PINHEIRO DO VALE
A presidente afastada Dilma Rousseff em pouco tempo deverá ser a última estrela de primeira grandeza do firmamento nacional que não foi tragada pelo buraco negro da Operação Lava Jato. Com isto, acrescenta-se uma nova possibilidade para seu retorno à chefia do executivo.
Os últimos acontecimentos que estão envolvendo os grandes caciques do PMDB que foram, na última eleição, fatores decisivos para a vitória da presidente no Norte-Nordeste, expõem os últimos redutos da conspiração que levou Michel Temer ao poder.
Ainda vão aparecer outros nomes. Estes vindos de todos os lados, desde a esquerda partidária até a direta fisiológica. Parte deles já presos e condenados, deixam à presidente como a estrela solitária, uma vez que nada substantivo apareceu envolvendo sua pessoa física.
Pedir apoio não é crime. Mais legal ainda quando o captador apresenta-se dentro da lei vigente. Seria este o caso apontado nos vazamentos da delação de Marcelo Odebrecht.
O jovem empresário baiano teria dito que a candidata Dilma pediu-lhe certa quantia para financiar sua campanha eleitoral.
O fato em si revela apenas o ativismo da candidata, principalmente se os valores solicitados estivessem dentro dos limites estabelecidos pelo TSE para os níveis de resultado da empresa abordada, o que, de resto, não diz respeito à captadora, mas ao doador, que deve saber até quanto pode ir.
A distorção que se aponta na Lava Jato é que esses valores captados tiveram uma parcela desviada para contas pessoais dos acusados no exterior, não declaradas nem tributadas.
Este é o crime criminoso a que depois os promotores penduraram uma série de agravantes decorrentes, como sua origem e seu destino.
Definitivamente: essa acusação é de fato anterior à data da posse.
Daí a importância do bordão brandido por Dilma afirmando não ter contas no exterior. Não têm por onde pegá-la. Se sua chapa for cassada, não será por improbidade pessoal da candidata, mas pela gestão de suas contas operadas por funcionários e dirigentes partidários.
Nem isto foi comprovado nem apresentado como acusação na Lava Jato nem no processo de impeachment, por inépcia de tais denúncias.
É nesse contexto da Lava Jato que o procurador Rodrigo Janot pediu a prisão dos caciques do PMDB nordestino. Sérgio Machado, o delator, teria dito que essas pessoas seriam donas de quotas de fundos administrados por seus filhos no Exterior.
Entretanto, argumenta-se que tais fundos não estariam em nome dos acusados, depositados em confiança. Negando a titularidade, perdem-se os depósitos e se vai a garantia do fio de bigode.
Então, sendo verdadeiras as denúncias, para se verem livres as pessoas teriam de assistir impassíveis aquelas fortunas entrarem pelo ralo esvaindo-se sem dó nem piedade.
Melhor negar, se for verdade, o que não se comprova e os acusados negam de pés juntos.
Dilma está fora desta embrulhada. Diz que não sabia e com certeza ignorava tais tramoias. A esta altura, se alguém tivesse um menor indício a apresentar em sua defesa envolvendo à presidente afastada, já teria posto as cartas na mesa, tal como o delator Sérgio Machado.
Estes fatos projetam a cada dia o ausência da presidente nesses fatos que estão explodindo as lideranças de todos os matizes e implodindo o sistema partidário da Nova República.
Na entrevista a Luís Nassif, que foi ao ar quinta-feira pela TV Brasil, a presidente afastada põe na mesa uma proposta de profunda reforma política. Isto saiu numa frase curta, mas que ainda está retumbando em Brasília.
Nesta entrevista aparece uma Dilma segura e cordata. Analisa as causas da derrocada que levou à crise econômica com segurança acadêmica. Apresenta o processo político como uma manobra exitosa do PMDB para tomar-lhe o poder, valendo-se do enfraquecimento de suas bases parlamentares.
Citou poucos adversários, destacando-se seu arqui-inimigo, o presidente da Câmara Eduardo Cunha. Também emitiu palavras duras a seus adversários nas duas eleições, José Serra e Aécio Neves, e queixas ferozes contra os caciques paulistas, o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer, o presidente interino.
Na formulação política, defende o presidencialismo como melhor modelo político para liderar as reformas. Disse que isto é comprovado pela História, pois ao longo de todo o período republicano o executivo sempre foi mais avançado que o legislativo.
Ela diz que os presidentes chegam ao poder com proposta concretas, enquanto os congressos se perdem diluídos por interesses variados, impossíveis de serem conciliados para grandes consensos.
Ela não se referiu a nenhuma grande reforma, mas deixou implícito de que foram os presidentes que sempre estiveram à frente dos grandes passos à frente no Brasil.
Com isto ela chegou a um apelo às urnas. Não deixou claro, mas deu a entender que poderia ser um plebiscito, uma constituinte, algum outro mecanismo originário de uma consulta popular que produzisse os efeitos necessários à reorganização institucional do País.
Neste caso, sua legitimidade como chefe do executivo seria essencial para arbitrar e conduzir o processo eleitoral nessa consulta.
Dilma não mencionou os embates no Senado Federal em torno do impeachment.
Ali se produz um confronto de personalidades jogando numa mesa de cartas marcadas.
Transmitidos ao vivo pela televisão, os debates empacaram num diálogo de surdos. Cada lado parece ter uma agenda própria, no caso a exposição de futuros candidatos aos governos estaduais em 2018.
A bancada legalista apresenta seus nomes: Lindemberg Farias, Vanessa Grazziotin, Gleise Hoffmann, Telmário Motta, Humberto Costa, Fátima Bezerra; na bancada golpista despontam Aloysio Nunes Ferreira, Ronaldo Caiado, Simone Tebet, Ana Amélia de Lemos, Antônio Anastasia.
