Categoria: Análise&Opinião

  • VILSON ROMERO/ A geladeira dos parasitas

    Vilson Antonio Romero (*)

    Em julho de 2017, a Lei n° 13.464 trazia o resultado de meses de atuação da Mesa de Negociação entre servidores e governo federal, com uma parcial recuperação de perdas salariais que foi parcelada até janeiro de 2019.

    Portanto, o salário dos servidores da União se encontra congelado desde então. O governo e o Congresso ameaçam com muito mais, num evidente estrangulamento daquela parcela da população que ainda permanece em condições equilibradas para manter os níveis de consumo e por consequência minimizar a crise.

    O estudo Três Décadas de Evolução do Funcionalismo Público no Brasil (1986-2017), do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela que, em 32 anos, o funcionalismo público ampliou 123%, com o número vínculos subindo de 5,1 milhões para 11,4 milhões. Mesmo com o avanço, a máquina pública nacional é menor que a média dos países desenvolvidos. Cerca de 12,1% da população ocupada trabalhava no setor público em 2017, menos do que os 18% de média das nações da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e até do que países de tradição liberal como os EUA (15,2%) e a Grã-Bretanha (16,4%).

    Cabe ressaltar que apenas um em cada dez servidores públicos tem vínculo na União. O aumento em quantitativo de funcionários se verificou com mais expressão nos municípios, onde houve um crescimento de 276%, passando de 1,7 milhão para 6,5 milhões, enquanto aumentou em 50% na esfera estadual e em 28% na esfera federal, incluindo civis e militares. No caso dos municípios, diz o estudo, 40% das ocupações correspondem aos profissionais dos serviços de educação ou saúde como professores, médicos, enfermeiros e agentes de saúde.

    Por outro lado, a sociedade, com respaldo do Congresso, foi muito ousada e vanguardista ao defender na Constituição de 1988 que a “saúde é direito de todos e dever do Estado”.

    A crise da Covid-19 chegou como um tsunami que exige ação coletiva dos três níveis de governos, da iniciativa privada, das organizações não governamentais (ONGs) e dos cidadãos. São nesses momentos que se sobressaem os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS): universalidade, integridade e equidade.

    Na crise, volta a discussão sobre o papel do Estado e de seus funcionários, em especial das atividades essenciais, como a da saúde.

    Nos últimos tempos, os servidores voltaram a ser alvos. Autoridade federais os estereotipam como “parasitas” e em recentes manifestações exageraram no vernáculo ao dizerem que o funcionário “não vai ficar em casa trancado com geladeira cheia, assistindo à crise enquanto milhões de brasileiros estão perdendo emprego”.

    O próprio Banco Mundial atesta que o Brasil gasta o equivalente a cerca de 13,1% do PIB com salários do funcionalismo público, incluindo todas as esferas e poderes, abaixo de cerca de 15 nações que investem muito mais neste setor para ter qualidade no atendimento à sociedade.

    Numa crise como a atual, há profissionais de muitas áreas indispensáveis na linha de frente. No serviço público ou na iniciativa privada, o que não faltam são pessoas comprometidas com o futuro do país.

    Além de serem tachados de “parasitas”, agora autoridades federais acusam ou “culpam” o funcionalismo de ainda ter recursos para manter a roda da economia girando, adquirindo produtos e abastecendo sua geladeira, enquanto 7 a 8% da população ainda não tem nem o eletrodoméstico.

    Com geladeira cheia ou não, estender a mão a quem precisa faz parte da índole do povo e do conjunto dos servidores públicos, principalmente a grande maioria que ganha pouco mais de um salário mínimo, incluindo horas extras e adicional noturno.

    Os “parasitas” são também homens e mulheres, chefes de família que já estão com salários congelados desde 2018, na União. Em muitos estados não viram ainda a cor da gratificação natalina de 2018 e 2019.

    Inequivocamente, os servidores já estão dando sua cota de sacrifício e, paradoxalmente, estão à frente da luta contra a pandemia. São os profissionais de saúde, os pesquisadores, os servidores de Assistência Social e Segurança Pública que estão na retaguarda. São os auditores da Receita que estão nos portos e aeroportos desembaraçando insumos e equipamentos que vão ajudar na crise sanitária, são os diplomatas tentando repatriar milhares de brasileiros, enfim, diversas áreas em plena atividade. São os servidores da segurança pública que contribuem para manter a normalidade apesar das tensões naturais decorrentes do isolamento social.

