ELMAR BONES / Eleições 2022: o fator Eduardo Leite (2)

A atitude do governador Eduardo Leite ao declarar-se gay em rede nacional de televisão tem muitas implicações, mas o que interessa a todos são os efeitos políticos, de uma decisão motivada por interesses políticos, uma vez que o governador como ele mesmo diz nunca teve problemas em assumir a sua orientação sexual. Não a proclamava porque “não era o caso”. Agora é.

Pré-candidato a candidato tucano à Presidência da República, o governador  sabe que não tem como entrar numa campanha eleitoral cruenta como a que se avizinha, tendo uma questão como essa nas sombras.

Ao tomar a iniciativa de declarar (ele não esperou nem o Pedro  Bial perguntar), certamente está considerando os dividendos eleitorais de uma atitude que se alinha com uma das causas  emblemáticas do Século 21,  a diversidade de orientação sexual.

Eduardo  Leite é um dos quatro pré-candidatos a candidato do PSDB para a eleição de 2022, disputando com  João Dória, Tasso Jereissati, Arthur Virgílio.

Foi sua assessoria que procurou Pedro Bial acenando com a  manchete que podia render?

Ou foi iniciativa da Globo, ao perceber Eduardo Leite como a tão sonhada terceira via, capaz de alijar Bolsonaro, barrar Lula e, sobretudo, manter o projeto neoliberal em andamento?

Os desdobramentos dentro do sistema Globo indicam que há uma clara aposta no governador gaúcho. Farta cobertura no jornal O Globo, o  farol ideológico do grupo, inclusive o furo na coluna da Patrícia Kogut, que antecipou a revelação da entrevista.

E, no dia seguinte à entrevista, uma análise no Globo,  dizendo que  Eduardo Leite “tornou sua vida privada uma não-arma para ser explorada por adversários no jogo sujo das disputas políticas”.

“Não há mais como dizer que Leite esconde algo de seus eleitores”, diz o texto, taxativo.

Depois discorre sobre a gestão de Eduardo Leite que ” assumiu o governo de um estado marcado por divisões políticas prolongadas e finanças arruinadas”.

Não chega a dizer que ele equilibrou as finanças do Estado, mas insinua: “Conseguiu construir um apoio na Assembleia estável o suficiente para tentar pôr ordem no Caixa do estado”.

Numa matéria do início de maio O Globo já tinha destacado a fé de Eduardo Leite no ideário liberal.

Seja como for, o gesto deu outra envergadura à pré-candidatura do governador gaúcho, no momento em que ele precisa se viabilizar  dentro de seu próprio partido.

As prévias do PSDB estão marcadas para 17 de outubro e os pré-candidatos devem inscrever-se entre 01º e 10 de agosto, para iniciar a propaganda intrapartidária a partir de 01º de setembro.

Leite está pelo menos dois meses à frente.

 

ELMAR BONES/ Galvani, um jornalista

Perder Walter Galvani nesta altura do campeonato é como perder um grande epidemiologista no meio da pandemia.

Basta mencionar a revolução que ele produziu, em plena ditadura, ao abrir as portas da vetusta Companhia Jornalística Caldas Júnior para os jovens jornalistas que estavam saindo da universidade e eram discriminados pelos “chapa branca” que dominavam as redações.

Foi bom em tudo o que fez: coluna social, reportagem, editor, chefe de redação e, depois, escritor.

Sempre com aquele faro de repórter que o levou a descobrir, às vésperas dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, que não havia, nem aqui nem em Portugal, uma biografia de Pedro Álvares Cabral.

Informação que ele guardou até ter toda a pesquisa feita para o livro que editou pela Record.

No meio da pandemia de desinformação que nos assola,  uma mente lúcida como a de Walter Galvani é uma perda irreparável.

ANDRES VINCE/ Chile: e se meio século de neoliberalismo desembocar no comunismo?

Outubro de 2019. Tudo parecia correr bem no Chile, o “paraíso neoliberal” do continente.

No Brasil, o ministro da economia, Paulo Guedes, vendia o “modelo chileno”, a começar pelo sistema de capitalização na Previdência, como saída para a crise das finanças públicas.