Nessa arena parlamentar, também se pode esperar novos momentos. Em caso de afastamento do presidente Renan Calheiros, assume o primeiro vice-presidente, senador Jorge Viana, do PT do Acre.
Caracterizado como um parlamentar sereno nos momentos em que assume o comando do plenário da Câmara Alta, Jorge Viana, em caso de afastamento do presidente Renan Calheiros, poderá ser a antítese de seu par da Câmara dos Deputados, o vice-presidente em exercício Waldyr Maranhão. Este manipulou o regimento e usou seu poder para atropelar o andamento da Comissão de Ética que julga o comportamento do presidente afastado Eduardo Cunha.
O respeitado senador acreano poderá fazer cumprir estritamente o regimento interno da Casa e os preceitos da Constituição e do Código de Processo Penal apagando o motor da patrola da bancada golpista majoritária, dando as garantias para os reclamos da bancada legalista, impugnando manobras e procedimentos da mesa da comissão do impeachment.
Uma varredura dessa tramitação poderia levar o processo à extinção por falta de provas e de objeto.
Autor: da Redação
Articula-se um novo governo
PINHEIRO DO VALE
A presidente afastada Dilma Rousseff está quase convencida de que precisa dar um novo rumo à sua campanha para voltar ao Palácio do Planalto.
Seus assessores da ala pacifista estimam que o projeto belicoso em curso não alcance oobjetivo de interromper o processo de impeachment e nem mesmo de barrar a condenação no plenário do Senado.
A proposta em estudo é deixar para trás o simples retorno ao mais do mesmo reivindicado no bordão ”Volta Dilma” e entrar com uma outra proposta para o País, com novo formato político, de forma a romper o atual impasse em que nem ela nem seu vice, atual presidente interino Michel Temer, têm solução.
O grande cacife é a legitimidade da eleição direta vencida pela presidente. A manobra criativa seria Dilma ressurgir com uma nova proposta de salvação nacional, compondo todas as forças políticas sem hegemonias. Neste caso, o PT seria apenas mais um partido da sua base, tal como o PMDB e outros integrantes do centrão.
Os partidos de oposição voltariam para seus lugares, mas haveria um entendimento para conter a derrocada da economia e do quadro fiscal. A decisão final seria adiada para 2018, quando essas forças irão se medir nas urnas.
A solução política para formar um governo estável seria a mesma do impasse anterior de 2005, quando a governabilidade se esvaiu engolfada pelo impasse das forças no Congresso abrindo espaço para o domínio do baixo clero, representado pelo então presidente da Câmara Severino Cavalcanti.
Esta situação repetiu-se com a eleição de Eduardo Cunha. O deputado carioca é um político bem mais dotado que Severino, mas sua fonte de poder tem a mesma origem. E o resultado se repete.
A diferença é que na década passada o então presidente Lula (que chegou a usar a seu favor o esdrúxulo Severino), rapidamente deu uma guinada e compôs uma solução salomônica, como a foi a eleição do deputado do PCdoB Aldo Rebelo para a presidência da Câmara, compondo uma mesa de transição que levou a nau dos insensatos a bom porto.
Dilma já está consciente do impasse e ouve sem gritos os cenários desses conselheiros. Terá de dar uma guinada e se apresentar às forças políticas com nova proposta. Sua força é a legitimidade, Sua fraqueza sua incapacidade política.
Neste caso, deve chamar para “primeiro-ministro” desse semiparlamentarismo ad hoc uma liderança com credibilidade e trânsito em todas as forças políticas.
A hipótese anterior, fracassada, seria levar Lula para o comando do governo. Entretanto, com o ex-presidente tão abalado pelas vicissitudes da crise, seu nome não seria uma saída para a pacificação.
Procura-sem outro nome com grande trânsito e credibilidade para, uma vez mais, recompor a imagem estilhaçada.
O futuro ministro líder deveria preencher as necessidades do momento: vir de im partido de fora do circuito PT, PSDB ou PMDB. O ideal seria ver é de uma agremiação de cunho programático, isento das supeitas de motivação fisiológica.
Coisa rara no quadro partidário brasileiro.
Com isto é possível, acredita-se (e dizem que Dilma já quase concorda) que colocando o objetivo nacional à frente pode-se recuperar a confiança.
Este é o ponto de inflexão, pois se a base da economia, os pequenos, entenderem que não vão falir, reabrindo suas oficinas, suas lojas, seus institutos de beleza, chamando de volta empregados dispensados no turbilhão do medo, a economia rapidamente readquire condições de se reerguer.
A pequena fábrica, a oficina, a loja, o salão, reabertos; o trabalhador, o mecânico, o caixeiro, a cabeleireira de volta o comércio se reaviva, a arrecadação aumenta, os pedidos se ampliam.
Restaura-se o que os economistas chamam de “consumo das famílias”, que é o verdadeiro motor da sociedade de consumo.
Fora isto, a situação macroeconômica ainda não apresenta sinais de desastre total, com câmbio estável, balança comercial positiva, sistema bancário saudável, que são alguns dos espaços positivos para retomar a construção civil, as estradas, os portos e assim por diante.
O País está na UTI, mas ainda respira sem aparelhos. É o que dizem os otimistas.
Um novo governo. Um novo projeto. Passar a borracha e andar em frente. O mundo observa o Brasil. Uma solução de altíssimo nível e a modernização de suas instituições seria um sinal decisivo para manter o Brasil na sua posição de grande potência, de onde parece despencar neste momento.
Uma posição que o País não pode perder. A História não poupará.
Quanto a Dilma, do alto de sua legitimidade poderá ser o (ou a) árbitro (a?) das grandes reformas. Uma delas é da própria Presidência.
Estupros: desde 1964, na linha reta do tempo
RAUL ELLWANGER
Uma jovem brasileira foi estuprada por mais de duas dezenas de homens cidadãos, em maio de 2016. Foi vitima de tortura, mais especificamente, de tortura sexual.