    As recentes declarações denegridoras da categoria por parte de autoridades federais são falácias, impropérios e destemperanças que nada contribuem para o clima de unidade e harmonia dos brasileiros para o enfrentamento da pandemia.

    Os mais de 11 milhões de servidores públicos, na União, Estados, Distrito Federal e municípios, têm entregue o melhor de si, tanto em forma presencial como em “home office” dentro das prerrogativas de cada cargo e função. E uma parcela expressiva cada vez mais tem consciência de seu dever, convalidando a condição de que não são servidores de governo e sim do Estado brasileiro.

    E graças à sua dedicação, podem repudiar a pecha malfadada, mentirosa e despropositada de “parasitas” e, com o suor de seu rosto e trabalho, manter a geladeira “relativamente cheia”. Torçamos todos para a pandemia acabar logo, rezando para que os cidadãos deem respostas positivas ao #ficaemcasa.

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    (*) jornalista, auditor fiscal aposentado, vilsonromero@yahoo.com.br, fone/zap 51-981174488

  • ELMAR BONES/ O silêncio da RBS

    É inexplicável o comportamento dos grandes grupos de comunicação quando se trata de dar informações sobre suas atividades ou decisões.

    Um de seus bordões é a cobrança de transparência de governantes, funcionários públicos, empresários, entidades representativas e tudo mais.

    É uma prerrogativa que a sociedade lhes confere e da qual eles não abrem mão.  Entende-se, aceita-se, e é até elogiável que assim seja.

    O que não dá pra aceitar ou compreender é a atitude que adotam na hora em que são cobrados. A omissão sistemática nas ocasiões em que, em nome do interesse público, se busca informações junto a eles.

    Ou é uma declaração formal da assessoria de imprensa ou é uma nota genérica, como faz a RBS neste momento.

    Mesmo sendo um grupo que deve sua grandeza a concessões de serviços públicos, que representam grande parte de seus negócios e seus lucros, a RBS considera como economia interna as medidas que está tomando, de contenção de custos – demissões em massa, corte de salários e jornada, suspensão de contratos de trabalho. Medidas que terão impacto na qualidade dos serviços que prestam ao público.

    Nem ao sindicato que representa seus empregados é dada uma explicação. Apenas uma nota genérica e que pouco esclarece.

    Com que autoridade, os profissionais que trabalham para seus veículos poderão cobrar informações ou transparência junto ao setor público ou ao meio empresarial ou seja lá o que for?

     

     

     

     

     

  • ELMAR BONES/ O mito e a farsa

    Imagine se Jair Bolsonaro fosse o mito que alguns fanáticos acreditam que ele é.  Imagine se ele tivesse feito um pronunciamento mais ou menos assim na sexta-feira:

    Não vou perder tempo aqui com as acusações levianas que o senhor Moro fez contra mim. O momento que vivemos no Brasil é muito grave para que se fique perdendo tempo com intrigas palacianas.

    O Sr. Moro pertence ao passado, não é mais nada no meu governo, seu pedido de demissão foi aceito e eu até lamento porque confiei que ele seria um aliado fiel na luta que estamos travando para tirar o Brasil desse atoleiro em que nos encontramos.

    Esse atoleiro no qual fomos jogados, em parte por conta da irresponsabilidade de alguns governantes, que lançaram  o país na desordem e na crise econômica e, principalmente, pela fatalidade dessa pandemia que assola o mundo inteiro e deixa toda a humanidade consternada e perplexa.

    Não é hora de gastar energia com personalismos e com ambições mesquinhas. É hora de enfrentar com energia e destemor o gravíssimo desafio que temos pela frente: vencer a pandemia e salvar a economia e os empregos de que dependem todos os brasileiros dos mais humildes aos mais abastados, todos ameaçados por um inimigo invisível diante do qual a mais avançada ciência se mostra impotente.

