Por volta das 13h40, do dia 05 de maio de 2026, ocorreu a despressurização de emergência da caldeira da fábrica de celulose da empresa CMPC, no município de Guaíba.
O evento causou grande susto e apreensão entre os moradores do entorno da indústria devido ao ruído fortíssimo, odor e grande quantidade de emissões atmosféricas (com chuvisqueiro nas casas dos moradores). Há relatos de pessoas com dor nos ouvidos, dor de cabeça e mal-estar, e de animais domésticos assustados. Apesar da empresa informar em comunicado aos moradores de que a situação se normalizaria em aproximadamente 20 minutos, a duração foi de cerca de uma hora.
A despressurização é uma ação emergencial para evitar acidentes maiores como rompimentos, vazamentos ou explosão, e segundo informações extraoficiais, teria sido realizada por ter sido encontrada uma “rachadura” em alguma das estruturas do equipamento. Em resposta aos diversos moradores que acionaram o número de Emergência Ambiental da FEPAM, o órgão ambiental respondeu: “A CMPC informou que tiveram que realizar esse procedimento de forma emergencial visto suspeita de vazamento da caldeira”.
Não é a primeira vez que ocorrem episódios de emergência na empresa, principalmente após a quadruplicação de sua capacidade produtiva, ocorrida em 2015, autorizada através de um licenciamento ambiental que se mostrou, se não completamente equivocado tecnicamente, com muitos limites que deveriam ser revistos, já que claramente o ambiente local demonstra não ter capacidade de suporte para os riscos e impactos causados, que foram objeto de muito enfrentamento de moradores locais, e até processo judicial por crime ambiental, situação que foi acomodada através de um Termo de Ajustamento de Conduta firmado pela CMPC com o Ministério Público, e por uma compra estratégica de casas de parte destes moradores pela empresa.
Segue um pequeno histórico:
Em maio de 2015, cinco trabalhadores da empresa foram hospitalizados e a empresa fechada pela FEPAM após vazamento de dióxido de cloro.
Em maio de 2016, dez funcionários foram levados a atendimento médico após vazamento do mesmo gás.
Em fevereiro de 2017 houve um acidente grave nesta mesma caldeira, inaugurada há menos de dois anos, levando à paralização total da fábrica nova até novembro de 2017. O caso foi parar em uma disputa judicial entre a empresa e a seguradora Mapfre, que teve que pagar R$ 1,1 bi de indenização.
Em fevereiro de 2019 um trabalhador morreu após ser prensado por equipamento na fábrica.
Em setembro de 2022 houve incêndio na caldeira da fábrica antiga, que segue em operação.
Em fevereiro de 2025 houve, novamente, um grave vazamento de cloro, desta vez ultrapassando os limites do pátio da empresa, levando moradores ao pânico, com sensação de sufocamento, forte ardência e queimação nos olhos e nariz, náusea, salivação e dor de cabeça. Atingiu também trabalhadores e levou alguns ao desmaio. Parte da empresa foi evacuada e a operação paralisada.
Já ocorreu despressurização emergencial da caldeira inclusive durante a noite, em abril de 2025, onde apesar de ter sido noticiado ser uma operação de rotina a empresa, depois de pressionada, admitiu aos moradores que foi mais uma ação emergencial.
Em junho de 2025 ocorreu a morte de um trabalhador terceirizado na fábrica, sem detalhes públicos sobre o ocorrido.
Fora a constante geração de ruído (somente legalizada por uma outra “acomodação”, desta vez no Plano Diretor de Guaíba) e de odor de compostos reduzidos de enxofre, que ultrapassa os muros da empresa, atingindo diferentes pontos de Guaíba, a depender da direção dos ventos, desrespeitando de maneira continua a Licença de Operação.
Estes episódios recorrentes, e outros que possivelmente não venham a público, acendem um alerta quanto à qualidade e aos níveis de controle da operação e de segurança do trabalho desta indústria de alto risco, que está instalada há poucos metros de centenas de residências da zona sul de Guaíba. Fica explicito também a falta de um Plano de Emergência, ou mesmo qualquer tipo de orientação aos moradores do entorno em casos de acidentes na empresa, os moradores literalmente não sabem para onde correr caso precisem se proteger de algum vazamento de gás tóxico, incêndio ou explosão na fábrica.
É evidente, há anos, a necessidade de se garantir melhores condições de segurança aos trabalhadores da CMPC e de qualidade de vida para os moradores do entorno, fatos que, mesmo sendo de alta gravidade, não tem medidas eficazes tomadas pelas autoridades responsáveis à nível municipal ou estadual, além disto estes fatos não são sequer discutidos pela sociedade, construindo uma aparência de que as operações industriais e os monocultivos de eucaliptos no Bioma Pampa não causam nenhum impacto, o que é reforçado pelas ações de mídia da CMPC, a patrocinadora do Campeonato Gaúcho de Futebol, que até tem um time fictício chamado Defensores da Natureza!
Nova fábrica aumentará poluição
Mas, para além do que ocorre onde a CMPC já opera, é preciso alertar que a empresa está em processo de licenciamento ambiental para a instalação de uma fábrica ainda maior que a de Guaíba, no município vizinho de Barra do Ribeiro. Utilizando o mesmo sistema de branqueamento, que não é Totalmente Livre de Cloro, o que seria a melhor tecnologia disponível.
Já foram identificadas, por um grupo multidisciplinar de técnicos e pesquisadores, uma série de omissões, lacunas e problemas no Estudo de Impacto Ambiental do chamado “Projeto Natureza”, que faria uso massivo de água do Guaíba e consequentemente despejaria uma nova carga de poluição também massiva em nosso querido e tão maltratado manancial (242 milhões de litros por dia, que, somados aos 154 milhões de litros já despejados por dia pela fábrica de Guaíba, equivalem à um volume superior ao que Porto Alegre gera de esgoto diariamente), seus poluentes incluem o despejo potencial de dioxinas e furanos – altamente tóxicos, e elementos como nitrogênio e fósforo que podem agravar os episódios de floração de cianobactérias, que levam àquela conhecida coloração esverdeada e às alterações de gosto e odor da nossa água e que também podem gerar substâncias tóxicas.
Mais de mil pescadores podem ser impactados, segundo estimativas desta comunidade tradicional (que não estão sequer sendo consultados), pois vários peixes sensíveis podem sofrer com os efluentes e com o revolvimento do fundo do Guaíba durante as obras. Seria ainda impactada a Praia das Areias Brancas, na Ponta do Salgado, na Barra do Ribeiro, local onde seria instalada a tubulação de efluentes até o Guaíba.
O local que a empresa quer se instalar é terra Mbya Guaraní, conhecida como Ponta da Formiga, e já é público o imenso assédio que este povo está sofrendo por parte da empresa, que está inclusive pressionando o Ministério Público Federal para que não siga com seu trabalho de defesa dos direitos deste povo originário à Consulta Livre, Prévia e Informada, pressionam também a FUNAI para que garanta sua anuência e a FEPAM para que garanta sua licença ambiental. O Governo do Estado já assinou Protocolo de Intenções garantindo isenções e diferimentos fiscais.
Outro aspecto que precisa de destaque é o impacto nas estradas gaúchas, segundo os dados da própria empresa, até 2032, haveria um incremento de mais de 25 caminhões bi-trem de 36 toneladas, por hora, circulando em nossas estradas com toras de eucalipto, considerando seu regime de operação de 24 horas por dia, 7 dias por semana, teríamos um incremento de mais de 600 bi-trem por dia, cerca de 19 mil caminhões de quase 20 metros de comprimento e 36 toneladas a mais circulando por mês.
A intensa movimentação de caminhões de grande porte para o transporte de madeira dos plantios até as fábricas, resulta em maior trânsito e riscos nas estradas, causando acidentes frequentes (na maioria dos casos fatais), além de desgastes e danos nas rodovias e estradas vicinais, e emissões de Gases de Efeito Estufa neste transporte.
Além disto, todo o impacto que o aumento dos monocultivos de eucaliptos irá ocasionar no Bioma Pampa (área de expansão dos plantios visada pela empresa), não está sendo considerado no processo de licenciamento ambiental.
Informações sobre estes impactos e sobre quem é a CMPC podem ser lidas no recente estudo produzido pela Amigas da Terra Brasil: Expansão dos desertos verdes em um Pampa em extinção.
Os estudos da empresa também não fazem nenhuma Avaliação de Impactos à Saúde.
A sociedade gaúcha deve mais uma vez se mobilizar, assim como fez no caso da Mina Guaíba, que seria a maior mina de carvão à céu aberto do país, um projeto que no início parecia impossível de interromper, mas com organização, mobilização, informações técnicas independentes e de qualidade e muito debate público, se mostrou ser um projeto sem viabilidade ambiental e social.
Será que o Projeto Natureza tem esta viabilidade? Será que é bom para um RS em meio ao colapso ambiental?
Dia 15/05, as 15:30, na Assembleia Legislativa do RS, em Porto Alegre, ocorrerá uma Audiência Pública para discutir os impactos socioambientais e o licenciamento ambiental desta nova fábrica de celulose! O assunto é de interesse de todas e todos os gaúchos, desta e das futuras gerações! Tá feito o convite pra peleia!
