“Coleções da Zoobotânica estarão disponíveis no site da SEMA”

Cleber Dioni Tentardini e Tiago Baltz
Dois anos atrás, o então chefe da Casa Civil do governo do Estado, Márcio Biolchi, enviou à Assembleia Legislativa o projeto de Lei (PL) 300, com pedido de urgência para votação. Previa a extinção de três fundações: Zoobotânica (FZB), Esporte e Lazer (Fundergs) e Produção e Pesquisa em Saúde (Fepps). O objetivo era “tornar a gestão mais moderna e eficiente”. O PL 300 não vingou e foi substituído.
Naquela equipe de Biolchi – deputado federal eleito pelo PMDB e atual o secretário estadual de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia -, havia um engenheiro agrônomo, precisamente no Departamento de Assuntos Municipais da Casa Civil que, um ano depois, seria nomeado presidente de uma das fundações que planejara fechar.
Luiz Fernando de Oliveira Branco, 58 anos, natural de Lagoa Vermelha, no norte do Estado. É formado na Universidade de Pelotas (1983), com curso de pós-graduação em Comunicação Social pela Universidade de Passo Fundo. Trabalhou por 15 anos na Emater, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural, e 12 anos como assessor da bancada do PMDB no Parlamento gaúcho.
Separado, duas filhas, uma estudante de Direito em Porto Alegre, outra residente em Passo Fundo. Branco costuma passar os finais de semana em sua propriedade rural no norte do Estado, onde planta, cria gado de corte e ovelhas, ele recebeu o jornal JÁ para falar sobre sua gestão, que completa um ano à frente da FZB.
Esta entrevista para o especial Patrimônio Ameaçado, uma série de reportagens sobre a Zoobotânica, foi adiada ao menos quatro vezes ao longo de 2016 e teve mais uma tentativa frustrada, por telefone, neste 2017. “É que nosso assessor de imprensa foi transferido e temos muito trabalho aqui, mas queremos dar total transparência neste processo de transição administrativa para a Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMA)”, justifica.
Passava das 10h30 da segunda-feira, 07, quando ele recebeu os jornalistas em sua sala, com chimarrão novo na mão e um semblante aparentemente tranquilo, após meia hora de reunião com oito representantes da Associação dos Funcionários da FZB.
JÁ: Qual foi a sua primeira impressão ao assumir a presidência da FZB?
Luiz Fernando Branco: Quando vim pra cá, em 29 de julho de 2016, não considerei um convite e, sim, uma missão que o governo tinha me delegado. Eu iria pra qualquer trabalho, sou leal ao governo. Mas como sou agrônomo, de família de agricultores, com experiência na Emater e na comissão de agricultura da Assembleia, o governador entendeu de me indicar ao cargo porque sou ambientalista por natureza. Às vezes, o agricultor é mal entendido, quando corta uma árvore, quando faz uma roçada, mas ele é o maior interessado no meio ambiente, precisa da terra, da água para tirar sua subsistência.
Houve exageros no passado. Mas, hoje, tudo o que a ciência trouxe, o plantio direto é uma coisa fantástica. No plantio convencional, segundo a Emater, se perdia até 40 toneladas por hectares ano. Hoje, não se chega a 40 quilos. Pelo advindo do plantio direto, quando se vê rios embarrados, aquilo lá é fruto das águas escorrendo das estradas, e não das lavouras.
Como a extinção da FZB poderia modernizar a gestão ambiental?
Hoje mesmo estava falando com a Associação dos Servidores. Nós precisamos ter um trabalho integrado. Nós somos uma engrenagem no governo do Estado, temos que estar juntos com as outras instituições, universidades, secretarias.
Temos que ter planejamentos por semestre. Chegamos a um denominador comum, aquilo que propus aos servidores. Por exemplo, estamos fazendo um levantamento patrimonial, atualizando o patrimônio. Tem coisas que precisa vender, descartar, repassar serviços, ou atualizar. Comprar alguma coisa. Estamos fazendo isso.
O processo de extinção nada mais é que um arranjo administrativo. É um processo de transformação. Vamos virar um departamento da Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMA). O Jardim Botânico vai continuar com suas atividades, todas elas. O museu vai continuar.
E o Zoológico?
Bem, o Governo do Estado fez um edital, contratou uma empresa para fazer uma modelagem das concessões de estradas no RS e se incluiu o Parque Zoológico. Dentro do processo de transparência, informamos tudo a KPMG, o consórcio que está fazendo a modelagem do edital. Quando tiverem uma proposta, vamos ter uma rodada de negociação com a Secretaria-Geral de Governo. Depois tem todo o processo na SEMA, com audiências públicas, todo o trâmite legal. Para daí sair um edital e habilitar uma empresa para futura concessão. A concessão do Zoo do Rio de Janeiro é um exemplo para nós.
A demissão de funcionários não ameaça o patrimônio, como manter as coleções sem os especialistas?
Mediante o parecer da Procuradoria Geral do Estado (PGE), vai haver um enxugamento de pessoal. Porque não vai precisar da mesma estrutura. Alguns servidores tem estabilidade, outros não, mas isso depende de uma decisão judicial.
Agora, como não houve entendimento do Governo com sindicatos, estão discutindo no TRT. Que está sendo o moderador. Não cabe a mim, aqui, decidir quem vai ser demitido. Essa é uma questão do Governo.
Qual o número de servidores com estabilidade na FZB?
Isso é uma decisão da PGE, cabe a eles dizer.

Coleções: “Com a digitalização, quem quiser saber algo do Museu vai poder acessar no site”

Há intenção de transferir as coleções do Museu de Ciências Naturais e do Jardim Botânico?
Não, muito pelo contrário. Tudo, com exceção do Zoo, será mantido pela SEMA. Temos, por exemplo, um processo de digitalização de tudo aqui, quem quiser saber algo do Museu, da nossa biblioteca, vai conseguir ver em um site.
Já estamos com estagiários da FDRH pra fazer o levantamento inicial. Depois, devemos contratar uma empresa para completar a digitalização das coleções. A intenção é melhorar. Não existe isso de retirar atividades.
Mas há ações na Justiça, movidas pelo Ministério Público, que apontam precarização do trabalho, restrições aos pesquisadores para saídas a campo, cortes de diárias.
Não. Nada. Mantemos tudo. E é bom explicar. Ao virar um departamento da SEMA, devemos acabar com sombreamentos. Hoje, temos um departamento de recursos humanos, aqui, e um na SEMA. Vai passa a ser um único. Tem um jurídico aqui, com um advogado, tem outro advogado na SEMA. Eles passarão a trabalhar juntos, var ser mais eficiente.
O JB está melhor, restauramos o palco multiuso, temos um projeto de ampliação do estacionamento. Já fizemos a revitalização de uma praça infantil. E temos um projeto pra fazer um restaurante panorâmico no antigo orquidário, que hoje está abandonado. Vamos fazer uma concessão pra esse restaurante panorâmico. O orçamento existente é pra manter os serviços.
E qual é o orçamento da FZB?
Importante que se diga que todas as nossas contas estão em dia, não temos dívidas com fornecedores. Nosso orçamento está em dia, dentro de um amparo legal e por determinação do governador, temos total transparência nisso.
A FZB tem uma folha de pagamento de R$ 14,6 milhões. Com os encargos, somam R$ 22 milhões. São 191 funcionários. O custeio, que envolve energia elétrica, água, diárias, etc, gira em torno de R$ 5,5 milhões. O custo total da FZB fica em R$ 28 milhões.
Por que uma das principais atrações do museu, o serpentário, está fechado?
Estava funcionando muito bem, mas houve o caso do arrombamento. Até hoje ocorre o processo de investigação. Aquilo foi uma tentativa de furto, soltura, sei lá.
Mas um segurança não resolveria?
É uma sala vulnerável, não foi construída com essa finalidade, foi adaptada. As serpentes continuam aqui, mas não vou abrir enquanto não tiver segurança total. Um alarme, câmeras de segurança. Fechar uma das duas portas, que é de vidro, vulnerável. Se não fizer isso, não vou reabrir ao público. Decisão minha.
Quanto precisa para instalar um sistema de segurança?
Em torno de R$ 7 mil, com videomonitoramento. Alarme e câmeras. Não tenho recurso hoje pra isso. Há um decreto em vigor que restringe algumas compras de bens duráveis. E o nosso orçamento não comporta esses investimentos.
E aquele convênio da FZB para o envio do veneno das serpentes ao Vital Brazil, no Rio de Janeiro? Não vai ser renovado?
Ele está vencido, e ainda estamos em tratativas. O problema era que não havia nenhuma contrapartida para nós. Mandávamos o veneno e pronto. A FZB tem um custo para manter as serpentes. Repassava a peçonha para o Vital Brazil, que faz o soro e vende para o Ministério da Saúde, mas nós não recebemos nada. E isso eu questiono. Enquanto não houver esse acerto, não vai mais peçonha para o Rio.
Quando a SEMA assumir, podemos rever nossos acordos. Agora, estamos com as mãos amarradas. Eu tenho esforço para manter tudo, mas não posso avançar em algumas coisas. Temos que elaborar novos contratos. Vender a peçonha, acertar um valor justo com o Vital Brazil. Tem o Butantã interessado. Até o comércio exterior tem interesse na peçonha.
Serpentário: “Futuro será definido depois que a SEMA assumir”

Quanto a FZB arrecada como contrapartida aos serviços prestados a outras instituições? O convênio com o DAER (Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem), por exemplo, para os pareceres paleontológicos?
Nada. Eu até disse para o diretor geral do DAER, que é meu amigo. O DAER faz estradas com duas vias, uma que vai e outra que vem. Mas aqui fizemos contrato com contrapartida zero. E por que aceito isso? Porque estou assinando com uma entidade do Estado, porque somos uma engrenagem do governo. É a questão de pensar em conjunto. Uma integração. A modernização na gestão e no pensar que eu já falei.
Não querendo criticar a Corag, por exemplo. E isso é uma queixa que eu tenho. Diz que dá lucro. Mas quem paga a Corag somos nós, os outros órgãos. Somente ano passado, as nossas despesas com a Corag foram de R$ 30 mil. Qualquer ato de governo, de qualquer autarquia. Porque são só eles que definem o preço. Tem que dar lucro.
E a FZB não cobra das empresas privadas? Aquele estudo grande que teve para a Braskem, por exemplo.
Para empresas privadas nós cobramos. Em 2016, arrecadamos com consultorias R$ 630 mil. Fizemos os estudos para os novos parques eólicos da Eletrosul em Santa Vitória do Palmar. Mas, de instituições do Estado, Como no caso do DAER, não tem porque cobrar da coirmã.
Quanto deve aumentar no orçamento do próximo ano?
Estamos trabalhando com o mesmo orçamento para o ano que vem. Acho que vamos conseguir manter.
Voltando à questão do Zoológico, quando vai se definir a situação?
A KPMG vai entregar a modelagem do edital em outubro, imagino que o governo vai colocar logo em seguida o edital na rua. Nossa parte agora é apenas fornecer informações a essa empresa, de tudo que arrecadamos e gastamos.
O Zoo presta importantes serviços à sociedade, gratuitos, como o Cetas. Serão mantidos?
Todos os serviços estão mantidos. Estamos fazendo coisas inéditas lá, é bom deixar claro. Estamos fazendo reintegração de posse. Tirando invasores de lá. Já retiramos quatro moradias e já temos autorização para reintegração de outras oito. Vamos fazer mais. Mas não depende de nós derrubarmos as casas. Isso depende da Justiça.
Se refere à Reserva Florestal Padre Balduíno Rambo? Sabem quantas famílias vivem lá?
Só os cadastrados são 510. Mas é mais. Só que a realocação deles não é um problema nosso.
Qual a área total do reserva com o Zoo?
De matrícula são 820 hectares. É uma área só – um aparte do Zoo, que é cercada, e o resto do Horto. Mas é tudo da FZB. O problema é que temos bairros totalmente consolidados, pela própria prefeitura de São Leopoldo. Mas é terreno da FZB.
Discutimos na Justiça com a prefeitura de São Leopoldo – porque a ocupação no local é uma invasão. E eles nos cobram a taxa da coleta de lixo. Mas a prefeitura está ilegal, porque concedeu linha de ônibus, alvará, dentro de uma área que é nossa.
Fala-se no interesse da Unisinos em ocupar a área do Horto, fala-se no interesse do governo do Estado em ceder a área para um polo farmacêutico de empresas alemãs, cuja a instalação seria financiada pelo Badesul. Há alguma tratativa em andamento sobre isso?
Interesse tem, mas não posso falar pelo Governo do Estado. Da nossa parte, de fato, aqui não tem nada. Mas estamos fazendo a regulamentação fundiária da área.
Existem coisas confusas, temos uma matricula em Sapucaia e outra com o registro de São Leopoldo, da mesma área. Duas matriculas. Estamos regularizando, já fizemos o georreferenciamento da área.
Essa área aqui ao lado, no JB, utilizada pela Fepam, é da FZB?
É da FZB, mas tem um termo de cedência em vigência. A Fepam ainda não devolveu. São 2,3 hectares me parece. A área está sendo descontaminada porque era usada por laboratórios da Fepam.
A UERGS (Universidade Estadual) manifestou interesse em ocupar o local?
A reitora da Uergs já nos visitou e demonstrou interesse, mas não há nada oficial. Acho que seria uma boa a doação para Universidade construir ali sua reitoria, mas é uma decisão de governo.
Para finalizar, por que o governador ainda não visitou a Fundação Zoobotânica? Seria uma boa convidá-lo a plantar uma árvore, como fizeram seus antecessores, Ildo Meneghetti, Leonel Brizola, Antônio Britto…
Estamos planejando atividades para comemorar os 59 anos do Jardim Botânico, aberto ao público em 10 de setembro de 1958. Não posso adiantar as atrações que pretendemos trazer, porque também depende de recursos, mas certamente serão convidadas as autoridades do governo do Estado.