    Precisamos de atitudes prontas e destemidas e eu quero anunciar aqui uma decisão grave e extrema, sobre a qual muito meditei até chegar à conclusão de que é a única saída que temos nesta crise sem precedentes: a moratória unilateral da dívida pública brasileira.

    Este ano o pais vai desembolsar cerca de um trilhão de reais para pagar juros e amortizações da sua dívida com o sistema financeiro internacional.

     Vamos suspender o pagamento dessa  dívida por três anos e vamos usar esse dinheiro no fortalecimento das nossas estruturas de saúde,  para tratar dos nossos doentes.

    Vamos, principalmente,  salvar a nossa economia e impedir que milhões de brasileiros, mesmo tendo escapado da pandemia, sucumbam  à miséria e à fome.  Vamos atender aos mais necessitados e vamos financiar nossas indústrias, nosso comércio, nossas lavouras  para que elas continuem produzindo e gerando riqueza e empregos. 

    Depois, quando tudo isso passar, vamos sentar com nossos credores e acertar a maneira de pagar o que devemos.

    O Brasil é um dos países mais ricos do mundo e não vai ser um ou dois anos de crise que vai comprometer o seu futuro”.

    Claro que um discurso desses é impossível para  Jair Messias Bolsonaro, que é  apenas um populista de direita, que amesquinha o Brasil, alinhando-se a Donald Trump em troca do amparo de um poder decadente.

    Com o discurso que fez na sexta-feira – um discurso patético e sem nexo com o qual pretendeu rebater as acusações que Sérgio Moro fez contra ele ao demitir-se do Ministério da Justiça – Bolsonaro apenas selou a sua sorte de farsante.

  • JOSY Z. MATOS/Relatos de uma quarentena – Parte III

    De Alicante/Espanha *

    Estou em quarentena na Espanha desde o dia 15 de março. Passamos por várias etapas, desde a descrença inicial nas previsões feitas por especialistas da área de epidemiologia que previam um alto índice de contaminação, a ansiedade que vem junto com as incertezas e até o desespero ao ver o número de mortes chegar a quase mil pessoas (961) em um único dia. Mil pessoas por dia na Espanha, um país que tem uma população de pouco mais de 47,1 milhões habitantes (dados Instituto Nacional de Estadísticas – INE, 2019).

    Até o dia 24 de abril, dos 114.879 casos encerrados, 92.355 (80%) se recuperaram da doença e 22.524 (22 %) faleceram (dados do Ministério de Saúde da Espanha). Especialistas chamam a atenção para o fato de que as cifras oficiais podem não ser exatas em função da falta de conhecimento do total de pessoas contagiadas e que não apresentaram sintomas, ou que os tiveram muito leves, de maneira a não entrarem nas estatísticas. Na realidade, alguns prognósticos indicam que entre 5 a 6 milhões de pessoas poderiam estar afetadas, o que significaria aproximadamente 15% da população espanhola.

    Bom lembrar que entre os contagiados se encontram 34.355 trabalhadores da área da saúde, que estão na linha de frente na luta contra o Covid-19 e mais expostos ao contágio.

    A comunidade de Madri, com 60.487 casos e 7.765 mortos é o principal foco da pandemia aqui na Espanha, junto com a Catalunha, que apresenta 44.892 contagiados e 4.393 mortos.

    Lembrando que Madrid é a cidade mais densamente povoada da Espanha e recebeu neste último mês de fevereiro aproximadamente 518.261 turistas estrangeiros, ou seja, grande número de pessoas circulando. O que acontece então?

    Aqui, é prática comum a cremação dos falecidos. No dia 27 de março faleceram 322 pessoas na cidade de Madri e os noticiários do país informavam que suas funerárias estavam transladando os corpos para outras cidades para acelerar a cremação, pois não davam conta do grande número de falecidos, que totalizava 2.412 até então.

    Passaram a receber mais de 300 falecidos por dia, sendo que em períodos fora da epidemia eram 70. Então, para evitar que as famílias tivessem que esperar muitos dias para se despedir de seus familiares, as funerárias decidiram optar por transportá-los a outros centros.