O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi condenado por ofender a colega gaúcha Maria do Rosário (PT) no plenário da Câmara em 2014:
— Há poucos dias você me chamou de estuprador e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece — disse o deputado durante uma sessão.
Em que consiste a ofensa ? Na ameaça de estupro ? No livre arbitro do deputado em estuprar ou não ?
Tortura consiste em submeter outrem a dor violenta, com objeto de extrair confissão ou informação, ou sem este objeto. A tortura policial ou política tem uma finalidade, é funcional, seu objetivo é destruir o outro.
A tortura sem finalidade aponta apenas para a doença mental do seviciador. A que serve este tormento ? Para o gozo do perpetrador ? Há prazer em fazer sofrer ?
Estupro é submeter outrem pela força à perda do domínio e da privacidade de seu corpo, através de relações de tipo sexual, sejam genitais ou não.
É de sua natureza orgânica um brutal constrangimento moral, dada a auto-estima que toda pessoa tem, convicções religiosas, associação com maternidade, conceitos de hombridade, tradição cultural.
Qual o objeto do estupro?
A repressão policial e politica com frequência combina tortura com violência sexual, assim se fala em tortura sexual. Por experiência, o repressor sabe que a força de ‘demolição’ do tormento material e moral sobre o torturado se incrementa quando tem conotação sexual.
Isto é denotado pelas ofensas verbais, carregadas de sexismo supostamente ofensivo, assim como pela minucia com que se devassa e mortifica cada parte do corpo vitimado.
O mesmo deputado em reiteradas ocasiões tem feito o elogio de torturadores do regime militar, assim definidos oficialmente pelo Estado Brasileiro no Relatório da Comissão Nacional da Verdade de 2014.
Na prática da vida real, o mais importante na situação atual é a impunidade de cerca de 400 criminosos listados, tendo à frente generais e ditadores.
Quando dezenas de homens violam uma moça, estão praticando tortura e tortura sexual. Não buscam informações ou destruição de um ‘inimigo’ (o subversivo, o ladrão), pois o martírio que realizam não tem objetivo.
Tampouco se pode supor a fruição de prazer e deleite. Estaremos diante de enfermos, de psicopatas ? Fizeram o que fizeram por pura diversão ?
Ligando a fala do parlamentar com a violação múltipla, temos que o elogio atual do torturador do passado estimula a violência do estuprador do presente. A fala daquele torna natural, comum, banal e aceitável a violação.
Quando o falador diz que depende dele torturar sexualmente a deputada ou não faze-lo, está dizendo que a tortura é corriqueira, vulgar, que ele opta por ela ou não segundo seu critério.
Ademais, fala disso aos gritos em pleno Congresso Nacional. Os homens que arrasaram a jovem seguem a mesma lógica, de praticar a violência sem respeitar a outra pessoa nem as barreiras morais e legais criadas pela sociedade.
Para tais criminosos, vale apenas seu arbítrio, a imposição da força bruta sobre uma mulher indefesa, como fizeram os Ustra, Fleury, Malhães, Seelig, Cerqueira, Curió, Correia Lima, Audir, Dulele e demais ícones de Bolsonaro sobre cidadãs e cidadãos sequestrados nos DOI-CODI.
No terreno da moral, da lei e da política, o nostálgico Bolsonaro estimula e é cúmplice da violação atual.
Na falta de ‘subversivos’, dispara sua baixeza contra a colega parlamentar e mulher. Imaginemos o que faria contra uma jovem simples do povo, não parlamentar. Imaginemos o que faria contra uma raptada oculta de 1971, na penumbra e solidão de um quartel remoto.
Há algo comum entre os violadores de hoje, o deputado militar e os torturadores de 1964: a idéia da banalidade. Esses rapazes acreditam que se com aqueles grandes criminosos seriais nada acontece, se até mesmo um parlamentar diz que torturar é banal e vulgar, então estuprar uma mulher é fato corrente e comum.
Como nem os agentes de 1964 nem o parlamentar são punidos, se divulga a idéia de que nada acontecerá, que ficarão impunes seus crimes como milhares de outros seguem sem punição desde mais de 50 anos.
Se os atormentadores da ditadura tinham um motivo ou pretexto para torturar e violar sequestradas e sequestrados, os estupradores de hoje não dispõem (segundo as noticias atuais) de alguma justificativa ou explicação para seu ato. Nem motivo passional, nem vingança, nem roubo, nem acerto de contas, nem disputa de território. Nem podemos supor perguntados pelo motivo de tão hediondo crime, dirão que o praticaram… qualquer ressaibo de prazer. Entre a impunidade e a banalidade, porque sim.
Combinando com os russos
PINHEIRO DO VALE
A antecipação dos prazos, pela comissão do impeachment no Senado, vai acelerar o início da segunda fase da campanha de Dilma para recuperar o seu mandato: seus estrategistas vão antecipar o corpo a corpo com senadores, previstos para o começo de julho.
A segunda fase, que se inicia com o comício da Esquina Democrática, nesta sexta-feira, em Porto Alegre, inclui os protestos contra o golpe se ampliam e tendem a crescer e se espalhar pelo país.
Para isto, conta-se com a crescente impopularidade do Governo Provisório do presidente interino Michel Temer.
Sem soluções para o desemprego crescente e a inflação de preços, o descontentamento tende a passar dos espaços militantes para generalidade das ruas.
Somente a partir dessa fase será prudente a própria presidente Dilma assumir a linha de frente das negociações com os parlamentares eleitores do Senado Federal.
Uma proposta de movimento tático é reproduzir, em parte, a experiência grega.
O primeiro ministro Aléxis Tsipras, cargo com eleição direta, venceu a situação conservadora em janeiro e 2015 com um programa de aumento dos gastos públicos, ampliação de benefícios sociais e moratória da dívida externa.
