Categoria: Análise&Opinião

  • Roberto Müller: anotações para um perfil

    Fiquei uma manhã em choque com a notícia da morte do Roberto Müller.

    Sim, a morte dos velhos amigos é quase uma rotina para um octogenário, mas o Roberto Müller no meu imaginário era daquelas figuras arquetípicas que deviam ficar como referência para muitas gerações – no caso dele, para muitas gerações de profissionais que se dediquem a esse ofício de  “informar o que acontece”.

    Levei um segundo choque ao ver que a dita imprensa, os veículos tradicionais do jornalismo, praticamente ignorou a morte de um profissional como ele,  que foi um baluarte dessa profissão, no que ela tem de melhor.

    No que li nas redes sociais, faltaram dois momentos fundamentais que dão a dimensão da importância do jornalista Roberto Müller:

    1) o papel de catalisador que a Gazeta Mercantil teve na articulação que levou a elite empresarial do país a desembarcar da ditadura, com os dois manifestos, de 1978 e 1983;

    2) o afastamento dele da direção do jornal que resistia ao processo da financeirização da economia, que acabou se consumando, com a falência da Gazeta e o surgimento do Valor.

    Duas histórias a ser contadas, dois pontos cruciais da história brasileira recente em que Roberto Müller foi protagonista. (Elmar Bones)

  • ENIO SQUEFF/ Quando a alternativa é só a política

    É notável e significativo que os principais protagonistas das enchentes do Rio Grande do Sul nomeadamente o prefeito Sebastião Melo, de Porto Alegre e o governador gaúcho, Eduardo Leite, tentem impedir que as tragédias sejam, como eles dizem,politizadas. É um engodo. Os dois políticos não sabem ou fingem não saber o que é política. A palavra vem do grego “polis”. Política referese tudo ao que diz respeito à “polis” cidade, em grego. Ora, a se considerar que os centros urbanos gaúchos, seus arredores e seus segmentos, as áreas agriculturáveis que as alimentam, foram afetadas, quando não destruídas, se existe uma questão a ser discutida é exata e indiscutivelmente, a política. Tudo o que se refere à “polis”, como é o caso, é do âmbito da política; não existe absolutamente nada mais urgente e prementemente a ser debatido que não a política.  

    Há compreensíveis receios dos dois dirigentes a exporem o que não fizeram na administração da “polis”, vale dizer, das cidades gaúchas e tudo o que se refere a elas. A vulgar palavra desleixo ou o mais despectivo conceito, resumido no mais vulgar que é a palavra “esculhambação” são os termos inegáveis a serem aplicados, sem qualquer pejo, ao que ambos fizeram em suas respectivas administrações.  

    Desgoverno, incompetência, desprezo pela polis, ou seja, pela coisa pública ou res (coisa, em latim), pública ressumam uma ideologia muito difundida nos últimos anos pelo que está muito próximo do fascismo. Historicamente, o fascio que tomou a Itália não só antes da Segunda Guerra, mas hoje em dia, e que é o nosso popular facho, no caso da Itália expressa de forma suscinta, o que é: tratase de um feixe de varetas amarrados (normalmente com um machado, que sugeria a autoridade e que simboliza a união inquebrantável e ameaçadora das ditaduras). Era com os feixes, ou mesmo fachos de luz, que os exércitos romanos desfilavam para as suas batalhas. Assim como a palavra política, que os dois dirigentes gaúchos, apesar de políticos, não sabem ou fingem não saber o que significa, o neoliberalismo com os quais eles se identificam, pretendem que nos devemos unir em torno do conhecido mercado. Seria ele e não o Estado, o condutor do mundo novo.

    Foi por exorcizar o Estado em favor do Mercado, como se quem poderia socorrer as vítimas de quaisquer flagelo fossem os donos da Van e das Americanas, que o governo brasileiro anterior, logrou que morressem mais de setecentos mil brasileiros de Covid19. Os neoliberais que cultuam o mercado, prescindem das milícias fascistas e nazistas (o sucedâneo do fascismo na Alemanha): têm mais nos grupos de informação a grande imprensa, as redes de TV, a imprensa hegemônica, em suma, os promotores da “lavagem cerebral” que hoje se observa no país. Foi a grande imprensa, com as quase inexistentes exceções quem convenceu os eleitores brasileiros a elegerem o pior parlamento que o Brasil já teve, incluídos aí vários chefes dos executivos municipais e estaduais. O prefeito Melo e o governador Leite, fazem parte desta geleia geral que praticamente domina o país. Fácil de explicar.

