PC de Lester
Os donos da mídia concordaram com FHC. “Temer é ruim, mas é o que temos”. É o que explica o esfriamento do caso Geddel nos meios tonitroantes. Até a foto de um Temer sorridente foi providenciada para minimizar o caso.
O caso é assombroso. Temer chamou seu ministro da Cultura ao palácio para pedir que parasse de atrapalhar um negócio imobiliário de seu ministro especial e “fraterno amigo”, Geddel Vieira Lima, em Salvador.
O presidente da República disse ao ministro da Cultura que estava tendo “dificuldades operacionais” com Geddel por causa dessa pendência.
Recomendou que passasse o caso para a Advocacia Geral da União, que saberia “construir uma solução”.
Solução seria liberar a construção do prédio, no qual Geddel tem um apartamento, que está embargado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, órgão subordinado ao ministério da Cultura.
Segundo O Globo, o edifício de 51 andares é um de uma série de espigões irregulares em construção na capital baiana.
Temer ainda consolou o neófito Marcelo Calero: “A política tem dessas coisas”. No dia seguinte, Calero pediu demissão e denunciou as pressões.
Prestou depoimento à Policia Federal e anexou as gravações que fez de conversas com Temer, Geddel e Eliseu Padilha, o todo poderoso ministro chefe da Casa Civil.
O caso está a caminho do Supremo Tribunal Federal e da Procuradoria Geral da República e ministros serão chamados a dar explicações na Câmara. Mas os senhores da palavra decretaram que tudo isso é marolinha.
Vamos ver se os fatos e a opinião pública concordam…
Categoria: Análise&Opinião
Temer e Geddel: tudo a ver
Protesto não é micareta, nem vandalismo, é um direito constitucional
ANDRES VINCE
Parece cristalizada a ideia, tanto na mídia corporativa como na alternativa, que os atos de resistência protagonizados por alguns pequenos grupos são atos de vandalismo.
Os comunicadores recorrem a vários expedientes para justificar esse pensamento, que, assim, vem ganhando força junto à população, que já aplaude o uso do aparato que falta no combate ao crime, na repressão de um ato garantido pela Constituição.
Um dos argumentos prediletos e mais bem aceito é o de que trancar via é impedir o direito de ir e vir das pessoas. Argumento falso como uma nota de três reais. Trancar via impede o direito de ir e vir dos veículos, não das pessoas. E, por mais que se procure na Constituição, não será encontrado nada que refira ou garanta o direito de ir e vir dos veículos automotores.
Assim sendo, em casos de via trancada, o órgão público responsável é a EPTC, não o batalhão de choque da BM. Alguns dirão que a polícia está lá por causa das depredações. Excelente argumento, não fosse o caso da polícia ter atacado antes, sem nenhum aviso, manifestações onde não ocorreu nenhuma depredação. As depredações vieram depois que a polícia atacou e prendeu violentamente alguns manifestantes. Portanto, causa e consequência.
Esse mesmo pessoal que condena a via trancada por manifestações é o mesmo que apoia e divulga o trancamento de uma via para montar um toboágua para um evento comercial, num bairro nobre de Porto Alegre. Claro que, nesse caso, está tudo bem, pois, usa-se todo um aparato público pra dar cobertura a um interesse privado. Portanto, cinismo puro.
Outro argumento bem aceito é o de que os manifestantes estão mascarados. Os comunicadores transmitem a ideia que o uso da máscara torna o elemento automaticamente num delinquente pronto a incendiar toda a cidade. Isso parece causar um medo histérico coletivo nas pessoas tão violento, que elas nem percebem que a polícia de choque também está mascarada. Portanto, não há o que dizer nesse caso.
Sempre prontos em enaltecer tudo que vem de fora, os comunicadores amestrados esquecem ou preferem ignorar o que acontece em protestos na Europa, por exemplo. Os conflitos que ocorreram na França foram extremamente violentos. Nem por isso, os franceses foram chamados de vagabundos, desocupados ou vândalos.
Parece óbvio que será dito que o uso da violência está sendo defendido aqui. Simplificação barata, como todas as simplificações são, pois, estão calcadas nesses falsos argumentos citados neste artigo. Quem usa a violência e causa desordem é a próprio poder público que coloca a BM pra reprimir manifestações legítimas, levando medo à população e desmobilizando as pessoas. Isso sim que é violência, e, como tal, gera um direito legítimo de defesa. Defesa do direito constitucional de livre manifestação.
