Cláudia Rodrigues
Essa semana três notícias dadas pela mídia convencional celebraram a total falta de noção ética e social do setor de marketing de instituições públicas e privadas.
Primeiro foi o governo do Rio Grande do Sul que organizou exposição de roupas usadas em local privado, shoppings, para campanha do agasalho, expondo vestuário de inverno doado por personalidades gaúchas. É isso mesmo, 12 peças pregadas em estandes com o histórico sentimental da roupa. Deve ser o que consideram PPP, participação público privada. O slogan seria: “Ricos, comovam-se com a história sentimental de uma roupa”
Coca-cola, Pepsi e AMBEV exibiram nos jornais o press release de bom mocismo barato sobre o relacionamento alimentar abusivo que mantêm com crianças e adolescentes desde a década de 1960. Para quem não sabe a comida industrializada é a principal responsável por problemas endócrinos, respiratórios, alérgicos e cardiológicos de crianças e adolescentes do país. O fenômeno atinge todas as classes sociais.
As empresas aproveitam o ensejo para anunciar que seu relacionamento abusivo com crianças e adolescentes continuará firme, mas agora, garantem, estão preocupadas com a saúde.
Os pequenos até 12 anos poderão tomar achocolatados repletos de açúcar, carboidratos, gorduras e ínfima porção de cacau. Ou aqueles sucos 100% fruta fermentada e fervida até morrer, também com muito açúcar. Tudo com corante, acidulante, espessantes.
Quem acha essa comida prática e fácil de comprar, consumir e descartar as embalagens, beleza. É só achar bacana o descarte de refrigerantes para os estudantes de até 12 anos.
A partir dos 12 pode tudo e até os 12, tudo menos refrigerantes.
O que mudou?
Nada, a não ser a ideia de que a Coca Cola, Pepsi e Ambev estão preocupadas com a saúde infanto-juvenil e trabalhando nisso com afinco.
O Conselho Federal de Medicina exibiu-se no noticiário acatando a lei contra a qual vinha brigando: cirurgia cesariana a pedido da gestante somente após 39 semanas, a fim de baixar os níveis alarmantes de prematuridade de bebês no Brasil.
Se a cesariana eletiva fosse o único problema ético e prático da obstetrícia, seria uma boa notícia. Assim como o Brasil serviu de plataforma para a industrialização da alimentação, promovida por nossas relações internacionais, especialmente com os norte-americanos, serviu à indústria da cesariana. Não haveria problema algum se ações e argumentos usados fossem de natureza científica, fisiológica, biológica, psicológica, social, política, histórica e econômica, nessa ordem.
Infelizmente o que temos são argumentos baseados exclusivamente em mercado, consumo e marketing. Não em primeiro lugar, mas onipotente. Onipresente sobre toda e qualquer consideração de problemas e estudos humanos, sob bases exclusivamente econômicas de exploração, mais-valia e com argumentos baseados em crenças para justificar implantação de métodos abusivos, desnecessários e iatrogênicos.
Curioso que essas notícias sejam dadas assim pelo lado curinga da força. Quem trabalha com pesquisas sobre os prejuízos da alimentação industrial, por exemplo, não foi ouvido. Quem trabalha com alimentação limpa, sem veneno e orgânica, ficou fora da pauta, alheio ao mercado.
Alimentar bem crianças em escolas públicas e privadas deveria ser algo levado de maneira séria, em prol da saúde e do desenvolvimento, ou seja, educação alimentar. Governos e escolas que se preocupassem com educação sobre saúde procurariam manter relações melhores e mais estreitas com produtores locais de comida limpa, orgânica, sem venenos, com fruticultores, apicultores, gente brasileira que vive da terra, investindo em mercado interno e fortalecimento da economia por meio de relação direta entre gestores de educação e produtores de comida saudável e fresca.
A Zero Hora conseguiu entrevistar uma nutricionista que trabalha para duas escolas privadas. A profissional está revoltada com a proibição da venda de refrigerantes para estudantes de menos de 12 anos. “Para a especialista em nutrição infantil Magali Martins, que trabalha com cantinas de duas escolas particulares de Porto Alegre, parar de vender esse tipo de bebida nas escolas não deve mitigar o desejo de consumo. Sou contra a proibição, porque acho que tudo o que é proibido se trona desejável. As crianças não vão comprar na escola, mas vão levar de casa, ou pior, sair da escola para comprar. O pai que dá refrigerante para o filho não vai deixar de dar – avaliou.”
Cada escola tem apenas uma cantina, assim que os refrigerantes estarão lá, expostos. O que muda de fato?
Nada, a não ser a falsa polêmica criada pela Zero Hora ao colocar a fala de uma entrevistada que vai contra toda e qualquer pesquisa sobre alimentação infantil saudável. Especialista de mercado, para o mercado e pelo mercado, tipo opinião de bêbado em final de festa, temos.
O Conselho Federal de Medicina, em vez de assumir que embaça há anos para respeitar o tempo de gestação natural, que pode passar das 40 semanas, segura a bola nas 39 semanas, mas somente para situações em que a gestante pede a cirurgia. Obstetras continuam livres para mentir sobre ser cordão enrolado indicação para cesariana, assim como pressão alta, diabetes ou a famosa “ausência de dilatação”, que na maioria dos casos é apenas dilatação lenta e progressiva, absolutamente fisiológica. Continuarão os obstetras fazendo episiotomias, kristeller e outras manobras condenadas pela OMS.
O que muda de fato?
Nada, a não ser o falso cartaz de que o Conselho Federal de Medicina está atuante por menores índices de nascimentos prematuros, quando o fato é que vinha lutando contra e conseguiu no tapetão uma brecha para algo aviltante que mantinha como rotina.
O governo do Rio Grande do Sul em vez de investir em relação direta com associações comunitárias e de bairros, fornecendo carros para buscar roupas ou organizando brechós solidários em praças e parques, por exemplo, se dá ao luxo de promover uma exposição chique com roupas usadas em shopping!
Era isso, três exemplos de operações de marketing, de verniz sobre coisas muito mais amplas que já contam com comprovação científica e lógica. Fica assim um sabor no ar de viva a Coca-Cola e nossa cerveja de milho transgênico, viva as gestantes que poderiam passar de 40 semanas, mas agora são levadas a entender que seus bebês de 39 precisam nascer porque depois de 39 pode, é seguro. Viva as celebridades e suas lindas relações sentimentais com o vestuário.
