre as folhagens de folhas largas. Lembro-me das tardes em que eu observava a chuva cair pela janela enquanto o tempo parecia desacelerar. Lembro-me da sensação de pertencimento que surgia quando a paisagem ao redor e o estado de espírito dentro de mim pareciam falar a mesma língua.

    A vida no interior favorecia essa intimidade com os ciclos naturais. O horizonte era mais amplo. O céu ocupava uma parcela maior da experiência cotidiana. Era possível acompanhar a formação das nuvens, perceber a mudança dos ventos, antecipar a chegada de um temporal observando apenas a transformação da luz sobre os campos. A natureza não era um cenário distante. Era uma presença constante, uma personagem da vida diária.

    Durante muito tempo, a chuva permaneceu associada a essa dimensão afetiva da existência. Bastava ouvir o som das gotas contra a janela para que antigas lembranças retornassem. A memória possui uma extraordinária capacidade de viajar através dos sentidos, e poucas coisas despertam recordações com tanta força quanto certos sons. A chuva carregava consigo fragmentos inteiros do passado: ruas tranquilas, jardins úmidos, noites silenciosas, árvores balançando ao vento, a segurança das casas que pareciam eternas.

    Mas a vida também nos ensina que nenhum símbolo permanece imutável.

    Desde as enchentes que devastaram Porto Alegre em 2024, minha relação emocional com a chuva tornou-se mais complexa. Aquilo que durante décadas representou acolhimento passou a carregar igualmente a possibilidade da ameaça. A água, que antes evocava fertilidade e descanso, revelou sua capacidade de destruição.

    Quando as enchentes avançaram sobre a cidade, não se tratava mais da chuva contemplada à distância, através da janela. Tratava-se da chuva que alterava destinos, invadia espaços, interrompia rotinas e obrigava pessoas a abandonar temporariamente suas vidas. Durante um mês, precisei deixar meu apartamento e encontrar abrigo na casa de uma amiga. Foi uma experiência que modificou não apenas a percepção do espaço urbano, mas também a maneira como certos sons passaram a ser interpretados.

    Depois daquela vivência, os dias de chuva deixaram de ser recebidos com a mesma poesia, com a mesma memória afetiva. Ainda hoje, quando uma tempestade mais intensa se aproxima, uma parte de mim permanece vigilante. O som das gotas já não é apenas música; tornou-se também aviso. O céu escurecendo já não sugere apenas recolhimento; desperta apreensão. Existe uma memória do corpo que não se dissolve facilmente. Ela permanece armazenada em extratos profundos da consciência, reaparecendo quando circunstâncias semelhantes se apresentam.

    O mais curioso, porém, é que essa transformação não eliminou completamente o encanto antigo. Em vez disso, produziu uma convivência entre sentimentos aparentemente contraditórios. A chuva continua sendo capaz de despertar ternura, nostalgia e contemplação. Continua evocando os jardins da infância, os telhados do interior, as noites protegidas pelo som das gotas. Ao mesmo tempo, carrega agora a lembrança da vulnerabilidade humana diante das forças da natureza.

    Talvez a maturidade consista justamente na capacidade de sustentar significados múltiplos sem exigir que um deles anule os demais. A chuva que hoje observo não é a mesma da infância, mas também não deixou de ser aquela chuva. Ela reúne camadas distintas de experiência. Em suas gotas convivem a beleza e o temor, o passado e o presente, a memória e a percepção.

    Quando a escuto cair sobre a cidade, percebo que ela continua sendo uma das raras linguagens que atravessam intactas as diferentes idades da vida. As mesmas gotas que um dia embalaram meus sonhos de criança hoje despertam lembranças mais complexas, feitas de encanto e inquietação. Ainda assim, quando a chuva toca os telhados, algo daquele menino do interior volta a reconhecer sua antiga melodia. Talvez a memória seja justamente isso: a capacidade de encontrar abrigo, mesmo que por instantes, naquilo que o tempo transformou sem conseguir destruir. E, então, por trás da tempestade, ainda é possível ouvir a música.

  • Dia do Cinema Brasileiro: a arte de contar o Brasil para o mundo

    Por Cristiano Goldschmidt

    Toda sociedade produz narrativas sobre si mesma. Algumas são preservadas pela literatura, outras pela música, pela pintura, pelo teatro ou pela tradição oral. Desde o final do século XIX, porém, poucas formas de expressão se mostraram tão poderosas quanto o cinema. A capacidade de reunir imagem, som, emoção, memória e imaginação transformou essa arte em uma das mais influentes ferramentas de construção da identidade cultural dos povos. No Brasil, não foi diferente. Celebrado em 19 de junho, o Dia do Cinema Brasileiro oferece uma oportunidade para refletir sobre uma manifestação artística que, muito além do entretenimento, ajudou a registrar transformações sociais, interpretar conflitos, preservar memórias e construir formas de compreensão sobre o país e sua gente.

    A data remete a 19 de junho de 1898, quando o ítalo-brasileiro Affonso Segreto realizou imagens da Baía de Guanabara durante a chegada de um navio ao Rio de Janeiro. Considerado um dos marcos inaugurais da cinematografia nacional, aquele registro ocorreu poucos anos após os irmãos Lumière apresentarem ao mundo a invenção que revolucionaria para sempre a maneira de contar histórias. Naturalmente, ninguém poderia imaginar naquele momento a dimensão cultural que o cinema alcançaria ao longo do século seguinte.

    Affonso Segreto | Fonte:Wikipedia

    A trajetória do cinema brasileiro jamais foi linear. Diferentemente de países que consolidaram cedo grandes indústrias cinematográficas, o Brasil desenvolveu sua produção em meio a dificuldades econômicas, limitações técnicas, instabilidades políticas e um mercado historicamente dominado por obras estrangeiras. Ainda assim, construiu uma identidade própria, marcada pela diversidade de olhares e pela permanente tentativa de compreender a realidade nacional.