Projeto Ciência na Praça fascina adultos e crianças no Jardim Botânico

cleber dioni tentardini
“Eu quero fazer experiência”, repetia Luiz Felipe Plentz da Costa, de seis anos, logo depois de olhar no microscópio. O aluno da escolinha João Paulo I, estava agitado, nem quis muito papo com o repórter. Cruzou como uma flecha em direção aos anfíbios. “Ah, ele também ficou impressionado com os sapos, queria brincar com eles”, afirmou a mãe, a veterinária Bianca Plentz.

O pequeno Luiz quis até colocar luva

Surpresa, curiosidade, medo, um pouco de cada um desses sentimentos estava estampado no rosto e nos gestos do garoto Luiz. Assim como nos das outras crianças, no dos seus pais, tios e avós, visitantes do “Ciência na Praça”, num domingo de sol e céu azul, perfeito para um passeio seguido de piquenique no Jardim Botânico de Porto Alegre. É o que muitos planejaram neste dia 6, depois de visitarem pela manhã a exposição ao ar livre do acervo do Museu de Ciências Naturais, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul.
Os peixes chamam atenção do público

Os pesquisadores transportaram uma pequena mostra dos acervos para a rua. Havia plantas, fungos, algas, peixes, pássaros, sapos, aranhas, escorpiões, insetos dos mais variados e duas dezenas de mamíferos empalhados. Alguns era possível tocar, com luvas, outros estavam mergulhados em soluções químicas. Fósseis de animais pre-históricos, moldes em gesso de moluscos, minúsculos e gigantes. Espaço para criançada pintar, cartazes e banners educativos sobre a flora e fauna nativa do Estado.
Garotada confere animais da pre-história

Meninada se divertiu com as pinturas

 
Os irmãos João Vitor e Lívia Nunes, de nove e seis anos, foram com os pais e ao serem avisados na entrada do Jardim Botânico, mudaram o rumo do passeio direto para o evento. “Ele adorou os pássaros, disse a mãe do João Vitor.


O Bruno Garcia, de dois anos, mostrava à mãe, a arquiteta Bianca, estar encantado com as cobras. Eles dividiam o espaço com o João Cunha e seu pai, o engenheiro José da Cunha, junto aos repteis. “Moro praticamente ao lado, no Petrópolis, e nunca tinha vindo aqui, um absurdo”, confessou José.



O Vitor Ramada, de oito anos, despertou o interesse pelos cogumelos. A Ana Clara Nahler, de nove anos, ficou admirada com o tubarão martelo e as aves. Laura Nunes, 73, e o seu genro, Iro Antoniazzi, mostravam admiração com todo o Jardim Botânico, que não visitavam ha 40 anos.


A bióloga Vera Werner, umas das pesquisadoras mais experientes no MCN/FZB, estava tao empolgada quanto as crianças que pintavam sob a sua supervisão. “É gratificante ver que estamos de alguma forma passando todo esse conhecimento adiante”, disse.
Acervo de plantas /Rosana Senna

A exposição foi ate cinco da tarde. Os pesquisadores das diversas áreas contaram com a ajuda dos universitários bolsistas para divulgar o trabalho realizado no Museu e no JB e popularizar o conhecimento científico. O próximo projeto Ciência na Praça deve repetir outras edições, que foram realizadas na Redenção e, notadamente, atingirá um público bem maior.

 




Gurizada na cinquentona figueira

 
 
 

Serpentário fechado e sem convênio ameaça produção de soro antiofídico

 Cleber Dioni Tentardini e Tiago Baltz
O serpentário do Museu de Ciências Naturais, uma das principais atrações para o público visitante do Jardim Botânico de Porto Alegre, está fechado há mais de seis meses e não há previsão de reabrir.
Também foi suspenso o envio de veneno das serpentes ao Instituto Vital Brazil, no Rio de Janeiro, porque a Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (FZB/RS) não renovou o convênio com o laboratório carioca, o que pode comprometer a produção de soro antiofídico para o Ministério da Saúde, que redistribui aos hospitais do Estado.
O serpentário integra o Núcleo Regional de Ofiologia de Porto Alegre (NOPA/MCN-FZB) e está com a visitação suspensa desde 18 de janeiro deste ano, após uma tentativa de arrombamento, até agora não esclarecida.
Segundo o coordenador de Educação Ambiental da FZB/RS, Sérgio Bavaresco, a área com capacidade para abrigar 15 serpentes vivas não oferece segurança aos visitantes e aos animais. “Só reabrirá depois da implantação de um sistema de segurança, com câmeras de vigilância e alarmes”, disse.
No lugar das serpentes usualmente à mostra, há somente os abrigos vazios.
Não está sendo permitida a exposição das serpentes nem na Ciência na Praça, evento realizado periodicamente para divulgar o trabalho de pesquisa no Museu e popularizar o conhecimento científico. O próximo está marcado para este domingo, dia 6, das 10h às 16h, no estacionamento do Jardim Botânico.

Espaço de visitação pública pode abrigar 15 serpentes

Em janeiro, foi danificada uma das portas do serpentário. Foi arrombada a porta mas as grades de ferro impediram a entrada, então foram jogadas pedras contra o abrigo das serpentes, que não foram atingidas. A vigilância armada, de uma empresa terceirizada, nada viu.
Porta ainda não foi substituída

O local permanece fechado desde então, e sequer foi limpo. Nem a porta danificada foi trocada. E o pior, não há previsão no orçamento para a reforma e colocação do sistema de segurança.
Pedras arremessadas contra o serpentário ainda estão no local

Abastecimento comprometido
A interdição do serpentário é apenas um dos problemas do NOPA. Com o convênio entre a FZB e o Instituto Vital Brazil vencido desde o início do ano, está suspenso o envio de veneno das serpentes nativas gaúchas ao laboratório carioca, que produz o soro antiofídico para o Ministério da Saúde e este redistribui aos hospitais do Estado.
A parceria entre FZB e IVB foi firmada em setembro de 2009 e previa, além da remessa de peçonha, um acordo de cooperação técnico-científica permitindo o intercâmbio entre técnicos, bolsistas e pesquisadores das duas instituições.
A reportagem tentou contato com o presidente da FZB/RS, mas sua assessoria informou que só poderia conversar com a reportagem do jornal JÁ na próxima segunda-feira.
Sem previsão de o convênio ser retomado, o abastecimento de soro pode estar comprometido. Hoje, a peçonha recolhida é guardada em geladeiras. A remessa do material ocorria de duas a três vezes por ano, de acordo com a demanda do Vital Brazil.
“Os venenos das cobras mudam de acordo com a espécie e região de incidência. Aqui no RS tem cascavéis com uma concentração maior da substância chamada Crotamina. Essa toxina é um diferencial para produção de soro mais eficaz”, lembra o biólogo Roberto Oliveira.
Extração pública de veneno de serpentes no NOPA/ Fotos Arquivo FZB

O NOPA é o único serpentário do Estado capacitado para realizar extração de peçonha. A Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMA) já cogitou a transferência do acervo vivo para o Vital Brazil. Mas o processo travou por falta de recursos da instituição carioca, que é vinculada ao governo do Rio de Janeiro.
Também, uma decisão judicial impede hoje que a Zoobotânica se desfaça do seu patrimônio e impeça ou prejudique de alguma forma o trabalho dos pesquisadores.
O Museu de Ciências Naturais da FZB mantém desde 1988 o serpentário científico onde são criadas mais de 350 serpentes. Por mês, as cobras consomem mais de mil ratos – a maioria provém de doações, de universidades como PUCRS e UFRGS.
Universitários visitam NOPA. Arquivo FZB

A peçonha é utilizada na produção de soro antiofídico e em diversas pesquisas. São estudadas substâncias ativas nos venenos de serpentes e sua utilização na indústria farmacêutica. Princípios isolados do veneno já têm sido utilizados, por exemplo, na fabricação de remédios reguladores de pressão e em colas biológicas. Estudos têm indicado a possibilidade de sua utilização em remédios para o combate a alguns tipos de câncer e para problemas de coagulação.
Cascavel do NOPA/Divulgação MP/RS

No acervo, há espécies que ocorrem somente no Rio Grande do Sul como a Jararaca-pintada Bothrops pubescens, e outras raras, como a coral pampeana.
Núcleo de Ofiologia de Porto Alegre

A bióloga Acácia Winter, tratadora de animais silvestres do NOPA, alerta que a população pode receber um soro ineficiente para o tratamento dos acidentes que ocorrem em solo gaúcho. “Mesmo que o plantel inteiro seja enviado para outra instituição, em alguns anos esse plantel se perderá sem animais novos oriundos da região, o que torna o soro ineficiente a médio e longo prazos. Por esse e outros motivos nosso plantel possui valor médico incomensurável e não pode ser abandonado”, ressalta.
Soldados Exército recebendo orientações/Foto Daniel Hammes/Divulgação

Curso teórico e prático sobre serpentes a Batalhão Ambiental. Arquivo FZB

 

Coleções do Museu de Ciências Naturais são referências no país e no exterior

Cleber Dioni Tentardin
As coleções científicas do JB e do MCN são consideradas pelos especialistas o maior acervo de material-testemunho da biodiversidade dos ecossistemas terrestres e aquáticos do RS. A coleção de insetos, por exemplo, é considerada a melhor do Estado, com cerca de 400 mil exemplares, e está entre as cinco melhores do Brasil, no que diz respeito à conservação e organização.
São elas: Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém; Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus – INPA, ambas vinculadas ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação; Museu Nacional, que pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro; Museu de Zoologia da USP e Museu de Ciências Naturais, da Fundação Zoobotânica do RS. Estas duas últimas são instituições estaduais.
“As coleções se equivalem pela essência, mas, claro, tem algumas muito antigas, do século 19, como do Museu Nacional (1818), do Goeldi (1861) e da USP, antigo Museu Paulista (1890)”, explica o biólogo Luciano Moura, do Museu de Ciências Naturais.
Luciano é especialista em besouros e divide as atividades com as biólogas Hilda Gastal e Aline Barcellos Prates dos Santos. Os três são curadores da coleção de insetos, cada um responsável por determinados grupos. Ambos respondem pelo Setor de Entomologia, da Seção de Zoologia de Invertebrados do MCN/FZB. Aline e Luciano são taxonomistas, com conhecimento para identificar e descrever novas espécies.

