Cleber Dioni Tentardini
O desembargador Sergio Luiz Beck, da 1ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça, negou nessa quarta-feira, 13 de junho, recurso da Procuradoria-Geral do Estado (PGE) contra a decisão que trava a extinção da Fundação Zoobotânica (FZB). O magistrado considerou correta a decisão em primeira instância exigindo que o Governo apresente um plano de ação que justifiquem o cancelamento do CNPJ e a transferência das atividades do Jardim Botânico e do Museu de Ciências Naturais, vinculadas à FZB, para a Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMA).
A decisão em caráter liminar foi proferida pelo juiz Eugênio Couto Terra, da 10ª Vara da Fazenda Pública, no dia 31 de dezembro de 2017 e o Estado, notificado no dia 9 de janeiro deste ano. O prazo estipulado para apresentação do plano de ações foi de 180 dias. A princípio, o governo tem até o dia 10 de julho para que o plano de ações seja aprovado pela Justiça.
O pedido de tutela de urgência (liminar) na Ação Civil Pública é de iniciativa do Ministério Público do Rio Grande do Sul, através da Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre. O Parque Zoológico não está contemplado no processo. Há outra ação civil que trata especificamente do Zoo e da Reserva Florestal Pe. Balduínio Rambo, na divisa dos municípios de São Leopoldo e Sapucaia do Sul.
O governo do Estado está impedido de se desfazer de qualquer bem, móvel, imóvel e plantas, animais e fósseis que constituem o patrimônio material das instituições. E não poderá cancelar convênios e contratos com instituições públicas ou privadas até que a SEMA apresente “de forma detalhada e clara” como manterá o patrimônio e a qualidade dos serviços das duas instituições.
Foi estipulado ainda um prazo de 120 dias, a contar daquele 9 de janeiro, para que o Governo providenciasse a reparação do muro divisório entre o Jardim Botânico e a Vila Juliano Moreira, restabelecendo a sua integridade, sob pena de multa diária no valor de R$ 2.500,00 por dia de atraso na conclusão das obras. Ou seja, a multa já está em R$ 87 mil pelos 35 dias de atraso.
A decisão do desembargador Sergio Luiz Beck, que negou agravo da PGE:
“Vistos. Recebo o agravo de instrumento. Ausentes os requisitos dos artigos 995 e 1.019 ambos do CPC, indefiro o pedido de antecipação de tutela recursal, tendo em vista que o douto magistrado da origem examinou muito bem a questão posta aos autos, determinando a apresentação de plano de ações pelo Estado do Rio Grande do Sul e cominando pena de multa diária para cada ato praticado para efetivação/alteração do modo de gestão do Jardim Botânico de Porto Alegre – JBPA e do Museu de Ciências Naturais – MCN sem prévia apresentação e aprovação do referido plano. Outrossim, a vedação de “qualquer remoção, transferência de local de exercício de atividades ou de atribuição técnica de servidor ou trabalhador, pesquisador e especialista vinculado ao JBPA e MCN” até que seja aprovado o plano de ações determinado na decisão liminar não implica necessariamente em retratação da decisão que reconheceu a incompetência da Justiça Estadual para processar e julgar a relação laboral existente entre os servidores celetistas e o Estado do Rio Grande do Sul. Ademais disso, quanto ao perigo de dano, embora não se desconheça da calamidade financeira no âmbito da Administração Pública Estadual, a proteção ao meio ambiente consagra-se como direito difuso e indisponível, o qual atinge toda a coletividade, sobreponde-se, portanto, a questões de ordem econômica. Intime-se a parte agravada para, querendo, apresentar contrarrazões. Dê-se vista ao Ministério Público para parecer. Após, voltem conclusos para julgamento. Diligências legais. Intimem-se”.
Autor: da Redação
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Justiça trava novamente extinção da Fundação Zoobotânica
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Jardim Botânico é um museu vivo com mais de 4 mil plantas nativas
Cleber Dioni Tentardini
O Jardim Botânico de Porto Alegre possui 29 coleções científicas que somam mais de 4.300 plantas, incluindo espécies raras, ameaçadas de extinção e endêmicas, que são encontradas apenas no RS.É um dos cinco melhores e maiores do Brasil, e serve de modelo para criação de outros JBs por sua organização e conservação da flora riograndense.
“A nossa preocupação maior é com a conservação da biodiversidade do Rio Grande do Sul”, afirma a bióloga Andréia Maranhão Carneiro, curadora das coleções do JB. Ela ressalta que o Brasil tem metas a cumprir, por ser signatário de acordos internacionais, especialmente através da Convenção da Diversidade Biológica (CDB)*, assinada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, a ECO 92.
Em 2002, houve a adoção da Estratégia Global para a Conservação de Plantas GSPC – Global Strategy for PlantConservation) na 6ª. reunião da conferência das partes da convenção sobre diversidade biológica em Haia. Foram estabelecidas 16 metas, adotadas pelo Conama, órgão consultivo e deliberativo do Sistema Nacional do Meio Ambiente – Sisnama.
Uma das metas é que os países disponibilizem 60% das espécies ameaçadas de plantas em coleções ex-situ (fora do seu habitat natural), de preferência no país de origem, e inclusão de 10% delas em programas de recuperação e reintrodução.
“E quem faz conservação ex-situ é jardim botânico”, diz a doutora em Botânica, especialista em Ecologia Vegetal. Se não for preservado nas suas atuais condições, provavelmente vai perder o registro, com prejuízos irreparáveis para conservação da biodiversidade no Estado.

Andréia está preocupada com o futuro das coleções /José Fernando Vargas/Divulgação Não foi por acaso que o juiz Eugênio Couto Terra, da 10ª Vara da Fazenda Pública do Foro Central de Porto Alegre, no dia 9 de abril, em seu último despacho na ação movida pelo Ministério Público, ao travar a extinção da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, reforçou a ideia de que o Jardim Botânico de Porto Alegre é um museu vivo com um patrimônio público inalienável e que exige o máximo zelo dos gestores públicos na sua preservação para as gerações presentes e futuras.
“O ERGS foi devidamente cientificado do inteiro teor da decisão em 09.01.2018 e não se tem qualquer notícia de que tenha se insurgido contra a decisão, que é absolutamente clara em estabelecer que, para que possa operar e materializar a transferência da gestão para a Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, apresente, de forma minudente, clara e com indicação objetiva dos meios e modos de efetivação da alteração da administração, plano de ação que atenda, entre outros requisitos, a manutenção da classificação A do Jardim Botânico de Porto Alegre, com o atendimento de todas as exigências estabelecidas no art. 6º e respectivos incisos da Resolução 339/2003 do Conama”, anotou.
O Brasil possui 31 jardins botânicos: um distrital, dois privados, seis estaduais, oito federais e 13 municipais. Estão nos estados do Rio Grande do Sul (5), Paraná (1), São Paulo (7), Rio de Janeiro (4), Espírito Santo (1), Minas Gerais (3), Goiás (1), Brasília (1), Bahia (1), Pernambuco (1), Paraíba (1), Rio Grande do Norte (1), Ceará (1), Pará (2) e Amazonas (1).
No RS, existem dois JBs municipais, de Caxias do Sul e Lajeado, um privado, da Unisinos, um ligado à Universidade Federal de Santa Maria, e o da FZB, o maior.
Área de preservação está reduzida a 36 hectares/Cleber Dioni Em junho de 2003, durante a Semana do Meio Ambiente, o Jardim Botânico da Capital passou a integrar o patrimônio cultural do Estado, permitindo beneficiar-se das leis de incentivo à cultura (federal, estadual ou municipal), para eventuais projetos de preservação e restauração de seu patrimônio, e estimulando a iniciativa privada para o desenvolvimento de projetos. Proposta semelhante está em tramitação na Câmara Municipal, cujo projeto de Lei, do vereador Marcelo Sgarbossa (PT) propõe tombar o imóvel sede do JB como Patrimônio Cultural e Histórico de Porto Alegre. Já passou por duas comissões de vereadores, de Constituição e Justiça (CCJ) e de Economia, Finanças e Orçamento e do Mercosul (CEFOR), sendo que ambas deram parecer contrário ao PL por entenderem que a proposição da matéria é de responsabilidade exclusiva do Poder Executivo municipal. O projeto aguarda parecer, agora, da Comissão de Urbanismo, Transporte e Habitação (CUTHAB).
Há 110 espécies ameaçadas de extinção
Modelo no Brasil em conservação da biodiversidade, o Jardim Botânico de Porto Alegre possui plantas envasadas (plantadas em vasos e abrigadas em casas de vegetação) e do arboreto (plantadas na área do parque). Há cerca de 2.250 exemplares de arbóreas, mais de 750 de orquídeas e mais de 620 de bromélias. Diversas plantas estão na coleção há mais de 30 anos. A planta Cactaceae envasada número 001 é de 1974.Estão preservadas no JB aproximadamente 110 espécies ameaçadas de extinção entre bromélias, cactos, orquídeas, palmeiras, diversas famílias de arbóreas e pteridófitas (várias famílias de diversos tipos de samambaias e xaxins). Constam nas coleções, por exemplo, a espécie de orquídea Cattleya intermedia, o cacto Parodia neohorstii, espécie endêmica da Serra do Sudeste, no Estado, Callisthene inundata, árvore endêmica da Serra, e Dyckia maritima, espécie de bromélia que ocorre no Litoral Norte do RS.