*Engenheiro Ambiental, integra a organização Amigas da Terra Brasil
Represento um grupo de profissionais da medicina que, há alguns anos, estuda os diferentes impactos das mudanças climáticas e da poluição ambiental nos ecossistemas na saúde humana e do planeta.
Causa preocupação o novo megaempreendimento de celulose da empresa chilena CMPC em Barra do Ribeiro (RS), próximo à capital gaúcha, cujo Estudo de Impacto Ambiental não leva em consideraçãoinúmeros aspectos graves, inclusive à saúde humana, os quais estão relacionados, dentre outros, à liberação de toxinas no ar e na água do Guaíba – de onde provém a água para a população beber.
A produção de celulose pode impactar a saúde humana por múltiplas vias, incluindo a emissão e o descarte de contaminantes sólidos, líquidos e gasosos e, de forma indireta, por efeitos relacionados ao estresse e à cadeia alimentar.
Médica e indigenista Roselaine Murlik durante audiência na Câmara Municipal de Porto Alegre. Foto: Ramiro Sanchez/JÁ
Análises Técnicas entregues à FEPAM
No dia 14 de fevereiro de 2026, juntamente com outros 10 documentos técnicos,produzidos por outros órgãos, entregamos à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM) uma análise que avalia os potenciais riscos à saúde advindos da instalação e atividade do projeto da pretensa fábrica de celulose.
Consideramos que há falhas metodológicas e omissões no EIA-RIMA apresentado para licenciamento do Projeto Natureza da CMPC. As críticas não são apenas sobre os impactos ambientais físicos, mas também sobre a insuficiência dos estudos apresentados pela empresa para mitigar riscos sociais e biológicos.
Em resumo, as críticas podem ser categorizadas nos seguintes eixos principais:
• Riscos à Saúde Humana: não há avaliação do impacto à saúde das populações vizinhas, tanto pela poluição do ar quanto da água.
• Qualidade da Água e Efluentes: temos questionamentos sobre a avaliação de efluentes líquidos e como esses impactos foram projetados no EIA-RIMA da CMPC.
• Impactos sobre Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais: a dimensão antropológica e o impacto sobre o modo de vida dessas populações não foram devidamente dimensionados.
• Biodiversidade e Fauna: temos questionamentos específicos sobre a fauna vertebrada, sugerindo que o projeto pode ameaçar a fauna local.
• Impacto no bioma Pampa: o projeto afeta diretamente o Pampa, um bioma com vegetação campestre singular e alta biodiversidade, muitas vezes subestimada em grandes empreendimentos.
Especialistas de diversas áreas entregaram à Fepam analises técnicas do EIA-RIMA. Foto: Divulgação
A emissão de gases e partículas é a via de impacto mais imediata, provocando aumento nos atendimentos de emergência para nebulizações, medicações injetáveis, e crises de broncoespasmo em asmáticos e com bronquite crônicas, maior demanda por medicamentos de uso contínuo (corticoides, broncodilatadores). O que pode provocar internações frequentes de crianças e idosos (grupos mais vulneráveis) por pneumonia ou insuficiência respiratória.
De fato, os efeitos da exposição impactam com maior intensidade as crianças (pulmões em desenvolvimento, respiram mais rápido – inalam mais poluentes por kg de peso), idosos (sistema imunológico mais fraco e maior prevalência de doenças cardíacas/pulmonares prévias), asmáticos (reagem imediatamente a picos de SO2 e TRS) e gestantes (riscos de anomalias de desenvolvimento em embriões ou fetos expostos via materna).
Por sua vez, os compostos de enxofre (TRS) geram um odor extremamente desagradável e perceptível mesmo em baixíssimas concentrações. Embora nem sempre tóxico em níveis baixos, o mau cheiro constante causa náuseas, dores de cabeça (cefaleia), insônia, estresse e ansiedade.
A contaminação hídrica traz riscos a longo prazo, pois há substâncias persistentes e bioacumulativas. Elas podem entrar na cadeia alimentar através de peixes ou da água contaminada, sendo associadas à distúrbios endócrinos, problemas reprodutivos e aumento do risco de câncer (tabela 1).
Muitos estudos de monitoramento ou acadêmicos realizados na região do lago Guaíba indicam que a carga tóxica aguda (que mata peixes imediatamente) desapareceu com as novas tecnologias de produção de celulose, mas persistem os riscos causados pela poluição crônica (acumulada no sedimento antigo) e os efeitos subletais (genética dos peixes).
Estas condições demandam tratamentos de alta complexidade e alto custo (oncologia), e podem requerer monitoramento de saúde a longo prazo para populações expostas. Além disso, há aumento de demanda para o tratamento de dermatites e alergias de contato em pessoas que utilizam os corpos d’água próximos.
Por fim, a exposição ocupacional aos riscos físicos e químicos dentro da fábrica podem resultar em acidentes com necessidade de reabilitação física e afastamentos laborais, que geram um custo social indireto à saúde pública.
Impactos da produção de celulose na saúde humana
● Sistema Respiratório e Olfativo (Via Aérea) – a forma de impacto mais imediata e comum, através de picos de emissões e exposição prolongada
● Irritação Aguda e Crônica: Causada por Óxidos de Nitrogênio (NOx), Dióxido de Enxofre (SO2) e Material Particulado (MP). Efeito – Exacerbação de asma e outras doenças obstrutivas das vias aéreas. Em crianças e idosos, aumenta a incidência de infecções respiratórias (gripes, pneumonias) devido à inflamação constante das vias aéreas.
● Intoxicação e Incômodo Olfativo (TRS): Causada por Gás Sulfídrico (H2S) e Mercaptanas (cheiro de ovo podre/repolho). Efeito Físico – em baixas concentrações, causa náuseas, vômitos e dores de cabeça intensas (“cefaleia”). Pode causar irritação nos olhos (conjuntivite química); e efeito neurológico – o H2S é neurotóxico em altas concentrações. Mesmo em níveis baixos (apenas cheiro) pode causar fadiga mental e dificuldade de concentração.
Fábricas de celulose eliminam bastante SO² e compostos orgânicos voláteis. Estes são muito irritantes e, nas vias aéreas, causam inflamações, broncoespasmo e infecções respiratórias. Principalmente, nas regiões mais próximas e nos seus trabalhadores caso não haja filtros apropriados, equipamentos de proteção e ventilação adequada do ambiente de trabalho.
Os sulfetos de hidrogênio e partículas finas de 2,5 micrômetros ou menos (material particulado – MP) têm enorme importância como causas de doenças respiratórias. Este material particulado que as fábricas eliminam, queimando resíduos ou na secagem, entram no sangue através da respiração e inflamam brônquios e alvéolos e, em princípio, nem são percebidos, e vão se acumulando ano a ano, manifestando-se depois com doença pulmonar crônica.
Em relação ao impacto destas substâncias na saúde humana, podemos citar as seguintes referências: um artigo brasileiro, dos mais citados, avaliou 638 trabalhadores que tiveram reconhecidos os problemas respiratórios como os principais associados à exposição ocupacional em uma fábrica de celulose². Paralelamente, há bastante material publicado internacionalmente que também comprova danos à saúde respiratória, tanto com exposição ocupacional como comunitária, provocando função pulmonar diminuída, sintomas respiratórios, asma e doença obstrutiva mesmo em pessoas que moram em até 30km destas indústrias³. Existem trabalhos suecos mais recentes do início desta década, sobre função pulmonar e mortalidade que reforçam o risco respiratório crônico em trabalhadores destas indústrias.
Entre os riscos respiratórios entre trabalhadores, há alta exposição a irritantes como cloro, compostos de enxofre reduzido e poeira (material particulado), o que leva à disfunção pulmonar e sintomas respiratórios.
Sabe-se que fábricas modernas controlam um pouco melhor suas emissões, mas os riscos existem inclusive às comunidades adjacentes e principalmente quando não há monitoramento constante. A vigilância epidemiológica e o monitoramento oficial são fundamentais para a captação rotineira de dados. Mas estas avaliações não se fazem com o mesmo dinamismo ou relevância que o aumento da produção dessas fábricas.
Audiência Pública Popular em Porto Alegre discutiu os impactos da instalação de uma nova fábrica de celulose da CMPC em Barra do Ribeiro. Foto: Ramiro Sanchez/JÁ
● Neurotoxicidade e Doenças Orgânicas: Metais pesados (como cádmio, cromo e chumbo) liberados nos efluentes estão associados à neurotoxicidade, doenças cardíacas, doenças renais e inibição do crescimento.
● Sistema Digestivo e Endócrino (Via Água e Alimentos) – impacto mais silencioso e de longo prazo (crônico), ligado principalmente à ingestão de água contaminada ou consumo de peixes.