Os pesquisadores e curadores da coleção de insetos acompanham Buckup em visita ao Museu/Cleber Dioni

Hilda trabalha com biomonitoramento, avalia a qualidade de ambientes aquáticos com base nos insetos encontrados. E, seguidamente, participa de feiras de ciências e exposições do museu nas escolas, nas praças e parques.
“Precisamos repassar todo este conhecimento, e não só às crianças, mas aos adultos, que também ficam maravilhados com tudo. Isso fortalece a conscientização ambiental. As pessoas acham, por exemplo, que o louva-deus é venenoso, o que não é verdade, mas acabam matando o animal por desinformação. Confundem cigarra com libélula ou inseto com aquelas listras parecidas com o barbeiro, mas que não causa danos”, explica Hilda, uma das mais antigas da Zoobotânica, com 42 anos de serviço.
Aline é especialista no grupo de insetos chamados de hemípteros, os populares percevejos, fede-fedes, cigarras e barbeiros. Ela ressalta que nenhum museu do mundo conta com especialistas de todos os grupos porque a diversidade é muito grande, sendo que o dos insetos é o maior grupo animal que existe.
Espécie de percevejo

Por isso remetermos material para ser identificado fora do Brasil ou aproveitar o conhecimento de especialistas estrangeiros que visitam a coleção do MCN. Esse intercâmbio é permanente”, completa a pesquisadora.
Aline reitera que o interesse dos estrangeiros em conhecer a coleção de insetos no museu é importante não só pela troca de conhecimento como também pela visibilidade da Fundação.
“Quando os trabalhos são publicados nas revistas científicas, o nome do museu e da Zoobotânica vão estar elencados entre o material examinado, aí a importância de uma coleção. Brecar esse intercâmbio, é retroceder na busca de maior conhecimento da nossa biodiversidade”, adverte. “E o pior é que, além de toda essa fonte de informação ficar inacessível para a comunidade científica, a coleção torna-se obsoleta”, completa.
Arlequim-da-mata, espécie de besouro

Luciano ressalta que o Rio Grande do Sul tem particularidades que atraem muitos pesquisadores de outros estados e países. “É o estado mais meridional do Brasil, com uma diversidade de ambientes, formações vegetais, num espaço relativamente pequeno, o único estado com o bioma Pampa, a região do Espinilho, na Barra do Quaraí, é a única formação savana no Estado, sem falar no clima que é bem diferente. Então, há espécies que só ocorrem aqui”, destaca.
Espécie de besouro Megasoma actaeon, machos (maiores) e fêmeas

Coleção de insetos

Do ponto de vista da infraestrutura, o Museu de Ciências Naturais é uma referência no Brasil, segundo Aline. “Nós temos a melhor estrutura no Estado para abrigarmos coleções, tanto que boa parte dos professores da UFRGS deposita material de estudo no museu”, diz orgulhosa.
Ela lembra que há dois anos receberam uma coleção de insetos de interesse agrícola, do antigo Instituto Borges de Medeiros, que estava na Faculdade de Agronomia. “Essa coleção está sendo recuperada, estamos retirando fungos dos insetos”, afirma.
 
Borboletas papilionídeas da Coleção Mabilde, tombada pelo IPHAN

A pesquisadora entende que as coleções acabam por ser prejudicadas pela falta de cargo de curador na universidade federal. E, entre dar aulas e realizar pesquisas, os professores talvez nem tivessem tempo”.
Dois técnicos dividem as atividades de manutenção da coleção de insetos (controle dos desumidificadores, limpeza de exemplares, confecção de etiquetas, elaboração de planilhas de controle, organização dos laboratórios). Tomaz Aguzzoli, biólogo e técnico agrícola, atende também ao setor das aranhas, escorpiões, ácaros), e a bióloga Caroline Silva, que trabalha com toda a seção da Zoologia de Invertebrados.
Os estudantes também ajudam na conservação das coleções, durante os estágios. Há dois alunos da Biologia da Unilasalle que possuem bolsas de iniciação científica do PIBIC-CNPq, e uma de mestrado, orientada por Aline, na UFRGS.
Retorno institucional
Luciano toca num ponto que comumente é cobrado dos pesquisadores, principalmente os taxonomistas: “Os gestores nos consideram individualistas, reclamam que não damos retorno institucional, mas eles não se dão conta que contribuímos não só com a nossa pesquisa, quando a Fepam exige um laudo técnico da Zoobotânica para o licenciamento ambiental, mas com a infraestrutura, como os equipamentos ópticos adquiridos, que poderá ser aproveitada por gerações”, afirma.
Aline cita os projetos viabilizados pelo CNPq: “Reunimos pesquisadores de invertebrados, especialistas em moluscos, aranhas e insetos, fizemos em 2004 o projeto na Mata Atlântica, em Maquiné, um estudo de invertebrados em copas de árvores, e outro, em 2008, naquelas áreas de arenização do Pampa, em São Francisco de Assis.”
Variação de cores de besouros da Família Chrysomelidae

A pesquisadora ressalta ainda a demanda de trabalhos de pesquisa da SEMA e Fepam, que chegam até a Fundação Zoobotânica, e o apoio que seguidamente o seu setor presta ao Centro de Informações Toxicológicas, sobre os mais variados insetos.
“E tem pessoas que vêm aqui nos trazer insetos porque ficaram assustadas ao encontrar dentro de casa, no berço do filho, então a gente também dá esse retorno imediato”, diz Aline.
Uma vida dedicada à Zoobotânica
Hilda Gastal é uma das funcionárias mais antigas na FZB. É pesquisadora há 42 anos. Ingressou em 1975. Era estagiária em 1969 na entomologia, com as professoras Jocélia Grazia e Miriam Becker. O museu era na avenida Mauá, esquina da Carlos Chagas, onde funcionava também a Fepam. Dali, mudou para o prédio da antiga Mesbla e, da Mesbla, o museu foi transferido para o Jardim Botânico.
Hilda mostra exemplares usados em feiras escolares e em parques/Cleber Dioni

Fez mestrado na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. Estudou uma mosca que parasita o percevejo que, por sua vez, era a praga das plantações de couve. A mosca depositava o ovo em cima do percevejo e a forma jovem se desenvolvia dentro para se alimentar.
Ao retornar ao Rio Grande, Hilda foi contratada pela Fundação Zoobotânica. Entre seus trabalhos, destaca os estudos realizados na Braskem, na época Copesul, onde fez o biomonitoramento de invertebrados aquáticos no Rio Caí e no Arroio Bom Jardim, que recebe efluentes do Polo Petroquímico.
“Meu primeiro e único emprego, uma vida inteira dedicada. Como vou pra casa sabendo que querem acabar com a Fundação, me dá uma tristeza só de pensar nisso”, diz, com lágrimas nos olhos.
“O primeiro dia aqui foi o mais feliz da minha vida”
Aline completou neste mês de julho 15 anos de Zoobotânica. Ingressou via concurso em 2002 e, hoje, concilia as pesquisas no museu com aulas do curso de pós-graduação em Biologia, na Universidade Federal.
Aline identifica novas espécies de percevejos/Cleber Dioni

Teve como orientadora durante toda sua formação a professora Jocélia Grazia, do Departamento de Zoologia da Ufrgs, e servidora do Museu, hoje aposentada. Jocélia, por sua vez, foi discípula do professor Ludwig Buckup, pioneiro da coleção de entomologia e um dos fundadores do MCN.
Aline ingressou em 1982 na Ufrgs, mas mestrado e doutorado concluiu na Universidade Federal do Paraná, que possui curso específico de pós em entomologia. De volta à capital gaúcha, trabalhou na Ong UPAN – União Protetora do Ambiente Natural, de São Leopoldo, como professora substituta na Ufgrs e, em projetos, contratada por uma empresa terceirizada, quando teve a oportunidade de atuar no programa do Pró-Guaíba, de 1998 a 2000. Aí foi aprovada nos concursos da Fepam e FZB em 2001, sendo chamada no ano seguinte.
“Eu posso dizer que o primeiro dia em que subi a lomba do Jardim Botânico, como funcionária concursada, foi o dia mais feliz da minha vida. Porque eu já havia sido chamada para assumir na Fepam, mas não consegui ficar tão feliz como eu imaginava que iria estar na Zoobotânica”, revela. E completa: Temos que achar uma saída para preservar todo este conhecimento acumulado aqui. Ainda mantemos a chama acesa principalmente porque amamos o que fazemos e pelas gerações de estudantes que ainda poderão passar por esta instituição, que tem profissionais dentre os mais preparados no país, assim como as coleções estão entre as melhores.”
Único no Estado habilitado a descrever espécies de besouro
Luciano trabalha com os besouros, que integram a ordem Coleóptera, simplesmente a que possui maior número de espécies dentre todos os seres vivos — cerca de 400 mil. E detalhe: no estado, ele é o único especialista com conhecimento suficiente para descrever espécies novas.
Luciano mostra que a produção científica inclui desenhos fiés das espécies

 
Besouro Macrodontia cervicornis

Apesar de ser o funcionário concursado mais novo dentre os colegas do seu setor – ingressou em 2014 -, há mais de trinta anos desenvolve estudos na Fundação Zoobotânica, primeiro como aluno/bolsista de Iniciação Científica, depois nas pesquisas para os cursos de mestrado na PUCRS e doutorado na Ufrgs. A maior parte de sua formação profissional foi dada pela professora Maria Helena Galileo, que também era pesquisadora da FZB.
“Eu nem imaginava que iria trabalhar com besouros, na verdade, nem pensava em ser biólogo, na minha adolescência eu só queria saber de aviação, mas hoje estou aqui graças aos professores e pesquisadores da Zoobotânica e espero poder ajudar na formação de muitos outros estudantes”, conclui.

Zoobotânica é guardiã da biodiversidade gaúcha, diz professor Buckup

Cleber Dioni Tentardini
Ludwig Buckup, cientista e professor, é um dos idealizadores do então Museu Rio-grandense de Ciências Naturais, a partir de 1955, ao lado do padre jesuíta Balduíno Rambo e do professor Thales de Lema. A Fundação Zoobotânica, a qual está vinculada hoje, só foi criada em 1972.
Iniciou as pesquisas com insetos, passando mais tarde a estudar os crustáceos. Dedicou mais de meio século às pesquisas no Museu e às aulas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Agora, diante da ameaça de fechamento da FZB, tem visitado com mais frequência as coleções que ajudou a enriquecer.
Na quarta-feira, dia 20, acompanhado dos pesquisadores do setor de entomologia do museu, foi surpreendido ao mostrarem- lhe um livro com os apontamentos de Adolfo Pompilio Mabilde, contendo desenhos e a descrição fiel de centenas de borboletas, a maioria coletada no século 19.
“Onde encontraram esse livro”, indagou, impressionado, aos três biólogos e curadores da coleção de insetos, Hilda, Aline e Luciano.

