ANDRES VINCE
Quando o oficial da Brigada anunciou numa entrevista de rádio que os grupos de “black blocs” estavam todos identificados, por um décimo de segundo, deu pra imaginar que a depredação do Estado ia ter fim.
Mas, infelizmente, o comandante não se referia aos que dilapidam o patrimônio do Estado e jogam no desemprego milhares de técnicos qualificados, com a desculpa de que vendendo os móveis é que vamos salvar a casa.
O alto comando da Brigada não se referia ao grupo formado pelo governador e a esmagadora maioria dos deputados que passou como um trator por cima de estruturas administrativas que levaram anos para se consolidar, e, que não tem equivalentes no setor privado. Uma verdadeira destruição.
A Brigada tem sido usada como marionete do poder Executivo e, agora, do Legislativo, pois até hoje, ninguém achou a tal requisição para o isolamento da AL pela BM, que deveria ter sido aprovada pela mesa diretora, ao menos, pelo pouco que se sabe.
Ministério Público quieto que nem guri cagado (atualizado a pedido dos nativistas, pois a expressão que usei estava equivocada), como dizem por esses pagos. Soube-se depois que representantes do Judiciário transitavam livremente fazendo lobby pela AL, enquanto o povo tomava bomba lá na porta. “Democracia” no seu estado puro, porque agora protestar virou crime e coisa de vagabundo, então “pau neles” cantam em coro os acéfalos de plantão.
Os primeiros confrontos com a Brigada foram todos creditados a presença de grupos que usam táticas black bloc. Isso foi dito pela própria Brigada e reverberado como verdade absoluta por todos os veículos de comunicação e abraçado como a origem de todo mal pelo funcionalismo público concentrado na praça. Correram os “black blocs”. E, continuaram apanhando, mas, agora sem a proteção dos famigerados “black blocs” que ficam sempre na linha de frente com o que dá pra se defender na mão. Resultado: um servidor da Susepe não ficou cego por um detalhe. Outro detalhe: quem atira bala de borracha na altura da cabeça não está tentando conter ninguém, quer causar dano mesmo.
Os deputados “black blocs” votaram a favor de tudo que era contra o funcionalismo, mas, quando a água bateu na bunda com o projeto dos duodécimos… Aí não João! Rapidamente o grupinho de vândalos se dissolveu e então todos queriam debater, não muito depois de terem “acusado” a oposição por estar tentando fazer exatamente isso.
Existem estruturas inchadas e instituições desnecessárias ao funcionamento do Estado? É claro que existem. Não há dúvida nenhuma. Mas como vamos falar em austeridade quando o Executivo ainda assina jornais em papel, usa publicidade e torto e a direito e gasta milhares de reais em estruturas de repressão (até helicóptero) contra protestos? Isso, sem falar na verdadeira orgia com dinheiro público que acontece no Legislativo e no Judiciário.
Se a massa soubesse o nível de privilégios que realmente reina por esses dois setores, iriam canonizar o Eduardo Cunha.
O que dizer da destruição da FEE, Fundação Piratini e outras autarquias? Austeridade? Piada pronta. Austeridade é quando a empresa começa a controlar o copo do cafezinho. Fechar departamentos e demitir em qualquer empresa é arrocho. Tem nada de austeridade aí.
O povo vai ver a austeridade quando o Estado economizar no copo de cafezinho, não quando ele vender a cafeteira dizendo que é pra salvar o café, enquanto distribuí açúcar apenas para os amigos.
Categoria: Análise&Opinião
Os verdadeiros black blocs estão usando terno
Fiocruz, um exemplo de resistência ao golpismo
Geraldo Hasse
As listas tríplices de nomes para cargos públicos são formadas pelo voto democrático, daí a tradição de que o primeiro nome seja sempre respeitado pelos governos.No caso da Fundação Oswaldo Cruz, o ministro da Saúde só não fraudou a ordem da indicação graças à revolta da maioria dos funcionários da centenária instituição de pesquisa do Rio.Colocada em primeiro lugar na lista tríplice com 60% dos votos, a socióloga Nísia Trindade Lima foi confirmada na presidência.Funcionária de carreira com obra respeitada por sua abrangência e profundidade, Nísia Trindade Lima é autora do livro UM SERTÃO CHAMADO BRASIL (Revan, 1999), que faz uma brilhante releitura das relações históricas entre o litoral urbanizado e os vazios populacionais do interior do Brasil. É um livro que analisa e interpreta as obras de grandes autores nacionais como Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Hollanda, Antonio Candido e Darci Ribeiro, entre outros. No entanto, é trabalho pouco conhecido que merece ser difundido para conhecimento de estudantes, jornalistas, sociólogos, historiadores e economistas.O texto que segue, intitulado A Conquista do Sertão, é um dos capítulos de um livro inédito sobre a ocupação agrícola do cerrado, bioma que representa 22% do território nacional, no qual vem se dando o mais recente choque entre a chamada civilização litorânea e a dita cultura caipira- primitiva-rural. Publico-o em homenagem à nova presidente da Fiocruz.A Conquista do SertãoPara os primeiros habitantes do Brasil, estabelecidos principalmente no litoral do nordeste e do sudeste do país, avançar rumo ao oeste sempre foi a suprema aventura. Caminhar “para dentro” significava desafiar o perigo, correr riscos, sujeitar-se a doenças desconhecidas e…criar um país. Nessa caminhada constante para o interior, os brasileiros tomaram efetivamente posse de um novo território. Quinhentos anos depois, a aventura ainda parece longe do fim. “O deserto é o senhor da colônia”, escreveu o historiador Frederick J. Turner, tentando explicar a corrida dos pioneiros para o oeste norte-americano.Os aventureiros modernos contam com máquinas sofisticadíssimas, mas a conquista definitiva ainda está por se fazer. No miolo do Brasil abrem-se novos caminhos e inauguram-se novas cidades – tudo numa velocidade sem precedentes na história da humanidade. Uma das atividades mais primitivas dos seres humanos, a derrubada de matas para a implantação de lavouras é documentada via satélite por organismos internacionais, sob protestos veementes dos ambientalistas, apavorados com a devastação do planeta. Os brasileiros, financiados por consumidores de outros países, são os protagonistas centrais de uma das últimas e decisivas aventuras da humanidade na conquista de espaço para sobreviver e produzir alimentos.O Brasil contém hoje a maior reserva de terras agricultáveis do planeta. Ela fica no cerrado, a última fronteira virgem antes da amazônia, pulmão da Terra. Juntos, esses dois imensos ecossistemas constituem as maiores reservas de água doce do mundo. Manejando o fogo, tratores, sementes transgênicas, computadores e satélites, os brasileiros jogam aqui não apenas o seu futuro, como povo, mas o futuro da humanidade, talvez.Não é apenas o oeste geográfico que está em jogo. No imaginário