Autor: Elmar Bones

  • O assalto em Criciúma e o boicote ao Timeline: um precedente perigoso

    O assalto em Criciúma e o boicote ao Timeline: um precedente perigoso

    Seis patrocinadores suspenderam suas publicidades no programa Timeline, da rádio Gaúcha,  por causa de um comentário do jornalista David Coimbra sobre o assalto ao Banco do Brasil em Criciúma.

    O assalto cinematográfico que chocou o Brasil ocorreu na madrugada de terça-feira, 1 de dezembro.

    Na manhã seguinte, na abertura do programa, o jornalista comentou o fato, chamando atenção para o tratamento dado aos reféns pelos assaltantes, que inclusive espalharam na rua dinheiro para que as pessoas pegassem.

    Disse que os assaltantes eram  “organizados”: “(… )tu vês que eles tem método… E  mais do que isso, eles tem respeito pelo cidadão”.

    Citou trechos de conversas dos assaltantes com os reféns e concluiu que eles tinham “uma justificativa ideológica para o ato, existe uma filosofia no assalto”.

    O comentário em diálogo com a “âncora” do programa, Kelly Matos, se desenrolou por três minutos, mais ou menos.

    O próprio David, ao final, ironizou a digressão filosófica a respeito do assunto: “Tu vês que há filosofia pra tudo, até pra roubo de banco”.

    O ataque começou antes mesmo do programa encerrar.

    Às 11 horas o empresário Roberto Rachewski postou numa rede social:

    “Se eu fosse dono da RBS demitia o David Coimbra e a Kelly Matos antes do fim do programa que comandavam. Curioso que defendem assalto a banco sendo patrocinados por um, a Unicred. Se eu fosse dono da Unicred cortava essa verba publicitária dessa emissora”.

    Rachewski, um dos fundadores do Instituto de Estudos Empresariais, é um empresário e militante ultra liberal. Seus últimos artigos no site do Instituto Liberal são eloquentes:

    “Racismo é a pior forma de coletivismo”.

    “Não precisamos mais experimentos comunistas, nem socialistas”.

    “Como definir o comportamento de um extremista”.

    O último artigo do empresário foi publicado nesta sexta-feira, dia 4: “Por que as empresas contratam jornalistas de esquerda?”.

    O artigo é “uma pregação aos anunciantes (…)para que direcionem suas verbas publicitárias patrocinando quem não defende bandido, seja o que assalta e mata nas ruas, seja o que usa a coerção estatal para impor suas pautas coletivistas estatistas”.

    O principal reforço à pregação de Rachewski veio já no dia seguinte ao programa: o Instituto Cultural Floresta, que reúne empresários empenhados em melhorar as condições de segurança no Estado.

    O Instituto, que já fez doações para equipamento da Brigada Militar e reforma em instalações policiais, emitiu uma “nota de reprovação aos comentários feitos pelos jornalistas”.  A nota é branda e registra que “as manifestações não são condizentes com formadores de opinião tão experientes e respeitados, que muitas vezes apoiaram e enalteceram as iniciativas da entidade”.

    Na sequência de manifestações, a Associação dos Oficiais da Brigada Militar, em nota oficial assinada por seu presidente, coronel Marcos Paulo Beck, “reprova” os comentários dos jornalistas.

    A nota da ASFOB reverbera o post de Rachewski, e considera “manifestações não condizentes com a realidade do trabalho dos policiais e nem com os valores éticos e morais que devem nortear uma sociedade, onde bandido é bandido e em situação alguma pode ser transformado em um herói, como Robin Hood de “quarta categoria”.

    A Unicred, cooperativa de crédito, foi a primeira, poucas horas depois, a anunciar numa nota pública a suspensão dos anúncios.

    Até o fim da sexta-feira, os cinco patrocinadores (Unicred, Salton, Biscoitos Zezé, Sebrae e Santa Clara) haviam cancelado seus contratos com o programa.

    Até um anunciante de varejo, o shopping Total, que teve alguns de seus anúncios avulsos para o Natal inseridos ao longo do programaTimeline, publicou nota informando que pediu para retirá-los daquele horário.

    Em notas, todos  afirmaram respeitar a “liberdade de imprensa e de opinião”, repudiando, porém, as opiniões emitidas por Coimbra e sua colega Kelly Matos e tornan público o rompimento do contrato com a emissora.

