Categoria: Análise&Opinião

  • Quando a chuva era apenas música sobre os telhados

    Por Cristiano Goldschmidt

    A chuva sempre foi, para mim, mais do que um fenômeno atmosférico. Foi uma linguagem. Antes mesmo de compreender as palavras que descrevem o mundo, eu já compreendia o significado da chuva. Ela falava através do som repetido das gotas sobre o telhado e a calçada de nossa casa, através do perfume da terra úmida que subia dos canteiros do jardim, através da mudança quase imperceptível da luz que transformava uma tarde comum em um território de recolhimento e imaginação.

    Chuva no horizonte, Ibiporã/PR Foto de Roberto Dziura Jr/AEN

    Cresci no interior, num tempo em que as estações ainda pareciam obedecer a um ritmo antigo, como se a natureza não tivesse perdido completamente sua autonomia diante das urgências humanas. Naquele universo, a chegada da chuva não era uma interrupção da rotina de nossas vidas. Era parte dela. Havia uma espécie de solenidade silenciosa nos primeiros pingos que começavam a desenhar círculos nas poças de água e a escurecer lentamente o concreto da calçada. As árvores pareciam respirar com mais profundidade. As flores inclinavam suas pétalas como quem recebe uma visita aguardada. Até mesmo os pássaros alteravam seus movimentos, anunciando uma transformação que os adultos percebiam menos do que as crianças.

    Tenho a impressão de que algumas das minhas lembranças mais antigas são inseparáveis do som da chuva. Não me recordo apenas das imagens, mas da acústica daqueles dias. O ruído ritmado das gotas sobre o telhado, o gotejar persistente das calhas, a água escorrendo pelos cantos do quintal, o vento atravessando as copas das árvores. Era uma sinfonia cuja maestrina era a própria natureza, uma composição que envolvia toda a paisagem.

    Havia algo de profundamente reconfortante nas noites chuvosas. Deitar-se para dormir enquanto a chuva caía lá fora produzia uma sensação difícil de traduzir em palavras. Era como se o mundo exterior permanecesse desperto para que eu pudesse descansar. O som contínuo das gotas criava uma espécie de abrigo invisível ao redor da cama, uma proteção feita não de paredes, mas de ritmo. Enquanto a água descia dos céus, as preocupações infantis perdiam importância. A chuva transformava o quarto em refúgio e o sono em travessia tranquila.

    Nessas mesmas noites e tardes prolongadas de chuva, quando o mundo parecia recolhido sobre si mesmo, a vida doméstica ganhava outra densidade. Não havia outra saída a não ser reinventar o cotidiano dentro de casa. Brincávamos com os amigos nos corredores, nos quartos, nas pequenas extensões possíveis de um universo fechado pela tempestade. Quando o silêncio das brincadeiras se cansava de si mesmo, a televisão se tornava janela para outros mundos, filmes e histórias que preenchiam o tempo como uma espécie de segundo céu.

    Era também quando minha mãe assumia, com uma delicadeza quase cerimonial, a cozinha como território de invenção. Preparava mate doce com poejo, cujo aroma parecia aquecer não apenas o corpo, mas também o próprio ambiente. A pipoca surgia ora salgada, ora envolvida em melado, como se o doce pudesse alterar a textura do tempo. Em dias mais generosos, havia bolinhos de chuva, pequenos fragmentos fritos de infância, como se a própria tempestade tivesse sido transformada em alimento. A cozinha se tornava, assim, um espaço de criação silenciosa, onde o clima lá fora encontrava tradução sensível dentro de casa.

    Talvez esse encanto estivesse ligado à percepção intuitiva de que a chuva significava vida. Eu a observava alimentar as plantas do jardim, revigorar a grama, devolver brilho às folhas cobertas pela poeira dos dias secos. Depois de uma tempestade, o mundo parecia renascer. As cores ficavam mais intensas. O verde assumia tonalidades quase impossíveis. O ar se tornava mais leve. Havia uma sensação de limpeza que não era apenas física, mas também espiritual.

    Com o passar dos anos, compreendi que a memória possui seus próprios mecanismos de seleção. Ela conserva menos os acontecimentos extraordinários do que os detalhes aparentemente insignificantes. Por isso, quando penso na chuva da minha infância, não me recordo de datas ou eventos específicos. Lembro-me do cheiro das roseiras molhadas. Lembro-me da água acumulada sobre as folhagens de folhas largas. Lembro-me das tardes em que eu observava a chuva cair pela janela enquanto o tempo parecia desacelerar. Lembro-me da sensação de pertencimento que surgia quando a paisagem ao redor e o estado de espírito dentro de mim pareciam falar a mesma língua.

    A vida no interior favorecia essa intimidade com os ciclos naturais. O horizonte era mais amplo. O céu ocupava uma parcela maior da experiência cotidiana. Era possível acompanhar a formação das nuvens, perceber a mudança dos ventos, antecipar a chegada de um temporal observando apenas a transformação da luz sobre os campos. A natureza não era um cenário distante. Era uma presença constante, uma personagem da vida diária.

    Durante muito tempo, a chuva permaneceu associada a essa dimensão afetiva da existência. Bastava ouvir o som das gotas contra a janela para que antigas lembranças retornassem. A memória possui uma extraordinária capacidade de viajar através dos sentidos, e poucas coisas despertam recordações com tanta força quanto certos sons. A chuva carregava consigo fragmentos inteiros do passado: ruas tranquilas, jardins úmidos, noites silenciosas, árvores balançando ao vento, a segurança das casas que pareciam eternas.

    Mas a vida também nos ensina que nenhum símbolo permanece imutável.

    Desde as enchentes que devastaram Porto Alegre em 2024, minha relação emocional com a chuva tornou-se mais complexa. Aquilo que durante décadas representou acolhimento passou a carregar igualmente a possibilidade da ameaça. A água, que antes evocava fertilidade e descanso, revelou sua capacidade de destruição.

    Quando as enchentes avançaram sobre a cidade, não se tratava mais da chuva contemplada à distância, através da janela. Tratava-se da chuva que alterava destinos, invadia espaços, interrompia rotinas e obrigava pessoas a abandonar temporariamente suas vidas. Durante um mês, precisei deixar meu apartamento e encontrar abrigo na casa de uma amiga. Foi uma experiência que modificou não apenas a percepção do espaço urbano, mas também a maneira como certos sons passaram a ser interpretados.

    Depois daquela vivência, os dias de chuva deixaram de ser recebidos com a mesma poesia, com a mesma memória afetiva. Ainda hoje, quando uma tempestade mais intensa se aproxima, uma parte de mim permanece vigilante. O som das gotas já não é apenas música; tornou-se também aviso. O céu escurecendo já não sugere apenas recolhimento; desperta apreensão. Existe uma memória do corpo que não se dissolve facilmente. Ela permanece armazenada em extratos profundos da consciência, reaparecendo quando circunstâncias semelhantes se apresentam.

    O mais curioso, porém, é que essa transformação não eliminou completamente o encanto antigo. Em vez disso, produziu uma convivência entre sentimentos aparentemente contraditórios. A chuva continua sendo capaz de despertar ternura, nostalgia e contemplação. Continua evocando os jardins da infância, os telhados do interior, as noites protegidas pelo som das gotas. Ao mesmo tempo, carrega agora a lembrança da vulnerabilidade humana diante das forças da natureza.

    Talvez a maturidade consista justamente na capacidade de sustentar significados múltiplos sem exigir que um deles anule os demais. A chuva que hoje observo não é a mesma da infância, mas também não deixou de ser aquela chuva. Ela reúne camadas distintas de experiência. Em suas gotas convivem a beleza e o temor, o passado e o presente, a memória e a percepção.

    Quando a escuto cair sobre a cidade, percebo que ela continua sendo uma das raras linguagens que atravessam intactas as diferentes idades da vida. As mesmas gotas que um dia embalaram meus sonhos de criança hoje despertam lembranças mais complexas, feitas de encanto e inquietação. Ainda assim, quando a chuva toca os telhados, algo daquele menino do interior volta a reconhecer sua antiga melodia. Talvez a memória seja justamente isso: a capacidade de encontrar abrigo, mesmo que por instantes, naquilo que o tempo transformou sem conseguir destruir. E, então, por trás da tempestade, ainda é possível ouvir a música.

  • Dia do Cinema Brasileiro: a arte de contar o Brasil para o mundo

    Por Cristiano Goldschmidt

    Toda sociedade produz narrativas sobre si mesma. Algumas são preservadas pela literatura, outras pela música, pela pintura, pelo teatro ou pela tradição oral. Desde o final do século XIX, porém, poucas formas de expressão se mostraram tão poderosas quanto o cinema. A capacidade de reunir imagem, som, emoção, memória e imaginação transformou essa arte em uma das mais influentes ferramentas de construção da identidade cultural dos povos. No Brasil, não foi diferente. Celebrado em 19 de junho, o Dia do Cinema Brasileiro oferece uma oportunidade para refletir sobre uma manifestação artística que, muito além do entretenimento, ajudou a registrar transformações sociais, interpretar conflitos, preservar memórias e construir formas de compreensão sobre o país e sua gente.

    A data remete a 19 de junho de 1898, quando o ítalo-brasileiro Affonso Segreto realizou imagens da Baía de Guanabara durante a chegada de um navio ao Rio de Janeiro. Considerado um dos marcos inaugurais da cinematografia nacional, aquele registro ocorreu poucos anos após os irmãos Lumière apresentarem ao mundo a invenção que revolucionaria para sempre a maneira de contar histórias. Naturalmente, ninguém poderia imaginar naquele momento a dimensão cultural que o cinema alcançaria ao longo do século seguinte.

    Affonso Segreto | Fonte:Wikipedia

    A trajetória do cinema brasileiro jamais foi linear. Diferentemente de países que consolidaram cedo grandes indústrias cinematográficas, o Brasil desenvolveu sua produção em meio a dificuldades econômicas, limitações técnicas, instabilidades políticas e um mercado historicamente dominado por obras estrangeiras. Ainda assim, construiu uma identidade própria, marcada pela diversidade de olhares e pela permanente tentativa de compreender a realidade nacional.

    Talvez essa seja sua característica mais marcante. Enquanto parte significativa da indústria audiovisual mundial se organiza em torno de fórmulas capazes de circular com facilidade pelos mercados globais, o cinema brasileiro frequentemente voltou sua atenção para dentro de casa. Ao longo das décadas, suas câmeras percorreram sertões, favelas, metrópoles, comunidades indígenas, áreas rurais, periferias urbanas, florestas e pequenas cidades do interior. Registraram desigualdades, esperanças, conflitos políticos, dramas familiares, expressões religiosas, manifestações culturais e as inúmeras contradições que compõem a experiência brasileira.

    Não se trata apenas de representar paisagens ou costumes. O cinema brasileiro, em seus momentos mais relevantes, procurou interpretar o país. Seus melhores filmes não se limitaram a mostrar o Brasil; buscaram compreender suas tensões, suas feridas abertas, seus processos históricos e seus dilemas sociais. Em uma nação marcada por profundas desigualdades e enorme diversidade cultural, essa tarefa nunca foi simples.

