Categoria: Análise&Opinião

  • A TORRE EIFFEL/ Luiz Olyntho Telles da Silva

    “A grandeza da oração reside, em primeiro lugar, em não ser respondida, e em não entrar nessa troca a feiura de um comércio”.

    SAINT-EXUPÉRY, Cidadela.

    ***

    Conheci a Torre Eiffel no princípio dos anos 80 e fiquei tão impressionado que ao longo dos anos voltei a visitá-la algumas vezes. O amplo jardim circundante, as fontes, os museus próximos, tudo dizia de seu valor.

    Lembro-me ainda, na primeira vez, de ter tirado uma foto, apoiado em uma de suas bases, buscando seguir suas linhas em direção aos céus. Outra vez, foi em uma ensolarada manhã de um domingo outonal.

    Tinha terminado de dar um passeio pelos jardins do Trocadero e começava a descer a Avenue du Président Wilson, quando fui abordado por uma jovem; queria saber se podia indicar-lhe a direção para chegar à Torre.

    Imaginem, era francesa e nunca a vira de perto; morava no interior e, há seis meses, viajava semanalmente a Paris para estudar balé. Naquela manhã, roubava-se um tempo para conhecer o grande monumento.

    É preciso dizer que voltei dez passos para apresentar-lhe, pessoalmente, o símbolo maior da cidade luz? Ah!

    E o entardecer no último domingo de verão que aí estive?! Eu sentara em um bar da Avenue Desaix com a Avenue de Suffren, o Firmine, com uma ampla visão do Champ de Mars, para aguardar o pôr-do-sol, degustando uma pression bem fria.

    Seria próximo das dezoito horas. Às vinte horas o dia continuava claro e, às vinte e uma, com a sensação de que esse dia não terminaria nunca, encomendei uma porção de carpaccio e preparei-me para jantar.

    Estava informado de que a noite, nesta época do ano, e nessa região, custava a cair, mas nunca imaginara tardasse tanto.

    Foi exatamente às vinte e três horas quando, num repente, como se as luzes do dia tivessem sido desligadas no interruptor, que a noite entrou e, ato contínuo, num átimo, acenderam-se as luzes da Torre Eiffel, por inteiro. Um espetáculo deslumbrante!

    As obras de Eiffel, desde que o conheci, constituíram-se em um marco para mim. Nem falo da impressão que me causou o Elevador de Santa Justa, em Lisboa, do qual, embora conste, hoje se duvida de sua efetiva participação no projeto, mas suas pontes, como a Dona Maria Pia, unindo a cidade do Porto à Vila Nova de Gaia, por sobre o rio Douro, e os seus monumentos, como a estrutura da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, sempre me pareceram notáveis.

    Pois outro dia, lendo um pequeno livro de Ferenc Molnár, O Poste de Vapor, quando contava que a primeira ponte, ligando Buda a Peste, por sobre o Danúbio, a Ponte Margarida, fora também um projeto dele, bem antes de ser famoso, um pequeno comentário chamou-me a atenção.

    Verdade que ele diz muitas coisas interessantes aí. Ele menciona, por exemplo, para mostrar como vão se processando sua associação de ideias, Jean Giraudoux.

    Seus pensamentos percorrem o fio das estruturas e Molnár lembra-se da Oração sobre a Torre Eiffel, um dos capítulos do livro Julieta no país dos homens, desse autor, onde conta que, tendo subido um dia na Torre, enquanto observava Paris, ocorreu-lhe pensar que confiança teve na lei das massas o engenheiro que construiu esta torre de ferro!

    Mas o ponto que mais me tocou foi a comparação da ponte com a torre: a ponte tinha a vantagem de estar deitada! Pois foi neste momento que se formou, para mim, como uma Gestalt, a imagem que quero contar-lhes.

    Precisei relatar os antecedentes para verem como sou lento, ou como pode ser lenta a formulação de certas ideias.

    Pois o que percebi, naquele momento, foi que a Torre Eiffel pode ser vista assim: suas quatro grandes bases representam os quatro cantos do mundo com as mãos postas, noite e dia, em oração, voltadas aos céus.

    E então compreendi que assim deveriam ser todas as orações, obras para o usufruto e deleite de todos.

     

  • JORGE BARCELLOS/Por que é falso o argumento do coronavírus como promotor da crise capitalista

    Foi Branko Milanovic, em sua obra Desigualdade Global: Uma Nova Abordagem para a Era da Globalização (Harvard University Press, 2019) que apontou a falsidade do argumento da crise do capitalismo. Para ele, “a insatisfação ocidental com a globalização é erroneamente diagnosticada como insatisfação com o capitalismo, quando na verdade é o produto da distribuição desigual dos ganhos da globalização”.

    Ele critica a avalanche de artigos e livros que apontam para a crise do capitalismo, literatura semelhante, em seu entendimento, a produzida sobre o fim da história, nos anos 90. O ponto é particularmente importante por dois motivos: primeiro, para afinar a argumentação de esquerda, que aposta na crise geral do capitalismo para justificar a luta social e o segundo, para compreender o contexto de emergência da pandemia do coronavírus, geralmente associado às condições de desenvolvimento e/ou crise capitalista em cada país.

