Geraldo Hasse
Parece inacreditável mas, 130 anos depois do massacre dos trabalhadores de Chicago, episódio de 1886 que deu origem ao 1º de Maio e à jornada diária de oito horas de trabalho, nenhuma voz empresarial brasileira ousou condenar ou sequer questionar a reforma da legislação trabalhista proposta pelo governicho vigente e aprovada de cambulhada pelo Congresso. Das empresas e de seus órgãos representativos só vieram aplausos. Ou um silêncio cúmplice, nada mais.
Um século depois das greves operárias que sacudiram o Brasil em 1917, parece não haver neste país um único patrão progressista que esteja disposto a defender os direitos dos trabalhadores, esses que constituem a maioria da população…
Um século depois da revolução comunista de outubro de 1917 na Rússia, empreendedores, parlamentares e membros do Poder Executivo agem descaradamente a favor do desmanche do edifício social brasileiro, historicamente precário e instável.
Oitenta e cinco anos depois das primeiras leis sociais instituídas (a partir de 1932) por Getúlio Vargas, apenas sindicalistas e magistrados da Justiça do Trabalho se levantam contra o massacre trabalhista.
Empregados ou prestadores de serviços em regime cada vez mais precário, poucos jornalistas ousam denunciar, criticar ou condenar a temerosa sacanagem.
Dias atrás, em artigo no site 247, a jornalista Teresa Cruvinel, de Brasília, escreveu que o governo e seus aliados estão preparando o último passo de seu projeto antitrabalhador: acabar com a Justiça do Trabalho, cujos funcionários seriam transferidos para a Justiça Federal…
Parece que o projeto existe mesmo, tanto que juízes, procuradores e auditores fiscais do Trabalho se organizaram para resistir à aplicação da reforma que entra em vigor a partir de 11 de novembro.
Num encontro em Brasília, no final de outubro, cerca de 600 praticantes da JT criticaram vários pontos da reforma e terminaram por recomendar que os juízes interpretem as novas normas trabalhistas à luz da Constituição e demais balizas legais, inclusive os acordos internacionais de que o Brasil é signatário, para evitar que se perpetrem injustiças e que o retrocesso seja tão profundo quanto querem os reformistas bem representados no parlamento e no meio empresarial.
O Conselho Nacional de Justiça, que está sob controle de conservadores fieis ao comando neoliberal, prometeu enquadrar os magistrados “rebeldes”, que afinal constituem a última barreira legal contra o massacre dos trabalhadores.
Já se vê para onde caminhamos – para um duplo retrocesso:
1) o aviltamento do fator trabalho, se colocado em prática como autoriza a nova legislação, vai solapar as bases do mercado de consumo construído nos últimos 23 anos sobre a estabilidade da moeda brasileira e o crescimento da massa salarial.
2) a expansão das “relações trabalhistas informais”, como prevê a reforma, vai diminuir a arrecadação do FGTS, que não é apenas uma poupança dos trabalhadores, mas um fundo de fomento à habitação popular e à infraestrutura urbana. A cada ano, além de pagar resgates aos empregados demitidos, o FGTS custeia obras no valor de R$ 80 bilhões.
Ao mesmo tempo em que patrocina abertamente a causa antitrabalhista, a cegueira empresarial se alia ao governo antissocial para abrir brechas na legislação ambiental, de modo a facilitar empreendimentos potencialmente poluidores.
Atuando egoisticamente nas cabeceiras do processo econômico, os empresários praticam um crime duplo ao vilipendiar os recursos naturais e escrachar os recursos humanos. Operam assim para arruinar o que a geografia brasileira tem de melhor – os solos, os rios, a flora, a fauna e a população humana.
Mais do que uma enorme falta de espírito público, tudo isso significa cidadania zero, ausência de respeito humano, enfim, um genocídio.
Debite-se ao camaleão paulista Michel Temer tamanho atentado ao progresso da civilização brasileira.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Negrinho do Pastoreio,
acendo esta vela pra ti,
peço que me devolvas
a querência que perdi…”
Canção popular composta em 1957 pelo folclorista gaúcho Barbosa Lessa (1929-2002).