    A imprensa hegemônica é um negócio que se faz vendendo anúncio das grandes corporações capitalistas, do agronegócio, e dos interesses do Império. A coisa chegou a tal ponto, que segmentos inteiros do próprio Estado, como as Forças Armadas, corporações da saúde, do mundo jurídicoformamse em torno do mercado. É o que explica haver generais dispostos a trair seu país, a médicos negacionistas das vacinas, e governantes, como Melo e Leite, a deixarem apodrecer equipamentos que deveriam resguardar as cidades das enchentes, dos incêndios, da bandidagem e assim por diante. Tudo para vender os próprios do Estado, com grande vantagem para os compradores normalmente estrangeiros. Tratase do velho e podre entreguismo.

    Quantos militares não trabalharam para o desmonte de fábricas de armamentos nacionais, em favor dos fabricantes dos países hegemônicos? E quantos médicos abdicaram de seu saber contra a vacinação, mas em favor da ineficiente cloroquina para combaterem a recente pandemia, tudo em nome da ideologia neoliberal? E quantos não trabalham contra o SUS, apesar de saberem que é o único remédio para os milhões de pobres do Brasil? No entanto, sem o aparelho estatal Forças Armadas, Corpo de Bombeiros, médicos inseridos no setor público, a máquina do Estado, em suma, o Rio Grande do Sul estaria ainda ao Deus dará, como se manteve nos primeiros dias, quando Melo e Leite, atônitos, agiram como baratas tontas, sem saber o que fazer? O governador Leite chegou ao cúmulo, em sua ideologia neoliberal, de pedir que o Brasil, por meio de seus estados, cessasse de enviar roupas, remédios, e dinheiro, tudo para proteger neoliberalmentea economia gaúcha, completamente destroçada pelas águas. A população gaúcha que ficasse sem abrigos, passando fome, sedenta de águas puras, esperando a enchente baixar. E o mercadinho da esquina a contar com o fim do desabastecimento, só possível com a remontagem das estradas, dos aeroportos e afins, providências que o mercado, por si só, evidentemente não normaliza.

    Esse o nível de descomprometimento com a polis, ou seja, com as cidades que levaram os dois políticos, a não querer discutir o essencial, que é a política. 

    Poupemonos de garimpar expressões não chulas para classificálos. Os leitores certamente as terão, e irão agradecer por não sermos disfêmicos. 

     

    *Enio Squeff é artista plástico.

  • Varsóvia e Gaza: dois guetos, a mesma estupidez

    Luiz Cláudio Cunha

    Os primeiros comentários sobre a reação de Israel ao ataque terrorista do Hamas, mencionando nazismo, me pareceram sem propósito.

    Afinal, falar em ‘judeu nazista’ parecia uma clara contradição em termos, pura antinomia. Como assim, judeu nazista?

    Ao longo dos dias, enquanto se intensificavam os bombardeios de Israel sobre Gaza, ampliando as mortes de crianças, mulheres e civis inocentes, a expressão se naturalizou pela brutalidade crescente da impiedosa ação militar das tropas de Netanyahu.

    Comecei a procurar, então, o fio que dava nexo àquela expressão aparentemente esdrúxula. Gaza, cercada por muros, cercas eletrificadas e tropas armadas, é tecnicamente um gueto onde vivem confinados 2 milhões de palestinos. Dentre os 400 guetos criados por Hitler na Europa ocupada, na Segunda Guerra Mundial, o maior deles era o de Varsóvia, onde vivia a maior comunidade judaica do continente.

    Seus 350 mil habitantes foram confinados numa área de 3 km² – um drama humano semelhante aos 2,2 milhões de palestinos virtualmente encarcerados em 365 km².

    Com esses números perversos, foi possível estabelecer a simetria terrível entre Varsóvia e Gaza, com um detalhe assustador: a macabra inversão de posição entre os judeus perseguidos de 1943 e os judeus perseguidores de 2024. A estupidez é a mesma, os uniformes é que são distintos.

    Durante três meses, pesquisei arduamente em arquivos de jornais e sites de museus em Israel, Alemanha e Estados Unidos dedicados aos massacres de judeus.

    Selecionei 90 fotos dramáticas que contam, graficamente, um pouco do terrível drama humano vivido por milhões de pessoas no cerco inclemente que Israel faz contra mulheres e crianças.

    Um drama que passa batido pela distante e fria imprensa brasileira, que não foi e não está lá. Nenhum dos três grandes jornais do país mandou um enviado especial para sentir, de perto, o calor e o sofrimento vivido por civis inocentes. Uma das páginas mais vergonhosas do jornalismo brasileiro!