brasileiro há todo um oeste mítico desenhado como metáfora ao longo dos séculos. Repete-se aqui o fascínio ianque pelo oeste como espaço para a grande corrida da sobrevivência. O cerrado, ex-sertão, ora temido, ora ignorado, é o território do contraditório: na busca da realização individual, milhões de pessoas esmeram-se na prática das mesmas técnicas agrícolas e mercantis, sujeitando-se aos ditames do Mercado, o verdadeiro senhor das colônias modernas.Ao confundir-se com um horizonte ilimitado, o ex-sertão do Brasil Central representa hoje um espaço livre que precisa ser ocupado de qualquer maneira, a qualquer preço, não importando muito a qualidade da ocupação ou a sustentabilidade do modelo adotado. Estimulada pela demanda mundial, essa corrida cega, sem freios, transformou-se num movimento coletivo que se realimenta incessantemente da falta de perspectivas no litoral e das tradicionais promessas do sertão. Aqui o sucesso pessoal é medido por sinais externos como a extensão das fazendas, a capacidade de armazenagem dos galpões ou a largura dos pneus das camionetas. O que será dos brasileiros se fracassarem nessa aventura?BANDEIRISMOUm dos mitos fundadores do Brasil, a conquista do sertão está presente no imaginário brasileiro desde as primeiras lutas pela independência, no final do século XVIII, quando os mineiros liderados por Tiradentes tentaram articular a revolta popular contra a exploração portuguesa. Não admira que o esforço para conhecer o país e dominar o território tenha contribuído para o surgimento de uma consciência nacional.Diversos pensadores estudaram a contradição litoral x interior, mas ninguém foi mais fundo nessa investigação do que a socióloga carioca Nísia Trindade Lima. Em “Um Sertão Chamado Brasil” (Revan, Rio, 1999), ela afirma que a consciência de que havia uma distinção entre os dois espaços apareceu no início do século XIX. Não se tratava de uma simples diferenciação geográfica. Desde suas origens mais remotas, a dicotomia litoral x sertão tinha conteúdo crítico, pois já se percebia a distância cultural entre ambos.No litoral, sob influência da imigração peninsular, houve desde o início uma civilização conservadora, “de empréstimo”, segundo Euclides da Cunha; nos sertões, ao contrário, formou-se uma civilização mais aberta e original, conservadora também, mas portadora de uma cultura genuinamente americana, fruto do embate direto com a natureza. No interior e não no litoral estaria o cerne da nação brasileira. Daí a busca incessante da integração, ou de um encontro-resgate.Os principais agentes dessa fusão cultural teriam sido os bandeirantes, líderes de históricas incursões aos sertões ignotos. No início eles agiam por encomenda do império português, depois moveram-se também por iniciativa própria e sempre demonstraram um peculiar espírito de pioneirismo. Na busca de ouro e pedras preciosas, percorreram vastos espaços, mas não os ocuparam realmente. Vilas e cidades construídas para apoiar o garimpo e a mineração não lograram a auto-suficiência senão após o fim da febre do ouro, quando parte da população se convenceu de que precisava buscar a saída na agricultura e na pecuária. Esse processo de colonização, bastante lento, foi executado pela pata do boi e as tropas de burros. Definitivamente, a partir de 1800, o antigo papel dos caçadores de esmeraldas passou a ser exercido por agricultores, criadores de gado e tropeiros.No entanto, a inteligência brasileira demorou a dar-se conta da contribuição dos bandeirantes em geral para a criação de uma consciência nacional. Por muito tempo os intelectuais nativos tatearam no escuro, construindo ídolos de barro. Por exemplo, em certo momento do século XIX, quando esteve em voga a poesia indigenista de Gonçalves Dias, tentou-se entronizar o índio como símbolo da nacionalidade, mas esse apelo nativista esgotou-se com o sucesso dos Guarani – o romance de José Alencar e a ópera de Carlos Gomes. Mais tarde, registrou-se a tentativa de idolatrar o caboclo sertanejo, mas o tiro saiu pela culatra, resultando num estereótipo negativo — o Jeca Tatu, de Monteiro Lobato. Quanto aos modernistas promotores da Semana de Arte de 1922 em São Paulo, até hoje não se sabe muito bem o que queriam — fora aparecer, exibir-se, protestar.No trabalho dos intelectuais brasileiros, lembra Nísia Trindade Lima, a valorização do bandeirante como elemento-chave na formação da identidade nacional tornou-se recorrente a partir da pregação de Vicente Licínio Cardoso (1890-1931), sociólogo e engenheiro que procurou desconstruir a idéia (colonial, na sua opinião) de que a história do Brasil transcorrera toda ela na costa, como reflexo da tradicional relação com Portugal e a Europa.É verdade que tanto no Rio como em outras cidades costeiras boa parte da população vivia de frente para o mar, à espera do que vinha de Europa, mas uma parcela minoritária do povo encarava a incorporação dos sertões como indispensável à formação da identidade nacional. Nasceu assim uma tensão que estaria viva até hoje, transparecendo, por exemplo, na forma como os nacionalistas brasileiros vêem a conquista/preservação da amazônia e do cerrado — o que resta do sertão.Em seu estudo sobre a dicotomia litoral/sertão, Nísia Trindade Lima destaca a importância dos livros de viagens e dos relatórios de missões científicas para a descoberta do país e a consequente formação de uma consciência nacional. Depois do ciclo das bandeiras tradicionais, essa corrida ao interior intensificou-se no início do século XIX com a chegada de cientistas europeus como Spix, Martius e Saint-Hilaire, cujos relatos se tornaram famosos. Entretanto, antes e depois dos pesquisadores ambulantes, diversos estudiosos brasileiros ou identificados com a causa brasileira promoveram uma busca instintiva de razões e pretextos que permitissem ao país sobreviver sem vínculos de dependência a um padrão/patrão europeu. Paralelamente a esses esforços de pesquisa científica, realizava-se uma corrida espontânea por parte dos exploradores dos recursos naturais do território.Até hoje não se alcançou a autonomia desejada mas, à medida que se interiorizou, a identidade brasileira, originalmente “carangueja”, foi mudando de feição, num processo que se renova ao sabor das trocas entre esses dois pólos da geografia econômica nacional: enquanto a cultura urbana vai impondo seus valores às populações rurais e suburbanas, a cultura sertaneja deixa sua marca no comportamento dos habitantes das cidades. Tanto tempo depois, prevalece hoje o consenso de que a brasilidade não está nesse ou naquele tipo isolado, mas na mistura, na miscigenação. Nesse sentido, a fusão do litoral com o sertão seria fundamental para dar origem a um Brasil organicamente americano, autônomo e feliz.NACIONALISMOOs autores mais identificados com a idéia do sertão como cerne da