Para a saúde humana e o ecossistema, a via dos efluentes costuma ser considerada mais perigosa a longo prazo devido à bioacumulação. Compostos Organoclorados (AOX), Dioxinas e Furanos (principalmente em fábricas mais antigas ou sem tecnologia ECF) não se dissolvem bem na água, mas fixam-se na gordura dos peixes. Ao comer o peixe, o humano ingere a toxina concentrada. São substâncias cancerígenas e disruptores endócrinos, podendo causar infertilidade, problemas na tireoide e malformações fetais. Se a captação de água da cidade for abaixo da fábrica (jusante), o tratamento de água torna-se difícil. A presença de fenois pode gerar gosto e odor ruim na água. Toxinas de algas podem causar danos graves ao fígado (hepatotoxicidade).
● Saúde Mental e Psicossocial (impacto Invisível) – Muitas vezes ignorado nos laudos técnicos, este é um dos maiores geradores de reclamações em comunidades vizinhas a fábricas de celulose.
Estresse Crônico e Ansiedade ao viver sob a constante percepção de mau cheiro (“odor de celulose”) ativa mecanismos de estresse no cérebro. Isso eleva os níveis de cortisol e causa insônia, irritabilidade, depressão e sensação de impotência frente à poluição
● Perturbação do Sono: tanto o odor forte durante a noite (quando a dispersão atmosférica é pior devido à inversão térmica) quanto o ruído industrial (picadores de madeira, caldeiras) prejudicam o descanso, levando a problemas cardiovasculares a longo prazo.
● Saúde Reprodutiva: Efeitos de Disruptores Endócrinos (AOX, dioxinas – especialmente o TCDD, furanos), matéria particulada (especialmente MP 2,5), estão associados a problemas de desenvolvimento do feto, incluindo anomalias congênitas, perda da gravidez e baixo peso ao nascimento. Também estão associados a problemas de fertilidade.
● Câncer: Matéria Particulada fina (MP2,5) é classificada como um carcinógeno na Classe 1 pelo IARC (International Agency for Research on Cancer), associado principalmente ao câncer de pulmão e de bexiga. Dioxinas, especialmente o TCDD, e furanos são altamente tóxicos e cancerígenos comprovados (Classe 1 pelo IARC). Desreguladores endócrinos também estão associados à carcinogênese ao alterar ou mimetizar o efeito de hormônios.
A Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer, prevê que as taxas estimadas de incidência de neoplasias para o RS estão entre as mais altas do país. Os tumores de traqueia, brônquios e pulmões têm as taxas mais elevadas do país; tumores de bexiga e tumores hematológicos (Linfoma não Hodgkin, Leucemias e Linfoma de Hodgkin) também têm risco superior à média brasileira, e a incidência de câncer em crianças e adolescentes (0 a 19 anos) no RS é de 168,11 por milhão, seguindo o padrão da região Sul, que detém as maiores taxas estimadas do Brasil para ambos os sexos.
Os Trihalometanos são produtos do tratamento do papel para branqueamento com o uso de cloro. A reação do cloro com outros compostos presentes na água bruta no momento do tratamento resulta em subprodutos da cloração na água, como os (THM). Os trihalometanos (THM) são compostos de carbono simples que contêm halogênios. Esses incluem vários subprodutos dos processos de cloração da água (SOH – Subprodutos Orgânicos Halogenados). Entre os THMs estão o bromofórmio, o bromodiclorometano, o clorofórmio, o clorodibromometano, o clorodifluorometano, o fluorofórmio e o iodofórmio. Outros subprodutos da desinfecção incluem os ácidos monocloroacético, dicloroacético, tricloroacético e haloacetonitrilas. Esses compostos estão presentes na água potável em quantidades que variam entre microgramas e nanogramas. São produtos frequentemente encontrados nos efluentes de fábricas de celulose no processo de branqueamento que utilizam cloro.
Após os primeiros trabalhos publicados nos anos de 1970, muitos outros estudos têm sido conduzidos para avaliar a associação entre a exposição aos SOH e diversos potenciais riscos à saúde, como alguns tipos de câncer, doenças cardiovasculares, reprodução e desenvolvimento fetal. Os dados relatados, a princípio, sugerem associação entre câncer de bexiga, cólon e reto e a ingestão de SOH6.
A exposição à matéria particulada (MP), especialmente, também é preocupante quanto à saúde reprodutiva. Dados de diferentes países, incluindo o Brasil, mostram que a proximidade de residência com minas ou usinas de carvão estão associados à maior probabilidade de perdas gestacionais (natimortalidade), baixo peso ao nascimento e prematuridade. A associação de exposição à matéria particulada de 2,5 micrômetros (MP2,5) também está associada à pré-eclâmpsia na gravidez (aumento da pressão arterial materna).
Estudos associando defeitos congênitos em recém-nascidos humanos e exposição materna à matéria particulada (MP2,5) mostraram associações com alguns defeitos congênitos, especialmente anomalias cardíacas congênitas, defeitos de tubo neural e fendas labiopalatinas.
A Tabela 2 apresenta um sumário analítico de trabalhos publicados em que as evidências epidemiológicas de câncer de cólon, reto e bexiga, aborto espontâneo, natimorto, anomalias respiratórias, parto prematuro, feto pequeno para a idade gestacional, anomalias cardiovasculares, baixo peso ao nascer, anomalias no trato urinário, fenda labial e palatina, retardo do crescimento intrauterino, anomalias cromossômicas são associadas à exposição aos SOH. Nas linhas, estão os números de estudos de cada um destes efeitos relacionados com trihalometanos (THM), água clorada, bromofórmio (BF), bromodiclorometano (BDCM), clorofórmio (CF) e ácidos haloacéticos (AHA).
Foram relacionados 135 trabalhos científicos, realizados ao longo de quase 30 anos (1981 – 2008), cujas pesquisas evidenciaram que os SOH, principalmente quando o cloro é utilizado, estão associados à ocorrência e a efeitos adversos à saúde (mutagênicos, carcinogênicos e teratogênicos).
O coletivo “ Medicina em Alerta” aponta as seguintes preocupações com o Projeto Natureza:
● No Volume 2, TOMO III – Diagnóstico Ambiental – Meio Socioeconômico do Relatório Técnico há uma descrição do sistema de saúde de Barra do Ribeiro e demais cidades afetadas pelo empreendimento. Não há nenhuma referência sobre os impactos à saúde humana resultantes dos produtos químicos emitidos na atmosfera durante a operação, ou tampouco daqueles presentes nos efluentes, nem dos impactos a longo prazo causados pela bioacumulação progressiva de dioxinas e furanos em animais e seres humanos – no ser humano, a meia-vida das dioxinas é estimada entre 7 a 11 anos.
● A análise dos sistemas de saúde na cidade do empreendimento e na maioria das cidades vizinhas evidencia a escassez de leitos hospitalares ou de atendimento de urgências. A demanda aumentada não ocorre apenas por grandes acidentes, mas frequentemente pelo aumento crônico da demanda por tratamento de doenças respiratórias, cardiovasculares e dermatológicas nas comunidades próximas às fábricas e naquelas mais distantes que estarão nas rotas dos ventos predominantes para a dispersão de poluentes. A sobrecarga no sistema de saúde é preocupante, sabendo-se da insuficiência das estruturas que existem na região para atender a demanda atual de doenças crônico-degenerativas e situações agudas de maior complexidade.
● Em relação às neoplasias, o Plano de Ação Estadual de Oncologia Triênio 2024-2026, da Secretaria de Saúde estadual, aponta nós críticos na rede de assistência ao paciente oncológico, e cita a necessidade de ampliação dessa assistência. Não há referência ao aumento de casos de neoplasias decorrentes da instalação da fábrica.
● O Volume 3 – Avaliação de Impactos Ambientais, Prognóstico Ambiental e Conclusões, apresenta como medidas mitigatórias para o aumento da população instalar hospitais de campanha ou unidades móveis de saúde para aumentar a capacidade de atendimento temporariamente e parcerias com hospitais privados para utilizar leitos disponíveis em caso de necessidade, garantindo atendimento rápido e eficiente, além de estabelecer um Programa de Mitigação de Interferência Urbana que prevê, abordar assuntos como saúde, higiene e segurança no Programa de Educação Ambiental junto à comunidade para situações agudas de acidentes. Tais medidas não parecem suficientes para atender as novas necessidades de saúde – condições agudas que demandam serviços de emergência, e tratamento de doenças crônico-degenerativas, entre elas neoplasias, que requerem estruturação de serviços de maior complexidade.
● Já há uma fábrica de celulose em Guaíba; os efeitos do incremento à poluição já lançada pela atual fábrica não estão descritos. Não há também referência à necessidade de estabelecimento de um Plano de Vigilância em Saúde Ambiental para monitoramento dos efeitos da poluição na população exposta. Este é outro impacto na rede de atenção à saúde não dimensionado. Diante de tantas evidências dos impactos da indústria de celulose sobre a saúde humana que não foram contempladas na documentação apresentada para estabelecimento do Projeto, propomos que seja incluída na EIA-RIMA uma Avaliação de Impacto à Saúde (AIS).
Segundo a Organização Mundial de Saúde, a Avaliação de Impacto à Saúde é uma metodologia que engloba a identificação, predição e avaliação das esperadas mudanças nos riscos (podendo ser tanto negativas como positivas, individual ou coletivas), causadas por uma política, um programa, um plano ou projetos de desenvolvimento em uma população definida.