Na verdade, desde o golpe militar de setembro de 1973, o país andino viveu, sem anestesia, as agruras da transição, de uma economia estatizada para uma economia privatizada.

Resultado: anos de recessão e desemprego. Alguns economistas afirmam que só houve alguma recuperação na economia por volta de 1978. Meia década sangrando, literalmente.

A partir daí, mesmo em ritmo lento, a economia cresceu por décadas. Até que os  chilenos começaram a se perguntar: “Se o país cresce ano a ano e nós continuamos na mesma situação ou pior, pra onde está indo esse crescimento?”

Um sentimento de vazio e abandono começou a pipocar aqui e ali, em movimentos isolados. E foi se avolumando, até que o terceiro aumento seguido da tarifa do metrô de Santiago levou gigantescas manifestações às ruas.

Insensível. o ministro da Economia Juan Andrés Fontaine lembrou que a tarifa do metro era flutuante, variando conforme a demanda, e aconselhou: “El que madruga será ayudado con una tarifa más baja”. Traduzindo: “acordem mais cedo pra economizar”.

Claro que não foi só o metrô, foi a água,  a educação,  a saúde,  a previdência, foi a diferença no tratamento de gêneros, o abuso contra os povos originários, foi uma lista de abandonos sociais. Em resumo, foi o Estado mínimo.

Mas, o que se viu em Santiago, foi a materialização do que poderíamos chamar de a profecia de Allende: “Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.”

O povo nas ruas jogou o sistema político chileno nas cordas.  Os manifestantes mantiveram as forças de segurança de joelhos por mais de seis meses e toda repressão policial era repelida com mais violência.

A tentativa de controlar as manifestações via forças armadas talvez tenha sido o maior erro do governo. O toque de recolher despertava velhas lembranças. A repulsa foi generalizada. Os soldados não conseguiam nem descer do caminhão de transporte devido à chuva de pedras.

A popularidade do presidente Piñera caiu a 15%. Recolheu as tropas. Azar dos carabineiros, que foram levados ao limite da exaustão.

As manifestações só foram freadas pela pandemia e pela promessa do plebiscito sobre uma nova constituição, que acabou sendo aprovada em 25 de outubro de 2020 por 78,3% da população que compareceu às urnas. Algo em torno de 7,5 milhões de chilenos, aproximadamente 51% da população apta ao votar no referendo.

A assembleia constituinte foi eleita entre 15 e 16 de maio de 2021 e sua composição dos 155 membros ficou definida da seguinte forma: 17 cadeiras para os povos originários, cerca de 50 cadeiras para os independentes e as cerca de 90 cadeiras restantes mais ou menos divididos entre a esquerda, o centro e a direita, com uma ligeira vantagem para a esquerda.

Essa composição sinaliza claramente que o Chile terá a Constituição mais moderna do mundo, não apenas pela contemporaneidade, mas pela sua representatividade.

Será a primeira assembleia constituinte do mundo com paridade de gênero garantida por lei. E, ao contrário do que se possa imaginar, foram as mulheres que tiveram que ceder 11 cadeiras aos homens, porque elas, simplesmente, arrasaram nas urnas.

Mas, conseguirá o Chile construir um novo modelo de sociedade sobre os pilares do neoliberalismo, que por sua vez, foi construído sobre os escombros do socialismo?

Algo indica que não e talvez a marca mais significativa nesse sentido tenha sido a eleição de uma sub-prefeita comunista para Santiago, uma das 32 subprefeituras (chamadas de comunas) que formam a capital chilena.

A economista santiaguense Irací Hassler tem apenas 30 anos e tomará posse no próximo dia 28 de junho e será a primeira comunista a administrar a comuna de Santiago, que tem cerca de 200 mil habitantes.

Seu colega de partido, Daniel Jadue, reeleito subprefeito de Recoleta, uma comuna vizinha a Santiago, está tentando se gabaritar às eleições presidenciais.