nacionalidade foram principalmente Euclides da Cunha, Alberto Torres, Monteiro Lobato e Roquette Pinto. Eles se situam no eixo central de um nacionalismo que serviu de estímulo e inspiração a iniciativas governamentais como a campanha pelo saneamento rural nos anos 1910, a Marcha para o Oeste na década de 1930 e a construção de Brasília nos anos 1950, sem contar expedições mais ou menos avulsas – como a Coluna Prestes, nos anos 1920; ou a Missão Rondon, desde o início do século XX — organizadas para conhecer a realidade do interior remoto.A conquista do sertão brasileiro teve vários impulsos e um dos mais fortes esteve associado à construção de estradas de ferro entre 1870 e 1920. A morte de milhares de trabalhadores na abertura dessas estradas despertou os cientistas brasileiros para a necessidade de tratar de doenças endêmicas como a malária, o mal de Chagas e a esquistossomose. Por isso Nísia Trindade Lima chega ao ponto de situar os higienistas liderados por Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Belisário Penna como uma espécie de novos bandeirantes – dispostos não a escravizar índios e capturar escravos fugidos, mas a libertar brasileiros da doença, da fome e da miséria. Ela lembra especialmente a viagem do médico Julio Paternostro ao vale do Tocantins no período 1934/38: seu relatório causou um choque ao comparar a vida das comunidades rurais tocantinenses à de populações de séculos passados.É claro que as medidas oficiais em prol das populações do centro do país não correspondiam apenas a impulsos de fora para dentro; algumas dessas iniciativas eram também uma resposta a pressões originárias do próprio litoral superpovoado, onde muita gente via no interior desabitado uma saída para as periódicas crises nacionais. Além disso, procurava-se atender às brutais carências dos habitantes dos sertões, isolados pelas longas distâncias.Embora desde o início do século XX os bandeirantes já tivessem sido apontados como líderes intrépidos da conquista do território nacional, a construção de seu mito ganhou impulso no final dos anos 1930, durante a ditadura de Getulio Vargas. Os intelectuais franceses que fundaram a escola de sociologia de São Paulo encorajaram o estudo do bandeirismo, ao atribuir-lhe um papel de vanguarda. Com isso não só agradaram a seus patrões, membros da elite paulista, mas deram um mote à ditadura estadonovista, carente de heróis.Um dos que melhor souberam cantar o bandeirante como líder nacional foi o poeta paulista Cassiano Ricardo, geralmente identificado como direitista. Mais à esquerda, o sociólogo paulista Antonio Candido, em seu clássico Os Parceiros do Rio Bonito, reconhece que o caipira herdou do bandeirante o laconismo, a rusticidade, o nomadismo e a capacidade de adaptação ao meio sobrevivendo com o mínimo.Graças a esses e outros estudos, tornou-se mais ou menos consensual atribuir ao ímpeto bandeirante a extensão das fronteiras do Brasil além da linha imaginária traçada em 1494 pelo Tratado de Tordesilhas, pelo qual os reis de Espanha e Portugal dividiram entre si a América do Sul. Nesses vastos territórios situados no miolo do Brasil plantou-se paulatinamente uma réplica do modelo econômico institucionalizado no litoral sob o governo luso (até a independência), por influência inglesa (até a república) e mediante o patrocínio ianque (na maior parte do século XX).EMPREENDEDORISMONão importa sob a tutela de quem se realizou, o avanço sobre os espaços virgens do interior teve desde sempre um caráter missionário, como se a exploração das florestas e a posse da terra contivessem uma promessa de libertação. Ao confundir-se com um horizonte ilimitado, o Brasil Central sempre prometeu redenção aos aventureiros que ousaram adentrá-lo, perseguindo o mito do enriquecimento. Como um determinismo histórico, parece estar disseminado no inconsciente coletivo brasileiro que é preciso levar adiante a ferro e fogo o trabalho pioneiro de desmonte ambiental e conquista territorial iniciado pelos bandeirantes.O mito do heroísmo bandeirante continua presente no imaginário brasileiro moderno e se reproduz no elogio constante aos empreendedores que desafiam os riscos mais primitivos e transformam os ambientes naturais, gerando progresso e implantando os valores da civilização capitalista nos meios mais distantes – hoje no cerrado e na amazônia. Não é por acaso que entre os tipos mais admirados do Brasil contemporâneo se destacam os derrubadores de florestas, os abridores de estradas, os construtores de barragens, os criadores de cidades e os campeões da agricultura. Não raro, esses tipos se tornam ministros ou disputam cargos legislativos ou executivos. Fazem parte da história recente do país o dirigente industrial Antono Ermirio de Moraes, líder do grupo Votorantim, e o agrônomo-fazendeiro paulista Roberto Rodrigues, lider do cooperativismo brasileiro.
Também não foi por simples coincidência que na virada do século XX ganhou destaque a figura do sojicultor Blairo Maggi, um migrante que trocou o Sul minufundiário pelas terras sem fim do Mato Grosso. Já em meados da década de 1990 ele foi apontado como o rei da soja em lugar do empreiteiro-banqueiro Olacyr de Moraes. Festejado pelos políticos, Maggi tornou-se suplente de senador antes de eleger-se governador do Estado do Mato Grosso em 2002. Consciente de que a deficiência logística é o calcanhar de Aquiles do cerrado, ele fez da construção de estradas uma prioridade e chegou a candidatar-se à presidência da República como profeta de um Brasil neoliberal. Não chegou lá, mas há seis meses se tornou ministro da Agricultura de um governo que não teme desmantelar conquistas democráticas em favor de um modelo malogrado de capitalismo selvagem. De alguma forma o banditismo bandeirante continua vivo no espírito empreendedor de alguns brasileiros dispostos a favorecer o enriquecimento de poucos em prejuizo de muitos.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“De todo modo, não me parece superada a ideia de uma ciência que se dedique a pensar o Brasil. Esta sociedade de fronteiras móveis, de homens fronteiros, onde talvez seja possível aproximar litoral e sertão.”Nísia Trindade Lima, no último parágrafo do livro “Um Sertão Chamado Brasil”Atentado de Berlim confirma a verdade de Goebbels

O tablóide sensacionalista BZ condenou Anis Amri antes mesmo da polícia
O atentado de Berlim, às vésperas do Natal, reafirma a tese consagrada pelos nazistas. Ela diz que uma mentira contada uma vez continua sendo uma mentira mas, contada mil vezes a mentira se torna verdade.
Seu autor foi o ministro da Propaganda do III Reich, Joseph Goebbels, um pioneiro da manipulacão da mídia de massa. Olhando com calma para os detalhes do ataque recente é inevitável ver na narrativa da imprensa um desafio à verossimilhanca e uma prova da maleabilidade da verdade factual.