    Um post apócrifo circulando na internet comemorava o resultado na sexta-feira: “Hoje é dia de abrir conta na Unicred, comer queijo Santa Clara com biscoitos Zezé e tomar vinho Salton”.

    Os comentários dos jornalistas são inoportunos e equivocados, sem dúvida. Mas nada que não pudesse ser colocado nos devidos termos com uma manifestação ao programa.

    Qualquer um dos patrocinadores, tanto quanto os empresários ou o comandante da ASFOB teriam acesso ao microfone para manifestar sua opinião, com certeza.

    A reação desproporcional de boicotar o programa de maneira drástica, como que forçando a demissão dos apresentadores, configura claramente uma tentativa de linchamento profissional pelo delito de opinião.

    Um precedente perigoso para a imprensa e para todos os jornalistas.

  • Eleições 2020: o caminho do continuísmo já estava pavimentado

    Eleições 2020: o caminho do continuísmo já estava pavimentado

    A vitória de Sebastião Melo na eleição de Porto Alegre vai passar para os anais da política como mais um exemplo de que debates não ganham eleição.

    Melo perdeu em todos os debates com Manuela D’ávila.

    No último, na sexta-feira que antecedeu o pleito, foi constrangedora a fragilidade da sua retórica populista. Mas foi o vencedor nas urnas.

    Na verdade, os debates são irrelevantes.

    Primeiro porque  são burocráticos e pouco esclarecedores. Trabalham sobre uma base muito rasa de informações. “Uma formiguinha atravessaria com a água pela canela”, diria Nelson Rodrigues.

    Aquele sistema de sortear as questões tirando um papelzinho é coisa de gincana de colégio. “Saúde! O sr. tem dois minutos e trinta segundo para expor suas propostas para area da saúde em Porto Alegre”.

    Depois tem a replica de um minuto, a tréplica 30 segundos… No total quatro minuto para a saúde pública de uma cidade de um milhão e meio de habitantes.

    Ai tira-se outro papelzinho: “Transporte”.

    O  caso do transporte coletivo em Porto Alegre é patético. O presidente da Agergs, a agência reguladora dos serviços públicos concedidos, engenheiro Luiz Afonso Senna, define como “primitivos” os contratos de concessão do transporte coletivo a empresas privadas em Porto Alegre.

    Melo diz que vai “repactuar” os contratos assinados em 2015, quando era o vice-prefeito. Passou a campanha inteira falando na tal “repactuação” sem explicar. A preocupação dos perguntadores era se os candidatos iam ou não privatizar a Carris.

    Na verdade, não só os debates não influem. A própria campanha alterou pouco o resultado que já estava anunciado no primeiro turno.

    O que ganha eleição é um sistema de comunicação dominante, oligopólico, que distila diuturnamente uma ideologia, desqualificando, quando não criminalizando, um caminho, enaltecendo outro.

    Nesse ambiente, quando um candidato como Melo chega com seu discurso os corações e mentes já estão preparados.

     

  • Eleições 2020: dois projetos se defrontam em Porto Alegre neste domingo

    Eleições 2020: dois projetos se defrontam em Porto Alegre neste domingo

    Porto Alegre neste segundo turno é onde mais nitidamente se defrontam dois projetos, duas visões  do Estado e da sociedade, que hoje dividem ideologicamente o Brasil.

    Mais do que São Paulo,  inclusive.

    Manuela D’Ávila, de uma coligação de esquerda (PCdoB-PT-PSOL-PDT) e Sebastião Melo,  do MDB, liderando uma frente que inclui desde frações trabalhistas até a extrema direita bolsonarista.

    Manuela representa  forças que já governaram Porto Alegre por 16 anos e deram projeção internacional à cidade. Ênfase em políticas sociais, democracia direta, o poder público como redutor das desigualdades.

    Sebastião Melo, independente de suas qualidades pessoais, representa um projeto que fracassou em Porto Alegre. Privatizações, terceirizações, redução da estrutura pública para abrir espaço a negócios privados.

    Basta olhar em volta: obras da Copa 2014, Portais da Cidade, BRTs, entorno da Arena, transporte coletivo, o Mercado Público.

    Não foi o princípio da PPP ou das terceirizações  que fracassou, foi sua implementação, o despreparo do poder público, a falta de fiscalização, a leniência.