As pesquisas indicam que ele tem chance e a história permite o sonho comunista de chegar ao poder pelo voto: o Chile já elegeu um presidente socialista e foi o primeiro país da américa latina a eleger uma mulher para a presidência, Michelle Bachelet.

E se, agora, meio século de neoliberalismo desembocar no comunismo? Corram para as montanhas, dos Andes, é claro!

ELMAR BONES/ O silêncio que diz tudo

A crise do modelo de negócio que sustentou o jornalismo nos últimos dois séculos é tão grave que se revela nos mínimos detalhes.

Um caso municipal:  o projeto do Cais Embarcadero.

É uma boa ideia, poderia se tornar um bom negócio, como diria o professor Ruy Carlos Ostermann.

Mas trata-se de um espaço público que recentemente  passou por um processo degradante de privatização, que depois de dez anos voltou à estaca zero. O governo foi obrigado a romper o contrato.

Uma gambiarra, arranjada no ocaso do projeto da Cais Mauá Brasil, sobreviveu: um polo de lazer e gastronomia numa porção da área, onde não há prédios tombados.

Seria o Marco Zero de um projeto que não conseguiu decolar.

São quase 20 hectares com localização privilegiada, junto à Orla e à Usina do Gasômetro.

Os investidores são empresários de sucesso no ramo do marketing e do entretenimento, o empreendimento tem tudo para dar certo, com ganhos para a cidade, inclusive.

Só que há regras, há contratos e há a letra da lei.

E há um Ministério Público de Contas e há um procurador cuja função é zelar para que as leis, as regras e os contratos que envolvem o interesse público sejam cumpridos.

Ele pode ser acusado de  improbidade se não tomar providências diante de irregularidades num contrato que envolve um bem público

O procurador Geraldo Da Camino encontrou evidências no contrato com o Embarcadero, está pedindo uma investigação, é seu dever.

E nesse ponto se revela a crise do jornalismo sustentado por anunciantes: silêncio absoluto sobre as providências do Procurador, mesmo por pressurosos colunistas sempre atentos ao andamento do projeto.

É um silêncio que diz tudo

 

 

 

 

ELMAR BONES / Milicos na política

O que  Bolsonaro está comprovando é aquilo que já ficou patente no regime de 1964.

Um país como o Brasil não pode ser comandado por um militar.

Não significa que não haja militar que possa ser político.

Castelo Branco era, foi defenestrado por seus pares, pelos generais que apostavam num poder militar livre dos compromissos da política, assentado na hierarquia.

Um país não é um quartel, ou um exército.  Impossível governá-lo dando ordem unida.

Os militares, com as honrosas exceções, acreditam na analogia da política como uma guerra.  É uma analogia pobre, mas eles acreditam e muita gente acredita.

Esquecem que quanto mais estiverem preparados para a guerra, para o uso da força, menos preparados estarão para a política, que é a busca da solução dos problemas sem as armas.

O militar é preparado para o confronto, tem que ter um inimigo, real ou imaginário.

O político se prepara para evitar o confronto, tenta ver, mesmo no adversário, um possível aliado.

O Brasil teve uma ditadura imposta pelas armas de 1930 a  1945, mas o líder era um civil, Getulio Vargas, que promoveu a grande conciliação nacional e atualizou o Brasil “no concerto das nações”, como se dizia na época.

Quando voltou, em 1950, sem a tutela militar, Vargas não chegou ao fim do mandato.

Seu suicídio conseguiu retardar o golpe militar por dez anos.

Em 1964, os generais que tomaram o poder tinham tudo a seu favor: a burguesia, a imprensa e, por indução, a classe média e mesmo setores populares.

Mas o líder,  o general Castelo Branco, acreditava na ideia da “revolução redentora”, que iria banir os comunistas e corruptos e devolver o poder aos civis,  que devem conduzir os governos democráticos.

Defenestraram Castelo  e quatro generais, governando com atos de exceção, ficaram  duas décadas no poder.

Saíram sob o clamor das ruas.

Bolsonaro tem cabeça de milico. Cabeça de milico serve pra mandar, não pra governar, que é outra coisa bem mais complexa.