Na reportagem “ao vivo via Internet” no Jornal Nacional (http://www.youtube.com/watch?v=U-4x7PDuUAg) fica clara que a intencão de “vender a notícia” se sobrepoe à precária atividade de apuracão dos fatos.
O jornalista da Globo se esmera em construir sua estória com pouquíssimas informacões, dando espaco a “rumores”, entre eles o de que “o Estado Islâmico” teria assumido” a autoria do atentado. Até hoje essa informacão só foi confirmada por páginas de neo-nazistas em redes sociais.
A cobertura oficial da mídia alemã nao ousa tanto, mas quem acompanhou o notíciário desde os primeiros momentos pôde perceber a manipulacão. A primeira delas relacionada à dúvida de que se tratava de um acidente. Nas primeiras 24 horas depois da tragédia nenhum político alemão se atrevia a falar em atentado. Por que?
O caminhão entrou por uma avenida altamente movimentada que desemboca em um cruzamento de outras avenidas importantes e cortou apenas uma pequena ponta do mercado de Natal, parando no meio de uma outra avenida transversal.
Se tivesse realmente a intencão de matar o maior número possível de pessoas, como terroristas normalmente fazem, poderia ter cortado o mercado de fora a fora, aumentando em dezenas de vezes o número de vítimas.
O quase acidente foi uma questão de poucos segundos. Os primeiros policiais que chegaram ao caminhão encontraram o banco do motorista vazio. No banco do passageiro estava um homem sem documentos morto com um tiro na cabeça.
Nas primeiras horas, ninguém sabia de quem era o corpo encontrado, e nem mesmo a causa da morte, visto que ao invadir o mercado o caminhão teve o parabrisa estilhaçado. Tudo eram suposicoes. Uma das poucas certezas era a de que quem conduziu o veículo por cima do público havia fugido sem deixar vestígios.
Ao lado do mercado de natal fica uma das mais importantes estacoes de trens, metrôs e ônibus da cidade, a Zoologischer Garten. Curiosmente a polícia assumiu que o suspeito tinha fugido a pé. Deu o alarme geral e prendeu nas primeiras horas um refugiado paquistanês nas imediacoes do parque Tiergarten, a poucos quilômetros de distância do local do ataque.
Por 24 horas o gaiato do Paquistao foi troféu da eficiência policial berlinense. Depois de apanhar durante o interrogatório (http://www.zeit.de/gesellschaft/zeitgeschehen/2016-12/anschlag-berlin-vorwuerfe-polizei-dementi) ele foi solto por ter provas e várias testemunhas de que nao estava nas proximidades quando ocorreu o crime.
Assim que a notícia da liberacao do primeiro suspeito circulou, “novos indícios” sobre o autor do atentado surgiram pela mao da polícia federal do país. Os fatos apresentados em seguida parecem tirados de um filme de James Bond e semelhancas com outros casos de terrorismo nao parecem ser mera coincidência.
A essa altura, dois dias depois do atentado, já sabendo que o corpo encontrado dentro da Scania era o do verdadeiro motorista, as autoridades apresentaram a identidade do terrorista. Um jovem Tunisiano, Anis Amri. Ele estava na Europa como refugiado desde 2011. Acusado de arruaça e pequenos crimes ficou preso na Italia por quase três anos, onde continuava procurado por seu envolvimento com islamistas. O argumento é de que ele tinha se radicalizado na prisao.
No primeiro semestre de 2016, Amri fez seu pedido de asilo em Berlin. Em Julho o pedido foi negado, e desde setembro ele estava desaparecido. Anis Amri completaria 25 anos três dias depois do atentado.
Todas essas informacoes sao oficiais (http://www.zeit.de/gesellschaft/zeitgeschehen/2016-12/berlin-breitscheidplatz-gedaechtniskirche-weihnachtsmarkt). Como eles chegaram à identidade do Tunisiano? Óbvio, durante a eficiente acao terrorista ele deixou cair dentro do caminhao a carta do governo alemao com o pedido de asilo negado. Parece mentira, mas é essa a versao oficial.
Ou seja, o terrorista nao esqueceu de dar fim na identidade do verdadeiro motorista da carreta executado, visando dificultar a investigaçao do caso, mas lembrou de esquecer um pedaco de papel para lhe incriminar. Amri foi morto pela polícia em Milao, na Italia, exatamente na data do seu aniversário, e um dia depois do seu retrato circular pelos tablóides sensacionalistas da Alemanha. Caso encerrado.
Mais interessante ainda sao os desdobramentos da história. Na Alemanha, o atentado botou lenha na fogueira do debate sobre os refugiados. A primeira ministra Angela Merkel (CDU), ja anunciou medidas para acelerar ainda mais a deportacao de refugiados que tenham seu pedido de asilo negado. O ministro do Interior, Thomas De Maizière (CDU), aproveitou para propor uma reestruturacao do aparato policial do país, visando dar mais poder e agilidade ao governo federal. Até o prefeito de Berlim, Thomas Müller (SPD), saiu defendendo um maior controle através de câmeras de seguranca em locais públicos. Tudo muito conveniente para o ressurgente discurso nacionalista.
Vale lembrar, que a área onde o ataque aconteceu, é cercada por centros de compras, cafés, restaurantes, lojas de grife, cinemas e hotéis. Cada estabelecimento ali já tem sua própria câmera de seguranca. É estranho que nenhum dos equipamentos já instalados nessa área tenha pego o momento do atentado. Sem falar que, com ou sem câmeras, ninguém poderia prever ou evitar o ocorrido.
Mas a propaganda da imprensa vai em outra direcao. Parecem seguir deliberadamente uma cartilha política onde refugiados sao quase sinônimo de criminosos. O jornal sensacionalista “BZ” estampava em sua capa do dia 22 de dezembro a cara de Anis Amri com a manchete: “Eles conheciam ele e nao fizeram nada”. A frase cabe como uma luva no fato de muitos refugiados continuarem na Alemanha ilegalmente depois de terem o pedido de asilo negado.
A centenas de metros da praca onde estava montada a feira de Natal existe um alojamento coletivo onde estao concentrados cerca de 1.300 refugiados de diversas origens. Ali moram homens, mulheres e criancas desprovidos de conforto, seguranca e privacidade. Logo depois do caminhao atropelar 12 pessoas na praca, o alojamento foi invadido pela polícia de Berlim em busca de suspeitos. Como a polícia concluiu que lá poderia estar algum suspeito do atentado continua sendo um mistério.
Quatro refeições por dia
A redução de benefícios sociais tende a alimentar a revolta dos desvalidos
Nesta véspera de Natal, voltou-me à memória uma frase de Lula: ”Eu gostaria que cada brasileiro tivesse o direito de fazer quatro refeições por dia”.