O projeto não funcionou devido à resistência do sistema financeiro europeu de alargar prazos de pagamento. Ameaçado de exclusão da Zona do Euro o novo governo entrou em semi-colapso. Era queda iminente, nos moldes do sistema político local.
Tsipras deu um lance de grande coragem política: foi para as ruas com um mea culpa, assumiu que seu programa era inexequível e propôs uma nova política econômica diametralmente oposta. Ninguém esperava que ele fizesse isto.
Com a mesma votação de janeiro, reforçando sua legitimidade, venceu novamente em 20 de setembro e deu a guinada que, pouco a pouco, vai tirando a Grécia do buraco.
Também no Brasil a presidente afastada pode usar seu respaldo de legitimidade para propor um novo pacto com seu eleitorado.
Para isto Dilma precisa mudar, pelo menos, oito votos no plenário do Senado, dando, desde já, como perdida a batalha na comissão especial, esmagadoramente favorável ao impeachment.
Seu argumento principal seria a possibilidade real de com ela encontrar uma saída para a crise econômica e abrir espaço para negociações políticas consequentes. Sua força real é a legitimidade dos 54 milhões de votos. Isto é inegável. Tsipras é uma prova palpável.
Em segundo, ela viria com uma nova política econômica que, respeitando a austeridade, aproveitando-se, também, dos avanços no legislativo de propostas que ela apresentou, mas foram rejeitadas.
Apresentaria alguns fatos novos. Primeiro: Lula assumiria ostensivamente o comando político.
Com o ex-presidente dando fiança, a antiga base aliada poderia voltar, aceitando como efetivos os acertos políticos. Esta seria uma queixa removida.
Neste sentido, também com apoio de Lula poderia manter a equipe de Henrique Meirelles, com as bênçãos do ex-presidente. Seria a base de credibilidade para descongelar a atividade econômica.
Tal demonstração de flexibilidade seria o aval para a retomada da confiança para investidores, interna e externa.
Nesse projeto de retomada do crescimento, tendo ênfase as concessões de infraestrutura e joint ventures nas estatais, seriam um elemento poderoso para robustecer o mercado de trabalho nos empreendimentos de engenharia pesada.
Também seriam tomadas medidas para reativar a economia no varejo e serviços, encorajando pequenas indústrias e lojistas a abrirem suas portas, chamarem de volta empregados dispensados e assim dar um sofre no no desemprego.
Não é descartada a proposta de um lance ousado, como convocação de eleições em curto prazo ou de uma constituinte exclusiva para a reforma política. Também nesses casos o estado estaria sob Dilma, pois ela confere a legitimidade.
Tanto no País como no Exterior, a volta da presidente afastada seria um sinal poderoso de normalidade constitucional, algo importante para recuperar a imagem externa abalada pelas tropelias do golpe e a confiança interna de segurança jurídica para a retomada dos negócios.
O projeto de ação com um desenho nesse quadro está sendo examinado.
O desafio a Dilma será recompor seu relacionamento com os parlamentares, incluindo, neste caso, uma modus vivendi com o presidente interino Michel Temer e seu PMDB. Sem o centrão seria impossível governar.
Ela teria de, com esses movimento, comprovar que pode oferecer governabilidade. Esse é o ponto central, pois Temer tampouco está conseguindo domar as forças centrífugas que arrebentam o pacto da coalisão.
Até chegar a uma reforma política, o Executivo terá de se conformar com o multipartidarismo em vigor.
A percepção é que se as ruas não votam no Senado, elas podem ajudar a mover votos contrários. Afinal, a última pesquisa já apontou Dilma com 33% de apoio, um crescimento significativo, pois quando levou o golpe não tinha mais de 11 por cento.
Enquanto isto, Temer está parado nos oito por cento, ou seja, 92 por cento de impopularidade. É um bom desenho, no entender dos estrategistas. O desafio para a presidente afastada é conseguir combinar com os russos.
A Globo e o golpe
Em 1964 também diziam que não era golpe. Era “intervenção preventiva”.
O jornal o Globo (a Rede ainda não existia) saudou a “Democracia restaurada” quando o senado declarou vaga a presidência e empossou Rainieri Mazzilli, presidente da Câmara, no lugar João Goulart, o “presidente afastado”.
Um governo de salvação nacional seria instalado, eleições seriam convocadas, a normalidade democrática seria restabelecida.
O Globo era o porta voz desse discurso. A crise militar se seguiu, a linha dura se impôs, a ditadura mostrou a sua cara. A Globo se cevou à sombra desse descaminho. Foi a rede oficial do regime, enaltecendo-lhe os feitos, mascarando os mal feitos.
É o papel que assume hoje em relação ao impeachment e ao governo Temer. Até agora parece bem sucedida e é clara sua aposta no governo Temer para voltar a florescer à sombra do oficialismo.
O problema é que estamos em 2016. E, segundo dizem alguns, a história só se repete como farsa.
O gravador do Machado
PINHEIRO DO VALE
O gravador do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, está causando mais sucesso que o gravador do Cacique Juruna.
Quarta-feira ele quase botou fogo no circo quando foram publicadas as transcrições de suas conversas com o presidente do Senado Federal, senadorRenan Calheiros (PMDB/AL).
A tática de Sérgio Machado é tão parecida que até parece plágio da tática do célebre cacique da tribo dos Xavantes para embaraçar e comprometer seus interlocutores.
Nos seus contatos com autoridades, Juruna (que depois chegou a deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro)acionava o aparelho e usava as transcrições como documento para comprovar a desfaçatezdesses funcionários e governantes que, certos de sua ingenuidade, prometiam tudo e depois davam as costas.
Com tudo na mão, certo dia o cacique apareceu em Brasília e exibiu suas provas à imprensa. Foi um grande escândalo de mídia. Jornais botaram a boca do mundo; as tevês deram espaço.