Milico com cabeça de político deve haver, claro. Mas não está à vista.

 

 

ELMAR BONES/ Hipóteses

Todos nós estamos envolvidos num jogo pesado.
E só contamos com a nossa capacidade de construir hipóteses, para poder agir de alguma maneira.
Se não temos um horizonte, para onde vamos caminhar?
A gente só chega a alguma clareza quando expõe a hipótese ao outro e o outro reage e concorda ou discorda. Somos socráticos.
Minha hipótese: caminhar para a eleição de 22.
Claro que o inesperado poderá fazer surpresas. Mais do que nunca ele é plausível. Mas não podemos ficar parados esperando que ele aconteça, até por que ele certamente vai nos frustrar.
Por que 2022?
Porque só uma eleição democrática, limpa, poderá resgatar o ambiente que venceu a ditadura e vinha construindo um caminho de nação que foi truncado.
O golpe de 2016 tirou a sociedade brasileira de uma rota construída em 30 anos de luta e ela só será retomada pelo voto na urna.
Tudo o que Bolsonaro quer é que não haja a eleição de 2022.
Garantir a eleição é a hipótese coerente para quem acredita numa saída democrática para o impasse brasileiro.  Sem desconsiderar as surpresas que o inesperado sempre pode fazer.

ELMAR BONES / O que está em crise é o negócio

Um artigo do presidente da Associação Nacional de Jornais, Marcelo Rech, na ZH, no dia da liberdade de imprensa, quase me fez tirar da gaveta uma velha manchete: “Vende-se este jornal. Motivo: o dono vai mudar de profissão”.

Rech reduz uma crise estrutural a uma questão de pontos de vista, um tiroteio ideológico em que o “jornalismo profissional” por sua postura impoluta sofre ataques de todos os lados.

Como diria o saudoso Belmiro Southier: OPN (Obrigado por nada).

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O que está em crise é um modelo, que nasceu quando alguém há 200 anos teve a ideia colocar anúncios no meio das notícias.

Os jornais populares, a internet da época, viviam da venda avulsa de seus exemplares por jornaleiros que gritavam suas manchetes nas ruas das cidades que cresciam no ritmo da industrialização.

Notícias e anúncios foram os ingredientes desse modelo bem sucedido que fez impérios pelo mundo afora.

No início os anúncios representavam uma  receita complementar, mas com o crescimento da influência política e do alcance dos jornais a equação foi se invertendo.

O anúncio, que era complemento, tornou-se a base do negócio.  Na grande indústria de notícias, que resultou desse modelo, a  venda dos exemplares foi reduzindo seu peso, até tornar-se quase supérflua.

Nesse caminho, o grande anunciante, governos entre eles,  percebendo a importância de seus aportes para o lucro das empresas jornalísticas, passou a exigir contrapartidas cada vez maiores, até efetivamente subordinar o noticiário aos seus interesses.

Desde os anos 1970, esse jornalismo sustentado por anunciantes está em cheque.

Com o advento da internet, ele começou a perder o sentido.

O leitor, que já desconfiava dele, encontrou outros canais para buscar informação e o anunciante, que precisava dele para chegar aos leitores/consumidores, descobriu caminhos muitos mais eficazes no meio digital.

O jornalismo, claro, ficou num limbo.  Ele era produto de um modelo empresarial que se esgotou. Mas não foi o modelo que gerou o jornalismo, ele é um instrumento da democracia. O modelo apenas fraudou-o.

A necessidade e a importância do jornalismo numa sociedade democrática não se alteraram, talvez até tenham aumentado frente à complexidade do processo de comunicação.

Mas como sustentar uma atividade que viveu os últimos dois séculos de um modelo de negócios que agora não precisa mais dela para fazer seus lucros?

O jornalismo continua sendo essencial para a cidadania, mas tornou-se supérfluo para os anunciantes que o financiavam. Para eles, o jornalismo só interessa como um meio de manipulação.

Esse é o impasse.

Ou o jornalismo volta às origens e vive dos leitores ou vira uma linha auxiliar  do marketing, como induz modelo fanado.