A inclusão de uma Avaliação de Impacto à Saúde (AIS) é um complemento necessário neste projeto porque o licenciamento ambiental padrão (o EIA/RIMA) frequentemente deixa lacunas críticas sobre a saúde humana: Enquanto o EIA foca em “o que sai da chaminé” (se a emissão cumpre a lei), a AIS foca em “quem respira a fumaça” (se as pessoas vão adoecer, mesmo com a emissão dentro da lei).
A legislação ambiental define limites de emissão, mas uma fábrica pode estar 100% legal e, ainda assim, causar danos à saúde. Os limites legais muitas vezes são médias generalistas que não consideram a sinergia entre poluentes (o “coquetel químico”) ou as condições climáticas locais (como a inversão térmica no inverno do RS, que prende a poluição no nível do solo). A AIS avalia o risco biológico real, não apenas a burocracia do número.
O odor crônico (TRS) não é somente um “cheiro ruim” – gera estresse, ansiedade, insônia e náuseas. A saúde, pela definição da OMS, é o “completo bem-estar físico, mental e social”, não apenas a ausência de doença. A AIS quantifica esse impacto na qualidade de vida e saúde mental da comunidade vizinha.
Além disso, o licenciamento ambiental trata a população como homogênea. Uma concentração de material particulado (MP2,5) que não afeta um adulto saudável pode ser gatilho para crise de asma em uma criança ou Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica em um idoso. A AIS identifica quem vive na direção do vento (pluma de dispersão). Se houver escolas, hospitais ou bairros de baixa renda (que já têm saúde precária) nessa zona, a fábrica precisa propor medidas de proteção extras.
A Avaliação de Impacto à Saúde atua como uma ferramenta preventiva e de transparência fundamental, pois conecta os dados técnicos de engenharia — como emissões atmosféricas e efluentes líquidos — diretamente aos desfechos na vida humana, permitindo identificar riscos invisíveis no licenciamento ambiental comum.
Ao simular cenários de exposição, a AIS obriga o empreendedor a adotar as Melhores Tecnologias Disponíveis” (BAT) para reduzir a carga tóxica como a substituição do cloro no branqueamento antes mesmo da construção, garantindo uma operação menos poluente. Simultaneamente, ela traduz a complexidade química em informações acessíveis sobre morbidade e qualidade de vida, empoderando a comunidade local para que participe das audiências públicas não apenas com base no medo ou na promessa de empregos, mas com conhecimento científico claro para negociar contrapartidas, exigir monitoramento contínuo e decidir sobre a aceitabilidade do projeto com autonomia real.
* Assinam este documento pelo coletivo Medicina em Alerta
Helena Barreto dos Santos, Médica Internista CREMERS- 18044,
Porto Alegre, nove horas da manhã do dia 30 de março de 2026. No “coração” do Centro – que já foi histórico em tempos passados, e limpo -, em um trecho de cerca de 500 metros, entre as ruas General Câmara e Senhor dos Passos, existem mais de 50 imóveis comerciais de porta de rua fechados, a maioria com placas de aluga-se.
Só na Rua da Praia são 30. Eram 45 vazios no ano passado, mas notei novos ‘xing lings’ na Andradas.
Se estender a caminhada pela avenida Independência, da Santa Casa até a Ramiro Barcelos, dá para acrescentar mais uns 15 imóveis de calçada com as cortinas cerradas. Isso, sem contar os inúmeros imóveis comerciais e residenciais vazios nos prédios, andares acima.
Soube que vários escritórios de advocacia debandaram na região. Fato que abalou cafés, bares e restaurantes. Um Centro desabitado e pouco frequentado se torna um risco para a segurança da população e do patrimônio.
Na Borges, mais imóveis fechados e a restauração do viaduto Otávio Rocha é um suspiro de alívio.
Enfim, o salvador da pátria do Centro, o bravo Mercado Público, que garante o maior movimento, com ou sem goteiras. Ah, e o charmoso Chalé da Praça XV, com seu entorno sinistro.
O Centro desta pequena cidade grande, como dizia Mário Quintana, carece de muito mais atenção.
A grande imprensa nunca confiou em Leonel Brizola.
– Se reconhecesse nele, enquanto vivo, metade do que lhe atribuiu enquanto morto…presidente da República é o mínimo que ele teria sido, escreveu PC de Lester após a morte do líder trabalhista.
Na verdade, enquanto ele viveu, e mesmo nos últimos anos quando já era uma figura histórica, recebeu um tratamento hostil, quase sempre.
Brizola foi eleito prefeito de Porto Alegre e governador do Estado enfrentando cerrada oposição da imprensa conservadora, tendo à frente o poderoso Correio do Povo, de Breno Caldas.
Sua política pioneira de reforma agrária foi torpedeada por furiosos editoriais, as encampações de telefonia e energia idem.
Mesmo em 1961, na Legalidade, tão decantada, ele teve que tomar à força com a Brigada Militar os transmissores da Rádio Guaíba para organizar a rede com que resistiu ao golpe.
Em 1964, quando era deputado federal e não tinha, portanto, a polícia militar às suas ordens, ele nada conseguiu fazer. Os meios de comunicação faziam parte do golpe.
Nos anos em que Brizola viveu no exílio, a imprensa zelosamente o esqueceu. Luis Fernando Veríssimo é testemunha do zelo dos editores em não deixar o nome de Brizola ser nem citado de passagem em crônica.
Quando ele retornou do exílio, decretou-se que ele era caudilho, dinossauro, apegado a ideias do passado. Foi ridicularizado quando perdeu a sigla do PTB para Ivete Vargas numa manobra do governo, hoje revelada.
No Rio de Janeiro, teve a oposição sistemática da Rede Globo, antes e depois de eleito, duas vezes. Na campanha presidencial de 1989, então, nem se fala. Mesmo assim, ele perdeu para Lula por 0,04% dos votos. Hoje, todos sabemos que ele teria vencido o Collor.
Vinte anos depois da morte de Brizola, Juliana, sua neta, ex-deputada estadual e candidata a prefeita de Porto Alegre pelo PDT, tenta minar a polarização entre as candidaturas de Sebastião Melo (MDB/PL) e Maria do Rosário (PT/PSol).
As eleições no Rio Grande do Sul, às vezes, surpreendem. Houve casos em que os candidatos que ocupavam a terceira posição em todas as pesquisas foram eleitos.
Pedetistas históricos reconhecem que é uma tarefa difícil. Juliana não reuniu forças com os partidos de esquerda e buscou coligação com o União Brasil, antigo DEM e PSL, portanto, de direita. Pegou mal.
Alguns torceram o nariz também com a mudança das cores do partido nesta campanha eleitoral – do vermelho, azul e branco para o amarelo e azul -, e com o sumiço da rosa vermelha sustentada pela mão esquerda de um trabalhista.
– Deve ser coisa de marqueteiro, sugeriu um brizolista ferrenho.
A rosa vermelha era símbolo do PDT desde sua fundação, marca da social-democracia pelo mundo e da Internacional Socialista, criado pelo francês Didier Motchane, e da qual Brizola foi seu presidente.
A marca do PDT já havia sido repaginada em 2022, durante a campanha eleitoral de Ciro Gomes, quando acrescentaram o verde e o amarelo nas folhas da flor, uma referência à bandeira do Brasil. E agora, sumiu.
Mas, quis o destino que o trabalhismo raiz despertasse na cidade em que Brizola passou a infância e começo da juventude: Passo Fundo. O ex-prefeito Aírton Dipp – trabalhista histórico, como foi seu pai, Daniel Dipp, também ex-prefeito na década de 1950 – quer voltar a administrar aquela cidade do norte gaúcho de 215 mil habitantes.
Pesquisas internas das legendas indicam que, neste momento, há uma ligeira vantagem do atual prefeito, Pedro Almeida, do PSD. Estariam tecnicamente empatados.
Jornalistas locais não arriscam um vencedor e concordam que a disputa é acirrada. O prefeito tem uma coligação com vários partidos e a máquina pública a seu favor, porque a legislação eleitoral não obriga deixar o cargo para concorrer à reeleição municipal. Dipp tem a memória de quem aprovou suas gestões e realizações e o apoio da maioria dos servidores públicos municipais, segundo alguns comunicadores.
A coligação “Sim, Passo Fundo pode mais” tem vinte dias para convencer os eleitores de que o administrador Almeida não merece um novo mandato. Nada impossível para quem venceu três eleições que disputou para prefeito.
Por ironia, o candidato do PL de Bolsonaro, o advogado Marcio Patussi, pode acabar ajudando os trabalhistas caso “roube” eleitores do prefeito.
Engenheiro civil como o ex-governador, prestes a completar 74 anos, Aírton Dipp é a última trincheira de Leonel Brizola.
Após vinte anos de trabalho na vigilância epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre, auxiliando na publicação do Boletim Epidemiológico das Doenças Transmissíveis do município, o qual registra toda a história da Dengue na cidade, me pergunto o porquê de a testagem rápida da dengue ainda não ser valorizada na orientação ágil em ações de controle ambiental, além de ser uma definição diagnóstica clínica rápida?