O Cacique Juruna virou uma celebridade. Com seu gravador escancarou a hipocrisia e a má fé dos ativistas da FUNAI que, nas cidades, se pavoneavam como defensores das causas indígenas.
O mesmo se repete agora com o Gravador do Machado. O ex-diretor da subsidiária da Petrobrás pegou sua maquininha e foi à luta. Procurou os manda chuvas, gente envolvida em captações para campanhas políticas, todos poderosos que lhe deviam favores e, com grande habilidade, arrancou deles falas comprometedoras.
Quando o Lava Jato virou sua mangueira em cima dele, abriu o bico e deixou a todos na saia justa. Embora as conversas não tenham muita profundidade, deixam claro ao bom entendedor que ali se ouvia apenas a pontinha do iceberg.
Derrubou um ministro de primeira linha e botou o governo do presidente interino Michel Temer na defensiva.
O mesmo pode-se dizer do vazamento de Renan Calheiros. As críticas do senador à delação premiada não emocionam muito, mas o antagonismo do Supremo em relação à Dilma pode abrir um leque de suspeições.
Afinal, naqueles dias, o STF indeferiu muitos pedidos de liminares dos advogados da presidente.
No mínimo pode-se perguntar: quanto de má-vontade e de despeito poderiam conter as decisões dos ministros?
O tsunami vem aí. Dizem que a próxima gravação de Machado vai pegar o ex-presidente José Sarney, que também foi um dos chefes peemedebistas que abandonou Dilma, mandando seus seguidores votarem pelo impeachment. O voto do ex-ministro Edson Lobão é a prova mais contundente.
Por fim, vale destacar a pérola dessa fita, no trecho em que Renan Calheiros diz, embora de forma incompleta, que estava sendo negociada uma saída com o ex-presidente Lula.
Pelo que se entendeu da conversa, Lula assumiria o poder, seria um chefe da Casa Civil com formato de primeiro-ministro. Pois é: Dilma perdeu o bonde. Se abrisse espaço para o ex-presidente certamente ainda estaria despachando no Palácio do Planalto.
O mistério do vazamento
PINHEIRO DO VALE
O mistério da República é localizar a quem interessava detonar o ministro do Planejamento de Michel Temer, o senador roraimense Romero Jucá, com a divulgação do conteúdo de conversas embaraçosas entre ele e um aliado há mais de três meses.
Deitar na lona um peso pesado como Jucá é uma proeza de múltiplos resultados, todos negativos para o governo recém-instalado.
Não obstante estar envolvido em fase de indiciamento em sete processos tramitando no Supremo, Jucá emergia no colégio de cardeais, não era membro da banda do baixo clero no ministério Temer.
Ao contrário, o senador nortista faz parte da banda virtuosa do gabinete peemedebista, ao lado de Henrique Meirelles. Wellington Moreira Franco e outros astros do segundo escalão, como Pedro Parente. Pois não é que ele caiu de quatro logo ao levar o primeiro tiro?
De fato, Jucá não era tão ficha limpa assim como se pintava na nova imagem, pois desde sempre, como político dos fundões remotos, construiu lá carreira passando por cima de obstáculos que, no Sul, já teriam acabado com ele há muito tempo.
No jovem estado de Roraima esses tropeços não passavam de pecadilhos. Não adiante se espantar: o Brasil é assim.
Antes de cair nas malhas dos templários de Curitiba, Jucá já passara pelos incômodos do fisiologismo da política naquelas bandas, envolvido numa negociata de desvio de madeira de terras indígenas quando ainda de sua estreia na esfera federal, como simples e jovem presidente da FUNAI.
Na Justiça o processo se extinguiu por prescrição. Na política foi absolvido com a alegação então aceita de que a madeira não era dele, o dinheiro foi para o partido, com os apoios decorrentes foi catapultado para o governo do Estado e daí para a arena nacional na Câmara, no Senado e, desta feita, num ministério de primeira linha.
Tudo isto para dizer que Jucá não é pouca coisa. Quem olhasse sua posição até a noite de domingo diria que se tratava de uma nova estrela no firmamento. Deixava obscuras bancadas periféricas para se lançar como teórico da economia, gestor de primeira linha, articulador político de alto desempenho, conselheiro de pé de ouvido do presidente. Ou seja: um manda chuva.
Já se sabe que a gravação era parte do material da delação premiada de seu interlocutor, o ex-presidente da Transpetro, empresa subsidiária da Petrobrás, Sérgio Machado, já nas malhas do juiz Sérgio Moro. Ou seja: o autor da gravação foi o próprio delator Sérgio Machado.
Então por que se botou a boca no trombone? Os primeiros suspeitos são os próprios membros do Judiciário, agastados com o que consideraram uma desfaçatez de Michel Temer passar por cima dos indiciamentos e outros que tais, nomeando Jucá ministro de linha de frente sem a menor cerimônia.
Esta suposição ganharia verossimilhança porque estaria repetindo o episódio das gravações de Dilma e Lula.
Consta que, ao se convencerem de que a presidente levava Lula para a Casa Civil como uma manobra para tirá-lo da frente do juiz Sérgio Moro, jogaram na rua a evidência que tinham para que ninguém duvidasse. E Lula caiu.
Agora repetem a dose com Jucá: Temer desconheceu as evidências aceitas pelo juiz e ministros do Supremo e, então, levou. E Jucá recebeu um tiro no meio da testa, não nas costas como seria numa outra versão, de cunho conspirativo, que também corre (irresponsavelmente, pois não se sabe de onde saiu) em Brasília.
Na capital federal o menor segredo é a origem de um boato. Quando não tem dono, todo o mundo fica alerta. É o caso deste, atribuído a forças ocultas que teriam como objetivo fortalecer a posição do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Vejam os leitores como se explica esta fantasia: Jucá seria uma ameaça à candidatura de Meirelles para 2018. É pouco?