Buckup com o livro de Adolfo Mabilde /Cleber Dioni

Mabilde, da família proprietária de estaleiros em Porto Alegre, deixou junto com o livro 3.458 exemplares de insetos sob a guarda do Museu Júlio de Castilhos, e que hoje, tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), integram a coleção do MCN.
Borboletas do século 19, da coleção Mabilde

Ao folhar a publicação, Buckup observou a importância científica daquela coleção de borboletas, de mais de cem anos, e que pode estar condenada ao esquecimento e ao mofo, diante da possibilidade de demissão dos especialistas e fechamento da Fundação Zoobotânica.
“Além da segurança institucional para todo patrimônio das instituições vinculadas a ela, a Fundação é um ambiente de alta produção intelectual, de técnicos e pesquisadores que passam 20, 25 anos de dedicação acadêmica até se tornarem verdadeiros especialistas. Sem eles, não há o que fazer com as coleções. Dou como exemplo as professoras Miriam Becker e Jocélia Grazia, que passaram pela FZB e orientaram gerações e, sem dúvida, estão entre as cinco maiores especialistas em hemípteros (percevejos) do mundo”, avalia.
Aline, com Buckup, foi aluna de Jocélia Grazia e, hoje, orienta na Ufrgs/Cleber Dioni

A professora Jocélia Grazia iniciou como pesquisadora do Museu em 1966. Descreveu cerca de 180 espécies, sendo que grande parte, depositada no acervo do Museu, é usada como modelo para identificar novas espécies (material-tipo).
“Encerrar as atividades de pesquisa e curadoria da coleção entomológica, com a demissão dos especialistas, representa uma grande perda de patrimônio inestimável”, lamenta. “Paradoxalmente, enquanto o RS planeja enfraquecer as pesquisas científicas, o estado do Paraná recebe com simpatia a proposta apresentada pela UFPR de criação do maior museu de História Natural do país”, conclui.
Buckup confere espécies sob curadoria de Luciano/ Cleber Dioni

Coleção de insetos foi pioneira
Logo que foi criado o Museu Rio-grandense de Ciências Naturais, Buckup doou sua coleção particular de insetos à instituição. Depois, foi autorizado pelo historiador Dante de Laytano a recolher o material zoológico do Museu Júlio de Castilhos.
“Começa aí a formação patrimonial do museu sobre a diversidade biológica do Rio Grande do Sul, que comporta um significado ecológico”, salienta.
Em entrevista publicada no jornal JÁ, em 9 de março deste ano, para a série especial Patrimônio Ameaçado (https://www.jornalja.com.br/extincao-da-zoobotanica-e-vinganca-de-ana-pellini-diz-professor-buckup/), Buckup conta em detalhes como surgiu o museu, a partir da iniciativa do então secretário de Educação e Cultura do governo do general Ernesto Dornelles, José Mariano de Freitas Beck.
Ele era auxiliar do padre Rambo na diretoria de Ciências, e sugeriu que fosse criado um museu para reunir um acervo biológico a fim de realizar pesquisas.
Hilda tem se dedicado ao biomonitoramento e educação ambiental

Por volta de 1966, Miriam Becker e Jocélia Grazia começaram as pesquisas no setor de entomologia do museu. Buckup passou a estudar os crustáceos, por não haver, até então, no museu, especialistas no assunto. Em 1976, a coleção de insetos passou para a responsabilidade de Hilda Gastal e Maria Elisabeth Souza. A partir daí, foram adquiridas várias coleções.

Retiradas famílias de Reserva Florestal da Zoobotânica, em Sapucaia

Cleber Dioni Tentardini
Por determinação judicial, foi cumprida na quinta-feira ação de reintegração de posse em uma pequena área da Reserva Florestal Padre Balduíno Rambo, na divisa entre Sapucaia do Sul e São Leopoldo.
Ainda há vários problemas fundiários na extensa reserva, que fica ao lado do Parque Zoológico, sendo que ambos pertencem à Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul. Calcula-se que cerca de 500 famílias ainda ocupem a região, reconhecida pelo Governo do Estado como área de conservação ambiental através do Decreto 41.891, de 16 de outubro de 2002.
A reserva possui cerca de 780 hectares de campos e floresta, reservados à conservação ambiental, conforme o seu plano de manejo. É uma das maiores, senão a maior, extensão florestal contínua inserida na área urbana na Região Metropolitana de Porto Alegre, com cerca de 450 ha de bosques misto, contendo eucaliptos e mata nativa composta de espécies típicas da bacia do Rio dos Sinos.
 
 

Pesquisadora da FZB encontra fósseis em estrada que terá obras do DAER

Cleber Dioni Tentardini
A pavimentação asfáltica em um trecho de 17 quilômetros da ERS-516, que liga os municípios de Santa Maria e São Martinho da Serra, terá que ser acompanhada por paleontólogo, recomenda o parecer do Museu de Ciências Naturais, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (MCN/FZB).
O documento foi entregue no início deste mês ao Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (DAER), e será protocolado na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (Fepam), junto ao processo de licenciamento ambiental das obras da autarquia previstas no local.

Trecho da estrada com exposição de rochas triássicas da Formação Santa Maria

A paleontóloga Ana Maria Ribeiro, do MCN/FZB, junto com o geólogo do DAER, Vinicius Vasconcellos, percorreram todo o trecho e observaram afloramentos com rochas pertencentes às formações Santa Maria, Botucatu e Caturrita, sendo que nesta última foram encontrados restos de troncos fossilizados. Os materiais foram recolhidos ao Museu, em Porto Alegre.
Formações geológicas remontam ao período em que viveram os dinossauros mais antigos do mundo

“Nessas formações geológicas são encontrados muitos fósseis de plantas e animais de relevância científica mundial”, anotaram os pesquisadores.
Vinicius com um fragmento de tronco fossilizado recolhido ao Museu

Quando foram convocados para realizar a avaliação, em março, os paleontólogos da FZB tinham quase como certa a existência de sítios fossilíferos naquela região, conhecida mundialmente pelas descobertas paleontológicas. Uma das mais importantes dos últimos anos ocorreu justamente ali, na localidade de Água-Negra, e anunciada em 2004 pelos pesquisadores da Universidade de Santa Maria (UFSM) e do Museu Nacional. Trata-se do Unaysaurus tolentinoi, uma nova espécie de dinossauro em território brasileiro e uma das mais primitivas que já andaram pela Terra, há cerca de 225 milhões de anos.
Unaysaurus Tolentinoi, o dino encontrado em São Martinho da Serra

“Aquelas rochas são do Triássico, período em que viveram os dinossauros mais antigos do mundo, entre 215 milhões e 235 milhões de anos, aproximadamente”, explicou Ana Maria.
Os sítios fossilíferos do Rio Grande do Sul são considerados patrimônio cultural do Estado (nº 11738/02 de 13/02/2001) e propriedade da União (Decreto-Lei de 04/03/1942 e os artigos 20, 23 e 24 da Constituição Federal de 1988), e de importância científica para a paleontologia brasileira e mundial.
Restos fósseis do dinossauro Unaysaurus tolentinoi encontrados no sítio

Esse estudo realizado pelo MCN/FZB faz parte de um Termo de Cooperação assinado no início deste ano pelo diretor-geral do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (DAER), Rogério Uberti,  com o presidente da FZB, Luiz Fernando Branco, para agilizar as licenças ambientais de obras na malha rodoviária do Estado.
O Termo, com um ano de duração e prorrogável por mais um ano, prevê que, na eventual localização de sítios paleontológicos, deverá ser feita remoção, catalogação e armazenamento dos materiais. Esses relatórios serão anexados ao Estudo de Impacto Ambiental.
A parceria envolve também técnicos de outras áreas da FZB para a emissão de laudos sobre a flora e a fauna.
“A parceria com a Fundação Zoobotânica vai ao encontro de uma nova postura do departamento e vai nos ajudar a tornar nossas ações mais dinâmicas e eficientes, garantindo a excelência na gestão ambiental de nossas obras”, disse o diretor-geral do DAER, Rogério Uberti, quando da assinatura do acordo.

Estudo avalia algas tóxicas em lagos de praças e parques da Capital

Cleber Dioni Tentardini

Pesquisadores do Museu de Ciências Naturais, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, vem estudando a presença de cianobactérias nos laguinhos de parques e praças de Porto Alegre.
Já foram pesquisados quatro lagos: do Moinhos de Vento (Parcão), dos Pedalinhos (Redenção), das Tartarugas (Jardim Botânico) e da Praça Itália (Praia de Belas).
A atenção é para o fenômeno chamado de floração, que confere às águas coloração (esverdeada, amarelada, avermelhada, marrom), odor e sabor (barro, mofo, peixe, capim), que variam conforme as espécies presentes. Estas florações geralmente formam manchas na superfície da água.
Esses organismos, com características de algas e bactérias, são capazes de indicar se está ocorrendo algum desequilíbrio ambiental. Em ambientes saudáveis, as cianobactérias convivem com outros organismos de modo equilibrado. Mas, se o local está poluído, com aumento da concentração de nutrientes na água, principalmente fósforo e nitrogênio, originados de fezes de animais, de esgotos domésticos e de atividades agrícolas/industriais, elas se multiplicam excessivamente, gerando as florações.
O perigo é que várias espécies são potencialmente tóxicas. Podem provocar a mortandade de peixes e de outros animais, incluindo o homem, que consomem a água e organismos contaminados.
Dentre as cinco categorias de toxinas identificadas até o momento, as hepatotoxinas podem causar morte por hemorragia do fígado, as neurotoxinas podem atacar o sistema nervoso central e provocar morte por parada respiratória, e as dermatotoxinas, que podem provocar irritações no corpo.

A notícia da tragédia / Reprodução

Em fevereiro de 1996, hepatotoxinas produzidas por cianobactérias provocaram a morte de 50 pessoas por insuficiência hepática aguda, das cem em tratamento em uma clínica de hemodiálise em Caruaru, Pernambuco.
A partir dessa tragédia, o Ministério da Saúde tornou obrigatório o monitoramento de cianobactérias por todas as companhias de abastecimento de água do Brasil.
As pesquisas nos lagos dos parques e praças de Porto Alegre começaram em 2008. Em todos, foram identificadas florações de cianobactérias com potenciais tóxicos.
Esses importantes estudos são coordenados pela bióloga Vera Regina Werner, uma das maiores especialistas brasileiras em cianobactérias. Ela orienta estudantes de graduação e pós-graduação na Seção Botânica de Criptógamas, em uma pequena sala no segundo andar do Museu de Ciências Naturais (MCN), na FZB. Vera é co-orientadora dos trabalhos, junto com os professores universitários.
Todos os materiais coletados são devidamente etiquetados e tombados no Herbário Professor Alarich R. H. Schültz (HAS) do MCN-FZBRS.
Vera com as amostras das pesquisas catalogas no herbário do Museu /Fotos Cleber Dioni

Atualmente, a bióloga tem se dedicado a um projeto para ampliar os locais a serem estudados em Porto Alegre e dar continuidade às pesquisas em andamento. O nome é pomposo: Cianobactérias planctônicas de corpos d’água artificiais da cidade de Porto Alegre, com ênfase às espécies formadoras de florações.
“Por se tratar de lagos urbanos, localizados em área de lazer, o conhecimento da diversidade destes organismos é fundamental para subsidiar a correta manutenção desses corpos d’água”, explicou a bióloga.
As pesquisas também abrangem lagos e lagoas na Região Metropolitana, no Litoral e no interior do Estado.
Identificadas 13 espécies no Lago dos Pedalinhos
A bióloga Camila Borges pesquisou em 2008 as cianobactérias no lago dos pedalinhos na Redenção para o trabalho de conclusão do curso, sob orientação da Vera Regina Werner e do professor João Fernando Prado, da UFRGS.
Foram feitas sete coletas, abrangendo as quatro estações do ano, junto à entrada e saída e no centro do lago, onde vivem tartarugas, peixes e aves. A partir da análise de 21 amostras, foram identificadas densas florações e seis espécies de cianobactérias, todas potencialmente tóxicas.
Registro na Redenção foi foi feito em maio de 2008/Divulgação

Além do excremento dos animais, presentes no lago e no minizoo, até então aberto, uma cena muito comum de se ver nos parques são as pessoas jogando alimentos para os peixes e tartarugas. Essas comidas decompõem-se e liberam nitrogênio e fósforo, criando um ambiente propício para as florações de cianobactérias.
Densas florações tóxicas na Praça Itália
A estudante Andressa Adolfo, do 7º Semestre da Biologia da Unisinos, realiza pesquisas com bolsa de Iniciação Científica da FAPERGS (PROBIC). Andressa participa de coletas e análises de amostras obtidas mensalmente no lago da Praça Itália, próximo ao shopping Praia de Belas, onde é comum ver crianças brincando no verão.
Amostra da água esverdeada /Divulgação

 

As coletas, realizadas desde outubro de 2016, mostraram a ocorrência de florações mistas, com espécies potencialmente tóxicas, que podem afetar os neurônios (coordenação motora) e o fígado de animais e ser humano. A água é esverdeada e contêm manchas vistas a olho nu, resultantes da proliferação excessiva de cianobactérias.
 