    Humanitas, respeitada revista on line da Unisinos, teve a rara coragem editorial e a aguda percepção histórica para acolher esse texto, que é inédito na imprensa brasileira – pelo tom, pela abrangência e pelo recorte histórico, que ajudam a entender melhor o massacre que ocorre em Gaza.

    Leia neste link a íntegra do ensaio publicado pela Humanitas para captar a brutalidade de Netanyahu que a imprensa brasileira, por comodismo ou conivência, esconde.


    *Jornalista, é autor de Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios (ed. L&PM, 2008) e foi consultor da Comissão Nacional da Verdade (CNV), no grupo de tarefa que investigou a Operação Condor e as conexões repressivas do Cone Sul ao tempo da ditadura.

  • RUALDO MENEGAT/ Sobre a emergência climática e ambiental no RS

    Devemos reconhecer, em primeiro lugar, que não só há um apagão da infraestrutura do Estado do RS – que Leite e Melo privatizaram e que agora gerenciam de forma incompetente, estruturas como CEEE-Equatorial, Corsan, entre outras. Sartori e Leite desmontaram também a inteligência estratégica do Estado: Metroplan, FZB, FEE, SEMA e CIENTEC. Além disso e muito importante: há um apagão da natureza para mitigar os efeitos de eventos climáticos extremos, posto que a drenagem natural e os ciclos hídricos foram destroçados pelas políticas de uso intensivo do solo. Flexibilizaram leis para aumentar áreas de plantio de soja, desmontaram planos diretores para ampliar a especulação imobiliária em zona ribeirinhas, para implantar minas de carvão e para favorecer a especulação imobiliária. Sem inteligência social e com a infraestrutura natural destroçada, temos pela frente um longo caminho para adquirirmos condições de enfrentar a emergência climática e ambiental que estamos atravessando.

    Temos que ter em mente que isso é apenas um começo. Temos que agir estrategicamente se quisermos encorajar a sociedade a enfrentar os tempos que estão aí e os que advirão. A UFRGS é uma instituição fundamental para isso. É a inteligência estratégica que sobrou em um Estado que está sendo desmontado peça por peça. Sem inteligência social, a sociedade não só fica muito mais vulnerável frente aos impactos adversos dos tempos severos, mas também fica refém da ação de forças externas, sobre as quais não tem controle, como o Exército e empresas privadas.

    Tudo conduz para a ideia que nada podemos fazer enquanto sociedade, cada vez mais submetida à inclemência da natureza e ao horror de políticas autocráticas e ignorantes. A Universidade é a esperança possível para desenvolver uma inteligência social que encoraje a sociedade a enfrentar a emergência climática-ambiental do século XXI.

  • GERALDO HASSE/ Lições e riscos da grande enchente de 2024

    Foram aparentemente muito bons os encontros do presidente Lula e seus ministros com o governador Eduardo Leite na terça-feira, 2 de maio de
    2024, em Santa Maria, e no domingo em Porto Alegre (aqui incluindo o prefeito da capital). O assunto que os unia era a defesa do Estado diante da devastação produzida pelas chuvas e pelo transbordamento
    generalizado dos cursos d’água.

    Novidade, os dois encontros foram realizados em unidades militares. E quem foi colocado no comando das operações? Não um engenheiro civil ou um geólogo ou um médico, mas um general do Exército. Não um general
    genérico, mas o atual vice-chefe do Estado Maior do Exército, general Hertz Pires do Nascimento, nascido em 1963 no Rio de Janeiro. Ora, se estamos sendo atacados – não de surpresa ou inesperadamente – por poderosas forças da Natureza, nada mais lógico do que empregar a logística militar. Afinal, o que está em jogo não é somente a vida das pessoas, mas a integridade dos recursos naturais do território nacional. Resta agora esperar os desdobramentos dessa mudança numa democracia periclitante e historicamente ameaçada pela insubordinação militar.

    Entretanto, embora contenha riscos à luz de acontecimentos recentes e antigos, essa nova organização das coisas faz sentido, pois vivemos uma
    situação equivalente a um ataque de guerra desfechado, no caso, por elementos tri-perigosos: a chuva em volume suficiente para bagunçar a vida de milhares de pessoas por meio de enchentes destruidoras de cidades, estradas, pontes, postes e lavouras. É certo que não temos aqui
    incêndios, vulcões ou terremotos, mas podemos  comparar a situação atual a um tsunami ao contrário. Um tsunami que não veio do oceano, mas das nuvens, das cabeceiras dos rios. Um fenômeno natural turbinado pelo
    desprezo humano pelo equilíbrio ambiental. De agora em diante, é preciso ficar em guarda.