    Com o Cinema Novo, Glauber Rocha leva o Brasil para o mundo | Foto Arquivo Nacional

    Essa vocação tornou-se especialmente evidente a partir da década de 1950 e alcançou grande projeção nos anos 1960 com o surgimento do Cinema Novo. O movimento transformou a linguagem cinematográfica nacional e conquistou reconhecimento internacional ao defender um cinema autoral, crítico e comprometido com a realidade brasileira.

    Entre seus principais representantes destacou-se Glauber Rocha, cuja obra permanece como uma das mais influentes da história do cinema latino-americano. Seu famoso lema, “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, sintetizava a crença de que a criatividade poderia superar limitações econômicas e técnicas. Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967) apresentaram ao mundo um Brasil distante dos estereótipos exóticos frequentemente reproduzidos no exterior.

    Ao lado de Glauber, nomes como Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Leon Hirszman e Cacá Diegues ajudaram a consolidar uma cinematografia capaz de dialogar com os grandes debates artísticos do século XX sem renunciar a suas especificidades nacionais. Seus trabalhos revelaram personagens, paisagens e conflitos que raramente encontravam espaço nas produções estrangeiras consumidas pelo público brasileiro.

    Carlos Diegues em 1972 | Fonte: Arquivo Nacional

    Mas reduzir o cinema brasileiro ao Cinema Novo seria ignorar sua extraordinária diversidade. Ao lado das produções politicamente engajadas floresceram documentários, dramas urbanos, adaptações literárias, comédias populares, animações e experiências estéticas das mais variadas. Essa pluralidade talvez seja uma de suas maiores riquezas. Afinal, um país de dimensões continentais dificilmente poderia ser representado por uma única linguagem ou por uma única visão de mundo.

    Ao longo de sua história, porém, produzir cinema no Brasil significou enfrentar desafios permanentes. A atividade audiovisual exige investimentos elevados, infraestrutura complexa e mecanismos eficientes de distribuição. Sem apoio institucional, torna-se extremamente difícil competir em um mercado global dominado por conglomerados internacionais que movimentam bilhões de dólares anualmente.

    Foi nesse contexto que a Embrafilme desempenhou papel fundamental durante boa parte do século XX. Criada em 1969, a empresa estatal atuou no financiamento, na distribuição e na promoção do cinema brasileiro. Embora estivesse longe de ser consensual e tenha sido alvo de críticas, sua existência contribuiu para garantir uma produção contínua e criar condições mínimas para o desenvolvimento do setor.

    O fechamento da Embrafilme, em 1990, durante o governo de Fernando Collor de Mello, marcou um dos momentos mais difíceis da história do audiovisual brasileiro. Sem mecanismos adequados de substituição, a produção praticamente entrou em colapso. Longas-metragens deixaram de ser realizados, projetos foram abandonados e muitos profissionais precisaram interromper carreiras construídas ao longo de décadas.

    A crise revelou algo frequentemente ignorado nos debates públicos: cinema não é apenas arte. Cinema também é trabalho, indústria e atividade econômica. Por trás de cada filme existe uma extensa cadeia produtiva que envolve roteiristas, diretores, atores, figurinistas, fotógrafos, técnicos de som, montadores, cenógrafos, profissionais de transporte, alimentação, hospedagem, comunicação e inúmeros outros trabalhadores.

    A recuperação começou apenas na segunda metade dos anos 1990, período conhecido como Retomada do Cinema Brasileiro. Novos mecanismos de incentivo permitiram o ressurgimento da produção nacional. Obras como Carlota Joaquina (1995), de Carla Camurati, demonstraram que ainda havia espaço para o cinema brasileiro dialogar com o público. Pouco depois, Central do Brasil (1998), de Walter Salles, emocionaria espectadores em diferentes continentes e mostraria que histórias profundamente brasileiras podiam alcançar dimensão universal.

    Nas décadas seguintes, o audiovisual brasileiro ampliou sua diversidade temática e estética. Novos polos de produção surgiram fora do eixo Rio-São Paulo, documentários conquistaram projeção inédita, produções independentes ganharam relevância e diferentes grupos sociais passaram a ocupar espaços historicamente restritos dentro da indústria cultural.

    Entretanto, os desafios permaneceram. A sustentabilidade do setor continuou fortemente ligada à existência de políticas públicas de incentivo. Não por privilégio, mas porque praticamente todos os países que possuem cinematografias fortes adotam algum tipo de mecanismo de proteção e financiamento para suas produções nacionais.

    Essa discussão voltou ao centro do debate durante o governo de Jair Bolsonaro. O período foi marcado por conflitos entre o governo federal e setores da cultura, incluindo o audiovisual. Houve ataques a profissionais, disseminação de informações falsas sobre políticas culturais, atrasos na liberação de recursos, paralisação de editais e um ambiente de insegurança institucional que afetou diversos projetos.

    A partir de 2023, já no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, iniciou-se um processo de reconstrução das políticas voltadas ao setor cultural. A retomada de investimentos, a reativação de mecanismos de fomento e a recomposição institucional da área contribuíram para renovar as perspectivas do audiovisual brasileiro.

    Os resultados começaram a aparecer não apenas no aumento da produção, mas também na visibilidade internacional das obras nacionais. Um dos exemplos mais significativos é Ainda Estou Aqui (2024), dirigido por Walter Salles e baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva. Ao narrar a trajetória de Eunice Paiva após o desaparecimento de seu marido durante a ditadura militar, o filme demonstrou como experiências profundamente brasileiras podem alcançar ressonância universal ao tratar de temas como memória, luto, resistência e justiça.

    Outro exemplo é O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, que utiliza o suspense político para refletir sobre vigilância, autoritarismo e repressão durante os anos mais duros do regime militar. A recepção positiva dessas produções em festivais e premiações internacionais evidencia a vitalidade criativa do cinema brasileiro contemporâneo.

    Esse reconhecimento vai muito além do prestígio simbólico. Festivais e premiações ampliam mercados, fortalecem coproduções, atraem investimentos e ajudam a projetar uma imagem mais complexa e plural do Brasil para o restante do mundo.

    Mas talvez a contribuição mais importante do cinema brasileiro esteja em outro lugar. Em uma época marcada pela circulação acelerada de conteúdos globais e pela crescente padronização de narrativas, produzir filmes nacionais significa preservar a capacidade de contar nossas próprias histórias. Nenhum país é capaz de representar o Brasil com a mesma profundidade que os próprios brasileiros.

    Quando um filme retrata um sertão esquecido, uma comunidade ribeirinha, uma periferia urbana, uma pequena cidade do interior ou uma família comum enfrentando seus desafios cotidianos, ele está fazendo mais do que entretenimento. Está registrando experiências humanas que ajudam a construir memória coletiva. Está preservando modos de vida, sotaques, valores, conflitos e formas de compreender o mundo.

    O cinema é também uma disputa de narrativas. Quem conta as histórias de um povo ajuda a definir como esse povo será visto pelos outros e por si mesmo. Por isso, investir em cinema significa investir em soberania cultural. Significa garantir que o país continue produzindo imagens capazes de refletir sua complexidade e sua diversidade.

    Ao observar a história do cinema brasileiro, percebe-se que ela guarda muitas semelhanças com a própria história nacional: períodos de entusiasmo e crise, avanços e retrocessos, conquistas e desafios. Ainda assim, permanece uma impressionante capacidade de reinvenção. Celebrar o Dia do Cinema Brasileiro é, portanto, celebrar muito mais do que filmes. É reconhecer uma arte que ajuda o país a compreender a si mesmo. É valorizar uma atividade que produz cultura, movimenta a economia, gera empregos e preserva memórias. É defender a capacidade de um povo de contar sua própria história. Afinal, toda nação que produz suas próprias imagens produz também uma compreensão mais profunda de quem é, de onde veio e do futuro que deseja construir.

  • Entre suspiros, sorvetes secos e marias-moles

    Por Cristiano Goldschmidt

    Por muitos anos, o minimercado e bar de meu pai foi um ponto de referência em Portão do Ocoí, no interior do oeste paranaense. Antes, porém, de compreender a importância daquele estabelecimento para a comunidade e para o sustento de nossa família, eu o enxergava como o centro do meu pequeno universo infantil. Era ali que a vida parecia acontecer. Agricultores chegavam cobertos pela poeira vermelha das estradas rurais, vizinhos entravam para uma conversa rápida que quase sempre se prolongava, e crianças, como eu, circulavam entre as prateleiras observando um mundo que se mostrava inesgotável em descobertas.

    Na década de 1980, estabelecimentos como aquele ainda exerciam uma função que ia muito além do comércio. Nas pequenas comunidades do interior, eram pontos de encontro, centros informais de convivência e espaços onde circulavam não apenas mercadorias, mas também notícias, preocupações, expectativas e histórias. Ali se comentava o preço da soja, a previsão de chuva, o nascimento de uma criança, a morte de alguém, a venda de uma propriedade ou os preparativos para uma festa comunitária. Muitas vezes, alguém entrava para comprar um pacote de café e saía quase uma hora depois, após colocar a conversa em dia com os demais frequentadores.

    Vendia-se praticamente tudo o que uma família precisava para atravessar a semana. Havia alimentos, ferramentas, sementes, pilhas, querosene, produtos de limpeza, bebidas, cigarros, peças para pequenos reparos e uma infinidade de artigos que hoje dificilmente encontraríamos reunidos em um único local. Em um canto, sacos de ração aguardavam os produtores. Em outro, garrafas retornáveis alinhavam-se em engradados. Atrás do balcão, havia gavetas que pareciam guardar soluções para qualquer problema que pudesse surgir em uma propriedade rural.

    Meu pai possuía certo talento para os negócios. Ao longo da vida, esteve envolvido em diversas atividades, algumas delas simultaneamente. Foi proprietário de chácara, dono de posto de combustível, teve empresa de ônibus e chegou a possuir caminhão e colheitadeira, que alugava aos agricultores durante os períodos de safra. Seu trabalho acompanhava os ritmos da economia rural e as necessidades da comunidade. Ainda assim, quando volto à infância, nenhuma dessas iniciativas ocupa um espaço tão marcante quanto o minimercado e bar. Talvez porque fosse ali que eu pudesse observá-lo conversando com os clientes, anotando compras em cadernetas, resolvendo problemas e construindo, sem alarde, uma rede de relações que se confundia com a própria vida da comunidade.

    Mas seria injusto dizer que eu frequentava aquele ambiente movido apenas por curiosidade pelo universo adulto. A verdade é que meus interesses infantis tinham objetivos próprios. Eram muito mais simples e bem mais açucarados.

    Entre todos os produtos disponíveis, nada exercia sobre mim maior fascínio do que os suspiros, os sorvetes secos e as marias-moles.

    Os adultos talvez não compreendessem a dimensão que essas guloseimas podiam assumir na imaginação de uma criança. Para nós, não eram apenas doces. Eram tesouros. Habitavam as prateleiras como pequenas promessas de felicidade instantânea. Bastava avistá-los para que toda a capacidade de autocontrole desaparecesse.

    Algum tempo depois, surgiram também os picolés e os sorvetes gelados. Para uma criança do interior dos anos 1980, aquilo parecia quase uma novidade tecnológica. Guardados nos freezers que zumbiam sem descanso, eles rapidamente passaram a disputar nossa atenção e nossos desejos com os tradicionais suspiros, sorvetes secos e marias-moles. Havia dias em que a escolha se transformava em verdadeiro dilema: optar pela leveza açucarada dos suspiros ou pela refrescante tentação de um picolé. Ainda assim, os doces mais antigos conservaram um lugar especial em nossa preferência, talvez porque estivessem ligados às primeiras descobertas e às travessuras que já faziam parte da rotina.

    Vez ou outra, meu pai nos presenteava com alguns doces. O problema, sob a ótica infantil, era a existência de limites. Havia uma quantidade regrada e razoável para cada semana. Hoje reconheço que as negativas faziam parte da educação e do cuidado. Na época, porém, pareciam uma restrição absolutamente incompatível com a abundância que nos cercava.

    Como aceitar que dezenas de suspiros estivessem ao alcance dos olhos e que apenas alguns fossem autorizados?

    Foi dessa inconformidade filosófica que nasceram nossas pequenas operações clandestinas.

    Eu, minha amiga Lindacir e, muitas vezes, Velci, irmão de uma funcionária que trabalhava conosco, formávamos uma espécie de sociedade informal dedicada à ampliação não autorizada das cotas semanais de açúcar. Nada grandioso. Nada que causasse prejuízo significativo. Tratava-se apenas daquela combinação de criatividade e inocência que caracteriza tantas travessuras da infância.

    A estratégia variava conforme as circunstâncias. Às vezes, bastava aproveitar um momento de maior movimento no estabelecimento. Em outras ocasiões, uma conversa mais prolongada entre os adultos criava a oportunidade necessária. Havia olhares de cumplicidade, sinais discretos e uma coordenação que, em nossas cabeças, rivalizava com as mais sofisticadas operações de espionagem.

    O prêmio quase sempre era modesto: um picolé ou um suspiro a mais, uma maria-mole retirada discretamente do pacote ou um pedaço de sorvete seco conquistado fora da contabilidade oficial.

    A verdadeira recompensa, contudo, não estava no doce em si.

    Estava na aventura.

    Estava na sensação de participar de um segredo compartilhado.

    Estava no riso contido que surgia logo depois, quando nos afastávamos certos de que havíamos executado mais uma missão com absoluto sucesso.

    Hoje percebo que o sabor daqueles doces não desapareceu da memória. Consigo lembrar com exatidão a textura dos suspiros e a consistência das marias-moles. Mas também permaneceu algo muito mais valioso.

    Permaneceu a atmosfera.

    Permaneceu a luminosidade suave das tardes entrando pelas portas do estabelecimento.

    Permaneceu o som das conversas misturado ao tilintar das garrafas sendo organizadas.

    Permaneceram os cumprimentos trocados entre vizinhos e a movimentação constante de pessoas que encontravam naquele espaço muito mais do que um simples comércio.

    Lembro-me dos agricultores que chegavam para falar sobre o andamento da colheita. Lembro-me das preocupações com a estiagem quando as chuvas demoravam a aparecer. Lembro-me da expectativa que antecedia as safras e da satisfação que se espalhava quando o resultado do trabalho era positivo. Sem perceber, cresci ouvindo aquelas conversas. Foi ali que comecei a compreender, ainda que intuitivamente, os vínculos profundos que unem pequenas comunidades.

    O minimercado e bar de meu pai funcionava como uma espécie de coração do lugar. Pessoas diferentes passavam por ali todos os dias, trazendo consigo histórias, preocupações, esperanças e projetos. Algumas permaneciam poucos minutos. Outras se acomodavam para longas conversas. Todas, de alguma forma, contribuíam para criar aquele sentimento de pertencimento que hoje reconheço como uma das maiores riquezas da vida no interior.

    Muitas décadas se passaram desde então. O tempo transformou paisagens, alterou costumes e redesenhou a rotina das pequenas comunidades. Algumas pessoas partiram. Outras envelheceram. As crianças daquela época tornaram-se adultas, carregando suas próprias responsabilidades e memórias.

    Ainda assim, certos objetos conservam um poder extraordinário. Basta encontrar um pacote de suspiros em uma prateleira qualquer, avistar uma maria-mole em uma vitrine ou sentir o gosto de um sorvete seco para que uma porta invisível se abra.

    E então volto a Portão do Ocoí.

    Volto às estradas de chão batido.

    Volto às tardes intermináveis da infância.

    Volto às risadas compartilhadas com Lindacir e Velci.

    Volto ao balcão atrás do qual meu pai trabalhava.

    Volto às pequenas conspirações açucaradas que acreditávamos perfeitas.

    E compreendo que os verdadeiros tesouros daqueles anos jamais estiveram nas mercadorias expostas. Não estavam nos doces que conseguíamos conquistar além da cota permitida. Não estavam sequer na sensação efêmera de vitória que acompanhava cada travessura.

    O que realmente permaneceu foram os afetos.

    Foram as amizades.

    Foi a convivência.

    Foi a sensação de fazer parte de uma comunidade onde as pessoas se conheciam pelo nome, compartilhavam dificuldades e celebravam juntas as alegrias da vida cotidiana.

    Os suspiros, os sorvetes secos e as marias-moles desapareciam em poucos instantes, como desaparecem todos os doces da infância.

    As lembranças, porém, permaneceram.

    E continuam extraordinariamente doces.

  • Cuba, Argentina e China: três espelhos do nosso tempo em documentários

    Por Cristiano Goldschmidt

    Vivemos uma época paradoxal. Nunca houve tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil compreender a complexidade do mundo. A velocidade das redes sociais, a fragmentação dos debates públicos e a transformação de questões históricas em slogans instantâneos produziram um ambiente em que opiniões circulam com enorme facilidade, enquanto a reflexão profunda se torna cada vez mais rara. Nesse contexto, o documentário emerge não apenas como um gênero cinematográfico, mas como um instrumento de investigação intelectual e de reconstrução da complexidade perdida.

    É precisamente nesse horizonte que se inscrevem os documentários Vai pra Cuba, Eduardo! (2024), Vai pra Argentina, Carajo! (2025) e Vai pra China, Eduardo! (2026). Produzidos pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL), os três filmes constituem um projeto documental singular no audiovisual brasileiro contemporâneo. Concebida a partir de uma ideia original de Eduardo Moreira, a trilogia combina jornalismo investigativo, análise histórica e observação de campo, tendo o próprio Moreira como principal condutor das entrevistas, das viagens e das investigações realizadas em cada país.

    A direção da série revela igualmente uma preocupação com o rigor narrativo e a pluralidade de perspectivas. Os documentários Vai pra Cuba, Eduardo! e Vai pra China, Eduardo! foram dirigidos por Juliana Baroni, enquanto Vai pra Argentina, Carajo! contou com direção compartilhada entre Baroni e o jornalista e documentarista argentino Fabián Restivo. No caso de Vai pra China, Eduardo!, merece destaque ainda a dimensão internacional da produção. O documentário foi realizado em coprodução com o China Media Group (CMG), o maior conglomerado estatal de comunicação da China, responsável por veículos de enorme alcance e relevância, como a CCTV e a CGTN. Essa colaboração confere ao projeto uma amplitude rara, permitindo acesso a informações, contextos e experiências que dificilmente poderiam ser alcançados por uma produção estrangeira convencional.

    A relevância desses documentários não reside apenas nos temas que abordam. Sua contribuição mais importante talvez seja de natureza epistemológica. Em uma época marcada pela polarização, eles recuperam algo que deveria ser fundamental em qualquer sociedade democrática: a disposição para compreender antes de julgar.

    O primeiro filme, Vai pra Cuba, Eduardo!, realiza uma tarefa particularmente necessária. Durante décadas, Cuba foi transformada em símbolo. Para alguns, tornou-se a representação de uma experiência revolucionária de resistência ao poder norte-americano. Para outros, converteu-se em exemplo definitivo do fracasso do socialismo. Em ambos os casos, a realidade concreta frequentemente desaparece sob o peso das disputas ideológicas.

    O documentário procura romper esse mecanismo. Ao apresentar entrevistas, registros locais e aspectos da vida cotidiana da ilha, a obra desloca a discussão do terreno abstrato para o terreno humano. A questão central deixa de ser quem venceu o debate ideológico e passa a ser como vivem as pessoas submetidas a circunstâncias históricas específicas.

    Particularmente relevante é a atenção dedicada aos embargos internacionais e às suas consequências. Independentemente das posições políticas que cada espectador possa adotar, é impossível compreender a experiência cubana sem considerar o impacto das restrições econômicas impostas ao país ao longo de décadas. O mérito do documentário está justamente em inserir esse elemento no debate sem transformá-lo em explicação única para todos os problemas da ilha. O resultado é um retrato mais complexo e, por isso mesmo, mais honesto.

    Há também uma dimensão ética importante nessa abordagem. Ao invés de tratar Cuba como um conceito ou um experimento geopolítico, o filme devolve protagonismo aos cubanos. Essa escolha parece simples, mas representa uma contribuição significativa para a qualidade do debate público. Afinal, nenhuma análise séria sobre uma sociedade pode prescindir das vozes daqueles que a habitam.

    Se o documentário sobre Cuba convida o espectador a refletir sobre os efeitos históricos do isolamento econômico, Vai pra Argentina, Carajo! desloca a atenção para uma experiência política contemporânea cujos desdobramentos seguem mobilizando intensos debates dentro e fora da América Latina: o governo de Javier Milei e sua agenda de reformas econômicas radicais.

    A Argentina ocupa uma posição singular na história da região. Poucos países experimentaram de forma tão intensa ciclos alternados de crescimento, crise, expectativas de recuperação e sucessivas frustrações. Nesse contexto, a ascensão de Milei ao poder representou a promessa de uma ruptura profunda com modelos anteriores de gestão econômica. O documentário, entretanto, opta por examinar menos as promessas e mais os efeitos concretos dessa transformação na vida cotidiana da população.

    A participação de Fabián Restivo na direção acrescenta uma dimensão particularmente relevante à obra. Como jornalista e documentarista argentino, sua presença contribui para uma leitura mais próxima das tensões sociais e econômicas vividas no país, conferindo densidade local a uma investigação que busca compreender os impactos reais das políticas implementadas pelo governo.

    Diferentemente de análises centradas em indicadores macroeconômicos ou discursos oficiais, Vai pra Argentina, Carajo! volta seu olhar para as ruas, para os trabalhadores, para os aposentados, para os pequenos comerciantes e para aqueles que experimentam diretamente as consequências das mudanças em curso. O resultado é um retrato frequentemente duro e inquietante da realidade argentina contemporânea.

    Reprodução ICL Notícias

    Ao longo do documentário, a escalada do custo de vida aparece como um dos elementos centrais da narrativa. O aumento dos preços, a corrosão do poder de compra e a crescente dificuldade de acesso a bens e serviços básicos são apresentados não como abstrações estatísticas, mas como experiências concretas que afetam milhões de pessoas. A inflação deixa de ser apenas um dado econômico e passa a ser percebida como uma força capaz de remodelar rotinas, expectativas e projetos de vida.