    Nossa hipótese é a de que, na linha do autor, em ambas as questões, à esquerda ao repetir o erro e menosprezar o problema dos efeitos da globalização, perde um argumento essencial para considerar a evolução da pandemia, distinta entre países onde o capitalismo esteja consolidado para países em desenvolvimento.

    Essa inflexão permite, por exemplo, reavaliar o papel das elites empresariais e do Estado no combate à pandemia. É o caso da Suécia, onde Milanovic afirma que o setor privado emprega mais de 70% da força de trabalho e dos Estados Unidos, onde emprega 85%, ou da China, onde o setor privado organizado capitalisticamente produz 80% do valor agregado.

    Nos três países citados, o capitalismo vai bem como modo de produção dominante e, em que pese a obvia exploração do trabalho já criticada pela esquerda, obviamente passou por diferentes processos de tomada de decisão em relação ao coronavírus. Por exemplo, tanto a Suécia quanto os Estados Unidos foram países em que a opção de isolamento horizontal não foi adotada imediatamente, retardando-se a decisão política ou preferindo-se o isolamento vertical com o argumento nefasto de não prejudicar a economia… capitalista! A opção é clara: entre os riscos financeiros e os riscos humanos, estes países preferem os últimos.

    Por isso o exemplo da China é notável no combate a pandemia. Como uma economia de mercado que enfrentou o problema do vírus em primeiro lugar com uma politica de isolamento horizontal, hoje a China lucra os dividendos de uma economia que não perdeu seu lugar no cenário econômico mundial, ao contrário. Por esta razão, a esquerda e os defensores do isolamento radical precisam reelaborar seu discurso para enfatizar que isolamento e economia não são equidistantes, ao contrário daqueles que optaram pela economia e não pela defesa das vidas. Basta lembrar que os indicadores da Suécia chegaram a cerca de 311 pessoas mortas por milhão de habitantes, enquanto que países próximos que adotaram o isolamento horizontal, não passaram de 40 pessoas por milhão de habitantes. Quer dizer, economias que optaram pelo sacrifício da população, obtiveram uma pequena redução do PIB, incapaz de justificar a politica adotada. Da mesma, os Estados Unidos, que iniciaram o ataque tardiamente a pandemia, resultando em mais de três mil mortes por milhão de habitantes, hoje amargam a imposição de uma quarentena muito maior do que a que teriam realizado se tomassem a decisão no momento certo, e com isso, tem hoje um prejuízo maior.

    As economias que optaram pelo sacrifício da sua população em vez do sacrifício da economia fracassaram ao menos em parte, nesse objetivo. Se for assim, a questão ainda é investigar como a pandemia a afeta a economia. No Brasil vê-se que os novos mercados surgidos com a globalização foram profundamente afetados pela pandemia, desde o Uber, Airbnb, bem como os mercados de trabalhadores precarizados. Esse processo não foi homogêneo, já que os mercados de tarefas de compras e entrega de comida foram dinamizados em valores que ainda precisam ser determinados, mas estão longe de serem insignificantes.

    Se não produziram certo equilíbrio do sistema, a pandemia não foi responsável direta pelo fechamento econômico, já que a manutenção da abertura de mercados, farmácias, bancos e outros serviços novos como cuidados com animais de estimação (pets), etc., que em muitas cidades foram considerados essenciais, apontam para o fato de que mesmo em crise pandêmica foi possível à criação de novo capital. Aponta-se, por exemplo, áreas que inclusive aumentaram seus preços para níveis maiores do que os anteriores a pandemia, o que nas palavras do autor significa que “eles criam novo capital e, colocando um preço em coisas que não tinham antes, transformam meros bens (valor de uso) em mercadorias (valor de troca)”. A conclusão é que os novos mercados foram afetados de forma desigual pela pandemia, o que significa dizer que podemos andar menos de Uber, mas compensamos pedindo mais tele-entregas, o que significa que as perdas financeiras causadas pela pandemia podem encontrar um ponto de equilíbrio e até, reforçar certos mercados.

    O problema da fragmentação dos novos mercados e sua demanda parcial é que a pandemia reforça a precarização da massa de trabalhadores através da exploração de fornecedores de serviços, como entregadores de pizza, produtos de mercados ao mesmo tempo em que estimula a produção de máscaras artesanais e escudos de proteção para satisfação das novas necessidades produzidas pelo isolamento, que reforçam, mais uma vez, ainda que indiretamente, a reprodução do mercado. Portanto, quando o governo enfatiza que é preciso terminar com o isolamento porque ele está matando os CNPJ, as empresas, o governo está sinalizando para um fato que pode ser questionado em parte, de que a pandemia é a causa da crise capitalista no país, o que, para o autor, confunde o problema real que é a distribuição desigual dos ganhos, que é o que existe de fato, e não crise do capitalismo. Não é exatamente isso que ocorre quando o Governo Federal, sob o pretexto de salvar a economia, libera milhões para os bancos privados? Ele não está novamente, redistribuindo de forma desigual a riqueza? Não é esse o problema que precisa ser apontado pela esquerda?