(Publicado originalmente no www.seculodiario.com)
Categoria: Análise&Opinião
Reforma trabalhista: retrocesso em dose dupla
Votos pró Temer custaram mais que um ano do Bolsa Familia
Vilson Antonio Romero
Uma derrota de R$ 32 bilhões.
Sim, sua Excelência, o sr. Michel Miguel Elias Temer Lulia se livrou desta. Foi mais uma vitória resultado da articulação da base governista. Houve algumas defecções, mas, passou pouco de uma dezena.
O plenário da Câmara dos Deputados derrubou, pela segunda vez, o prosseguimento de uma denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente. O placar foi mais apertado para o peemedebista do que o da primeira denúncia, por corrupção passiva, derrubada em agosto passado. Temer recebeu o apoio de 251 deputados federais, com 233 votos contrários.
Já foi cantado em prosa e verso na mídia nacional que esta vitória tem um custo para os cofres públicos, portanto para a Nação brasileira, que pode chegar a R$ 32,1 bilhões. Essa é a soma de diversas concessões e medidas negociadas com deputados federais entre junho e outubro, desde que Temer foi denunciado pela primeira vez, por corrupção passiva, até a segunda votação, pelos crimes de organização criminosa e obstrução da Justiça.
O preço para impedir o prosseguimento das denúncias supera em R$ 6 bilhões os recursos previstos por Temer para as 14 milhões de famílias beneficiárias do Bolsa Família ao longo de 2018, cujo orçamento totaliza R$ 26 bilhões. Supera também o custo da construção da Usina Hidrelétrica Belo Monte, estimado em R$ 30 bilhões.
O Planalto ainda empenhou R$ 4,2 bilhões de emendas parlamentares individuais, que têm execução obrigatória desde 2015. Como o ritmo de liberações é definido pelo governo, foi também uma das armas utilizadas, se fossem consideradas, a conta subiria para R$ 36,3 bilhões. Impopular, com aprovação abaixo da margem de erro – cerca de 3% – o governo recuou da liberação da exploração de minério na Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca), na Amazônia, depois de mobilização internacional contrária. Agora decidiu dar descontos de 60% em multas ambientais e transformar os pagamentos em compromissos de gastos dos entes privados com reflorestamento e conservação do ambiente. A medida pode tirar do Tesouro mais de R$ 2,7 bilhões. Além disto, governo sinaliza com o apoio a tentativas congressuais de criar algum tipo de contribuição para o custeio dos sindicatos
Por outro lado, o Planalto não irá mais privatizar o Aeroporto de Congonhas (SP), cujo leilão poderia arrecadar R$ 6 bilhões. Some-se a isto as os programas de parcelamento de dívidas para empresários e produtores rurais, e em atos de interesse de bancadas temáticas como a dos ruralistas, que tem 214 deputados em exercício e poderia, sozinha, garantir a salvação do mandato do peemedebista.
Os ruralistas já haviam recebido um pacote de descontos nas alíquotas de contribuição para o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural), usado para custear aposentadorias, e condições mais benéficas para quitar dívidas com o fundo, cujo prazo de adesão foi postergado para novembro. Até agora, o governo não recorreu de um projeto de resolução do Senado que anistiou um passivo de R$ 17 bilhões não pagos ao Funrural.
Além de benesses para prefeituras que devem ao INSS, o presidente também sancionou um novo Refis, deixando de arrecadar R$ 4 bilhões. Isto sem falar nos milhares de cargos de confiança, cujas nomeações enchem as páginas do Diário Oficial todo o dia. Se formos avaliar toda esta conjuntura, na realidade, não houve uma vitória, mas uma fragorosa derrota da Nação brasileira para a corrupção. E custou caro! Lamentável!O fator Lula
Elmar Bones
O único ponto fora da curva do golpe neste momento é a candidatura Lula à presidência em 2018.
Não por acaso a mídia corporativa e seus comentaristas amestrados fazem o que podem para desqualificar ou mesmo ignorar as caravanas do ex-presidente pelo país.