O que mudou de fato?
A cara de pau do marketing, cada vez mais encerada.
Autor: da Redação
Uma aliança para 2018
PINHEIRO DO VALE
O presidente nacional do PDT, o carioca Carlos Lupi, está percorrendo o país para dialogar com as bancadas parlamentares do partido, estaduais e federais, procurando arrebanhar de volta à legenda os antigos filiados que desertaram no partido nos últimos tempos, depois de eleitos.
O objetivo é fortalecer a musculatura do partido para fechar na cabeça a aliança de esquerda que se forma sob a inspiração de Lula. O PDT tem chances de tomar o lugar do PMDB na extinta coligação de centro esquerda da dupla Dilma/Temer.
O projeto de Lula é um sonho para os brizolistas: seu plano é desmentir as acusações de irredutível hegemonia petista na frente de esquerda, oferecendo apoio a uma candidatura presidencial de outra legenda.
Neste caso, o PDT se apresenta com o nome dos sonhos de Lula, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes. Nessa chapa o PT ficaria com a vice-presidência.
Essa coligação uniria todos os partidos à esquerda do PT e parte considerável de grupos mais moderados à direita, quase chegando ao centro.
Entretanto, o partido de Leonel Brizola atualmente reúne uma bancada parlamentar extremamente heterogênea, com nuances que mudam de estado para estado. Lupi está mapeando, procurando fortalecer o comando central.
Na área federal, além de deputados, Lupi está procurando recuperar o senador por Brasília, José Antônio Reguffe, dissidente ainda sem partido, e captura o senador Pedro Cabral, do PSC de Mato Grosso do Sul, conhecido como discreto simpatizante do brizolismo.
A aliança PDT/PT ainda é uma miragem, mas pode se concretizar, pois o Partido dos Trabalhadores teme resultados desastrosos de seu desempenho nas próximas eleições municipais.
Segundo algumas estimativas bem fundamentadas, o PT conseguirá manter suas posições em somente 7% dos municípios que governa atualmente.
A candidatura de Ciro Gomes apresenta-se como o imã para aglutinar a esquerda. Seus detratores, porém, como piada, dizem que se Lula é o grande fiador do nome do político nordestino, faz uma exigência de valor eleitoral: Ciro teria de reatar com sua ex-mulher Patrícia Pilar, a atriz, e levá-la a seu lado para os palanques.
Com Patrícia Pilar a tiracolo o PDT lançaria a isca para atrair o público às praças numa campanha que não terá recursos para grandes jogadas de marketing. Sendo ela mulher do candidato não estaria enquadrada na resolução do STE que proíbe o uso de artistas nos comícios.
Hipóteses sobre a etapa atual do impeachment e um caminho para a saída da crise
A ampla divulgação, pela grande mídia corporativa, de denúncias envolvendo integrantes do primeiro escalão do governo interino de Michael Temer e também a divulgação do pedido de prisão de altos dirigentes do PMDB, Renan Calheiros, presidente do Senado, Romero Jucá, ex-ministro do planejamento, e de José Sarney, ex-presidente da República e do Senado, deixaram aturdidos os analistas políticos e, principalmente, os cidadãos comuns que procuram entender os rumos da política nacional.
Por que motivos a grande mídia, que tudo fez para desgastar o PT e suas lideranças e para criar o clima que possibilitou o afastamento, ainda temporário, da presidenta Dilma Rousseff, agora se apressa em divulgar, em amplas manchetes, os descalabros do governo Temer e de seus integrantes, incluindo acusações que atingem o próprio presidente interino?
Por que motivos o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, que já havia pedido investigação sobre as alegadas propriedades do ex-presidente Lula da Silva e também sobre suas possíveis ações em benefício de grandes empreiteiras brasileiras no exterior, o que contribuiu em muito para desestabilizar o governo de Dilma Rousseff, depois de ter conseguido o afastamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, pede, agora, a prisão de figuras chaves do governo de turno?
As evidências disponíveis para a interpretação do jogo político em curso indicam que a articulação jurídico-parlamentar-midiática é muito maior, mais profunda e mais complexa do que tirar Dilma Rousseff e o PT do governo e, de quebra, impedir que Lula da Silva seja candidato em 2018. Há, pelo menos, duas hipóteses a serem analisadas para compreender os fatos, ambas reveladoras de que há um intenso processo de disputa no interior das forças que promoveram o impeachment e que desestabilizaram o país.
A primeira delas, mais simples, é a de que o PSDB, os procuradores federais, juízes e delegados que integram a Força Tarefa da Operação Lava Jato, mais o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, e, ainda, parte do STF estejam aliados e disputando com Temer a posse do poder. Para destituir Dilma, eles teriam se aliado a Michel Temer e a Eduardo Cunha, em um primeiro momento. Cumprida a primeira etapa do processo, teria chegado a hora de afastar o presidente interino e conquistar o governo.
Para que isto seja possível, alguns peessedebistas poderiam até ser defenestrados, como por exemplo Aécio Neves, um dos campeões de citações nas delações premiadas envolvendo empreiteiras que atuaram na Petrobras, para que outros tucanos, talvez Geraldo Alckmin ou José Serra, tenham chance de disputar e vencer em uma nova eleição a ser realizada ainda neste ano, por meio do voto popular, ou no ano que vem, por meio do voto dos parlamentares – pois de acordo com Constituição, se a presidente Dilma e seu vice Temer forem destituídos durante a primeira metade do mandato para o qual foram eleitos, ocorrerão novas eleições populares; se, no entanto, a destituição dupla ocorrer na segunda metade do mandato, as eleições serão indiretas.
A segunda hipótese de análise, mais ousada e mais nebulosa, é a de que a articulação em curso inclua apenas a já chamada República de Curitiba, ou seja a parcela de procuradores federais e delegados da PF integrantes da Força Tarefa da Operação Lava Jato, mais Rodrigo Janot e parte do STF, deixando de fora o PSDB e seus próceres. Na possibilidade de esta interpretação ser a correta, este conjunto de personagens estaria atuando para promover uma “limpeza geral” dos atuais quadros políticos nacionais e um desmonte completo das instituições políticas atualmente existentes no país.