Espécies nativas de cactos consideradas em perigo de extinção: Parodia leninghausii (na frente) e Parodia magnifica (ao fundo) Há cerca de 35 espécies ameaçadas de cactáceas, ou seja, 66% das espécies ameaçadas de cactos do RS estão preservadas no JB. E aproximadamente 29 espécies ameaçadas de bromélias, quase todas (80%) que constam no último levantamento da lista “vermelha” da flora riograndense, de 2014. Também estão protegidas árvores como o Butia yatay e o pinheiro-bravo.
Quatro botânicas dividem as atividades de pesquisa e manejo das 4,3 mil plantas envasadas e arbóreas. Elas têm o apoio de três técnicos – Ari Delmo Nilson, Leandro da Silva Pacheco e Tomaz Vital Aguzzoli – e de jardineiros, parte destes terceirizados. Os estágios foram cortados pela atual gestão, mas há dois alunos da graduação, bolsistas de Iniciação Científica do CNPq.
“Temos mais de duas mil plantas envasadas, pertencentes a dez coleções, então dividimos por setores as atividades diárias, mas o trabalho é muito de equipe para podermos dar conta”, ressalta Natividad Ferreira Fagundes, referindo-se também aos técnicos, que auxiliam no planejamento e execução de todas as atividades da Seção de Coleções, incluindo os manejos do parque como plantios, podas e supressões, pois possuem conhecimentos específicos para a sua função.

Natividad é especialista em bromélias/Mariano Pairet/Divulgação O ideal é que, além dos técnicos, houvesse jardineiros fixos para saber coletar, armazenar e transportar as plantas de forma correta. Analisar o estado fitossanitário, reconhecer pragas, preparar o tipo de substrato, selecionar o vaso ou o suporte adequado para cada espécie.

Tillandsia duratii, criticamente ameaçada de extinção Tillandsia duratii, criticamente ameaçada de extinção 
Vriesea corcovadensis, bromélia criticamente ameaçada de extinção “Cada espécie tem suas particularidades e demandam cuidados especiais. As bromélias, por exemplo, se multiplicam bastante por reprodução vegetativa, a equipe faz o manejo da coleção e, logo em seguida, surgem vários indivíduos novos, causando o adensamento das plantas, tornando-as mais suscetíveis a pragas, por exemplo, então a supervisão é diária para não corrermos o risco de haver perdas”, explica. “E como as bromélias, em geral, são epífitas, e absorvem a água principalmente pelas folhas, então, nos vasos, é preciso regar as folhas e não a terra porque, do contrário, elas apodrecem”, ensina Nati, como é chamada entre os colegas, especialista em bromélias, com pós-doutorado pela Ufrgs na área de Morfologia e Anatomia Vegetal. Ela ingressou na Zoobotânica em agosto de 2014, mas durante toda a vida acadêmica utilizou as coleções do Jardim Botânico em seus estudos.
Sua colega, Priscila Porto Alegre Ferreira, ressalta que o manejo das coleções é apenas uma parte do trabalho. “Também realizamos pesquisas, participamos de planos de manejo, saímos a campo para coletar mudas, exsicatas e sementes, ficando todas as informações armazenadas no banco de dados. Após um período para o preparo e adaptação dos exemplares, eles são, então, inseridos nas coleções”, afirma a bióloga.

A bióloga Priscila Ferreira e o técnico Tomaz Aguzzoli no trabalho com a coleção de Pteridófitas. Foto: Júlia Fialho/Divulgação 
Samambaia Blechnum penna-marina, classificada como vulnerável/Priscila Ferreira 
O xaxim Dicksonia sellowiana também é considerado vulnerável Priscila é formada na Universidade Federal de Santa Maria, com Doutorado na UFRGS. Especializou-se na família Convolvulaceae e em plantas trepadeiras. É taxonomista, capacitada para descrever espécies. Também ingressou em agosto de 2014 na FZB.
A botânica já descreveu sete espécies novas para a Ciência. Uma das plantas, do gênero Ipomoea, ela encontrou no município de Manoel Viana, e como de praxe, teve agregado seu nome, ficando então Ipomoea pampeana P.P.A. Ferreira & Miotto.

Priscila destaca os cuidados com as plantas bulbosas – exemplo das famílias Amarylliaceae, Asparagaceae e Iridaceae –, que perdem a parte externa em determinadas épocas do ano, mas não ficam menos suscetíveis a infestações, pois lagartas podem ainda atacar o bulbo (caule subterrâneo). “Assim, o cuidado é intensificado”, diz a botânica.
A bióloga Rosana Farias Singer lembra que, além das coleções arbóreas e s, jardins botânicos como o de Porto Alegre são muito visitados por pesquisadores de outros estados e países, além dos estudantes, o que demanda tempo e disponibilidade para auxiliá-los.

A bióloga Rosana Singer entre espinilhos do Jardim Botânico/Cleber Dioni 
Formada pela Universidade Estadual de Campinas, com pós-doutorado em Biologia Molecular pela Ufrgs, a botânica sul-matogrossense é taxonomista, identifica e descreve as plantas.
“Sem especialistas, técnicos e jardineiros, não consigo vislumbrar a manutenção do Jardim Botânico. Não há a mínima condição de um único profissional ficar responsável pelas coleções, ou um pesquisador e um jardineiro, por exemplo. Porque o trabalho não é só dar água às plantas, elas precisam dos nutrientes, cuidados contra as pragas, o manejo correto, feito por pessoas qualificadas, sem isso é muito difícil que as espécies sobrevivam”, diz Rosana.
Pesquisadora do JB Rosana Singer no refúgio Banhado dos Pachecos/Mariano Pairet/Divulgação A botânica chama a atenção também para o Banco de Sementes do JB, ameaçado de ficar sem pesquisadores e na iminência de encerrar as atividades de análise fisiológica e morfológica de sementes de espécies arbóreas e arbustivas nativas do Rio Grande do Sul.