Um dos truques nestes dias é comparar a condição de Lula, “na eminência de ser condenado pelo juiz Sérgio Moro”, com a de Michel Temer, acossado pelas denúncias do Procurador Janot.
Para sustentar esse raciocínio abstruso, omite-se o essencial.
Temer, sorrateiro, sustenta-se com manobras palacianas, gastando bilhões do erário público para comprar o apoio de deputados venais.
Lula, de peito aberto, foi para as ruas buscar guarida no povão. Mesmo que o condenem ou prendam, não conseguirão impedir que seja o fator que pode barrar a consolidação do golpe nas urnas.
São personagens e circunstâncias incomparáveis, mas não é descabido lembrar Getúlio Vargas, em 1950, no primeiro ciclo do trabalhismo. .
Derrubado por um golpe, Vargas saiu do exílio voluntário em São Borja para percorrer o país e retornar ao poder pelo voto popular.
Seu programa nacionalista, tinha também no centro da meta a causa do petróleo e a Petrobras.
Como se sabe, os inimigos, mesmo derrotados, não deram trégua, até levá-lo à tragédia de 24 de agosto de 1954. O lema era: Vargas não pode ser candidato, se for candidato não pode ser eleito, se for eleito, não pode governar…
O que quero dizer: as forças que promoveram o golpe parlamentar que derrubou Dilma (e que se sustenta a golpes de audácia) aspiram legitimá-lo pela via eleitoral. Lula, com seu cesarismo, é no momento o único obstáculo real.O PT foi um rio que passou em nossas vidas
Geraldo Hasse
Chega de chorar sobre o leite derramado; é preciso construir o pós-Temer.
A um ano das eleições gerais para os cargos de presidente, governador, senador e deputados federais e estaduais, é hora de admitir que ficou irremediavelmente para trás o ciclo virtuoso do petismo, marcado pelo crescimento da economia, a expansão das exportações agrícolas e a inclusão socioeconômica de largas camadas da população.
Resultado de uma mentalidade de acolhimento das demandas e necessidades dos pobres, tivemos com o PT o aumento do salário mínimo, a valorização do funcionalismo federal, a expansão dos ensinos técnico e universitário, a ampliação do SUS, incluindo o programa Mais Médicos, o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o Luz Para Todos, o Brasil sem Miséria e a adoção de quotas para negros e índios na universidade.
Tirando as realizações transitórias, o partido pagou o preço cobrado pelos seus aliados à esquerda, ao centro e à direita. Algum dia um compositor dirá, como Paulinho da Viola ao cantar sua escola de samba: “Foi um rio que passou em nossa vida…”
Descontada a emoção contida em cada vitória, o petismo não tirou nota 10 em nenhum dos quesitos básicos.
Já se concluiu que a expansão dos salários gerou consumo, principalmente. Se o frango foi a âncora do real sob Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), o consumo de iogurte foi o símbolo da inclusão social sob Lula (2003-2010).
Faltou um plano capaz de aprofundar as conquistas populares. Esse o maior erro do PT – a falta de ambição de longo prazo.
Por exemplo, o aumento do número de universidades e escolas técnicas não foi acompanhado pelo incremento da qualidade do ensino.
O Minha Casa Minha Vida, executado com baixo padrão de qualidade, ficará na história como um sinal concreto de desprezo das construtoras e da indústria de material de construção pelos pobres – tudo isso com financiamento da Nossa Caixa.
Embora tivesse como objetivo de fundo a manutenção das crianças em creches e escolas, o Bolsa Família acabou estigmatizado como um programa de estímulo à vagabundagem de pais e mães beneficiados, que teriam se contentado com o peixe, desprezando a chance de usar a vara de pescar.
O Mais Médicos, programa auxiliar do SUS, escancarou o elitismo da classe médica brasileira, obrigando o governo a contratar estrangeiros, sobretudo cubanos.
De cada programa se pode dizer, talvez, que faltou tempo para avaliações e correções de rumo, mas não se pode negar também que, como presidente de honra da Escola de Samba Unidos do PT, Lula exagerou na dose da soberba, deixando a comissão de frente descolar-se das alas partidárias perdidas na cacofonia do carnaval.