Com a identificação do vetor Aedes Aegypti em 2001 e dos primeiros casos autóctones em maio de 2010, uma importante discussão na Capital foi trabalhar na agilidade de ações ambientais direcionadas à presença do vetor e da circulação do vírus, principalmente.
Os objetivos eram usar o inseticida de forma que não gerasse resistência e não agredisse muito o ambiente, pois ele elimina também outros insetos, e conseguir chegar o mais rápido possível na área para impedir a transmissão, através de diagnósticos rápidos de casos suspeitos de Dengue, agilizados com a compra de testes tipo Ns1(antígeno Dengue), realizados no início dos sintomas e com alta especificidade. Além disso, foram distribuídas armadilhas em pontos com maior prevalência de casos e vetores para detectar o vírus já no vetor, agindo antes mesmo de ter casos em humanos.
Apesar de todas essas ações, ocorreram três grandes surtos (2013, 2016 e 2019) e duas epidemias 2022 e 2023 com mais de 5 mil casos confirmados em cada ano, descritos no Plano Municipal de Contingência Dengue, Zika e Chikungunya de 2023. O subtipo viral nos surtos foi o DENV1 e o DENV 2 em 2023.
Hoje, o município se encontra no nível 2 de alerta, com 455 casos, segundo a Secretaria Estadual de Saúde no painel de casos de Dengue, e está com 85 agentes de endemias, segundo o mesmo site, que, com certeza, possuem mais condições de trabalho agora que nos momentos de pandemia do COVID de 2020 a 2023.
Sabemos da complexidade de controle de doenças transmissíveis, especialmente as que se relacionam ao meio ambiente e determinantes sociais em saúde. Por essa razão, todos os fatores que possam auxiliar nesse momento devem ser disponibilizados, como a testagem rápida para Dengue.
O Ministério da Saúde do Brasil aderiu a essa tecnologia e a disponibilizará, conforme noticiou o jornal Zero Hora, em 13/3/2024. Portanto, cabe às secretarias Estadual e Municipal de Saúde a utilizar, visando não só um diagnóstico precoce de casos, mas uma celeridade nas ações de controle dos vetores, primordial sempre neste agravo.
Pense comigo, se ao procurar um serviço de saúde com sintomas de Dengue, o diagnóstico fosse em 20 minutos, com todos os cuidados clínicos e demais exames realizados naquele momento, você certamente se cuidaria melhor e ao chegar em casa revisaria todo o ambiente, eliminando prováveis criadouros do mosquito e logo receberia o agente da dengue para auxiliar no controle ambiental da sua região. Portanto, a testagem rápida, além de agilizar o procedimento clínico, balizaria um rápido manejo ambiental.
O momento é crítico não só no Brasil, mas em todo mundo, frente à pandemia. O isolamento tem afetado a saúde mental de toda a população, impreterivelmente. E a terceira idade é a mais vulnerável, o que pode desencadear muitas repercussões psíquicas negativas.
Nas últimas décadas, houve um crescente incentivo a esta parcela da população para que saísse de suas casas, frequentasse grupos de idosos, fosse fazer atividades que lhe desse prazer. Os idosos sentiram o gosto deste protagonismo e a liberdade proporcionada, aprenderam a se valorizar e a viver de uma forma mais plena. Eis que chega este vírus e a orientação agora é que fiquem em casa.
As relações sociais, que sempre foram fatores protetivos a sua saúde mental, agora são restritas a ligações e a vídeo chamadas, na sua maioria.
Eles estão sofrendo com estas restrições. Seus direitos de ir e vir foram tolhidos. A saudade que eles estão dos familiares, dos amigos e, principalmente, dos netos faz o peito apertar. Sentem falta do toque, dos abraços e beijos.
Muitas famílias se fazem presentes da forma que conseguem, porém denúncias à delegacia do idoso mostram que há filhos usando a desculpa do coronavírus para abandonarem seus pais.
Com a proximidade do Dia das Mães e a orientação para manter-se o distanciamento social, as famílias têm ficado indecisas sobre como proceder nesse dia. Essa é uma data muito especial, quando são celebrados e demonstrados afetos pela sua matriarca. Mas, infelizmente, um dos desafios mais dolorosos da quarentena é ficar distante de pessoas queridas, sem podermos tocar, abraçar e beijar.
Neste momento, precisamos ser responsáveis e conscientes de não colocarmos a nós e nem os nossos em risco. Este período irá passar e depois estaremos todos juntos novamente. Sua mãe, ou qualquer outro familiar idoso, precisa sentir-se amparado emocionalmente e sentir que os vínculos afetivos estão fortalecidos.
O distanciamento que a quarentena nos impõe é físico, mas ele não precisa ser emocional.
Existem diversas formas de demonstrar o carinho que sentimos por nossa mãe, o mais importante é que ela possa ter a certeza deste sentimento. Muitas vezes deixamos de dizer para as pessoas o quanto elas são importantes para nós, pois deduzimos que elas já saibam. Será mesmo? Nunca é demais um ‘eu te amo’, ou demonstrar gratidão por tudo que a sua mãe lhe proporcionou.
A quarentena está sendo um tempo de nos reinventarmos em vários aspectos da vida, e essa data comemorativa às mães não será diferente. Teremos que ser criativos para que essas pessoas tão especiais nas nossas vidas possam sentir-se valorizadas e amadas.
Algumas dicas para surpreender sua mãe:
Programe um café ou almoço por vídeo-chamada, assim conseguirão compartilhar deste tempo juntos;
Prepare um vídeo com fotos de momentos que passaram juntos, ela poderá matar sua saudade;
Deixe flores, presente ou mesmo uma sexta de café na manhã na sua porta;
Escreva uma cartilha para sua mãe, demonstrando todo carinho que sente por ela.
É importante termos em mente que este período difícil irá passar, e cada um fazendo a sua parte, prevenindo-se, sairemos mais exitosos.
Nem todas as pessoas possuem recursos internos de enfrentamento para a situação, ajuda profissional pode se fazer necessária. Se você perceber que seu familiar idoso está com dificuldades de adaptação e enfrentamento, busque um auxílio profissional especializado, ninguém precisa sofrer sozinho.
Lidiane Klein é psicóloga, especialista em Neuropsicologia, mestre em Psicologia e Saúde, doutoranda em Ciências da Reabilitação.
Estou em quarentena na Espanha desde o dia 15 de março. Passamos por várias etapas, desde a descrença inicial nas previsões feitas por especialistas da área de epidemiologia que previam um alto índice de contaminação, a ansiedade que vem junto com as incertezas e até o desespero ao ver o número de mortes chegar a quase mil pessoas (961) em um único dia. Mil pessoas por dia na Espanha, um país que tem uma população de pouco mais de 47,1 milhões habitantes (dados Instituto Nacional de Estadísticas – INE, 2019).
Até o dia 24 de abril, dos 114.879 casos encerrados, 92.355 (80%) se recuperaram da doença e 22.524 (22 %) faleceram (dados do Ministério de Saúde da Espanha). Especialistas chamam a atenção para o fato de que as cifras oficiais podem não ser exatas em função da falta de conhecimento do total de pessoas contagiadas e que não apresentaram sintomas, ou que os tiveram muito leves, de maneira a não entrarem nas estatísticas. Na realidade, alguns prognósticos indicam que entre 5 a 6 milhões de pessoas poderiam estar afetadas, o que significaria aproximadamente 15% da população espanhola.
Bom lembrar que entre os contagiados se encontram 34.355 trabalhadores da área da saúde, que estão na linha de frente na luta contra o Covid-19 e mais expostos ao contágio.
A comunidade de Madri, com 60.487 casos e 7.765 mortos é o principal foco da pandemia aqui na Espanha, junto com a Catalunha, que apresenta 44.892 contagiados e 4.393 mortos.
Lembrando que Madrid é a cidade mais densamente povoada da Espanha e recebeu neste último mês de fevereiro aproximadamente 518.261 turistas estrangeiros, ou seja, grande número de pessoas circulando. O que acontece então?
Aqui, é prática comum a cremação dos falecidos. No dia 27 de março faleceram 322 pessoas na cidade de Madri e os noticiários do país informavam que suas funerárias estavam transladando os corpos para outras cidades para acelerar a cremação, pois não davam conta do grande número de falecidos, que totalizava 2.412 até então.
Passaram a receber mais de 300 falecidos por dia, sendo que em períodos fora da epidemia eram 70. Então, para evitar que as famílias tivessem que esperar muitos dias para se despedir de seus familiares, as funerárias decidiram optar por transportá-los a outros centros.
Esse problema também aconteceu na Itália, na cidade de Bérgamo, considerado um dos principais pontos da contaminação na região da Lombardia.
Então, sim, a doença é muito séria, mata muita gente num período muito reduzido de tempo, trazendo vários problemas para os hospitais, todos trabalhando acima da sua capacidade de atendimento, as casas de anciões com altos índices de contaminação e mortos, e funerárias abarrotadas.
O pico da contaminação neste país chegou no dia 02 de abril, com 961 novas mortes, totalizando 112.065 pessoas contaminadas e 10.348 mortos pelo Covid-19. A partir desse dia, e depois do governo ter estabelecido medidas restritivas mais severas, proibindo totalmente que se saísse às ruas para qualquer coisa que não fosse supermercado e farmácias, começamos a perceber algumas mudanças nos dados. Antes, era permitido passear com os cachorros, mas sempre com o controle e fiscalização da polícia. Alguns cidadãos foram pegos saindo várias vezes ao dia com animais, evidentemente quando a polícia conseguia identificar esse tipo de fraude, multava imediatamente.