Dal Ri com sementes conservadas na câmara seca do laboratório no JB/Cleber Dioni O engenheiro florestal Leandro Dal Ri, analista do Banco de Sementes diz que o laboratório é um dos poucos no Estado que realiza essas funções, inclusive com as espécies ameaçadas. “Eventuais danos serão incomensuráveis, com perda em termos de sistematização de dados gerados em experimentos nos últimos 20 anos, podendo comprometer a lista de Index Seminum, pois não existirão sementes armazenadas”, afirma.
Andréia, a curadora das coleções, reforça outro ponto que normalmente as pessoas desconhecem em relação às funções de um jardim botânico, por acharem que “se não der lucro tem que fechar”.
“Tem várias atividades, prestação de serviços que são dever do Estado, está na legislação, e se não tiver profissionais para prestar esse serviço, o governo terá que contratar junto à iniciativa privada e vai gastar muito mais, isso já está provado. Posso dar vários exemplos, como os estudos em áreas de proteção ambiental, os planos de manejo, mapa eólico, zoneamento da silvicultura, as revisões das listas de espécies ameaçadas”, exemplifica.

A bióloga Andréia Carneiro durante coleta em Caçapava do Sul/ Foto Rosana Singer/Divulgação Andréia lembra que está sendo construído um novo orquidário, sem gastos públicos. “Esse dinheiro é da empresa Taurus, que fez um acordo com o Ministério Público e reverteu uma multa na recuperação do telhado do bromeliário e na construção de um novo orquidário”, explica.

Andréia e os técnicos Ari e Leandro no Parque Estadual do Turvo/Foto Priscila Ferreira/Divulgação A botânica destaca também que as coleções científicas têm valor para diversas áreas, e não só para a biologia. “Engenheiros agrônomos e florestais, farmacêuticos, médicos, todos pesquisam aqui. Isto é patrimônio do Estado”, completa.
Casa de Vegetação fica pronta em julho
Em dezembro de 2017, o Ministério Público do Rio Grande do Sul, através da Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre, e a empresa Taurus S.A. participaram da reinauguração do bromeliário do Jardim Botânico de Porto Alegre, que foi restaurado com parte dos recursos provenientes de uma multa ambiental aplicada à fabricante brasileira de armas.A arquiteta Rosa Maria Pacheco, da Fundação Zoobotânica, diz que foi substituído o telhado, restauradas as estruturas de ferro, de concreto e das mesas, e foram feitas pinturas em geral no bromeliário.

Promotora com advogado e a supervisora ambiental da Taurus/Cleber Dioni 
Bromeliário foi todo restaurado/Divulgação O ato celebrou também a entrega de vários equipamentos à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) e o anúncio da construção de uma nova casa de vegetação, que abrigará orquídeas, samambaias, entre outras plantas. As obras começam em março, com prazo de entrega em 120 dias.
A multa revertida em benfeitorias ao JB e na compra de materiais para a Fepam resultam de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre o MP e a Taurus, devido a um acidente em sua unidade na Capital que provocou contaminação do solo.Segundo o advogado Neandro Bagatini Lazaron, representante da empresa, dos cerca de R$ 200 mil da multa, foram gastos R$ 25,9 mil no bromeliário, R$ 79,6 mil na aquisição dos equipamentos para a Fepam e serão aplicados R$ 95 mil na nova casa de vegetação.
Missão do JB é conservar a biodiversidade nativa
Poucos conhecem as matas e campos no Estado como o técnico agrícola Ari Delmo Nilson, um dos funcionários mais antigos do JB de Porto Alegre. Começou a trabalhar em 1975, três anos após a criação da Fundação Zoobotânica do RS.
Ari Delmo Nilson, o mateiro Ele ajudou a plantar uma grande parte da coleção arbórea do Jardim Botânico. “Está tudo registrado nestes caderninhos”, aponta Ari, com orgulho por ter seguido à risca os ensinamentos dos naturalistas com quem conviveu no JB, como os professores Albano Backes e José Willibaldo Thomé.
Chegou a conhecer o fundador, irmão Theodoro Luis, mas logo o jesuíta espanhol retornou à Europa para continuar os estudos. “Lembro que, ao retornar a Porto Alegre, o irmão Theodoro elogiou o doutor Albano por ter cumprido com a missão de manter o JB como uma unidade de conservação da flora nativa e isso sempre carreguei comigo”, ressalta.
Uma hora de caminhada pelo JB com Ari é um aprendizado e um exercício de memorização. “Aqui temos uma floresta típica da região do Alto Uruguai, com exemplares de angico, louro, maria preta, canjerana, guatambú, sassafrás, camboatá, canela, cabreúva, todas essas plantas estão disponíveis, identificadas e catalogadas para pesquisadores e a população em geral que quiser conhecer. Esse angico vermelho ou curupaí, eu trouxe sementes do Alto Uruguai, fiz a germinação, adaptação e plantio, em 1976”.Agora, nenhum outro local dá mais satisfação a esse “mateiro”, como gosta de ser chamado, que a entrada do Jardim Botânico, simplesmente porque foi ele quem plantou quase todas as palmeiras, algumas sementes trazidas de sua terra natal, Marcelino Ramos. Todas as espécies nativas de palmeiras constam na área do JB, algumas estão ameaçadas de extinção, como o coqueiro, jerivá, butiá, buriti, geonoma.

Ari ajudou a plantar quase todas as palmeiras na entrada do JB, algumas sementes trazidas de sua terra natal “As palmeiras constituem a área frontal do Jardim Botânico, o cartão de visitas. Nós priorizamos espécimes nativas, os coqueiros, jerivás, butiazeiros, que estão bem representados aqui em exemplares com mais de 40 anos, mas nessa área há uma exceção porque a gente procurou plantar palmeiras de vários países”, explica.
Uma história de vida com o Jardim Botânico
O Julio tem 42 dos 60 anos de idade dedicados ao Jardim Botânico de Porto Alegre. Começou a trabalhar em outubro de 1976, como jardineiro, participou da implantação dos canteiros de flores e do arboreto. Foi para o viveiro faz uns 39 anos, e está lá até hoje, onde organiza e vende as mudas de árvores.Mas sua história com o JB é bem mais antiga, remonta à infância. Julio Cesar Vianna do Prado é filho do seu Julião, um dos primeiros jardineiros do parque. A família chegou a morar numa das oito casas construídas para os funcionários, por volta de 1958, a pedido do irmão jesuíta Theodoro Luiz (responsável pela implantação do JB), para ajudar a cuidar o terreno, que na época era aberto, e a população transitava livremente pela área. A partir de 1972, com a criação da Fundação Zoobotânica, os servidores foram indenizados para adquirir terrenos na cidade e as casas, transferidas.

Julio Prado e o pai, seu Julião/Cleber Dioni “Lembro que, logo em seguida da instalação da FZB, o diretor do Jardim Botânico, o doutor Albano Backes, achou por bem que deveríamos produzir as nossas próprias mudas, então começamos a produzir flores para os canteiros e coletar sementes de árvores aqui pela volta mesmo para produzir as mudas. Já chegamos a produzir 40 mil mudas num ano. Quando havia seis pessoas trabalhando no viveiro, chegamos a produzir duas mil mudas de flores para os canteiros, e como são flores de ciclo curto, tinha que trocar de tempos em tempos”, lembra.
No viveiro, há mudas de cerca de oito espécies arbóreas ameaçadas de extinção, como o palmito, a margaritaria, o pau ferro, bicuíba, pau alazão.
Mudas de Pau alazão (Eugenia multicostata)/Cleber Dioni Manejo agroecológico, uma solução caseira
A bióloga Josielma Hofman de Macedo e a graduanda em Geografia na Ufrgs Carina Richardt de Carvalho entraram por concurso em 2014 no Jardim Botânico para trabalhar como jardineiras, passaram por vários setores, e hoje cuidam da irrigação e manutenção dos canteiros no parque.
Josielma, acompanhada de seu Pedro, aplica nas tarefas diárias os conhecimentos científicos/Mariano Pairet Segundo elas, o setor de jardinagem tem procurado trabalhar mais com manejo agroecológico, por ser de baixo custo e ambientalmente correto.