Quando se referiu ao tsunami financeiro de 2008 como uma marolinha, Lula agiu como o pai de família que, diante do temporal, diz aos filhos: “Não é nada, já vai passar”. Paternalismo que lembra outro chefe brasileiro.
Em 1977, em plena degringolada da economia brasileira, o general-presidente Ernesto Geisel disse em pronunciamento de TV que o Brasil era uma ilha de prosperidade num oceano convulsionado pela crise do petróleo.
Cinco anos depois, em agosto de 1982, faltou dinheiro para fechar o caixa do Banco do Brasil em Nova York –o país estava quebrado e a ditadura militar na reta final. Mas “os chefes civis da Revolução” seguiram manipulando os cordéis até colocar na presidência o chapa-branca José Sarney, arenista convertido ao PMDB. Por incrível que possa parecer, Sarney tinha um slogan voltado para o atendimento das carências populares: “Tudo Pelo Social”, que oferecia tíquetes alimentares para famílias pobres.
A história mostra que há sempre um oportunista pronto para montar no cavalo do poder. No caso do PT, esse personagem se chama Michel Temer. Com cara de sonso, ele se alojou na vice-presidência e ficou à espera do momento oportuno.
Recapitulando: o impacto da crise financeira internacional de 2008 foi retardado por cinco anos graças ao boom das exportações de commodities e a medidas anticíclicas que acabaram criando a ilusão de que o Brasil estava livre dos problemas enfrentados por outros países.
Lula levou a crise com a barriga e Dilma fez o mesmo com um pouco mais de dificuldades, até que perdeu a capacidade de manobra e foi alvo do processo de impeachment articulado pelo PMDB e ex-aliados do petismo.
Agora, com um ano e meio no governo, Temer não tem popularidade, mas manipula as rédeas do poder com a ajuda desenvolta de políticos de larga folha corrida. Tem o beneplácito do Supremo Tribunal Federal e o apoio do Congresso. Se precisar, compra políticos com a distribuição de verbas para atender a emendas parlamentares. “Meu governo acabou com a maior recessão da história do Brasil”, disse ele no dia 26 de outubro, após passar horas no hospital, abatido por uma crise nervosa enquanto o Congresso discutia se atendia ou não um pedido de investigação contra o presidente e dois dos seus ministros.
E assim chegamos ao final de 2017, com o Brasil ensaiando a saída da estagnação econômica dos últimos três anos e meio. A inflação baixa, os juros descendentes e o alto nível das reservas cambiais garantem que os fundamentos econômicos estão em níveis satisfatórios para quem se guia por tais indicadores materialistas.
O Mercado está contente? Pior pra gente!
O estrago feito pelo ajuste das contas do governo soma 14 milhões de desempregados e acumula graves problemas de segurança pública, enquanto o Tesouro Nacional está penhorado ao sistema bancário nacional, por sua vez pendurado em credores/investidores internacionais.
Para comprar gasolina e seguir viagem, o comandante não hesita: hipoteca o navio, privatiza os portos, leiloa usinas hidrelétricas e terceiriza a gestão dos aeroportos. É pouco? Venda-se o pré-sal, que foi visto pelo PT como uma espécie de poupança nacional.
Entretanto, para quem quer um pouco mais em favor das pessoas e principalmente da maioria da população, que é pobre, o Brasil de Temer registra uma assustadora involução social cujas origens remontam às manifestações preconceituosas de pessoas das elites e das classes médias revoltadas com a presença dos pobres em aeroportos, shoppings, universidades etc.
De cima para baixo, essa onda de raiva empalmou a classe média e segmentos da população manipulados por pastores de religiões emergentes na seara do conservadorismo e do patrimonialismo bem representados no Congresso por maiorias formadas ao sabor de interesses fisiológicos.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“O Brasil vender o pré-sal é como o cara que vende a máquina de costura da mãe”
Luciano Palma, no FacebookTudo dominado
Segunda à noite, obsequiado pela diligência do ministro Eliseu Padilha, Temer recebeu o mapa detalhado dos votos que vão arquivar a segunda denúncia da PGR contra ele nesta quarta-feira.
Não é improvável que tenha até mais votos do que os obtidos no arquivamento da primeira denúncia do ex-procurador geral Rodrigo Janot.
A nova procuradora, Raquel Dodge, já não disse que o chefe da organização criminosa é o Geddel Vieira?
Segundo o preclaro Merval Pereira, de O Globo, fonte de inspiração para os comentaristas amestrados Brasil afora, essa votação encerra a “Era Janot” e Temer pode até ter pretensões a ser o grande eleitor nas eleições gerais do ano que vem.
Daqui pra frente, segundo essa perspectiva da mídia, Temer vai nadar de braçada.
Tem os votos descarados do fisiologismo na Câmara. Tem o apoio astuto da mídia, que em algum momento, logo depois da gravação de Joesley Batista ameaçou abandoná-lo, mas logo viu que o risco de embananar o golpe não compensaria.
E tem o apoio do empresariado, que faz aquele discurso moralista contra a corrupção, mas não tem dúvida que seu homem neste momento é Temer.
Não será por acaso que a CNI (Confederação Nacional da Indústria) divulgou na segunda feira uma pesquisa sobre o índice de confiança do empresariado.
“Confiança do empresariado atinge 56 pontos, acima da média histórica”, é o título do release distribuído e fartamente reproduzido nas colunas e análises econômicas desta terça-feira, véspera da votação.
Da agenda que sustentou o golpe, a rigor, está faltando apenas a Reforma da Previdência, que hoje mesmo o ministro Meirelles disse que entrará em votação em novembro.
Agora é embalar a classe média com manchetes sobre os “sinais de recuperação econômica” e aí estará o próprio Meirelles como candidato do continuismo, com a bandeira de que em pouco mais de um ano “com medidas de austeridade e sem populismo” o governo Temer “colocou país nos trilhos”.
Há lugar para as abelhas no trem do Agro?
Geraldo Hasse
Na edição de outubro de 2017 da revista Globo Rural, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, que costuma dedicar seus artigos a temas institucionais ligados ao agronegócio, escreve sobre um assunto aparentemente “light”: o papel decisivo das abelhas na polinização de culturas agrícolas.
Falar de abelhas, mel e polinização pode parecer falta de assunto de um líder rural habituado a raciocinar sobre a crescente presença da agricultura brasileira no contexto econômico mundial, mas a verdade é que, ao se aproximar dos 80 anos, Roberto Rodrigues reza tanto pela cartilha do ambientalismo quanto pelos manuais da economia. Em seu artigo, cita até a célebre frase atribuída ao físico Albert Einstein, falecido em 1955: “Se as abelhas desaparecessem da face da Terra, a espécie humana teria somente mais quatro anos de vida”.
Até hoje ninguém sabe se o gênio fez a conta certa – apenas quatro anos?! –, mas todo mundo compreendeu o alcance da frase sinistra: Einstein estava simplesmente chamando a atenção para a articulação recíproca entre os seres vivos. Sessenta anos depois, alguns luminares da raça humana começam a entender o papel das abelhas como guardiãs da biodiversidade.
“No Brasil, cerca de 250 espécies de animais (das quais 87% são abelhas) polinizam 75 culturas agrícolas”, escreveu Rodrigues, que tem conhecimento técnico sobre o assunto, pois é agricultor, foi professor de agronomia e se destacou internacionalmente como ativista do cooperativismo na agricultura — hoje é consultor da Fundação Getulio Vargas e da ONU.
Somente a européia Apis mellifera, a “abelha profissional”, poliniza 28 culturas agrícolas, especialmente frutíferas. São também importantes nessa tarefa as abelhas nativas sem ferrão como a irapuá e a jataí, domesticadas por apicultores amadores e profissionais. Quanto a outros insetos, pouco se sabe além do fato de que, sem a mamangava, a flor do maracujá não prosperava…
A contribuição anual da polinização ao incremento das culturas comerciais brasileiras é estimada em US$ 12 bilhões pelo professor Adilson Paschoal, da Escola Superior de Agricultura de Piracicaba. Isso representa cerca de 12% do valor da produção agrícola nacional, mas a questã vai além do aspecto comercial-safrístico.