    O argumento do autor é uma defesa do capitalismo, é claro, mas o faz de uma maneira útil à esquerda já que aponta para o fato de que a premissa da globalização, de que beneficiaria a todos, não foi cumprida, inclusive no Brasil. Ao contrário, apenas alguns países, como a China, se beneficiaram “É a diferença entre as expectativas recebidas pelas classes médias ocidentais e o crescimento das de baixa renda, bem como a queda na posição de renda global, que alimenta a insatisfação com a globalização. Isso é erroneamente diagnosticado como insatisfação com o capitalismo”. É claro que nós não estamos satisfeitos de jeito nenhum com o capitalismo, mas o que ocorre quando no Brasil, a politica de combate ao coronavírus evidencia esta desigualdade? Veja o exemplo do que aconteceu quando o país correu ao mercado mundial para obter insumos para o combate à pandemia. Logo ficou claro que o país estava em desvantagem em relação a outros países como os Estados Unidos, que, inclusive, chegou a piratear produtos comprados pelo Ministério da Saúde. As expectativas das classes médias, de acesso a respiradores, logo começaram a ruir pela insegurança da prestação de serviços médicos por ocasião de uma explosão do sistema, como ocorreu em Manaus (AM).

    Há também outra questão. Milanovic afirma que a expansão da abordagem de mercado também transforma a política em uma atividade comercial. Quer dizer, as relações políticas passaram a ser mediada por trocas, e com isso, a política tornou-se mais corrupta “agora é considerado semelhante a qualquer outra atividade, pois mesmo que não se envolva em corrupção explícita durante seu mandato político, eles usam as conexões e o conhecimento adquiridos através da política para ganhar dinheiro posteriormente”. É por essa razão que Ministros de Estado que são desligados da função pública entram em período de quarentena e o autor afirma com razão que é este tipo de mercantilização que ampliou o desencanto com a política e com os políticos. No caso da pandemia, isso ficou evidente com o aceno de Jair Bolsonaro aos partidos e políticos do chamado Centrão, com o objetivo de garantir suas medidas anticientíficas como o fim do isolamento social e o uso de cloroquina pelo SUS. Além disso, Bolsonaro busca apoio para um projeto polêmico, que isenta as autoridades – o presidente, inclusive – de quaisquer responsabilidades por erros na condução da pandemia.

    A contribuição de Milanovic assim é de levar a esquerda a considerar a importância da crise subsequente do coronavírus não como uma crise do capitalismo, mas uma crise “provocada pelos efeitos desiguais da globalização e pela expansão capitalista para áreas que tradicionalmente não eram consideradas aptas à comercialização”. Esse argumento, ainda que reforce o grande poder do capitalismo, põe em evidência a produção de uma colisão com valores, direitos e crenças que é o campo de atuação da esquerda, que deverá se colocar a questão de como evitar que outras esferas da vida sejam comercializadas ou lutar para que seja controlado o campo de expansão do capitalismo.

    Jorge Barcellos é historiador, mestre e doutor em Educação. Autor de O Tribunal de Contas e a Educação Municipal (Editora Fi, 2017) e A impossibilidade do real: introdução ao pensamento de Jean Baudrillard (Editora Homo Plásticus, 2018). Mantém a página jorgebarcellos.pro.br.

     

     

  • ALDO REBELO/ Regularização fundiária: urgente e necessária

    Aldo Rebelo*

    Está em debate na Câmara dos Deputados projeto de lei que trata do destino de centenas de milhares de pequenos proprietários rurais, mas também de médios e grandes, bloqueados no acesso ao crédito e outros benefícios por não serem detentores plenos de suas propriedades.

    O relator do projeto é o deputado Marcelo Ramos, representante do Amazonas, experiente e com espírito público e patriótico. O autor do projeto é o deputado Zé Silva, de Minas Gerais, agrônomo e produtor rural, de comprovada competência como legislador.

    A ambição da lei é alcançar desde o pequeno proprietário de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, enredado nas dificuldades das normas para legalizar posses mansas e pacíficas oriundas de partilhas antigas e de heranças, até assentados da Amazônia e de outras regiões, e proprietários do interior do Pará que adquiriram áreas do governo em processo licitatório, receberam os contratos de alienação de terras públicas e até hoje não conseguiram legalizar suas glebas.

    Recebi sugestões que encaminhei ao relator no sentido de tornar a lei mais justa e mais eficaz, principalmente a remoção de entraves burocráticos e armadilhas de redação passíveis de serem utilizadas pelos adversários dos agricultores nos órgãos de controle e na administração pública.

    Aos que acham que a matéria não tem pressa, peço que se coloquem no lugar dos proprietários, privados do usufruto pleno de seus bens. Eles já foram prejudicados por muito tempo, esperaram, alguns por décadas, providências dos poderes que muito tardaram e não podem ficar à mercê daqueles que tiveram todo o tempo e pouco ou nada fizeram.

    A regularização fundiária, como diz documento assinado por Hilário Gottselig, diretor de Políticas para a Agricultura Familiar e da Pesca da Secretaria de Agricultura e Pesca de Santa Catarina é “promotora da melhor distribuição da terra, do desenvolvimento socioeconômico da população beneficiada e, de forma mais ampla, compreendida como instrumento de fortalecimento da produção de alimentos e da agricultura familiar.”