    Esse problema também aconteceu na Itália, na cidade de Bérgamo, considerado um dos principais pontos da contaminação na região da Lombardia.

    Então, sim, a doença é muito séria, mata muita gente num período muito reduzido de tempo, trazendo vários problemas para os hospitais, todos trabalhando acima da sua capacidade de atendimento, as casas de anciões com altos índices de contaminação e mortos, e funerárias abarrotadas.

    O pico da contaminação neste país chegou no dia 02 de abril, com 961 novas mortes, totalizando 112.065 pessoas contaminadas e 10.348 mortos pelo Covid-19. A partir desse dia, e depois do governo ter estabelecido medidas restritivas mais severas, proibindo totalmente que se saísse às ruas para qualquer coisa que não fosse supermercado e farmácias, começamos a perceber algumas mudanças nos dados. Antes, era permitido passear com os cachorros, mas sempre com o controle e fiscalização da polícia. Alguns cidadãos foram pegos saindo várias vezes ao dia com animais, evidentemente quando a polícia conseguia identificar esse tipo de fraude, multava imediatamente.

    Permitida compras de produtos apenas de primeira necessidade. Fotos: Josy Matos

    No entanto, quando a curva de contaminação começou a cair, percebi as pessoas mais relaxadas, a maioria ainda usando máscaras e luvas, mas já não tão atentas ao distanciamento. Estão confiantes de que a crise sanitária acabe. Mas, parece que a coisa ainda vai longe.

    De qualquer maneira, adquiri alguns hábitos que vou mantê-los como lavar toda a comida quando voltar do supermercado. As latinhas de cerveja não escapam do banho antes de irem para a geladeira! Também foi recomendado passar álcool nas embalagens ou lavá-las com água e sabão.

    No dia 22 de abril, os noticiários traziam a informação de que Álex Pastor, o prefeito da cidade de Badalona, província de Barcelona, foi preso depois de ter sido interceptado por policiais num controle de confinamento. Segundo informações dos principais jornais do país, o prefeito apresentava sinais de embriaguez e ainda enfrentou os policias, tentando intimidá-los. Resultado? Preso e multado, e suspenso pelo seu partido, o Partit dels Socialistes de Catalunya (PSC), que pediu a ele que renunciasse.

    Josy, em isolamento em casa

    No Brasil, vejo o presidente do país constantemente furando o isolamento, frequentando lugares públicos, apertando as mãos de todos que vê pela frente e, o mais absurdo de tudo, participando de manifestações públicas contra a quarentena e a favor da volta da ditadura. Como diz meu irmão César, a cada dia mais apavorado com o que vê nas ruas de Curitiba: esse homem não respeita nada, não respeita a vida de ninguém! Pois é!

    Aqui, na Europa, estamos na primavera e neste período inicia a colheita de diversos produtos agrícolas, como hortaliças e frutos vermelhos. Até agora, o setor agrícola não parou, sendo uma das atividades permitidas durante a quarentena, mas diminui muito a velocidade das colheitas em função da necessidade de distanciamento entre os trabalhadores. Essa precaução deve ser observada tanto no transporte dos mesmos como nas atividades de campo.

    Segundo informações do Ministério de Agricultura, Pesca e Alimentação, a Espanha necessitaria entre 100 mil e 150 mil trabalhadores para a colheita que deveria começar nas próximas semanas. Diversos países da Europa, como Espanha e Alemanha, importam trabalhadores rurais nesse período. Com as fronteiras fechadas e a proibição de deslocamentos dentro do país e entre países, começa o problema.

    A região de Murcia, por exemplo, que fica aqui ao lado de Alicante, deve começar a campanha de colheita de damasco, nectarinas e pêssegos e, em seguida, de melões e melancias. Esse trabalho geralmente é realizado por mão de obra local, mas as pessoas estão impossibilitadas de sair por não ter onde deixar os filhos e por medo do contágio.

    Outras regiões do país que trabalham basicamente com mão-de-obra estrangeira tiveram grandes dificuldades com o fechamento das fronteiras. Além das colheitas, neste período também inicia a tosa das ovelhas (retirar a lã), atividade que era desenvolvida por profissionais búlgaros, neste momento impedidos de se deslocar. