Pinheiro do Vale
O PT está com pé de cada lado do muro na sucessão do Senado Federal.
Com o pé direito o partido de Lula se mantém no jogo participando da mesa diretora da Casa. Com o pé esquerdo reafirma sua oposição ao governo golpista de Michel Temer.
Para a esquerda o importante é ter voz no processo legislativo. É este o sentido para composição com o PMDB para ter a Secretaria Geral da Mesa e não o objetivo menor, como diz a imprensa, de assegurar entre 20 e 30 vagas para assessores parlamentares para correligionários.
Participando da Mesa o PT terá lugar nas comissões. De outro lado, um grupo se manifesta dissidente, que defendeu não integrar um colegiado que será comandado pelos partidos governistas.
Trinta por cento da bancada petista rejeitou votar em Eunício Oliveira (PMDB/CE). OU seja, de 10 senadores, três não aceitaram o acordo: Lindbergh Faria. Gleise Hoffmann e Fátima Bezerra.
Os demais, incluindo o gaúcho Paulo Paim marcharam com o situacionismo.
A mesa diretora fica assim: PMDB com a Presidência.2ª Vice-presidência e uma 1ª Suplência; PSDB, 1ª Vice-presidência e 4ª Secretaria; PT, 1ª Secretaria (ou secretaria geral); P 2ª Secretaria; PSB 3ª Secretaria. As demais três suplências ficam com PR, PSD e DEM.
O secretário geral, José Pimentel (PT/PE), vai administrar um orçamento de 4,2 bilhões de reais. É muito poder.
Um ponto obscuro desse desdobramento ainda é o mencionado “acordão”, fechado na calada da noite de 31 de agosto, quando foi selada a sorte da ex-presidente Dilma Rousseff, nos últimos minutos do mês fatídico.
Em troca do fatiamento da pena da mandatária os golpistas cederiam a primeira secretaria das duas casas do Congresso ao PT, garantindo, assim, uma parcela de poder ao partido defenestrado. Em troca, os petistas votariam no candidato do PMDB. O acordo foi cumprido.
Mas há outra nuance no acordo: é do interesse dos grandes partidos varrer o chamado “Centrão” do picadeiro, reservando a arena somente às grandes forças, quais sejam; PMDB PSDB e PT.
Esses três partidos protagonistas comandarão o espaço político.
Em resumo: os grandes asseguram a governabilidade. O irrequieto e imprevisível ”Centrão” fica excluído, perdendo seu poder de barganha.
O que hoje se chama “centrão” não é a mesma coisa que um bloco com essa denominação representou na Constituinte de 1988.
Naquela época formou-se um grande bloco conservador para se opor ideologicamente à esquerda e, também, a uma extrema direita que expressava, por exemplo, a antiga UDR (União Democrática Ruralista) do deputado goiano Ronaldo Caiado.
Atualmente o “centrão” é uma força ideologicamente difusa integrada pelos partidos integrados por quadros fisiológicos, cuja atuação se caracteriza pelo posicionamento caso a caso diante das demandas do governo.
Este “centrão”, no governo Dilma, era comandado pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) e foi a principal causa da sua desestabilização.
São as chamadas “legendas de aluguel”, engrossada por dissidentes e descontentes dos grandes partidos, como era o caso do próprio Cunha.
Na Câmara, onde esse bloco informal é poderoso, o “centrão” ameaça a candidatura oficial do deputado Rodrigo Maia DEM/RJ), alinhado com o Palácio do Planalto e com apoio das três grandes forças.
No entanto, não obstante as orientações do ex-presidente Lula, o PT está relutando para cumprir o acordo. Os parlamentares do partido temem ser crucificados na próxima eleição em 2018.
A bancada petista na Câmara dos Deputados vive seu dilema: se ficar no bloco dos grandes pode ser execrado por seu eleitorado. Se refugar corre o risco de ser incluído como inocente útil no exdruxulo bloco do “centrão”.
Como diria o velho Blau: “é duro nadar de poncho”.
Categoria: Análise&Opinião
O dilema do PT nas eleições do Congresso
Os segredos de Dona Laila
Cláudia Rodrigues
Dona Laila não vive mais, mas deixou na memória de suas filhas e filhos uma lembrança alegre de tempos tristes de enfastio. “Mamãe se esforçava ao máximo para que a comida durasse o mês inteiro, mas não havia jeito, sempre chegava o dia do passeio ao Bosque de Rio Preto. Para nós aquilo era pura alegria, chegávamos famintos da escola e ela já estava com a panela enrolada em um pano dizendo: hoje é dia de piquenique! Esquecíamos a fome e seguíamos debaixo do sol ardente até o Bosque. No Bosque, além de ver os animais, podíamos correr e brincar nos balanços e escorregadores, enquanto ela estendia o pano no chão e começava a moldar bolinhas de arroz que comíamos indo em vindo, numa verdadeira labuta de lava a mão, come o bolinho, brinca mais um pouco, suja a mão, lava a mão, outro bolinho. A água do bebedouro era gelada no ponto, não chegava a doer a testa, mas era muito refrescante, a tarde passava lenta e à noite, muito cansados, era hora do bolinho frito. Ganhava um bolinho a mais quem encontrasse um ovo no quintal para dar liga. Levei anos para desconfiar que só havia arroz, o único alimento que não faltava em casa, além de ovos.
E assim passei a infância acreditando que minha vida era ótima, não nos faltava nada e podíamos ir sempre ao Bosque, passeio que muitos de nossos amigos não faziam porque era passeio de rico. Sobre comprar coisas e comidas prontas, ela lamentava pelos outros: coitados, não olhem, eles não sabem fazer piquenique, ficam com ciúme da gente! Ela era assim, minha mãe, se chovesse ela inventava banho de chuva, se faltava luz brincava de teatro de sombras e quando a coisa encrencava, ela era o Sr Sargentão e nós os soldados enfileirados para entrar no banho um a um. Hoje, quando fico brava com meus filhos por causa de nada, por causa de pressa, eu, uma senhora que tem máquinas e faxineira, uma imagem que me vem é dela no tanque lavando roupa a mão a me chamar: vem cá, criança, vem escutar o barulho que faz essa espuma quando aperto bem e quando aperto menos. Ela era assim, até passeio nos trilhos do antigo trem ela inventava, uma simples pena de galinha nas suas mãos, contra o sol, virava foco de admiração em mil cores. Ela não dava conta de ver a gente triste por causa de uma prova ou qualquer rusga no colégio, então sempre tinha o que dizer, mostrar e nos faz sentir para esquecermos os pensamentos ruins.”
Dona Laila, na sua simplicidade, buscava uma solução ótima para que a responsabilidade e os problemas da vida de adultos pobres com uma família de sete pessoas não pesasse sobre as crianças. Mais do que isso, fez altas viagens sem sair do mesmo lugar, soube ser sem ter, fez literatura sem escrever, foi artista e poeta sem nunca ter visto o mar, conhecido pântanos, montanhas, cânions ou cachoeiras.
No seu aniversário de 80 anos os filhos e filhas a levaram para comemorar em um hotel fazenda. Foi a primeira vez dela em um hotel, ficou muito alegre quando subiram um pequeno monte para fazer um piquenique perfeito, de cinema, ideia da filha caçula. Foi lá em cima, com a família toda, todos os filhos, filhas, noras, genros e crianças netas que ela contou, rindo muito, sobre a razão dos piqueniques no Bosque, os banhos de chuva, os passeios sobre os trilhos, o teatro do corte de luz.
Provocada pela filha mais velha, que a aconselhou a ter uma ajudante em casa e descansar porque teve uma vida dura, Dona Laila fez um pequeno discurso.
“Vocês acham que um tive uma vida dura, mas eu levei a vida que é minha e ainda levo. Vocês acham que se divertir é só ir para hotel e ficar sem fazer nada, fazer viagens longas para ver paisagens, isso tudo é bonito também, eu vejo nas fotos que vocês mandam, eu vejo agora aqui como tem coisa bonita para ser ver no mundo, mas se vocês somarem as férias de vocês, os feriados e toda vida que eu tive, eu me diverti mais porque a vida minha é eu que faço todo dia e todo dia nasce novinho em folha só para a gente se distrair até a noite chegar. Amanhã de manhã vocês vão estar correndo da vida a postar fotos do dia de hoje sem prestar atenção no dia de hoje de vocês, que é amanhã. Para mim o dia de hoje vai morrer hoje e amanhã eu vou estar lá olhando as galinhas se estão bem e vou ficar tão feliz se nenhuma estiver empesteada, vou lá no fundo do pátio ver se o cacho de banana já está bom, se não estiver vou ficar animada para voltar dois dias depois, se estiver bem bom eu já vou colher e isso vai ser tão alegre. Depois do almoço, em vez de costurar as roupas de madame, como eu fazia quando era jovem para sustentar a casa, vou fazer as roupinhas de boneca para as minhas clientes da feira, as meninas de 8 anos que pedem vestidos de bruxa, noivas e dançarinas espanholas sem jamais reclamar do feitio, só exclamando que tudo é tão fofo e lindo”
Mamãe, diz o filho mais velho, é que nós nos preocupamos com sua saúde, seu bem-estar…
“Bem lembrado, gostaria de falar para vocês que qualquer dia eu vou morrer porque a vida acaba e a minha já está no fim, vocês que são doutores e tão inteligentes em matemática devem saber fazer as contas e calcular que uma pessoa de 80 anos já está no fim da vida, então não me venham socorrer com ambulância caso me falte o ar. Me deixem ir, façam um piquenique bem lindo para as crianças, nem que seja com bolo de arroz e prezem por esse tal de meu bem-estar me deixando ir. Se vou subir ou vou descer, isso é preocupação minha de adulta mais velha, não é da conta de vocês para onde vão os que morrem. A função de vocês é distraírem-se do tédio trabalhoso da vida, seja em hotel ou no bosque, aqui mesmo em Rio Preto, na Pindaíba ou em Paris porque em qualquer lugar do mundo haverá uma criança para banhar, alimentar e fazer dormir, nem que essa criança seja cada um de vocês sozinhos por conta própria.
Então, se acham ruim eu morrer vão se distraindo disso desde já com qualquer coisa melhor para sentir, que pode ser água fria ou água morna, sol ou sombra, a maior das piscinas dos parques aquáticos ou qualquer bacia no pátio porque o poder de sentir boas sensações não depende só da visão, do que aparenta, do que aparece, do que parece, é uma coisa de dentro da pessoa. Querem que eu prove?
Me digam vocês, que já experimentaram tantas dessas comidas de chefs; quando alguém fala em melhor arroz do mundo, que arroz é que os riquinhos lembram?”Morte de Teori: nada foi esclarecido, tudo vai ficando claro
Bastou um laudo preliminar para enterrar de vez a hipótese de sabotagem na queda do avião que matou o ministro Teori Zavascki e outras quatro pessoas, há uma semana.
O centro de investigações da Aeronáutica, numa nota curta, informou na quarta-feira que o gravador de voz retirado do avião não revela nenhuma anormalidade no voo.
Foi o suficiente, apesar da advertência de que era uma primeira conclusão dos peritos (que não têm nome, nem rostos).
Na verdade, essa conclusão já estava plantada no noticiário da Globo e assemelhadas que, desde o primeiro dia, advertiram seus editores e articulistas para evitar as “teorias conspiratórias”.
Resultado: sem que se saiba quase nada do que realmente aconteceu, já não há mais dúvidas no noticiário. Foi uma lamentável fatalidade que retirou de cena o relator de um processo que envolve todos os caciques da política brasileira, a começar pelo presidente da República.
Afastada a hipótese de crime, o noticiário tenta ver o lado positivo da tragédia e acha razões para otimismo.
A morte de Teori, louvado em prose e verso, não foi em vão. A comoção nacional por seu trágico desaparecimento será o alento dos que acreditam na Justiça. A Lava-Jato vai continuar, revigorada.
Aí começa o segundo ato.
O colunista Merval Pereira, mentor político da Rede Globo e afiliados, amigo íntimo de Gilmar Mendes, lança o nome do ministro Luiz Edson Fachin para relator da Lava-Jato. Fachin, indicado por Dilma Rousseff para o STF em 2015, é considerado um petista, é “amigo pessoal e de convicções” de Lula e Dilma.
Enquanto as tropas à direita se movem para tirar Facchin da jogada, Gilmar Mendes move suas peças. Janta com Temer, reservadamente, mas se deixa filmar numa cena descontraída no jardim do palácio, com o presidente e Moreira Franco. Diz que tem “relações de companheirismo e diálogo” com Temer há 30 anos.
Isso aconteceu no domingo. Na quarta-feira, Gilmar foi à ministra Cármen Lúcia, presidente do STF, que tem em suas mãos o poder de indicar o novo relator da Lava-Jato.
Sai do encontro, de meia hora, dizendo aos repórteres que encararia com naturalidade assumir o cargo de relator.
Claro que a indicação de Gilmar é improvável, até por suspeita. Ele já apontou restrições à condução da Lava-Jato. Mas pode ser alguém sob sua influência.
As almas mais puras que habitam as franjas do poder acreditam que a ministra Cármen Lúcia é uma barreira suficiente para conter qualquer plano de esvaziar a Laja-Jato.
Sim, o fortalecimento da ministra é o aspecto mais positivo de todo esse processo pós-Teori.
Mas ela enfrenta circunstâncias adversas. Depois do enterro de Teori, por exemplo, noticiou-se que Carmen Lúcia, na condição de presidente do STF, poderia, em caráter emergencial, homologar as delações dos executivos da Odebrecht, como se esperava que o relator fizesse neste início de ano.
Ergueram-se as reações imediatamente, primeiro veladas, depois personificadas no ministro Marco Aurélio Mello, que advertiu para o risco: uma decisão emergencial poderia dar margem a questionamentos que prejudicariam o processo. Não se falou mais no assunto.
OBSERVAÇÃO: A ministra Carmen Lúcia acabou homologando as delações dos diretores da Odebrecht nesta segunda-feira, 30 de janeiro. Mas, detalhe crucial, manteve o sigilo sobre os depoimentos.A bola do jogo político quica na frente de Cármen Lúcia
GERALDO HASSE
Nos últimos dois anos, à medida que se aprofundavam as investigações sobre a corrupção de políticos mancomunados com empresários privados e altos funcionários de estatais, três pessoas do Judiciário se tornaram os atores principais da cena brasileira: o chefe do Ministério Público Federal Rodrigo Janot; o juiz de primeira instância Sergio Moro, baseado em Curitiba; e o ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki, relator do processo da Operação Lava Jato.
Ao mesmo tempo em que crescia o trio do Judiciário, saíam do palco, na marra, a presidenta Dilma Rousseff, alvo de um impeachment maroto; e o deputado carioca Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara Federal, preso pela Operação Lava Jato. No lugar dos dois caídos, estão o vice-presidente Michel Temer e o deputado carioca Rodrigo Maia, cujo(s) comportamento(s) não vêm gerando o menor entusiasmo – ao contrário.
Com a morte de Zavascki em acidente aéreo no litoral do Estado do Rio de Janeiro, avulta agora a figura da ministra Carmen Lucia, presidenta do STF. Voluntariosa, ela bem que poderia fazer o que se esperava (e se anunciava) que Zavascki estava para fazer: homologar os depoimentos forçados (delações premiadas, segundo o jargão judicial) de 77 executivos da Construtora Odebrecht que, para se livrar da prisão temporária, denunciaram falcatruas em contratos de obras públicas, favorecendo políticos e partidos. Dizem que são tantos os nomes de políticos citados que talvez se torne mais prático transformar o Congresso em prisão temporária.
É um imbróglio fenomenal que só encontra paralelos em 1964 (derrubada do governo Jango Goulart) e em 1954 (suicídio do presidente Getulio Vargas). Desta vez, há o agravante de que as denúncias de corrupção vêm com nomes, valores e as circunstâncias dos crimes.
Se a primeira mulher eleita presidenta da República não conseguiu segurar a barra, terá Carmen Lúcia coragem de fazer sua parte?
A propósito, qual será sua parte no jogo: homologar as denúncias, segurar a bola, passar a responsabilidade para outro, tentar conciliar os adversários numa mesa de pizzaria ou engavetar os processos?
Teoricamente, ela pode tudo; na prática, tem as mãos amarradas por diversos regulamentos. E, no frigir dos ovos, talvez resolva simplesmente dar ouvidos aos colegas ministros, a assessores, amigos e parentes. Pois os processos que estavam com a equipe de Teori Zavascki são explosivos por envolver cifras monumentais e comprometer altas figuras da república, incluindo o atual ocupante da cadeira principal do Palácio do Planalto.
Diante disso, tem sido natural pensar que o ministro-relator da Lava Jato foi vítima de uma armação criminosa. Sua morte pode ter sido mais uma brincadeira do D., seja ele o Destino ou o Demônio (Deus provavelmente não tem nada a ver com isso).
Não se deve esquecer que no verão, entre o Natal e o Ano Novo ou entre o Ano Novo e o Carnaval, sempre há uma tragédia no Brasil. Assim, pode-se admitir que a morte de Zavascki faça parte dessa quota acidental. Nesse caso é de lamentar que ele tenha saído de cena sem que os brasileiros ficassem sabendo o que ele estava para fazer: ia tocar os processos pra frente ou segurá-los? Era um homem discreto, um típico juiz que “só falava nos autos”. Estaria avaliando as ameaças recebidas?
Se o acidente foi forjado, porém, podemos concluir que não foi “queima de arquivo”, pois os arquivos da Lava Jato estão vivos nos escaninhos do Judiciário. Admita-se então, como hipótese mais robusta de investigação das circunstâncias do acidente, que o avião pode ter sido derrubado para intimidar quem vier a assumir a responsabilidade de avaliar as denúncias feitas pelos prisioneiros da Operação Lava Jato.
Mais uma vez, o Judiciário está no olho do furacão. E agora sob a presidência de uma mulher.
LEMBRETE DE OCASIÃO
Num jogo de futebol numa pequena cidade do norte do Paraná, algumas poucas décadas atrás, o árbitro marcou um pênalti contra o time da casa. Bate-boca, cobra-não cobra, a bola foi colocada na marca fatal. Eis que o chefão do clube mandante se aproxima e desfere um tiro na bola, que “morre” na hora. Fecha o tempo, acaba o jogo.O muro de Natal e os territórios da criminalidade
PINHEIRO DO VALE
O “Muro da Vergonha” assenta seus primeiros tijolos.
Não se trata do muro da vergonha do Donald Trump para separar os Estados Unidos do México, mas refere-se ao “muro” do Michel Temer, que seu ministro da Justiça, Alexandre Morais, mandou levantar dentro da Penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, para separar o país do Primeiro Comando da Capital (PCC) da nação do Comando Vermelho (CV).
Do lado de fora das muralhas da penitenciária, a Força Nacional (também chamada de “farsa nacional”, devido à sua inutilidade prática) assegura a Constituição da República Federativa do Brasil.
Em espaço exíguo temos três estados diferentes, numa área inferior aos 0,44 km² do Vaticano, até então o menor país do mundo.
PCC e CV constituem, nos subúrbios de Natal, frações dos “estados do crime”, como se definem em suas constituições escritas, territórios demarcados, com força para serem reconhecidos, pois têm povo, limites, legislações e pleno domínio dos territórios.
O CV, no Rio de Janeiro, é senhor absoluto e indiscutível de territórios e tem sob sua legislação uma população de mais de dois milhões de pessoas.
O PCC, em São Paulo, tem um a área maior e uma população de três milhões de habitantes. Em outros lugares, os estados do crime têm outro tanto ou mais.
Esses “países” têm uma população maior que o Uruguai, mais gente que o Paraguai; detêm cerca de 0,5% da população da República Federativa do Brasil. Não é pouco.
Com isto, chega à América do Sul um modelo legal semelhante ao implantado pelo pelos fundamentalistas do Estado Islâmico nas porções do Iraque e Síria, em que tribunais próprios implantaram um código penal baseado da sharia primitiva do Século IX, com degolas e suplícios aos incréus.
Nos países do PCC e CV os “tribunais da criminalidade” impõem seu código penal nos moldes da Europa nos tempos bárbaros do Século V. Com suas tábuas de leis escritas, esses tribunais do crime têm um colegiado de juízes, defensores e acusadores, absolvendo os inocentes ou condenando os culpados a penas de morte cruel, esquartejamento, tortura ou mutilação.
Assim como no cenário político partidário do Brasil, as grandes facções criminosas abrigam mini facções que, tal qual as legendas de aluguel, gravitam em torno dos grandes comandos. Só PCC e CV têm diretórios em todos os estados.
Recentemente surgiu uma nova federação, a Família Do Norte (FDN), que atua na Bacia Amazônica e em alguns estados do Nordeste.
A FDN traz uma novidade, que é a articulação internacional, pois vem associada aos remanescentes das FARC da Colômbia que, recusando-se à pacificação política, decidiram se manter no tráfico de drogas.
A FDN e os dissidentes das FARC abriram a “rota do Solimões”. Esta rota abriu-se com a fragilização da ligação direta dos carteis colombianos com os mercados consumidores da América do Norte e Europa.
No Sul, sob coordenação do PCC, estabeleceu-se o Narcosur, que, segundo o jornal uruguaio El País, tem sede em Montevidéu, associando cartéis Argentinos, Bolivianos, Brasileiros, Paraguaios e Uruguaios.
O Narcosur é comandado pelo brasileiro Marcos Willian Herbas Camacho, o Marcola.
Segundo denunciou a polícia paraguaia dia 25 de janeiro, o crime multilateral está operando seu suprimento numa ação conjunta do PCC com a facção gaúcha Bala na Cara, que tem seus escritórios no Presídio Central de Porto Alegre.
O Muro da Vergonha do presidente Trump visa impedir não só a imigração ilegal, mas também o contrabando (de drogas e mercadorias) do México para os Estados Unidos. É uma providência de resultados duvidosos.
No fim do século XIX sugeriu-se que se fizesse uma muralha humana entre o Rio
Grande do Sul e o Uruguai, ao que reagiu, incrédulo, o senador Gaspar Silveira Martins: “Se botar um soldado ao lado do outro por toda a fronteira, a contrabando passa pelo meio das pernas”.Sempre a dúvida
WALMARO PAZ
Foi acidente ou foi sabotagem para queima do maior arquivo vivo da cena política brasileira? A Globo e todo o restante da grande imprensa tem repetido que “tudo leva a crer que foi um acidente”. Já as dúvidas foram levantadas pela família da mais importante das vítimas e possível alvo de atentado.
O filho do ministro Teori, Francisco Zavascki, foi o primeiro. Quer uma investigação profunda sobre a morte do pai. “ Não quero ser órfão de um ministro assassinado”, expressou claramente.
Sua tia, a irmã do ministro morto, em entrevista ao Estadão, afirmou “ deve haver coisa grande por trás disso”. Ela lembrou que ele sempre tranquilizava a família afirmando estar sempre cercado de seguranças. A pergunta que ela deixa no ar é: “ onde estavam os seguranças do ministro Zavascki quando ele embarcou naquele avião?
Outra questão que ninguém levanta: a quem serviu a morte de Teori? Quantos indiciados pelas delações da lava jato ganharão mais tempo, como disse o ministro Eliseu Padilha. Alguém já especulou: “ este avião caiu que nem uma luva”.
Creio, sem sombra de dúvida, que esta morte e suas investigações terão o mesmo destino de outras que a antecederam. O acidente do avião que matou o marechal Castello Branco, no Ceará; o acidente de automóvel de Juscelino Kubistchek; a morte em acidente de carro de Zuzu Angel durante da ditadura; a morte súbita de Carlos Lacerda; a morte de João Goulart; a queda do helicóptero com Ulysses Guimarães, também em Parati…
Enfim são várias dúvidas que permanecem em um curto espaço de tempo na história política deste Brasil. Sem falar com as de centenas de desaparecidos menos ilustres durante a ditadura que até hoje suas famílias andam atrás dos corpos.Tom Jobim tinha razão: “O Brasil não é para amadores”
P.C. DE LESTER
Tom Jobim, o grande maestro, que completaria noventa anos por esses dias e que conhecia a alma brasileira como poucos, cunhou a frase genial: “O Brasil não é para amadores”.
Aí está a morte do ministro Teori Zavascki que não o deixa mentir.
A sensação, neste início de ano, é de que o país está nas mãos de duas categorias de criminosos que em algum ponto se tocam – o crime organizado nos porões das cadeias, que corta cabeças e posta no face e o crime do colarinho branco, engendrado em altos gabinetes, capaz de eliminar seus desafetos sem deixar pegadas.
Sem dúvida, não é para amadores…
Em todo caso, resta esperança nas palavras da ministra Carmen Lúcia:
“O crime não vencerá a Justiça. Aviso aos navegantes dessas águas turvas de corrupção e das iniquidades: criminosos não passarão a navalha da desfaçatez e da confusão entre imunidade, impunidade e corrupção. Não passarão sobre os juízes e as juízas do Brasil. Não passarão sobre novas esperanças do povo brasileiro, porque a decepção não pode estancar a vontade de acertar no espaço público. Não passarão sobre a Constituição do Brasil.”
A chefa da Justiça manda recado. É pra valer?
GERALDO HASSE
Até que enfim a ministra Cármen Lúcia, atual chefa do Supremo, pediu aos membros do Judiciário que se empenhem no esvaziamento das prisões, lotadas por 600 mil presos, 40% dos quais trancafiados sem processo em consequência de três fatores principais: o crescimento da criminalidade, a diligência do aparato policial e a morosidade do sistema judicial.
À combinação dessas causas aliam-se outros ingredientes explosivos como a crise econômica, a corrupção no interior das penitenciárias e a influência do tráfico de drogas ilegais em todas as instâncias do poder. Tudo isso, junto, gera uma mixórdia dos diabos, aquecendo o caldeirão que se põe a ferver aqui e ali, ora nas ruas, ora num presídio, ora num palácio governamental.
Eis que vem a suprema juíza e lança ao seu exército o desafio: vamos acelerar os processos de modo a reduzir o volume de presos quase pela metade. Será possível? Vamos pagar para ver como se comportarão os milhares de juízes espalhados por todo o território nacional. O fato é que, se cada um deles tirar de cana um preso por dia, no final do ano a população carcerária terá caído pela metade. Na prática, pode não ser tão simples assim.
A libertação de presos que já cumpriram pena é um dever ético dos juízes. Soltar os presos provisórios ou temporários/preventivos também é obrigação da Justiça. Isso vale para pobres e ricos. E aqui vem um senão: talvez o apelo de Cármen Lúcia caia no vazio, pois o Judiciário não é lerdo à toa. Independentemente dos vícios corporativos, ele administra um sistema cheio de idas e vindas, cursos e recursos, avanços e recuos, tudo de acordo com uma infinidade de leis criadas em nome do Direito – e em nome do Direito não se faz Justiça.
Não é por acaso que há juízes se unindo a procuradores no afã de prender sem provas e condenar sem culpa comprovada nos altos escalões da economia e do governo. É exatamente por isso que o sistema judicial, junto com as redes policiais e o esquema penitenciário, desfruta de pouca credibilidade junto à sociedade, que não se conforma ao ver tantos militantes da Justiça enredados numa teia que se confunde com as redes mantidas pela Corrupção ou, seja, o Dinheiro.
É animador ver a juíza suprema cutucar o sistema, incitando-o a exercer seus deveres e prerrogativas, mas devemos admitir que esse é apenas o primeiro passo no caminho de uma Justiça realmente redentora.
Sabemos que grande parte dos crimes que abarrotam as cadeias é cometida sob efeito de drogas e/ou tendo por motivação disputas por pontos de venda ou áreas de distribuição disso ou daquilo.
Daí se entra num mundo absolutamente surreal: afinal, se as drogas alteram a percepção das pessoas, levando-as a cometer infrações à lei, onde está o problema: nas leis, nas pessoas ou nas drogas? Ou será a busca insana do Dinheiro que transtorna todos?
É de duvidar que Cármen Lúcia ou qualquer um dos seus 10 colegas do Supremo, os desembargadores dos estados e os juízes em geral tenham uma avaliação desse problema ou se disponham a se aprofundar no tema em busca de uma saída planejada.
Até agora, com raras exceções, os togados preferiram manter-se acomodados sob o manto das leis. A maioria não passa dos discursos bem intencionados. Todo início de ano as faculdades de direito convidam sumidades jurídicas para aulas magnas que não mudam uma vírgula sequer nas decisões judiciais. Na própria hierarquia do Judiciário se encontram procuradores e juízes e até funcionários com sensibilidade e disposição para mudar a rotina do Mal, mas a maioria se mantém inerme por medo ou preguiça, só fazendo o feijão-com-arroz de sempre.
Nos poderes executivos, a maior compreensão do problema está mais nos profissionais da saúde do que nos setores policiais ou penitenciários, onde uma parcela dos funcionários faz vista grossa diante do poder do tráfico.
No Legislativo, um ou outro galo sobe na tribuna para cantar, mas já nos acostumamos com as bancadas ágeis na defesa de interesses corporativos e lerdas no aprofundamento de questões cruciais – a maior delas é a saúde física e mental da população, item que depende do nível da educação e por aí vamos até trombar com a desigualdade social, mãe da miséria e da violência. Ou, seja, está tudo junto, sendo as drogas – do álcool ao crack – o denominador comum de grande parte das situações que levam às cadeias e aos hospitais, ao absenteísmo no trabalho e à evasão escolar. .
Assim chegamos à conclusão irrecorrível como uma sentença do STF: não adianta combater o tráfico de drogas, pois quem o sustenta é a demanda dos consumidores. O uso de drogas legais ou ilegais, leves ou pesadas, é questão de saúde, não caso de polícia. Estamos a enxugar gelo.
Após o primeiro lance da ministra Cármen Lúcia, quem terá coragem de encarar o Dragão?
LEMBRETE DE OCASIÃO
“O dinheiro fala. Mas bom mesmo é o dólar, que fala todas as línguas.”
Millor FernandesCaça às bruxas favorece o Centrão
pinheiro do vale
A caça às bruxas já começou. Embora o presidente ilegítimo Michel Temer tenha dado garantias de que não passaria o rodo sobre os remanescentes do governo da presidentedeposta Dilma Rousseff, os dedos-duros estão apontando petistas que permanecem nos cargos depois do golpe.
Nesta semana as denúncias começaram a se explicitar. O colunista Cláudio Humberto, jornalista bem informado sobre os bastidores de Brasília está dando nomes e cargos dos remanescentes do antigo regime que ainda não foram afastados, cobrando providências aos degoladores de cargos do Palácio do Planalto.
Os observadores do que estaria ocorrendo nestas águas turvas sugerem que pode ser uma manobra do “centrão” para aumentar a animosidade entre petistas e peemedebistas com a finalidade de torpedear o “acordão” entre os dois maiores partidos no Congresso para a partilha dos principais cargos nas duas casas do parlamento.
Os dois antigos aliados, compostos com o PSDB, haviam chegado a uma fórmula para a divisão do mando no Poder Legislativo. Com isto, deixariam o volúvel “centrão” de fora, extinguindo essa fonte de instabilidades, como se viu na gestão do defenestrado Eduardo Cunha.
A montagem dos grandes partidos é a seguinte: no Senado, PMDB fica com a presidência com o senador Eunício Oliveira, do Ceará, representante do esquema sarneysista, com apoio de Renan Calheiros; a vice-presidência, cargo importante, mas sem poder de gestão, com o senador Paulo Bauer, do PSDB de Santa Catarina, contemplando o Sul. Ao PT caberia a secretaria geral.
Na Câmara, algo parecido: na presidência o deputado carioca Rodrigo Maia, do DEM (ex-PFL), partido satélite do PSDB, algo semelhante ao PCdoB na sua aliança eterna com o PT. O vice poderia caber ao PMDB e a secretaria geral também ao PT. Ao “centrão”, nas duas casas,caberiam as posições periféricas nas mesas diretoras.
Essa partilha de poder é coerente, pois ao PT, partido de oposição, cabe os cargos mais importantes para a administração das duas Casas, enquanto os governistas ficam com o
comando das pautas de votações. Como disse um senador: “A Secretaria Geral é a prefeitura do Congresso”. Ou seja, os secretários gerais administram uma população de mais de 25 mil funcionários, um númer equivalente ao efetivo da Marinha de Guerra ou do tamanho da força de trabalho da Volkswagen. Sem falar do orçamento, maior que de muitas capitais de estados.
Tudo certinho: só faltou “combinar com os russos”. Uma fração do PT não está engolindo o “acordão” da cúpula e ameaça somar-se ao “centrão”, só para complicar a vida do governo, que se veria diante de uma direção incontrolável no Legislativo, tal qual Dilma.
Isto explica a dúvida especulada na abertura desta matéria. Caçando as bruxas petistas o governo estaria criando uma área de atrito que poderia desaguar na implosão do “acordão”, favorecendo o “centrão” e enfraquecendo a esquerda orgânica.
O “centrão”, é bom lembrar, origina-se numa anomalia recente na história política do Brasil. No passado, o poder central já se defrontou com a fragmentação em partidos estaduais, que formavam frentes nacionais, tal como hoje é o PMDB. Este novo bloco, entretanto, deriva de partidos municipais.
As tais legendas de aluguel nascem nos municípios para compor alianças para prefeituras ou abrir espaço para candidaturas avulsas. Quando se apresentam em nível estadual já se transformam num ente esdrúxulo. No âmbito federal, os partidecos se convertem em balcões de negócios, imprimindo um fisiologismo até então desconhecido.
Estas forças, o chamado “centrão”, são insensíveis e impermeáveis ao chamado interesse nacional. Por isto os grandes partidos se propuseram a desidratá-lo e, com a reforma partidária já aprovada no Senado, extinguir de vez.
Nessa reforma não seria difícil acomodar parlamentares despartidarizados nas grandes legendas sobreviventes. Assim como seus partidos de aluguel, também os parlamentares serão sensíveis a convites apetitosos.
O grande problema, aí, não é na direita, mas na esquerda. Como absorver os pequenos partidos ideológicos e históricos?
São históricos porque têm divergências ideológicas de muitas décadas. É uma questão tão grave que já se propôs uma lei especial para eles. Mas se um dispositivo salva um pequeno partido da esquerda, a legislação valeria para a direita. Com isto, a reforma vai por águas abaixo.
Aí está um problema insolúvel. Traz de volta a sentença vocalizada e nunca escrita por Gaspar Silveira Martins: “Ideias não são metais, que se fundem” ou “ Ideias não são metais que se fundem”. Persiste a dúvida da vírgula.«Grândola Vila Morena»: o hino da contestação portuguesa
A partida de Mário Soares – um dos principais líderes do campo democrático português –, no último dia 7 de janeiro, entristece a todos os democratas. Co-fundador do Partido Socialista português, sua oposição ao ditador Salazar lhe valeu o exílio em São Tomé e, depois, na França, de onde voltou três dias após a Revolução dos Cravos, em abril de 1974. Ocupou o cargo de primeiro-ministro por três mandatos e o de presidente por duas vezes.
O texto que segue, escrito pela professora Maria-Noëlle Ciccia, da Universidade Paul-Valéry, resgata a história e a significação da canção-símbolo da Revolução dos Cravos – Grândola Morena – e presta uma homenagem a este grande personagem da história de Portugal.Patrícia Reuillard
Maria-Noëlle Ciccia
Em Fevereiro de 2013, no momento em que o Primeiro Ministro português Passos Coelho se preparava para pronunciar um discurso sobre o orçamento diante da Assembleia Nacional, um grupo de manifestantes conseguiu interromper o debate parlamentar durante longos minutos, entoando a canção « Grândola Vila Morena » nas galerias do Parlamento (vídeo). A escolha desta canção de José Afonso não se fez ao acaso. Faz hoje parte do património cultural da democracia portuguesa, sacralizada como hino da contestação, embora não tenha sido concebida com tal objetivo. A letra (poema escrito em 1964 em homenagem à Sociedade Musical Grandolense na ocasião da festa da « Fraternidade Operária de Grândola ») e o caminho percorrido graças à transmissão por agentes ligados à dissidência, deram-lhe o caráter subversivo que ela não aparentava inicialmente.
Posta em música pelo próprio Zeca Afonso em 1971, a canção permaneceu clandestina até que foi escolhida como senha pelos capitães da Revolução dos Cravos do 25 de Abril de 1974. Esse destino sacralizou-a enquanto canção política que faz hoje parte do imaginário da nação portuguesa. Esse imaginário é a utopia de uma revolução militar que derrubou a ditadura salazarista, prometendo futuro melhor ao povo. Mesmo que hoje não se tenham concretizado totalmente os ideais revolucionários da altura, a canção continua divulgando as esperanças de mudança política e social em Portugal.
Existem dois tipos de canções políticas, as que foram escritas com conteúdo expressamente político (como por exemplo, « A Internacional »), e as que são recebidas como políticas sem terem sido concebidas nesse intuito (por exemplo « Lili Marleen »). Por razões diversas, elas tornam-se indissociáveis de um momento intenso da vida coletiva. Assim é « Grândola Vila morena », cuja letra inclui palavras politicamente conotadas quando inseridas no contexto e época em que foram escritas.