    Duas gestões do PPS/PMDB (José Fogaça), uma do PDT (Fortunati) e a do PSDB (Marchezan) cobrem esse período pós PT.

    Principalmente depois que Fogaça, na metade do segundo mandato, saiu para concorrer ao governo do Estado, a marca  é a estagnação, as indefinições, a falta de projetos, os  conflitos com o funcionalismo, desmonte do planejamento, numa cidade que foi uma das pioneiras em planejamento urbano no Brasil.  A gestão de Marchezan  foi uma continuidade atípica dessa distopia.

    Melo é um homem do diálogo, um político de conduta, um hábil articulador, mas, por injunção partidária, está à frente de um  projeto que envelheceu,  uma árvore que fanou  sem dar frutos. O que ele propõe é continuar empurrando com a barriga os graves problemas da cidade.

    Melo representa as forças que, há 16 anos, derrubaram  o projeto que hoje tem Manuela como candidata. Estão no poder também há 16 anos sem  conseguiram colocar  no lugar algo que fosse claro, que pudesse significar um projeto para a cidade.

     

     

  • Eleições 2020: a influência dos protestos às vésperas do voto

    Eleições 2020: a influência dos protestos às vésperas do voto

    A morte de Carlos Alberto de Freitas, negro de 40 anos, espancado e asfixiado por dois seguranças do Carrefour em Porto Alegre, ganhou manchetes e motivou protestos antirraciais por todo o mundo.

    No supermercado onde ocorreu o crime houve manifestações já na sexta-feira, com forte repressão policial. No fim de semana vários atos de protesto denunciaram o racismo e a violência.

    O tema contaminou a campanha eleitoral na sua reta final. No mesmo dia Manuela e Melo participaram de atos contra o racismo.

    A morte de João Alberto abriu o horário eleitoral de televisão, no primeiro dia de exibição no segundo turno, quando os dois candidatos renderam homenagens.
    Melo dedicou dois dos cinco minutos do programa da noite de sexta-feira ao caso. O vídeo iniciou com uma mensagem: “Porto Alegre está de luto”.
    Em seguida, o próprio candidato lamentou o fato: “20 de novembro é o Dia da Consciência Negra. É com profunda tristeza que em um dia tão emblemático Porto Alegre se depare com mais um episódio de violência”.
    E completou: “A Porto Alegre que queremos é de paz, igualdade, dignidade e respeito para todos, independente de cor, gênero, religião, ideologia ou partido político”.
    Manuela encerrou o programa da noite de sexta-feira com uma homenagem. E dedicou todo o programa de sábado ao caso. A peça começou com uma série de imagens de pessoas negras em Porto Alegre e a citação de estatísticas sobre assassinatos e violência contra negros.
    O programa teve imagens do protesto em frente ao Carrefour, com pedidos de justiça, e falas sustentando que a morte de João Alberto não é um caso isolado. Políticos negros também citaram casos de racismo pelos quais passaram, falando em racismo estrutural.
    Os cinco vereadores negros eleitos para a próxima legislatura em Porto Alegre – Karen Santos (PSOL), Matheus Gomes (PSOL), Laura Sito (PT), Bruna Rodrigues (PCdoB) e Daiana Santos (PCdoB) – também protestaram em frente ao Carrefour na sexta-feira, pedindo justiça.

    Qual será a influência deste fato, de repercussão internacional, junto ao eleitor que vai domingo às urnas decidir entre Manuela d’Ávila e Sebastião Melo?

    Esta é a pergunta que vai marcar a semana decisiva das eleições de 2020 em Porto Alegre.

     

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  • Boulos ameaça o favoritismo do prefeito Bruno Covas em São Paulo

    Boulos ameaça o favoritismo do prefeito Bruno Covas em São Paulo

    O desempenho de Guilherme Boulos (PSOL) no primeiro debate com Bruno Covas, em São Paulo, aponta para a ascensão de uma nova estrela da esquerda brasileira, que poderá surpreender no segundo turno das eleições municipais, dia 29.

    O debate foi promovido pela CNN na noite desta segunda-feira e foi um caso exemplar de disputa política em alto nível.

    Covas fez  1,7 milhões de votos (32,85%) no primeiro turno, superando largamente o seu oponente Boulos que fez pouco mais de 1 milhão de votos (20% do total).