    A obra dedica especial atenção aos efeitos sociais decorrentes da política de austeridade adotada pelo governo. Os severos cortes de gastos públicos são analisados a partir de suas repercussões práticas sobre serviços, programas de assistência e condições de vida da população mais vulnerável. Nesse sentido, o documentário estabelece uma crítica consistente à ideia de que ajustes econômicos podem ser avaliados exclusivamente por indicadores fiscais, ignorando seus impactos humanos.

    Particularmente marcante é a forma como o filme registra o crescimento da população em situação de rua e a ampliação dos sinais visíveis de precarização social. As imagens e depoimentos reunidos ao longo da narrativa funcionam como um contraponto poderoso aos discursos que apresentam as reformas apenas sob a ótica da eficiência econômica. O documentário sugere que qualquer avaliação séria de um projeto político precisa considerar não apenas seus objetivos declarados, mas também seus custos sociais.

    Essa abordagem confere à obra um caráter claramente crítico em relação ao governo Milei. Contudo, sua força não reside na simples denúncia ou na oposição partidária. O que torna o documentário relevante é sua capacidade de conectar decisões econômicas abstratas às experiências concretas das pessoas afetadas por elas. Em vez de permanecer restrita ao plano ideológico, a crítica ganha substância ao ser construída por meio de testemunhos, observações de campo e evidências da vida cotidiana.

    Ao fazer esse movimento, Vai pra Argentina, Carajo! contribui para uma discussão mais ampla sobre os limites da austeridade, os significados do desenvolvimento econômico e as responsabilidades sociais do Estado. Mais do que um filme sobre a Argentina contemporânea, a obra se transforma em uma reflexão sobre os custos humanos das escolhas econômicas e sobre a necessidade de avaliar projetos políticos não apenas por seus resultados financeiros, mas também por seus efeitos sobre a dignidade e as condições de vida da população.

    Nesse sentido, o documentário amplia significativamente o debate público. Sua contribuição não está em oferecer respostas definitivas, mas em recolocar no centro da discussão uma pergunta fundamental que frequentemente desaparece dos diagnósticos econômicos: para quem, afinal, servem as políticas econômicas e quais vidas são transformadas por elas?

    Vai pra China, Eduardo! enfrenta talvez um dos desafios intelectuais mais ambiciosos da trilogia. Falar sobre a China contemporânea significa abordar uma das experiências históricas mais extraordinárias dos últimos séculos.

    Em poucas décadas, o país realizou uma transformação econômica de proporções gigantescas, retirando centenas de milhões de pessoas da pobreza e convertendo-se em uma das principais potências tecnológicas do planeta. Ao mesmo tempo, essa ascensão levanta questões complexas sobre governança, vigilância digital, inteligência artificial, inovação e o futuro das relações internacionais.

    O documentário demonstra acerto ao concentrar parte de sua atenção no desenvolvimento tecnológico chinês. Em muitos aspectos, compreender a China contemporânea significa compreender como tecnologia, planejamento estratégico e investimento em pesquisa passaram a desempenhar papel central na competição global.

    A coprodução com o China Media Group revela-se especialmente significativa nesse contexto. Mais do que uma parceria institucional, ela simboliza uma tentativa concreta de construir pontes de compreensão entre universos culturais frequentemente separados por estereótipos, desconfianças e narrativas simplificadoras. O acesso proporcionado por essa colaboração fortalece o caráter investigativo da obra e amplia sua capacidade de oferecer um retrato mais abrangente da realidade chinesa.

    A discussão sobre inteligência artificial adquire relevância especial. Trata-se de um dos temas mais importantes do século XXI, capaz de influenciar mercados de trabalho, sistemas educacionais, estruturas produtivas e até mesmo concepções de liberdade individual. Ao investigar a maneira como a China se posiciona nesse campo, o filme oferece ao público uma oportunidade de refletir sobre desafios que ultrapassam fronteiras nacionais.

    Há, ainda, uma contribuição particularmente importante: o documentário ajuda a combater visões caricaturais sobre a sociedade chinesa. Durante muito tempo, boa parte do debate ocidental oscilou entre a admiração acrítica e a desconfiança absoluta. Nenhuma dessas posturas favorece a compreensão. Conhecer uma sociedade exige observar suas contradições, suas conquistas e seus dilemas.

    Nesse sentido, a obra amplia horizontes intelectuais e incentiva um olhar mais sofisticado sobre o cenário internacional.

    Considerados em conjunto, os três documentários revelam uma característica rara: a disposição para atravessar fronteiras geográficas e ideológicas sem abandonar o compromisso com a investigação. Cuba, Argentina e China são apresentadas não como símbolos destinados a confirmar crenças prévias, mas como realidades complexas que desafiam interpretações simplistas.

    Essa escolha possui enorme valor cultural. Em um período histórico marcado pela formação de bolhas informacionais, iniciativas que promovem contato direto com diferentes experiências nacionais desempenham função quase pedagógica. Elas estimulam a curiosidade, ampliam repertórios e fortalecem a capacidade crítica dos espectadores.

    Também merece destaque a arquitetura coletiva do projeto. A ideia original concebida por Eduardo Moreira, sua presença permanente como entrevistador e investigador de campo, a direção cuidadosa de Juliana Baroni, a contribuição de Fabián Restivo no capítulo argentino e o trabalho de produção do Instituto Conhecimento Liberta demonstram como o documentário pode funcionar como uma verdadeira construção colaborativa de conhecimento.

    Democracias saudáveis dependem de cidadãos capazes de analisar informações, confrontar argumentos e compreender contextos. Documentários que incentivam esse exercício contribuem para a formação de uma esfera pública mais qualificada.

    Não se trata de concordar integralmente com todas as conclusões sugeridas pelas obras. O verdadeiro mérito de um documentário relevante não está em eliminar o debate, mas em enriquecê-lo. Sua função não é fornecer verdades definitivas, e sim oferecer elementos que permitam interpretações mais informadas.

    Talvez seja justamente essa a principal contribuição da trilogia. Em vez de reforçar certezas confortáveis, ela convida o espectador a realizar uma viagem intelectual. Cuba, Argentina e China aparecem como espelhos através dos quais podemos refletir não apenas sobre esses países, mas também sobre nossas próprias concepções de desenvolvimento, liberdade, justiça social, tecnologia e poder.

    Num mundo saturado de opiniões instantâneas, essa disposição para investigar, escutar e compreender constitui um gesto de rara importância. E é exatamente por isso que esses documentários merecem atenção. Não apenas pelo que mostram, mas pelo tipo de olhar que ajudam a construir: um olhar mais atento à complexidade humana e menos disposto a aceitar explicações simplificadoras para os grandes desafios do nosso tempo. Ao reunir investigação jornalística, experiência de campo, cooperação internacional e reflexão crítica, a trilogia produzida pelo ICL consolida-se como uma das iniciativas documentais mais relevantes do período recente, contribuindo de maneira efetiva para ampliar o horizonte das discussões públicas sobre política, economia, sociedade e desenvolvimento no século XXI.

  • As breguices de Donald Trump

    Donald J. Trump no UFC Freedom 250, 14 de junho de 2026 | Foto oficial da Casa Branca por Andrea Hanks

    Por Cristiano Goldschmidt

    Há algo de profundamente revelador no fato de Donald Trump desejar celebrar seus oitenta anos e os duzentos e cinquenta anos da independência dos Estados Unidos por meio de uma luta de UFC na Casa Branca. Não se trata apenas de uma escolha excêntrica. Tampouco de uma simples estratégia de comunicação voltada ao entretenimento. O episódio adquire significado mais amplo quando observado como sintoma de uma época na qual o espetáculo substitui o símbolo, a exibição ocupa o lugar da reflexão e a política se converte em uma extensão da indústria do entretenimento.

    A Casa Branca não é apenas uma residência oficial. Ela constitui um espaço carregado de densidade histórica, um cenário que sintetiza valores republicanos, conflitos democráticos, decisões de alcance planetário e a memória institucional de uma das nações mais influentes do mundo moderno. Por isso, transformá-la em palco para um evento de combate televisionado significa deslocar o centro de gravidade da política para a lógica do show. O gesto possui um caráter quase alegórico: a substituição da palavra pelo golpe, da deliberação pela excitação, do pensamento pela descarga emocional instantânea.

    Naturalmente, não há nada de condenável no UFC enquanto prática esportiva. O problema reside no símbolo escolhido. Cada sociedade celebra aquilo que considera digno de reverência. Quando uma nação decide homenagear sua própria trajetória histórica por meio de um espetáculo de combate, é inevitável perguntar se o objetivo da celebração é recordar ideias, princípios e valores ou simplesmente produzir imagens impactantes destinadas ao consumo imediato.

    Talvez seja justamente por isso que a iniciativa pareça tão coerente com a trajetória pública de Trump. Ao longo de décadas, sua figura foi construída menos como a de um estadista e mais como a de um personagem excêntrico, frequentemente questionado por seus comportamentos públicos e por suas decisões muitas vezes arbitrárias. Sua linguagem sempre privilegiou a simplificação extrema dos problemas, a teatralização dos conflitos e a construção de inimigos. O debate racional cede espaço à provocação. A argumentação é substituída pelo slogan. A complexidade desaparece sob o peso da performance.

    A breguice, entretanto, não deve ser entendida apenas como uma questão estética. Ela possui uma dimensão filosófica mais profunda. O brega nasce quando a aparência se emancipa completamente da substância, quando o valor passa a ser medido pela capacidade de produzir impacto imediato, quando a visibilidade deixa de ser consequência do mérito e se transforma em seu substituto. Nesse sentido, a breguice é uma forma de empobrecimento simbólico: um estado cultural no qual tudo precisa ser amplificado, exagerado e espetacularizado para adquirir significado.

    Sob essa perspectiva, Donald Trump talvez seja uma das figuras mais emblemáticas produzidas pela cultura contemporânea. Sua trajetória pública sempre esteve associada à ostentação sem sutileza, à exibição da riqueza como espetáculo e à construção permanente de uma persona que parece incapaz de distinguir reconhecimento de notoriedade. Os interiores excessivamente dourados de suas propriedades, a obsessão por marcas de luxo ostensivas, a necessidade recorrente de exaltar sua suposta genialidade, a fixação quase caricatural pelo tamanho das multidões presentes em seus eventos e o uso constante de superlativos para definir a si mesmo revelam uma personalidade cuja relação com o poder passa inevitavelmente pela encenação.

    Não por acaso, mesmo antes da política, Trump já se apresentava como uma espécie de personagem. Sua entrada definitiva na política apenas transferiu para as instituições democráticas os mecanismos narrativos que haviam sido aperfeiçoados durante décadas no universo dos negócios, da televisão e da cultura das celebridades. O governante tornou-se celebridade; a celebridade tornou-se governante. E a política passou a ser conduzida segundo os critérios do entretenimento.

    Não faltam exemplos dessa lógica. Desde a transformação de comícios em eventos de culto à personalidade até a obsessão pública pelo tamanho das multidões que compareciam a seus atos; desde a adoção sistemática de apelidos depreciativos para adversários políticos até a necessidade constante de ocupar o centro das atenções; desde a tentativa de promover grandes desfiles militares inspirados em demonstrações de força até a conversão de praticamente qualquer debate institucional em uma disputa pessoal. Em todos esses casos, percebe-se a mesma tendência: a substituição da política enquanto espaço de deliberação pela política enquanto espetáculo.