    E pensar que toda essa desastreira veio ocorrer no estado pioneiro na criação de leis ambientais. Penso em José Lutzenberger, desde 2002 sepultado no perímetro da Fundação Gaia, em Pantano Grande. Me pergunto
    o que ele diria dessas enxurradas e de tudo que faz parte do quadro que estamos vivendo. Ele foi comparado a um profeta ecológico. É natural, agora, pensar que as mais recentes catástrofes climáticas no RS sinalizam a necessidade de encarar a emergência não como uma batalha eventual, mas como uma guerra permanente pela restauração do equilíbrio ambiental. Faz sentido, portanto, incumbir as Forças Armadas de coordenar os esforços para tirar a população do sufoco, sem deixar as
    coisas ao deus-dará, com milhares de fios desencapados à mercê de ocorrências deletérias. Sou da mesma geração de Lula e logo não estaremos mais aqui, mas eu gostaria que fôssemos lembrados como aquele tipo de pessoa que lutou pelo bem comum e teve coragem de afrontar os poderosos que só pensam em dinheiro. Sim, Lula está tendo a rara oportunidade de enquadrar os malfeitores do meio ambiente. Pode alguém argumentar que ele se
    aproveitou do momento para promover um grande lance de fundo eleitoral, mas não dá para duvidar de sua sinceridade ao ouvir o que ele disse ao prefeito de Faxinal do Soturno, no final da reunião de quinta em Santa Maria. Poderia ter deixado passar a queixa do gestor municipal, mas com poucas palavras o confortou e prometeu ajuda.
    Estamos focalizando momentaneamente o Rio Grande do Sul, mas o ciclo das emergências climáticas está rolando em todo o planeta. É quase como um ataque alienígena. A tarefa de salvação é gigantesca e não se resume à pós-enchente. Há toda uma correção de rumos a fazer. É preciso identificar os vilões ambientais e processá-los para que não se perpetue esse estado de coisas. Falemos dos especuladores imobiliários urbanos. Dos administradores públicos lenientes. Dos praticantes da agricultura predatória, autora impune de desmatamentos e ocupação de banhados. Os agricultores não agem sozinhos ou isolados. Eles operam segundo uma lógica determinada pela indústria de insumos e máquinas. Seguem um modelo implantado desde o início do século XX, a partir dos EUA e da Europa e que vem incorporando grandes áreas da Ásia, da América e da África. O Brasil é caudatário e refém – prazeroso – dessas perversões
    empresariais que incluem as revendas agropecuárias, a aviação agrícola, os bancos liderados pelo BB, os governos em geral e até instituições de pesquisa como a Embrapa. É um sistema poderoso que literalmente tratora os recursos naturais, destrói as matas ciliares, contamina os cursos d’água e os lençóis freáticos. Ninguém está imune às forças da natureza, mas o bom senso indica que é preciso dar um basta ao despautério ecológico. É um direito das novas gerações receber um ambiente limpo.

    Por arriscada que seja, a gestão militar das operações de salvamento dá às Forças Armadas um bom motivo para trabalhar pela maioria da população ameaçada pelo “inimigo ambiental”. Que seja bem sucedida e não ceda a
    tentações fora da ordem democrática constitucional. Essa situação que se agrava sem remédio deixa claro que está na hora de reformular o conceito de segurança nacional. Não faz sentido manter as Forças Armadas em quartéis à  espera de um improvável ataque militar inimigo. Está tudo sob controle, menos o vetor ambiental.

    Estamos cansados de saber que as potências lutam para impor a dominação econômica, mas o verdadeiro inimigo agora é o risco de decomposição do equilíbrio ecológico via distúrbios climáticos, poluição desenfreada e outros problemas, entre os quais se alinham crimes praticados por brasileiros mancomunados com estrangeiros – para citar um caso extremo, o garimpo em reservas indígenas, a mineração na Amazônia e outros crimes ecológicos em todos os biomas nacionais, do Pampa ao Semiárido.

  • LISIANE ACOSTA* / Testagem rápida da Dengue é importante, também, para o manejo ambiental

    *PhD Saúde Coletiva

    Após vinte anos de trabalho na vigilância epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre, auxiliando na publicação do Boletim Epidemiológico das Doenças Transmissíveis do município, o qual registra toda a história da Dengue na cidade, me pergunto o porquê de a testagem rápida da dengue ainda não ser valorizada na orientação ágil em ações de controle ambiental, além de ser uma definição diagnóstica clínica rápida?

    Com a identificação do vetor Aedes Aegypti em 2001 e dos primeiros casos autóctones em maio de 2010, uma importante discussão na Capital foi trabalhar na agilidade de ações ambientais direcionadas à presença do vetor e da circulação do vírus, principalmente.