Neste caso, as acusações aos políticos e os seus vazamentos, bem como os afastamentos, as prisões e as destituições continuariam com toda a força, não poupando integrantes de nenhum partido político e de nenhuma instância do governo Federal. Não apenas Lula da Silva, Dilma Rousseff, Eduardo Cunha, Renan Calheiros, José Sarney, Michael Temer e os integrantes de seu governo interino seriam investigados, processados e talvez presos, mas também Aécio Neves e, ainda, José Serra e Geraldo Alckmin e, ousadia suprema, chegaria a Fernando Henrique Cardoso. Até mesmo Marina Silva, que vinha se mantendo impune até há poucos dias, estaria sujeita a punições por fraudes e propinas utilizadas no financiamento da campanha eleitoral de seu antigo companheiro, Eduardo Campos, e dela própria.
A falta de informações confiáveis impede que se possa antever até onde poderá ir a chamada República de Curitiba. Sua força advirá apenas da aliança construída com a grande mídia corporativa e alimentada pelos vazamentos seletivos de depoimentos e acusações realizados em momentos estrategicamente planejados ou existirão aliados mais poderosos, possivelmente de fora do país? É sabido e foi amplamente noticiado que grande parte dos integrantes da força tarefa da Lava Jato e delegados da PF receberam treinamento no FBI, por força de convênio firmado durante o governo FHC e ainda vigente, e os procuradores federais brasileiros mantêm estreitas relações com seus congêneres norte-americanos. Além disso, a proximidade de Rodrigo Janot e Sérgio Moro com a justiça dos EUA é tão grande, que eles têm prestado informações confidenciais a respeito da Petrobras no processo movido contra ela por investidores internacionais que se julgaram prejudicados pela diminuição dos valores de suas ações na bolsa de Nova Iorque.
Cabe lembrar, ainda, que a Petrobras e o Pre-Sal, que garantirão ao Brasil a posse da quinta maior reserva petrolífera do mundo, foram os alvos da espionagem realizada pela NSA, agência nacional de espionagem norte-americana, sobre a presidenta Dilma Rousseff e todo seu staff palaciano. Escândalo que veio a público em 2012 e que estremeceu as relações entre o Brasil e os EUA, fazendo com que a presidenta brasileira cancelasse encontro anteriormente agendado com o presidente daquele país.
Qualquer que seja a hipótese verdadeira dentre as duas aqui consideradas, o fato concreto é que o país enfrentará um enorme desafio para reconstruir suas instituições ao final do tsunami político em curso.
Na Itália, onde ocorreu ação jurídico-midiática semelhante à que ocorre no Brasil hoje, com a Operação Mãos Limpas, durante os anos de 1992/1996, o saldo final foi desastroso. As máfias, que se pretendiam expurgar do país e da política, assumiram diretamente o poder por meio da conquista dos espaços políticos deixados vagos no Parlamento por força das cassações e prisões. Sílvio Berlusconi, dono do maior conglomerado de mídia do país, envolvido em casos de sonegação fiscal e associado aos segmentos políticos e empresariais mais retrógrados do país, foi eleito Chefe do Conselho de Ministros (Primeiro Ministro) e exerceu o poder durante nove longos anos. Ainda hoje, passados já 20 anos do encerramento do processo, os representantes das novas máfias continuam exercendo grande influência na política italiana.
No Brasil, a desestruturação política das instituições do Estado e das empresas nacionais responsáveis pela construção das plataformas submarinas de exploração de petróleo e pelo desenvolvimento do submarino e do projeto nuclear brasileiro, entre outras ações estratégicas, tem sido tão intensa e tão profunda que exigirá muito tempo e muito esforço para ser superada.
Está em curso o desmanche das instituições políticas e o enfraquecimento das únicas empresas nacionais aptas ao desenvolvimento de tecnologia de ponta e com capacidade de concorrer no mercado internacional, decorrente da forma como foram feitas as ações de combate à corrupção executadas por integrantes da Procuradoria Geral da República e do Poder Judiciário brasileiro.
A partir do início do governo interino, passaram a ser desmontadas também as políticas sociais, que garantiram a inserção de milhões de pessoas principalmente ao mercado de consumo, ao ensino e à saúde públicos, e a política de inserção internacional do país em uma posição de protagonismo entre as nações em desenvolvimento.
No espaço político, mesmo que Eduardo Cunha e Renan Calheiros sejam destituídos definitivamente de seus cargos e de seus mandatos e até mesmo presos, as bancadas BBB (da Bala, da Bíblia e do Boi), que reúnem os políticos mais reacionários da política brasileira, aliadas aos deputados e senadores eleitos pelo poder dos recursos de empresas privadas, continuarão dominando as votações na Câmara e no Senado e impondo novas derrotas e novos sobressaltos à governante, em caso de seu difícil retorno.
Além disso, os estragos feitos por Temer e seus aliados durante o exercício do governo interino, tanto nas políticas sociais, quanto na política econômica e, ainda, na política externa brasileira, dificilmente serão revertidos sem que se componha nova maioria parlamentar, só possível com a eleição de novos representantes no Congresso Nacional.
A disputa interna estabelecida e acirrada entre os articuladores e executores do processo de impeachment de Dilma Rousseff, aliada à resistência popular, eclodida em manifestações de repúdio a Temer em todo o país, ao surgimento de movimentos, comitês e núcleos em defesa da democracia e do estado democrático de direito, à baixa aprovação do governo interino, aferida por pesquisas de opinião pública e, ainda, à possível divulgação de uma carta, por meio da qual a presidenta afastada se comprometeria, tão logo reassumisse o cargo, a apresentar proposta de consulta popular sobre sua permanência ou a realização de eleições gerais no país, talvez possam influenciar o voto de um número suficiente de senadores para reverter o processo de impeachment.
Em qualquer um destes dois cenários – a permanência da presidenta ou a realização de eleições gerais no país – para reverter as medidas de desmonte do Estado efetuadas pelo governo interino, promover uma ampla reforma política e institucional e, com isto, dar início a um processo de reconstrução do país, será necessária a constituição de uma ampla frente política.
Sem a constituição de uma grande e ampla frente, na qual partidos políticos, movimentos sociais, sindicatos e as novas organizações surgidas à margem das anteriores ajam em conjunto e tenham o mesmo peso nas decisões, de forma semelhante à Frente Ampla Uruguaia, o fôlego da resistência será curto e a força reunida será insuficiente para que se possa superar a crise atual.