Na realidade, mesmo luminares da agronomia esquecem o valor da polinização na manutenção da biodiversidade. Avalie-se a sustentabilidade da flora brasileira, espalhada por seis grandes biomas – Amazônia, Cerrado, Semiárido, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa — que se subdividem em incontáveis ecossistemas. Em todos eles as abelhas estão presentes, produzindo uma enorme variedade de méis crescentemente exportados. Isso sem falar de outros produtos como a própolis, usada em cosméticos e medicamentos.
Atualmente, o Brasil produz 40 mil toneladas de mel por ano e exporta mais da metade disso. Nos bastidores da apicultura, comenta-se que o Brasil poderia exportar 200 mil toneladas por ano, se produzisse tal volume. Por que não produz mais?
Aí está o X da questão: a maior barreira à expansão da apicultura reside na agricultura moderna, que precisa da polinização mas se tornou dependente do uso intensivo de produtos químicos tóxicos para animais e plantas.
Ainda não se sabe como agricultores e apicultores vão sair dessa sinuca. Como os desmatamentos estão mais ou menos controlados, o maior obstáculo à expansão da apicultura é o uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras comerciais.
Há dez anos diversos pesquisadores ao redor do mundo estudam as causas da mortandade de abelhas melíferas, fenômeno ocorrido pela primeira vez nos Estados Unidos em 2006. Alguns estudos afirmam que o fenômeno conhecido como “síndrome do colapso das colméias” tem mais de uma causa, mas não há dúvida de que uma delas, provavelmente a principal, é uma nova classe de inseticidas — os neonicotinóides –, que interferem no sistema nervoso central das abelhas, fazendo com que, desorientadas em sua busca de néctar e pólen, elas não voltem às colméias, morrendo no campo.
Em consequência dessa síndrome que se confunde com outras causas como a morte por doenças, fome, frio ou até por velhice (a abelha melífera dura 45 dias), as colméias sofrem um colapso populacional de até 50% que faz cair significativamente a produção de mel.
Líder na produção nacional, a apicultura do Rio Grande do Sul, que já passa por dificuldades naturais causadas pelo excesso de chuvas e de frio no inverno, está sendo obrigada a se defender dos venenos aplicados em lavouras de verão, sobretudo soja. A salvação está na diversidade vegetal ainda existente no território gaúcho.
Segundo o artigo de Roberto Rodrigues, a Embrapa está se engajando num projeto de expansão da apicultura, tendo destacado para tanto o veterano agrônomo Décio Gazzoni, baseado em Londrina, onde fica o Centro Nacional de Pesquisa de Soja. Nada mais natural já que a soja, com 34 milhões de hectares/ano, é de longe a maior lavoura nacional e a maior usuária de venenos agrícolas.O golpe dentro do golpe
O parlamento brasileiro deu dois tapas na cara da cidadania.
No Senado, terça, foi anulado o afastamento do senador Aécio Neves, determinado pela Justiça depois da escandalosa gravação em que ele pede dinheiro ao empresário Joesley Batista.
E, na Câmara no dia seguinte, a Comissão de Constituição e Justiça decidiu arquivar a segunda denúncia contra o presidente Temer, originada pelas delações no âmbito da Operação Lava Jato. Ficou aberto o caminho para sua vitória no plenário, na próxima semana.
São dois tapas que selam aquilo que o senador Romero Jucá definiu como “estancar a sangria” ou seja esvaziar as investigações que nos últimos dois anos expuseram ao país as vísceras podres do seu sistema político.
Nenhuma novidade, considerando-se que há no Congresso uma “bancada ruralista” capaz de alinhar seus votos em troca de um decreto que praticamente legaliza o trabalho escravo no país que, é bom lembrar, foi a última nação do mundo civilizado a abolir a escravidão, graças exatamente ao poder dos “terratenientes”.
Nenhuma novidade também no comportamento da midia corporativa e seus comentaristas amestrados, em certos momentos tão indignados com a “corrupção que campeia solta” e que, agora, fazem “olho branco” para os dois tapas violentos estampados pelos corruptos na cara da cidadania.