    Talvez essa seja sua característica mais marcante. Enquanto parte significativa da indústria audiovisual mundial se organiza em torno de fórmulas capazes de circular com facilidade pelos mercados globais, o cinema brasileiro frequentemente voltou sua atenção para dentro de casa. Ao longo das décadas, suas câmeras percorreram sertões, favelas, metrópoles, comunidades indígenas, áreas rurais, periferias urbanas, florestas e pequenas cidades do interior. Registraram desigualdades, esperanças, conflitos políticos, dramas familiares, expressões religiosas, manifestações culturais e as inúmeras contradições que compõem a experiência brasileira.

    Não se trata apenas de representar paisagens ou costumes. O cinema brasileiro, em seus momentos mais relevantes, procurou interpretar o país. Seus melhores filmes não se limitaram a mostrar o Brasil; buscaram compreender suas tensões, suas feridas abertas, seus processos históricos e seus dilemas sociais. Em uma nação marcada por profundas desigualdades e enorme diversidade cultural, essa tarefa nunca foi simples.

    Com o Cinema Novo, Glauber Rocha leva o Brasil para o mundo | Foto Arquivo Nacional

    Essa vocação tornou-se especialmente evidente a partir da década de 1950 e alcançou grande projeção nos anos 1960 com o surgimento do Cinema Novo. O movimento transformou a linguagem cinematográfica nacional e conquistou reconhecimento internacional ao defender um cinema autoral, crítico e comprometido com a realidade brasileira.

    Entre seus principais representantes destacou-se Glauber Rocha, cuja obra permanece como uma das mais influentes da história do cinema latino-americano. Seu famoso lema, “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, sintetizava a crença de que a criatividade poderia superar limitações econômicas e técnicas. Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967) apresentaram ao mundo um Brasil distante dos estereótipos exóticos frequentemente reproduzidos no exterior.

    Ao lado de Glauber, nomes como Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Leon Hirszman e Cacá Diegues ajudaram a consolidar uma cinematografia capaz de dialogar com os grandes debates artísticos do século XX sem renunciar a suas especificidades nacionais. Seus trabalhos revelaram personagens, paisagens e conflitos que raramente encontravam espaço nas produções estrangeiras consumidas pelo público brasileiro.

    Carlos Diegues em 1972 | Fonte: Arquivo Nacional

    Mas reduzir o cinema brasileiro ao Cinema Novo seria ignorar sua extraordinária diversidade. Ao lado das produções politicamente engajadas floresceram documentários, dramas urbanos, adaptações literárias, comédias populares, animações e experiências estéticas das mais variadas. Essa pluralidade talvez seja uma de suas maiores riquezas. Afinal, um país de dimensões continentais dificilmente poderia ser representado por uma única linguagem ou por uma única visão de mundo.

    Ao longo de sua história, porém, produzir cinema no Brasil significou enfrentar desafios permanentes. A atividade audiovisual exige investimentos elevados, infraestrutura complexa e mecanismos eficientes de distribuição. Sem apoio institucional, torna-se extremamente difícil competir em um mercado global dominado por conglomerados internacionais que movimentam bilhões de dólares anualmente.

    Foi nesse contexto que a Embrafilme desempenhou papel fundamental durante boa parte do século XX. Criada em 1969, a empresa estatal atuou no financiamento, na distribuição e na promoção do cinema brasileiro. Embora estivesse longe de ser consensual e tenha sido alvo de críticas, sua existência contribuiu para garantir uma produção contínua e criar condições mínimas para o desenvolvimento do setor.

    O fechamento da Embrafilme, em 1990, durante o governo de Fernando Collor de Mello, marcou um dos momentos mais difíceis da história do audiovisual brasileiro. Sem mecanismos adequados de substituição, a produção praticamente entrou em colapso. Longas-metragens deixaram de ser realizados, projetos foram abandonados e muitos profissionais precisaram interromper carreiras construídas ao longo de décadas.

    A crise revelou algo frequentemente ignorado nos debates públicos: cinema não é apenas arte. Cinema também é trabalho, indústria e atividade econômica. Por trás de cada filme existe uma extensa cadeia produtiva que envolve roteiristas, diretores, atores, figurinistas, fotógrafos, técnicos de som, montadores, cenógrafos, profissionais de transporte, alimentação, hospedagem, comunicação e inúmeros outros trabalhadores.

    A recuperação começou apenas na segunda metade dos anos 1990, período conhecido como Retomada do Cinema Brasileiro. Novos mecanismos de incentivo permitiram o ressurgimento da produção nacional. Obras como Carlota Joaquina (1995), de Carla Camurati, demonstraram que ainda havia espaço para o cinema brasileiro dialogar com o público. Pouco depois, Central do Brasil (1998), de Walter Salles, emocionaria espectadores em diferentes continentes e mostraria que histórias profundamente brasileiras podiam alcançar dimensão universal.

    Nas décadas seguintes, o audiovisual brasileiro ampliou sua diversidade temática e estética. Novos polos de produção surgiram fora do eixo Rio-São Paulo, documentários conquistaram projeção inédita, produções independentes ganharam relevância e diferentes grupos sociais passaram a ocupar espaços historicamente restritos dentro da indústria cultural.

    Entretanto, os desafios permaneceram. A sustentabilidade do setor continuou fortemente ligada à existência de políticas públicas de incentivo. Não por privilégio, mas porque praticamente todos os países que possuem cinematografias fortes adotam algum tipo de mecanismo de proteção e financiamento para suas produções nacionais.