    Os objetivos eram usar o inseticida de forma que não gerasse resistência e não agredisse muito o ambiente, pois ele elimina também outros insetos, e conseguir chegar o mais rápido possível na área para impedir a transmissão, através de diagnósticos rápidos de casos suspeitos de Dengue, agilizados com a compra de testes tipo Ns1(antígeno Dengue), realizados no início dos sintomas e com alta especificidade. Além disso, foram distribuídas armadilhas em pontos com maior prevalência de casos e vetores para detectar o vírus já no vetor, agindo antes mesmo de ter casos em humanos.

    Também a divulgação de locais de potencial risco sempre foi uma grande preocupação, tendo em vista a ação da população, e foi criado o site de geolocalização de focos e casos estratificados por graduação de risco .

    Apesar de todas essas ações, ocorreram três grandes surtos (2013, 2016 e 2019) e duas epidemias 2022 e 2023 com mais de 5 mil casos confirmados em cada ano, descritos no Plano Municipal de Contingência Dengue, Zika e Chikungunya de 2023. O subtipo viral nos surtos foi o DENV1 e o DENV 2 em 2023.

    Hoje, o município se encontra no nível 2 de alerta, com 455 casos, segundo a Secretaria Estadual de Saúde no painel de casos de Dengue, e está com 85 agentes de endemias, segundo o mesmo site, que, com certeza, possuem mais condições de trabalho agora que nos momentos de pandemia do COVID de 2020 a 2023.

    Sabemos da complexidade de controle de doenças transmissíveis, especialmente as que se relacionam ao meio ambiente e determinantes sociais em saúde. Por essa razão, todos os fatores que possam auxiliar nesse momento devem ser disponibilizados, como a testagem rápida para Dengue.

    O Ministério da Saúde do Brasil aderiu a essa tecnologia e a disponibilizará, conforme noticiou o jornal Zero Hora, em 13/3/2024. Portanto, cabe às  secretarias Estadual e Municipal de Saúde a utilizar, visando não só um diagnóstico precoce de casos, mas uma celeridade nas ações de controle dos vetores, primordial sempre neste agravo.

    Pense comigo, se ao procurar um serviço de saúde com sintomas de Dengue, o diagnóstico fosse em 20 minutos, com todos os cuidados clínicos e demais exames realizados naquele momento, você certamente se cuidaria melhor e ao chegar em casa revisaria todo o ambiente, eliminando prováveis criadouros do mosquito e logo receberia o agente da dengue para auxiliar no controle ambiental da sua região. Portanto, a testagem rápida, além de agilizar o procedimento clínico, balizaria um rápido manejo ambiental.

  • GERALDO HASSE/ 200 anos da dívida que estrangula o Brasil

    Geraldo Hasse

    Este ano a dívida pública brasileira está completando 200 anos. Começou com 2 milhões de libras esterlinas emprestados pelos Rottschild ingleses ao governo do imperador Pedro I.

    A grana foi usada para pagar Portugal, que se colocou como credor do valor negociado. O Brasil independente
    sofreu na origem com uma facada internacional que vem se perpetuando. E assim estamos até hoje.

    Aquela dívida original foi sendo rolada e ampliada até o valor atual da ordem de R$ 6,5 trilhões, cujo “serviço”
    (juros e amortizações) nos custou mais de R$ 1,89 trilhões bilhões em 2023.

    O que o Brasil pagou em 2023 (Grafico atualizado pela Auditoria Cidadã da Dívida)

    Está previsto que no final deste ano a dívida pública passará de R$ 7 trilhões. Uma merreca impagável! E fica o ministro Haddad buscando fazer economia dos recursos disponíveis no Tesouro Nacional e o Lula manobrando para conseguir grana do Orçamento, para investir em educação, saúde e infraestrutura. A única despesa que se aproxima do valor da dívida pública é a da previdência (R$ 867 bilhões em 2023), menos da metade.

    Esta é um direito social de milhões de brasileiros, enquanto a dívida pública é uma armação em favor
    de rentistas, banqueiros e especuladores/investidores em títulos do Tesouro.
    Não se entende por que a diplomacia brasileira não pega o touro pelos chifres.

    Na última vez em que surgiu uma oportunidade de dar um chega-pra-lá nas sanguessugas grudadas em nossas pernas subdesenvolvidas, o ministro da Fazenda Pedro Malan elevou os juros da dívida  para 49% ao ano.

    Foi temporário, até voltar à normalidade dos juros de dois dígitos, bem acima da prática internacional (hoje está em
    pouco mais de 11%).