Uma Frente Ampla, como a que vem sendo proposta por alguns movimentos, núcleos e comitês de resistência ao golpe e de defesa da democracia, só vingará se for assumida pelos partidos e líderes políticos de esquerda e centro-esquerda, acolhendo os partidos de centro e todos os liberais democratas que se mostrarem dispostos a participar da luta pela reconstrução das instituições políticas brasileiras.
Os partidos políticos de esquerda e de centro-esquerda, até agora pelo menos, não deram mostras de estarem dispostos a construir uma frente ampla deste tipo. A Frente Brasil Popular continua com muitos dos antigos vícios hegemonistas dos partidos que a compõem. A Frente Povo Sem Medo, ainda não contaminada por práticas oligárquicas, posto que recentemente fundada, não conseguiu sequer a adesão da totalidade dos dirigentes do PSOL, muitos deles ainda simpáticos ao processo de impeachment de Dilma Rousseff.
Vejam-se, além disso, as articulações para as candidaturas das eleições municipais a se realizarem em outubro, nas quais cada partido tenta impor o seu candidato. De modo geral, não há renovação sequer de nomes, quanto mais de propostas e de posturas. Sendo assim, enquanto as oligarquias partidárias de esquerda não reavaliarem suas práticas, dificilmente vingará a possibilidade de composição de uma verdadeira Frente Ampla Democrática.
Será preciso uma enorme pressão dos movimentos recém surgidos na cena política brasileira, para fazer os militantes e dirigentes partidários entenderem que ou eles se renovam ou todos nós teremos muito pouca chance de mudar o jogo e de reestruturar o país no rumo da construção de uma efetiva democracia social em um tempo não muito dilatado.
Programas de frentes amplas têm que ser construídos em conjunto com os parceiros e nunca a priori, por apenas um ou por um pequeno grupo de forças políticas que tome a dianteira. Cada um dos integrantes precisa ter peso semelhante na formulação das propostas e, ao final, liberdade para aceitá-las ou não. Se algum dos possíveis parceiros se colocar como liderança e tentar definir isoladamente que rumos e que limites estabelecer, estará comprometida, desde o início, a frente agora proposta, pois, mais uma vez, haverá alguém ou um partido assumindo ou tentando assumir uma posição de hegemonia sobre os demais.
Só quando cada um dos movimentos, núcleos, comitês e partidos políticos realmente comprometidos com a democracia e a construção de um país socialmente mais justo se dispuserem a caminhar juntos sob estas bandeiras, teremos uma chance concreta de converter o processo de desmonte político-institucional, social e econômico em curso em um amplo, profundo e salutar processo de reconstrução e reestruturação nacional.
O último bastião da legitimidade
PINHEiRO DO VALE
Dilma espera pelos templários de Curitiba. Ela começa a admitir a seus fiéis que os jovens juízes, promotores e procuradores da Justiça Federal estão produzindo uma limpa tão profunda nos quadros da política tradicional brasileira que ainda antes do fim do ano os cenários serão outros.
Por ser uma outsider da política, erguida como um poste pronto e acabado, como gostam de dizer seus detratores, ela acredita que será dessa distância de todos os fragmentos e remendos que formam o estado brasileiro sairá sua força para derrubar o impeachment.
Começando pelo fim: o golpe não é uma simples figura de compêndios de ciência política. No Brasil de hoje esse vocábulo se inseriu na cabeça da classe média letrada como a expressão da ilegitimidade.
Essa versão corre o mundo e cristaliza a imagem do Brasil. Portanto, a volta de Dilma será um desmentido categórico à comunidade das nações da reconversão do País à “república de bananas”. Mesmo abalado, o Brasil ressurge como um estado-estável, uma figura que separa os países do mundo segundo o vigor de suas instituições democráticas.
Cientistas políticos (que ainda refutam a palavra golpe por inadequada à letra dos manuais) já consideram que a volta de Dilma é essencial para a estabilização política e econômica. Começam a perceber que o Brasil mudou e que somente a legitimidade assegura a estabilidade (incluindo aí a econômica e a jurídica, essenciais para os negócios).
Essas análises começam a chegar numa conclusão surpreendente, neste momento.
Dizem que com todo o sistema político-partidário em decomposição, totalmente putrefato virando carniça, o reduto final para a sobrevivência do estado democrático será recorrer a seus fundamentos, que é a legitimidade original do voto. Nesse bastião está Dilma Rousseff.
Os partidos políticos, as corporações, as organizações da sociedade civil, os interesses legítimos e ilegítimos, todos afundam no mesmo barco. Com os quatro ex-presidentes vivos sob suspeição ( a LavaJato se aproxima de FHC), com o presidente interino entrando nesse mesmo barco, só vai restar a eleição de 2014 para conferir legitimidade a qualquer mandato.
Dilma foi vítima desse sistema deteriorado. O PT uniu-se com o PMDB, aliando as duas forças majoritárias do Brasil e juntos tomaram o poder. Segundo muitos cientistas políticos especializados em analise de eleições, o PT deu a Dilma 30 milhões de votos, o PMDB 25 milhões.
Uma boa parte, decisiva, dessa votação veio do Norte-Nordeste captados nas clientelas dos grandes caciques regionais, alimentados por recursos federais. Se isto compromete Dilma, esvazia a contribuição do Michel Temer.
Sendo paulista, não teve ação direta na região que decidiu o pleito.
Rapidamente, o parceiro da esquerda, o PMDB, viu a brecha para tomar-lhe as rédeas.
Acenando com o expurgo do PT, o partido aliado cooptou a oposição derrotada para uma revanche.
Não valeu de nada: o sistema político eleitoral está tão corrompido que não escapa ninguém do conluio com os interesses econômicos. Todos os partidos captaram dinheiro de empresas.
Conta-se nos dedos vereadores, deputados estaduais, federais, senadores, governadores ou presidentes que não beberam destas fontes.
Todos devem ser chamados a responder no confessionário dos templários de Curitiba. Eles estão puxando o fio da meada e já criaram um movimento que não há mais como deter.
As forças desencadeadas no Judiciário ganharam moto próprio e vão levando tudo por diante. É uma corrida contra o tempo. Em 180 dias tudo pode ruir, sobrando apenas Dilma com seus 54 milhões de votos e o Supremo Tribunal Federal na superestrutura do poder.