Quando um direito constitucional é atacado abertamente, não existe mais espaço para manifestações simbólicas e artísticas. Dancinhas e enterros simbólicos não vão sensibilizar ninguém, muito menos os políticos, que estão se sentindo bem à vontade depois que deram um golpe parlamentar e nada aconteceu. Nada.
O País foi tomado por uma corja que é comprovadamente mais pilantra do que alegadamente eram os que foram removidos do poder, e, nada aconteceu. Nada.
O Congresso já está a ponto de anistiar seus próprios crimes e parece que ninguém entendeu direito o que está acontecendo. Só essa meia dúzia que resiste a opressão que se instalou no país. Meia dúzia que será rapidamente criminalizada por aqueles que esperam que a democracia vá reflorescer espontaneamente nesse jardim imundo que se tornou a política nacional com a volta do toma lá da cá. Esperem sentados que cansa menos.
Um raro livro sobre a prática do fotojornalismo
Se me fosse dada a chance de escrever um livro sobre minha vida de jornalista, eu tomaria como referência A Força do Tempo (Libretos, 184 páginas), de Ricardo Chaves, repórter-fotográfico que atuou a partir de 1970 no polígono Porto Alegre-Rio-São Paulo-Brasília, voltando em 1992 ao ponto de origem – o diário Zero Hora -, onde segue na labuta como editor do Almanaque Gaúcho, seção que lhe permite ir e voltar ao passado a bordo de fotografias antigas, e praticando com perícia a escrita.
É claro que, no tal livro imaginário, eu teria de me contentar em escrever textos mais ou menos saudosistas, e até recordaria ter feito uma ou reportagem com alguns dos melhores fotógrafos brasileiros – Assis Hoffmann, Leonid Streliaev, Marcelo Curia, Tânia Meinerz, Carlinhos Rodrigues e o próprio Kadão Chaves, entre os gaúchos -, mas me faltaria a matéria-prima fotográfica que, no caso de Kadão, constitui a essência deste livro sem precedentes no panorama jornalístico brasileiro. É muito bom que tenha surgido uma obra desta dimensão no momento em que, atrapalhado por uma convergência de novas mídias sem sustentabilidade econômica, o ofício de jornalista atravessa uma baita crise existencial. Kadão é precisamente um dos últimos moicanos a operar – como PJ, não mais como CLT – num veículo sem perspectiva de sucesso, como a maioria dos newspapers.
Nesse livro editado com maestria por Pedro Haase (Quati Produções) e Clô Barcellos (Libretos), o sessentão Kadão esbanja categoria como fotógrafo e se revela um redator preciso e sensível – uma surpresa para todos aqueles que se acostumaram a ver a maioria dos chamados retratistas limitando-se a ler apenas títulos e legendas, sem paciência para atravessar as colunas cinzentas dos textos, porque lhes bastavam as imagens. Na realidade, se ficasse só com as imagens e suas respectivas legendas, o fotojornalista já formaria uma obra respeitável. Com os textos, dá de relho na concorrência.
Ao lembrar os melhores momentos de sua carreira, sem ter esquecido sequer o nome dos motoristas que o levavam às metas, Kadão Chaves se equilibra bem como autor e personagem de um raro documento sobre a história da reportagem fotográfica no Brasil e no mundo. Tamanho comedimento, sem falsa modéstia, pode ser de extrema utilidade como matéria de estudo em escolas de jornalismo. Kadão Chaves fotografou grandes figuras do século XX – Fidel Castro, o Papa, Pelé, Atahualpa Yupanqui, Erico Verissimo e Chico Mendes, entre outros – mas não perdeu a capacidade de refletir sobre as pequenas grandezas e as grandes misérias deste mundo velho sem porteira. Da capa que mostra a fachada de uma relojoaria desativada de Montevideo à contracapa com a cara do próprio photo worker, A Força do Tempo não desperdiça imagens nem palavras.Extinguir a FEE é uma agressão ao povo gaúcho
Há 25 anos, tive a honra de assumir a Presidência da Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser, a FEE, cargo que ocupei por dois anos. Vivíamos um momento difícil para o sistema de estatística nacional, pois o então Presidente Fernando Collor havia decidido, com o objetivo de reduzir gastos da União, promover cortes expressivos no orçamento e no quadro funcional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Pesquisadores e gestores públicos que viveram aquele período conhecem bem os estragos resultantes, sendo a não realização do Censo Demográfico em 1990 um dos mais eloquentes.