    Essa discussão voltou ao centro do debate durante o governo de Jair Bolsonaro. O período foi marcado por conflitos entre o governo federal e setores da cultura, incluindo o audiovisual. Houve ataques a profissionais, disseminação de informações falsas sobre políticas culturais, atrasos na liberação de recursos, paralisação de editais e um ambiente de insegurança institucional que afetou diversos projetos.

    A partir de 2023, já no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, iniciou-se um processo de reconstrução das políticas voltadas ao setor cultural. A retomada de investimentos, a reativação de mecanismos de fomento e a recomposição institucional da área contribuíram para renovar as perspectivas do audiovisual brasileiro.

    Os resultados começaram a aparecer não apenas no aumento da produção, mas também na visibilidade internacional das obras nacionais. Um dos exemplos mais significativos é Ainda Estou Aqui (2024), dirigido por Walter Salles e baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva. Ao narrar a trajetória de Eunice Paiva após o desaparecimento de seu marido durante a ditadura militar, o filme demonstrou como experiências profundamente brasileiras podem alcançar ressonância universal ao tratar de temas como memória, luto, resistência e justiça.

    Outro exemplo é O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, que utiliza o suspense político para refletir sobre vigilância, autoritarismo e repressão durante os anos mais duros do regime militar. A recepção positiva dessas produções em festivais e premiações internacionais evidencia a vitalidade criativa do cinema brasileiro contemporâneo.

    Esse reconhecimento vai muito além do prestígio simbólico. Festivais e premiações ampliam mercados, fortalecem coproduções, atraem investimentos e ajudam a projetar uma imagem mais complexa e plural do Brasil para o restante do mundo.

    Mas talvez a contribuição mais importante do cinema brasileiro esteja em outro lugar. Em uma época marcada pela circulação acelerada de conteúdos globais e pela crescente padronização de narrativas, produzir filmes nacionais significa preservar a capacidade de contar nossas próprias histórias. Nenhum país é capaz de representar o Brasil com a mesma profundidade que os próprios brasileiros.

    Quando um filme retrata um sertão esquecido, uma comunidade ribeirinha, uma periferia urbana, uma pequena cidade do interior ou uma família comum enfrentando seus desafios cotidianos, ele está fazendo mais do que entretenimento. Está registrando experiências humanas que ajudam a construir memória coletiva. Está preservando modos de vida, sotaques, valores, conflitos e formas de compreender o mundo.

    O cinema é também uma disputa de narrativas. Quem conta as histórias de um povo ajuda a definir como esse povo será visto pelos outros e por si mesmo. Por isso, investir em cinema significa investir em soberania cultural. Significa garantir que o país continue produzindo imagens capazes de refletir sua complexidade e sua diversidade.

    Ao observar a história do cinema brasileiro, percebe-se que ela guarda muitas semelhanças com a própria história nacional: períodos de entusiasmo e crise, avanços e retrocessos, conquistas e desafios. Ainda assim, permanece uma impressionante capacidade de reinvenção. Celebrar o Dia do Cinema Brasileiro é, portanto, celebrar muito mais do que filmes. É reconhecer uma arte que ajuda o país a compreender a si mesmo. É valorizar uma atividade que produz cultura, movimenta a economia, gera empregos e preserva memórias. É defender a capacidade de um povo de contar sua própria história. Afinal, toda nação que produz suas próprias imagens produz também uma compreensão mais profunda de quem é, de onde veio e do futuro que deseja construir.

  • Entre suspiros, sorvetes secos e marias-moles

    Por Cristiano Goldschmidt

    Por muitos anos, o minimercado e bar de meu pai foi um ponto de referência em Portão do Ocoí, no interior do oeste paranaense. Antes, porém, de compreender a importância daquele estabelecimento para a comunidade e para o sustento de nossa família, eu o enxergava como o centro do meu pequeno universo infantil. Era ali que a vida parecia acontecer. Agricultores chegavam cobertos pela poeira vermelha das estradas rurais, vizinhos entravam para uma conversa rápida que quase sempre se prolongava, e crianças, como eu, circulavam entre as prateleiras observando um mundo que se mostrava inesgotável em descobertas.

    Na década de 1980, estabelecimentos como aquele ainda exerciam uma função que ia muito além do comércio. Nas pequenas comunidades do interior, eram pontos de encontro, centros informais de convivência e espaços onde circulavam não apenas mercadorias, mas também notícias, preocupações, expectativas e histórias. Ali se comentava o preço da soja, a previsão de chuva, o nascimento de uma criança, a morte de alguém, a venda de uma propriedade ou os preparativos para uma festa comunitária. Muitas vezes, alguém entrava para comprar um pacote de café e saía quase uma hora depois, após colocar a conversa em dia com os demais frequentadores.

    Vendia-se praticamente tudo o que uma família precisava para atravessar a semana. Havia alimentos, ferramentas, sementes, pilhas, querosene, produtos de limpeza, bebidas, cigarros, peças para pequenos reparos e uma infinidade de artigos que hoje dificilmente encontraríamos reunidos em um único local. Em um canto, sacos de ração aguardavam os produtores. Em outro, garrafas retornáveis alinhavam-se em engradados. Atrás do balcão, havia gavetas que pareciam guardar soluções para qualquer problema que pudesse surgir em uma propriedade rural.

    Meu pai possuía certo talento para os negócios. Ao longo da vida, esteve envolvido em diversas atividades, algumas delas simultaneamente. Foi proprietário de chácara, dono de posto de combustível, teve empresa de ônibus e chegou a possuir caminhão e colheitadeira, que alugava aos agricultores durante os períodos de safra. Seu trabalho acompanhava os ritmos da economia rural e as necessidades da comunidade. Ainda assim, quando volto à infância, nenhuma dessas iniciativas ocupa um espaço tão marcante quanto o minimercado e bar. Talvez porque fosse ali que eu pudesse observá-lo conversando com os clientes, anotando compras em cadernetas, resolvendo problemas e construindo, sem alarde, uma rede de relações que se confundia com a própria vida da comunidade.