    Nessa época, em pleno governo do príncipe FHC, Malan
    legou à posteridade uma frase histórica: “O rabo está balançando o cachorro”.

    Continua balançando e, em lugar do Malan, está no comando do BC o neto do raposão Roberto Campos. Até quando essa espiral de agiotagem vai continuar sufocando a capacidade de desenvolvimento do
    Brasil?
    Hoje, por incrível que pareça, são mulheres que reclamam justiça nesse campo. Há anos a auditora fiscal aposentada Maria Lucia Fatorelli advoga a realização de uma auditoria da dívida.

    Segundo ela, a dívida já foi paga há anos e o Brasil está sendo simplesmente bicado pelos abutres do
    mercado financeiro.

    Fatorelli deu uma bem-sucedida consultoria ao
    Equador, mas aqui entre nós quase não lhe dão ouvidos.

    Agora está sendo lançado pela Boitempo no Brasil o livro A Ordem do Capital, da italiana Clara E. Mattei, que afirma que a austeridade fiscal praticada pelo governo brasileiro é um biombo que protege os rentistas e espolia as classes trabalhadoras.

    No site Outras Palavras, a autora afirma que o
    maior problema do Brasil é o endividamento público, mas as autoridades nacionais parecem indiferentes a esse escândalo “normalizado” por todo mundo, da mídia ao parlamento, passando pelo TCU, a Procuradoria Geral
    da República e demais servidores da república.
    Enquanto vai pagando a dívida, o Brasil vai privando a população brasileira de investimentos em melhorias sociais e obras materiais.

  • MÁRCIA TURCATO/ Democracia inabalada

    Márcia Turcato, de Brasília
    Para nunca esquecer, para que não se repita. Há um ano, nesse dia, milhares de pessoas vestindo camisetas verde e amarela, como se fosse a torcida da Seleção Brasileira de
    Futebol, desceram o Eixo Monumental em direção à Esplanada dos Ministérios, em Brasília.
    Seguiam protegidos pela Polícia Militar.
    Um pouco antes, em 12 de dezembro de 2022, dia da diplomação do presidente da República eleito, Luís Inácio Lula da Silva, os mesmos manifestantes haviam promovido um quebra-quebra no centro de Brasília, inclusive queimando carros e ônibus. Ninguém foi preso. Na antevéspera do Natal, dois desses manifestantes planejaram explodir um caminhão tanque de combustível na área do aeroporto de Brasília. O artefato falhou e o
    plano terrorista foi desmontado.
    Esse contexto continha informações suficientes de que não havia clima de paz entre os manifestantes e que a marcha do dia 8 de janeiro de 2023 até o Congresso Nacional era, no mínimo, suspeita. Mesmo assim, o policiamento era frouxo, amistoso e conivente. O então
    Secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, e que havia sido Ministro da Justiça do ex-presidente Jair Bolsonaro, estava de férias nos Estados Unidos. O governador, Ibaneis Rocha, alegava que a situação era de total tranquilidade.
    Nesse dia, eu passei de carro ao lado da fila de manifestantes que ocupava duas pistas do Eixo Monumental e seguia gritando palavras de ordem e era protegida pela polícia. Eu diminuí a velocidade para gritar: “Zumbis, vão pra casa!”. Fui vaiada e eles seguiram. Estavam acampados há meses na Praça dos Cristais, área militar, em frente ao QG do Exército. Lá tinham acesso a eletricidade, água, banheiros químicos, distribuição de marmitas e centenas de barracas. Desnecessário dizer que a praça, obra do paisagista Burle Marx, foi
    depredada. E foi assim, xingando o presidente eleito, clamando pela volta de Bolsonaro, que estava em
    Miami, e exigindo intervenção militar, que a turba tomou de assalto a Praça dos 3 Poderes e invadiu e depredou o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

    Obras de arte e documentos do acervo público foram saqueadas e danificadas, a arte e a cultura não têm valor para a turba. Isso precisa ser lembrado.

    Um ano depois, com a ministra da Cultura Margareth Menezes cantando com entusiasmo o hino nacional do Brasil para celebrar o ato Democracia Inabalada, é uma alegria imensa ver as obras restauradas e os poderes funcionando normalmente.  Aliás, 24 horas após a
    vandalização, todos os chefes dos Poderes estavam em seus gabinetes trabalhando. O presidente Lula visitou o cenário de destruição, agradeceu a todos que trabalhavam na limpeza do espaço, e no outro dia estava lá dando expediente.