Em 21 de novembro de 2016, o governador Ivo Sartori, em uma repetição trágica e tão equivocada quanto aquelas decisões do Governo Collor, anunciou a extinção da FEE, no âmbito de um pacote de privatização de fundações e empresas no Estado do Rio Grande do Sul. Essa decisão causará uma irreversível destruição do sistema de estatísticas gaúcho, e terá um impacto irrelevante sobre as contas públicas pois a FEE custa menos de 0,08% do orçamento do Estado.
Por 43 anos, a FEE tem produzido estatísticas e indicadores metodologicamente consistentes e socialmente confiáveis, atributos fundamentais a um instituto público de pesquisa. Se hoje o Rio Grande do Sul dispõe de uma matriz insumo-produto, de indicadores sobre o agronegócio, de estimativas do PIB, de índices de vendas no Comércio e na Indústria, que permitem conhecer a estrutura produtiva do Estado e direcionar as políticas de estímulo à produção, é porque a FEE os produz. Se dispomos de estimativas municipais de população, que propiciam conhecer a demanda por serviços públicos pelos gaúchos, para atendê-los mais adequadamente, é porque a FEE as organizou. Se temos o retrato do mercado de trabalho metropolitano, é porque a FEE o constrói, mensalmente.
Para produzir todos esses indicadores, a FEE estabeleceu parcerias com instituições e órgãos governamentais, além de órgãos de representação setorial, gaúchos e nacionais. Destaco essas parcerias porque elas são expressão do respeito que a FEE construiu junto à comunidade científica e estatística, aos gestores públicos e à sociedade gaúcha ao longo de sua história, além de mostrarem o empenho do corpo técnico da instituição para dialogar e construir indicadores capazes de retratar, da forma mais adequada possível, a realidade que os atores envolvidos querem e precisam conhecer.
A proposta de extinção da FEE é, por todos os ângulos que analisemos, um enorme equívoco. Mais que um equívoco é um grave dano ao Estado e à sociedade gaúchos. Séries históricas se perderão, informações necessárias ao planejamento das ações públicas deixarão de existir, o conhecimento sobre a realidade produtiva e social do Estado escasseará. Quando o governo ou a sociedade quiser planejar suas ações, fará o que? Contratará empresas de consultoria privadas, que cobrarão pelos serviços que antes eram prestados, com autonomia e qualidade, pela FEE?
Cabe perguntar por que a extinção da FEE? Por que esse verdadeiro atentado ao patrimônio dos gaúchos já que a extinção da FEE não contribui para a melhoria das contas públicas? Será a dificuldade de lidar com a transparência que os dados trazem?
Infelizmente, a conjuntura recente tem se mostrado pródiga em pontes e caminhos que prometem o futuro, mas nos conduzem a um passado que o Rio Grande do Sul e o Brasil não merecem reviver.
Como gaúcha por adoção e como parte do corpo técnico dessa brilhante instituição, me somo a todos que, neste momento, bradam contra a extinção da FEE. Devemos nos opor, mobilizar a sociedade e nossos representantes na Assembleia Legislativa, para evitar que, em nome de uma economia pífia de recursos, comprometamos o conhecimento da realidade do Rio Grande do Sul. É hora de mostrar “valor, constância, nesta ímpia, injusta guerra”.
(Publicado originalmente no Sul21)50 Tons de Rosa, referência para jornalistas do mundo todo
José Antonio Severo
Segunda metade dos anos 70. O Brasil ferve com a “abertura lenta, gradual e segura” da dupla gauchesca Geisel/Golbery. A juventude esperneia e vai empurrando a censura. A imprensa alternativa atinge seu auge. Jornaizinhos críticos, mal-humorados ou satíricos dão dor de cabeça ao governo. Dentre todos, o nanico mais surpreendente não saiu do Rio ou São Paulo, foi mais arrojado que o celebrado Pato Macho, de Porto Alegre: assim era o improvável “Triz”, escrito e editado em Pelotas em outubro de 1976.
Triz até hoje é um espanto e uma referência. Ribombou em todo o País: foi matéria de página inteira na Veja. Esse jornal foi o epicentro de um vulcão cultural que jorrou uma geração de brasileiros notáveis.
É isto que mostra o livro recém-lançado com um título desafiante: 50 Tons de Rosa. Pelotas no tempo da ditadura.