Carina com sua colega jardineira Ana Emilia Sander/Divulgação “A gente é quase autônomo aqui, em termos de materiais, produzimos o nosso composto, que pode ser utilizado na cobertura dos canteiros, no paisagismo, a água vem da vertente lá de baixo, as madeiras vem das sobras das podas. Tínhamos um projeto de reaproveitamento da água da chuva ali no prédio do museu, espero que retomem”, diz Josielma.
“São tecnologias de baixo impacto e custo”, complementa Carina. A futura geógrafa, espera que o cenário melhore, o Jardim Botânico permaneça funcionando e até contrate mais jardineiros. “Quando entramos havia 21 jardineiros, contando com os terceirizados, e hoje são 17, o que eu acho insuficiente para a manutenção da coleção arbórea e do paisagismo”, completa.
Bolsistas pesquisam flora espontânea no JB
Com as vagas de estágio cortadas pela atual gestão da Fundacão Zoobotânica, os estudantes Júlia Soares e Willian Piovesani estão entre os alunos bolsistas privilegiados por desenvolverem pesquisas no Jardim Botânico.
Os bolsistas desenvolvem projetos de levantamento das espécies de plantas epífitas e trepadeiras espontâneas do JB.
Júlia e Willian realizam pesquisas no próprio Jardim Botânico/Divulgação Ambos são alunos do curso de bacharelado em Ciências Biológicas da UFRGS. Pesquisam desde janeiro de 2016 e já tiveram oportunidade de apresentar um estudo parcial na Jornada de Iniciação Científica da Fundação Zoobotânica e no Salão de Iniciação Científica da UFRGS.

Levantamento é feito durante todo ano “Estamos identificando essa flora nas quatro estações do ano para termos um levantamento completo”, diz Júlia, que se formou em licenciatura no fim de 2017. Ela encontrou 40 espécies de epífitas até agora, mas acredita que há muito mais dessas plantas.
Willian constatou um número mais elevado do que esperava de espécies de trepadeiras, 65 até o momento. Ele destaca como um dos desafios do seu trabalho a observação e a coleta dessas plantas que, na maioria das vezes, portam suas folhas, flores e frutos no alto das árvores.Cenário de incertezas prejudica educação ambiental
Júlia dedicou seu trabalho de conclusão de curso, em licenciatura, no inicio deste ano, à educação ambiental no Jardim Botânico de Porto Alegre e contextualizou as atividades com o cenário de incertezas da Zoobotânica, instituição a qual o JB está vinculado. Ela acompanhou algumas edições do Curso de Formação para Educadores, ministrado pelo engenheiro agrônomo José Fernando Vargas, que foi seu coorientador. A professora Russel Dutra da Rosa, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do RS foi sua orientadora.
A bióloga constatou uma relação indissociável dos jardins botânicos com a educação ambiental, e desta atividade multidisciplinar com a população. E verificou uma queda drástica tanto nas visitas de escolas como da população em geral. Os dados são de 2013 e 2016.

“Em 2013, foram registrados quase 71 mil visitantes e, em 2014, mais de 67 mil, mas a partir da metade de 2015, quando é anunciado o plano de extinção da FZB, a procura caiu para 60 mil visitantes, justamente quando a possibilidade de encerrar a instituição foi anunciada e muitas pessoas passaram a achar que o Jardim Botânico estava fechado”, registra.
O número de visitas escolares ao Jardim Botânico também reduziu diante desse cenário de incertezas. Nos anos de 2013 e 2014, a média de visitas foi de 549 escolas e, em 2016, caiu para 327 agendamentos.
Júlia levantou dados sobre os cursos: de setembro de 2016 a outubro de 2017, ocorreram 11 cursos de botânica aplicada no Jardim Botânico – Cactos e suculentas, Compostagem doméstica, Cultivo de bromélias, Cultivo de orquídeas, Hortas em pequenos espaços e Propagação de plantas -, que disponibilizaram, no total, 335 vagas, das quais 205 foram ocupadas. Nesse mesmo intervalo, ocorreram 10 Cursos de Formação de Educadores, que disponibilizaram 330 vagas, sendo que 100 foram ocupadas. Também foram oferecidas atividades como Ciência na Praça, de divulgação científica e educação ambiental organizado pelo Museu de Ciências Naturais, e o JardinAção, evento que ocorre desde 2007.
Vargas com uma turma do Curso de Formação de Educadores realizado este ano/Mariano Pairet Para o coordenador da Educação Ambiental do Jardim Botânico, Fernando Vargas, o JB tem potencial para incentivar muito mais atividades, basta ter vontade e disposição para que as iniciativas deem certo. “Temos agenda para oferecermos muitos mais cursos ao ano e outras alternativas”, diz o agrônomo.
Museu tem Ciência na Praça e exposições em escolas
O Museu de Ciências Naturais, da FZB, tem sua própria Seção de Educação Ambiental e Museologia e oferece exposições fixas, itinerantes e atividades como Ciência na Praça e Museu vai à Escola. “A ideia é popularizar e socializar o conhecimento científico”, explica a bióloga Laura Gomes Tavares.
Ideia é popularizar o conhecimento científico, diz bióloga, na entrada do Museu de Ciências Naturais “O objetivo primordial da Fundação Zoobotânica é a conservação da biodiversidade, e as pesquisas, as coleções, os estudos em laboratórios são fundamentais para o trabalho, então, o papel da educação ambiental é explicar ao público, por exemplo, o que é biodiversidade, mostrar o que é feito na Fundação”, afirma Laura, que é mestre em Zoologia e servidora da FZB há mais de duas décadas.
Laura chama a atenção também para as exposições do Museu de Ciências Naturais, com mostras permanentes, itinerantes e para convidados. “Com o material do acervo, promovemos uma interlocução entre o pesquisador e o público, um diálogo informal que desperta a curiosidade para a importância do meio ambiente e estimula o pensamento crítico dos visitantes, reforçando que esse é um tema multidisciplinar”, ressalta.
Sua colega na Seção de Educação Ambiental e Museologia, Márcia Severo Spadoni, acredita que as atividades têm uma importância muito grande também para os pesquisadores e acadêmicos de biologia e de outros cursos, que levam esse aprendizado por toda a vida profissional.
Márcia (à esquerda) em atividade lúdica na Escola Municipal Porto Novo/Divulgação “Nossas atividades externas como o projeto Ciência na Praça, que acontece desde 1986 e é direcionado prioritariamente para as escolas públicas, eles saem um pouco do mundo da academia, da pesquisa, e entram em contato com a população, é o momento de passar seu conhecimento, então eles vão experimentar, adaptar, aprimorar, é um aprendizado incrível”, garante.
Márcia ingressou na Fundação Zoobotânica em 1994, como técnica em química. Passou por alguns setores como Ictiologia, Mastozoologia, auxiliou na operação do microscópio eletrônico de varredura e prestou apoio à produção da revista Iheringia. Nesse tempo, formou-se em História, depois fez especialização em Psicopedagogia e mestrado em Ensino de Ciências e Matemática. Passou a trabalhar meio turno na área de educação ambiental, sob a coordenação da bióloga Geneci Britto. A partir do ano de 2000, decidiu dedicar-se exclusivamente às atividades de educação ambiental, ajudando a organizar inclusive feiras e exposições no Litoral Norte gaúcho.
“Através dessas atividades, temos a oportunidade também de dar nossa contribuição social, porque um museu como o nosso, com trabalhos fantásticos, tem um papel fundamental na sociedade e, portanto, tem que ir além das pesquisas e de suas coleções”, completa. -