Foi promessa de campanha e virou meta de governo atingida parcialmente com o Bolsa-Família, um programa tão generoso que começou com um nome negativo – Fome Zero.
Ambicioso socialmente e modesto financeiramente, em 2015 o BF consumiu R$ 33 bilhões ou, seja, 5% das despesas com a dívida pública, mas a ninguém do governo ocorre a hipótese de congelar o pagamento de juros e amortizações aos credores.
Ao contrário, segundo a óptica elitista que domina as ações oficiais desde o Brasil- colônia, é preciso enxugar o que se gasta na base para que não faltem recursos nas altas esferas.
Índios fora, escravos esquecidos, imigrantes ludibriados, pobres sem chance de ascensão ou resgate: assim tem sido o Brasil na maior parte do tempo.
Recentemente, bastaram alguns anos de concessões às bases carentes da população para se iniciar um temerário processo antissocial que busca reduzir o papel do Estado na sociedade. Como se o Mercado ou a iniciativa privada fossem assumir as tarefas que nem os governos fazem direito.
O Bolsa Família tem um lado assistencial – o dinheirinho entregue mensalmente às famílias cadastradas; mas seu aspecto mais importante é o vínculo educacional obrigatório de 16 milhões de jovens matriculados em creches e escolas públicas.
Pela primeira vez no Brasil se criou uma fórmula de resgate da miséria pela via escolar. Mesmo com defeitos e problemas, o BF acena com uma saída ao lembrar aos pobres que a única forma de escapar da degradação moral provocada pela miséria é através da aquisição de instrução e saber.
Ajudar os pobres: essa é uma fantasia que não se realiza porque as elites brasileiras não cortam seus privilégios em favor da justiça social.
A gente até entende quando um cidadão isolado se incomoda diante de um pobre que vasculha o lixo ou pede uma ajudazinha pelo amor de Deus. O responsável por uma instituição pública, porém, tem o dever constitucional, não apenas moral e humano, de ajudar os desvalidos.
O Bolsa-Família não é uma esmola, mas uma ajuda cristã em favor de quem está sob risco de perder a autoestima por falta de amparo civil. Sem falar que a merreca do BF se transforma integralmente em consumo, contribuindo para ativar a economia.
A visão egocêntrica das elites está difusa no comportamento da maioria dos empresários, dos políticos e dos integrantes das instituições de governo, especialmente no Judiciário, o mais bem aquinhoado em salários e benefícios indiretos.
Até agora a ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, não traduziu em fatos concretos sua preocupação com a situação dos presídios brasileiros.
Se Carmen Lúcia quer mesmo fazer alguma coisa concreta, que comece por transferir para os encarcerados o auxílio-moradia dos magistrados, que não precisam dessa mordomia, pois têm os melhores salários do serviço público.
São 14 000 magistrados que recebem, cada um, R$ 50 mil por ano a título de auxílio-moradia. Seriam R$ 700 milhões a beneficiar 600 mil presidiários, dando o empurrão inicial a um processo de resgate de uma parcela dos cidadãos brasileiros que perderam não apenas a liberdade, mas alguns dos direitos mais elementares, entre eles quatro refeições por dia.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“A quem o pouco não basta, nada basta”
Epicuro, filósofo grego (341-271 a.C.)PDT: sonhos de uma noite de verão
Pinheiro do Vale
O presidente nacional do PDT, Carlos Luppi, entrou na primeira noite do verão de 2016/17 sonhando arrebatar a bandeira da esquerda das mãos do ex-presidente Lula, aproveitando-se que o fundador do PT está meio combalido pelo cerco implacável à sua pessoa e seu partido ainda lambe as feridas do desastre eleitoral do último pleito municipal.
Passo a passo, o político carioca vai pavimentando seu caminho. De início fechou questão com a resistência ao golpe, mas com ressalvas: não impôs posição partidária à bancada, pois poderia cair do cavalo. Deixou a bola passar pelo meio das pernas: os três senadores do PDT votaram contra Dilma no impeachment. Luppi engoliu em seco.
Nesse mesmo tempo lançou um candidato presidencial para enfrentar ou, conforme o caso, tomar o lugar do PT na cabeça de chapa para 2018, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes.
Nesta virada de ano, quando se inicia a formação das candidaturas presidenciais, Luppi aumenta o tom de suas advertências aos dissidentes, ameaçando-os de expulsão, em pronunciamentos públicos, mas sem admoestar nenhum deles oficialmente.
Não há um papel do partido traçando limites ou orientando seus parlamentares nas votações.
O passo seguinte virá neste verão: limpar a área de nomes incômodos para receber as adesões da esquerda parlamentar.
No Senado o PDT já se livrou de quatro cadeiras incômodas: as duas do Distrito Federal, Cristovam Buarque (foi para o PPS) e José Reguffe (sem partido), e o mineiro Zezé Perrela, que pousou seu helicóptero no PTB. Nesta quarta-feira, o gaúcho Lasier Martins se antecipou às ameaças de Lupi e pediu sua desfiliação.
Faltam dois: Telmário Motta, que acusa o PT de Roraima de traição ameaçando romper a aliança estadual e Acyr Gurgacz, estrategicamente em licença. Os dois também apoiaram o golpe na cassação da presidente Dilma Rousseff.
O sonho de Luppi é estar com seu cavalo cearense na ponta dos cascos, no partidor, quando a candidatura do ex-presidente Lula sucumbir ao cerco de ameaças de forças hostis combinadas para torná-lo inelegível.
Há, entretanto, uma pedra no caminho do chefão pedetista: em seu próprio estado, o Rio de Janeiro, está o chefe da resistência parlamentar e líder inconteste da oposição ao governo ilegítimo, o senador Lindbergh Farias. Livre concorrência.
Luppi e Lindbergh procuram avançar um sobre o terreno do outro. Luppi tem uma bancada que vai da direita à esquerda, busca colher frutos no petismo envergonhado; Lindbergh propõe uma frente de “salvação nacional” encabeçada pela esquerda, procurando aliança no “centrão” decepcionado. É uma briga de foice no escuro.
Tudo isto vai se mostrar as claras assim que sair a tal reforma política, que extinguirá, na prática, os pequenos partidos. PDT e PT serão legendas de tradição esquerdista sobreviventes e devem estar prontas a receber minipartidos, ditos de aluguel, que estão à procura de um pouso.
A grande dúvida é se Luppi conseguirá abocanhar os quadros do PT e seus aliados tradicionais. O chefe pedetista está de olho na inelegibilidade de Lula. Entretanto, o ex-presidente ainda não mostrou suas cartas. Ele é um dos políticos mais hábeis da História do Brasil.
Lula não joga para a torcida. No último episódio crucial, o impedimento judicial do presidente do Senado, Renan Calheiros, o ex-presidente manobrou no sentido de evitar a desestabilização precipitada do governo de Michel Temer. No quadro atual, melhor deixar o presidente ilegítimo sangrar.