Entretanto, não é uma obra saudosista. Pelo contrário: compõe uma coletânea de relatos vivos de uma geração. Seus autores são as próprias personagens.
Centrado na cidade de Pelotas, nas vidas e vivências de um grupo de jovens, 50 Tons é um trabalho de alcance nacional. Ali está o Brasil daqueles tempos, emergindo de uma mocidade bem-humorada e confiante.
Apesar do que sugeriria o título, recupera tempos inesquecíveis, memórias joviais, tempos de irreverência, de otimismo, de confiança no futuro.
Seus autores-personagens trazem de volta aqueles tempos com recordações bem-humoradas, sem mágoas. As páginas transbordam com a jovialidade, com as peripécias dessa rapaziada que enfrentava os costumes e as repressões inúteis daqueles tempos de chumbo. Chumbo dourado.
A maior parte dos autores-personagens converteram-se em referências nacionais em suas áreas de atuação, a maior parte, evidentemente, na imprensa. Nos velhos tempos eram estudantes universitários das universidades locais, Federal e Católica.
Os primeiros passos dos que vieram do jornalismo foram na redação do vetusto Diário Popular, naqueles tempos comandado por uma figura fascinante, seu chefe de redação e professor do curso de Jornalismo da UCPel, Joaquim Salvador Coelho Pinho.
Pinho, como era chamado por seus alunos e funcionários, é uma figura emblemática da imprensa daquela fase em que a imprensa se renovava sob a batuta de grandes condottieres: Mino Carta em São Paulo, Alberto Dines no Rio, a famosa reportagem da Folha da Tarde dos estagiários do Walter Galvani. Pinho foi um desses reformadores da imprensa, tão carismático, renovador e valente como seus colegas dos chamados grandes centros, conforme o relato.
Esses testemunhos são valiosos e críveis, devido à projeção que a turminha da gurizada de Pelotas veio ter nas diversas áreas em que atuaram dali por diante, nos grandes centros brasileiros. Embora a maior parte fossem jornalistas, outros saíram por outros caminhos e foram profissionais de grande destaque nos seus mercados.
Não seria justo destacar nenhum dos autores, por ser injustiça com os demais. Neste espaço exíguo de um veículo de internet não se pode alongar. Citamos apenas o organizador (e autor de várias partes do livro), Lourenço Cazarré. Entretanto, não se pode omitir seus nomes. Portanto, por ordem de entrada em campo: Lourenço Cazarré, Vitor Minas, Rubens amador Filho, Geraldo Hasse, Luiz Lanzetta, Ayrton Centeno, Ênio Squeff, Carlos Morais, Marcius Cortez, Lúcio Vaz, Kledir Ramil, José de Abreu, José Cruz, Marcos Macedo e, um autor oculto, pois sua presença emana do livro, Laerte Mário Pedrosa.
É muita gente boa. Pelotas deve tremer na base até hoje, pois não é fácil para uma comunidade ter uma galera destas em campo ao mesmo tempo.
O livro tem de tudo. É a história de um grupo de rapazes, é a reportagem sobre uma cidade nos tempos da ditadura, é o Rio Grande e, além de tudo, um quadro do Brasil, com pinceladas de arte, racismo, ditadura, imprensa, vida acadêmica, frescura e todos os temas que se possa imaginar.
A vontade é escrever sem parar, pois a leitura é veloz devido ao texto escorreito dessa turma. O livro é lindo, uma obra de arte gráfica. A capa é de um dos redatores, Ênio Squeff. 50 Tons de Rosa é um livro de referência para jornalistas de todo o mundo, uma obra imperdível para brasileiros, essencial para gaúchos e uma ameaça aos pelotenses.
Belo livro, em todos os sentidos. Leitura obrigatória.O poeta Nei Duclós retorna ao “crime” de 1976
“Este é o poeta Nei Duclós”, me disse Jorge Escosteguy (Scotch), indicando um sorridente magrão de olhos azuis e cabelos compridos. Posso estar enganado quanto à data — final de 1976, acredito – mas não quanto ao local: foi no corredor de acesso às baias da redação da revista Veja, onde fazíamos parte da colônia gaúcha, ao lado de JA Dias Lopes, Valdir Zwetsch e Vitor Hugo Sperb — tínhamos ainda como uma espécie de gaúcha honorária a Dorrit Harazim, cidadã do mundo nascida casualmente em Iraí.