Estes analistas asseguram que Dilma Rousseff, com sua legitimidade, será a última trincheira da democracia e da credibilidade do Brasil. Sem outra saída à mão, o establishment tomará juízo para botar a carreta nos trilhos.
Dilma está na moita
PINHEIRO DO VALE
Em boca fechada não entra mosca. A presidente afastada Dilma Rousseff está para lá de cautelosa.
Está evitando, com todas as desculpas, encontros com parlamentares, temendo que alguém deles possa estar com um gravador escondido e pinçar uma frase descontextualizada para comprometê-la, por conseguinte, livrar-se de alguma maldade dos promotores de Curitiba.
Ela está escolada desde as gravações dos telefonemas para Lula nos tempos do convite para a Casa Civil.
Isto tem razão de ser. Com raríssimas exceções, todos os políticos que participaram as últimas eleições seriam suspeitos, pois receberam contribuições para suas campanhas por doações de empresas.
Captar dinheiro com empresas não era ilegal. No entanto, todos são suspeitos até provarem que não fizeram Caixa 2. Em segundo lugar, precisam demonstrar que os doadores não tiveram nenhum contrato ou benefício dos órgãos públicos, federais, estaduais ou municipais.
Melhor evitar situações confusas. Em tempo de eleição todo o cuidado é pouco e outubro está aí na frente.
Por isto Dilma botou as bochechas de molho. Com isto, procura se resguardar de cascas de banana. Depois do que Sérgio Machado fez com seus amigos do peito, boca fechada é a regra.
Apesar do pessimismo na sua base, Dilma não se entrega. Sempre pode advir um fato novo que mude o rumo dos acontecimentos.
Até o momento ela contabiliza uma votação insuficiente. A bancada golpista alardeia ter 60 senadores na gaveta. No entanto, faltam poucos votos para os 28 e barrar o impeachment.
Na comissão especial não se espera novidades. A bancada legalista, embora aguerrida, não está conseguindo avançar. O relatório do senador Antônio Anastasia já está escrito.
Dilma terá de derrubar o processo no plenário. Por suas ações, admite-se que ela pretende reverter o quadro com a pressão das ruas, pois quase não tem realizado nenhuma ofensiva junto às bancadas adversárias para reverter posições hostis.
Em contraposição, o presidente interino Michel Temer age intensamente nos parlamentos. No último domingo conversou com 18 líderes de bancadas, só na hora do almoço. Faz o que o governo provisório chama de semiparlamentarismo. Dilma usa outras armas.
Se cai o Cunha, quem vai cair com ele?
P.C. DE Lester
Eduardo Cunha, o presidente afastado da Câmara Federal, é quase uma unanimidade nacional: as pesquisas de opinião registram que mais de 90% dos brasileiros o consideram que ele deve ser cassado por corrupto.
Mas na Comissão de Ética da Câmara ele perdeu por apenas dois votos. Onze votaram pela cassação, seguindo o parecer do relator, que examinou as provas e concluiu que não há dúvidas quanto às contas no exterior. Nove defenderam Cunha.
Uma derrota, mas tudo indica que Cunha mantém sua estratégia de ganhar tempo – e ele já ganhou quase oito meses.
A surpresa foi a deputada Tia Eron, aliada de Cunha, que votou pela cassação.
Mas pode ser uma estratégia. Em vez de expor um quadro importante como Tia Eron, sob forte pressão das bases, Cunha liberou seu voto, o que lhe confere independência para a batalha no plenário que será decisiva.
Nessa batalha, Cunha vai cobrar fidelidade da bancada majoritária que sustenta o governo Temer, que, na saua avaliação, só é governo porque ele botou para andar o processo de impeachment de Dilma Rousseff.
Os noticiários tem registrado, escassamente, algumas declarações de Cunha. Ele diz que não cairá sózinho.
Então, a pergunta que fica no ar é esta: Cai o Cunha? E mais esta: Quem vai cair com ele?
Dilma abre proposta de consulta popular
PINHEIRO DO VALE
A presidente afastada Dilma Rousseff em pouco tempo deverá ser a última estrela de primeira grandeza do firmamento nacional que não foi tragada pelo buraco negro da Operação Lava Jato. Com isto, acrescenta-se uma nova possibilidade para seu retorno à chefia do executivo.
Os últimos acontecimentos que estão envolvendo os grandes caciques do PMDB que foram, na última eleição, fatores decisivos para a vitória da presidente no Norte-Nordeste, expõem os últimos redutos da conspiração que levou Michel Temer ao poder.
Ainda vão aparecer outros nomes. Estes vindos de todos os lados, desde a esquerda partidária até a direta fisiológica. Parte deles já presos e condenados, deixam à presidente como a estrela solitária, uma vez que nada substantivo apareceu envolvendo sua pessoa física.
Pedir apoio não é crime. Mais legal ainda quando o captador apresenta-se dentro da lei vigente. Seria este o caso apontado nos vazamentos da delação de Marcelo Odebrecht.
O jovem empresário baiano teria dito que a candidata Dilma pediu-lhe certa quantia para financiar sua campanha eleitoral.
O fato em si revela apenas o ativismo da candidata, principalmente se os valores solicitados estivessem dentro dos limites estabelecidos pelo TSE para os níveis de resultado da empresa abordada, o que, de resto, não diz respeito à captadora, mas ao doador, que deve saber até quanto pode ir.
A distorção que se aponta na Lava Jato é que esses valores captados tiveram uma parcela desviada para contas pessoais dos acusados no exterior, não declaradas nem tributadas.
Este é o crime criminoso a que depois os promotores penduraram uma série de agravantes decorrentes, como sua origem e seu destino.
Definitivamente: essa acusação é de fato anterior à data da posse.
Daí a importância do bordão brandido por Dilma afirmando não ter contas no exterior. Não têm por onde pegá-la. Se sua chapa for cassada, não será por improbidade pessoal da candidata, mas pela gestão de suas contas operadas por funcionários e dirigentes partidários.
Nem isto foi comprovado nem apresentado como acusação na Lava Jato nem no processo de impeachment, por inépcia de tais denúncias.
É nesse contexto da Lava Jato que o procurador Rodrigo Janot pediu a prisão dos caciques do PMDB nordestino. Sérgio Machado, o delator, teria dito que essas pessoas seriam donas de quotas de fundos administrados por seus filhos no Exterior.