 

MÁRCIA TURCATO/ Paises ricos ficam com as vacinas

“Só estaremos protegidos quando todos estiverem protegidos”.

O diretor geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhnom, não cansa de repetir esse argumento em todas as conferências de imprensa e reuniões com gestores mundiais, mas os chefes das nações mais ricas do planeta fingem que não escutam e continuam comprando a produção mundial de vacinas contra covid-19.

Estamos confrontados com um dilema moral. O nacionalismo está vencendo o princípio do cosmopolitismo. Chegamos ao final do mês de abril com cerca de 80% de um bilhão de doses das vacinas contra covid-19 adquiridas pela União Europeia e os cinco países mais ricos do mundo. Juntos eles têm apenas 13% da população mundial.

Em cada grupo de 100 pessoas, os Estados Unidos  vacinaram 60, e já estão vacinando adolescentes de 16 anos, faixa etária que nunca esteve nos grupos de risco. O Reino Unido vacinou cerca de 62 pessoas em cada grupo de 100, Israel já atingiu quase 100% de sua população alvo e o Canadá comprou nove vezes mais vacinas do que a sua população necessita. Prometeu doar o excedente quando receber o produto. E quebrar a patente dos laboratórios para que mais países possam fazer a vacina ninguém fala mais. Bastaria fazer a transferência de tecnologia.

Vários países da África, Ásia, Europa Oriental e Américas Central e do Sul não receberam nenhuma dose da vacina ou receberam pouquíssimas. No geral, as doses que chegaram aos países pobres não representam 1% do volume total produzido pelos laboratórios. Líbia e Tanzânia, por exemplo, não receberam nenhuma dose da vacina. Ou seja, esses países não conseguiram imunizar nem os seus profissionais de saúde.

Até o final de 2021, os laboratórios esperam entregar mais um bilhão de doses de vacinas. No entanto, a previsão da OMS é que os países pobres só recebam vacinas em 2022 e que o esquema vacinal esteja completo apenas em 2023. Nesses países vivem as populações mais vulneráveis do planeta, sem segurança alimentar, enfrentando conflitos armados, sem geração de renda, sem segurança sanitária e com campos de refugiados. Um lugar propício para o surgimento de novas variantes do covid-19. Esses locais deveriam ser prioritários para a vacinação. Mas não é assim que funciona.

Com a conivência dos laboratórios produtores de insumos, medicamentos e vacinas, os países compraram toda a produção para imunizar os nacionais primeiro. Imunizados os grupos de risco -profissionais da saúde, idosos e pessoas com comorbidade- esses países passaram a imunizar jovens desnecessariamente enquanto morrem as pessoas vulneráveis dos países pobres. Além de pobres, elas são negras, pardas e indígenas e impulsionam as estatísticas de óbitos e de casos. A pandemia é racista.

No Brasil, enfrentamos particularidades insólitas. O negacionismo da doença fez com que o governo não se preocupasse em adquirir vacinas de forma direta ou por intermédio da OMS. Aqui, o governante apostou em medicamentos para malária e para vermes fabricados no laboratório do Exército. Ineficaz para covid-19 como sabemos. Também não preparou a rede hospitalar com insumos e nem adotou ações não farmacológicas para o enfrentamento do agravo, como lockdown e uso de máscara, nem tão pouco criou estratégias de suporte para quem ficou sem renda. Hoje, o Brasil tem 116 milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar e 19 milhões sem ter o que comer. O Brasil voltou ao Mapa da Fome, do qual havia saído.

Vivemos um conflito da esfera federal com os gestores das unidades da federação e municípios e também com o Ministério Público e o STF. O descompasso é tanto que abre espaço para o Congresso Nacional admitir a compra de vacinas fora da gestão pública, como se não existisse um Programa Nacional de Imunização (PNI) dentro da estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS).