    Essa transformação, contudo, não pode ser compreendida isoladamente. Ela encontra raízes em características mais amplas da cultura norte-americana contemporânea. Embora os Estados Unidos tenham produzido alguns dos maiores cientistas, escritores, filósofos e pesquisadores da modernidade, também desenvolveram uma poderosa tradição popular de anti-intelectualismo, amplamente estudada por historiadores e sociólogos. Em determinados segmentos da sociedade, o conhecimento especializado passou a ser visto com desconfiança, a complexidade intelectual passou a ser confundida com elitismo e a ignorância, paradoxalmente, começou a ser apresentada como prova de autenticidade.

    O sucesso de Trump não pode ser separado desse contexto. Em uma sociedade onde parcela significativa da população demonstra reduzido interesse por línguas estrangeiras, história mundial, geografia internacional ou experiências culturais externas ao universo norte-americano, discursos simplificadores encontram terreno fértil. O excepcionalismo americano — a crença de que os Estados Unidos ocupam uma posição singular na história humana — frequentemente produz uma curiosa combinação de autoconfiança e provincianismo cultural. O mundo inteiro é observado, mas nem sempre compreendido. As demais culturas são consumidas como espetáculo, mas raramente estudadas em profundidade.

    É importante ressaltar que tal diagnóstico não se aplica indistintamente à totalidade da sociedade estadunidense. Contudo, ele ajuda a compreender por que determinadas narrativas encontram tanta receptividade. Quando o horizonte intelectual se estreita, cresce a atração por respostas fáceis para problemas complexos. Quando a reflexão é substituída pela emoção, líderes performáticos adquirem enorme vantagem política. Quando a identidade nacional passa a ser celebrada mais como afirmação de superioridade do que como responsabilidade histórica, a retórica grandiloquente torna-se mais eficaz do que a argumentação racional.

    Trump surgiu precisamente nesse ambiente. Em vez de desafiar essas tendências, transformou-as em identidade política. Sua retórica nacionalista, a linguagem simplificada, a exaltação permanente da força, a admiração por demonstrações ostensivas de poder e a dificuldade em lidar com nuances refletem impulsos que já estavam presentes no imaginário político de parte da sociedade norte-americana. Nesse sentido, ele funciona menos como uma anomalia e mais como um espelho ampliado.

    A relação do trumpismo com a cultura armamentista oferece um exemplo particularmente eloquente. Ao longo de décadas, setores importantes da política estadunidense passaram a tratar armas não apenas como instrumentos ou direitos constitucionais, mas como símbolos identitários. O debate sobre segurança pública frequentemente foi substituído por uma retórica emocional na qual a demonstração de força assume dimensão quase ritual. Nessa lógica, a política deixa de ser compreendida como negociação democrática e aproxima-se cada vez mais da exibição permanente de poder.

    A própria fascinação de Trump por desfiles militares, armamentos, demonstrações públicas de força e eventos concebidos para exibir poder físico revela uma concepção bastante rudimentar de grandeza nacional. Civilizações verdadeiramente maduras costumam celebrar seus escritores, seus cientistas, seus filósofos, suas conquistas culturais e seus avanços civilizatórios. Já sociedades dominadas pela lógica do espetáculo tendem a confundir força com grandeza e visibilidade com relevância histórica.

    Talvez seja justamente por isso que a ideia de uma luta de UFC na Casa Branca pareça tão simbolicamente adequada ao trumpismo. Não porque o esporte possua qualquer indignidade intrínseca, mas porque ele oferece a metáfora perfeita para uma visão de mundo que reduz conflitos complexos a confrontos binários, transforma adversários em inimigos e substitui a argumentação pelo impacto emocional.

    O aspecto verdadeiramente constrangedor da proposta não está no UFC. Está no fato de que uma data destinada a rememorar debates iluministas sobre liberdade, representação política, cidadania e limites do poder estatal seja convertida em espetáculo midiático concebido para gerar manchetes, audiência e excitação coletiva. A independência dos Estados Unidos foi resultado de debates filosóficos, formulações jurídicas e reflexões profundas sobre soberania e direitos. Entre seus protagonistas encontravam-se homens profundamente influenciados pelo pensamento iluminista europeu. Há algo de ironicamente melancólico em imaginar essa herança intelectual sendo homenageada por meio de um evento cuja principal finalidade é produzir impacto visual.

    Talvez a proposta diga menos sobre a independência dos Estados Unidos do que sobre o estado atual de sua imaginação política. Talvez revele uma época em que a visibilidade triunfa sobre o significado. E talvez, sobretudo, exponha a transformação do poder em entretenimento, fenômeno que encontra em Donald Trump não sua causa exclusiva, mas sua representação mais exuberante, mais caricatural e mais ostensivamente brega.

    Porque a verdadeira breguice não consiste em um excesso de cores, em um gosto duvidoso pela decoração dourada ou em declarações espalhafatosas. A verdadeira breguice consiste em não perceber a diferença entre notoriedade e grandeza, entre espetáculo e história, entre celebridade e estadista. E poucas figuras públicas contemporâneas encarnam essa confusão com tanta intensidade quanto Donald Trump.

  • Bets entram rachando na Copa do Mundo

    RAFAEL GUIMARAENS

    Enquanto brasileiros responsáveis tentam dar um freio na atuação dos sites de apostas e seus efeitos nefastos no endividamento das famílias, as bets entram rachando na Copa do Mundo, escalando craques da mídia como Neymar e Vini Jr, além de ex-jogadores, comentaristas e oportunistas em geral. Sem a menor cerimônia vendem a ilusão do dinheiro fácil, na lógica do “apostou, ganhou”.

    Patrocinam a cobertura de todos os canais, alguns chegam perto de colocar os sites como benemerentes prestadores de serviço. “A bet dos brasileiros”, diz Galvão Bueno sobre o site que o contratou, com aquela empáfia de credibilidade que a Globo lhe deu, como se os sites fossem patrimônio do povo e não a sua ruína.

    Algumas emissoras, como a CazéTV, chegam a sugerir temas de apostas durante a transmissão. As bets tiram dinheiro do comércio, do entretenimento, da cultura, ou seja, da qualidade de vida dos brasileiros. Produzem angústia, depressão, rupturas na estrutura familiar e já existem casos de suicídio por conta de dívidas que se tornam impagáveis.

    Estima-se de pelo menos 11% da população esteja irremediavelmente viciada em apostas, um processo perverso no qual o cidadão aposta, por exemplo, R$ 5 mil, e, lá pelas tantas, se tiver sorte, ganha R$ 2 mil e se acha vencedor – e vai usar o prêmio para mais apostas. Todo o dia, um 7 a 1.

  • Quando a diversidade impulsiona o progresso da civilização

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Junho tornou-se, em diversas partes do mundo, o mês dedicado ao Orgulho LGBTQIAPN+. Muito além de uma celebração identitária, trata-se de um período de reflexão histórica sobre liberdade, cidadania e dignidade humana. É também uma oportunidade para recordar algo frequentemente negligenciado por discursos preconceituosos: pessoas LGBTQIAPN+ não ocupam uma posição periférica na construção da civilização. Ao contrário, participaram ativamente de algumas das mais importantes revoluções intelectuais, científicas, tecnológicas, artísticas e filosóficas da história moderna.

    Quando observamos o desenvolvimento do conhecimento humano, percebemos que inúmeras descobertas que moldam a vida contemporânea tiveram a contribuição direta de homens e mulheres cuja orientação sexual ou identidade de gênero os colocavam à margem das convenções de suas épocas. Muitos deles precisaram ocultar quem eram para que suas ideias fossem levadas a sério; outros enfrentaram perseguições institucionais, humilhações públicas ou mesmo a destruição de suas vidas.

    Talvez nenhum exemplo seja mais emblemático do que o de Alan Turing (1912–1954). Matemático brilhante e pioneiro da computação moderna, ele foi uma das figuras centrais dos esforços britânicos para decifrar mensagens criptografadas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial. Seu trabalho contribuiu significativamente para abreviar o conflito e salvar milhares de vidas. Além disso, sua formulação do conceito de máquina de Turing universal estabeleceu as bases teóricas da computação moderna. Ainda assim, o mesmo Estado britânico que se beneficiou de seu gênio o condenou por ser homossexual. Submetido à chamada castração química e devastado pela perseguição institucional, Turing morreu em circunstâncias trágicas em 1954. Décadas depois, o mundo reconheceria que um dos pais da era digital foi vítima da intolerância.

    A história de Turing não constitui uma exceção. Em diferentes áreas do conhecimento, homens e mulheres LGBTQIAPN+ produziram contribuições decisivas para o avanço científico. A física e astronauta Sally Ride (1951-2012), primeira norte-americana a viajar ao espaço, participou de missões que contribuíram para o avanço das atividades espaciais tripuladas e da pesquisa científica em órbita terrestre. Já Lynn Conway (1938-2024) revolucionou o projeto de circuitos integrados ao desenvolver, com Carver Mead, metodologias de design VLSI (Very Large-Scale Integration) que se tornaram fundamentais para a indústria de semicondutores e para a evolução dos microprocessadores modernos. Suas trajetórias demonstram que, mesmo diante de preconceitos e barreiras institucionais, pessoas LGBTQIAPN+ estiveram na linha de frente de transformações tecnológicas que redefiniram a vida contemporânea.

    Nas ciências humanas, a presença LGBTQIAPN+ é igualmente marcante. O filósofo Michel Foucault (1926 -1984) transformou os estudos sobre poder, instituições e subjetividade. Suas análises continuam a influenciar pesquisas em sociologia, história, antropologia e ciência política, redefinindo o modo como se compreendem as relações entre saber e dominação nas sociedades modernas. O escritor James Baldwin (1924-1987) tornou-se uma das vozes mais influentes do século XX ao refletir, com notável precisão literária e vigor ético, sobre identidade, exclusão racial e direitos civis, articulando experiência pessoal e crítica social em uma obra de alcance universal. Já o médico e sexólogo judeu-alemão Magnus Hirschfeld (1868-1935) foi um dos pioneiros dos estudos científicos sobre sexualidade e identidade de gênero, tendo fundado o Instituto de Sexologia em Berlim e enfrentado diretamente as estruturas repressivas que buscavam criminalizar e patologizar a diversidade sexual, deixando um legado fundamental para a compreensão moderna das identidades LGBTQIAPN+.

    Magnus Hirschfeld, à direita, com Karl Giese, 1934 | Foto do arquivo da Magnus-Hirschfeld-Gesellschaft

    A literatura, por sua vez, oferece exemplos igualmente eloquentes. Oscar Wilde (1854-1900) permanece como uma das vozes mais refinadas da língua inglesa. Sua condenação por “indecência grave” no final do século XIX tornou-se um símbolo da violência institucional contra pessoas homossexuais. Entretanto, nem a prisão nem a tentativa de destruição de sua reputação conseguiram apagar a relevância de sua produção intelectual. Hoje, Wilde é reconhecido como um dos maiores escritores da modernidade.