    Apesar dos vândalos declararem seu apoio a Bolsonaro e de afirmarem terem feito o que fizeram para que houvesse uma intervenção militar para trazer o ex-presidente, derrotado nas urnas, de volta ao Palácio do Planalto, é incrível que circule nas redes sociais e entre
    deputados, senadores, governadores e prefeitos eleitos, todos de direita, a versão de que a desordem foi promovida pela esquerda para fortalecer o novo governo.

    A que ponto chegaram as fake news! Como disse o ministro Roberto Barroso, presidente do STF, a
    mentira precisa voltar a ser mentira! E rezar para uma pilha de pneus deve ser visto como uma coisa insana e nunca um ato de fé.

    E a direita precisa dizer a que veio. Se os partidos de direita não querem ser confundidos com fascistas, golpistas e vândalos, é necessário que condenem publicamente os atos golpistas e reconheçam que eles foram planejados nos subterrâneos.

    Mas onde estão os governadores de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Santa Catarina e do Distrito Federal?

    Ibaneis Rocha, governador do DF, este eu sei, está em Miami. Eles não estão no ato Democracia Inabalada, que um ano após o vandalismo que sacudiu o país, festeja o Estado de Direito e o fortalecimento das instituições. Que direita é essa que se diz honesta, seguidora da lei e conservadora mas que parece deitar com o fascismo e beijar o diabo? E nesse grupo suspeito também está o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, que na
    última hora alegou doença na família e permaneceu na sua Alagoas.
    O ministro do STF Alexandre de Moraes, que também é presidente do Superior Tribunal Eleitoral, reafirmou no ato que celebrou a democracia a importância de lembrar, de nunca esquecer, para que manifestações golpistas não se repitam e pregou a urgente regulamentação das plataformas digitais para impedir o avanço da construção de conteúdos falsos que impulsionam nazistas e fascistas. E declarou que a internet não pode continuar sendo uma terra sem lei e ainda criticou as plataformas digitais, que permitem monetizar perfis de ódio.
    O presidente Lula, ao fazer o discurso que encerrou o ato, disse que hoje é um dia muito especial para quem ama e pratica a democracia, é um exercício que precisa ser feito todos os dias. A democracia supera as divergências políticas, porque a divergência faz parte da democracia, e é assim que se vence o fascismo. E chamou o ex-presidente (Jair Bolsonaro) e seus seguidores de golpistas, afirmando que o golpe foi tramado nas redes sociais. O
    presidente salientou que não há perdão para quem atenta contra a democracia e foi ovacionado diversas vezes.

    É isso, sem anista para golpista!

  • VILSON ROMERO / Ataques à imprensa: pelo fim da impunidade!

    Alguém disse ou escreveu que “a primeira vítima de uma guerra é a verdade”, embora não haja consenso quanto à autoria.

    São citados desde o dramaturgo grego Ésquilo (524 A.C. – 455 A.C.), o pensador e escritor inglês Samuel Johnson (1709-1784) e até o político britânico Philip Snowden (1864-1937), do Partido Trabalhista Independente.

    Nos conflitos bélicos mais recentes, não só a verdade perece: os profissionais da comunicação social também tombam pelo caminho.

    O Comitê de Proteção dos Jornalistas (CPJ) revela que, até 30 de outubro, 31 profissionais de imprensa foram mortos no conflito entre Hamas x Israel, além de um sem-número de feridos e desaparecidos.

    A organização também relatou ataques contínuos, detenções, ameaças, censura e assassinatos de familiares de jornalistas que trabalham em Gaza.

    Na Ucrânia, pelo menos 15 trabalhadores da mídia foram mortos desde a invasão russa em fevereiro de 2022.

    Os russos são acusados pelo Sindicato Nacional dos Jornalistas da Ucrânia de atingir premeditadamente veículos de comunicação e jornalistas, fazendo-os de alvos ao lado de hospitais, escolas, orfanatos e prédios residenciais.

    A ONG Human Rights Watch e a Unesco repudiam o fato de que os governos se omitem ou são muito lerdos na busca de punição aos responsáveis pelas agressões e homicídios. Avaliam que ficam livres nove em cada 10 homicidas de comunicadores.

    Segundo a agência da ONU, essa impunidade “leva a mais assassinatos e muitas vezes é um sintoma de agravamento do conflito e da falência dos sistemas legais e judiciais”.

    Cá em Pindorama (me perdoe o mestre Élio Gaspari!), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) denuncia que número de agressões graves a jornalistas cresceu 34,2% nos primeiros cinco meses deste ano, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Os ataques à Esplanada dos Ministérios em 8 de janeiro reforçaram a violente contabilidade, mas casos esparsos têm proliferado em todo o Brasil e se espalhado principalmente em quatro continentes: Europa, América, Ásia e África, como sempre relatamos e denunciamos em nosso blog Tambor da Aldeia (https://tambordaaldeia.blogspot.com/).