    Mas seria injusto dizer que eu frequentava aquele ambiente movido apenas por curiosidade pelo universo adulto. A verdade é que meus interesses infantis tinham objetivos próprios. Eram muito mais simples e bem mais açucarados.

    Entre todos os produtos disponíveis, nada exercia sobre mim maior fascínio do que os suspiros, os sorvetes secos e as marias-moles.

    Os adultos talvez não compreendessem a dimensão que essas guloseimas podiam assumir na imaginação de uma criança. Para nós, não eram apenas doces. Eram tesouros. Habitavam as prateleiras como pequenas promessas de felicidade instantânea. Bastava avistá-los para que toda a capacidade de autocontrole desaparecesse.

    Algum tempo depois, surgiram também os picolés e os sorvetes gelados. Para uma criança do interior dos anos 1980, aquilo parecia quase uma novidade tecnológica. Guardados nos freezers que zumbiam sem descanso, eles rapidamente passaram a disputar nossa atenção e nossos desejos com os tradicionais suspiros, sorvetes secos e marias-moles. Havia dias em que a escolha se transformava em verdadeiro dilema: optar pela leveza açucarada dos suspiros ou pela refrescante tentação de um picolé. Ainda assim, os doces mais antigos conservaram um lugar especial em nossa preferência, talvez porque estivessem ligados às primeiras descobertas e às travessuras que já faziam parte da rotina.

    Vez ou outra, meu pai nos presenteava com alguns doces. O problema, sob a ótica infantil, era a existência de limites. Havia uma quantidade regrada e razoável para cada semana. Hoje reconheço que as negativas faziam parte da educação e do cuidado. Na época, porém, pareciam uma restrição absolutamente incompatível com a abundância que nos cercava.

    Como aceitar que dezenas de suspiros estivessem ao alcance dos olhos e que apenas alguns fossem autorizados?

    Foi dessa inconformidade filosófica que nasceram nossas pequenas operações clandestinas.

    Eu, minha amiga Lindacir e, muitas vezes, Velci, irmão de uma funcionária que trabalhava conosco, formávamos uma espécie de sociedade informal dedicada à ampliação não autorizada das cotas semanais de açúcar. Nada grandioso. Nada que causasse prejuízo significativo. Tratava-se apenas daquela combinação de criatividade e inocência que caracteriza tantas travessuras da infância.

    A estratégia variava conforme as circunstâncias. Às vezes, bastava aproveitar um momento de maior movimento no estabelecimento. Em outras ocasiões, uma conversa mais prolongada entre os adultos criava a oportunidade necessária. Havia olhares de cumplicidade, sinais discretos e uma coordenação que, em nossas cabeças, rivalizava com as mais sofisticadas operações de espionagem.

    O prêmio quase sempre era modesto: um picolé ou um suspiro a mais, uma maria-mole retirada discretamente do pacote ou um pedaço de sorvete seco conquistado fora da contabilidade oficial.

    A verdadeira recompensa, contudo, não estava no doce em si.

    Estava na aventura.

    Estava na sensação de participar de um segredo compartilhado.

    Estava no riso contido que surgia logo depois, quando nos afastávamos certos de que havíamos executado mais uma missão com absoluto sucesso.

    Hoje percebo que o sabor daqueles doces não desapareceu da memória. Consigo lembrar com exatidão a textura dos suspiros e a consistência das marias-moles. Mas também permaneceu algo muito mais valioso.

    Permaneceu a atmosfera.

    Permaneceu a luminosidade suave das tardes entrando pelas portas do estabelecimento.

    Permaneceu o som das conversas misturado ao tilintar das garrafas sendo organizadas.

    Permaneceram os cumprimentos trocados entre vizinhos e a movimentação constante de pessoas que encontravam naquele espaço muito mais do que um simples comércio.

    Lembro-me dos agricultores que chegavam para falar sobre o andamento da colheita. Lembro-me das preocupações com a estiagem quando as chuvas demoravam a aparecer. Lembro-me da expectativa que antecedia as safras e da satisfação que se espalhava quando o resultado do trabalho era positivo. Sem perceber, cresci ouvindo aquelas conversas. Foi ali que comecei a compreender, ainda que intuitivamente, os vínculos profundos que unem pequenas comunidades.

    O minimercado e bar de meu pai funcionava como uma espécie de coração do lugar. Pessoas diferentes passavam por ali todos os dias, trazendo consigo histórias, preocupações, esperanças e projetos. Algumas permaneciam poucos minutos. Outras se acomodavam para longas conversas. Todas, de alguma forma, contribuíam para criar aquele sentimento de pertencimento que hoje reconheço como uma das maiores riquezas da vida no interior.

    Muitas décadas se passaram desde então. O tempo transformou paisagens, alterou costumes e redesenhou a rotina das pequenas comunidades. Algumas pessoas partiram. Outras envelheceram. As crianças daquela época tornaram-se adultas, carregando suas próprias responsabilidades e memórias.

    Ainda assim, certos objetos conservam um poder extraordinário. Basta encontrar um pacote de suspiros em uma prateleira qualquer, avistar uma maria-mole em uma vitrine ou sentir o gosto de um sorvete seco para que uma porta invisível se abra.

    E então volto a Portão do Ocoí.

    Volto às estradas de chão batido.

    Volto às tardes intermináveis da infância.

    Volto às risadas compartilhadas com Lindacir e Velci.

    Volto ao balcão atrás do qual meu pai trabalhava.

    Volto às pequenas conspirações açucaradas que acreditávamos perfeitas.

    E compreendo que os verdadeiros tesouros daqueles anos jamais estiveram nas mercadorias expostas. Não estavam nos doces que conseguíamos conquistar além da cota permitida. Não estavam sequer na sensação efêmera de vitória que acompanhava cada travessura.