O Globo, Folha, Estadão e todo o séquito de repetidores pelo país afora… Nenhuma indignação, nenhum chamamento que possa representar qualquer alento ao cidadão espezinhado. Só o registro objetivo dos fatos, num tom oficioso para dar a entender que é assim mesmo. “Quem tem aliados tem tudo”, como escreveu a colunista.
Aqueles comentários indignados, aqueles editoriais, aqueles reptos de que a Lava Jato era intocável, que o combate à corrupção é uma exigência da sociedade… foram para a lata do lixo. A Lava Jato agoniza em praça pública.
Como disse, em editorial, o Globo, de onde emana a diretriz principal que inspira o jornalismo oficioso, os parlamentares perderam oportunidade de atender aos anseios da população por justiça, mas o importante é que a Constituição foi respeitada, “manteve-se intocável o fundamento constitucional de harmonia entre os poderes”.
Esse foi o golpe dentro do golpe. Agora é tocar pra frente que ainda tem a reforma da Previdência para aprovar antes da eleição de 2018.
O que faria Borges de Medeiros no lugar de José Ivo Sartori?
Geraldo Hasse
Há 100 anos, os empresários do RS, principalmente os comerciantes, descontentes com a situação do transporte ferroviário, controlado então por um grupo francês que o herdara do norte-americano Percival Farquhar, costumavam fazer duas cousas mais ou menos consecutivas: reclamar à imprensa e visitar o presidente do Estado, Borges de Medeiros, a quem pediam para sanar a crise de abastecimento, sintetizada pelo titulo “a falta de vagões”.
Pelo que relata a coluna histórica do Correio do Povo, a personagem central da crise era o gerente da ferrovia, um tal Mr. Cartwig, que viajava mais ou menos incógnito pelas linhas férreas gaúchas, oferecendo, aqui e ali, desculpas para a precariedade do serviço de transportes. Segundo ele, não havia quem pudesse fornecer vagões a curto prazo…
Cartwig era um quiabo.
Já se podia então entrever no seu comportamento esquivo o desejo de sair do negócio, mas os senhores empresários não pegavam a deixa nem se ofereciam para achar uma solução como uma parceria; eles simplesmente pediam que o governo peitasse o problema e buscasse um desfecho favorável à economia estadual, ainda que às expensas do Tesouro.
Efetivamente, pouco mais de um ano depois, em 1919, o governador Borges de Medeiros encampou a ferrovia, fundando a Viação Férrea do Rio Grande do Sul, que passou a fazer dobradinha logística com o Porto de Rio Grande, também estatizado uma década antes. Ficou assim provado que os sinais do tráfego mudam de acordo com as conveniências da época.
Nos tempos de Borges de Medeiros, que se alongaram por três décadas, eram pró-estatização os empresários desta bela província hoje governada por José Ivo Sartori.A importância das fundações e estatais gaúchas no Polo Carboquímico
No mês de setembro, o governo do estado apresentou o Projeto de Lei nº 191/2017, que cria a Política Estadual do Carvão Mineral e institui o Polo Carboquímico do RS, possivelmente uma das derradeiras oportunidades para impulsionar o uso deste bem mineral no estado de forma sustentável em seus aspectos social, econômico e ambiental.
Neste cenário, em que mais se precisa de apoio técnico, o Poder Executivo segue atacando as fundações da área tecnológica e as estatais gaúchas, abrindo mão de quadros técnicos altamente especializados em vez de se beneficiar da sua expertise nas políticas públicas propostas pelo projeto.
As fundações e as sociedades de economia mista possuem corpo técnico qualificado para trabalhar na implementação e apoio à instalação de empreendimentos carboquímicos, assegurando requisitos de viabilidade técnica e econômica, com idoneidade e compromisso social e ambiental.
A indústria carboquímica permite que produtos químicos sejam obtidos a partir do carvão mineral, assim como é possível através do petróleo na petroquímica, aplicando modernos conceitos de Engenharia e tecnologia em prol da sociedade e do desenvolvimento do estado e da Metade Sul.