PF investiga fraudes na gestão de investimentos do Cais Mauá
A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (19/4) a Operação Gatekeepers, com o objetivo de combater fraudes relacionadas a fundos de investimento envolvidos na revitalização do Cais Mauá.
Conforme a PF, estão sendo cumpridos nove mandados de busca e apreensão (cinco em Porto Alegre/RS e quatro no Rio de Janeiro/RJ, inclusive na sede do Cais Mauá,), além de ordem de busca e apreensão de três veículos em Porto Alegre e bloqueio de ativos em nome de 20 pessoas físicas e jurídicas, sendo investigados crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e de lavagem de dinheiro. Os mandados foram expedidos pela 7ª Vara Federal de Porto Alegre. Até fevereiro o fundo era administrado pela ICLA Trust Serviços Financeiros S.A.
Em março as obras do Cais iniciaram após a troca dos gestores do fundo, o empresário João Carlos Mansur, presidente do grupo Reag, assumiu a gestão do projeto licitado em 2010 e desde então emperrado por demandas ambientais, problemas técnicos e questões políticas. Como presidente do novo Cais Mauá, foi nomeado o empresário Vicente Briscio.
A investigação teve origem em 2013, com a apuração de aportes feitos por um fundo de previdência privada gaúcho em um fundo de investimentos. Este último aplicava os valores em empresas de construção civil sem que houvesse a devida execução de obras públicas.
No decorrer da investigação, identificaram-se ligações do grupo com obras de revitalização urbana em Porto Alegre. São investigadas possíveis movimentações de recursos para pessoas ligadas à administração, inclusive com a aquisição de bens de alto valor, como veículos de luxo.
O termo Gatekeeper, além do significado em inglês, porteiro ou até mesmo guardião, também tem uso no mercado financeiro, estando ligado a pessoas ou instituições de credibilidade que atuam em processos de análise de conformidade, verificação e certificação.
O projeto de revitalização do Cais terá três etapas. A primeira é a restauração de 11 armazéns do Cais (do A6, no extremo da Usina do Gasômetro, até o B3, próximo à rodoviária). Deve custar R$ 140 milhões. O investimento total é estimado em R$ 500 milhões.
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Juiz trava extinção da Zoobotânica e exige "plano de ação"
Cleber Dioni Tentardini
O juiz Eugênio Couto Terra, da 10ª Vara da Fazenda Pública do Foro Central de Porto Alegre, expediu mandados nessa segunda-feira, 09 de abril, para notificar o governador José Ivo Sartori, a secretária do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMA), Ana Pellini, e o presidente da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (FZB), Luiz Fernando Branco, de um possível descumprimento de decisão judicial, em caráter liminar, que protege o Jardim Botânico e o Museu de Ciências Naturais, duas das três instituições vinculadas à Fundação.
“Os elementos trazidos pela parte autora, apontam para um provável descumprimento material da decisão antecipatória proferida”, anotou o magistrado, diante dos novos fatos apresentados na Ação Civil Pública pela Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre.
Os promotores de Justiça denunciam que o governo do Estado vem praticando atos que são contrários à medida cautelar.
Citam, por exemplo, a demissão de pesquisador/especialista integrado ao trabalho ou com curadoria de coleção, antes que tenha sido apresentado e aprovado o Plano de Ações determinado na decisão liminar, o fechamento do serpentário e a transferência gratuita ou onerosa de qualquer bem, móvel, imóvel, semovente, integrante do patrimônio do JB ou do MCN”.
O juiz ressaltou que o processo encontra-se na fase de cumprimento da medida liminar, por ele deferida, visando a preservação do patrimônio ambiental do Estado, e vedou o cancelamento do CNPJ da Fundação Zoobotânica até a apresentação e aprovação do plano de ações que justifiquem a transferência das atividades da FZB par a SEMA. “(…) É intuitivo que não pode haver o encerramento legal das atividades da instituição guarda-chuva (FZB). E a consequência lógica e óbvia disso é que a extinção do CNPJ utilizado para contratação de tais pesquisas não poderá ocorrer”.
O magistrado reiterou sua decisão que condiciona a transferência da gestão da FZB para a SEMA, “desde que o governo apresente, de forma minudente, clara e com indicação objetiva dos meios e modos de efetivação da alteração da administração, plano de ação que atenda os seguintes requisitos:
1) manutenção da classificação A do Jardim Botânico de Porto Alegre, com o atendimento de todas as exigências estabelecidas no art. 6º e respectivos incisos da Resolução CONAMA nº 339, de 25.09.2003;
2) mantenha todas as atividades e serviços de relevância ambiental, paisagística, cultural e científica, detentores de proteção legal decorrentes de sua caracterização como bens coletivos típicos e que são de interesse público, conforme exposto na fundamentação do corpo desta decisão;
3) em relação aos projetos e programas de pesquisa científica, em especial, o plano de ações deverá prever a asseguração da conclusão e atingimento de suas finalidades, no que concerne aos que se encontram em andamento e possuem prazo definido de duração, quer tenham sido contratados ou conveniados sob o guarda-chuva da FZB/MCN/JBPA ou tenham origem em projetos apresentados diretamente por iniciativa pessoal dos pesquisadores a órgãos ou agências de fomento; em relação aos projetos e programas científicos de caráter permanente ou sem prazo de duração definida, a garantia de continuidade, salvo se demonstrado de forma cabal que os resultados já obtidos representam ganho ambiental suficiente e que não haverá maior prejuízo com a interrupção”.
Sobre as demissões, o magistrado lembra que não cabe a ele decidir sobre a permanência, ou não, de vínculo empregatício, “mas isso não autoriza o afastamento de técnicos e outros trabalhadores das funções que sejam essenciais para a manutenção das atividades do JBPA e MCN, até que o plano de ações seja apresentado e aprovado“.