    O que realmente permaneceu foram os afetos.

    Foram as amizades.

    Foi a convivência.

    Foi a sensação de fazer parte de uma comunidade onde as pessoas se conheciam pelo nome, compartilhavam dificuldades e celebravam juntas as alegrias da vida cotidiana.

    Os suspiros, os sorvetes secos e as marias-moles desapareciam em poucos instantes, como desaparecem todos os doces da infância.

    As lembranças, porém, permaneceram.

    E continuam extraordinariamente doces.

  • Cuba, Argentina e China: três espelhos do nosso tempo em documentários

    Por Cristiano Goldschmidt

    Vivemos uma época paradoxal. Nunca houve tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil compreender a complexidade do mundo. A velocidade das redes sociais, a fragmentação dos debates públicos e a transformação de questões históricas em slogans instantâneos produziram um ambiente em que opiniões circulam com enorme facilidade, enquanto a reflexão profunda se torna cada vez mais rara. Nesse contexto, o documentário emerge não apenas como um gênero cinematográfico, mas como um instrumento de investigação intelectual e de reconstrução da complexidade perdida.

    É precisamente nesse horizonte que se inscrevem os documentários Vai pra Cuba, Eduardo! (2024), Vai pra Argentina, Carajo! (2025) e Vai pra China, Eduardo! (2026). Produzidos pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL), os três filmes constituem um projeto documental singular no audiovisual brasileiro contemporâneo. Concebida a partir de uma ideia original de Eduardo Moreira, a trilogia combina jornalismo investigativo, análise histórica e observação de campo, tendo o próprio Moreira como principal condutor das entrevistas, das viagens e das investigações realizadas em cada país.

    A direção da série revela igualmente uma preocupação com o rigor narrativo e a pluralidade de perspectivas. Os documentários Vai pra Cuba, Eduardo! e Vai pra China, Eduardo! foram dirigidos por Juliana Baroni, enquanto Vai pra Argentina, Carajo! contou com direção compartilhada entre Baroni e o jornalista e documentarista argentino Fabián Restivo. No caso de Vai pra China, Eduardo!, merece destaque ainda a dimensão internacional da produção. O documentário foi realizado em coprodução com o China Media Group (CMG), o maior conglomerado estatal de comunicação da China, responsável por veículos de enorme alcance e relevância, como a CCTV e a CGTN. Essa colaboração confere ao projeto uma amplitude rara, permitindo acesso a informações, contextos e experiências que dificilmente poderiam ser alcançados por uma produção estrangeira convencional.

    A relevância desses documentários não reside apenas nos temas que abordam. Sua contribuição mais importante talvez seja de natureza epistemológica. Em uma época marcada pela polarização, eles recuperam algo que deveria ser fundamental em qualquer sociedade democrática: a disposição para compreender antes de julgar.

    O primeiro filme, Vai pra Cuba, Eduardo!, realiza uma tarefa particularmente necessária. Durante décadas, Cuba foi transformada em símbolo. Para alguns, tornou-se a representação de uma experiência revolucionária de resistência ao poder norte-americano. Para outros, converteu-se em exemplo definitivo do fracasso do socialismo. Em ambos os casos, a realidade concreta frequentemente desaparece sob o peso das disputas ideológicas.

    O documentário procura romper esse mecanismo. Ao apresentar entrevistas, registros locais e aspectos da vida cotidiana da ilha, a obra desloca a discussão do terreno abstrato para o terreno humano. A questão central deixa de ser quem venceu o debate ideológico e passa a ser como vivem as pessoas submetidas a circunstâncias históricas específicas.

    Particularmente relevante é a atenção dedicada aos embargos internacionais e às suas consequências. Independentemente das posições políticas que cada espectador possa adotar, é impossível compreender a experiência cubana sem considerar o impacto das restrições econômicas impostas ao país ao longo de décadas. O mérito do documentário está justamente em inserir esse elemento no debate sem transformá-lo em explicação única para todos os problemas da ilha. O resultado é um retrato mais complexo e, por isso mesmo, mais honesto.

    Há também uma dimensão ética importante nessa abordagem. Ao invés de tratar Cuba como um conceito ou um experimento geopolítico, o filme devolve protagonismo aos cubanos. Essa escolha parece simples, mas representa uma contribuição significativa para a qualidade do debate público. Afinal, nenhuma análise séria sobre uma sociedade pode prescindir das vozes daqueles que a habitam.

    Se o documentário sobre Cuba convida o espectador a refletir sobre os efeitos históricos do isolamento econômico, Vai pra Argentina, Carajo! desloca a atenção para uma experiência política contemporânea cujos desdobramentos seguem mobilizando intensos debates dentro e fora da América Latina: o governo de Javier Milei e sua agenda de reformas econômicas radicais.

    A Argentina ocupa uma posição singular na história da região. Poucos países experimentaram de forma tão intensa ciclos alternados de crescimento, crise, expectativas de recuperação e sucessivas frustrações. Nesse contexto, a ascensão de Milei ao poder representou a promessa de uma ruptura profunda com modelos anteriores de gestão econômica. O documentário, entretanto, opta por examinar menos as promessas e mais os efeitos concretos dessa transformação na vida cotidiana da população.

    A participação de Fabián Restivo na direção acrescenta uma dimensão particularmente relevante à obra. Como jornalista e documentarista argentino, sua presença contribui para uma leitura mais próxima das tensões sociais e econômicas vividas no país, conferindo densidade local a uma investigação que busca compreender os impactos reais das políticas implementadas pelo governo.

    Diferentemente de análises centradas em indicadores macroeconômicos ou discursos oficiais, Vai pra Argentina, Carajo! volta seu olhar para as ruas, para os trabalhadores, para os aposentados, para os pequenos comerciantes e para aqueles que experimentam diretamente as consequências das mudanças em curso. O resultado é um retrato frequentemente duro e inquietante da realidade argentina contemporânea.