Nessa narrativa entram vários por quês. Meirelles é candidato a Fernando Henrique, o ministro da economia salvador da Pátria.
A se confirmar que Meirelles fica com Fazenda e Planejamento (com todo seu cortejo de bancos e outras instituições), configura-se o desenho que Lula sugeriu a Dilma.
Então Temer comprou a peça, podendo haver um acerto de bastidores para leva-lo como nome da chamada base aliada, catalisando uma coligação considerada impossível no cenário atual.
Entretanto, ela poderia se compor para a eleição de 2018, se não no primeiro, no segundo turno. Se fosse assim, outro candidato dentro do mesmo governo seria um empecilho. Melhor matar a cobra de pequena.
Se for isto que ocorreu inocenta o PT, pois estaria por traz de tudo o trio dos “imperdoáveis”, quais sejam: o juiz Sérgio Moro, o procurador geral Rodrigo Janot, e o ministro do Supremo Teori Zavascki (este mencionado por Jucá como “inconversável”).
Há outra também alicerçada na ambição de Jucá de chegar a uma candidatura presidencial: o PMDB de São Paulo, apoiado pelas frações sulistas, não veria com bons olhos a recondução do grupo liderado pelo ex-presidente José Sarney. Também é improvável, mas possível.
Há tantas versões que se desfiarmos todas aqui, não caberiam no servidor da Internet. A verdade é que há muito mais coisas no ar do que aviões de carreira, diria o gaúcho Barão de Itararé.
Quem morre de rir destas trapalhadas é a presidente afastada Dilma Rousseff. Embora saiba que estes fatos não influem no resultado da votação deu impeachment no Senado.
Sua tropa parlamentar tem se mostrado muito limitada, não conseguindo ir além de um discurso considerado simplório. Como comentou um velho comunista veterano deste tipo de embates, relembrando a origem desses debatedores: “é nível secundarista”.
Nas ruas, nas assembleias, nos espaços públicos em que pode se manifestar, Dilma se aproveita para, como fizeram com ela os tempos em que tinha as mãos atadas pelo cargo, fazer sangrar o governo golpista. Como diz o provérbio sueco: “a espada das mulheres está na boca delas”.
O fantasma que assombra Temer
P.C. de Lester
O Globo destacou duas repórteres – Junia Gama e Isabel Braga – para apurar a real influência de Eduardo Cunha junto ao governo interino de Michel Temer.
Elas produziram duas matérias no fim de semana, concluindo que Temer aposta numa gradativa redução da força Cunha, pelo afastamento das instâncias formais do poder.
A primeira matéria reproduz uma declaração de Cunha, feita a vários deputados da sua bancada: “Se eu renunciar vocês tem alguma dúvida de que vou ser preso? Se for preso, vocês acham que vou sozinho?”
Isso foi dito, dias depois do afastamento de Cunha da presidência da Câmara. É um recado e uma ameaça, que seus interlocutores trataram logo de fazer chegar ao Planalto.
As expectativas de Temer, segundo O Globo: à medida que seu isolamento vai se consolidando, Cunha vai perdendo a influência junto aos deputados de sua bancada, mais preocupados com suas próprias trajetórias.
O jornal estima que hoje Cunha tem 50% de sua força na Câmara, “ou menos”. Chegará um momento em que para , salvar os dedos, ele entregará os anéis.
Cunha certamente não pensa assim, ainda. Montou seu gabinete em casa e segue despachando e conversando com seus aliados como se estivesse na ativa. Mais: nesta segunda-feira, promete voltar a frequentar a Câmara, numa clara afronta ao STF que determinou seu afastamento.
Por enquanto, segundo O Globo, a ordem do Planalto é atender no que for possível as demandas de Cunha e evitar ataques a ele. Elio Gaspari, no mesmo O Globo, diz que “Cunha tem um aliado em André Moura (lider de Temer na Câmara) e não se pode dizer que tenha uma adversário no Planalto”.
Ao desafiar o STF, voltando a frequentar seu gabinete na Câmara, como anuncia, Cunha joga uma cartada decisiva.
Não só para ele, como para o governo Temer que já enfrenta várias frentes de desgaste – desde o recuo em relação ao Ministério da Cultura até a reforma da previdência, que quer elevar a idade para aposentadoria, quando o próprio presidente interino se aposentou como Procurador aos 55 anos.
O futuro de Dilma
PINHEIRO DO VALE
O presidente do Congresso Nacional, senador Renan Calheiros, visitou pela primeira vez a presidente afastada Dilma Rousseff na quinta feira, para dizer-lhe que o quadro político lhe é muito desfavorável.
Se já estava perdida, agora piorou, porque mais dois senadores disseram que votam pelo impeachment, aumentando, em vez diminuir, sua desvantagem.
Os políticos da base de apoio à presidente, em Brasília, estão cada dia mais constrangidos quando falam com ela e ouvem seus propósitos beligerantes.
Ela não se cansa de chamar Michel Temer de presidente provisório, o que de fato ele ainda é, mas os aliados ficam sem jeito quando ela diz tudo o que pretende fazer quando voltar para o Palácio do Planalto.
Foi por isto que o senador Jorge Viana, do PT do Acre, pediu a Renan que fosse com ele até o Palácio da Alvorada, para dizer a ela que a situação piorara, pois os dois senadores do PMDB nortista, Jader Barbalho, do Pará, e Eduardo Braga, do Amazonas, que não tinham comparecido na sessão do dia 11 de maio, disseram que agora vão se apresentar e dar seus votos a favor do impedimento.
Os correligionários de Dilma se dizem preocupadíssimos. Ela parece não estar neste mundo.
Chama ministros (Eduardo Cardozo e Nelson Barbosa) para despachar, convoca a bancada parlamentar, manda marcar comícios. Quando os mais próximos se referem à situação que, como dizia o sambista Adoniram Barbosa, “está cínica”, ela parece não ouvir, muda de assunto. “Faz olhar de paisagem”, disse um deles.