Permitida compras de produtos apenas de primeira necessidade. Fotos: Josy Matos
No entanto, quando a curva de contaminação começou a cair, percebi as pessoas mais relaxadas, a maioria ainda usando máscaras e luvas, mas já não tão atentas ao distanciamento. Estão confiantes de que a crise sanitária acabe. Mas, parece que a coisa ainda vai longe.
De qualquer maneira, adquiri alguns hábitos que vou mantê-los como lavar toda a comida quando voltar do supermercado. As latinhas de cerveja não escapam do banho antes de irem para a geladeira! Também foi recomendado passar álcool nas embalagens ou lavá-las com água e sabão.
No dia 22 de abril, os noticiários traziam a informação de que Álex Pastor, o prefeito da cidade de Badalona, província de Barcelona, foi preso depois de ter sido interceptado por policiais num controle de confinamento. Segundo informações dos principais jornais do país, o prefeito apresentava sinais de embriaguez e ainda enfrentou os policias, tentando intimidá-los. Resultado? Preso e multado, e suspenso pelo seu partido, o Partit dels Socialistes de Catalunya (PSC), que pediu a ele que renunciasse.
Josy, em isolamento em casa
No Brasil, vejo o presidente do país constantemente furando o isolamento, frequentando lugares públicos, apertando as mãos de todos que vê pela frente e, o mais absurdo de tudo, participando de manifestações públicas contra a quarentena e a favor da volta da ditadura. Como diz meu irmão César, a cada dia mais apavorado com o que vê nas ruas de Curitiba: esse homem não respeita nada, não respeita a vida de ninguém! Pois é!
Aqui, na Europa, estamos na primavera e neste período inicia a colheita de diversos produtos agrícolas, como hortaliças e frutos vermelhos. Até agora, o setor agrícola não parou, sendo uma das atividades permitidas durante a quarentena, mas diminui muito a velocidade das colheitas em função da necessidade de distanciamento entre os trabalhadores. Essa precaução deve ser observada tanto no transporte dos mesmos como nas atividades de campo.
Segundo informações do Ministério de Agricultura, Pesca e Alimentação, a Espanha necessitaria entre 100 mil e 150 mil trabalhadores para a colheita que deveria começar nas próximas semanas. Diversos países da Europa, como Espanha e Alemanha, importam trabalhadores rurais nesse período. Com as fronteiras fechadas e a proibição de deslocamentos dentro do país e entre países, começa o problema.
A região de Murcia, por exemplo, que fica aqui ao lado de Alicante, deve começar a campanha de colheita de damasco, nectarinas e pêssegos e, em seguida, de melões e melancias. Esse trabalho geralmente é realizado por mão de obra local, mas as pessoas estão impossibilitadas de sair por não ter onde deixar os filhos e por medo do contágio.
Outras regiões do país que trabalham basicamente com mão-de-obra estrangeira tiveram grandes dificuldades com o fechamento das fronteiras. Além das colheitas, neste período também inicia a tosa das ovelhas (retirar a lã), atividade que era desenvolvida por profissionais búlgaros, neste momento impedidos de se deslocar. Uma das alternativas propostas é a incorporação de trabalhadores de outras áreas, como a hotelaria, que perderam seus empregos com a crise do coronavírus e que vivem próximo às zonas de colheita.
Alguns dias atrás foi aprovado o plano do governo espanhol com as últimas medidas que preveem a escalada de retorno às atividades. Um dos principais pontos que vinha sendo discutido durante a semana é a autorização da saída de crianças para um passeio diário. A partir deste domingo, dia 26, está permitida a saída de crianças até 14 anos, acompanhados de um adulto responsável com no máximo três crianças. Poderão sair uma vez ao dia e permanecer durante uma hora, com uma distância máxima de um quilômetro da sua residência. Embora esteja permitida a saída inclusive com brinquedos, não poderão frequentar os parques infantis que aqui são bem comuns em várias partes da cidade. Os adolescentes, entre 15 e 18 anos, agora poderão sair para as compras permitidas, ou seja, supermercados e farmácias. Serão seis milhões de crianças que voltam a ocupar as ruas do país, com todas as medidas de segurança recomendadas pelas autoridades.
Desde o último domingo, as crianças podem sair para rua acompanhadas de adultos mas as pracinhas públicas continuam fechadas.
Na tentativa de encontrar soluções que permitam à sociedade voltar às suas rotinas diárias, vários centros de pesquisas estão tentando desenvolver testes, medicamentos e vacinas que ajudem a combater o Covid-19. Nessa luta, a Espanha, que igual a muitos países, também havia diminuído a verba destinada à pesquisa no país, agora está tendo que correr atrás do prejuízo. E, como sempre, os cientistas não se fazem de rogados e rapidamente se puseram a trabalhar para encontrar uma saída.
Esta semana, uma pesquisa do Instituto de Saúde Carlos III sobre a transmissão do Covid_19 na Espanha concluiu que o vírus entrou no país até por quinze vias diferentes e já estava tendo transmissão comunitária perto de 14 de fevereiro, descartando a existência de um paciente zero. Lembramos que apenas no dia 15 de fevereiro apareceram os primeiros infectados no país. A pesquisa, realizada pelos doutores Francisco Díez e María Iglesias, analisou 28 primeiros genomas completos do vírus sequenciado na Espanha e confirma múltiplas entradas de pessoas infectadas pelo vírus, vindas de outros países durante o mês de fevereiro. Os autores também afirmam que o novo vírus tem um grande potencial de transmissão, que se deve principalmente à sua alta capacidade de reprodução. Quando penetra no corpo de uma pessoa, o vírus se reproduz até 100 mil vezes em 24 horas.
Com essa capacidade de multiplicação dá bem para imaginar a facilidade de contágio e a grande quantidade de pessoas que podem ser contagiadas por um único portador do vírus.
Na sexta-feira, dia 24, a Espanha registrava a mais baixa cifra de mortes em um mês, 367 personas perderam a vida pelo coronavírus em um dia. O confinamento foi prorrogado até o dia 09 de maio e se espera um retorno às atividades de forma escalonada.
Enquanto isso, vejo que no Brasil estão abrindo shoppings e, pior, o povo ansioso para passear e fazer compras!
* Josy é bióloga, doutora em Biodiversidade e Conservação Ambiental. Museu de Ciências Naturais/SEMA-RS.
Logo após a Páscoa, o governo espanhol liberou algumas atividades, como centros médicos, clínicas veterinárias, profissionais de eletricidades, encanamento, construção, etc, mas manteve a proibição de funcionamento de várias outras, mesmo atividades esportivas como caminhar ou correr. É estranho, porque apesar da ansiedade, parece que tudo está normal.
No isolamento, nossos dias não têm de ser iguais. Acredito que nos acostumamos a tudo, até a coisas ruins. No começo, a gente grita, chora, esperneia. Depois, vamos nos conformando com o inevitável, o irremediável, como se uma voz interior te dissesse: Olha, não tem jeito, vai ter que ser assim mesmo!
É difícil. Eu, por exemplo, sou das antigas, gosto de olhar nos olhos ao conversar. Mas você se acostuma a não ter com quem falar ou a simplesmente mandar uns watts, com frases rápidas, tentando passar uma mensagem que, às vezes, o outro não entende. Assim como nos acostumamos a sentir dor, a sentir fome, desprezo, a não ser nada mais que um grão de areia numa praia infinita.
Meu dia a dia é bem simples e tranquilo nesta quarentena. Acho que o que não tem remédio, remediado está. E, não é conformismo, mas consciência de que se não posso mudar uma situação, tenho que me adaptar. A minha profissão de bióloga ajudou a perceber, desde o princípio, que a coisa não ia bem e que este isolamento iria longe. O que todos os meus colegas e amigos de profissão daqui da Europa concordaram. Ainda não havia começado o isolamento no Brasil e, aqui, já se falava que estaríamos vivenciando a pior situação mundial desde a segunda e última grande guerra.
Josy com algumas de suas plantas na sacada de casa em Alicante, buscando adaptação no isolamento. Fotos: Arquivo pessoal
Mas, como dizia, minha rotina tem sido tranquila. Levanto lá pelas 7h30, 8h, tomo café, vejo as notícias da manhã, com atualização dos dados sobre a pandemia, depois faço entre uma e duas horas de exercícios acompanhando uma série de vídeos na internet da espanhola Patry Jordan, que me fornecem aquilo que preciso para manter um mínimo de atividades físicas. Muitos amigos também estão tentando manter uma rotina de exercícios físicos, uma das recomendações dos médicos para aliviar a tensão. E cuido das minhas plantas.
Outros elaboram uma receita nova todos os dias de algum prato que ainda não tinham provado.
Após o banho, pego o computador e trabalho até a noite, com algumas paradas para comer. Assim, vou até por volta das 21h, quando paro para ver alguma série ou filme.