Juiz reuniu os biólogos curadores das coleções antes da segunda inspeção na Zoobotânica
E reforça: “Proceder o afastamento de técnicos e pessoal especializado do JBPA e MCN de suas atividades e funções, como tudo indica estar a ocorrer, desrespeita a ordem judicial e sujeita o Estado do Rio Grande do Sul a penalidade imposta. (…) Existem fortes indícios de que o réu está promovendo a relotação de trabalhadores (para o Zoológico e para a Secretaria de Meio Ambiente), anunciando demissões futuras, trocando curadores de coleções, revogando designação da função de Chefe de coleções, tudo depois da intimação da decisão liminarmente proferida. Observa-se, ainda, que servidores com expertise em áreas essenciais do JBPA e MCN são transferidos para o Jardim Zoológico, para a Secretaria de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, sem qualquer especificação de onde vão exercer suas atividades; quando o lógico, em demonstração do atendimento à ordem judicial, deveria ser explicitado que continuariam exercendo suas atividades no JBPA e/ou MCN, dependendo do caso. A ausência disso e as inúmeras denúncias trazidas pelo autor, permite aferir com muito razoável dose de certeza, que, na prática, o réu está é desmobilizando as atividades do JBPA/MCN sem atendimento da liminar proferida. Considerando tal circunstância, nos termos da decisão liminar, qualquer alteração de seu modo de gestão depende da aprovação do plano de ações a ser apresentado. Logo, todo o acervo patrimonial material e imaterial do JBPA e MCN não pode sofrer qualquer transferência, seja a que título for, até que seja aprovado o plano de ação determinado na decisão liminar”.
A assessoria de comunicação da Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável não conseguiu contato com a secretária Ana Pellini, que está em viagem a Bento Gonçalves para participar da Fiema Brasil 2018 – Feira de Negócios e Tecnologia em Resíduos, Águas, Efluentes e Energia. -
Cais Mauá: atual revisão do plano de negócios assimila prejuízos
Em nota encaminhada ao Jornal JÁ, o presidente do Cais Mauá Brasil, Vicente Criscio, explicou que os prejuízos contabilizados nos balanços de 2016 e 2017, publicados recentemente, são normais numa empresa que, por estar em fase pré-operacional, não gera receitas.
De qualquer forma, segundo Criscio, o cenário negativo dos últimos sete anos está sendo considerado na revisão do plano de negócios do empreendimento voltado para a revitalização dos espaços ociosos do antigo porto da capital.
A nota do Cais Mauá, na íntegra, é a seguinte:
“A respeito da notícia veiculada no Jornal Já na semana passada sobre o balanço publicado do CMB S/A, cabe observar que o Cais Mauá do Brasil S/A é uma empresa ainda no estágio pré-operacional. Sendo assim, é natural que tenha gerado despesas ligadas diretamente ao projeto (estudos para aprovações de licenças, equipe interna, serviços de terceiros, centenas de plantas) e – por estar ainda nessa fase – não possui receitas. Consequentemente gerou prejuízos em todos os anos fiscais.
Cabe ainda destacar que: i. os balanços foram auditados por uma das mais importantes auditorias do mundo, a Deloitte Touche Tohmatsu Limited, com referência clara a esses resultados em notas explicativas sobre o balanço; ii. a escrituração contábil atende a Lei das S/A (6404/76 e posteriores alterações); iii. o plano de negócios em revisão já considera esse cenário de resultados.
Atenciosamente,
Vicente Criscio, Presidente do CMB -
Balanços do Cais Mauá acusam perdas de R$ 51 milhões em sete anos
GERALDO HASSE
Os dois balanços financeiros do Cais Mauá do Brasil S. A. publicados no Correio do Povo de quinta-feira (22/3), contendo cifras inéditas sobre os exercícios fiscais de 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017, refletem os problemas administrativos em que mergulhou a empresa escolhida em 2010 pelo governo do RS para “revitalizar” os espaços ociosos do mais antigo e vistoso terminal portuário da capital gaúcha.
Separada em dois balanços (2016 e 2017), a prestação de contas atrasada expôs ao público em geral o que os acionistas, parceiros e autoridades já sabiam: o consórcio Cais Mauá exauriu-se financeiramente na luta contra embargos, cobranças e questionamentos levantados por movimentos civis e órgãos técnicos.
A leitura desses documentos vertidos em letra miúda e linguagem técnica é de difícil compreensão, mas no final das contas são declarados prejuízos acumulados de R$ 51 milhões nos sete anos (2011/2017) de pendências encerradas com o licenciamento ambiental concedido pela Prefeitura de Porto Alegre no apagar das luzes de 2017. Além do contador Marice Fronchetti, assinam os balanços a presidente Julia Vassalo Maia da Costa e o diretor de operações Sergio José de Lima.
À falta de maiores esclarecimentos, resulta útil a leitura do relatório da auditoria contábil Deloitte Brasil sobre as demonstrações financeiras do Cais Mauá. Lembrando que a companhia está em fase pré-operacional (ou, seja, não tem receitas, só carrega custos), o contador Ricardo Schenk Duque baseia-se em dois itens relevantes do balanço de 2017 – o passivo a descoberto de R$ 8,69 milhões e o capital circulante líquido negativo de R$ 16,5 milhões – para concluir: “A continuidade operacional da Companhia está condicionada ao suporte financeiro do seu controlador e o sucesso na comercialização dos projetos”.
O documento da Deloitte leva uma data bastante recente (5 de fevereiro de 2018), mas não faz qualquer referência à eventual mudança no controle acionário do consórcio Cais Mauá do Brasil S. A. ou à mais recente novidade – a revitalizadora entrada em cena dos novos gestores do empreendimento.
Agenda positiva
Ficou faltando esclarecer, portanto, como se configurou a negociação que resultou na transferência da gestão do projeto para o administrador de fundos José Carlos Mansur e o executivo Vicente Criscio, oficialmente apresentados em cerimônia pública no dia 12 de março passado. Há indícios de que houve um acordo operacional entre as partes responsáveis pelo projeto mas, no evento realizado sob um toldo branco armado no próprio cais, Mansur e Criscio não disseram palavra sobre o passivo do empreendimento – apenas se referiram de modo extremamente positivo ao início das obras, efetivamente colocadas em marcha nos dias seguintes.
Os principais protagonistas da cerimônia foram o prefeito de Porto Alegre, que criticou duramente os adversários políticos que “travam a máquina pública”, e o governador José Ivo Sartori, que ensaiou ali, diante de uma plateia seleta, às margens plácidas do Guaíba, os primeiros passos de sua campanha à reeleição.
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Cais Mauá já busca parceiros para ocupar armazéns
Ao mesmo tempo em que iniciam as obras físicas de recuperação dos armazéns do Cais Mauá, os novos gestores do projeto começam a negociar com possíveis parceiros para ocupar os espaços comerciais na área.
Os movimentos ainda são reservados, principalmente quanto a nomes. Mas o novo executivo do empreendimento, Vicente Criscio, confirma que já há tratativas em andamento: “Já identificamos o que a cidade gosta e usa, as marcas que os gaúchos consomem, estamos conversando”.
Em 3,2 quilômetros de cais à beira do Guaíba, incluindo os armazéns, são 181 mil metros quadrados de área disponível, parte destinada a áreas públicas – ciclovias, praças, áreas verdes – parte para atividades de comércio e serviços.
“As negociações podem incluir desde um comércio pequeno, de uns 100 m², até grandes – um armazém com um supermercado, porque não?”, diz Criscio.
No dia 5 de março, depois de anos, foi concedida a licença de instalação, que permite o início das obras, do projeto Cais Mauá, empreendimento privado para revitalizar e explorar o principal espaço de Porto Alegre, berço da cidade, à beira do Guaíba.
No mesmo dia foi anunciada a mudança ocorrida ainda no ano passado na gestão do Fundo Cais Mauá, o consórcio que ganhou a concessão por 25 anos para explorar o espaço.
A ICLA Trust que geria o fundo foi substituída pela REAG, outra administradora de fundos de investimento.
O site da REAG na internet informa que ela administra 40 fundos num total de R$ 7 bilhões em ativos. “É a mais importante missão da minha vida”, disse João Carlos Mansur, presidente da REAG, ao receber a licença para o início das obras.
O Fundo Cais Mauá tem um PL (patrimônio líquido) de R$ 163 milhões. Tem pela frente uma obra de R$ 140 milhões ao longo de dois anos. As etapas seguintes, que vão precisar de mais R$ 400 milhões pelo menos. Há projetos, que ainda podem sofrer alterações, estão definidos apenas os índices construtivos (volumetria).
Tanto que o novo gestor está disposto a rever o conceito do shopping center previsto no projeto original, junto à usina do Gasômetro. Em vez de uma torre vertical, que gera protestos, uma ocupação horizontal, a céu aberto.
Vicente Criscio foi indicado como presidente para tocar o projeto do Cais Mauá. Ele falou ao JÁ.