Na falta de uma gestão de bom senso surge também o movimento Unidos pela Vacina, liderado pela empresária Luiza Trajano, que pretende vacinar o público alvo brasileiro até setembro. Não sabemos como ela pretende fazer isso porque os laboratórios negociam diretamente com chefes de Estado e não com pessoas.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta uma taxa de desemprego de 14,6% em 2021. Junte-se a isso a informação de que a expectativa de vida do brasileiro caiu, em média, três anos no atual cenário de pandemia, resultado da falta de renda, da falta de acesso à educação e da falta de acesso aos serviços de saúde que estão lotados com casos de covid-19. O impacto da pandemia sobre a educação de milhões de crianças em idade de alfabetização e de estudantes que ficaram sem acesso às aulas ainda está por ser avaliado e levará décadas para que volte ao patamar em que estávamos em 2019.

E a Cultura, o que dizer dela. Museus fechados, espetáculos e exposições cancelados, espaços de convívio lacrados. A experiência da cultura e da arte nos foi tirada ao mesmo tempo em que restaurantes e shoppings continuam abertos. Não tem sentido. Alguém já viu um museu com aglomeração? Não existe, a lotação sempre foi controlada para preservar os acervos. Está acontecendo o desmonte dos espaços  tradicionais de resistência. Isso é estratégico porque em 2022 teremos eleição. Esse desmonte afeta diretamente as instituições que sempre foram espaços ocupados pelos democratas.

Talvez nunca saibamos qual foi o tamanho desse estrago. Não podemos esquecer que o governo federal decidiu que não fará o censo do IBGE. Não ter informações é perfeito para um governo negacionista. Sem dados, sem estatísticas, sem informações, o governo poderá inventar o que quiser e disparar em sua rede de fake news.

Consórcio Covax

O Consórcio Covax Facillity foi criado pela OMS para gerir um fundo global comum de vacinas contra covid-19. O Brasil é signatário dessa ação junto com mais 189 nações. Mas a intenção da OMS, de coordenar o processo e distribuir as vacinas com equidade no mundo, logo foi por água abaixo porque os países ricos negociaram direto com os laboratórios.

O cenário de pandemia começou quando a China comunicou à OMS, em 30 de dezembro de 2019, um surto atípico de um possível vírus gripal, identificado como uma variante do coronavírus no dia 9 de janeiro de 2020. No dia 11 de março de 2020 a OMS reconheceu o alto risco de contágio do vírus, chamado de covid-19, e declarou emergência internacional em saúde. Ou seja, pandemia.

Um ano depois, há cerca de 200 imunizantes contra o covid-19 no mundo. A rapidez surpreende. Uma vacina demora entre 10 e 15 anos para ser desenvolvida. No caso da vacina contra covid-19 a velocidade se explica, a origem da vacina é a mesma da influenza e também tomou como base estudos em andamento de imunizantes contra doenças respiratórias provocadas pelo vírus SARS e MERS.

Atualmente, há 78 fórmulas de vacinas contra covid-19 registradas e sendo testadas em animais. Outras 71 estão sendo testadas em humanos, 20 delas estão em fase final e oito receberam autorização para uso em vários países, sendo que quatro delas estão em conformidade com todos os padrões exigidos pelas agências reguladoras internacionais.

* Jornalista com experiência em comunicação de risco em saúde.

 

 

JOSÉ MANOEL GONÇALVES / Brasil, o convidado infame da Cúpula do Clima

Convocada pelo governo Joe Biden, a Cúpula do Clima será realizada nesta quinta-feira,  22, mesma data em que se comemora o Dia Internacional da Terra.

O encontro se estenderá até a sexta-feira, com 40 convidados, entre eles o presidente brasileiro. Dada a importância de nosso país na questão ambiental, é de se esperar que tenhamos uma participação de destaque nessa discussão estimulada pelo desejo norte-americano de liderar a batalha do planeta contra o aquecimento global.

Para tanto, precisaríamos desembarcar nos Estados Unidos com um discurso corajoso, ousado na crítica, mas também propositivo. Estamos preparados?

O impacto humano nas mudanças climáticas é algo fartamente comprovado pela ciência. O negacionismo e até mesmo o belicismo com que o governo brasileiro trata esses impactos é altamente prejudicial para toda a comunidade internacional que se debruça sobre a questão do meio ambiente.