Enquanto se esvai, Temer leva consigo o PSDB para a vale de lágrimas. Cada dia seu governo fica mais tucano e menos peemedebista. Parece uma jogada maquiavélica, pois isto poderia reconfigurar uma futura aliança eleitoral do PMDB com o PT, a fórmula vencedora das últimas três eleições presidenciais. Não se subestime a capacidade de manobra de Lula. Tampouco se esqueça do nome de Henrique Meirelles.
Luppi é ingênuo ou arrojado? Ingênuo se acreditar que pode engolir o PT; arrojado se acredita que Ciro Gomes poderá empolgar a esquerda, atraída no vácuo da inelegibilidade de Lula?
A verdade é que as cartas não estão embaralhadas, como se pensa a olho nu. Como diz o velho conselheiro Acácio: “Quem ver verá”Porto Alegre precisa de um plano diretor de arborização
As podas radicais feitas nas árvores da capital pela CEEE, por delegação da Prefeitura, estão ferindo o sentimento dos portoalegrenses afeiçoados ao paisagismo estabelecido em avenidas e ruas da cidade desde os festejos da Revolução Farroupilha (1935), quando as autoridades municipais mandaram plantar diversas mudas (então pequeninas, como todas as plantas jovens) de espécies vegetais de grande porte.
Uma das marcas daqueles tempos festivos são as majestosas palmeiras plantadas nos canteiros centrais de algumas avenidas. Outra, as tipuanas que sombreiam ruas inteiras como a Marquês de Pombal e a Gonçalo de Carvalho. Isso para não falar dos alfeneiros, cinamomos, jacarandás e plátanos espalhados por alguns bairros mais antigos, onde os voluntários da arborização se esmeraram na ocupação dos espaços disponíveis com mudas que, por gosto ou acaso, lhes caíam nas mãos.
Para o bem e para o mal, as árvores crescem, suas raízes levantam calçadas, seus troncos elevam galhos acima dos telhados, folhas e frutos “sujam” os passeios, eventualmente algum galho tomba sobre alguém distraído e a população se divide entre a condenação do mundo vegetal e a piedade sobre os infelizes humanos acidentados.
Deu no que aí está: sem um plano diretor de arborização ou paisagismo, a prefeitura entregou a gestão do acervo arborial à concessionária de energia, que naturalmente encara as árvores como estorvos à normalidade do serviço e fontes de prejuízos.
Os cortes executados pela CEEE atingem todos os espécimes que ousam colocar acima de cinco metros de altura. São mutilações que concorrem para acelerar o fim de abacateiros, angicos, espatódias, flamboyants, grevíleas, guapuruvus, ipês, mangueiras, paineiras, plátanos, paus ferro, pinheiros e sibipirunas — árvores efetivamente mais apropriadas para parques e jardins do que para calçadas ou canteiros.
A poda deveria ser uma ação humana inteligente, a favor da vegetação. Aqui e ali cabem intervenções para corrigir distorções ou evitar acidentes. Na maior parte dos casos, as próprias árvores se desfazem de galhos que não lhes servem. Além disso, as árvores, como os animais, têm limite etário. Raras espécies frutíferas ou ornamentais atingem 100 anos. Aos poucos, vão se deixando aniquilar pelas intempéries. Nessa fase senil, são mais perigosas porque seus galhos são muitos pesados. Se apodrecem ou são derrubados pelo vento, os galhos podem causar danos graves em que estiver por perto. Por isso, é fundamental que os responsáveis pelo paisagismo urbano providenciem a paulatina substituição de árvores-gigantes por espécies cuja altura não exceda seis metros de altura. Se o prefeito Fortunati jogou a toalha, talvez Marchesan chegue com ânimo para mudar o panorama paisagístico da capital. Em quatro anos, com sensibilidade e bom senso, dá para iniciar a reciclagem do verde em Porto Alegre.
Nas calçadas sem postes de fiação, é possível manter por longo prazo espécies vegetais de grande porte. Nos passeios com postes, é recomendável que sejam plantadas, com um adensamento capaz de prover o sombreamento das calçadas, sem risco de acidentes graves com os pedestres, as seguintes árvores: acácia, araçazeiro, bico-de-papagaio, cafeeiro, camelieira, cocão, pata de vaca, bergamoteira, extremosa, hibisco, jasmineiro do Havaí, laranjeira, leiteirinho, leucena, limoeiro, primavera, pitangueira e quaresmeira.
Com essas e outras espécies de pequeno porte, ficará claro que a arborização e a fiação são compatíveis, desde que se tenha critério na adoção de um programa de fomento ao paisagismo consciente.
Já ficou suficientemente provado que ninguém está disposto a enterrar os cabos de transmissão de eletricidade e sinais, como manda uma lei aprovada anos atrás pelos vereadores. Além de incorrer em custos elevados, a troca da fiação aérea por dutos subterrâneos provavelmente acirraria as disputas por espaços entre os concessionários de serviços. Além das tradicionais tubulações de água e esgotos do DMAE, a cidade está recebendo os dutos da Sulgás. Em algumas áreas, há cabos telefônicos mantidos por herdeiros da CRT, que também alugam postes da CEEE para atender usuários de telefone e TV a cabo. Isso sem falar dos sinais de trânsito da EPTC.
Numa cidade à beira de um lago e sujeita a cheias, enterrar toda a fiação aérea seria transferir para baixo da terra a parafernália que se vê nos postes de luz. Melhor deixar como está e as árvores que se adaptem ou saiam do caminho.O golpe encalacrou-se
Pinheiro do Vale
“Fica Temer” é o novo bordão das forças progressistas. O repetido “Fora Temer” do passado distante agora é o lema da direita golpista. Não há política mais dinâmica que em nosso País.
O presidente ilegítimo começa a cair enredado pela política econômica e propostas de arrocho de seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, antiga tábua de salvação rejeitada em boa hora pela presidente Dilma Rousseff.
Abraçado pelo governo golpista, Meirelles revelou-se o fracasso antevisto por Dilma, que o rejeitou.
No campo político, as chamadas forças consistentes do Congresso se uniram em torno do nome do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para patrolar o Centrão. Outro golpe errado da base de apoio de Michel Temer.
O Centrão, invicto, já derrubou o nome tucano Antônio Imbassahy, para a coordenação política do governo, e parece que vai varrer do Palácio do Planalto os últimos peemedebistas do chamado núcleo duro. Temer fica sozinho.
Ruim com ele, pior sem ele. Eleição direta e solteira já é uma assombração que ressurge com o fantasma de Marina Silva; eleição indireta é o caminho mais curto para a ditadura. É o que dizem.