Devo fazer um parêntesis aqui para dizer o quanto a internet ajuda neste momento de isolamento. Ter sites onde a gente pode ver filmes, ouvir música e acompanhar as “lives” de todo tipo de assuntos, desde músicos, cursos, política, etc, é um privilégio e um grande alívio para o coração. Vídeos de museus, como o Museo del Prado, que eu adoro e tantos outros onde temos informações sobre as obras aí expostas, é fantástico. Também é bom lembrarmos da possibilidade do trabalho remoto (homework) e do ensino à distância.
Aqui na Espanha isso ficou bem nítido com as Universidades que mantiveram o ritmo de aulas on line, trabalhos e exames realizados neste período. Na verdade, a internet já era uma muito utilizada aqui para a educação e a Universidade fornece ferramentas e auxílio, tanto a professores como a alunos, no processo de uso dessas tecnologias.
Alguns dias antes da quarentena nós tínhamos realizado alguns vídeos curtos sobre Botânica, os quais chamamos de ViBos (Vídeos Botânicos), para auxiliar o aprendizado de temas que envolvem plantas. Muito bem avaliados pelos alunos, agora fazem parte do conteúdo das aulas de botânica. Mais recentemente, um dos professores do grupo de WhatsApp que temos, formado por membros do Grupo de Botânica Vegetal da Universidade de Alicante, começou um movimento de colocar fotos de plantas que encontrava pelo caminho quando levava seu cachorro para passear. Logo alguém teve a ideia de começar a compartilhar essas fotos no perfil do Tweeter BotCov_UA, @botcove, e do Instagram, botanica_ua. Mais uma fonte de informação sobre a botânica local, criada durante a quarentena.
Videoconferência com colegas da Universidade.
E quando você vê já passou mais um dia, mais uma semana de isolamento. As últimas notícias são boas, os números de infectados e mortes têm diminuído consideravelmente, mas ainda estamos em estado de alerta.
Também estamos muito sensíveis e com a certeza que essa situação vai deixar cicatrizes. Percebi entre as pessoas com quem tenho conversado no meio virtual que a obrigação de ficarmos em casa fez com que tornássemos introspectivos e questionadores do que realmente importa em nossas vidas.
Notaram a grande capacidade que temos de compartilhar? É uma necessidade. Acho que isso nos faz sentir mais próximo um dos outros, que fazemos parte de algo maior, de algo bom. Aí, os grupos de watts que sempre silenciamos e criticamos, agora são ótimos! Queremos colocar algo ali para ver os comentários dos demais e gerar mais diálogos.
Mas não é só isso, compartilhamos muito mais coisas além dos memes, vídeos de informações ou de piadas, compartilhamos nosso tempo, comida, salários, gastos da crise, enfim, estamos socializando mais, nos solidarizando mais. A empatia, considerada um dos pilares da inteligência emocional, tão falada em cursos de gestão de pessoas, agora tem sido notada em muitos lares. Até porque todos foram afetados de alguma maneira e precisamos encontrar no outro um apoio para manter nossas mentes sanas.
E por falar em solidariedade, quero lembrar os aplausos diários dirigidos aos sanitários que, na Espanha, acontecem às 20h. Essa prática começou na Itália, em seguida do início da quarentena em 9 de março. Se convoca as pessoas que estão recolhidas em suas casas a saírem nas janelas, sacadas, enfim, onde for possível, para aplaudir o pessoal sanitário que trabalha para conter a pandemia. Na Espanha, a convocação veio através das redes sociais para o dia 14 de março às 22h, mas no dia seguinte se adiantou para as 20h para que as crianças pudessem participar, e a partir daí não parou mais. Mas não é um evento exclusivo da Espanha, acontece em diversas partes do mundo e de várias formas, e geralmente são aplausos, às vezes algum vizinho coloca alguma das músicas que se destacaram nesses momentos de isolamento por inspirar resistência para vencer as dificuldades.
Umas dessas músicas cantadas em muitos balcões foi Bella Ciao, música italiana de resistência antifascista dos anos 1943/45. Essa música foi tema da série espanhola La Casa de Papel, inicialmente produzida pela Televisión Española (TVE) e posteriormente comprada pela Netflix, foi bastante disseminada e posteriormente servido de hino em diversas manifestações populares. Hoje, na minha rua, aplaudimos com o som de Color Esperanza, de Diego Torres.
…Sé que lo imposible se puede lograr Que la tristeza algún día se irá Y así será la vida cambia y cambiará Sentirás que el alma vuela Por cantar una vez más…
Foi emocionante, as pessoas aplaudem, acenam, cantam, enfim, todos que saem para aplaudir têm o mesmo sentimento no coração, de esperança! Às vezes passam ambulâncias ou caminhões dos bombeiros com as sirenes ligadas nesse horário. Os aplausos também se fazem em homenagem aos integrantes dos corpos de segurança, como policiais e bombeiros, que estão trabalhando intensamente nestes dias.
Servidor de empresa contrata pela prefeitura higienizar paradas de ônibus e outros locais.
Na primeira semana da quarentena já surgiram várias iniciativas de artistas de todo o mundo para apoiar e fortalecer as necessárias ações de isolamento social. Uma dessas iniciativas partiu da rede de rádios Cadena 100, que reuniu vários artistas conhecidos e gravou uma versão da música Resistiré para arrecadar fundos para a instituição Cáritas. Essa música que foi lançada no ano 1988 e mais tarde utilizada como tema do filme Átame!, de Pedro Almodóvar (1990) se tornando bastante conhecido. Assim, quando começou o isolamento algumas pessoas começaram a cantá-la no evento das 20h nas janelas e sacadas, se tornando mais um hino de resistência nestes momentos de quarentena.
…Resistiré, para seguir viviendo Soportaré los golpes y jamás me rendiré Y aunque los sueños se me rompan en pedazos Resistiré, resistiré Cuando el mundo pierda toda magia Cuando mi enemigo sea yo Cuando me apuñale la nostalgia Y no reconozca ni mi voz…
O outro lado dos aplausos nas sacadas é ocupado pelo pessoal da saúde, médicos, enfermeiros, assistentes, pessoas que estão na linha de frente da luta para vencermos o Covid-19. Pudemos ver nas redes sociais vídeos onde o pessoal de saúde aparece com mensagens de incentivo e de esperança para as pessoas que estão fazendo a quarentena e também para os trabalhadores de segurança, policiais e bombeiros. As mensagens vêm de várias formas, mas geralmente eles saem pelos corredores dos hospitais, evidentemente vestidos com sua indumentária hospitalar, aplaudindo, cantando músicas ou em filas onde cada pessoa leva um cartaz que ao final forma uma frase de agradecimento ou de incentivo.
Em Alicante, população pode ir às compras, mas somente de produtos essenciais.
No dia 17 de abril, na Espanha continuava o descenso nos números de Covid-19, tendo reduzido o número de mortos à metade daquele do início do mês: 503 mortos e 4.289 novos casos. Alguns hospitais de campanha, construídos para enfrentar a crise, já estão vazios e os poucos pacientes que ainda restavam foram transferidos para centros hospitalares.
O governo planeja ir liberando a população para o trabalho de forma escalonada para evitar que o pico de contaminação volte a crescer. No meio de tudo isso temos uma falsa sensação de normalidade. Mas já não sabemos o que é normal neste novo mundo que aqui começa a renascer depois de tanto medo. Mudaremos nossa maneira de ser, nosso comportamento diante da nossa vida e das pessoas que fazem parte dela, ou logo teremos esquecido estes dias de incertezas, de dor e de promessas e voltaremos a ser o que sempre fomos.
* Josy é bióloga, doutora em Biodiversidade e Conservação Ambiental. Museu de Ciências Naturais/SEMA-RS.
O caminho que me trouxe até Alicante, na Espanha, no dia 28 de janeiro de 2019, começou muito antes, quando terminei o mestrado em 2000 e recebi uma bolsa destinada a estudantes latino-americanos para fazer o doutorado na Universidade de Alicante. Entre idas e vindas, fiquei oito anos. Retornei ao Brasil e passei no concurso da Fundação Zoobotânica do RS, em Porto Alegre. Depois de um desastrado governo gaúcho, que extinguiu a FZB, decidi retornar a Alicante para fazer um pós-doutorado junto ao Grupo de Pesquisa em Botânica e Conservação Vegetal na mesma universidade. Minha pesquisa trata da diversidade genética e conservação de cactos do RS.
Início do isolamento voluntário em março. Fotos: Arquivo pessoal
Aqui tenho muitos amigos, então a adaptação sempre é bem fácil. Mas o mais difícil de estar aqui é a distância dos meus filhos, Eduardo e Elis. Eduardo veio passar as férias comigo e voltou ao Brasil no dia 16 de fevereiro, quando o Covid-19 estava começando a aparecer por aqui, com dois casos registrados na Espanha. Um mês depois, foi decretado o confinamento obrigatório e assim começou esta fase tão difícil da nossa história.
No dia 12 de março de 2020 decidi entrar em isolamento voluntário. Nesse dia, fui ao fisioterapeuta, Andrés, para tratar o meu quadril. Conversamos sobre o coronavírus e os tempos difíceis que ainda estavam por vir. Ele me disse que fechariam a clínica e só atenderiam emergências, mas que isso ainda dependia das medidas que o governo tomaria.