Sobre possíveis revisões no projeto, novo presidente do empreendimento, Vicente Criscio fala “prometemos revisar e estamos buscando dá uma outra solução pro shopping do gasômetro. Pensamos um novo conceito, um Open mall, a céu aberto” / Divulgação / Cais Mauá JÁ – Porque a mudança na gerência do projeto?
Criscio – Eu sou um executivo contratado. Tem o Cais Mauá Brasil SA que, por decisões dos investidores que controlam o fundo, decidiu que era mais conveniente trazer uma gestora voltada para empreendimentos imobiliários, diferente do antigo gestor, apto mais a captação de recursos.
Vencida a etapa das licenças, agora optaram por essa gestão da REAG, que é o maior fundo de investimentos imobiliários do Brasil e já desenvolveu inúmeros grandes empreendimentos pelo país, faz sentido essa troca.
JÁ – O que vai mudar daqui pra frente?
– Iniciamos o processo de implementação da primeira fase da obra, a área dos armazéns, que envolve aspectos de engenharia. Foram mantidos alguns diretores, mas vamos trazer pessoas e empresas que implementem esse projeto.
Naturalmente, a REAG assumiu e fez algumas mudanças na diretoria executiva, como a minha presença, que assumo o cargo de diretor-presidente, para tocar o empreendimento. Mas já temos pessoas no comercial, porque agora entre uma etapa diferente – negociar com potenciais parceiros, pra gerar um retorno sustentável. Toda essa decisão foi tomada no final do ano passado e consolidada agora.
JÁ – O Sr. possui uma consultoria, a Vincere, ela faz parte da gestão?
– Não, na verdade fizeram uma pequena lambança com meu nome, a Vincere é minha empresa de consultoria de gestão – que até já trabalhou com a REAG. Mas a Vincere não tem nada a ver com o fundo – com o Cais. Eu tenho 30 anos de vida executiva, fui presidente de cinco empresas, e, pela minha experiência, fui convidado pela REAG – que é a responsável pelo fundo imobiliário que faz a gestão, o fundo de participações, que é o Cais Mauá, que tem aí 89% das ações, a gestão do negócio é do fundo.
JÁ – Sobre os investidores do fundo, houve inquietações, principalmente de fundos previdenciários, muitos ameaçaram sair. Como resolver isso?
– Bom, na verdade, posso falar de duas semanas pra cá. Imagino que a inquietação era grande porque houve atraso em algumas licenças, de uma forma ou outra isso foi explicado, mas do ponto de vista do investidor causou inquietações. Mas agora, com o início da obra, isso fica totalmente equacionado, normalizado.
JÁ – O projeto está na primeira fase, e o restante já está definido? Pode passar por revisões?
– A primeira fase é essa dos 11 armazéns, temos um cronograma de dois anos, mas podemos antecipar, ou seja, até o último trimestre do ano que vem. Essa fase já tem projeto e é a licença que temos. O canteiro de obras está em montagem, começamos pela remediação ambiental, corrigir problemas antigos que impactavam o meio ambiente aqui.
Mais tarde teremos as fases das docas e do gasômetro, que já temos aprovações de volumetria, indicadores de construção já aprovados em todas as esferas.
Não tem revisão de projeto – tem detalhamentos desse projeto, mas não interfere nos indicadores aprovados.
Uma coisa é que prometemos revisar e estamos buscando dá uma outra solução pro shopping do gasômetro. Pensamos um novo conceito, um Open mall, a céu aberto, com alamedas e áreas de convivência, áreas comerciais, mas não uma grande caixa – é a nossa ideia. Sem ferir o que já foi aprovado em termos de volumetria. A gente acredita que essa visão melhora o projeto, é adequada ao local e a população e que faz sentido no campo econômico também.
JÁ – Paralelamente, já estão em busca de parceiros?
– Desde o momento que chegamos aqui, é que não temos nada ainda assinado, e por isso, nos reservamos o direito de não comentar. Há conversas em andamento – a gente quer transformar o Cais num local de lazer – de experiências, com artes e cultura, serviços e comércio e gastronomia.
Propomos um mix entre o que a cidade gosta e usa, gostaríamos de ter as marcas que os gaúchos consomem. E podemos ter desde um comércio pequeno, de uns 100 m², até grandes – um armazém com um supermercado, porque não?
Temos uma estratégia comercial e de quantas marca queremos, preservando os espaços para caminhar, passear, da cultura e arte. Mas como não temos nada definido, não podemos divulgar ainda.
JÁ – E o saldo do fundo, foi divulgado na mídia R$ 160 milhões, é isso?
– O cais é uma empresa de sociedade anônima com capital fechado, os números são auditados, basta ver na CVM. O PL é próximo dessa casa. Só que a gente tem que olhar pra o valor da obra, R$ 140 milhões na primeira fase. E a equação financeira disso já está montada, com as contrapartidas, são R$ 49 milhões de contrapartidas, garantidas.
JÁ – E a captação do restante?
– A gente tem uma tranquilidade, porque há um norte muito bom pra essa segunda e terceira fase. O projeto está ficando muito bonito, e são modelos que despertam interesse, já tem gente nos abordando sobre as torres, o hotel, são sinalizações.
O Brasil ficou carente de bons projetos, esse aqui é um grande projeto, que entrega retorno aos investidores, e respeita as características e especificações do local. A gente vê com relativa tranquilidade essa captação.
JÁ – Há movimentos na cidade contrários a obra, há uma disposição ao diálogo?
– A gente veio aqui com espírito desarmado, eu já vivi aqui, quatro anos, conheço um pouco da cultura. Uma premissa é que os envolvidos querem que o projeto seja concluído da melhor maneira possível, e vai sair, o interesse é sempre conversar, mostrar a viabilidade urbanística e econômica da obra pra região.
Sempre que a gente fala do Cais as pessoas respondem com carinho muito grande e falam dá necessidade de fazer algo no local. Há uma disponibilização de todos pra que o projeto saia, as fases de aprovação já passaram, não tem como voltar para trás, e temos que olhar pra frente. Mas críticas construtivas são sempre bem-vindas.
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Luta em defesa da FZB completa 31 meses, com nova mobilização dia 25
O Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente ( MoGDeMA) e os grupos Apoio à Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul e Comunidade RS promovem no dia 25 de março, domingo de tarde, no Jardim Botânico de Porto Alegre, um nova mobilização em defesa da FZB. A luta contra o fechamento da instituição já dura 31 meses.
Os organizadores criaram uma página no Facebook para incentivar a participação, reforçar as adesões à causa e chamar a atenção para o contexto do desmonte da FZB, “que a cada dia se acentua mais, com a transferência de técnicos para a SEMA, o esvaziamento de salas e demissões.” Confira a página do evento aqui.
“Jardim Botânico, Parque Zoológico e Museu de Ciências Naturais nunca estiveram correndo tanto perigo! Tudo a serviço dos interesses do governo do RS em desmantelar o estudo e o cuidado com o meio ambiente. Nosso querido Jardim Botânico corre o risco de se tornar uma mera praça, o Zoológico poderá ser concedido à iniciativa privada sabe-se lá a que termos e o Museu poderá se tornar um depósito de coleções sem a adequada curadoria e uso científico”, denunciam.
Um fato ocorrido na quarta-feira, dia 14 deste mês, serve de exemplo para o esvaziamento das atividades da Fundação Zoobotânica: o presidente Luiz Branco notificou os funcionários que as três instituições vinculadas à FZB estão proibidas de receber animais machucados, abandonados e vítimas do tráfico para serem tratados e reconduzidos aos seus habitats. Dessa forma, o Centro de Triagem de Animais Silvestres, do Parque Zoológico, o CETAS, perde sua finalidade.
“Precisamos demonstrar nosso apoio à Fundação Zoobotânica! Se não for agora, possivelmente amanhã será tarde”, convocam os ambientalistas para o evento.
Mobilizações começaram em 2015
A luta contra o fechamento da instituição já dura 31 meses. Confira aqui um retrospecto das manifestações. As mobilizações iniciaram em agosto de 2105, logo após o governo do Estado apresentar à Assembleia Legislativa, com pedido de urgência para votação, o projeto de lei (PL) 300, prevendo a extinção da Zoobotânica e outras duas fundações, de Esporte e Lazer (Fundergs) e Produção e Pesquisa em Saúde (Fepps).
Lá, começaram também as mobilizações em defesa da FZB. No primeiro sábado de agosto daquele ano, cinco servidores estenderam faixas nas grades do Jardim Botânico. Foram programados piqueniques e abraços simbólicos à instituição, ao longo da avenida Salvador França.
O corpo técnico da Fundação reuniu-se na tarde daquele sábado para decidir que providências seriam tomadas. Foram organizadas audiências públicas, manifestações, abaixo-assinados.
Pressionado, o governo decidiu cancelar essa proposta mas não demorou para apresentar um projeto mais abrangente, através do projeto de Lei 246.
Esse Pl foi aprovado pelos deputados em 20 de dezembro de 2016, e autorizou o fechamento de outras oito fundações e duas companhias, além da Zoobotânica: Fundação Estadual de Produção e Pesquisa em Saúde (FEPPS), Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTF), a Fundação de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec), Fundação de Economia e Estatística (FEE), Fundação Piratini, Fundação para o Desenvolvimento de Recursos Humanos (FDRH), Fundação Estadual de Planejamento (Metroplan).
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Uma ideia revitalizadora: criar o Museu do Cais Mauá
Geraldo Hasse
Enquanto o projeto de revitalização do Cais Mauá dá os primeiros passos concretos após superar uma série de embargos judiciais, começa a circular entre funcionários remanescentes da extinta Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH) uma ideia capaz de dar nova vida à biblioteca instalada no primeiro andar do edifício-sede do antigo Departamento de Portos, Rios e Canais (DEPRC), na Avenida Mauá.
Guardiã da história das hidrovias gaúchas desde a época da construção do primeiro cais da capital em 1911, a biblioteca possui tantos documentos, estudos e projetos que poderia se tornar o núcleo central de um museu do porto. No momento, não há clima para discutir a ideia, pois a maioria dos servidores da ex-SPH está na luta para não perder seus cargos ou aguarda o tempo para se aposentar.
No entanto, se o conceito contar com vento favorável, será fácil conversar com o pessoal do consórcio revitalizador dos espaços deteriorados do mais antigo terminal portuário de Porto Alegre, já que o escritório do Cais Mauá Brasil ocupa um conjunto de salas na ala leste do primeiro andar do edifício-sede da extinta SPH, no mesmo piso da biblioteca.
A presença de funcionários privados num espaço ainda ocupado por servidores públicos gera um clima estranho que bem pode ser convertido em algo construtivo, de conteúdo histórico e alcance popular. Afinal, o objetivo é movimentar o cais.
A biblioteca está operando com restrições desde que a bibliotecária titular Maria da Graça Coimbra Pascual aposentou-se. O acervo ficou temporariamente aos cuidados do seu fiel ajudante Jorge, que também se retirou quando a direção da extinta SPH foi deslocada para Rio Grande, em 2017.
Limpa e bem cuidada, a biblioteca do Cais Mauá é uma das mais completas do Brasil em assuntos de navegação e transporte hidroviário. Ela é frequentada sobretudo por estudantes e técnicos, mas pode ser aberta ao público em geral, sobretudo se for enriquecida por peças históricas que abundam nos portos e hidrovias do Estado.
Por exemplo: na portaria do prédio central, na parede do térreo, está preservado o enorme logotipo em metal dourado do antigo Departamento Estadual de Portos, Rios e Canais/DEPRC (1951-1989) – peça digna de figurar num museu hidroviário. -