No caso da indireta, as chamadas forças políticas já detectaram que não há remota possibilidade de botar no Planalto um nome de consenso, nem mesmo entre a direita.
Os mais afoitos apresentam o gaúcho Nelson Jobim, ex-político com algum trânsito em várias correntes, pois serviu a todos os governos, inclusive no primeiro mandato de Dilma. Não passa no Centrão nem nas extremidades da esquerda ou, até, da direita hidrófoba.
A direita saudosista vocaliza o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Há muito tempo ele ainda poderia ser chamado, tal como o velhinho da montanha. Atualmente, está tão envolvido no governo Temer que já não compõe unanimidade entre as forças golpistas.
A solução seria uma não-pessoa, um ser institucional. Vingava a ideia de ressuscitar a fórmula de 1945, entregando o Executivo para uma transição capitaneada pelo Supremo Tribunal Federal.
A ministra Cármen Lúcia era o nome ideal: solteira, antiga adepta da Tradicional Família Mineira, jurista de escol e intransigente. Entretanto, ela pisou na casca de banana Renan Calheiros, colocada à sua frente pelo ministro Marco Aurélio de Mello. Salvou a República, mas caiu de nádegas.
Esgotadas todas as alternativas, restaria a velha e clássica fórmula que vem desde Dom Sebastião e entrou no dito popular: chame o bispo.
Solução difícil. Ficando apenas no catolicismo também, há dúvidas: seria o cardeal primaz do Brasil, Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, arcebispo de Salvador? Ou o prelado que tem o comando efetivo, o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odílio Pedro Scherer? Como tertius poderiam chamar o cardeal do santuário nacional, Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis, que fez quase toda sua carreira eclesiástica em Brasília? Há divergências entre o clero.
Isto para não falar do leque de opções luteranas e pentecostais, na área cristã, antes de chegar a outras confissões reconhecidas oficialmente de seitas afro-brasileiras, judaicas ou islamistas. Também não dá.
Talvez a solução fosse buscar Dom Pedro em Petrópolis. O novo herdeiro é brasileiro nato (seu pai nascera na França), foi simpatizante da VPR nos anos 60, quando era estudante de Agronomia em Piracicaba (na Luiz de Queiroz), apoiou publicamente a República no Plebiscito, graduado engenheiro florestal e ecologista militante.
O golpe encalacrou-se. Como dizia o Conselheiro Acácio: “As consequências vêm depois”.Meu amigo Ferreira Gullar
ERIC NEPOMUCENO
Foi numa noite de 1975. Não lembro o mês. Foi em Buenos Aires. Tempos de exílio, tempos sombrios. Lembro que Eduardo Galeano ligou dizendo que encontraríamos um desconhecido que, diziam, era um grande poeta. Lembro de ter dito a ele que era, sim, um grande poeta.Lembro que estava meu amigo Augusto Boal, com sua Cecilia. Lembro que havia mais argentinos: afinal, estávamos em Buenos Aires.Lembro que era um apartamento modesto, na distante rua Hipólito Pueyrredón, não na elegante avenida Pueyrredón, que ficava perto de minha casa. Lembro que por isso me enganei de endereço. Lembro que por esse engano, Eduardo e eu chegamos tarde.Mas o que mais me lembro, a imagem mais permanente na memória, é a de um homem triste. Naqueles meus anos jovens, eu nunca tinha visto alguém tão triste. Mais triste que Ferreira Gullar.
Tinha cabelos negros que caíam como um véu sombrio sobre seu rosto. Falava numa voz baixa e grave. De repente, ria um riso estranho. Um riso nervoso.
Ele vinha de muitos exílios, muitas derrotas. Vinha do Chile de Salvador Allende. Vinha do golpe traidor de Augusto Pinochet, vinha da morte de Allende. Vinha de sonhos frustrados, roubados. E perguntava, perguntava coisas, queria saber. Era como alguém que queria respirar vida.
Anos depois, muitos, voltamos a nos encontrar, no Brasil. E o que agora lembro eram nossos almoços na casa de Vera e Zelito Vianna, ou de quando ele vinha à minha casa, e eu cozinhava e ele gostava, ele e Claudia.
Ferreira Gullar, meu amigo que foi o ser vivo mais triste que vi na vida quando éramos jovens, quando vivíamos os anos jovens, foi também o último grande poeta do idioma que falamos no Brasil.
Era uma espécie de Juan Gelman em português, capaz de em uma ou duas ou três frases fazer desatar temporais de emoção, de vida.
Lembro da noite em que ele, com aquele ar mais triste e mais raivoso do mundo, leu:
Turvo, turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
Menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menor que fosso e muro: menos que furo
escuro
Era o começo do Poema sujo. Era só uma casa, um apartamento modesto na Buenos Aires dos nossos anos jovens. Era a vida, era o mundo.
Sim, sim, voltamos a nos encontrar, anos depois, no Brasil, neste Rio de todos os janeiros. E nos vimos um sem fim de vezes, na minha casa, na casa dele, na casa de Vera e Zelito Vianna.
Uma vez, ouvi dele uma frase definitiva. Gullar falava da poesia, da arte. E disse: “Por que a poesia, a arte? Porque a vida, só, não basta”.
Outra vez, com meu filho Felipe, ouvi outra frase: “Ontem, tive uma discussão com a Claudia”, que era sua derradeira e permanente namorada. “E ela foi embora, e num primeiro momento me senti cheio de razão. E aí cheguei à conclusão: eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz. E liguei para ela”.
Foi talvez o último grande poeta não só do Brasil, mas do idioma português. Um dos últimos grandes poetas dessas comarcas que chamamos de América Latina.
Agora que ele se foi, dirão essas louvações, e muito mais.
Eu fico aqui lembrando sua figura esquis, seu corpo frágil, sua magreza quase mística, seus olhos faiscantes.
Fico lembrando daquela figura triste, triste, de um mês qualquer de 1975, numa Buenos Aires perdida para sempre. E que era capaz de escrever coisas assim:
Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Outra parte de mim
é multidão:
outra parte, estranheza
e solidão
A última vez que ele e Cláudia vieram em casa, faz um bom tempo, preparei camarões. E depois dessa vez, quando nos víamos, ele dizia: “Cadê aqueles camarões?”.
Essa, eu fiquei devendo.
Mas ele ficou me devendo muito mais. Ficou devendo aquela parte dele que era multidão.Temo pela democracia
RAUL ELLWANGER
Temo pela Democracia. Estamos na beirinha de uma paralisia institucional. Facções da casta predadora estão engalfinhadas em luta feroz pelo governo-poder. Usam seus já nada ocultos operadores no Legislativo, Executivo, Judiciário, MPF e especialmente na ditadura atual de uma só família sobre a opinião pública brasileira.