O grande desafio da Humanidade nesse momento é encontrar um modelo verdadeiramente sustentável de desenvolvimento. Devemos proteger o direito das futuras gerações a um planeta saudável e, no limite, garantir a própria sobrevivência da raça humana. É uma luta civilizatória, que pertence a todos nós.

A busca por esse modelo se insere nas mudanças almejadas pela Agenda 2030 da ONU, com seus 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), que trazem os preceitos que devem sustentar nossa evolução rumo à sustentabilidade, entre eles o uso de fontes renováveis de energia, redução do gás estufa, defesa dos ecossistemas naturais e consumo e produção responsáveis.

Não podemos nos furtar de levar em consideração o drama das desigualdades sociais e suas implicações, especialmente em meio às ameaças da pandemia que já matou mais de 3 milhões de pessoas em todo o mundo, sendo quase 400 mil aqui no país.

Muito da degradação ambiental e das mortes presenciadas recentemente seria evitável se tivéssemos maior consciência coletiva e responsabilidade dos nossos governantes, que, lamentavelmente, ainda permanecem divididos, batendo cabeça, num espetáculo de horror, insensibilidade e pura incompetência administrativa e política.

O Brasil do governo Bolsonaro está criminosamente apartado dos esforços internacionais em defesa do clima e da vida. Estamos sujeitos a severas críticas por esse comportamento diversionista durante a Cúpula do Clima. Certamente, seremos tratados com desconfiança e desdém.

No frigir dos ovos da questão ambiental, somos hoje mundialmente uma piada pronta e fácil, para o desespero daqueles que pregam o avanço da sustentabilidade em nosso país.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é engenheiro, jornalista, advogado, professor doutor, pós-graduado em Ciência Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, integrante do Engenheiros pela Democracia e presidente da Ferrofrente – Frente Nacional pela Volta das Ferrovias.

GERALDO HASSE / Elementar, caro Whats

É tão elementar que chega a doer: a saúde começa com boa alimentação, ou seja, cesta básica, renda mínima e bolsa família – itens supletivos, na ausência de salários em uma economia saudável, para garantir comida aos pobres e ajudá-los a entender que sem educação (do ABC ao Doutorado) um país não avança na trilha do desenvolvimento sócio-econômico, artístico-cultural, científico e tecnológico…

Claro, não é só isso: é preciso também investimento em saneamento, habitação, infraestrutura e cuidados ambientais para alcançar o patamar da sustentabilidade com justiça social.

Os ricos, os cínicos e os hipócritas fingem não ligar, mas sabem que o conjunto de fatores citados no parágrafo acima configura o roteiro elementar da governabilidade, tanto que esteve mais ou menos presente em vários governos brasileiros, de Getulio a Lula, passando por JK, Jango, Castello, Geisel, Sarney, FHC e Dilma. Bem ou mal as coisas eram amarradas teoricamente para dar um resultado econômico e social, quase sempre negligenciando o equilíbrio ecológico, pois a questão climático-ambiental não parecia urgente como hoje. Uns mais, outros menos, os governos tentavam fazer o possível, na prática.

Pois bem, tão simples tricotar um plano mínimo de governo e nem isso temos. De todos os governantes dos últimos 60 anos, nem mesmo Collor foi tão primário e arrogante quanto o atual, que ostenta uma clamorosa ausência de bom senso e inteligência, enquanto se expressa por meio de clichês e platitudes inspiradas em preconceitos religiosos e premissas econômicas superadas.

Eleito sem debate nem programa, ele opera em zigue-zague e os comandantes das principais instituições da república comportam-se como cúmplices da destruição de direitos e esperanças, fingindo não ver o crescimento do desemprego, do subemprego, da fome e da miséria. Tudo elementarmente claro: a solução começa pelo binômio saudeducação, o resto é consequência. A saída para crises assim está prescrita na Constituição. Que os responsáveis tomem as providências cabíveis.

LEMBRETE DE OCASIÃO
“O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”
Almirante Barroso, em 186