Entretanto, argumenta-se que tais fundos não estariam em nome dos acusados, depositados em confiança. Negando a titularidade, perdem-se os depósitos e se vai a garantia do fio de bigode.
Então, sendo verdadeiras as denúncias, para se verem livres as pessoas teriam de assistir impassíveis aquelas fortunas entrarem pelo ralo esvaindo-se sem dó nem piedade.
Melhor negar, se for verdade, o que não se comprova e os acusados negam de pés juntos.
Dilma está fora desta embrulhada. Diz que não sabia e com certeza ignorava tais tramoias. A esta altura, se alguém tivesse um menor indício a apresentar em sua defesa envolvendo à presidente afastada, já teria posto as cartas na mesa, tal como o delator Sérgio Machado.
Estes fatos projetam a cada dia o ausência da presidente nesses fatos que estão explodindo as lideranças de todos os matizes e implodindo o sistema partidário da Nova República.
Na entrevista a Luís Nassif, que foi ao ar quinta-feira pela TV Brasil, a presidente afastada põe na mesa uma proposta de profunda reforma política. Isto saiu numa frase curta, mas que ainda está retumbando em Brasília.
Nesta entrevista aparece uma Dilma segura e cordata. Analisa as causas da derrocada que levou à crise econômica com segurança acadêmica. Apresenta o processo político como uma manobra exitosa do PMDB para tomar-lhe o poder, valendo-se do enfraquecimento de suas bases parlamentares.
Citou poucos adversários, destacando-se seu arqui-inimigo, o presidente da Câmara Eduardo Cunha. Também emitiu palavras duras a seus adversários nas duas eleições, José Serra e Aécio Neves, e queixas ferozes contra os caciques paulistas, o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer, o presidente interino.
Na formulação política, defende o presidencialismo como melhor modelo político para liderar as reformas. Disse que isto é comprovado pela História, pois ao longo de todo o período republicano o executivo sempre foi mais avançado que o legislativo.
Ela diz que os presidentes chegam ao poder com proposta concretas, enquanto os congressos se perdem diluídos por interesses variados, impossíveis de serem conciliados para grandes consensos.
Ela não se referiu a nenhuma grande reforma, mas deixou implícito de que foram os presidentes que sempre estiveram à frente dos grandes passos à frente no Brasil.
Com isto ela chegou a um apelo às urnas. Não deixou claro, mas deu a entender que poderia ser um plebiscito, uma constituinte, algum outro mecanismo originário de uma consulta popular que produzisse os efeitos necessários à reorganização institucional do País.
Neste caso, sua legitimidade como chefe do executivo seria essencial para arbitrar e conduzir o processo eleitoral nessa consulta.
Dilma não mencionou os embates no Senado Federal em torno do impeachment.
Ali se produz um confronto de personalidades jogando numa mesa de cartas marcadas.
Transmitidos ao vivo pela televisão, os debates empacaram num diálogo de surdos. Cada lado parece ter uma agenda própria, no caso a exposição de futuros candidatos aos governos estaduais em 2018.
A bancada legalista apresenta seus nomes: Lindemberg Farias, Vanessa Grazziotin, Gleise Hoffmann, Telmário Motta, Humberto Costa, Fátima Bezerra; na bancada golpista despontam Aloysio Nunes Ferreira, Ronaldo Caiado, Simone Tebet, Ana Amélia de Lemos, Antônio Anastasia.
Nessa arena parlamentar, também se pode esperar novos momentos. Em caso de afastamento do presidente Renan Calheiros, assume o primeiro vice-presidente, senador Jorge Viana, do PT do Acre.
Caracterizado como um parlamentar sereno nos momentos em que assume o comando do plenário da Câmara Alta, Jorge Viana, em caso de afastamento do presidente Renan Calheiros, poderá ser a antítese de seu par da Câmara dos Deputados, o vice-presidente em exercício Waldyr Maranhão. Este manipulou o regimento e usou seu poder para atropelar o andamento da Comissão de Ética que julga o comportamento do presidente afastado Eduardo Cunha.
O respeitado senador acreano poderá fazer cumprir estritamente o regimento interno da Casa e os preceitos da Constituição e do Código de Processo Penal apagando o motor da patrola da bancada golpista majoritária, dando as garantias para os reclamos da bancada legalista, impugnando manobras e procedimentos da mesa da comissão do impeachment.
Uma varredura dessa tramitação poderia levar o processo à extinção por falta de provas e de objeto.
Articula-se um novo governo
PINHEIRO DO VALE
A presidente afastada Dilma Rousseff está quase convencida de que precisa dar um novo rumo à sua campanha para voltar ao Palácio do Planalto.
Seus assessores da ala pacifista estimam que o projeto belicoso em curso não alcance oobjetivo de interromper o processo de impeachment e nem mesmo de barrar a condenação no plenário do Senado.
A proposta em estudo é deixar para trás o simples retorno ao mais do mesmo reivindicado no bordão ”Volta Dilma” e entrar com uma outra proposta para o País, com novo formato político, de forma a romper o atual impasse em que nem ela nem seu vice, atual presidente interino Michel Temer, têm solução.
O grande cacife é a legitimidade da eleição direta vencida pela presidente. A manobra criativa seria Dilma ressurgir com uma nova proposta de salvação nacional, compondo todas as forças políticas sem hegemonias. Neste caso, o PT seria apenas mais um partido da sua base, tal como o PMDB e outros integrantes do centrão.
Os partidos de oposição voltariam para seus lugares, mas haveria um entendimento para conter a derrocada da economia e do quadro fiscal. A decisão final seria adiada para 2018, quando essas forças irão se medir nas urnas.
A solução política para formar um governo estável seria a mesma do impasse anterior de 2005, quando a governabilidade se esvaiu engolfada pelo impasse das forças no Congresso abrindo espaço para o domínio do baixo clero, representado pelo então presidente da Câmara Severino Cavalcanti.
Esta situação repetiu-se com a eleição de Eduardo Cunha. O deputado carioca é um político bem mais dotado que Severino, mas sua fonte de poder tem a mesma origem. E o resultado se repete.
A diferença é que na década passada o então presidente Lula (que chegou a usar a seu favor o esdrúxulo Severino), rapidamente deu uma guinada e compôs uma solução salomônica, como a foi a eleição do deputado do PCdoB Aldo Rebelo para a presidência da Câmara, compondo uma mesa de transição que levou a nau dos insensatos a bom porto.