Por isto pediram socorro a Renan, mas não adiantou muito. Diante da evolução política e, principalmente, das eleições que estão logo à frente, o PT e demais partidos que ainda ficaram com ela, precisam se acomodar no quadro eleitoral para não serem tragados nas urnas pela crise.
As pesquisas revelam que se o presidente interino não é popular e, muito pelo contrário, é
visto com desconfiança e hostilidade; aos poucos o eleitorado vai percebendo que o discurso de Dilma é falho num ponto essencial: quem botou Temer lá? Ele chegou com a votação do PT, tanto quanto a presidente. Se não fosse isto, não estaria no cargo.
Temer e seus porta vozes estão esgrimindo com habilidade este fato. Dizem nas entrevistas que o presidente interino não tem toda a força que se espera dele porque chegou ao governo nessa forma enviesada, que tem de quebrar o galho, que não é candidato e não espera ser popular.
O importante, os novos governistas estão dizendo aos quatro ventos, é contar a verdade, não mentir, não esconder nada. Este discurso vem diretamente da percepção generalizada de que Dilma disse uma coisa, na sua campanha, e fez outra. É o tal “estelionato eleitoral”, uma expressão que está voltando aos poucos contra a esquerda. O PT não pode deixar este bordão colar na sua imagem às vésperas de uma eleição.
A verdade é que o PT não conseguiu ainda reverter o discurso e com isto não logrou reassumir a trincheira de oposicionista. Falar bem de Dilma ainda é inadequado para a população, quando seus antagonistas brandem contra seu governo com desemprego e inflação.
As filas dos que procuram novas colocações e as remarcações nas feiras livres ainda falam mais alto.
Botar a culpa da carestia em Temer requer uma ação urgente.
Um possibilidade de fazer Dilma virar o cano de sua arma para outro lado é um ideia bastante criativa, inesperada, diriam alguns, estapafúrdia, diriam outros. É preciso criar um movimento positivo de apoio a ela, algo que poderia se não mudar o rumo das coisas em todo o país, pelo menos amenizar as rejeições.
Neste fim de semana, caiu como um furacão, em Brasília, a entrevista-documentário do deputado gaúcho Ibsen Pinheiro, na TV Câmara.
É um filme autobiográfico, em que o parlamentar do PMDB conta sua vida e relembra o impeachment de Collor, que foi deflagrado por ele, e faz uma autocrítica de sua carreira, refletindo sobre os motivos de sua queda.
A entrevista é recente, mas gravada bem antes do impeachment de Dilma. O assunto ainda era uma especulação.
Relembrando os fatos, dizendo que a crise política era derivada da ruina da economia, Ibsen reconhece que as denúncias de Pedro Collor e o Fiat Elba foram meros pretextos.
Diz Ibsen que Collor caiu porque levou a economia ao colapso e não tinha mais condições políticas de liderar uma estabilização mínima, muito menos uma recuperação.
A entrevista foi reprogramada por causa dessa afirmativa, como um recado do parlamento atual sobre a legitimidade do impeachment de Dilma.
Indo adiante, Ibsen comparou-se a Collor (sem falar ainda de Dilma) para explicar sua queda vertiginosa, caindo de candidato a presidente da República para o olho da rua cassado numa processo de político/parlamentar ancorado numa matéria mentirosa da revista Veja, um erro de revisão que acrescentou três zeros à sua conta bancária no exterior. Onde tinha um depósito de mil dólares a revista da Marginal escreveu um milhão. Só isto bastou.
Este erro que só anos depois foi admitido, era a causa alegada. Entretanto, diz Ibsen no documentário, ele caiu porque, primeiro, foi levado muito rapidamente de um papel de baixa média intensidade (presidente da Câmara) para os píncaros da glória, com a viabilização de sua candidatura presidencial ( “Aí descobri que tinha inimigos e adversários”) e, o principal, afirma, não tinha cacife político para se sustentar naquela posição.
Mutatis mutantes seria a situação da presidente Dilma, quando perdeu sua base política majoritária. Alguns assessores lhe dizem que ela precisa reconquistar seu espaço como líder da esquerda, esquecendo-se dos partidos e aliados fisiológicos. A receita seria restaurar suas origens.
A premissa é consistente: as melhores passeatas a favor de Dilma vêm ocorrendo no Rio Grande do Sul. É o lugar em que se vê maior número de manifestantes avulsos, independentes, é em Porto Alegre. Nos demais estados o pessoal que está indo às ruas são militantes partidários e ativistas sociais.
Portanto, no Extremo Sul estaria a melhor plataforma de lançamento de um movimento consistente que se propague pelo país. Dilma, dizem, deveria baixar nos pampas para se mostrar à frente desses apoiadores.
Já a proposta que se forma seria inaceitável por ela, neste momento: Dilma deveria renunciar para preservar seus direitos políticos e eleitorais, assegurando, também, seus proventos de ex- presidente. Se ela for cassada, perde os dois: fica oito anos impedida e perde direito à pensão.
No Estado, ela poderia ser uma alternativa para a esquerda ter uma candidatura altamente competitiva para o Palácio Piratini. Outros sugerem o Senado.
O que ela não pode é ficar desvalida. Esta advertência sobre o salário teria sido uma das mensagens que Renan Calheiros levaria a ela. Não se sabe se chegou a falar, pois Dilma não é dada a conversas ao pé do ouvido.
Esses formuladores de voos estratosféricos ponderam: em 2005, quando Dilma ascendeu das Minas e energia para a Casa Civil falou-se que ela poderia ser uma alternativa para um bloco de esquerda ao governo do Estado.
Nessa época, quem falasse que ela seria, em 2010, candidata e eleita presidente da República, diriam que estaria delirando. O sonho é livre.
A exemplo de outros ex-presidentes, um governo estadual ou o Senado são propostas factíveis.