 
 
 
As amostras já catalogadas

Lago das Tartarugas, no JB, recebia esgoto da vila
Em 2011, orientandos da bióloga Vera Regina Werner registraram a ocorrência de 16 espécies de cianobactérias no fitoplâncton do Lago das Tartarugas, do Jardim Botânico. Em 2013, novos estudos constataram outras nove espécies, num total de 25.
Há anos que a água do lago é constantemente esverdeada, com manchas na superfície, resultantes de densas florações.
Manchas verdes formam uma camada na superfície no lago do Botânico/Cleber Dioni

Foram moradores da Vila Juliano Moreira, antiga colônia agrícola do Hospital Psiquiátrico São Pedro, ao lado do Botânico, que informaram à Vera que o esgoto das casas era indiretamente despejado no lago. Não havia saneamento na vila. Por isso, as florações de cianobactérias permanentes naquele lago nos últimos anos.
Moinho no Parcão reduz florações
Em 2015, foi documentada a ocorrência de 19 espécies de cianobactérias planctônicas no lago do Parque Moinhos de Vento, incluindo florações. Uma pesquisa feita em 1992 identificou 145 espécies de algas, dentre os quais 26 cianobactérias.
Vista parcial com floração no lago do parque Moinhos de Vento /Divulgação

Naquele local, segundo Vera, há o Moinho com uma cascatinha mantendo a água em movimento e isso diminui a concentração de nutrientes que alimentam as cianobactérias, reduzindo as florações.
Ambiente saudável na APA do Ibirapuitã
A bióloga Mariê Mello Cabezudo desenvolveu pesquisas por três anos no Museu de Ciências Naturais, da FZB, com bolsa de iniciação científica da FAPERGS (PROBIC). Aproveitou um trabalho amplo de manejo na Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã, na Região da Campanha, que envolveu várias áreas da Fundação Zoobotânica e começou o primeiro estudo de biodiversidade de cianobactérias naquela área.
As coletas de amostras de água na APA foram feitas nos meses de março e novembro de 2011 e março de 2012. Abrangeu o rio Ibirapuitã, banhado, arroio e lagoa.
Coleta na APA do Ibirapuitã/Divulgação

Mariê e seu trabalho/Cleber Dioni

“Precisávamos conhecer a flora de cianobactérias dos sistemas aquáticos na APA. Os ambientes estavam bem diversificados. Identificamos 28 espécies de cianobactérias, nenhuma floração. Ou seja, não havia desequilíbrio naqueles ambientes”, afirma Mariê.
Agora, está sendo preparado um trabalho científico para submeter à publicação.
Atualmente, Mariê continua trabalhando com cianobactérias no seu Mestrado em Ecologia da UFRGS, sob orientação da Vera e da professora Luciane Crossetti.
 
Cultivo de espécies coletadas na APA do Ibirapuitã

Aluna encontra floração em lago de São Jorge
A estudante Vanessa Didoné, das Ciências Biológicas da Unisinos, é bolsista do CNPq (PIBIC), no MCN/FZB. Coletou no início de 2017 amostras em um lago no município gaúcho de São Jorge, que apelidou de Lago das Garças, devido à grande quantidade dos animais. Com os olhos já treinados por Vera, desconfiou do tom esverdeado da água, com uma camada na superfície de algo parecido com uma nata. Também registrou a proximidade de uma plantação de milho, onde poderiam estar sendo usados fertilizantes.
Floração no município gaúcho de São Jorge/Divulgação

Amostras do lago das Garças, em São Jorge/Cleber Dioni

“As fezes dos animais e a possibilidade de uso de fertilizantes no milharal contribui para aumentar a concentração de nitrogênio e fósforo na água e o aparecimento de floração de cianobactéria”, diz Vanessa.
Local tem grande quantidade de garças/Divulgação

A aluna ajuda Vera a manter o banco de culturas de cianofíceas, aberto em 2005. O processo consiste em isolar cada uma das espécies do material coletado,para análises moleculares, só realizadas fora do Estado. O banco de culturas visa à obtenção de populações para subsidiar outros estudos de interesse sócio-econômico
“Os estudos de cultivo de cianobactérias tem nos permitido realizar pesquisas com sistemática filogenética desse grupo de organismos, que é uma exigência atual nos estudos de diversidade e evolução”, diz Vera, orgulhosa por ver em Vanessa uma futura taxonomista.
Vanessa com as culturas de cianobactérias

Bióloga é referência em pesquisas no Brasil
Há somente cinco pesquisadores em atividade no Brasil com conhecimento suficiente para identificar e descrever espécies novas de cianobactérias, também chamadas algas azuis ou cianofíceas. Vera é uma das referências. Os outros taxonomistas estão em São Paulo.
Pesquisadores da Argentina, do Uruguai e de todo o Brasil seguidamente trocam informações e consultam a bióloga porto-alegrense, que completou no mês de abril 40 anos de trabalhos realizados no Museu de Ciências Naturais da FZB.
Bióloga recebe consultas de todo país

Quando ela ingressou como estagiária e estudante do curso de Ciências Biológicas da PUC, a atual Seção de Botânica de Criptógamas (SBC) ainda era o Núcleo de Vegetais Inferiores (NVI), coordenado pela bióloga Zulanira Meyer Rosa, sua primeira orientadora.
“Lá nas décadas de 70 e 80 a gente já reconhecia na natureza as florações, mas não eram muito estudadas as cianobactérias”, afirma.
A “bíblia”, de Lothar Geitler

Sua grande inspiração foi o livro de Lothar Geitler, de 1932, em alemão, que ela considera a bíblia para os estudos das cianobactérias. Sua descendência alemã ajudou no aprendizado da língua, mas Vera admite que não foi fácil. Recentemente, o tcheco Jirí Komárek escreveu o livro Cyanoprokaryota em três volumes, que representam uma revisão da ‘bíblia’ de Geitler.
“Tem-se que ter muito cuidado porque é um problema de saúde pública. E o pior: as cianobactérias são muito resistentes. Não adianta ferver a água porque elas podem arrebentar e liberar as toxinas na água”, ensina. “E quando atingem o solo, mesmo ali elas sobrevivem, podendo resistir por dezenas de anos em lugares secos. Elas são danadas. Não resta outra alternativa se não investir muito em educação ambiental’, insiste a bióloga.
Hoje, há profissionais habilitados para trabalhar com as cianobactérias nos órgãos responsáveis pela qualidade da água, sendo que muitos foram treinados na Fundação Zoobotânica. Antes, Vera era chamada constantemente. Prefeitos, gestores e técnicos dos departamentos de água sempre recorreram à bióloga em busca de seu conhecimento.
De São Leopoldo, por exemplo, iam técnicos toda semana à Fundação Zoobotânica para receber treinamento. Os custos eram irrisórios.
A bióloga prestou muito auxílio ao DMAE, à Corsan e a companhias municipais de abastecimento de água do interior do Estado, onde havia problemas de florações. Quando não ia coletar, Vera recebia amostras de vários locais, por exemplo, de hospitais e locais de tratamento de hemodiálise. Em muitos casos foram identificados problemas graves no tratamento de esgoto.
Cultivo de espécies encontradas em São Leopoldo, Ulbra e outros

Vera foi chamada em São Jerônimo, quando a água ficou com coloração amarelada, devido à floração da espécie Cylindrospermopsis raciborskii, que tem essa tonalidade. No laguinho do parque de Lajeado ou da Ulbra, a bióloga identificou as espécies responsáveis pelas florações.
Na Lagoa do Violão, em Torres, o tom esverdeado indicava a floração. Vera participou de uma reunião na Prefeitura. “Eu perguntei se tinha algum esgoto sendo lançado na lagoa e um silêncio dominou a reunião, mas, de repente, alguém disse que havia obras com esgotos clandestinos sendo lançados na lagoa”, resume. “Está aí a causa das florações. Basta fechar os esgotos e o problema será resolvido”, explicou.
Amostras do lago no Parque Zoológico

A bióloga diz que soube de casos de animais que tiveram que ser sacrificados naquele município do litoral por terem ficado com problemas graves. “Não cheguei a verificar se tinha a ver com as toxinas, mas uma pessoa pelo menos relatou que o seu cachorro entrava na lagoa com floração”, lembra Vera.
Cisnes com problemas no movimento de uma das patas e com o fígado deteriorado

Num laguinho do Zoológico, em Sapucaia, foram identificadas florações e animais com sintomas que podem estar relacionados às toxinas de cianobactérias.
 
No Guaíba, espécie agressiva
Em 2004, foi identificada floração de cianobactérias no Guaíba, que deu a coloração esverdeada, cheiro e gosto fortes de barro na água, características de Planktothrix, espécies potencialmente tóxicas. Segundo Vera, essas cianobactérias filamentosas, agressivas, são muito comuns no Guaíba durante o verão, porque se desenvolve mais em temperaturas quentes e quando chove menos. Nestas épocas o nível da água diminui, aumenta a concentração de nutrientes, criando o ambiente ideal pra esses organismos proliferarem-se.
O último problema com a água do Guaíba, verificado no ano passado, nada teve a ver com as florações. Vera coletou amostras e verificou que não havia proliferação de cianobactérias.
“Normalmente, se a gente sente cheiros da natureza, terra, mofo, peixe, estão presentes as cianobactérias. Por causa da geosmina, o cheiro liberado na água por esses organismos.”
 