    A contribuição LGBTQIAPN+ para o avanço humano não se limita a indivíduos isolados. Trata-se de uma participação estrutural na construção do conhecimento. Laboratórios, universidades, centros de pesquisa, movimentos artísticos e instituições culturais foram enriquecidos pela presença de pessoas que, apesar de enfrentarem discriminação, produziram descobertas, teorias e obras fundamentais. Isso revela uma verdade simples: talento, criatividade e inteligência não obedecem às fronteiras arbitrárias impostas pelo preconceito.

    É precisamente por essa razão que o mês do Orgulho não deve ser interpretado como uma celebração de privilégios. O orgulho surge como resposta histórica à vergonha imposta. Durante séculos, milhões de pessoas foram ensinadas a esconder seus afetos, seus corpos e suas identidades para evitar violência, exclusão social ou punições legais. O orgulho representa a recusa dessa lógica. Não se trata da exaltação de uma característica individual, mas da afirmação do direito de existir sem medo.

    Essa reflexão torna-se ainda mais urgente quando observamos a realidade contemporânea. Em diversos países, relações entre pessoas do mesmo sexo continuam sendo criminalizadas. Em alguns casos, a legislação prevê penas de prisão; em outros, punições como tortura e até mesmo a pena de morte. Existem sociedades nas quais cidadãos LGBTQIAPN+ vivem sob permanente ameaça estatal, impossibilitados de expressar sua identidade ou de constituir relações afetivas reconhecidas juridicamente.

    As consequências dessa exclusão são profundas. Não se trata apenas da negação de direitos civis, mas da destruição de potenciais humanos. Quantos cientistas deixaram de desenvolver suas pesquisas? Quantos artistas abandonaram suas vocações? Quantos intelectuais foram silenciados antes de compartilhar suas ideias? A intolerância não produz apenas sofrimento individual; ela empobrece coletivamente as sociedades que a praticam.

    Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição paradoxal. Por um lado, o país acumulou avanços significativos nas últimas décadas. O reconhecimento da união estável homoafetiva, a equiparação da homofobia ao crime de racismo em determinadas circunstâncias e a ampliação do debate público sobre diversidade representam conquistas relevantes. Por outro lado, o Brasil ainda convive com elevados índices de violência contra pessoas LGBTQIAPN+, além da persistência de discursos discriminatórios que frequentemente buscam transformar direitos fundamentais em objeto de disputa ideológica.

    A história demonstra que nenhum avanço democrático é irreversível. Direitos podem ser ampliados, mas também podem ser restringidos. Instituições podem proteger minorias, mas também podem falhar em sua missão quando submetidas a pressões autoritárias. Por isso, a vigilância cidadã permanece indispensável. Defender os direitos da população LGBTQIAPN+ não significa privilegiar um grupo específico; significa preservar princípios que sustentam qualquer democracia digna desse nome: igualdade perante a lei, liberdade individual e respeito à dignidade humana.

    O mês de junho nos convida, portanto, a um exercício de memória. Recordar Alan Turing, Oscar Wilde, Michel Foucault, James Baldwin, Magnus Hirschfeld e tantas outras personalidades LGBTQIAPN+ não é apenas homenagear indivíduos notáveis. É reconhecer que a história do conhecimento humano também é a história da diversidade humana. Quando uma sociedade exclui pessoas por sua orientação sexual ou identidade de gênero, ela não apenas comete uma injustiça moral: ela limita seu próprio horizonte intelectual.

    O Orgulho LGBTQIAPN+ é, em última análise, uma celebração da pluralidade que tornou possível o progresso humano. As grandes descobertas científicas, os avanços tecnológicos, as transformações culturais e os refinamentos filosóficos que moldaram o mundo contemporâneo não nasceram da uniformidade, mas da coexistência de experiências distintas. Defender essa diversidade não é uma concessão à modernidade; é um compromisso com a própria ideia de civilização.

    Em um tempo marcado por polarizações e discursos excludentes, talvez a lição mais importante de junho seja justamente esta: sociedades florescem quando permitem que todos os seus membros contribuam plenamente com seus talentos. O preconceito constrói muros; a liberdade constrói conhecimento. E, como a história demonstra de forma inequívoca, o conhecimento sempre foi uma das mais poderosas ferramentas de emancipação humana.

  • Grace Gianoukas e a coerência rara de uma trajetória artística

    Ela domina um atributo que distingue os intérpretes mais sofisticados: a capacidade de produzir humor sem subestimar a inteligência do público

    Grace Gianoukas na cerimônia de entrega dos troféus do Prêmio APCA no Teatro Sérgio Cardoso, São Paulo, em 2024 | Foto Adriano Escanhuela/Divulgação

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Há artistas cuja importância pode ser medida pela quantidade de trabalhos realizados. Outros podem ser avaliados pelo sucesso alcançado ou pelo reconhecimento institucional acumulado ao longo dos anos. Existem, porém, casos mais raros: aqueles cuja relevância transcende métricas convencionais e se estabelece na coerência entre pensamento, criação e presença pública. A trajetória de Grace Gianoukas pertence precisamente a essa categoria.

    Em uma época marcada pela velocidade das celebridades instantâneas, pela lógica da viralização e pela transformação da cultura em mercadoria de consumo acelerado, Grace construiu uma carreira que desafia a superficialidade. Sua permanência no imaginário artístico brasileiro não decorre de estratégias de autopromoção nem de adesões oportunistas às tendências do momento, mas da consistência de um trabalho desenvolvido ao longo de décadas, atravessando linguagens, formatos e profundas transformações do cenário cultural brasileiro.

    Há uma observação feita por ela que ajuda a compreender não apenas sua visão sobre a arte, mas também a forma como sua própria trajetória pode ser analisada. Ao comentar, em uma entrevista publicada no Instagram, o relato da atriz Isabel Teixeira acerca das críticas particularmente severas que lhe foram dirigidas por Barbara Heliodora, Grace afirmou não acreditar em elogios excessivos nem em descredibilizações excessivas.

    A frase encerra uma percepção sofisticada sobre a natureza do julgamento artístico. Grace rejeita tanto a idolatria acrítica quanto a destruição simbólica produzida por avaliações desproporcionais. Trata-se de uma posição intelectualmente madura em um contexto histórico no qual o debate cultural frequentemente oscila entre a exaltação absoluta e a condenação sumária, como se a complexidade humana pudesse ser reduzida a categorias simplificadoras.

    Curiosamente, ao observar a trajetória de Grace Gianoukas, emerge uma espécie de paradoxo. Se a atriz desconfia dos elogios excessivos, também é verdade que sua carreira oferece pouquíssimos elementos que sustentem tentativas sérias de descredibilização. Não porque seja uma artista imune a falhas — condição inexistente na experiência humana —, mas porque sua trajetória revela uma consistência profissional tão notável que se torna difícil encontrar episódios capazes de comprometer a qualidade de seu trabalho ou a integridade de sua atuação artística.

    Grace Gianoukas, 2024 | Foto de Marcos Morelli / Pref. Rio Preto

    Inteligência cênica

    Uma das características mais marcantes de Grace Gianoukas é sua inteligência cênica.

    Nem todo grande ator é necessariamente um intérprete reflexivo. A história das artes cênicas está repleta de artistas extraordinários cuja força criativa se manifesta sobretudo pela intuição, pela sensibilidade ou pela potência do instinto. Grace Gianoukas, entretanto, parece pertencer a uma linhagem mais rara: a dos intérpretes que aliam essas qualidades a uma consciência crítica sobre os mecanismos da representação, demonstrando compreender não apenas como atuar, mas também o significado cultural e humano do próprio ato de interpretar.

    Essa característica se manifesta tanto em suas escolhas profissionais quanto na forma como constrói personagens. Em cena, raramente há desperdício de energia interpretativa. Seu trabalho costuma operar em uma região delicada de equilíbrio entre técnica e espontaneidade, entre elaboração intelectual e verdade emocional.

    Ela domina um atributo que distingue os intérpretes mais sofisticados: a capacidade de produzir humor sem subestimar a inteligência do público.
    Essa qualidade tornou-se particularmente evidente em sua trajetória ligada à comédia. Durante décadas, parte da crítica cultural brasileira manteve uma visão hierárquica que colocava o drama em posição superior ao humor. Tal perspectiva ignorava que a comédia exige precisão de tempo, domínio corporal, capacidade de observação social e uma compreensão refinada das contradições humanas.

    Grace sempre pareceu compreender isso de forma intuitiva e profunda.
    Não por acaso, uma das experiências mais significativas de sua carreira esteve ligada ao fenômeno Terça Insana (2001), que ficou anos em cartaz. Mais do que um projeto de humor de enorme repercussão popular, o espetáculo representou um momento importante da comédia brasileira contemporânea ao demonstrar que o riso poderia ser simultaneamente popular e intelectualmente provocador. A participação de Grace nesse contexto evidencia sua capacidade de construir figuras cômicas que ultrapassavam a simples caricatura. Havia em suas criações uma observação aguda dos comportamentos sociais, dos mecanismos de poder e das contradições da vida cotidiana. O humor surgia não como fuga da realidade, mas como instrumento privilegiado para compreendê-la.

    Seu humor nunca foi apenas mecanismo de entretenimento. Em suas interpretações frequentemente existe uma camada de observação crítica sobre os comportamentos sociais, as fragilidades afetivas, os jogos de poder e os pequenos absurdos que estruturam a convivência cotidiana. É precisamente essa dimensão reflexiva que confere densidade a personagens que, nas mãos de intérpretes menos talentosos, poderiam se limitar à caricatura.

    O teatro como escola permanente

    Uma análise consistente da trajetória de Grace Gianoukas não pode ignorar a importância fundamental do teatro em sua formação artística. Antes de ser reconhecida por amplos públicos em outras mídias, foi o palco que lhe ofereceu o laboratório mais exigente para o desenvolvimento de sua linguagem interpretativa.

    O teatro impõe ao ator um regime de presença que nenhuma outra linguagem reproduz integralmente. Diante do público, não há cortes, edições ou recursos de correção posteriores. Existe apenas a verdade do instante. É nesse território de risco permanente que muitos artistas desenvolvem sua disciplina, sua escuta e sua capacidade de construir personagens complexos. Grace pertence claramente a essa tradição.

    A experiência teatral parece ter lhe proporcionado algo que permanece visível em toda a sua produção artística: a consciência de que interpretar não significa apenas representar emoções, mas compreender estruturas humanas. Seu domínio do ritmo, sua precisão gestual e sua capacidade de alternar intensidade e contenção revelam uma artista moldada por anos de convivência com a exigência técnica e intelectual do palco.

    Essa relação profunda com o teatro também se manifesta em trabalhos mais recentes, como em Nasci pra Ser Dercy (2023). Enfrentar artisticamente uma figura da dimensão histórica de Dercy Gonçalves exige muito mais do que reproduzir trejeitos ou imitar uma personalidade conhecida. Exige compreender o significado cultural de uma artista que transformou a irreverência em linguagem e que frequentemente desafiou convenções morais, sociais e estéticas de seu tempo. O mérito de Grace esteve justamente em buscar a complexidade humana por trás do mito, revelando uma intérprete interessada não apenas em representar personagens, mas em dialogar com legados artísticos que ajudaram a moldar a cultura brasileira.