Movimento está restrito nas áreas secas do Cais Mauá
Geraldo Hasse
Os mais de 100 funcionários remanescentes da extinta Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH) em Porto Alegre foram notificados nesta quinta, 08/03), sobre as novas normas de circulação nas áreas secas do Cais Mauá, patrimônio público cedido à iniciativa privada por 25 anos.
As novas regras, visando à segurança das pessoas e à disciplina dos serviços, foram ditadas pelo consórcio Cais Mauá, responsável pelas obras de “revitalização” dos espaços (armazéns, galpões e pátios) situados ao longo da Avenida Mauá. É uma “linha dura” que conflita com o marasmo do lugar situado no centro histórico de Porto Alegre.
Foi anunciada a construção de um tapume que se unirá ao cinquentenário Muro de Contenção das Águas do Guaíba para restringir o movimento de pedestres na área seca do cais.

Circulação de visitantes está proibida / JÁ
A circulação de visitantes está proibida, conforme aviso afixado em placas no pórtico central. Em cada um dos portões da área privatizada foram colocados guardas de uma empresa de segurança.
Já o movimento de embarcações no lado das águas segue as regras da navegação, pois, como lembra o engenheiro Álvaro Melo, diretor de manutenção da hidrovia: “A verdadeira frente do porto não fica na Avenida Mauá, mas nas águas do Guaíba”.
Além dos catamarãs que transportam passageiros na linha Porto Alegre-Guaíba-Porto Alegre, o canal do Guaíba é usado por navios de carga que buscam os terminais Navegantes, de Gravataí e Triunfo.
São apenas três ou quatro barcos por dia, mas sua movimentação é uma prova viva de que, de acordo com Melo, “a hidrovia continua funcionando”.
Os serviços básicos de manutenção da hidrovia são garantidos atualmente por uma centena de funcionários concursados em 2010 e que permanecem em suas funções graças a uma liminar da Justiça do Trabalho.
Desde o ano passado, quando da extinção da SPH, aposentaram-se mais de 40 funcionários admitidos na época do antigo Departamento Estadual de Portos Rios e Canais (DEPRC), criado nos anos 1930 e extinto no final do século XX.
Os veteranos que sobraram foram anexados ao quadro de pessoal da Secretaria dos Transportes, mas respondem operacionalmente à Superintendência do Porto de Rio Grande.
A tarefa mais constante do pessoal mantido em Porto Alegre é a manutenção dos sinais náuticos, especialmente boias cegas e boias luminosas que orientam o tráfego noturno entre o Lago Guaíba e Itapuã, na entrada da Laguna dos Patos.
Cada boia de luz pesando quase duas toneladas custa R$ 50 mil. Não são incomuns os abalroamentos de boias por navegantes distraídos. Bem mais frequentes são os furtos das lanternas alimentadas por sensores de energia solar – cada uma custa R$ 13 mil.
A reposição dessas peças é obrigação prioritária do pessoal da ex-SPH.
A falta de recursos impede a implantação de uma rede completa de iluminação da hidrovia Guaíba-Itapuã.
O projeto está pronto mas, para implantar a rede de boias luminosas, é preciso fazer um levantamento por sonar multifeixe do leito do Guaíba exigido pela Marinha (para a navegação) e pela Secretaria Estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (para liberar a extração de areia do leito do Guaíba).
A SPH tem a embarcação apta a fazer o serviço, mas falta o equipamento multifeixe a ser providenciado pela SEMA.

Consórcio já pôs sua marca no Muro do Guaíba / JÁ