    O confronto entre os dois no primeiro debate mostrou que não vai ser fácil para Covas, o atual prefeito que disputa a reeleição, manter esse favoritismo.

    Tranquilo, articulado, demonstrando conhecimento dos problemas da cidade, Boulos foi incisivo, sem agressividade, nas perguntas e claro e preciso nas respostas.

    Mostrou que tem projetos e não pretende fazer uma gestão sectária, se for eleito. O prefeito Bruno Covas, candidato qualificado, sentiu em vários momentos que tem pela frente um osso duro de roer.

    Boulos tem ainda um diferencial nesta campanha: a sua candidata a vice, a deputada Luiza Erundina, ex-prefeita da cidade, de 85 anos.

    Eleita em 1988, numa campanha surpreendente em que começou com 6% das intenções de voto e acabou batendo dois profissionais de política – o ex-prefeito Paulo Maluf  e o então deputado José Serra.

    A atuação de Erundina, que atua há mais de 30 anos nas regiões da periferia da cidade, certamente pesou bastante no desempenho de Boulos no primeiro turno, que começou com 9% das intenções de voto e chegou aos 20% superando nomes tradicionais como Celso Russomano e Mario França.

    Neste segundo turno, Boulos terá o apoio do PT, que no primeiro turno concorreu com Gilmar Tatto e obteve 8,6% dos votos.

     

     

     

     

     

  • Desafio de Manuela e Melo é conquistar os 400 mil que não votaram no primeiro turno

    Desafio de Manuela e Melo é conquistar os 400 mil que não votaram no primeiro turno

    O resultado lógico da eleição municipal em Porto Alegre, no segundo turno, seria uma derrota da candidata Manuela Dávila, do PSOL, frente a Sebastião Melo, do PMDB.

    Começa pelo desempenho dos candidatos até aqui.

    Manuela que liderou com folga desde o início da campanha, chegou a ter 40% das intenções de voto na reta final do primeiro turno.

    O resultado das urnas, que lhe deram 29% dos votos válidos, indica perda de dinamismo numa trajetória que era, até então, ascendente a ponto de alimentar ilusões de liquidar a disputa ainda no primeiro turno.

    Seu adversário, ao contrário. Ao longo da campanha patinou em torno dos 10% nas intenções de voto, numa disputa acirrada pelo segundo lugar com José Fortunati, do PTB,  e com o prefeito Nelson Marchezan, do PSDB.

    A saída de Fortunati, numa decisão intrigante, para aderir à candidatura Melo, teve o efeito esperado, com a maciça transferência de votos que o levaram aos 31% e à vitória no primeiro turno, ao qual chegou em trajetória ascendente.

    Costuma-se dizer que o segundo turno é uma outra eleição, pois o rearranjo de forças pode alterar significativamente o quadro da disputa.

    Nesse caso, Sebastião Melo, já favorecido pelos votos do PTB de Fortunati, tende a ampliar o arco de alianças, ganhando o apoio da oito dos 12 partidos que disputaram o primeiro turno. Inclusive parte dos eleitores de Marchezan, que vai ficar neutro, tendem, pela força do anti-petismo, a votar em Melo.

    Já Manuela, candidata de um partido pequeno, o PCdo B, tem como base de sua candidatura a força eleitoral do PT, partido do seu vice, Miguel Rossetto. Terá no segundo turno o apoio do PSOL, que no primeiro turno concorreu com Fernanda Melchiona.

    A votação de Fernanda Melchiona, cerca de 28 mil votos, comparada ao desempenho dos vereadores do PSOL (os campeões de votos nesta eleição), mostra que parte dos psolistas já praticou o voto útil e votou em Manuela, no primeiro turno.

    Em todo caso, são mais de 4%dos votos  que tendem a ir em massa para Manuela, que contará também com a militância dos puxadores de voto do PSOL –  como Karen Santos, Pedro Ruas e Roberto Robaina.

    Manuela terá também uma parte dos votos do PDT (6,5% do total), pois os trabalhistas mais à esquerda tendem a não votar em Melo, cujo espectro de alianças inclui até os bolsonaristas da extrema direita.

    Essa é a lógica que indica o favoritismo de Melo na eleição do dia 29, em Porto Alegre. No entanto, as disputas eleitorais em segundo turno nem sempre respeitam a lógica.