Queimando as pontes
PINHEIRO DO VALE
A presidente afastada Dilma Rousseff fez sua primeira aparição pública, na quarta feira, deixando-se fotografar no Palácio da Alvorada à frente de uma tela de computador comunicando-se pelas redes sociais.
Não se ouviu sua voz nem se leu o conteúdo de suas mensagens.
Não seria esse um bom dia para dar o troco a seus algozes, pois o carteiro levara, há pouco, um ofício expedido pela ministra Rosa Webber, do Supremo Tribunal Federal, pedindo que a “presidenta” se explicasse sobre o que ela quer dizer com “golpe”.
Devido a esse discurso desqualificando o ritual do afastamento, Dilma estaria criando mais uma aresta a lhe dificultar o caminho de volta para o Palácio do Planalto.
Como disse o ex-governador e senador paranaense, Roberto Requião, a presidente afastada está queimando as pontes.
Seus assessores que ainda têm voz, cuidadosamente ponderam que ela deve preservar o que sobrou da debacle. O Supremo é uma possibilidade longínqua, mas é uma luz no fim do túnel.
Isto não quer dizer que o tribunal vá lhe devolver diretamente a cadeira, mas dali pode sair uma fresta estreita que sirva para botar o pé lhe abrindo a porta do gabinete do terceiro andar.
Em breve, talvez na semana que vem, pode estar chegando à praia uma primeira onda do esperado tsunami da Lava Jato, com o julgamento do recurso do presidente da Câmara , Eduardo Cunha, pedindo sua reintegração na Câmara e, por conseguinte, na presidência da Casa.
Uma sentença negativa a Cunha pode ser a porteira aberta para que o ministro Teori Zavaski dispare os primeiros mandatos na orbita do foro privilegiado, pegando a turma que ficou sob sua jurisdição. Aí pode se dar o estouro da boiada.
Os observadores, em Brasília, estimam que devam ocorrer mais de 200 prisões. Esse maremoto levará por diante tudo o que sobrou.
Se conseguir surfar esta onda gigantesca, Dilma poderá chegar à praia e, mesmo arranhada e com algum membro quebrado, voltar a seu lugar. É um fio de esperança.
A tática é que ela fique quieta sem provocar marolas antecipadas, porque a onda grande está quase chegando.
Neste momento, o aconselhável é deixar o embate verbal para sua tropa de choque no Congresso. Neste particular, é interessante observar os discursos exibidos pelas tevês da Câmara e Senado.
Quem vem acompanhando desde antes do impeachment fica com a sensação de que não pode crer nos seus próprios ouvidos.
Os discursos têm os mesmos conteúdos de antes, apenas trocaram-se os oradores. A antiga bancada governista diz o que falavam os opositores e vice versa. Para uns a crise vem das antigas culpas; para os outros os programas sociais são obra do novo governo.
E assim vai. O novo governo já lançou seu bordão: “abrir a caixa preta”. Isto, no dizer dos assessores de Michel Temer, vai bater diretamente em entidades (ONGs) que têm convênios com o governo federal e que não prestaram contas.
Só no Ministério do Planejamento havia mais de 20 mil projetos em exigência, isto é, em dívida. Isto se refere a pequenas organizações tão minúsculas que não têm condições técnicas para cumprir as intrincadas exigências pra prestação de contas da burocracia do serviço público.
Com isto, ficaram vulneráveis, impossibilitadas de receber novos aportes ou, mesmo, de se apropriar de recursos já aprovados.
Uma dessas “caixas pretas” seria o Ministério da Cultura, onde artistas e promotores culturais captaram pequenas quantias, irrelevantes, e ficaram com suas contas pendentes.
Além disso, há milhares de outros projetos que embora aprovados, estão em exigências burocráticas, esperando para receber o dinheiro.
Entretanto, muitos desses projetos já fizeram despesas e ainda não puderam pagar seus fornecedores, deixando os promotores com dívidas reais no comércio. É uma situação angustiante.
Segundo informações extraoficiais, o presidente interino teria dito que liberaria 200 milhões de reais para cobrir esse rombo. Essa promessa poderia acalmar protestos que se espalham pelo país, com ocupação de dependências do Ministério da Cultura.
Neste particular, o novo governo assustou-se com a reação da classe artística. Mexer com os famosos, mesmo pequenos saltimbancos, é cutucar uma casa de marimbondos. Michel Temer quer se livrar rapidamente desse incômodo.
No entanto, não conseguiu recuar, como ensaiou, recriando o Ministério da Cultura, como chegou a fazer e voltou atrás duas vezes.
O plano de seus gestores é levar o setor de volta para o Ministério da Educação, mesmo que seja por um tempo limitado, para desmontar a bomba relógio que foi ativada com a atabalhoada providência de simplesmente dar um canetaço num espaço tão sensível.
Com menor impacto, mas tão incômodo quanto o MinC, foi a intervenção na EBC, a empresa Brasileira de Comunicação.
Ali está a TV Brasil, uma emissora regida por um estatuto especial e gerida por um conselho integrado por segmentos da sociedade civil. É outro vespeiro.
Neste caso, porém, ressalva-se a Agência Brasil, uma agência de notícias do governo com grande aceitação no mercado. Esta empresa é, em milhares de casos, a única fonte de material jornalístico de pequenos e médios jornais das cidades brasileiras. Este segmento não estaria ameaçado.
Sua redação é comandada por um jornalista do mercado, o gaúcho Paulo Totti, veterano das mais categorizadas redações da história da Imprensa dos anos 1950 para cá.
Ali se produz um noticiário isento, informativo, que atende a toda a demanda de informações especificas sobre regiões e segmentos da administração, que estão além do foco da chamada grande imprensa, comprometida com noticiário de interesse dos grandes centros urbanos onde os jornais e tevês têm seus mercados principais.
A EBC pode escapar da caça às bruxas.