Como sempre, o santanense Scotch estava apressado e praticamente rebocava o amigo uruguaianense, que não escondia a timidez (ou seria constrangimento?), para a editoria de artes&espetáculos, onde o editor José Márcio Penido, mineiro cordial, lhe daria alguns trabalhos avulsos. Resenhas de livros, que dariam ao novato gaúcho (“noviço rebelde”, quase escrevi) um duplo prazer: ler livros recém-lançados e tirar disso seu ganha-pão.
Eram tempos difíceis, politicamente, mas não faltava trabalho razoavelmente bem remunerado: bastava um frila por semana numa das revistas da Abril ou em outras editoras de São Paulo ou do Rio para um jovem repórter sustentar-se. Caras criativos e competentes como Nei Duclós nadavam de braçada no mercado editorial do auge da Ditadura Militar.
Foto de Juarez Fonseca, na Ufrgs
Aos 28 anos, já tarimbado como jornalista, Nei era festejado como o poeta que se revelara excepcional logo no primeiro livro, Outubro, lançado em 1976 em Porto Alegre. Nos anos seguintes ele lançaria outros, como No Meio da Rua (1979), mas acabaria deixando a poesia mais ou menos de lado para lutar pela sobrevivência na Paulicéia áspera e cruel. Ele e Scotch trabalhavam juntos na IstoÉ e até na revista da Fiesp nos anos 1990, quando o santanense sucumbiu a um infarto, 20 anos atrás.
Agora, 40 anos depois da memorável estréia literária do poeta Nei Duclós, ei-lo de volta com o mesmo Outubro numa edição comemorativa recheada de aportes, considerações e elogios de amigos e admiradores, entre eles Claudio Levitan, Dilan Camargo, Juarez Fonseca e Luiz Carlos Merten, gaúchos que afirmam ver nesse livro uma espécie de “manifesto de uma geração”. De fato, Outubro mantém acesa a chama da juventude poética dos terríveis anos 70.
Nei Duclós fotografado por Nana Monteiro/ND
Morando num ermo recôndito em Florianópolis depois de trabalhar por duas ou três décadas em São Paulo, sempre entremeando jornalismo, crônica ,conto, assessoria de imprensa e poesia, Nei Duclós não conserva da fisionomia da juventude senão os profundos olhos azuis. A cabeleira hippie deu lugar a um corte convencional de barbearia e a magreza poética transformou-se numa opulenta obesidade. Nada de novo nas fronteiras da vida: muitos magros viraram gordos enquanto alguns se tornaram praticamente irreconhecíveis à medida que o tempo lhes alterava a estampa, mas nem todos renunciaram à humanidade. Embora castigado pelos transes da vida, Nei Duclós não perdeu o peculiar senso de humor e se manteve fiel ao seu passado poético. Mais do que isso, ele continua escrevendo e publicando artigos, crônicas, contos e poemas em seus endereços digitais, como se pode conferir no site www.consciencia.org/neiduclos, no seu blogoutubro.blogspot.com, no Facebook e no Twitter, tudo isso indicado no Google.
Visto em perspectiva, Outubro de 1976 lembra o trabalho de poetas armados de graça e raiva como Thiago de Mello, Vinicius de Moraes antes de aderir à MPB, Drummond, João Cabral de Melo Neto, Affonso Romano de Santana e Armando de Freitas Filho, entre outros. Diferente da maioria dos acima citados, o que mais caracteriza a poesia de Nei Duclós é a economia de palavras e até de sinais gráficos como ponto e vírgula.
Em poucos versos ele liquida o assunto: “Sempre que vejo um rio/parece que do outro lado/está a Argentina” (Lição de Travessia, poema em que ele fala “d’as balsas carregadas da infância”). Para encurtar esta resenha, vejam o poema que ele escreveu sobre Mario Quintana:
“Olhem o antípoda
olhem o animal da palavra
É um dinossauro na cidade de vidro
Borboleta branca na floresta queimada
Respeitem seu andar
e desconfiem com temor
de sua conversa fiada
Ele é o flagelo do Senhor
e vocês não sabem”
Raul Seixas, o “Monstro Sist” e o conformismo
O sistema – enquanto engenharia social montada para submeter os menos conscientes aos ímpetos dos poderosos – produz seres previsíveis e infelizes, porém conformados: pessoas que praguejam por não gozarem do melhor emprego, por não ganharem os melhores salários, por não comprarem os melhores carros, pelas injustiças… mas é só chegar o final de semana – e seus goles de esquecimento – que tudo fica “globeleza”. Insatisfeitos mas obedientes, aceitam manter o “silencioso desespero” de suas vidas, como dizia Thoreau.