Os interesses e os operadores se cruzam e confundem de tal modo, que fica difícil entender a situação. Uma iniciativa simpática é motorizada por gente do pior calão. Uma iniciativa perversa é apoiada por gente boa.
Temo pela república – a desordem e o choque de interesses disfarçados atrás de cada um dos poderes estão quase transbordando as taças. A casta rica e predadora está arrastando o país, sua jovem democracia, ao fundo do poço.
A casta (e seus sub ramos) se lançou em uma aventura , a partir de derrota de Aécio, que inaugurou uma etapa de solavancos e tsunamis, Agora pilota um barco incontrolável, sem presidência legitima, sem legislativo prestigiado, sem judiciário confiável.
O Poder está sem poder, ele liquidificou o poder moral que tinha ante a nação, levando ao descrédito generalizado. A república é um consenso, em que os cidadãos se colocam de acordo num projeto e plasmam isso numa Constituição. A nossa está em frangalhos.
A casta é aventureira e irresponsável, inclusive quanto a seus próprios interesses. Está mostrando seu fracasso e sua fraqueza. Não sabe oferecer ao país um projeto pelo menos aceitável, não o tem. Ela mesma não se aceita, e arrasta o Brasil para o precipício.
Em 1870, o povo simples de Paris pulverizou o império. No Brasil de 2016, os bem vestidos, bem togados, os bens remunerados, empreiteiros, financistas e sua coorte de interessados, estão pulverizando a República. O povo assiste imóvel.
Depois ? Depois temos Heidrichs, Mussolinis, Hitlers, Videlas, Garrastazús, Francos, Salazares: toda a fauna treinada para fazer o serviço sujo e pesado, se a casta não tiver outra saída. Temo pela Democracia.A ponte Chapecó-Medellín
O gosto pelo futebol me levou recentemente a acompanhar os jogos da Chapecoense, clube que se apegou com garra ao lugar recém-conquistado entre os 20 integrantes da Série A do Campeonato Brasileiro. Com pouco mais de 40 anos de existência (fundado em 1973), o time ganhou cinco campeonatos catarinenses e no Brasileirão fez o suficiente para disputar a Copa Sul-Americana. Estava a caminho da primeira partida final em Medellínquando o avião em que viajava caiu a cinco minutos do aeroporto local. O jogo foi cancelado. Em seu lugar, a população das duas cidades lotou os estádios de Chapecó e Medellín, formando uma inédita ponte de solidariedade na noite em que a partida seria jogada.Nunca se viu tamanha corrente de paz e amor.Chapecó, a capital das carnes brancas e um dos principais polos brasileiros de cooperativismo.Medellín, o primeiro centro difusor da teologia da libertação cristã (em 1968, na conferência episcopal latino-americana).Pelo retrospecto, a Chape levaria uma surra do Atlético Nacional, o time mais competitivo do continente, no momento, tanto que é o atual campeão da Taça Libertadores da América. Mas, se perdesse por pouco em Medellín, a Chape poderia reverter o placar no Brasil. Já estava certo que a segunda partida final não poderia ser realizada na Arena Condá, onde só cabem, apertadas, 20 mil pessoas. A disputa fora marcada para o estádio do Coritiba por influência do técnico Caio, paranaense de Cascavel que fazia sucesso em Chapecó depois de ter treinado clubes do Rio, São Paulo, Porto Alegre e do Oriente Médio.Caio e mais 19 jogadores, além de jornalistas, dirigentes e torcedores, tiveram a carreira liquidada pela queda do avião da LaMia, fretado por 140 mil dólares, mais do que o dobro do orçamento mensal do time de Chapecó, onde se misturavam veteranos e novatos irmanados por um espírito de grande depreendimento, algo que acontece frequentemente na prática dos esportes, sejam pequenas ou grandes as agremiações. Aí está o Brasil de Pelotas dando a volta por cima após um grave acidente de ônibus, anos atrás. O Juventude de Caxias ganhou uma Copa Brasil. O XV de Novembro de Campo Bom andou aprontando numa temporada mais ou menos recente. É o futebol. O esporte. A energia inexplicável dos coletivos.A ascensão e queda da Chapecoense traz à lembrança o episódio do ano passado, quando a Ponte Preta só caiu na semifinal da Copa Sulamericana. Fundada em 1900 em Campinas, a Ponte nunca ganhou nada mas é um dos clubes mais queridos do Brasil. Possui uma aura popular que se traduz na bandeira alvinegra e no símbolo do seu estandarte – uma macaca brincalhona que vive de dar susto nos times mais representativos das capitais. Já ganhou vários vice-campeonatos, como o paulista de 1977, quando quase montou uma zebra sobre o Corinthians.Aqui abro um parágrafo para lembrar que o escritor paulista Renato Pompeu (1941-2014) escreveu um romance – A Saída do Primeiro Tempo (Alfa Omega, 1978) – cujo protagonista central é “o espectro da Ponte Preta”. Difícil explicar um livro tão genial. Melhor dar a palavra ao próprio romancista, que abre sua narrativa nos seguintes termos – primeiro parágrafo:“Noite alta, quase madrugada (…) é a hora em que o espectro da Ponte Preta começa a rondar Campinas. Trata-se de grande mãe preta velha gorda, de saia e blusa branca e manto bordado de seda negra, que sobrevoa como mancha leitosa os prédios e ruas. Está sempre à noite pelos ares da cidade, flutuando como fiapo de algodão. (…) Quando não há ninguém atento, entretanto, o espectro da Ponte Preta paira no ar e penetra pelos cômodos das casas, roçando as testas das pessoas adormecidas e causando mudanças pequenas mas definitivas nos seus sonhos.”No parágrafo seguinte, um delegado sonha que virou mulher de olhos verdes momentos antes de discursar numa reunião política da burguesia de Campinas, a cidade que serve como cenário do romance em que diversos personagens — professores, executivos, operários, aposentados, moças, senhoras – são afetados pelo toque mágico da negra velha, naturalmente identificada com a alma popular da Associação Atlética Ponte Preta.
Ao longo de 182 páginas, o escritor zomba sutilmente da soberba campineira e desenvolve uma série de episódios mais ou menos hilários, como narrar o Jogo Zero ou discutir a expressão “a bola é nossa”. Ele gasta 70 páginas do livro para elaborar o que chama de “crítica da economia política do futebol”. No final conclui, citando nominalmente a Ponte Preta, seu rival Guarany e outros clubes, que “os times de futebol constituem as bandeiras da consciência do povo brasileiro”.Recordando esse gol de placa do grande Renatão, eis o que temos no momento: a bandeira da hora é verde-e-branca e pertence à Associação Chapecoense de Futebol, que encontra na solidariedade internacional um forte motivo para retomar sua caminhada.
Segundo a língua caigangue, Chapecó significa “lugar de onde se avista o caminho da roça”.