    Uma das razões pelas quais se diz que o segundo turno é uma outra eleição é a chance de um debate mais direto e mais claro entre os dois oponentes, que terão também tempos iguais na propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

    Há que considerar também a influência de fatores externos, como é o caso da eleição em São Paulo, onde Guilherme Boulos, do PSOL, caminha para ser o maior fenômeno eleitoral do país neste segundo turno.

    Em todo caso, o desafio principal de ambos será mobilizar os mais de 40% dos eleitores que não foram votar (33%) ou votaram  em branco ou nulo. Esse contingente, que soma mais de 430 mil eleitores, se tivesse votado num único candidato teria ganho a eleição no primeiro turno.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  • Boulos em São Paulo, Manuela em Porto Alegre: a direita põe as barbas de molho

    Boulos em São Paulo, Manuela em Porto Alegre: a direita põe as barbas de molho

    Duas cidades nestas eleições ameaçam a hegemonia que a direita construiu em 2018: São Paulo e Porto Alegre.

    Porto Alegre, que já foi “a cidade vermelha”, pelo aspecto simbólico.

    São Paulo, terceiro orçamento do país (depois da União e do Estado de SP), pela peso econômico e  influência nacional.

    Em São Paulo, Guilherme Boulos, do PSOL, está em segundo lugar e se credencia para a disputa final com o prefeito Bruno Covas.

    Se chegar ao segundo turno, unirá toda a esquerda em torno de seu nome e se alcançar a periferia, onde conta com a influência da ex-prefeita Luiza Erundina, de 85 anos, agora sua vice, pode surpreender.

    Em Porto Alegre, Manuela d’Ávila, da chapa PCdoB/PT, lidera a disputa desde o início e tem lugar garantido no segundo turno, com 35% das intenções de voto conforme as pesquisas.

    Vai enfrentar Sebastião Melo, ao que tudo indica. Mas uma reação do prefeito Nelson Marchezan Junior, que está em terceiro lugar, não é descartável.

    De qualquer forma, o maior inimigo de Manuela no segundo turno será o anticomunismo e antipetismo que vai unir um amplo espectro de centro direita contra ela.

    Em torno dela, deverá unir-se toda a  centro esquerda, que já elegeu quatro prefeitos em Porto Alegre de 1988/2004, mas desde então sofre sucessivas derrotas.

    Se essas duas candidaturas tiverem sucesso, todo o cenário de 2022 estará alterado.

     

     

     

  • A estranha renúncia de José Fortunati

    A estranha renúncia de José Fortunati

    A candidatura de José Fortunati, cuja carreira começou no PT de Olívio Dutra e termina no PTB de Roberto Jefferson, surgiu como uma surpresa, depois dele ter anunciado sua saída da vida pública.

    A candidatura foi surpresa não só pela prévia declaração de aposentadoria. Mas, também, pelo comportamento de Fortunati no último ano como prefeito, quando sumiu da Prefeitura, entregando o governo municipal ao vice Sebastião Melo.

    Simbólico dessa situação foi o fato de Fortunati continuar suas férias num cruzeiro pelo Oceano Pacífico, no dia 29 de janeiro de 2016, quando um vendaval sem precedentes devastou Porto Alegre. Alegou que teria que usar um helicóptero para voltar, o que “seria oneroso para a cidade”.

    Por tudo isso, no meio político não faltou quem visse na chapa liderada por Fortunati uma linha auxiliar da candidatura de seu ex-vice, Sebastião Melo.

    A causa da renúncia – a impugnação do candidato a vice em sua chapa, André Cechini, do Patriotas – é frágil e também não foi surpresa.

    Antes mesmo da decisão do TRE, ele havia sido questionado sobre a possibilidade de impugnação do registro do vice e minimizou, dizendo que o jurídico do partido (o PTB) havia analisado a questão e concluído que não havia risco de impugnação. Rosane de Oliveira registrou isso em sua coluna na ZH, há dois dias.

    Considere-se que a denúncia da irregularidade na filiação de Cechini foi feita por um vereador do PRTB, da coligação que apoia Melo.

    A precipitada renúncia de Fortunati na manhã desta quarta-feira, por causa de uma decisão da qual ainda poderia recorrer, e o imediato apoio do PTB a Sebastião Melo são evidentes indícios de um entendimento prévio.