 
 
 
Espécie Planktothrix Planktothricoides, comum no Guaíba

 
Pesquisas reúnem dados sobre as lagoas do litoral
Desde que ingressou na FZB, Vera desenvolve o projeto “Diversidade e distribuição de cianobactérias formadoras de florações, com ênfase às espécies potencialmente tóxicas, em mananciais do estado do Rio Grande do Sul.
Começou as pesquisas nas lagoas da planície costeira. Em sua tese de doutorado, as pesquisas envolveram 33 lagoas da região litorânea, de Torres ao Chuí, incluindo o banhado do Taim e a Lagoa do Peixe.
Mapa das lagoas pesquisadas por Vera em sua tese de doutorado

“Então, na Lagoa dos Quadros, onde tem estação de piscicultura, a gente já observava manchas verdes na superfície da água. Sabíamos que eram florações de cianobactérias, mas ainda não se conhecia o problema das toxinas. Hoje, se sabe que determinadas espécies são tóxicas e perigosas”, observa. A Lagoa dos Patos também apresenta muito problema de floração. Já, no mar, segundo Vera, não tem essa situação. “Aquelas algas com coloração marrom, característica do litoral gaúcho, não são potencialmente tóxicas”, tranquiliza.
Em 2003, o trabalho de mestrado de Mariéllen Martins, pelo Programa de Pós-Graduação em Microbiologia (Unesp/Ibilce), sob orientação do professor Luis Henrique Branco, com a co-orientação de Vera, envolveu áreas da lagoa do Casamento e dos butiazais de Tapes, incluindo arroios, banhados e sangradouros nos municípios de Mostardas, Capivari do Sul, Palmares do Sul, Barra do Ribeiro e Tapes.
Neste estudo foram encontradas várias espécies até então não registradas para o Rio Grande do Sul e algumas até para o Brasil, inclusive, espécies que os pesquisadores não esperavam encontrar nesses locais.
Mariéllen medindo dados abióticos do lago da ULBRA/Divulgação

‘Foi um trabalho importantíssimo, que contribuiu para conhecimento das áreas estudadas, onde vimos a importância de tais ecossistemas e a flora riquíssima encontrada ali, principalmente em regiões de banhados, que já se sabe, e não é de hoje, que são ecossistema ricos em espécies de vários grupos biológicos”, ressalta Mariéllen.
Mapa das lagoas estudadas por Mariéllen

Esse trabalho já rendeu três publicações e está saindo a quarta, todas em revistas científicas reconhecidas.
Surgiu, então, a ideia de reunir as informações das duas grandes pesquisas e lançar um só trabalho, com intuito de divulgação científica de todo conhecimento adquirido ao longo dos anos, não apenas da região da planície costeira, mas do estado do Rio Grande do Sul. Mas é um processo demorado e, portanto, sem previsão de conclusão.
Cartilha orienta população e gestores
Vera produziu uma cartilha a fim de ensinar e alertar a população para tomarem determinados cuidados em locais com floração e orientar os agentes públicos. O título é ‘Cianobactérias: Belas mas, às vezes, perigosas.’
Na cartilha, a bióloga explica que as cianofíceas foram os primeiros organismos produtores de oxigênio, apresentando ao mesmo tempo, características de bactérias e de algas. São seres bastante primitivos, com registros de documentos fósseis de cerca de 3,5 bilhões de anos. Ocorrem tanto na água como em superfícies sólidas, como solo, pedra e árvores.
“Então, a gente faz esses levantamentos e produz relatórios e cartilhas para enviar aos administradores dos parques ou diretamente às prefeituras, como forma de orientá-los”, completa.
Informações gerais 
Quais cianotoxinas elas podem produzir e quais suas consequências?
– Neurotoxinas: atuam no sistema nervoso central, inibindo  transmissão de impulsos à musculatura, provocando a morte por parada respiratória.
– Hepatotoxinas: intoxicações, morte por hemorragia do fígado.
– Dermatotoxinas: problemas na pele, irritante ao contato
Floração em São Jorge, visto ao microscópio

Quais são os sintomas provocados pelas cianotoxinas?
– Alergia, rinite, conjuntivite e dispneia, por inalação
– intoxicações agudas: diarréia, náuseas, febre, vômitos, cólicas. abdominais, anorexia, astenia, hepatomegalia, por ingestão.
– Dermtites (urticariforme), conjuntivites e rinite, pelo contato.
Quais as consequências das cianotoxinas para o ambiente e para os seres vivos?
Intoxicações, mortandades de peixes e de outros animais, inclusive seres humanos, têm sido registrados no mundo inteiro.
Espécie encontrada na Praça Itália

Como podemos saber se a água está contaminada por cianobactérias?
Pelo aspecto da água, coloração ou mancha esverdeada, avermelhada ou amarelada, pelo cheiro e sabor de barro, peixe ou mofo. A amostra da água deverá ser analisada em microscópio para confirmar a presença e mensurar a densidade de cianobactérias.
Espécie encontrada na Praça Itália

Podemos beber água com florações de cianobactérias?
Não, pois a mesma pode apresentar toxicidade.
Espécie encontrada na Praça Itália

Podemos comer peixes e carnes de outros animais que vivam nessas águas?
Não, porque as cianotoxinas podem ser acumuladas, principalmente no fígado. Além disso, o sabor e o odor podem ficar alterados.
Espécie encontrada na Praça Itália

Outros animais podem beber água com cianobactérias?
Não, pois mortandades de peixes e de outros animais têm sido registradas devido a cianotoxinas presentes na água.
Existe legislação para proteger a população?
Sim. A Portaria nº 2.914/2011 do Ministério da Saúde exige o monitoramento de cianobactérias e cianotoxinas em mananciais de abastecimento público, assim como de cianotoxinas na água a ser disponibilizada à população.
Quais os aspectos positivos das cianobactérias?
Além de serem produtoras primárias (produzem oxigênio atmosférico-O2), somente as cianobactérias e certas bactérias são capazes de fixar o nitrogênio atmosférico. Assim como as de vida livre como as associadas a outros seres vivos, têm importância na fertilização do ambiente. São ainda consideradas organismos agregadores do solo, protegendo-o contra a erosão. Colaboram na produção do húmus; atuam como pioneiras na colonização dos solos.
Além de sua significativa representação na natureza e importância para estudos ecológicos e toxicológicos, atualmente, têm sido pesquisadas suas qualidades e aplicabilidades na indústria farmacêutica, têxtil e de alimentos. Na alimentação, as cianobactérias têm papel importante devido ao alto valor proteico e vitamínico de certas espécies.

Juiz busca argumentos do MP de Contas para julgar ação da Zoobotânica

Cleber Dioni Tentardini
O juiz Eugênio Couto Terra, da 10ª Vara da Fazenda Pública do Foro Central de Porto Alegre, pediu hoje acesso à medida cautelar do Ministério Público de Contas que questiona a extinção da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul.
O magistrado está julgando o pedido de liminar do Ministério Público Estadual que tem por fim proteger as coleções de plantas, animais e fósseis, e impedir a demissão dos pesquisadores da FZB.
“A medida interposta pelo MP de Contas pode contribuir para o desate desta, inclusive para a apreciação da liminar”, afirmou o juiz em seu despacho, salientando que, “caso os documentos que aportarem nos autos sirvam, de alguma forma, para fundamentar a decisão da liminar, intimem-se as partes para se manifestarem em cinco dias sobre o que for remetido pelo MP de Contas”.
A liminar solicitada pela Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre impede que o governo do Estado demita o quadro técnico-científico e se desfaça de qualquer bem, móvel, imóvel e de animais que constituem o patrimônio material e imaterial do Jardim Botânico e do Museu de Ciências Naturais, duas das três instituições vinculadas a FZB. O Parque Zoológico não está contemplado nesta ação.
O pedido de liminar proíbe ainda a rescisão de acordos ou contratos que impliquem as atividades de educação ambiental, preservação dos acervos ou pesquisa científica, e impede o desmembramento ou fracionamento da matrícula do imóvel do Jardim Botânico. No caso de descumprimento, multa de R$ 50 mil.
A ação requer que o Estado apresente em juízo um plano para a extinção da FZB que garanta a continuidade e a mesma qualificação de todos os serviços e atividades do Jardim Botânico e do Museu de Ciências Naturais, e providenciar imediatamente o conserto do muro que faz a divisa com a Vila Juliano Moreira. Por fim, determina ao IPHAE (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul) a inscrição do Jardim Botânico no Livro Tombo, por já ter sido declarado patrimônio cultural do Estado, em 2003.
“Seria uma vitória para a nossa sociedade e para as futuras gerações, porque o governo não pode simplesmente dilapidar o patrimônio ambiental e cultural do Estado, não pode demitir servidores sem apresentar um plano, sem mostrar como serão preservadas as coleções e quem fará as curadorias”, argumentou a promotora de Justiça de Defesa do Meio Ambiente, Ana Maria Marchesan.
Ação Civil Pública corre desde fevereiro
No início de fevereiro deste ano, após realizar uma vistoria nos acervos do JB e do MCN, a promotora e os colegas Alexandre Saltz,Annelise Steigleder e Josiane Camejo assinaram uma Ação Civil Pública, com pedido de liminar, contra o Estado, decorrente da decisão do governo de extinguir a FZB e demitir os funcionários. A Lei n. 14.982/2017 que autoriza a extinção foi sancionada em 17 de janeiro deste ano.
Em quatro dias, produziram mais de 60 páginas com os argumentos para justificar a manutenção da Zoobotânica. Foram citados alguns fatos que colocaram em risco o patrimônio ambiental e cultural do Jardim Botânico e do Museu de Ciências Naturais, especialmente a queda de mais dois blocos do muro que faz divisa com a vila Juliano Moreira, na avenida Cristiano Fischer, as depredações, as e invasões do serpentário e de salas administrativas.

Bióloga Vera Werner mostra catálogo da coleção de algas à promotora de Justiça /Fotos MP/RS
Bióloga Vera Werner mostra catálogo da coleção de algas à promotora de Justiça /Fotos MP/RS

“Percebemos a necessidade de a Justiça tomar alguma medida urgente porque a área está vulnerável a novas invasões. Fora isso, está havendo uma série de iniciativas da direção no sentido de esvaziar a atuação da própria Zoobotânica, como, por exemplo, a retirada de representantes da FZB de conselhos estaduais que têm gestão na política ambiental do Estado”, destacou Ana Marchesan.
A promotora acredita que as pessoas não saibam o que é feito no museu, por exemplo. “As pessoas não conseguem mensurar a importância de toda a riqueza ambiental e cultural que eles produzem, não avaliaram o que a falta disso pode representar para as futuras gerações”, afirma.
Ela destaca outro fator que é inerente ao trabalho na Zoobotânica: “O patrimônio material não sobrevive sem a gestão dos especialistas, mestres e doutores em diversas áreas, com conhecimento científico acumulado”, salienta.
Biólogos Aline Barcellos e Luciano Moura, curadores da coleção de insetos, mostram coleção de borboletas
Biólogos Aline Barcellos e Luciano Moura, curadores da coleção de insetos, mostram coleção de borboletas

O maior acervo da biodiversidade do RS
Ricardo Ott, curador da coleção de aranhas
Ricardo Ott, curador da coleção de aranhas

Embora a Ação Civil Pública tenha sido produzida em ritmo acelerado pelos promotores de Justiça, está muito bem fundamentada. Faz um levantamento geral do trabalho realizado no Jardim Botânico e da qualificação de seus servidores. Da mesma forma, descreve as atividades no Museu de Ciências Naturais e suas coleções científicas que, segundo o documento, constituem o maior acervo de material-testemunho da biodiversidade dos ecossistemas terrestres e aquáticos do RS.
Além de ser uma ferramenta imprescindível para estudos que envolvam a flora e a fauna, recente e fóssil, essas coleções subsidiam a descrição de novas espécies. Os ‘exemplares-tipo’ dessas coleções, que servem de base para as descrições, tornam-se essenciais para a identificação precisa de cada espécie.
Herbário Alarich Schultz
Herbário Alarich Schultz