    Reprodução ICL Notícias

    Ao longo do documentário, a escalada do custo de vida aparece como um dos elementos centrais da narrativa. O aumento dos preços, a corrosão do poder de compra e a crescente dificuldade de acesso a bens e serviços básicos são apresentados não como abstrações estatísticas, mas como experiências concretas que afetam milhões de pessoas. A inflação deixa de ser apenas um dado econômico e passa a ser percebida como uma força capaz de remodelar rotinas, expectativas e projetos de vida.

    A obra dedica especial atenção aos efeitos sociais decorrentes da política de austeridade adotada pelo governo. Os severos cortes de gastos públicos são analisados a partir de suas repercussões práticas sobre serviços, programas de assistência e condições de vida da população mais vulnerável. Nesse sentido, o documentário estabelece uma crítica consistente à ideia de que ajustes econômicos podem ser avaliados exclusivamente por indicadores fiscais, ignorando seus impactos humanos.

    Particularmente marcante é a forma como o filme registra o crescimento da população em situação de rua e a ampliação dos sinais visíveis de precarização social. As imagens e depoimentos reunidos ao longo da narrativa funcionam como um contraponto poderoso aos discursos que apresentam as reformas apenas sob a ótica da eficiência econômica. O documentário sugere que qualquer avaliação séria de um projeto político precisa considerar não apenas seus objetivos declarados, mas também seus custos sociais.

    Essa abordagem confere à obra um caráter claramente crítico em relação ao governo Milei. Contudo, sua força não reside na simples denúncia ou na oposição partidária. O que torna o documentário relevante é sua capacidade de conectar decisões econômicas abstratas às experiências concretas das pessoas afetadas por elas. Em vez de permanecer restrita ao plano ideológico, a crítica ganha substância ao ser construída por meio de testemunhos, observações de campo e evidências da vida cotidiana.

    Ao fazer esse movimento, Vai pra Argentina, Carajo! contribui para uma discussão mais ampla sobre os limites da austeridade, os significados do desenvolvimento econômico e as responsabilidades sociais do Estado. Mais do que um filme sobre a Argentina contemporânea, a obra se transforma em uma reflexão sobre os custos humanos das escolhas econômicas e sobre a necessidade de avaliar projetos políticos não apenas por seus resultados financeiros, mas também por seus efeitos sobre a dignidade e as condições de vida da população.

    Nesse sentido, o documentário amplia significativamente o debate público. Sua contribuição não está em oferecer respostas definitivas, mas em recolocar no centro da discussão uma pergunta fundamental que frequentemente desaparece dos diagnósticos econômicos: para quem, afinal, servem as políticas econômicas e quais vidas são transformadas por elas?

    Vai pra China, Eduardo! enfrenta talvez um dos desafios intelectuais mais ambiciosos da trilogia. Falar sobre a China contemporânea significa abordar uma das experiências históricas mais extraordinárias dos últimos séculos.

    Em poucas décadas, o país realizou uma transformação econômica de proporções gigantescas, retirando centenas de milhões de pessoas da pobreza e convertendo-se em uma das principais potências tecnológicas do planeta. Ao mesmo tempo, essa ascensão levanta questões complexas sobre governança, vigilância digital, inteligência artificial, inovação e o futuro das relações internacionais.

    O documentário demonstra acerto ao concentrar parte de sua atenção no desenvolvimento tecnológico chinês. Em muitos aspectos, compreender a China contemporânea significa compreender como tecnologia, planejamento estratégico e investimento em pesquisa passaram a desempenhar papel central na competição global.

    A coprodução com o China Media Group revela-se especialmente significativa nesse contexto. Mais do que uma parceria institucional, ela simboliza uma tentativa concreta de construir pontes de compreensão entre universos culturais frequentemente separados por estereótipos, desconfianças e narrativas simplificadoras. O acesso proporcionado por essa colaboração fortalece o caráter investigativo da obra e amplia sua capacidade de oferecer um retrato mais abrangente da realidade chinesa.

    A discussão sobre inteligência artificial adquire relevância especial. Trata-se de um dos temas mais importantes do século XXI, capaz de influenciar mercados de trabalho, sistemas educacionais, estruturas produtivas e até mesmo concepções de liberdade individual. Ao investigar a maneira como a China se posiciona nesse campo, o filme oferece ao público uma oportunidade de refletir sobre desafios que ultrapassam fronteiras nacionais.

    Há, ainda, uma contribuição particularmente importante: o documentário ajuda a combater visões caricaturais sobre a sociedade chinesa. Durante muito tempo, boa parte do debate ocidental oscilou entre a admiração acrítica e a desconfiança absoluta. Nenhuma dessas posturas favorece a compreensão. Conhecer uma sociedade exige observar suas contradições, suas conquistas e seus dilemas.

    Nesse sentido, a obra amplia horizontes intelectuais e incentiva um olhar mais sofisticado sobre o cenário internacional.

    Considerados em conjunto, os três documentários revelam uma característica rara: a disposição para atravessar fronteiras geográficas e ideológicas sem abandonar o compromisso com a investigação. Cuba, Argentina e China são apresentadas não como símbolos destinados a confirmar crenças prévias, mas como realidades complexas que desafiam interpretações simplistas.

    Essa escolha possui enorme valor cultural. Em um período histórico marcado pela formação de bolhas informacionais, iniciativas que promovem contato direto com diferentes experiências nacionais desempenham função quase pedagógica. Elas estimulam a curiosidade, ampliam repertórios e fortalecem a capacidade crítica dos espectadores.