    O alvo era o prefeito Nelson Marchezan, que vê reduzidas as suas chances de chegar ao segundo turno, que provavelmente será disputado entre Manuela D’Ávila e Sebastião Melo.

     

  • América sai dividida da aventura trumpista; Bolsonaro perde seu modelo

    América sai dividida da aventura trumpista; Bolsonaro perde seu modelo

    A vitória do democrata  Joe Biden na  eleição americana, confirmada no início da tarde deste sábado, corta a escalada autoritária e irresponsável de Donald Trump na presidência da nação mais poderosa do mundo.

    A derrota, porém, não vai eliminar o trumpismo e suas ramificações fascistas e belicistas.

    Os norte-americanos saem dessa eleição irremediavelmente divididos, embora o novo presidente fale que sua prioridade é “unir o país”.

    Não é a divisão formal e histórica entre Republicanos e Democratas.

    São as várias divisões que fracionam a sociedade americana: a distância que se aprofunda entre pobres e ricos, o racismo que remexe em feridas históricas, na discriminação aos imigrantes, na exacerbação da violência policial, no estímulos aos grupos armados. Todos os conflitos que a “presidência profundamente divisiva” de Trump alimentou para sustentar seu projeto político-eleitoral.

    Para o Brasil, cujo governo se declarou num alinhamento total às políticas de Trump, a mudança nos Estados Unidos traz desafios, mas o desafio maior é para o presidente Jair Bolsonaro que desde o início se mirava em Trump como um espelho.

    Além de ter que realinhar suas atitudes na política externa,  o presidente fica sem a referência para suas atitudes mais chocantes.

    Biden tornou-se o 46º presidente,  exatamente 48 anos depois de ter sido eleito pela primeira vez para o Senado dos Estados Unidos.

    Aos 77 anos, Biden ganhou a presidência ao conquistar a Pensilvânia e seus 20 votos eleitorais. A vitória na Pensilvânia, anunciada às 11h25 no sábado com 99% dos votos contados, elevou a votação do colégio eleitoral de Biden para 284, superando os 270 necessários para ganhar a Casa Branca.

    Trump é o primeiro titular a perder a reeleição desde 1992, quando Bill Clinton derrotou George HW Bush.

    Trump se recusou a reconhecer a vitória de Biden e disse que  buscará a Justiça para contestar o resultado.

    “Os votos legais decidem quem é o presidente, não a mídia de notícias”, disse o presidente em um comunicado, enviado enquanto ele jogava golfe no Trump National Golf Club, na Virgínia.

    A vitória de Biden foi celebrada por milhões de americanos em todo o país como um repúdio a um presidente “que quebrou as normas democráticas e alimentou a divisão racial e cultural”.

    O resultado também marcou a ascensão histórica de Kamala Harris, que será a primeira mulher e a primeira mulher negra a servir como vice-presidente na história americana.

     

  • Farsa do “Ritual Satânico”: a polícia cortou na própria carne, a imprensa nem pediu desculpas

    Farsa do “Ritual Satânico”: a polícia cortou na própria carne, a imprensa nem pediu desculpas

    Aos 70 anos, o delegado Moacir Fermino Bernardo, da Polícia Civil, foi condenado a seis anos de prisão. Ele ainda pode recorrer.

    A condenação é o desfecho melancólico de um caso que deu notoriedade internacional ao delegado Fermino com a história de um “ritual satânico” no qual duas crianças teriam sido sacrificadas.

    Ele chegou a prender cinco pessoas e indiciar outras duas pelo crime. Era tudo uma farsa.

    Junto com o delegado, foi condenado também o “profeta” Paulo Sérgio Lehmen, dono de um ferro velho em Novo Hamburgo. Ele foi o informante que convenceu o delegado e forneceu as testemunhas que confirmavam a hipótese do “ritual satânico”.

    Enquanto isso, voltaram à estaca zero as investigações sobre a morte das duas crianças cujos corpos, aos pedaços, foram descartados nos arredores de Novo Hamburgo, em setembro de 2017.

    Até hoje a polícia não tem qualquer pista dos autores, nem das motivações do crime hediondo.

    Condenados por terem desviado as investigações, forjando testemunhos e provas, o delegado e o informante ainda vão responder por dano moral às pessoas que acusaram e que foram presas injustamente.