Duas samambaias do Herbário
Holótipo de uma espécie nova para a ciência

“Os exemplares preservados em museus e seus dados associados documentam a existência das espécies no tempo e no espaço. Os acervos científicos são, portanto, bibliotecas da biodiversidade. Essenciais para a expansão do conhecimento por meio da pesquisa e da educação. Os exemplares de coleções científicas servem para validar as pesquisas biológicas, assegurando que possam ser replicadas ou comparadas no futuro. Estudos que envolvem taxonomia, biotecnologia, biogeografia, perda e conservação da biodiversidade, invasões biológicas e mudanças climáticas, por exemplo, dependem das coleções biológicas. As coleções paleontológicas, por sua vez, são de grande relevância do ponto de vista científico e cultural para a reconstituição de paleoambientes e o entendimento da paleoecologia”, descrevem os promotores na ACP.
O documento lista uma série de consequências do ponto de vista científico para o Rio Grande do Sul em caso de “descontinuidade das atividades da FZB”.
Planta da espécie Eugênia Simflora
Planta da espécie Eugenia uniflora, a pitangueira

a) Perda de patrimônio científico, histórico e cultural que integra o conhecimento científico nacional;
Coleção insetos
Coleção insetos

b) Comprometimento do maior conjunto de amostras biológicas e paleontológicas do Bioma Pampa;
Coleção Paleontológica
Coleção Paleontológica

c) Interrupção da rede de colaboração científica estabelecida há décadas entre os curadores/pesquisadores da FZB com universidades e instituições de pesquisa do país e do exterior;
d) Perda irreparável em Taxonomia (ciência que descreve e classifica novos organismos) no caso de perda de material-tipo (material que embasa a descrição da espécie. A perda de material-tipo aconteceu pela última vez durante a 2ª Guerra Mundial, o que trouxe dificuldades taxonômicas até hoje para toda comunidade científica mundial;
Coleções
Coleções

e) Perda de informações sobre a biodiversidade que deveriam subsidiar políticas públicas voltadas à gestão da biodiversidade, no âmbito estadual e nacional;
Engenheiro agrônomo Fernando Vargas com a figueira e o angico disputando espaço
Engenheiro agrônomo Fernando Vargas com a figueira e o angico disputando espaço

f) Interrupção da socialização da informação para o mundo científico de um dos três maiores herbários do RS. Em 2016, o Herbário HAS do MCN teve quase três milhões de acessos (2.909.189), através da Rede Herbário Virtual da Flora e dos Fungos do Brasil;
Bióloga Suzana Moreira (à direita) na inspeção do MP no Herbário
Bióloga Suzana Moreira (à direita) na inspeção do MP no Herbário

g) Perda de geração de conhecimento aplicado à gestão ambiental. Atualmente, os registros da coleção de anfíbios do MCN estão sendo utilizados na revisão do Plano de Manejo do Parque Estadual de Itapeva, na elaboração do Plano de  Manejo da Reserva Biológica Estadual da Mata Paludosa e na elaboração do Plano de Manejo da APA do Banhado Grande;
h)  Perda dos registros que subsidiam o Plano de Ação Nacional para a Conservação da Herpetofauna do Sul (PAN Herpetofauna do Sul);
Coleção de malacos
Coleção de malacos

i) Perda da capacidade de descoberta de usos potenciais da biodiversidade. Recentemente estudos desenvolvidos pelo MCN com espécies nativas de anfíbios revelaram novas substâncias com potencial para uso farmacêutico. Esse serviço não existe na iniciativa privada, portanto não há como reparar a sua perda;
Coleção de aranhas
Coleção de aranhas

j) A perda da coleção de microalgas continentais do Herbário Prof. Dr. Alarich R. H. Schulz (HAS), que possui o maior número de lotes em líquido e tipos nomenclaturais do Brasil, significa a perda de acervo fundamental para obtenção de conhecimento e testemunho da biodiversidade do Rio Grande do Sul;
Algas e outros materiais coletados no monitoramento da qualidade do ar no Polo Petroquímico
Algas e outros materiais coletados no monitoramento da qualidade do ar no Polo Petroquímico

k) Desaparecimento de local com condições de receber espécimes coletados por ocasião de EIA/RIMA, conforme legislação;
l) Perda de banco genético de representantes de cianobactérias da flora do RioGrande do Sul;
Lâminas de algas
Lâminas de algas

m) Interrupção de trabalhos realizados em parceria com outras instituições brasileiras no estudo das cianobactérias(Centro de Energia Nuclear na Agricultura, USP, Piracicaba, SP;
n) Impossibilidade de descrição de novos táxons de cianobactérias sul-riograndenses (gêneros e espécies) para a ciência;
o) Perda de banco amostral de referência de florações de cianobactérias registradas em distintos sistemas hídricos do Rio Grande do Sul, dentre outras.
Jardim Botânico é indivisível, diz Ação Civil
As biólogas Josy Matos e Natividad Fagundes com a coleção de orquídeas
As biólogas Josy Matos e Natividad Fagundes com a coleção de orquídeas

O Jardim Botânico de Porto Alegre é um museu vivo com um patrimônio público inalienável, não privatizável, indivisível e que exige o máximo zelo dos gestores públicos na sua preservação para as gerações presentes e futuras, diz a Ação Civil Pública do MP.
Todas espécies estão identificadas
Todas espécies estão identificadas

O JB contempla um conjunto de 27 coleções vivas de plantas envasadas ou em arboreto. Dentre as atividades, estão a manutenção de coleções científicas de plantas vivas, o banco de sementes, os programas institucionais de iniciação científica envolvendo bolsistas do Pibic/CNPQ, Probic/Fapergs e convênios para estágios curriculares, o viveiro de mudas, a biblioteca, as atividades de educação ambiental, e o envolvimento em inúmeros projetos de pesquisa.
Bióloga Andreia Carneiro é a curadora das coleções do Jardim Botânico
Bióloga Andreia Carneiro é a curadora das coleções do Jardim Botânico

A coleção bromélias
A coleção bromélias

Em função desse cipoal de atividades, dizem os promotores, o Jardim Botânico de Porto Alegre está entre os cinco do Brasil que se enquadram na categoria A, o que significa que atende a todas as 16 exigências previstas no artigo 6º da resolução Conama 339/2003. “Entre elas, a primeira e mais importante é possuir quadro técnico-científico compatível com suas atividades.”
Viveiro
Viveiro

Viveiro
Viveiro

Outras considerações da Ação Civil Pública:
O Jardim Botânico possui em seu acervo um conjunto de plantas que integram a Flora Gaúcha ameaçada de extinção. Esse conjunto somado a outras plantas raras compreende um total de mais de quatro mil plantas.
Espécies de cactos e suculentas
Espécies de cactos e suculentas

Espécies de cactos
Espécies de cactos

A perda do registro na Agenda Internacional de Jardins Botânicos do Botanic Gardens Conservation International (BGCI), o que dificultará a captação de recursos para pesquisa; ocorrerá a perda de exemplares de espécies raras, endêmicas e ameaçadas, dificultando a ampliação do conhecimento voltado à conservação; haverá o desaparecimento de ambiente controlado para desenvolvimento de pesquisas com universidades nacionais e internacionais interessadas na flora do RS.
O orquidário
O orquidário

Em relação ao Banco de Sementes, eventuais danos serão incomensuráveis. Haverá o encerramento das atividades de análise fisiológica e morfológica de sementes de espécies arbóreas e arbustivas nativas do RS.
Catálogo do banco sementes
Catálogo do banco sementes

O Laboratório de Análise de Sementes do Banco de Sementes/JB é o único no RS que procede, rotineiramente, essas funções, inclusive no tocante às espécies ameaçadas.
Câmara de Germinação
Câmara de Germinação

Haverá profunda perda em termos de sistematização de dados gerados em experimentos nos últimos 20, podendo comprometer a lista de Index Seminum, pois não existirão sementes armazenadas.
Acácia mostra as serpentes do NOPA
Acácia mostra as serpentes do NOPA

Esse conjunto de perdas e reduções certamente implicará a perda de pré-requisitos para a obtenção da categoria “A”, por parte do JB.
Coleção de besouros
Coleção de besouros

Coleção de répteis
Coleção de répteis

Cascavel
Cascavel

A par do acervo, o patrimônio imaterial do Museu de Ciências Naturais se alimenta de seu corpo funcional extremamente qualificado. Esse corpo técnico mantém a instituição viva e capaz de nutrir o Estado do Rio Grande do Sul com informações sobre a biodiversidade, patrimônio paleontológico, patrimônio genético, dentre outros bens culturais e ambientais de suma relevância para a preservação da vida humana, animal e vegeta
Biólogo Glayson Bencke, especialista em pássaros
Biólogo Glayson Bencke, especialista em pássaros

A extinção da FZB e, via reflexa, das estruturas que compõem esses dois equipamentos culturais vem causando grande comoção não só na sociedade gaúcha como também na comunidade científica internacional. A Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente recebeu manifestações da Profa. Graciela Piñeiro do Departamento de Bacias Hidrográficas do Uruguay, do Conselho Regional de Museologia e do Prof. Johannes Vogel, Diretor Geral do Museu de História Natural de Berl
Coleções ovos de aves
Coleções ovos de aves

Coleção de conchas
Coleção de conchas

Coleção do Banco Sementes
Coleção do Banco Sementes

Serpentário
Serpentário

Coleção botânica de suculentas
Coleção botânica de suculentas

Planta carnívora
Planta carnívora

Espécie de cacto
Espécie de cacto

Espécie da coleção de suculentas
Espécie da coleção de suculentas

Espécie de cacto
Espécie de cacto

Espécie de cacto
Espécie de cacto

Viveiro
Viveiro

Futuro das pesquisas e do acervo da Zoobotânica ainda é desconhecido

Cleber Dioni Tentardini
Os servidores da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, ambientalistas e comunidade acadêmica têm feito uma série de questionamentos, desde agosto de 2015, quando o governo gaúcho propôs fechar a instituição responsável pela conservação da biodiversidade no Estado.
De lá pra cá, sucederam-se manifestações e eventos em defesa da Fundação, mas o governo não consegue responder por que quer extinguir a FZB e qual o futuro dos acervos e das mais de cem pesquisas que estão em andamento.
Agora, uma campanha pela reabertura do serpentário, a exposição de cobras do Museu de Ciências Naturais, promete mobilizar novamente a comunidade ambiental em torno da preservação do patrimônio da Zoobotânica. A ‘Comunidade RS’ criou uma página do Facebook para divulgar o evento marcado para a tarde de domingo do dia 21 deste mês.
“Contamos com a sua participação neste dia de domingo, em uma manifestação pacífica para lembrar a direção da FZB que a comunidade está aguardando há quatro meses, desde janeiro, a reabertura do Serpentário, antes que caia no esquecimento por imposição da política do desmonte no RS”, registra em seu chamamento a Comunidade RS, formada por um grupo de simpatizantes às questões ambientais, que prefere o anonimato.
Mobilizações começaram em 2015 
A ideia de extinguir a Zoobotânica é mais antiga, mas ganhou força logo no primeiro ano do governo Sartori, em 2015. Há 21 meses, em 6 de agosto daquele ano, o então chefe da Casa Civil, Márcio Biolchi, enviou à Assembleia Legislativa o projeto de Lei (PL) 300, com pedido de urgência para votação. Previa a extinção de três fundações: Zoobotânica, Esporte e Lazer (Fundergs) e Produção e Pesquisa em Saúde (Fepps). O objetivo, segundo Biolchi, era “tornar a gestão mais moderna e eficiente”.
Lá, começaram também as mobilizações em defesa da Fundação. No primeiro sábado de agosto daquele ano, cinco servidores estenderam faixas nas grades do Jardim Botânico. Foram programados piqueniques e abraços simbólicos à instituição, ao longo da avenida Salvador França.