A própria música, um cante alentejano de tipo tradicional, remete para um canto popular mas também para um canto litúrgico cantado a capella, por grupos de homens, em comunião, dando-lhe um aspeto sagrado. A rítmica dada pelo barulho das botas dos homens a caminho do trabalho na roça « etniciza » o conjunto e remete para o inconsciente coletivo da população rural, pobre, sofrendo condições de vida difíceis (ver o exemplo neste vídeo ). Assim, Zeca produziu uma canção que, embora fosse criação nova, inseriu-se sem dificuldades no património cultural no seu país porque « falava » ao povo. A transmissão oral das canções populares e tradicionais funcionou também aqui para a reapropriação popular da canção. A performância artística dobrou-se de um forte poder integrador, ligando todas as camadas populacionais à volta de uma canção-património que estabeleceu uma ponte entre a tradição e o momento pré-revolucionário e revolucionário. O vínculo entre música e nacionalismo é muito forte pois a música junta os homens, acompanha as manifestações de massa e difunde o sentimento de pertença. Atua mais no afeto do que na razão das pessoas ; daí, o seu impacto mais forte e durável. Ainda por cima, o cante alentejano acompanha-se do movimento unido do grupo de cantores que se move num ritmo binário (balanço de uma perna sobre a outra), dando potência maior às vozes : esse movimento único remete para a imagem de uma união que parece indestrutível. Assim a canção tornou-se canto mobilizador graças às suas qualidade musicais, capazes de despertar um sentimento de pertença e de união popular.
Mas não se pode esquecer o valor da letra que faz de Grândola, cidadezinha do Alentejo, a metonímia feminizada (« morena ») de um país que confraterniza (« terra da fraternidade ») na união da terra e do povo. O verso « O povo é quem mais ordena » lembra o ideal social das terras alentejanas tradicionalmente comunistas. Mas, além do povo na sua globalidade, cada grandolense também é considerado por si só e como amigo de todos os outros. A letra exprime uma alternância entre individualidde e coletividade que permite a cada um de encontrar o seu lugar numa sociedade em que os valores mais importantes são a fraternidade, a igualdade e a vontade, valores humanos e humanistas que lembram o combate iluminista pela revolução e a democracia.
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Dez dias depois do golpe falhado de 19 de março de 1974, Zeca cantou « Grândola » no Coliseu dos Recreios, a grande sala de espetáculos de Lisboa, no Primeiro Encontro da Canção Portuguesa. Curiosamente os censores da PIDE/DGS deixaram-no cantar como também deixaram os outros cantores entoarem a canção no palco. Esse momento de união foi imediatamente sentido como ato militante pelos espetadores ali presentes que a descodificaram logo como canção comprometida. Receberam-no como uma « proposta política », enquanto a canção apenas evocava a condição do povo em termos gerais e simples, sem convite preciso para a luta. Foi o contexto político que levou a tal fenómeno de compromissão e fez da canção uma tribuna política.
Em Abril de 1974, o processo revolucionário dos militares está lançado. Sendo os meios de comunicação insuficientes, eles decidem usar a Rádio Renascença para difundir a senha da marcha sore Lisboa, a canção « Grândola Vila Morena », às 0 h 20 na madrugada do 25 de Abril. A partir desse momento, a canção torna-se definitivamente subversiva e ainda hoje ao contrário da maioria das canções que dificilmente resistem ao envelhecimento, « Grândola », pela sua aura e força simbólica, continua a gozar de prestígio.

Nos momentos de descontentamento social e político, a canção sai à rua. Assim, em Fevereiro de 2013, começou uma onda de grandoladas (substantivo derivado do neologismo grandolar, que significa vaiar uma personalidade cantando « Grandola » para a impedir de falar). A população portuguesa, exausta pelas medidas de restrição impostas pelo governo de Passos Coelho, manifestou o seu descontentamento repetidas vezes. Para tal, não usou o hino oficial português mas, sim, « Grândola » como hino de união nacional. Também nos cartazes dos manifestantes nas ruas, pôde-se ler na altura « Que se lixe a Troika [o FMI, o BCE e a União Europeia]. O povo é quem mais ordena ». « Grândola », ficou hino da revolta, da reivindicação social, institucionalizado numa tradição em Portugal. Pacificamente, a canção tem-se tornado arma de combate para a maior parte da população. Exerce um efeito igualizador, suprimindo a diferença entre as camadas populacionais. O intérprete da canção já não é Zeca Afonso mas o povo português. Arma perfeita porque não violenta, ela consegue mandar calar os homens políticos, reivindicando os valores de uma democracia de que eles próprios se declaram partidários : só podem calar e sorrir. Assim conclui Leonete Botelho : « Como se controlam manifestações avulsas, espontâneas e desenquadradas politicamente ? Não se controlam. Evitam-se. Não fechando as portas dos palácios, porque elas não serão suficientes para conter a indignação. Nem evitando os contactos com as pessoas, porque a sua voz virá sempre pelas ondas hertzianas e electrónicas ».

E assim passei a infância acreditando que minha vida era ótima, não nos faltava nada e podíamos ir sempre ao Bosque, passeio que muitos de nossos amigos não faziam porque era passeio de rico. Sobre comprar coisas e comidas prontas, ela lamentava pelos outros: coitados, não olhem, eles não sabem fazer piquenique, ficam com ciúme da gente! Ela era assim, minha mãe, se chovesse ela inventava banho de chuva, se faltava luz brincava de teatro de sombras e quando a coisa encrencava, ela era o Sr Sargentão e nós os soldados enfileirados para entrar no banho um a um. Hoje, quando fico brava com meus filhos por causa de nada, por causa de pressa, eu, uma senhora que tem máquinas e faxineira, uma imagem que me vem é dela no tanque lavando roupa a mão a me chamar: vem cá, criança, vem escutar o barulho que faz essa espuma quando aperto bem e quando aperto menos. Ela era assim, até passeio nos trilhos do antigo trem ela inventava, uma simples pena de galinha nas suas mãos, contra o sol, virava foco de admiração em mil cores. Ela não dava conta de ver a gente triste por causa de uma prova ou qualquer rusga no colégio, então sempre tinha o que dizer, mostrar e nos faz sentir para esquecermos os pensamentos ruins.”