Depois fui à universidade, cheguei tarde, passava das 13h e quase todos já tinham saído para almoçar. Benito, meu orientador, estava lá, organizando algumas coisas porque achava que a partir de segunda a universidade fecharia. Conversamos um pouco e eu lhe disse que não voltaria à uni nos próximos dias, que entraria em isolamento voluntário, ao que ele concordou comigo. “Não se preocupe, Josy, na segunda-feira a universidade provavelmente vai fechar”.
Depois disso, fui para a casa, passei pelo supermercado, comprei algumas coisas pensando em ficar uma semana enclausurada. À noite, conversei com minha colega de apartamento, Ariana, e concordamos que o isolamento seria o melhor a fazer nessa situação. Ela me disse: tenho que ir à uni amanhã, mas vou trazer tudo que necessito para trabalhar em casa. Ariana está fazendo um doutorado com moscas, está na fase final da tese.
Naqueles primeiros dias, nada estava claro, sabíamos apenas que a China estava com um número grande de pessoas contagiadas pelo covid-19. Pelos registros chineses, em 22 de janeiro, havia 571 contaminados e, quase dois meses depois, em 12 de março, eram 80.813 casos e 3.176 mortos. A epidemia tinha tomado proporções assustadoras.
Na Espanha os casos começaram em 15 de fevereiro. Eu estava viajando com meu filho Eduardo, que veio passar umas férias comigo. Estivemos em Roma primeiro, depois Edimburgo, Glasgow e Londres, e voltamos à Alicante.
Na Itália, já se falava em contaminados no início de fevereiro, mas o foco era Milano e não ficamos preocupados. Em Londres, comecei a tossir mas como não tive febre, deduzimos que era um simples resfriado. No dia 3 de março, faleceu a primeira pessoa na Espanha e dez dias depois, quando entrei na quarentena, já eram 133 mortos.
O governo espanhol já estava discutindo as medidas de prevenção e, dia 15, no domingo, o presidente do governo socialista, Pedro Sanchez, informou em rede nacional que adotariam a quarentena. Já eram 7.988 infectados. A partir daí, estava proibido sair às ruas, exceto para ir ao supermercado e farmácia. Autorizados a sair somente para trabalhar em atividades de primeiras necessidades.
Nesse momento você pensa: agora vai ficar tudo bem, daqui uns dias voltará tudo ao normal. Mas as cosias nunca funcionam como nós pensamos e a vida ficou mais difícil. No começo é tudo piada, o mundo foi invadido por memes e charges de como enfrentar uma quarentena. Tudo ainda era muito leve, mas os dias vão passando e as notícias só pioram, mais contaminados, mais mortes, mais incertezas.
Daí, vêm os momentos de angústia, de pensar na vida que foi e na vida que virá. Mas, na primeira semana de confinamento, ainda havia muitas controvérsias e incertezas.
É impressionante como neste momento em que o mundo consegue produzir mais informações sobre qualquer assunto e colocá-las à disposição do público de diferentes maneiras, especialmente com a ajuda da internet, surgem tantas informações falsas e tantos “sábios de plantão”. Todos entendem de todos os assuntos. Blogueiros que sabem mais que cientistas, políticos sabem mais do que professores, e, obviamente, qualquer um sabe mais do que os médicos. Esses “espertos” divulgam suas teorias sobre a doença, a origem do vírus e, é claro, as teorias de conspiração, para todos os gostos.
Depois da primeira semana, e mesmo acompanhando o processo na China, onde o vírus começou a se espalhar, a única certeza era que os números seguiriam crescendo. Começam a faltar equipamentos de proteção individual (EPIs) para o pessoal sanitário utilizar, que seriam as máscaras, luvas e roupas hospitalares. Assim, começam a aparecer também os primeiros sanitários contaminados, enfermeiros, médicos, auxiliares e o pessoal de limpeza dos hospitais.
O governo tenta desesperadamente comprar mais EPIs e respiradouros, mas esbarra na falta de material no mercado, subida absurda dos preços e exigência de pagamento adiantado, isso sem falar nas fraudes. A Espanha comprou kits de testes rápidos que prometiam 80% de certeza na detecção do vírus e, ao serem testados, se viu que a precisão era de 30%. Esse material foi devolvido, mas o tempo perdido não se recupera. Pessoas inescrupulosas tentando ganhar dinheiro a qualquer custo, e o custo, neste momento, é a vida de milhares.
Por outro lado, vimos também diversas pessoas trabalhando como voluntários para auxiliar os sanitários a conter o vírus, pessoas ajudando a anciões que não tinham quem os ajudasse, empresários produzindo álcool em gel, máscaras, respiradouros, luvas, alguns famosos doando dinheiro para comprar equipamentos, lojas de esportes doando todas as máscaras de mergulho que poderiam ser adaptadas como respiradouros, etc. Solidariedade ainda existe.
Enquanto assistia e lia o que outros países estavam fazendo para enfrentar esta crise sanitária, todos considerando o isolamento social extremamente necessário para se evitar novas contaminações e mais mortes, no Brasil, o abominável presidente tentando colocar o país no caos e chamando o trabalhador para ir às ruas e voltar a trabalhar, alegando que o vírus era uma “gripezinha”. Assistimos as primeiras carreatas em algumas capitais brasileiras sob o lema “O Brasil não pode parar”. Pode e deve!
Felizmente, apesar da pressão vinda do Planalto, muitos governadores e prefeitos adotaram o isolamento atendendo, pelo menos em parte, as recomendações de cientistas.
Entrando na terceira semana de isolamento na Espanha, em 31 de março, com novas regras mais restritivas. Nesse dia, o número de mortes caiu para 748 e o número de novos casos registrados diariamente também caiu, de 7.846 (dia 30/03) para 6.461 (31/03).
No entanto, o maior número de mortos se deu no dia 02 de abril, quando chegamos a atingir 961 mortes, sendo este considerado o pico da quarentena na Espanha. Quando isso acontece, a emoção toma conta, o sentimento é de impotência diante de tanto sofrimento. E a solidariedade se torna imprescindível para continuarmos vivendo. Como me disse uma amiga chilena, Marta, nesse dia: já virá a primavera esperada!
Alicante, Espanha . Arquivo pessoal
Após a Páscoa, depois que se firmasse a queda nos números de novas contaminações (3.804) e mortos (603), a Espanha liberou o funcionamento dos estabelecimentos de comida para entrega, de serviços como eletricidade, encanamento, centros médicos, etc. E o governo já estuda como realizar o retorno às atividades de uma maneira segura.
E com a esperança de que esse novo mundo que vamos iniciar seja mais igualitário e as relações mais humanitárias!
* Bióloga, doutora em Biodiversidade e Conservação Ambiental. Museu de Ciências Naturais/SEMA-RS.
Nos últimos dias, a ciência voltou a ter protagonismo. No nosso tempo de vida, nunca havíamos presenciado a proliferação de termos científicos. Passamos a conviver com funções exponenciais, achatamento de curvas, “erre zeros”, testes PCR, supressão e mitigação, horizontalidade e verticalidade. Universidades voltaram ao cenário.
Nesta era de oniciência social, cientistas agora têm voz. No nosso Estado, temos recebido grandes contribuições de nossas universidades para vencermos este grande desafio global, com ampla utilização de soluções propostas em parcerias com empresas, governos locais e hospitais, o que muito nos orgulha.
O fato que levou a esta valorização extemporânea da ciência foi a pandemia de Covid-19. E muito deste protagonismo deve-se à popularização das projeções epidemiológicas. Os modelos mais divulgados são os modelos desenvolvidos pelo professor Neil Ferguson, que orientam decisões de diversos países, tornando-se conhecidos como “os modelos do Imperial College”.
Para os leigos, modelos epidemiológicos são áridas construções matemáticas. No entanto, esses modelos matemáticos têm sido extremamente úteis, orientando ações estratégicas e políticas nas pandemias recentes de H1N1 e zika, bem como na epidemia de ebola.
Este conhecimento prévio e os resultados obtidos no enfrentamento a pandemias construíram a credibilidade do grupo de pesquisa de Ferguson, grupo formado anteriormente por Roy Anderson e Robert May, que modelaram a pandemia de aids, entre muitos outros estudos. Antes, por essa universidade, passaram H.G. Wells, o pai da ficção científica, Alexander Fleming, que nos trouxe os antibióticos e Dennis Gabor, que criou a hologrofia utilizada em inúmeras aplicações.
Felizmente, as nossas universidades voltaram a ser citadas e a ter protagonismo. Se hoje são essenciais no enfrentamento à pandemia, no passado recente suas pesquisas incrementaram a nossa produção agropecuária, construíram parques tecnológicos e hospitais que hoje são referências no enfrentamento à pandemia.
Finalmente: o título da coluna é lema da universidade inglesa – a ciência protege o império; aqui, a ciência protege o Estado. Como ex-aluno da Ufrgs e do Imperial College, percebemos o quanto a valorizar a ciência protege a sociedade e nos valoriza como seres humanos.