    Mais do que uma etapa de formação, o teatro tornou-se uma espécie de fundamento permanente de sua identidade artística. Mesmo quando atua em outros formatos, percebe-se a presença dessa escola de rigor, na qual o trabalho do ator não se limita à expressão individual, mas se articula com uma visão mais ampla da cena, da dramaturgia e da experiência estética compartilhada com o público.

    O raro talento da versatilidade

    Outro aspecto notável de sua trajetória é a versatilidade.
    O termo costuma ser utilizado de maneira tão indiscriminada que muitas vezes perde significado. No caso de Grace Gianoukas, entretanto, ele descreve uma capacidade efetiva de transitar entre registros distintos sem perder identidade artística.

    Ela consegue ser expansiva sem cair na caricatura. Pode ser intensa sem resvalar para o melodrama. Consegue explorar o grotesco sem abandonar a humanidade das personagens.

    Tal característica revela uma compreensão profunda de um dos princípios fundamentais da interpretação: personagens não são conceitos abstratos, mas seres humanos complexos, contraditórios e frequentemente ambíguos.

    Em suas atuações existe sempre uma percepção aguda da dimensão humana por trás dos gestos, das falas e dos conflitos apresentados em cena.

    Essa versatilidade tornou-se particularmente visível em sua passagem pela televisão. Em Haja Coração (2016), por exemplo, sua Teodora Abdala demonstrava como a atriz domina um tipo de comicidade difícil de executar: a da vilania bem-humorada. Teodora poderia facilmente ter se transformado em uma figura unidimensional, construída apenas a partir do exagero. No entanto, Grace lhe conferiu ritmo, inteligência e uma presença cênica que transformava cada aparição em um exercício de precisão humorística. A personagem não funcionava apenas porque era engraçada, mas porque era interpretada com absoluta consciência dos mecanismos da comédia.

    Algo semelhante ocorreu com Petúlia, em Orgulho e Paixão (2018). Em uma narrativa marcada por referências ao universo literário clássico, Grace construiu uma personagem que transitava entre o humor e a sensibilidade, evitando simplificações. O resultado foi uma figura que conquistou o público justamente porque carregava humanidade suficiente para não se reduzir a um simples alívio cômico.

    Já em Salve-se Quem Puder (2020), sua Ermelinda revelou outra dimensão de seu repertório. A personagem possuía uma doçura afetiva que permitia à atriz explorar registros mais acolhedores, demonstrando que sua força interpretativa não depende exclusivamente da comicidade expansiva. Havia ali uma delicadeza emocional que evidenciava a amplitude de seus recursos como intérprete.

    Essa capacidade ajuda a explicar por que tantas de suas personagens permanecem na memória do público. Não se trata apenas de performances tecnicamente eficientes, mas de construções que estabelecem vínculos afetivos e intelectuais duradouros.

    Uma carreira construída sem atalhos

    Talvez uma das razões pelas quais seja tão difícil encontrar elementos capazes de comprometer sua reputação artística esteja justamente na forma como sua carreira foi construída.

    Grace Gianoukas pertence a uma geração que precisou desenvolver sua trajetória antes da consolidação da cultura digital e das redes sociais. O reconhecimento dependia fundamentalmente da qualidade do trabalho realizado e da capacidade de permanecer relevante ao longo do tempo.
    Sua carreira foi edificada em um ambiente profissional que exigia estudo, persistência, disciplina e reinvenção constante.

    Por isso, quando se observa sua produção artística em perspectiva histórica, percebe-se uma continuidade rara. Não há a sensação de uma figura impulsionada por uma tendência passageira ou por mecanismos efêmeros de visibilidade. Existe, ao contrário, o percurso de uma artista que consolidou sua presença gradualmente, conquistando espaço por mérito, competência e dedicação.

    A presença de Grace em produções de diferentes épocas ajuda a ilustrar essa permanência. Sua participação como Jocasta em Êta Mundo Melhor (2025) demonstra que continua sendo uma intérprete capaz de dialogar com novas gerações de espectadores sem perder as características que definiram sua identidade artística. Em um meio frequentemente obcecado pela novidade, sua permanência evidencia algo mais importante do que a mera longevidade profissional: a capacidade de continuar relevante porque seu talento permanece reconhecível e necessário.

    É precisamente esse aspecto que torna difícil qualquer tentativa séria de reduzir sua importância. Críticas pontuais a trabalhos específicos podem existir — e devem existir, pois fazem parte da dinâmica saudável da arte. Contudo, uma análise honesta da totalidade de sua trajetória encontra muito mais evidências de excelência do que argumentos capazes de enfraquecer sua relevância.

    A permanência como valor cultural

    Vivemos um período histórico em que a longevidade artística se tornou um fenômeno cada vez mais raro. A cultura contemporânea frequentemente privilegia a novidade em detrimento da permanência.

    Nesse contexto, trajetórias como a de Grace Gianoukas adquirem um significado que ultrapassa o âmbito individual. Elas demonstram que o verdadeiro valor artístico não depende apenas da capacidade de atrair atenção em determinado momento, mas da habilidade de permanecer intelectualmente relevante através das mudanças de época.

    Seu percurso evidencia que a arte pode ser simultaneamente popular e sofisticada, acessível e profunda, divertida e reflexiva.Talvez seja essa combinação que explique o respeito conquistado junto a colegas, críticos e público ao longo dos anos.

    Ao final, a frase sobre elogios excessivos e descredibilizações excessivas retorna como uma espécie de chave interpretativa. Grace Gianoukas parece compreender que a arte floresce melhor nos territórios da complexidade, longe dos extremos simplificadores.

    Entretanto, existe uma ironia inevitável nesse raciocínio. Se o exagero elogioso deve sempre ser evitado, a análise de sua trajetória conduz a uma constatação difícil de ignorar: poucas artistas brasileiras conseguiram construir uma carreira tão consistente, intelectualmente sólida e artisticamente respeitável.

    Talvez justamente por isso seja tão difícil encontrar algo que efetivamente deponha contra sua obra. Não porque esteja acima da crítica, mas porque sua trajetória foi construída sobre fundamentos suficientemente robustos para resistir ao teste mais exigente que existe no campo da cultura: o tempo.

  • Peru, memória e poder: quando as democracias flertam com fantasmas

    CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Por trás de cada eleição existe uma disputa de projetos. Mas existem momentos em que o processo eleitoral transcende a simples escolha entre programas de governo e se transforma em algo mais profundo: um julgamento coletivo da memória histórica de uma nação. O Peru vive um desses momentos.

    A presença recorrente de Keiko Fujimori como protagonista da política peruana obriga o país a revisitar um dos períodos mais controversos de sua história recente. Filha e herdeira política de Alberto Fujimori, presidente que governou o Peru entre 1990 e 2000, ela carrega consigo não apenas um sobrenome, mas um legado que continua dividindo profundamente a sociedade peruana. A própria persistência desse debate revela uma questão que ultrapassa as fronteiras do Peru e alcança qualquer democracia contemporânea: o que acontece quando sociedades que sofreram experiências autoritárias passam a considerar, novamente, a entrega do poder a representantes diretos dos mesmos grupos políticos que protagonizaram esses processos?

    Keiko Fujimori| / Foto reproduzida de seu Facebook

    A década de 1990 permanece como uma das mais complexas da história peruana. Alberto Fujimori chegou ao poder em meio a uma grave crise econômica e a uma intensa escalada da violência promovida por grupos insurgentes. Seus defensores costumam destacar o combate ao terrorismo e a estabilização econômica. Seus críticos, entretanto, lembram que tais resultados vieram acompanhados de práticas incompatíveis com os princípios fundamentais de uma democracia constitucional.

    O episódio mais emblemático ocorreu em 1992, quando Fujimori promoveu o chamado autogolpe, dissolvendo o Congresso e intervindo no Poder Judiciário para concentrar poderes em suas mãos. O gesto representou uma ruptura institucional profunda e demonstrou como o discurso da eficiência pode servir de justificativa para a erosão gradual das garantias democráticas. Posteriormente, vieram à tona escândalos de corrupção, esquemas de espionagem política e graves violações de direitos humanos, que culminaram em condenações judiciais e consolidaram a imagem internacional do regime como uma experiência autoritária.

    Contudo, a grande questão não reside apenas no passado. Ela reside na forma como esse passado continua sendo mobilizado politicamente no presente.

    Se existe um aspecto particularmente perturbador na trajetória política de Keiko Fujimori, ele reside no fato de que sua carreira jamais conseguiu desvincular-se integralmente da herança histórica que a tornou conhecida nacionalmente. Ao contrário de lideranças que procuram construir uma identidade própria e autônoma, sua principal força política sempre esteve associada à preservação, à reinterpretação e, em certa medida, à reabilitação da memória política do pai, Alberto Fujimori. Essa escolha não é apenas simbólica. Ela representa uma disputa permanente pela narrativa histórica do país.

    O problema não está em vínculos familiares. Democracias não operam com critérios hereditários de culpa. Filhos não respondem pelos atos de seus pais. O problema surge quando a herança reivindicada inclui precisamente o fechamento do Congresso, a submissão das instituições aos interesses do Executivo, denúncias de corrupção sistêmica e violações de direitos humanos reconhecidas judicialmente. Nesse contexto, a exaltação do legado fujimorista deixa de ser uma simples estratégia eleitoral e passa a representar um embate sobre os próprios limites éticos da memória política.

    Mais do que uma candidatura individual, Keiko Fujimori tornou-se a expressão contemporânea de um movimento político que, ao longo dos anos, demonstrou dificuldade em realizar uma autocrítica profunda sobre os abusos cometidos durante a década de 1990. A ausência dessa revisão histórica produz uma consequência preocupante: a normalização gradual de práticas autoritárias sob o argumento de que determinados resultados econômicos ou de segurança pública seriam suficientes para compensar os danos provocados à ordem democrática.

    Talvez resida aí uma das maiores fragilidades do fujimorismo como projeto político. Sua narrativa frequentemente convida a sociedade a recordar os supostos êxitos do período, mas se nega a reconhecer e a enfrentar com igual intensidade os custos institucionais que acompanharam esses resultados. Nenhuma democracia madura pode aceitar que a eficiência administrativa funcione como absolvição histórica para a concentração de poder ou para a relativização ou degradação dos direitos fundamentais.

    A experiência histórica demonstra que regimes autoritários raramente se apresentam como autoritários. Em geral, surgem revestidos por promessas de ordem, estabilidade, prosperidade ou combate ao crime. A sedução dessas promessas reside justamente em sua aparente simplicidade. Problemas complexos recebem soluções rápidas; instituições são retratadas como obstáculos; mecanismos de controle passam a ser vistos como entraves à governabilidade. É exatamente nesse ponto que as democracias começam a correr riscos.

    A história política contemporânea mostra que as democracias dificilmente morrem de maneira abrupta. Na maior parte dos casos, elas são corroídas lentamente. O processo começa pela desqualificação das instituições, avança pela concentração gradual de poder e culmina na normalização de práticas que anteriormente seriam consideradas incompatíveis com a vida democrática.

    Por essa razão, a memória histórica desempenha papel central. Não se trata de cultivar ressentimentos ou de transformar o passado em uma prisão permanente. Trata-se de compreender que sociedades maduras precisam ser capazes de reconhecer seus erros para evitar repeti-los.