Reconhecemos a importância da Política Estadual do Carvão Mineral, uma vez que o nosso estado concentra 90% das reservas nacionais de carvão, uma verdadeira riqueza a que podemos chamar de “Pré-Sal Gaúcho”. Entretanto, o Sindicato dos Engenheiros alerta para o imprescindível diferencial tecnológico que representam os quadros técnicos das fundações e empresas públicas na exploração deste potencial e para a implantação de complexos carboquímicos resilientes. Isso irá refletir diretamente no desenvolvimento desta importante cadeia produtiva.
A experiência da CIENTEC no desenvolvimento de tecnologias aplicadas ao carvão mineral e seus subprodutos está sendo desprezada, como também dados estatísticos e econômicos da FEE na elaboração da política pública e no planejamento de ações.
O desenvolvimento de políticas ambientais sem o acompanhamento de técnicos especialistas em conjunto com a Fundação Zoobotânica (FZB), por exemplo, não estão previstos nesse Projeto de Lei, tampouco os impactos do crescimento demográfico, na infraestrutura e logística nas regiões alvo do projeto, onde poderia estar presente a Metroplan. Além disso, temos a capacidade da CRM na exploração do carvão e o poder de distribuição da SULGÁS – ambas sociedades de economia mista – levando gás natural à população e contribuindo diretamente com a indústria e o desenvolvimento econômico do estado.
A retomada do crescimento com a modernização da estrutura pública passa, necessariamente, pelo trabalho destas instituições, no sentido inverso do que está sendo proposto pelo governo. Inúmeros são os exemplos do trabalho das fundações e empresas públicas que, nos últimos anos, vêm contribuindo com o desenvolvimento.
A instalação do Polo Petroquímico do Sul há 35 anos foi decorrente dos esforços conjuntos da FEE e da CIENTEC e, hoje, o complexo conta com seis empresas e aproximadamente 6.300 funcionários, gerando riquezas em produtos e serviços, bem como impostos.
Na indústria do carvão mineral, temos importantes contribuições da CIENTEC aos estudos para gaseificação do carvão mineral de Candiota e reutilização das cinzas da sua combustão na construção civil, e ainda o trabalho da CRM no desenvolvimento da planta de beneficiamento a seco, método que evita a geração e o lançamento de efluentes líquidos em nossos mananciais.
É preciso aproximar e fortalecer ainda mais essas instituições e suas competências específicas como resposta do estado e da sociedade gaúcha às demandas para o desenvolvimento.
É fundamental o engajamento destas estruturas nas políticas públicas, sob pena de implantar o Polo Carboquímico de maneira não sustentável, com viés exclusivamente comercial, deixando de lado o necessário projeto de retomada do crescimento do estado como um todo, seguindo as boas práticas para o desenvolvimento tecnológico sem viés político.
O SENGE continuará denunciando as consequências prejudiciais dessas medidas, que representam um grave ataque às fundações, empresas públicas e seus quadros técnicos, bem como à pesquisa e à tecnologia, impactando diretamente uma área que deveria ser incentivada como propulsora de desenvolvimento: a Engenharia.
Crime de Imprensa
O imediatismo que domina as grandes redações já lançou no cesto das notícias velhas o suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luis Carlos Cancellier de Olivo.
A principal razão é que até mesmo os vetustos jornalões, que não cansam de proclamar seu compromisso com a verdade dos fatos, sujaram o nome neste episódio.
Uma coisa é uma delegada abusar da sua autoridade ou uma juíza inexperiente exorbitar, incorrer em erro. Outra é uma imprensa inteira engolir sem mastigar informações erradas e consagrar versões baseadas em delações duvidosas. O cartaz que uma estudante tentou colocar sobre o caixão, no velório, cobrando “Cadê os 80 milhões”, diz tudo.
A mídia tem sido bem sucedida em suas manobras para encobrir erros históricos. Vamos ver agora.
Se as reservas de cidadania e consciência democrática que o país ainda tem não forem suficientes para exigir o amplo esclarecimento desse caso, é porque estamos muito pior do que se imagina.