Dilma já está consciente do impasse e ouve sem gritos os cenários desses conselheiros. Terá de dar uma guinada e se apresentar às forças políticas com nova proposta. Sua força é a legitimidade, Sua fraqueza sua incapacidade política.
Neste caso, deve chamar para “primeiro-ministro” desse semiparlamentarismo ad hoc uma liderança com credibilidade e trânsito em todas as forças políticas.
A hipótese anterior, fracassada, seria levar Lula para o comando do governo. Entretanto, com o ex-presidente tão abalado pelas vicissitudes da crise, seu nome não seria uma saída para a pacificação.
Procura-sem outro nome com grande trânsito e credibilidade para, uma vez mais, recompor a imagem estilhaçada.
O futuro ministro líder deveria preencher as necessidades do momento: vir de im partido de fora do circuito PT, PSDB ou PMDB. O ideal seria ver é de uma agremiação de cunho programático, isento das supeitas de motivação fisiológica.
Coisa rara no quadro partidário brasileiro.
Com isto é possível, acredita-se (e dizem que Dilma já quase concorda) que colocando o objetivo nacional à frente pode-se recuperar a confiança.
Este é o ponto de inflexão, pois se a base da economia, os pequenos, entenderem que não vão falir, reabrindo suas oficinas, suas lojas, seus institutos de beleza, chamando de volta empregados dispensados no turbilhão do medo, a economia rapidamente readquire condições de se reerguer.
A pequena fábrica, a oficina, a loja, o salão, reabertos; o trabalhador, o mecânico, o caixeiro, a cabeleireira de volta o comércio se reaviva, a arrecadação aumenta, os pedidos se ampliam.
Restaura-se o que os economistas chamam de “consumo das famílias”, que é o verdadeiro motor da sociedade de consumo.
Fora isto, a situação macroeconômica ainda não apresenta sinais de desastre total, com câmbio estável, balança comercial positiva, sistema bancário saudável, que são alguns dos espaços positivos para retomar a construção civil, as estradas, os portos e assim por diante.
O País está na UTI, mas ainda respira sem aparelhos. É o que dizem os otimistas.
Um novo governo. Um novo projeto. Passar a borracha e andar em frente. O mundo observa o Brasil. Uma solução de altíssimo nível e a modernização de suas instituições seria um sinal decisivo para manter o Brasil na sua posição de grande potência, de onde parece despencar neste momento.
Uma posição que o País não pode perder. A História não poupará.
Quanto a Dilma, do alto de sua legitimidade poderá ser o (ou a) árbitro (a?) das grandes reformas. Uma delas é da própria Presidência.
Estupros: desde 1964, na linha reta do tempo
RAUL ELLWANGER
Uma jovem brasileira foi estuprada por mais de duas dezenas de homens cidadãos, em maio de 2016. Foi vitima de tortura, mais especificamente, de tortura sexual.
O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi condenado por ofender a colega gaúcha Maria do Rosário (PT) no plenário da Câmara em 2014:
— Há poucos dias você me chamou de estuprador e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece — disse o deputado durante uma sessão.
Em que consiste a ofensa ? Na ameaça de estupro ? No livre arbitro do deputado em estuprar ou não ?
Tortura consiste em submeter outrem a dor violenta, com objeto de extrair confissão ou informação, ou sem este objeto. A tortura policial ou política tem uma finalidade, é funcional, seu objetivo é destruir o outro.
A tortura sem finalidade aponta apenas para a doença mental do seviciador. A que serve este tormento ? Para o gozo do perpetrador ? Há prazer em fazer sofrer ?
Estupro é submeter outrem pela força à perda do domínio e da privacidade de seu corpo, através de relações de tipo sexual, sejam genitais ou não.
É de sua natureza orgânica um brutal constrangimento moral, dada a auto-estima que toda pessoa tem, convicções religiosas, associação com maternidade, conceitos de hombridade, tradição cultural.
Qual o objeto do estupro?
A repressão policial e politica com frequência combina tortura com violência sexual, assim se fala em tortura sexual. Por experiência, o repressor sabe que a força de ‘demolição’ do tormento material e moral sobre o torturado se incrementa quando tem conotação sexual.
Isto é denotado pelas ofensas verbais, carregadas de sexismo supostamente ofensivo, assim como pela minucia com que se devassa e mortifica cada parte do corpo vitimado.
O mesmo deputado em reiteradas ocasiões tem feito o elogio de torturadores do regime militar, assim definidos oficialmente pelo Estado Brasileiro no Relatório da Comissão Nacional da Verdade de 2014.
Na prática da vida real, o mais importante na situação atual é a impunidade de cerca de 400 criminosos listados, tendo à frente generais e ditadores.
Quando dezenas de homens violam uma moça, estão praticando tortura e tortura sexual. Não buscam informações ou destruição de um ‘inimigo’ (o subversivo, o ladrão), pois o martírio que realizam não tem objetivo.
Tampouco se pode supor a fruição de prazer e deleite. Estaremos diante de enfermos, de psicopatas ? Fizeram o que fizeram por pura diversão ?
Ligando a fala do parlamentar com a violação múltipla, temos que o elogio atual do torturador do passado estimula a violência do estuprador do presente. A fala daquele torna natural, comum, banal e aceitável a violação.
Quando o falador diz que depende dele torturar sexualmente a deputada ou não faze-lo, está dizendo que a tortura é corriqueira, vulgar, que ele opta por ela ou não segundo seu critério.
Ademais, fala disso aos gritos em pleno Congresso Nacional. Os homens que arrasaram a jovem seguem a mesma lógica, de praticar a violência sem respeitar a outra pessoa nem as barreiras morais e legais criadas pela sociedade.
Para tais criminosos, vale apenas seu arbítrio, a imposição da força bruta sobre uma mulher indefesa, como fizeram os Ustra, Fleury, Malhães, Seelig, Cerqueira, Curió, Correia Lima, Audir, Dulele e demais ícones de Bolsonaro sobre cidadãs e cidadãos sequestrados nos DOI-CODI.
No terreno da moral, da lei e da política, o nostálgico Bolsonaro estimula e é cúmplice da violação atual.