    Aldo Rebelo é jornalista, foi presidente da Câmara dos Deputados; ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais; do Esporte; da Ciência e Tecnologia e Inovação e da Defesa nos governos Lula e Dilma

     

  • GERALDO HASSE/ Fora da casinha

    Uma amiga brasileira que viveu 30 anos em NY me pergunta por que Bolsonaro não cai, se está aparentemente na corda bamba.

    Respondo que o principal fio a sustentá-lo é a legitimidade dos votos que o elegeram até 2022. Em outras palavras, ele é sustentado por Dona Democracia da Silva.

    Frágil mas respeitável, essa senhorinha tem a sustentá-la um monte de instituições: o STF, o Congresso, o MP, as Forças Armadas, a PF, todas de olho na Constituição.

    Complementarmente, trabalham pela mesma causa a ABI, OAB, a Igreja, a Mídia e até os chamados Mercados, nome genérico das forças do Capital, naturalmente amplas, abrangentes, variáveis e volúveis, mas sempre focadas na estabilidade institucional.

    Entonces, esclareço a amiga, o presidente só poderá ser impedido ou substituído caso incorra em crime comum ou de responsabilidade.

    Ou se cometer algum ato que possa levá-lo a ser considerado inapto para o cargo. Por exemplo, “dar um tiro na cuca”, como sugeriu o general João Figueiredo, ao ser indicado para ocupar o cargo em que agora está seu ex-colega de farda, que foi excluído do Exército por comportamento “fora da casinha”.

    E aqui chegamos ao tema recorrente nos últimos dias, quando todo mundo assiste às diatribes presidenciais contra ministros e outras autoridades, incluindo a Polícia Federal.

    Há indícios de que JB teria envolvimento com grupos fora-da-lei, dirigidos por ex-militares, mas até agora não foram juntadas provas judiciais disso.

    Supostamente, poderia estar implicado em crimes de extermínio como o da vereadora carioca Marielle Franco, mas esse caso, por alguma razão, parece insolúvel.

    De concreto se sabe que, sem dúvida, fez apologia pública da tortura e do estupro, dois crimes hediondos, mas nada disso lhe rendeu algum problema. Até a Mídia agiu complacentemente em relação a esses temas.

    Fora daí, no final das contas, tudo se resume a opiniões, desabafos, ataques, fofocas e manifestações – contra e a favor — que não surpreendem nem escandalizam ninguém, desde que se popularizou o emprego das diversas ferramentas de comunicação social via tecnologia da informação, a endeusada TI.

    O uso dos computadores e dos telefones celulares equipados com câmara fotográfica e diversos aplicativos banalizou a denúncia, o escracho, o humor etc.

    Tudo é passível de “viralizar”. Há nas redes sociais uma pandemia de estupidez.

    Assim, chegamos a esse ponto: sem ser médico, o presidente se acredita no direito de dar orientação técnica na área da saúde em plena crise do vírus covid-19.

    Mal comparando, isso equivale a colocar militares nas redações de jornais e revistas, rádios e TV com a ordem de “escrevam isso” ou “é proibido falar daquilo”.

    Ex-tenente voluntarista, hoje orientado pelos filhos parlamentares e aconselhado por sabe-se lá que amigos, ele se mostra desesperado para dar ordens sem ter se preparado para tal.

    É nitidamente movido por ímpetos juvenis. Dias atrás, a psicóloga Rita de Almeida escreveu no GNN que a idade emocional dele é 5 anos.

    Agressivo, autoritário, neurótico, montou um séquito de fanáticos que põem em polvorosa cidadãos, eleitores, professores, cientistas, países vizinhos e distantes.

    Por motivos óbvios para alguns, conta com o apoio de empresários, políticos e militares. Sem projeto explícito de governo, sua meta é reeleger-se em 2022.

    Não faz sentido, mas é parte da Democracia.

    LEMBRETE DE OCASIÃO

    “Trate seu povo como trata a uma mulher”

    Benito Mussolini, ditador italiano enforcado em 1945

  • CLAUBER CRUZ/ O movimento dos orgânicos não parou

    *Clauber Cobi Cruz

    Perder vidas para um vírus agressivo é o que pode acontecer de pior para a sociedade. No entanto, a principal marca dessa pandemia foi o isolamento social para conter o COVID-19 e preservar o setor de saúde.

    De quarentena, os habitantes das grandes cidades retomaram uma atividade à qual há muito não se dedicavam: cozinhar! E foi cozinhando que se deram conta da importância dos alimentos para a manutenção da saúde.

    Alimentar-se com produtos saudáveis e naturais é decisivo para ter imunidade e proteger-se de qualquer doença.

    Essa conscientização provocou um aumento na demanda por frutas, legumes e verduras – a chamada sessão de FLV nas redes varejistas – justamente os produtos que abrem as portas do mercado de orgânicos aos novos consumidores.

    Resultado: o setor não perdeu o vigor ao longo dessa crise. Ao contrário, a expectativa é a de manter as estimativas de crescimento na ordem de 10% em 2020.

    Dependendo do cenário, essa previsão poderá inclusive ser ampliada. Nas sondagens com diversos players do setor de orgânicos, percebemos um claro otimismo, já que muitos sentiram um crescimento expressivo na procura por seus produtos durante o período de quarentena.

    De fato, o consumo de alimentos orgânicos, livres de agrotóxicos e cultivados de forma a preservar seus atributos nutritivos e ambientais, está associado pelo consumidor com a manutenção de um estilo de vida natural e saudável.

    Se de um lado a conscientização aumentou, de outro, não faltou poder aquisitivo para esse flerte com os produtos orgânicos.

    Da mesma forma que se dispõe a pagar mais pelo prazer de, por exemplo, degustar uma cerveja artesanal, o consumidor percebeu que é viável manter alimentos orgânicos na sua dieta, para agregar mais valor em termos de saúde e bem-estar.

    O crescimento do e-commerce nesse período de quarentena também jogou a favor dos orgânicos. Os serviços de entrega on-line, com fornecimento de cestas orgânicas, garantiram o abastecimento regular e trouxeram uma nova experiência de compra e venda.

    Os produtores, de repente, viram-se diante da necessidade de ampliar sua presença no ambiente digital, encontrando formas de divulgar suas ofertas e solucionar os problemas de logística diferenciada.

    Para o setor de orgânicos, a volta à normalidade terá um impacto mais positivo do que aquele sentido por outros setores.

    Sem aeronaves no pátio esperando para decolar, sem taxas de ocupação com que se preocupar, os produtores orgânicos vão se beneficiar da conquista de novos consumidores, que experimentaram e aprovaram seus produtos. Essa conquista não tem volta.

    Inserido na dinâmica do agronegócio, o setor de orgânicos tende a seguir em sua trajetória de crescimento. Apesar da baixa previsibilidade que a carência de dados abrangentes ainda nos impõe, esse otimismo é reflexo do aumento contínuo que vínhamos percebendo no número de unidades produtivas cadastradas no MAPA.

    Além disso, o espaço que os orgânicos vêm ocupando nas redes varejistas de todo o país é cada vez maior. O potencial para aumentar a produção é enorme, enquanto que o número de consumidores dispostos a consumir mais orgânicos só aumenta.

    Diante da crise provocada pelo COVID-19, o setor de orgânicos não só está conseguindo se manter, como também é um dos poucos com expectativa de crescimento e aumento de produção.

    Produtores, varejistas e prestadores de serviço, confinados nesse período de quarentena, estão aproveitando muito bem as oportunidades para aprender, planejar e inovar.

    Clauber Cobi Cruz é diretor da Organis, entidade setorial dos orgânicos.

  • LIDIANE KLEIN / Nossos idosos precisam de demonstrações de amor

    O momento é crítico não só no Brasil, mas em todo mundo, frente à pandemia. O isolamento tem afetado a saúde mental de toda a população, impreterivelmente. E a terceira idade é a mais vulnerável, o que pode desencadear muitas repercussões psíquicas negativas.

    Nas últimas décadas, houve um crescente incentivo a esta parcela da população para que saísse de suas casas, frequentasse grupos de idosos, fosse fazer atividades que lhe desse prazer. Os idosos sentiram o gosto deste protagonismo e a liberdade proporcionada, aprenderam a se valorizar e a viver de uma forma mais plena. Eis que chega este vírus e a orientação agora é que fiquem em casa.

    As relações sociais, que sempre foram fatores protetivos a sua saúde mental, agora são restritas a ligações e a vídeo chamadas, na sua maioria.

    Eles estão sofrendo com estas restrições. Seus direitos de ir e vir foram tolhidos. A saudade que eles estão dos familiares, dos amigos e, principalmente, dos netos faz o peito apertar. Sentem falta do toque, dos abraços e beijos.

    Muitas famílias se fazem presentes da forma que conseguem, porém denúncias à delegacia do idoso mostram que há filhos usando a desculpa do coronavírus para abandonarem seus pais.

    Com a proximidade do Dia das Mães e a orientação para manter-se o distanciamento social, as famílias têm ficado indecisas sobre como proceder nesse dia. Essa é uma data muito especial, quando são celebrados e demonstrados afetos pela sua matriarca. Mas, infelizmente, um dos desafios mais dolorosos da quarentena é ficar distante de pessoas queridas, sem podermos tocar, abraçar e beijar.

    Neste momento, precisamos ser responsáveis e conscientes de não colocarmos a nós e nem os nossos em risco. Este período irá passar e depois estaremos todos juntos novamente. Sua mãe, ou qualquer outro familiar idoso, precisa sentir-se amparado emocionalmente e sentir que os vínculos afetivos estão fortalecidos.

    O distanciamento que a quarentena nos impõe é físico, mas ele não precisa ser emocional.

    Existem diversas formas de demonstrar o carinho que sentimos por nossa mãe, o mais importante é que ela possa ter a certeza deste sentimento. Muitas vezes deixamos de dizer para as pessoas o quanto elas são importantes para nós, pois deduzimos que elas já saibam. Será mesmo? Nunca é demais um ‘eu te amo’, ou demonstrar gratidão por tudo que a sua mãe lhe proporcionou.

    A quarentena está sendo um tempo de nos reinventarmos em vários aspectos da vida, e essa data comemorativa às mães não será diferente. Teremos que ser criativos para que essas pessoas tão especiais nas nossas vidas possam sentir-se valorizadas e amadas.

    Algumas dicas para surpreender sua mãe:

    Programe um café ou almoço por vídeo-chamada, assim conseguirão compartilhar deste tempo juntos;

    Prepare um vídeo com fotos de momentos que passaram juntos, ela poderá matar sua saudade;

    Deixe flores, presente ou mesmo uma sexta de café na manhã na sua porta;

    Escreva uma cartilha para sua mãe, demonstrando todo carinho que sente por ela.

    É importante termos em mente que este período difícil irá passar, e cada um fazendo a sua parte, prevenindo-se, sairemos mais exitosos.

    Nem todas as pessoas possuem recursos internos de enfrentamento para a situação, ajuda profissional pode se fazer necessária. Se você perceber que seu familiar idoso está com dificuldades de adaptação e enfrentamento, busque um auxílio profissional especializado, ninguém precisa sofrer sozinho.

    • Lidiane Klein é psicóloga, especialista em Neuropsicologia, mestre em Psicologia e Saúde, doutoranda em Ciências da Reabilitação.
  • GERALDO HASSE/ O grande intervalo

    Ninguém estava preparado para parar por um período tão longo

    O vírus de Wuhan paralisou o mundo dito civilizado, colocando-nos num intervalo que se vai prolongando numa espiral sem fim.

    Para nós brasileiros a quarentena começou em meados de março e já se vislumbra que o recesso de atividades escolares, comerciais, industriais e de serviços se estenderá até o inicio de setembro.

    Muita gente não se conforma e sai pra rua disposta a trabalhar, segurar o emprego e ganhar a vida, mas a maioria não tem dinheiro para o consumo, de modo que as coisas tendem a ficar nesse vai-não vai, pesando nas costas de quem já vivia com o mínimo ou menos do que isso.

    Estamos numa viagem sem prazo de término definido. Os otimistas torcem por um remédio, nem que seja uma panacéia temporária, mas sabem que a solução é uma vacina que pode surgir, na melhor das hipóteses, no primeiro semestre de 2021.

    Enquanto isso, não é razoável pensar que se deve retomar todas as atividades, recolocando nos trilhos, a todo vapor, o trem da Economia. Pelo menos por um tempo, a Economia não é a prioridade. Além disso, a retomada haverá de ser lenta.

    A crise mundial desencadeada pela pandemia evidenciou a importância da Saúde como item central da vida humana, desde que se ponha ao seu lado a Educação como fonte dos conhecimentos necessários para equacionar problemas sanitários da gravidade de uma virose como essa que aí está.

    Dentro do conceito amplo de Saúde se alinham inevitavelmente a Higiene e o Saneamento; e faz parte da Educação, no mínimo, a Ciência, na qual se encaixa, ainda e sempre, a Ecologia. O resto é complementar.

    Ganhar dinheiro, comprar coisas, construir patrimônio – tudo isso virou secundário. Estamos em processo de adaptação sem saber exatamente o que virá depois do grande intervalo forçado a que estamos submetidos.

    O custo do intervalo é incomensurável e só pode ser sanado por uma aliança entre recursos públicos e privados, tudo isso com alcance internacional. Comprar briga com outros países, nesse momento, é dar tiros nos pés.

    Sem Saúde não adianta forcejar. E, basicamente ainda, precisamos de Educação/Ciência para penetrar no labirinto e desvendar os mistérios que a Natureza nos apresenta. E que não nos falte Segurança para chegar são e salvos ao outro lado do rio.

    LEMBRETE DE OCASIÃO

    “Do dito ao feito hai muito eito”

    Fructuoso Rivera (1785-1854), primeiro presidente do Uruguai

     

  • VILSON ROMERO/Cala boca já morreu

    A insubordinação antes atribuída aos adolescentes e crianças quando admoestados, em priscas eras, ao se intrometerem em “conversas de adultos” transmutou-se em necessidade de alerta ao mandatário maior da Nação: “Cala a boca, já morreu, presidente!”.

    E por que isto? Porque os vitupérios e vociferações presidenciais têm se sucedido em profusão no circo matinal dos horrores montado diariamente na saída do Palácio da Alvorada, transmitido ao vivo pelas redes sociais.

    Mais até do que no período de escuridão, entre 1964 e 1985, quando jornalistas foram censurados, perseguidos, presos, torturados e até assassinados, nos plúmbeos tempos atuais, os profissionais de comunicação têm sido insultados, atacados e ofendidos, quando não agredidos, diuturnamente, nas redes e nas ruas.

    No Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, em 3 de maio, jornalistas e auxiliares sofreram ataques físicos ao cobrirem atos contra o isolamento social em razão da atual pandemia defronte outro palácio: o do Planalto.

    Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o presidente da República, no ano passado, atacou a imprensa 116 vezes em postagens nas redes sociais, pronunciamentos e entrevistas.

    Defronte o Alvorada, a enxurrada de sandices se sucederam ao longos dos 17 meses de mandato: “Você está falando da tua mãe?”; “Você tem uma cara de homossexual terrível”; “Pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu para o teu pai”, “Vocês são uma raça em extinção”. “Ela [Patrícia Mello, da Folha de S.Paulo] queria um furo. Ela queria dar um furo a qualquer preço contra mim”; “Imprensa canalha”, “Globolixo”, etc.

    O comandante em chefe das Forças Armadas assim se refere aos comunicadores, além de promover o boicote oficial à imprensa, ameaçando com o fim da publicidade oficial, a restrição às publicações contábeis, a não renovação das concessões, entre outras manifestações virulentas de sua ojeriza à vigilância imparcial da imprensa e às críticas formuladas pelos comunicadores nas diversas mídias.

    Um festival de violência que atenta contra tudo o que possa se imaginar de obediência aos preceitos constitucionais e ordenamentos internacionais acerca das liberdades de imprensa e de expressão.

    A Declaração Universal dos Direitos do Homem é taxativa em seu artigo 19: “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.

    A Declaração de Chapultepec, de 1994, reafirma em seu inciso I: “Não há pessoas nem sociedades livres sem liberdade de expressão e de imprensa. O exercício dessa não é uma concessão das autoridades, é um direito inalienável do povo.”

    Apesar de bradar que “eu sou a Constituição”, o mandatário não respeita o que está consignado nos artigos 5º. e 220 da Carta Magna, garantindo plena liberdade de imprensa cá em Pindorama. Em 5 de maio, o presidente, ao ser questionado por jornalistas sobre mudanças na Polícia Federal, em duas oportunidades, defronte o “cercadinho” na saída do Alvorada, vituperou: “Cala a boca, não perguntei nada!”.

    Ao tentar calar e desacreditar a imprensa, o político eleito com mais de 57 milhões de votos coloca em xeque sua biografia, desacredita seu governo, ameaça a democracia e confronta inclusive parcela significativa daqueles que o elegeram.

    A imprensa não é nem nunca será massa de manobra, nem deve informar ao bel-prazer do governante de plantão ou do inquilino de ocasião do Palácio do Planalto. A imprensa é pilar fundamental do Estado Democrático de Direito. É a trincheira da boa informação e repositório da cidadania. Cala a boca já morreu, presidente!

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    (*) jornalista, membro da Comissão de Direitos Humanos e Liberdade de Imprensa da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
     

     

  • PATRUS ANANIAS/ Tempos de crise, tempos de esperança

    • Vivemos um momento histórico mundial que nos desafia. Fiquemos com a difícil realidade brasileira. Além do coronavírus e da fragilidade assustadora em que se encontra o sistema público de saúde e outras políticas públicas voltadas para a defesa e promoção da vida, temos um presidente da República que celebra a morte, o ódio, a violência, a ditadura.

    Trabalho um cenário, existem outros é claro, segundo o qual Bolsonaro não é um presidente tão fragilizado como sugerem algumas pesquisas. Torço muito para que minha análise esteja errada, mas não posso silenciar as inquietações que me assaltam. Cheguei a associar, no passado, a eleição espúria de Bolsonaro às eleições de Jânio Quadros e Fernando Collor de Melo. Tenho hoje sérias dúvidas.

    Bolsonaro, ao contrário dos outros mencionados, não parece um ponto fora da curva. Jânio e Collor navegaram ao sabor das ondas, mas não tinham apoios consolidados. Bolsonaro tem apoiadores. Eles estão presentes nas forças políticas e econômicas conservadoras, saudosas da ditadura, formadas pela ideologia neoliberal e o pensamento autoritário.

    Bolsonaro entrou firme nos 30% que formam a direita do nosso cenário político e dentro dela construiu um grupo intolerante e sectário de extrema-direita, pronto para as provocações e confrontos que podem se desdobrar em ações violentas. A rigor, já estão se manifestando.

    Mais do que o apoio, Bolsonaro está submetendo as Forças Armadas, especialmente o Exército. Os recursos e cargos liberados parece que não foram em vão.

    Dentro deste contexto adverso, considero que todas as iniciativas que visam se contrapor ao Bolsonaro são muito importantes – ações judiciais, CPIs, impeachment, novas eleições –, importantíssimas, necessárias, mas não suficientes.

    Não se trata de balançar o galho e Bolsonaro cai. Torço para que isto aconteça, e ajudo a balançar o galho. E se ele cair? Quem vai ocupar o galho? Devemos trabalhar, sem perdermos a dimensão do presente, cenários mais longos e difíceis. Além dos apoios e cumplicidade que apontamos, Bolsonaro busca o apoio político do Centrão, que pode lhe dar maioria no Congresso Nacional. Penso que devemos, trabalhando diferentes cenários, buscar ações de curto, médio e longo prazo.

    As de curto prazo estão bem encaminhadas no Congresso, junto ao Poder Judiciário, nos espaços possíveis das mídias. As ações de médio e longo prazo referem-se a iniciativas que demandam cada vez mais reflexão e estratégia. Como retomar, aprofundar e ampliar o nosso diálogo com a sociedade? Os 30% que se colocam no campo da esquerda ou centro-esquerda e os 40% que oscilam? Aqui vivemos um grande desafio – reaprendermos nossa escuta, reelaborarmos uma pedagogia política.

    Como confrontar o poder dos meios de comunicação? As fake-news? O sentimento de pressa e urgência das pessoas? A sedução dos celulares? As dificuldades que a violência e o crime organizado colocam no diálogo com as comunidades mais pobres? O fascínio das soluções de curto prazo, onde aparecem as soluções ligadas à violência e à ditadura?

    O outro desafio, e os dois se articulam e complementam, diz respeito ao que nós, Partido dos Trabalhadores, forças políticas e sociais à esquerda, centro-esquerda, o nosso campo democrático popular, queremos para o Brasil. Qual é o nosso projeto de nação? Onde queremos chegar no processo emancipatório nacional?

    Vivemos a partir da vitória de Lula, em 2002, momentos inesquecíveis, políticas públicas e ações vigorosas, sempre presentes em nossas lembranças e corações, que mudaram a vida de milhões e milhões de brasileiras e brasileiros pobres. Muitas dessas boas políticas públicas e obras sociais deverão ser retomadas, aperfeiçoadas e ampliadas, mas temos desafios novos. Como estabelecer efetivamente o primado da vida? Como subordinar os interesses econômicos, sempre muito sedutores e poderosos, o direito de propriedade, a livre iniciativa, a economia de mercado, ao valor maior que deve coesionar a sociedade?

    Como aplicar, no plano do direito e dos fatos, o princípio da função social da propriedade e das riquezas, subordinando-as ao direito à vida, ao bem comum, ao projeto nacional? Como adequá-las à preservação da natureza e das fontes da vida? Como acertar os recursos que garantem os direitos sociais básicos, educação de qualidade em todos os níveis, os cuidados preventivos e curativos da saúde, a segurança alimentar, o saneamento básico, a assistência social, o trabalho decente, a moradia digna, o meio ambiente saudável?

    Como renovar as leis trabalhistas diante das mudanças no universo do trabalho, que já se apresentam tão concretas, garantindo a defesa daquele que trabalha e não é o dono efetivo do negócio, ainda que precise utilizar seus próprios bens para exercer os serviços?

    Como financiar as obras necessárias de infraestrutura? De que maneira construir políticas públicas mais robustas, amparadas pelas bases de dados que tão arduamente estruturamos para entender nosso país e pelos profissionais capazes de fazer a leitura acurada da realidade, tantos deles formados durante nossos governos do Partido dos Trabalhadores?

    Penso que na perspectiva desse projeto nacional, de afirmação da soberania popular, das escolhas das prioridades, devemos retomar as práticas da democracia participativa – planejamento e orçamento participativos – vinculados ao desenvolvimento regional. Estes são temas sempre presentes em nossas reflexões e que já trabalhamos em outros textos.

    Creio que devemos nos ater a essas e tantas outras questões que lhe são correlatas, refletirmos sobre elas, abrirmos a partir delas um processo crescente de interlocução com a sociedade brasileira, especialmente com os pobres.

    Devemos buscar novamente o poder, sabendo dos desafios que ele hoje nos coloca. Não o poder pelo poder. O poder assentado na soberania popular e que nos possibilite construirmos o projeto de nação que priorize a vida e os direitos fundamentais para os atuais 210 milhões de brasileiras e brasileiros e tantos quantos vierem no futuro. Compromisso inarredável com as gerações presentes e futuras desta grande e querida pátria brasileira.

    Pelas novas condições de cuidado com a saúde que se apresentam, temos agora uma nova situação: cuidar de todos, sem esquecer ninguém, se tornou fundamental, do modo mais concreto, para manter a saúde de cada família e de cada um. É um novo mundo, realidade inesperada.

    Vamos juntos, solidários, enfrentar os desafios presentes e construirmos os alicerces do nosso projeto nacional brasileiro. Não vamos edificar a nossa casa na areia. Lembremos os ensinamentos de Jesus, que começaram de baixo e atravessam os tempos e chegam hoje ao Papa Francisco.

    Patrus Ananias, deputado federal (PT/MG), ex-Ministro do Desenvolvimento Agrário, no governo Dilma Rousseff; ex-ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, no governo Lula; ex-prefeito de Belo Horizonte; professor da Faculdade de Direito da  Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

     

     

  • ELMAR BONES/ A palavra que falta

    Neste fim de semana, Jair Bolsonaro deu um passo bastante ousado na sua caminhada para obter um poder autocrático, livre das limitações que a Constituição impõe aos governantes no Brasil.

    Ele avança aos trambolhões, em zigue-zague, com declarações contraditórias, atos incompreensíveis, mas avança e, cada vez mais parecem dispersas e intimidadas as forças que podem detê-lo.

    Neste domingo, ele foi explícito: disse que tem apoio do povo e que isso lhe garante o apoio das forças armadas.

    O povo ao qual ele se dirige  são os grupos de bolsonaristas que pedem intervenção militar, com fechamento do congresso e do STF, o  que deixa subentendido que, se ele tentar o passo decisivo, terá não só o apoio desse “povo”, como terá também os respaldo das “Forças Armadas”.

    Ele falou no domingo e até o início desta segunda-feira nenhuma palavra dos comandos militares havia esclarecido a situação anômala que se criou com a manifestação do presidente. A expectativa geral é por uma manifestação que recoloque as coisas no seu lugar.

    Ou não haverá outra interpretação, além daquela que diz que o golpe já foi dado.