    Também merece destaque a arquitetura coletiva do projeto. A ideia original concebida por Eduardo Moreira, sua presença permanente como entrevistador e investigador de campo, a direção cuidadosa de Juliana Baroni, a contribuição de Fabián Restivo no capítulo argentino e o trabalho de produção do Instituto Conhecimento Liberta demonstram como o documentário pode funcionar como uma verdadeira construção colaborativa de conhecimento.

    Democracias saudáveis dependem de cidadãos capazes de analisar informações, confrontar argumentos e compreender contextos. Documentários que incentivam esse exercício contribuem para a formação de uma esfera pública mais qualificada.

    Não se trata de concordar integralmente com todas as conclusões sugeridas pelas obras. O verdadeiro mérito de um documentário relevante não está em eliminar o debate, mas em enriquecê-lo. Sua função não é fornecer verdades definitivas, e sim oferecer elementos que permitam interpretações mais informadas.

    Talvez seja justamente essa a principal contribuição da trilogia. Em vez de reforçar certezas confortáveis, ela convida o espectador a realizar uma viagem intelectual. Cuba, Argentina e China aparecem como espelhos através dos quais podemos refletir não apenas sobre esses países, mas também sobre nossas próprias concepções de desenvolvimento, liberdade, justiça social, tecnologia e poder.

    Num mundo saturado de opiniões instantâneas, essa disposição para investigar, escutar e compreender constitui um gesto de rara importância. E é exatamente por isso que esses documentários merecem atenção. Não apenas pelo que mostram, mas pelo tipo de olhar que ajudam a construir: um olhar mais atento à complexidade humana e menos disposto a aceitar explicações simplificadoras para os grandes desafios do nosso tempo. Ao reunir investigação jornalística, experiência de campo, cooperação internacional e reflexão crítica, a trilogia produzida pelo ICL consolida-se como uma das iniciativas documentais mais relevantes do período recente, contribuindo de maneira efetiva para ampliar o horizonte das discussões públicas sobre política, economia, sociedade e desenvolvimento no século XXI.

  • As breguices de Donald Trump

    Donald J. Trump no UFC Freedom 250, 14 de junho de 2026 | Foto oficial da Casa Branca por Andrea Hanks

    Por Cristiano Goldschmidt

    Há algo de profundamente revelador no fato de Donald Trump desejar celebrar seus oitenta anos e os duzentos e cinquenta anos da independência dos Estados Unidos por meio de uma luta de UFC na Casa Branca. Não se trata apenas de uma escolha excêntrica. Tampouco de uma simples estratégia de comunicação voltada ao entretenimento. O episódio adquire significado mais amplo quando observado como sintoma de uma época na qual o espetáculo substitui o símbolo, a exibição ocupa o lugar da reflexão e a política se converte em uma extensão da indústria do entretenimento.

    A Casa Branca não é apenas uma residência oficial. Ela constitui um espaço carregado de densidade histórica, um cenário que sintetiza valores republicanos, conflitos democráticos, decisões de alcance planetário e a memória institucional de uma das nações mais influentes do mundo moderno. Por isso, transformá-la em palco para um evento de combate televisionado significa deslocar o centro de gravidade da política para a lógica do show. O gesto possui um caráter quase alegórico: a substituição da palavra pelo golpe, da deliberação pela excitação, do pensamento pela descarga emocional instantânea.

    Naturalmente, não há nada de condenável no UFC enquanto prática esportiva. O problema reside no símbolo escolhido. Cada sociedade celebra aquilo que considera digno de reverência. Quando uma nação decide homenagear sua própria trajetória histórica por meio de um espetáculo de combate, é inevitável perguntar se o objetivo da celebração é recordar ideias, princípios e valores ou simplesmente produzir imagens impactantes destinadas ao consumo imediato.

    Talvez seja justamente por isso que a iniciativa pareça tão coerente com a trajetória pública de Trump. Ao longo de décadas, sua figura foi construída menos como a de um estadista e mais como a de um personagem excêntrico, frequentemente questionado por seus comportamentos públicos e por suas decisões muitas vezes arbitrárias. Sua linguagem sempre privilegiou a simplificação extrema dos problemas, a teatralização dos conflitos e a construção de inimigos. O debate racional cede espaço à provocação. A argumentação é substituída pelo slogan. A complexidade desaparece sob o peso da performance.

    A breguice, entretanto, não deve ser entendida apenas como uma questão estética. Ela possui uma dimensão filosófica mais profunda. O brega nasce quando a aparência se emancipa completamente da substância, quando o valor passa a ser medido pela capacidade de produzir impacto imediato, quando a visibilidade deixa de ser consequência do mérito e se transforma em seu substituto. Nesse sentido, a breguice é uma forma de empobrecimento simbólico: um estado cultural no qual tudo precisa ser amplificado, exagerado e espetacularizado para adquirir significado.

    Sob essa perspectiva, Donald Trump talvez seja uma das figuras mais emblemáticas produzidas pela cultura contemporânea. Sua trajetória pública sempre esteve associada à ostentação sem sutileza, à exibição da riqueza como espetáculo e à construção permanente de uma persona que parece incapaz de distinguir reconhecimento de notoriedade. Os interiores excessivamente dourados de suas propriedades, a obsessão por marcas de luxo ostensivas, a necessidade recorrente de exaltar sua suposta genialidade, a fixação quase caricatural pelo tamanho das multidões presentes em seus eventos e o uso constante de superlativos para definir a si mesmo revelam uma personalidade cuja relação com o poder passa inevitavelmente pela encenação.

    Não por acaso, mesmo antes da política, Trump já se apresentava como uma espécie de personagem. Sua entrada definitiva na política apenas transferiu para as instituições democráticas os mecanismos narrativos que haviam sido aperfeiçoados durante décadas no universo dos negócios, da televisão e da cultura das celebridades. O governante tornou-se celebridade; a celebridade tornou-se governante. E a política passou a ser conduzida segundo os critérios do entretenimento.