Na falta de ‘subversivos’, dispara sua baixeza contra a colega parlamentar e mulher. Imaginemos o que faria contra uma jovem simples do povo, não parlamentar. Imaginemos o que faria contra uma raptada oculta de 1971, na penumbra e solidão de um quartel remoto.
Há algo comum entre os violadores de hoje, o deputado militar e os torturadores de 1964: a idéia da banalidade. Esses rapazes acreditam que se com aqueles grandes criminosos seriais nada acontece, se até mesmo um parlamentar diz que torturar é banal e vulgar, então estuprar uma mulher é fato corrente e comum.
Como nem os agentes de 1964 nem o parlamentar são punidos, se divulga a idéia de que nada acontecerá, que ficarão impunes seus crimes como milhares de outros seguem sem punição desde mais de 50 anos.
Se os atormentadores da ditadura tinham um motivo ou pretexto para torturar e violar sequestradas e sequestrados, os estupradores de hoje não dispõem (segundo as noticias atuais) de alguma justificativa ou explicação para seu ato. Nem motivo passional, nem vingança, nem roubo, nem acerto de contas, nem disputa de território. Nem podemos supor perguntados pelo motivo de tão hediondo crime, dirão que o praticaram… qualquer ressaibo de prazer. Entre a impunidade e a banalidade, porque sim.
Combinando com os russos
PINHEIRO DO VALE
A antecipação dos prazos, pela comissão do impeachment no Senado, vai acelerar o início da segunda fase da campanha de Dilma para recuperar o seu mandato: seus estrategistas vão antecipar o corpo a corpo com senadores, previstos para o começo de julho.
A segunda fase, que se inicia com o comício da Esquina Democrática, nesta sexta-feira, em Porto Alegre, inclui os protestos contra o golpe se ampliam e tendem a crescer e se espalhar pelo país.
Para isto, conta-se com a crescente impopularidade do Governo Provisório do presidente interino Michel Temer.
Sem soluções para o desemprego crescente e a inflação de preços, o descontentamento tende a passar dos espaços militantes para generalidade das ruas.
Somente a partir dessa fase será prudente a própria presidente Dilma assumir a linha de frente das negociações com os parlamentares eleitores do Senado Federal.
Uma proposta de movimento tático é reproduzir, em parte, a experiência grega.
O primeiro ministro Aléxis Tsipras, cargo com eleição direta, venceu a situação conservadora em janeiro e 2015 com um programa de aumento dos gastos públicos, ampliação de benefícios sociais e moratória da dívida externa.
O projeto não funcionou devido à resistência do sistema financeiro europeu de alargar prazos de pagamento. Ameaçado de exclusão da Zona do Euro o novo governo entrou em semi-colapso. Era queda iminente, nos moldes do sistema político local.
Tsipras deu um lance de grande coragem política: foi para as ruas com um mea culpa, assumiu que seu programa era inexequível e propôs uma nova política econômica diametralmente oposta. Ninguém esperava que ele fizesse isto.
Com a mesma votação de janeiro, reforçando sua legitimidade, venceu novamente em 20 de setembro e deu a guinada que, pouco a pouco, vai tirando a Grécia do buraco.
Também no Brasil a presidente afastada pode usar seu respaldo de legitimidade para propor um novo pacto com seu eleitorado.
Para isto Dilma precisa mudar, pelo menos, oito votos no plenário do Senado, dando, desde já, como perdida a batalha na comissão especial, esmagadoramente favorável ao impeachment.
Seu argumento principal seria a possibilidade real de com ela encontrar uma saída para a crise econômica e abrir espaço para negociações políticas consequentes. Sua força real é a legitimidade dos 54 milhões de votos. Isto é inegável. Tsipras é uma prova palpável.
Em segundo, ela viria com uma nova política econômica que, respeitando a austeridade, aproveitando-se, também, dos avanços no legislativo de propostas que ela apresentou, mas foram rejeitadas.
Apresentaria alguns fatos novos. Primeiro: Lula assumiria ostensivamente o comando político.
Com o ex-presidente dando fiança, a antiga base aliada poderia voltar, aceitando como efetivos os acertos políticos. Esta seria uma queixa removida.
Neste sentido, também com apoio de Lula poderia manter a equipe de Henrique Meirelles, com as bênçãos do ex-presidente. Seria a base de credibilidade para descongelar a atividade econômica.
Tal demonstração de flexibilidade seria o aval para a retomada da confiança para investidores, interna e externa.
Nesse projeto de retomada do crescimento, tendo ênfase as concessões de infraestrutura e joint ventures nas estatais, seriam um elemento poderoso para robustecer o mercado de trabalho nos empreendimentos de engenharia pesada.
Também seriam tomadas medidas para reativar a economia no varejo e serviços, encorajando pequenas indústrias e lojistas a abrirem suas portas, chamarem de volta empregados dispensados e assim dar um sofre no no desemprego.
Não é descartada a proposta de um lance ousado, como convocação de eleições em curto prazo ou de uma constituinte exclusiva para a reforma política. Também nesses casos o estado estaria sob Dilma, pois ela confere a legitimidade.
Tanto no País como no Exterior, a volta da presidente afastada seria um sinal poderoso de normalidade constitucional, algo importante para recuperar a imagem externa abalada pelas tropelias do golpe e a confiança interna de segurança jurídica para a retomada dos negócios.
O projeto de ação com um desenho nesse quadro está sendo examinado.
O desafio a Dilma será recompor seu relacionamento com os parlamentares, incluindo, neste caso, uma modus vivendi com o presidente interino Michel Temer e seu PMDB. Sem o centrão seria impossível governar.
Ela teria de, com esses movimento, comprovar que pode oferecer governabilidade. Esse é o ponto central, pois Temer tampouco está conseguindo domar as forças centrífugas que arrebentam o pacto da coalisão.
Até chegar a uma reforma política, o Executivo terá de se conformar com o multipartidarismo em vigor.
A percepção é que se as ruas não votam no Senado, elas podem ajudar a mover votos contrários. Afinal, a última pesquisa já apontou Dilma com 33% de apoio, um crescimento significativo, pois quando levou o golpe não tinha mais de 11 por cento.
Enquanto isto, Temer está parado nos oito por cento, ou seja, 92 por cento de impopularidade. É um bom desenho, no entender dos estrategistas. O desafio para a presidente afastada é conseguir combinar com os russos.