    A imprensa contribuiu ao engolir sem críticas a versão mirabolante que eles montaram e produziu uma sucessão de bombásticas manchetes falsas, tendo como única fonte – o delegado Fermino.

    A ficha só caiu quando o delegado, dando o caso por resolvido, convocou uma grande entrevista coletiva para contar os detalhes da investigação.

    Com 44 anos de carreira, a caminho da aposentadoria, Fermino tinha na mão um caso de repercussão internacional e estava emocionado. A certa altura da entrevista, embaraçado por perguntas, revelou que chegara à solução do caso por “inspiração divina”, por meio de “profetas” que lhe apontaram as testemunhas.

    Aí acendeu a luz de alerta na própria polícia e a corregedoria promoveu uma investigação sobre a investigação, concluindo que era uma grosseira farsa a história do ritual satânico. “A polícia cortou na própria carne”, disse um dos corregedores.

    E a imprensa, toda ela, que assumiu sem questionar e, pelo destaque que deu, alimentou a versão do “ritual satânico”, sequer pediu desculpas pela enxurrada de fake news que difundiu.

    Relembre como foi montada a farsa

    O expediente estava começando na delegacia de Novo Hamburgo no dia 4 de setembro de 2017, quando um morador ligou dizendo que havia visto à beira de uma estrada uma sacola com pedaços de um corpo humano.

    A sacola foi recolhida e, 14 dias depois , a polícia fez novas  buscas no local e encontrou  outros pedaços em caixas de papelão, completando os membros e o tronco de dois corpos, sem as cabeças.

    A perícia constatou  que eram uma menina com cerca de 12 anos e um menino em torno de oito anos. Seriam irmãos ou parentes pela consanguinidade.

    Nenhuma outra pista foi encontrada pelos investigadores. Nem registro de crianças desaparecidas, nada.

    Três meses depois, quando o caso ganhava destaque na imprensa pelo mistério que o envolvia, começou a farsa.

    O delegado Rogério Baggio que conduzia o inquérito entrou em férias e o substituto, o veterano delegado Moacir Fermino, deu um novo rumo às investigações.

    Antes mesmo de assumir o caso, ele havia recebido ligações de uma pessoa de sua confiança, cujo nome foi revelado posteriormente, Paulo Sérgio Lehmen, e se convenceu da versão do ritual satânico, no qual as duas crianças teriam sido sacrificadas.

    Poucos dias depois de encontrados os corpos, o delegado Fermino registrou ocorrência, de testemunha anônima que afirmava ter visto um “ritual satânico” num sítio em Morungava, em Gravataí, a 30 quilômetros do local onde foram encontrados os corpos.

    A partir daí, segundo os corregedores o delegado manteve uma investigação não autorizada, paralela ao inquérito oficial conduzido pelo delegado Rogério Baggio, da Homicídios de Novo Hamburgo.

    Quando o titular saiu em férias, no dia 10 de dezembro, Fermino assumiu o caso com a história já pronta. Nove dias depois pediu a prisão temporária de sete pessoas.

    Até então, segundo concluíram os corregedores o delegado não tinha nenhuma testemunha, nem indício material.

    Apenas o relato do “profeta” Paulo e uma história montada com base num livro de magia negra, do qual trechos inteiros foram transcritos no relatório que o delegado apresentou para justificar a prisão temporária dos sete suspeitos.

    “A história foi sendo montada aos pedaços, à medida da necessidade de apresentar elementos que justificassem as prisões”, diz o delegado Antonio Pitta.

    As três testemunhas reais arroladas no inquérito apareceram depois do dia 4 de janeiro, quando o delegado já dava o caso por resolvido.

    Elas corroboram a história em linhas gerais, mas seus depoimentos têm tantas contradições que não resistiram ao interrogatório dos corregedores e, ao final, confessaram as mentiras.

    Eram aliciadas e instruídas por Paulo com promessa de benefícios do sistema de proteção à testemunhas. Uma delas reclamou que haviam prometido 3 mil mensais e não estava recebendo nem mil reais.

    A terceira testemunha se apresentou à polícia no dia 22 de janeiro, num momento crucial da investigação, era o próprio filho de Paulo, que apontou ao delegado o sétimo envolvido no ritual, elo que faltava para ligar o “bruxo” Silvio Rodrigues com os outros acusados.