    Não faltam exemplos dessa lógica. Desde a transformação de comícios em eventos de culto à personalidade até a obsessão pública pelo tamanho das multidões que compareciam a seus atos; desde a adoção sistemática de apelidos depreciativos para adversários políticos até a necessidade constante de ocupar o centro das atenções; desde a tentativa de promover grandes desfiles militares inspirados em demonstrações de força até a conversão de praticamente qualquer debate institucional em uma disputa pessoal. Em todos esses casos, percebe-se a mesma tendência: a substituição da política enquanto espaço de deliberação pela política enquanto espetáculo.

    Essa transformação, contudo, não pode ser compreendida isoladamente. Ela encontra raízes em características mais amplas da cultura norte-americana contemporânea. Embora os Estados Unidos tenham produzido alguns dos maiores cientistas, escritores, filósofos e pesquisadores da modernidade, também desenvolveram uma poderosa tradição popular de anti-intelectualismo, amplamente estudada por historiadores e sociólogos. Em determinados segmentos da sociedade, o conhecimento especializado passou a ser visto com desconfiança, a complexidade intelectual passou a ser confundida com elitismo e a ignorância, paradoxalmente, começou a ser apresentada como prova de autenticidade.

    O sucesso de Trump não pode ser separado desse contexto. Em uma sociedade onde parcela significativa da população demonstra reduzido interesse por línguas estrangeiras, história mundial, geografia internacional ou experiências culturais externas ao universo norte-americano, discursos simplificadores encontram terreno fértil. O excepcionalismo americano — a crença de que os Estados Unidos ocupam uma posição singular na história humana — frequentemente produz uma curiosa combinação de autoconfiança e provincianismo cultural. O mundo inteiro é observado, mas nem sempre compreendido. As demais culturas são consumidas como espetáculo, mas raramente estudadas em profundidade.

    É importante ressaltar que tal diagnóstico não se aplica indistintamente à totalidade da sociedade estadunidense. Contudo, ele ajuda a compreender por que determinadas narrativas encontram tanta receptividade. Quando o horizonte intelectual se estreita, cresce a atração por respostas fáceis para problemas complexos. Quando a reflexão é substituída pela emoção, líderes performáticos adquirem enorme vantagem política. Quando a identidade nacional passa a ser celebrada mais como afirmação de superioridade do que como responsabilidade histórica, a retórica grandiloquente torna-se mais eficaz do que a argumentação racional.

    Trump surgiu precisamente nesse ambiente. Em vez de desafiar essas tendências, transformou-as em identidade política. Sua retórica nacionalista, a linguagem simplificada, a exaltação permanente da força, a admiração por demonstrações ostensivas de poder e a dificuldade em lidar com nuances refletem impulsos que já estavam presentes no imaginário político de parte da sociedade norte-americana. Nesse sentido, ele funciona menos como uma anomalia e mais como um espelho ampliado.

    A relação do trumpismo com a cultura armamentista oferece um exemplo particularmente eloquente. Ao longo de décadas, setores importantes da política estadunidense passaram a tratar armas não apenas como instrumentos ou direitos constitucionais, mas como símbolos identitários. O debate sobre segurança pública frequentemente foi substituído por uma retórica emocional na qual a demonstração de força assume dimensão quase ritual. Nessa lógica, a política deixa de ser compreendida como negociação democrática e aproxima-se cada vez mais da exibição permanente de poder.

    A própria fascinação de Trump por desfiles militares, armamentos, demonstrações públicas de força e eventos concebidos para exibir poder físico revela uma concepção bastante rudimentar de grandeza nacional. Civilizações verdadeiramente maduras costumam celebrar seus escritores, seus cientistas, seus filósofos, suas conquistas culturais e seus avanços civilizatórios. Já sociedades dominadas pela lógica do espetáculo tendem a confundir força com grandeza e visibilidade com relevância histórica.

    Talvez seja justamente por isso que a ideia de uma luta de UFC na Casa Branca pareça tão simbolicamente adequada ao trumpismo. Não porque o esporte possua qualquer indignidade intrínseca, mas porque ele oferece a metáfora perfeita para uma visão de mundo que reduz conflitos complexos a confrontos binários, transforma adversários em inimigos e substitui a argumentação pelo impacto emocional.

    O aspecto verdadeiramente constrangedor da proposta não está no UFC. Está no fato de que uma data destinada a rememorar debates iluministas sobre liberdade, representação política, cidadania e limites do poder estatal seja convertida em espetáculo midiático concebido para gerar manchetes, audiência e excitação coletiva. A independência dos Estados Unidos foi resultado de debates filosóficos, formulações jurídicas e reflexões profundas sobre soberania e direitos. Entre seus protagonistas encontravam-se homens profundamente influenciados pelo pensamento iluminista europeu. Há algo de ironicamente melancólico em imaginar essa herança intelectual sendo homenageada por meio de um evento cuja principal finalidade é produzir impacto visual.

    Talvez a proposta diga menos sobre a independência dos Estados Unidos do que sobre o estado atual de sua imaginação política. Talvez revele uma época em que a visibilidade triunfa sobre o significado. E talvez, sobretudo, exponha a transformação do poder em entretenimento, fenômeno que encontra em Donald Trump não sua causa exclusiva, mas sua representação mais exuberante, mais caricatural e mais ostensivamente brega.

    Porque a verdadeira breguice não consiste em um excesso de cores, em um gosto duvidoso pela decoração dourada ou em declarações espalhafatosas. A verdadeira breguice consiste em não perceber a diferença entre notoriedade e grandeza, entre espetáculo e história, entre celebridade e estadista. E poucas figuras públicas contemporâneas encarnam essa confusão com tanta intensidade quanto Donald Trump.