A Arte é um dos presentes dos Céus para chacoalhar as estruturas da sociedade quando seus integrantes se encontram alheios às infinitas possibilidades que a vida proporciona. Raul Seixas (28/07/45 a 21/08/89) foi um desses artistas que fizeram da arte uma espada para combater a hipocrisia e transmitir os valores de liberdade e coragem, que nortearam sua passagem por este planeta.
Com temas irreverentes e profundos e uma ousadia rítmica que unia vertentes distantes como Xaxado e Rock and Roll, a música de Raulzito, como também era chamado, seduziu milhões de fãs pelo “som” e o conteúdo originais. Mais do que palavras bem colocadas, suas letras inspiravam as pessoas a questionarem a ordem estabelecida e a buscarem um caminho alternativo às conveniências do sistema, ou o “Monstro Sist”, como tratava.
A canção “Ouro de Tolo” é uma das obras que condensam o espírito contestador do “Maluco Beleza”. Versos como “Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar” e “Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado” são um tapa na nuca dos reféns da mesmice cotidiana.
O mais impactante para o paradigma vigente, porém, ele deixa para o final: convicto da existência de seres inteligentes provenientes de outros planetas, termina a letra da música com uma provocação inquietante para os que preservam pelo menos um pouco da curiosidade dos grandes homens: “Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais, no cume calmo do meu olho que vê, assenta a sombra sonora de um disco voador”.
Com todos os seus erros humanos, o baiano Raul Seixas foi um desses raros exemplos de artistas que conseguiram fazer do próprio ofício um instrumento para alertar os que, apesar de todo sofrimento, persistem “bravamente” na zona de conforto. (Na maioria das vezes, é o próprio sistema que se vale da influência da arte para propagar a programação mental que mais lhe convém.) É urgente o surgimento de artistas com a coragem e o talento de Raul Quem sabe assim o algo mais substantivo possa ser feito contra o “Monstro Sist”.Um “thriller” do que a ditadura faria nos anos seguintes
Lançado em agosto e repicado agora na 62ª Feira do Livro de Porto Alegre, “O Sargento, o Marechal e o Faquir” (272 páginas, Libretos), de Rafael Guimaraens, recebeu uma carrada de comentários favoráveis em jornais, revistas e blogs, mas nenhuma resenha ousou dizer que se trata da mais completa e precisa reconstituição da história trágica do sargento nacionalista Manoel Raymundo Soares, protagonista central – como vítima — do “Caso das Mãos Amarradas”, que veio à tona em agosto de 1966 na margem esquerda do Rio Jacuí, em águas da capital gaúcha.
Seus algozes, identificados como integrantes do DOPS e do Exército, não foram punidos por um rol de crimes que começa com a prisão sem mandado judicial, segue com a tortura por uma semana em dependências militares e policiais, agrava-se com o encarceramento por cinco meses sem processo na Ilha do Presídio, no Lago Guaíba, e termina com a morte por afogamento durante uma sessão de “caldo” em que o preso foi obrigado a ingerir uma bebida alcoólica, fosse para aguentar o frio de agosto, fosse para “abrir o bico”.
Na sua última viagem, à noite, nas águas do lago-rio que banha Porto Alegre, Manoel tinha as mãos amarradas às costas com tiras de sua própria camisa, item que ajudaria na sua identificação, pois a “volta-ao-mundo”, fácil de lavar e que não precisava ser passada a ferro, era sua roupa de todo dia na prisão.
O “Caso das Mãos Amarradas” passou das páginas policiais para o noticiário político, pois gerou uma CPI (comissão parlamentar de inquérito) na Assembleia Legislativa do Rio do Grande do Sul, afrontando as autoridades militares e o próprio governador Ildo Meneghetti, obrigado a lavar as mãos como o títere romano Pôncio Pilates no caso de Jesus Cristo, segundo o Novo Testamento.
Salvo descuido histórico, Manoel Raymundo Soares foi a primeira vítima da tortura política praticada à sombra da ditadura militar então comandada pelo marechal Castello Branco.