    Uma relevante iniciativa para coibir, responsabilizar e punir agressores dos nossos profissionais foi deflagrada no final de outubro pelo Observatório da Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, coordenado pela Secretaria Nacional de Justiça (Senajus), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP): um canal exclusivo para jornalistas denunciarem agressões no exercício da profissão.

    Isto tudo vêm a calhar neste Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, adotado pela ONU desde 2013, não nos permitindo olvidar o sequestro e assassinato dos jornalistas Ghislaine Dupont e Claude Verlon, da Radio France International (RFI), no Mali, em 2 de novembro daquele ano.

    A imprensa é fundamental para a cidadania e os ataques aos profissionais e veículos de comunicação devem ter seus autores identificados, responsabilizados e punidos, sem demora e sem quaisquer protelações. Pelo fim da impunidade!

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    (*) Volson Antônio Romero é jornalista, diretor de Direitos Sociais da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e membro da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Liberdade de Imprensa da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

  • VILSON ROMERO: Os servidores, o patrão e a reforma

    Vilson Antonio Romero (*)

    O artigo 236 da Lei n°. 8112, de 11 de novembro de 1990, que dispõe sobre o regime jurídico (RJU) dos servidores públicos civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais, estabelece que “o Dia do Servidor Público será comemorado a vinte e oito de outubro”.

    Neste ano, grande parcela do funcionalismo federal, ou seja, os trabalhadores do serviço público chegam ao mês de outubro comemorando: escolheram seu “patrão”. Ou seja, fizeram campanha e votaram no atual presidente da República.

    Desde a instalação da equipe de transição, depois do pleito, ainda em 2022, os integrantes da equipe governamental recebem inúmeras demandas dos servidores, começando pela comprovação do congelamento de vencimentos e subsídios no governo anterior que redundou em mais de 27% de perdas salariais acumuladas, desde janeiro de 2019.

    Além desta efetiva queda no poder aquisitivo dos funcionários, foram pautadas a revisão ou revogação de muitos dispositivos com medidas chamadas “antissindicais”, como decretos, portarias e normas infralegais atentatórias ao bom desempenho do serviço prestado à sociedade.

    Mas nada disto avançou, a não ser uma recomposição parcial de 9% nos salários desde maio passado, que foi efusivamente aplaudida por algumas lideranças mais apaixonadas pelo novo comando palaciano.

    Mas, como sempre reforçamos, uma das principais medidas de ajuste fiscal, em qualquer mandato, seja progressista ou conservador, de direita ou de esquerda, na União ou nos entes federados, sempre será a folha de salários dos servidores ativos, aposentados e pensionistas do Poder Executivo. Legislativo e Judiciário sempre se livram das agruras infligidas aos “barnabés”.

    A despeito disto, o governo instalou uma Mesa Nacional de Negociação Permanente (MNNP) onde não se anunciava a possibilidade de avanços nas tratativas de, inclusive, pautas não-salariais. Mas tal ainda não se concretizou num eterno jogo de empurra.

    Por outro lado, as lideranças partidárias de direita, insufladas por frentes parlamentares ligadas ao empreendedorismo e a setores econômicos, pressionam parlamentares para que seja retomada a tramitação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 32/2020, que trata da reforma administrativa.

    Reforma esta que pretende lotear o Estado brasileiro, como avaliam especialistas, e atacar conquistas democráticas e pactos sociais construídos desde a redemocratização.

    Seus efeitos, portanto, estão relacionados ao aprofundamento das desigualdades sociais e ao esgarçamento do tecido social, analisa o Dieese.

    Fim da estabilidade do servidor, contratação por tempo determinado, demissão de “cargos obsoletos” e dificuldade de acesso aos direitos básicos são algumas das mudanças que podem ser implementadas com a PEC 32/2020 que afetam os servidores públicos e a organização do Estado brasileiro.

    Portanto, as ameaças continuam e recrudescem, mas o atual governo também urde suas mudanças sem dialogar com os servidores federais, inclusive sinalizando com criação de cargos e carreiras “transversais”, sem explicar o que vem a ser isso.

    Além disso, as regras do arcabouço fiscal e a postura dos governantes na MNNP já sinalizam que os dias difíceis continuarão. Servidor, festeje, se possível, mas com moderação, pois parece que o patrão escolhido virou as costas a você. Rezemos que não.

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    (*) auditor fiscal e jornalista