    Márcio Brustolin, o sétimo acusado, teria apresentado o bruxo aos dois sócios que contrataram o ritual. Era mais uma armação. Os corregedores encontraram uma mensagem de Paulo ao delegado Fermino, na véspera: “Mais uma missão cumprida… a testemunha vai se apresentar”.

    Além de Paulo que o ajudava a construir a história, o delegado Fermino contava com um segundo profeta: um pastor evangélico, de antiga amizade, que ele escuta como um “guia espiritual”.

    No dia em que comandava escavações no local onde foram encontrados os corpos, o delegado contou que recebeu uma mensagem deste pastor: “Não sei onde você está, mas cave mais para a esquerda”. A polícia não considera esse pastor envolvido nos crimes do delegado.

    Paulo Sérgio Lehmen foi preso durante o inquérito, depois solto e responde em liberdade. Paulo, que Fermino chama de “profeta”, se diz “estudioso de física quântica”.

    Silvio Rodrigues Fernandes, o “Bruxo” que, segundo o delegado,  teria conduzido o ritual satânico, na época contratou os advogados José Felipe Lucca e Marco Alfredo Mejia,  para buscar reparo aos danos morais e materiais que sofreu.

    Na época os advogados informaram que iriam processar o delegado Moacir Fermino e a imprensa pelas reportagens sensacionalistas que  apresentavam seu cliente como assassino.

    “Nosso cliente ficou 40 dias preso sem motivo, sendo sete dias na delegacia, isolado, sem banho, sob tortura psicológica, sem saber direito de que era acusado. Não pode ficar por isso mesmo”, disse na época ao JÁ o advogado José Lucca.

    Ele contou também que seu cliente sofreu prejuízos materiais com depredação do seu templo religioso, inclusive com quebra de imagens.
    Por conta disso, segundo o advogado, seria ajuizada também uma ação específica contra alguns jornais e veículos de comunicação que assumiram e até exageraram a versão do delegado. “A nossa versão dos fatos não era considerada. Não nos ouviam ou quando ouviam não publicavam”, disse Lucca.

    Depois da condenação do delegado e do informante, não conseguimos contato com os advogados para saber se eles levaram adiante os processos.

    Quais os motivos de Paulo ao criar toda essa história e o delegado Fermino a acreditar nela, mesmo sabendo que era falsa?

    As conclusões dos corregedores são hipóteses. Eles acreditam que Paulo foi motivado por uma dívida. Paulo foi contratado por Jair Silva e seu sócio para limpar um terreno, onde seria feito um loteamento. Ele cobrou 20 mil para retirar um lixão que ocupava grande parte da área. Recebeu o dinheiro e não fez o serviço. Jair começou a pressioná-lo. Quando surgiu o caso das crianças esquartejadas nos jornais ele teria urdido a trama para se livrar do problema.

    O delegado Moacir Fermino, com 44 anos de polícia, teria motivos religiosos para apostar na história. Evangélico, ele buscaria “ascensão religiosa”.

    Os corregedores chegaram a mencionar a “vaidade” do delegado que o levaria a buscar um caso de grande repercussão e que ainda o credenciaria como homem de fé.

    Sobre uma pergunta, se a história não teria sido criada por Paulo para encobrir os verdadeiros executores do crime, o delegado Antônio Lapis respondeu: “O conjunto probatório que reunimos não aponta neste sentido”.

    No depoimento que prestou aos corregedores Fermino foi lacônico. Disse que acreditou na história e procurou comprová-la. “Muitas perguntas ele respondeu com evasivas”, disse um dos corregedores. O delegado, que já foi candidato a vereador, teria algum interesse político? Os corregedores não encontraram nada neste sentido.

    Os corregedores disseram que com esse inquérito a instituição policial estava “cortando na própria carne”.

    Uma cópia do relatório dos corregedores foi para a Justiça, outra para o Conselho Superior de Polícia. A decisão da Justiça foi a que saiu agora condenando o delegado e o informante.

    Ainda há um crime hediondo que parece perfeito: duas crianças esquartejadas, sem cabeça, dentro de caixas de papelão, no meio do lixo à beira de uma estrada deserta. Nem imagens de câmeras, nem testemunhas, nem registro de crianças desaparecidas, nem impressões digitais, nem as cabeças, apesar das buscas e escavações.