No livro, o sargento nacionalista, admirador de Leonel Brizola, desertor do Exército, brilha como herói por não entregar os companheiros dissidentes da ditadura, com quem andava a tecer planos revolucionários — findas as sessões de tortura, isolado em sua cela, ele punha-se a cantar o Hino Nacional Brasileiro, como recordaram alguns companheiros de cárcere ao repórter-historiador de Porto Alegre. No fundo, era um sonhador que foi se isolando no radicalismo político, como aconteceria com algumas centenas de dissidentes nos anos seguintes.
Já o marechal Castello Branco, pivô da prisão do sargento, consta no livro como o chefe fraco que não ousou enfrentar os militares adeptos do endurecimento do regime, sacrificando seus supostos sentimentos democráticos à disciplina da caserna.
Por fim, num achado digno dos melhores romances policiais, Rafael Guimaraens põe na história um “tertius” até agora esquecido por narradores e acadêmicos que se debruçaram sobre o Caso das Mãos Amarradas: o faquir fracassado Edu Rodrigues, pintor de letreiros e fazedor de bicos que entra em cena para “ajudar” o solitário sargento na colagem de panfletos antiditadura no centro de Porto Alegre e acaba se revelando um “cachorrinho” do Serviço Nacional de Informações (SNI).
Narrada em takes que se sucedem como um pré-roteiro cinematográfico, a história não se limita às três personagens do título. Nela aparecem também investigadores policiais sem medo, advogados conscientes de seu papel profissional e parlamentares corajosos diante de autoridades civis e militares armadas de evasivas, mentiras e omissões. O próprio general-presidente Castello Branco não obtém resposta para um memorando em que pede informações sobre o “Caso das Mãos Amarradas”. Entre os estudantes que se movimentam na cena, aparece até Tarso Genro, então com 16 anos, disputando vaga na liderança da entidade nacional dos secundaristas.
Em seu relatório-denúncia, o promotor Paulo Tovo conclui que os principais responsáveis pela morte do ex-sargento são o delegado do DOPS José Morsch e o major do Exército Menna Barreto. Nada acontece, exceto que Tovo ficou marcando passo em sua carreira no Judiciário gaúcho. Uma injustiça profissional, sem dúvida.
Cinquenta anos depois, o crime de Porto Alegre permanece impune. Afora a leveza e precisão da narrativa, o maior mérito do livro de Rafael Guimaraens é provar que o “Caso das Mãos Amarradas” foi um “thriller” do que a ditadura militar faria nos anos seguintes, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, que se destacaram como centros de caça, aprisionamento e tortura de dissidentes políticos.
Porto Alegre não abdicou de seu papel como coadjuvante da repressão, como se viu no sequestro dos uruguaios Universindo Diaz e Lilian Celiberti, episódio de novembro de 1978 cujos autores não foram punidos, embora estivessem a serviço da Operação Condor, uma das maiores organizações criminosas da história da América Latina (ver a propósito o livro “Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios” (464 páginas, L&PM Editores, 2008), do repórter-historiador gaúcho Luiz Claudio Cunha.
Autor de vários livros-reportagem, entre os quais se destacam “A Enchente de 1941” e “A Dama da Lagoa”, Rafael Guimaraens construiu com “O Sargento, o Marechal e o Faquir” sua maior obra. Entretanto, trata-se de apenas um tijolo a mais na reconstrução da história brasileira que se enfileira ao lado de outros livros como “Os Vencedores” (Geração Editorial, 2013), do gaúcho Ayrton Centeno, que usam a ferramenta da investigação jornalística para fazer aflorar verdades e mentiras, das quais se valem os cidadãos conscientes para fazer a justiça possível no momento oportuno.
Foi assim no episódio de dois anos atrás, quando a Câmara dos Vereadores de Porto Alegre rebatizou como Avenida da Legalidade e da Democracia a principal via de acesso a Porto Alegre, até então denominada Marechal Castello Branco.Instituições adultas estão doentes
Fazia muito tempo que instituições previstas para cuidar e bem educar crianças e adolescentes não se prestavam a espetáculos tão grotescos como os que temos assistido no Brasil nos últimos meses.
Frente a ocupação de mais de 1.300 escolas estaduais e federais, faculdades e universidades, em cerca de dois terços dos estados brasileiros, por estudantes secundaristas e do ensino superior contrários aos anunciados efeitos nocivos da PEC 241 (55), contrários a Medida Provisória que permite o sucateamento da Educação Básica e às propostas de Lei, intituladas Escola Sem Partido, o Ministério da Educação falta às suas obrigações constitucionais.