Primeira reação ao projeto de extinção /Cleber Dioni Tentardini
Primeira reação ao projeto de extinção /Cleber Dioni Tentardini

O corpo técnico da Fundação reuniu-se na tarde daquele sábado para decidir que providências seriam tomadas.
Reunião dos servidores da Fundação Zoobotânica / Cleber Dioni Tentardini
Reunião dos servidores da Fundação Zoobotânica / Cleber Dioni Tentardini

A bióloga Josy Matos,presidente da Associação dos Funcionários da Zoobotânica, estava naquele grupo e lembra que foi feita uma lista com vários questionamentos para ser entregue à secretária do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Ana Pellini. “Mas a reunião nunca aconteceu”, recorda Josy.
O jornal JÁ resgatou aquelas dúvidas e procurou na última semana de abril o presidente da FZB, Luiz Fernando Branco. O ex-coordenador de bancada do PMDB no Parlamento gaúcho mostrou-se disposto a conversar, mas a assessoria de Comunicação da SEMA o desautorizou. Os questionamentos permanecem até hoje entre os funcionários.
Secretária admitiu que projeto era ruim
A única vez em que os funcionários da FZB tiveram um diálogo com a secretária Ana Pellini aconteceu há 20 meses.
E não foi bem um diálogo, mas um encontro relâmpago com a titular da SEMA, que teve de ser provocado pelos servidores. No dia 17 de agosto de 2015, amanheceram com megafone, tambores e faixas na entrada do prédio da Secretaria, na Borges de Medeiros,a fim de forçar um diálogo.
Na entrada para o trabalho, Pellini viu-se obrigada a atender os manifestantes.E, para surpresa de todos, a secretária admitiu que o projeto era ruim e não sabia quem tinha elaborado.
“Vocês têm toda a razão, o projeto é ruim e temos de rever nossa posição”, afirmou a secretária em um megafone apoiado pelo professor Paulo Brack, da Ufrgs. “Como está, esse projeto não tem a menor condição de contribuir em nada para o serviço público, continuou.
Ato pela retirada do PL que extingue FZB / Foto Rosana Senna
Ato pela retirada do PL que extingue FZB / Foto Rosana Senna

Questionada pelo engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, presidente da Agapan, sobre quem fez o projeto, a secretária surpreendeu novamente ao dizer que foi elaborado dentro de um conjunto de outras medidas, mas que “foi um erro”.
A declaração animou os funcionários da Zoobotânica e ambientalistas, que viram ali um sinal de que o governo poderia desistir do projeto. No dia 20 de agosto, foi realizada uma audiência pública para mobilizar entidades e universidades e reforçar o apoio à instituição.
Audiência pública sobre a FZB / Foto Juarez Junior / Agência ALRS
Audiência pública sobre a FZB / Foto Juarez Junior / Agência ALRS

Para uma plateia de 800 pessoas, exprimidas nas galerias do auditório Dante Barone, do Legislativo gaúcho, falaram deputados, professores de universidades públicas e privadas, pesquisadores da Embrapa, Fepagro e Emater, analistas da SEMA e Fepam, representantes do Ministério Público e do Batalhão Ambiental da Brigada Militar. Um dos pontos de maior vibração foi o pronunciamento do professor Ludwig Buckup, cientista renomado e um dos fundadores do Museu de Ciências Naturais, em 1955.
Auditório lotado para a audiência/ foto Juarez Junior /Agência ALRS
Auditório lotado para a audiência/ foto Juarez Junior /Agência ALRS

No final daquela manhã, pela primeira vez desde que foi proposta a extinção, o governo do Estado recebeu uma comissão de apoio à Zoobotânica. Foi entregue ao secretário adjunto da Casa Civil, José Kliemann, e à secretária adjunta do Meio Ambiente, Maria Patrícia Mollmann, um documento em que pedia a imediata retirada do PL 300 e uma reunião com o governador José Ivo Sartori. O que nunca ocorreu.
Foi entregue também um calhamaço com dois abaixo-assinados contendo 39 mil assinaturas e correspondências com demonstrações de apoio à Fundação de 800 instituições, sendo 18 de outros países.
Comissão em defesa da FZB foi recebida pelo governo / Galileu Oldenburg / Palácio Piratini
Comissão em defesa da FZB foi recebida pelo governo / Galileu Oldenburg / Palácio Piratini

Exatamente uma semana depois, o governo do Estado retirou o pedido de urgência no Legislativo gaúcho.
Funcionários da Zoobotânica em frente ao Palácio Piratini/ Caroline Ferraz/Sul21
Funcionários da Zoobotânica em frente ao Palácio Piratini/ Caroline Ferraz/Sul21

As manifestações de apoio à Fundação Zoobotânica aumentaram ao longo de 2016, a ponto do próprio presidente José Alberto Wenzel fazer um apelo ao governador Sartori, durante evento no Palácio Piratini, em 22 de julho, para que repensasse a ideia de fechar a instituição. Mais tarde, Wenzel gravou outro depoimento.
Manifestações de apoio no Legislativo / foto Marcelo Bertani/ Agência ALRS
Manifestações de apoio no Legislativo / foto Marcelo Bertani/ Agência ALRS

Uma semana depois, Wenzel foi afastado. Ligado ao PSDB, o ex-chefe da Casa Civil no governo Yeda, ficou oito meses à frente da instituição ambiental.
Wenzel foi afastado por defender FZB/_Divulgação
Wenzel foi afastado por defender FZB/Divulgação

No seu lugar, assumiu Luiz Fernando Branco, ex-coordenador de bancada do PMDB na AL e alinhado ao governo Sartori. Sua nomeação foi publicada no Diário Oficial do Estado no dia 29 de julho de 2016.
Luiz Branco (à esq.) com visitantes no serpentário, em 2016 / Cristine Rochol/PMPA
Luiz Branco (à esq.) com visitantes no serpentário, em 2016 / Cristine Rochol/PMPA

Até aquele momento, o famigerado PL 300 estava propositadamente repousando havia meses numa gaveta do deputado Jorge Pozzobom, do PSDB, responsável por emitir um parecer da Comissão de Constituição e Justiça da AL sobre a legalidade do projeto. O futuro do patrimônio do Museu de Ciências Naturais, do Jardim Botânico de Porto Alegre e do Parque Zoológico continuava incerto.
Até que, no segundo semestre de 2016, o governo abandonou o PL 300 sem, no entanto, desistir de fechar a Zoobotânica. Apresentou um pacote de medidas, através de dois projetos de Lei,que incluiu a extinção de oito fundações estaduais, mais a Corag.
O PL 246 autorizou a extinção das fundações de Ciência e Tecnologia (Cientec), de Economia e Estatística (FEE), a Piratini (TVE/FM Cultura), a do Desenvolvimento de Recursos Humanos (FDRH), e de Planejamento Metropolitano e Regional (Metroplan), além da entidade ambiental. Já, o PL 240, envolveu as fundações Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF) e a de Pesquisa Agropecuária (Fepagro)
Na madrugada do dia 21 de dezembro, os deputados aprovaram ambos os projetos. O primeiro, pelo placar de 30 votos contra 23, e o segundo PL, por 29 votos a 23.
Painel de votação com placar sobre PL 246
Painel de votação com placar sobre PL 246

O ano de 2017 iniciou com problemas na segurança da FZB, que registrou invasões, depredações e tentativas de roubo de animais e equipamentos. No dia 10 de janeiro, mais indignação: é publicada no DOE a nomeação de seis pessoas para cargos comissionados na Zoobotânica, os chamados Ccs.
Perguntas sem respostas
Josy é representante dos funcionários da Zoobotânica
Josy é representante dos funcionários da Zoobotânica

Josy Matos reforça que a maior preocupação dos funcionários extrapola a ameaça de perder os seus empregos. “Como ficam as mais de cem pesquisas que estão em andamento e o que será feito do material genético sobre a biodiversidade gaúcha, questiona. O conhecimento acumulado aqui entre os pesquisadores é indispensável à preservação do meio ambiente no Estado e no país”, completa a bióloga.
Apenas as coleções científicas do sexagenário Museu de Ciências Naturais, cuja a criação foi estimulada pelo botânico e padre jesuíta gaúcho Balduíno Rambo, somam 450 mil exemplares, entre plantas, animais e fósseis. Há o serpentário, único no Estado a fornecer veneno de serpentes cobras ‘locais’ para produção de soro antiofídico. Há o banco de sementes, o viveiro, a coleção de plantas vivas espraiadas por 36 hectares de outro sexagenário, o Jardim Botânico.
Acácia Winter, tratadora de animais silvestres do NOPA com alunos da Ufrgs/Divulgação
Acácia Winter, tratadora de animais silvestres do NOPA, com alunos da Ufrgs/Divulgação

Outra dúvida dos servidores refere-se ao Zoológico: Se dá prejuízo financeiro, qual empresa se interessaria a assumir a gestão e manutenção dos mais de mil animais do Zoo? E, por que o governo do Estado não levou em consideração a proposta de readequação do Zoo e do Horto, elaborada pelos próprios servidores? Uma gestão privada manteria funcionando o Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), que recebeu, em 2016,mil animais machucados, órfãos ou resgatados do tráfico?
Ficam os questionamentos sem respostas, mais uma vez:
1. A FZB participa de grupos de trabalho criados pela SEMA para tratar de questões como controle de javalis e dos impactos de pombas em lavouras, e ainda de reservas biológicas como o Banhado do Maçarico, em Rio Grande. Quem a substituirá?
2. A Zoobotânica faz parte de vários Planos de Ação Nacionais para a conservação de espécies ameaçadas, integra o Comitê Nacional de Zonas Úmidas, responsável por definir as estratégias políticas de uso de áreas úmidas em atendimento a convenções internacionais das quais o Brasil é signatário. Como fica a participação do Rio Grande do Sul?
Oficina do ICMBio na FZB do Plano de Ação Nacional para conservação dos répteis e anfíbios nos campos sulinos/Rosana Senna
Oficina do ICMBio na FZB do Plano de Ação Nacional para conservação dos répteis e anfíbios nos campos sulinos/Rosana Senna

Oficina do ICMBio na FZB do Plano de Ação Nacional para conservação das aves nos campos sulinos/Rosana Senna
Oficina do ICMBio na FZB do Plano de Ação Nacional para conservação das aves nos campos sulinos/Rosana Senna

3. Por ser uma fundação de pesquisa, a FZB pode angariar financiamentos para as pesquisas através dos órgãos de fomento nacionais e internacionais, como ocorreu com o RS Biodiversidade, implementado de 2011 a 2016, com recursos de órgãos estrangeiros. A SEMA, por ser uma secretaria de Estado, não tem acesso a esses fundos. Quem irá executar as atividades, cumprindo os prazos e gerando os resultados estabelecidos nos contratos?
4. A Fundação executa o Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental do Banhado Grande, com prazo estabelecido pelo Ministério Público Estadual para ser concluído. Quem fará o trabalho?
5. Quem substituirá os pesquisadores da FZB, que foram excluídos dos Comitês de Bacias Hidrográficas, Conselhos de Unidades de Conservação, Câmaras Temáticas, que atuam diretamente na gestão e na formulação de políticas públicas ambientais?
6. Como ficam os laudos paleontológicos obrigatórios em processos de licenciamento ambiental nas dezenas de municípios com potencial para abrigar sítios paleontológicos, atribuição exclusiva da FZB, conforme legislação? Recentemente foi renovada a parceria com o DAER para emissão de laudos a fim de executar obras perto de Santa Maria, famosa pelos fósseis descobertos.
7. Quem fará a atualização das listas de fauna e flora ameaçadas de extinção no Estado, instrumentos fundamentais para o planejamento, a gestão e o licenciamento ambiental? A lista de espécies da flora deve ser atualizada em 2018. É uma obrigação legal do Estado.
8. Através da Fundação são feitos convênios de cooperação com universidades e agências de financiamento à pesquisa, estadual e federal,por meio dos quais são mantidos atualmente dezenas de bolsistas de iniciação científica e de estagiários curriculares. Quem irá assumir a responsabilidade pelos contratos vigentes?
9. O corpo técnico e as informações científicas da FZB fariam parte do Sistema Integrado de Regularização Ambiental (Siram), que iria centralizar todas as informações ambientais para agilizar e qualificar o licenciamento ambiental no Estado. A Fepam, por exemplo, recorre aos técnicos da FZB na busca de informações que exigem um conhecimento mais específico ou para a construção de pareceres, termos de referência e instrumentos normativos. Há pouco, foi feito licenciamento de 35 linhas de transmissão da Eletrosul, bem como auxílio no zoneamento de parques eólicos. Por que encerraram o Siram?
10. Como fica a produção de soro antiofídico que seja eficiente ao veneno de cobras nativas do Rio Grande do Sul, se o Núcleo de Ofiologia de Porto Alegre, o NOPA, na FZB, é o único a extrair peçonha no Estado? E quem irá assumir o manejo das mais de 300 serpentes mantidas ali?
11. Sem a FZB, quem vai integrar os programas de qualificação junto ao setor produtivo, que busca agregar valor a produtos gerados com a adoção de ações ambientalmente sustentáveis? Os Butiazais de Tapes, por exemplo, que potencializam os usos do butiá para geração de renda à população. A Alianza Del Pastizal, que integra uma parcela expressiva da comunidade de pecuaristas no RS, e permite, através de parcerias com instituições internacionais, agregar valor à carne produzida no Pampa com conservação de campos nativos.