    O caso peruano não é isolado. Em diversas partes do mundo, famílias associadas a governos autoritários conseguiram preservar influência política por décadas, transformando sobrenomes em patrimônios eleitorais. Trata-se de um fenômeno que deveria provocar reflexão profunda em qualquer sociedade democrática.

    Existe algo de profundamente desconfortável — e até mesmo vergonhoso do ponto de vista histórico — quando nações que sofreram com a concentração de poder, a fragilização institucional e a supressão de direitos passam a aceitar com naturalidade a perpetuação política de grupos familiares diretamente ligados a esses processos. Não se trata de negar direitos políticos a ninguém. Trata-se de questionar o que leva uma sociedade a transformar em herança eleitoral experiências que deveriam servir como advertência histórica.

    Quando descendentes políticos ou familiares de líderes associados a rupturas democráticas permanecem como forças centrais do sistema político durante décadas, evidencia-se uma incapacidade coletiva de renovação. Revela-se a dificuldade de construir novas lideranças, novos consensos e novas referências éticas para a vida pública. Trata-se de um sintoma que não deveria ser motivo de orgulho nacional, mas de inquietação.

    A verdadeira questão não é se Keiko Fujimori reproduzirá – caso eleita – as nefastas práticas do passado de seu pai. A questão mais relevante é outra: por que uma democracia que conheceu os altos custos do autoritarismo continua sendo chamada, repetidamente, a decidir entre alternativas que mantêm viva a sombra desse mesmo passado? Essa pergunta talvez seja mais importante do que qualquer resultado eleitoral, porque diz respeito não apenas ao futuro do Peru, mas à capacidade das democracias contemporâneas de aprender com seus próprios erros.

    No caso peruano, a discussão sobre o fujimorismo permanece viva justamente porque o país ainda busca responder perguntas fundamentais sobre sua identidade democrática. Até que ponto supostos resultados econômicos positivos podem justificar abusos institucionais? É possível separar eficiência administrativa de práticas autoritárias? O combate à criminalidade pode servir como argumento para flexibilizar garantias constitucionais? Essas questões não pertencem apenas ao Peru. Elas atravessam praticamente todas as democracias contemporâneas.

    Mais importante do que o destino eleitoral de qualquer candidatura específica é a capacidade da sociedade de avaliar criticamente os legados políticos que se apresentam diante dela. O verdadeiro risco para uma democracia não está necessariamente em uma pessoa ou em um partido. Está na disposição coletiva de relativizar princípios democráticos em nome de soluções aparentemente simples para problemas complexos.

    Quando isso ocorre, a história deixa de ser uma fonte de aprendizado e passa a ser um ciclo de repetições.

    O Peru encontra-se diante de uma escolha que possui significado muito além de suas fronteiras. Independentemente do resultado eleitoral, o debate em curso recorda uma verdade frequentemente esquecida: democracias não são patrimônios permanentes. Elas exigem vigilância constante, memória ativa e compromisso inegociável com as instituições.

    Uma sociedade pode sobreviver a crises econômicas, escândalos políticos e períodos de instabilidade. O que dificilmente supera sem consequências profundas é a perda da capacidade de distinguir entre a força legítima das instituições e a sedução recorrente dos projetos políticos que prometem concentrar poder em nome da salvação nacional. A história latino-americana está repleta de exemplos desse equívoco. O desafio das novas gerações é garantir que eles permaneçam apenas como história — e jamais voltem a se apresentar como destino. Que este não seja o destino atual do Peru.

  • Mais importante que o OVNI é a lição humana de Mayk Leão

    Mayk Leão em seu sítio, na zona rural de Campo Largo, Paraná. Fotos reproduzidas de suas redes sociais.

     CRISTIANO GOLDSCHMIDT

    Por vezes, a internet produz fenômenos que ultrapassam os limites do entretenimento e se transformam em pequenos espelhos da condição humana. O caso do influenciador paranaense Mayk Leão, morador da zona rural de Campo Largo, é um desses acontecimentos raros que nos convidam a refletir menos sobre aquilo que apareceu no céu e mais sobre aquilo que se revela nas pessoas.

    No dia 31 de maio, milhões de brasileiros acompanharam, quase em tempo real, uma sequência de acontecimentos narrados pelo próprio Mayk em seus stories. Desde as primeiras horas da manhã, ele relatava sons incomuns vindos dos arredores de sua casa, comportamentos estranhos dos animais sob seus cuidados e uma sensação crescente de inquietação. Ao longo do dia, os relatos foram se acumulando de maneira espontânea, sem a estrutura típica das narrativas planejadas para viralizar. À noite, veio o episódio que transformaria sua vida: a filmagem de luzes que pairavam e se movimentavam nas proximidades de seu sítio, fenômeno que ele próprio descreveu como um possível objeto voador não identificado.

    Naturalmente, o debate explodiu. Céticos, curiosos, ufólogos, cientistas, humoristas e criadores de conteúdo passaram a discutir o que, afinal, aparecia nas imagens. As opiniões de dividiram entre hipóteses que variavam de drones a fenômenos atmosféricos, de ilusões ópticas a possibilidades mais extraordinárias. O vídeo viralizou, alcançou milhões de visualizações e fez com que o perfil de Mayk saltasse de pouco mais de 40 mil seguidores para dois milhões e meio em poucos dias. O fenômeno digital foi quase tão impressionante quanto o fenômeno que ele dizia ter presenciado.

    Mas há uma questão que, para mim, parece mais relevante do que qualquer tentativa de identificar luzes no céu.

    Após assistir atentamente a todos os relatos publicados naquele dia – e que permanecem disponíveis nos destaques de sua conta no Instagram –, o que mais chamou minha atenção não foi o suposto OVNI. Foi o próprio Mayk.

    Em uma era marcada pela monetização instantânea da atenção, pela fabricação calculada de polêmicas e pela profissionalização do escândalo, seria natural suspeitar de uma encenação. O problema é que, observando cuidadosamente suas falas, suas reações, seus silêncios e suas emoções ao longo de horas de gravações, não encontrei os sinais típicos de alguém executando um roteiro previamente elaborado.

    É claro que isso não constitui prova de nada. Não demonstra que o fenômeno registrado era de fato proveniente de outro planeta. Tampouco valida qualquer hipótese específica sobre o que ocorreu naquela noite. Contudo, existe uma diferença importante entre questionar um acontecimento e questionar o caráter de uma pessoa.

    E é justamente nesse ponto que Mayk parece merecer um voto de confiança.

    Mesmo profissionais treinados para entrevistar pessoas em situações de grande repercussão relataram impressões semelhantes. As jornalistas Manuella Mariani e Caio Budel, do G1 Paraná, que estiveram pessoalmente no sítio conversando com o influenciador, registraram a percepção de um forte sentimento de sinceridade e de espanto genuíno durante a entrevista. Evidentemente, percepções não são evidências científicas. Mas também não são irrelevantes. O contato humano continua sendo uma das ferramentas mais valiosas para compreender intenções, emoções e comportamentos.

    Há algo ainda mais significativo na trajetória de Mayk que ajuda a contextualizar esse episódio.

    Muito antes de se tornar conhecido nacionalmente, ele já dedicava sua rotina ao cuidado de centenas de animais, os seus, os resgatados de situações de abandono, de negligência ou de maus-tratos. Sua presença digital não era construída em torno de teorias ufológicas, mistérios sobrenaturais ou conteúdos sensacionalistas. Sua audiência acompanhava principalmente uma rotina de trabalho duro, de resgates, de alimentação de animais e de desafios financeiros constantes.

    Mayk Leão com pintinho que já havia sido motivo de matéria nas TVs do Paraná por ter nascido com sobrancelha

    Essa informação é relevante porque ajuda a entender quem era Mayk antes da fama repentina.

    Vivendo em condições simples, enfrentando dificuldades econômicas e mantendo praticamente sozinho uma estrutura de cuidados com centenas de animais, ele jamais poderia prever que uma sequência de stories mudaria radicalmente sua visibilidade pública. O crescimento vertiginoso de seguidores trouxe oportunidades comerciais, contratos de publicidade e uma exposição que poucas pessoas experimentam ao longo de toda uma carreira.

    E talvez seja justamente aqui que resida uma das passagens mais reveladoras dessa história.

    Segundo relatos do próprio influenciador, empresas ligadas ao universo das apostas e jogos de azar passaram a procurá-lo com propostas extremamente lucrativas. Mayk afirmou que recusou ofertas que poderiam ter lhe rendido valores milionários. Em um país onde o marketing de apostas se tornou quase onipresente, essa decisão não é trivial.

    Quando alguém que viveu dificuldades financeiras afirma renunciar a ganhos dessa magnitude, especialmente após experimentar anos de limitações econômicas, a atitude merece ao menos consideração. Afinal, princípios só podem ser medidos quando entram em conflito com oportunidades concretas.

    Ao mesmo tempo, o influenciador tem explicado que pretende utilizar os recursos provenientes das publicidades que aceita para fortalecer o cuidado com os animais e proporcionar melhores condições de vida à própria família. Sua mãe enfrentou um grave problema de saúde, passou longo período internada em uma UTI após um AVC, e mesmo depois de tudo isso seus pais continuaram trabalhando e enfrentando as dificuldades comuns a tantas famílias brasileiras. Em diversas entrevistas, Mayk demonstra um desejo simples e profundamente humano: oferecer mais dignidade àqueles que estiveram ao seu lado durante os momentos difíceis.

    Essa talvez seja a dimensão mais bonita de toda a história.

    Porque, no fim das contas, é possível que um dia surja uma explicação perfeitamente convencional para aquilo que apareceu nas imagens. É possível também que algumas perguntas permaneçam sem resposta. Fenômenos estranhos costumam habitar exatamente essa zona de incerteza.

    Mas o valor de uma pessoa não pode depender da explicação de um vídeo.

    O que realmente importa é aquilo que ela faz quando as luzes das câmeras se apagam.

    Até aqui, Mayk Leão tem demonstrado características que inspiram respeito: simplicidade, gratidão, capacidade de comunicação, afeto pelos animais e preocupação genuína com a família. Nada disso prova que ele viu uma nave extraterrestre. Mas talvez prove algo mais importante: que sua trajetória merece ser observada para além do episódio que o tornou famoso.

    A fama repentina é uma das forças mais imprevisíveis do mundo contemporâneo. Ela pode construir carreiras sólidas ou destruir pessoas despreparadas para administrá-la. Por isso, o próximo capítulo dessa história dependerá menos do que aconteceu no céu de Campo Largo e mais das escolhas feitas aqui na Terra.

    Se Mayk conseguir cercar-se de pessoas sérias, estruturar adequadamente sua carreira e transformar essa oportunidade inesperada em um projeto duradouro de vida, o episódio deixará de ser apenas uma curiosidade viral da internet. Tornar-se-á uma história de ascensão construída sobre trabalho, autenticidade e propósito.

    Independentemente do que realmente cruzou os céus naquela noite, há algo que parece evidente: milhões de brasileiros não se conectaram apenas a um mistério. Conectaram-se a um ser humano.

    E, em tempos tão marcados pela desconfiança, talvez essa seja a descoberta mais extraordinária de todas.