Mais que isso, o MEC ameaça, busca que escolas e instituições de ensino superior entreguem os nomes de quem está ocupando para tomar ‘medidas cabíveis’. Com a proximidade do Exame Nacional do Ensino Médio, ao invés de negociar com os movimentos, dá ultimato: saiam ou não haverá o ENEM.
Ministério da Educação assume, com a postura do ministro de um governo antidemocrático, ares do governo civil-militar pós 1964. No caso do ENEM, jogam estudantes contra estudantes, povo contra povo. Alega o MEC questões técnicas e de custo. Absoluta inverdade.
Com maiores problemas e prazo mais exíguo, a Justiça Eleitoral determinou a mudança dos locais de votação em escolas ocupadas, no segundo turno, para mais de 700 mil eleitores dos estados do Espirito Santo, Goiás, Pernambuco e Paraná. Já o órgão que deveria ser o gestor nacional da política pública de educação deixou 191 mil estudantes sem ENEM por motivo ideológico. Por repulsa à democracia, apostando no caos social, esquivando-se de debates com os estudantes.
Por outro lado, no Distrito Federal, um juiz determina tortura contra estudantes ocupantes, posição rapidamente seguida em outros estados, com corte de água, luz, comida e entrada de familiares em escolas ocupadas. Um promotor de justiça do Paraná diz que estudantes que ocupam escolas são piores que adolescentes que estão aliciados pelo tráfico de drogas e que cometem atos infracionais.
Adultos impregnados de autoritarismo, deseducando. Jovens praticando atos de desobediência civil, de coragem e de esperança.“Moro num país desigual…”
Geraldo Hasse
Para um pobre mortal situado na base da pirâmide social, é afrontoso ver os senhores magistrados aceitarem o benefício do auxílio-moradia alegando que é legal e que uma recusa, ostensiva ou discreta, seria mal vista pela categoria. Nisso, ao contrário da lenda, a magistratura não foi lerda. Até onde se sabe, nenhum juiz teve coragem de recusar o auxílio- moradia, o mais recente privilégio da categoria funcional mais bem remunerada do país.
A mordomia habitacional dos magistrados é acintosa quando se pensa que essa casta é protegida constitucionalmente por três invejáveis garantias: indemissilidade, inamovilidade e irredutibilidade dos salários.
Essa trinca de “ades” foi institucionalizada para que os magistrados fiquem teoricamente livres de perseguições políticas e de tentações corruptivas, podendo assim se dedicar à administração da justiça e à busca do bem comum. Entretanto, bem remunerados e com a carreira garantida, muitos deles se deixam seduzir pelo brilho fácil das entrevistas e palestras.
No momento, os mais picados pela mosca azul do poder são o juiz Sergio Moro, o ministro Gilmar Mendes e a nova presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Carmen Lúcia.
Por mais meritocrático que seja, o sistema do Judiciário abriga e cultiva privilégios incompatíveis com o estágio de (sub)desenvolvimento do Brasil.
Seria muito mais justo se o dinheiro do auxilio-moradia fosse aplicado em favor da segurança do patrimônio público — escolas, creches e postos de saúde – frequentemente depredado por gente sem noção de direitos e deveres sociais. Mas quem vai dizer – “Eu passo, não vou aceitar”?
Como estão no topo da escala salarial do funcionalismo, eles poderiam dispensar benesses que afrontem o espírito democrático. Seriam aplaudidos pela população. No entanto, o que se vê é a maioria dos magistrados fazendo força para entrar para o clube da elite pensante, aquela que só pensa em si.
Além de não ter coragem de corrigir distorções como as férias de 60 dias, que agridem a cidadania, a maioria dos magistrados adota como seu o estilo de vida da classe dominante, ignorando o fato de que a maioria dos brasileiros está digerindo o trauma do impedimento presidencial e o triste espetáculo da Operação Lava Jato.
Na vida pública, o exemplo ético é fundamental. Sem ele, não se constrói um país equilibrado e feliz.



Visto em perspectiva, Outubro de 1976 lembra o trabalho de poetas armados de graça e raiva como Thiago de Mello, Vinicius de Moraes antes de aderir à MPB, Drummond, João Cabral de Melo Neto, Affonso Romano de Santana e Armando de Freitas Filho, entre outros. Diferente da maioria dos acima citados, o que mais caracteriza a poesia de Nei Duclós é a economia de palavras e até de sinais gráficos como ponto e vírgula.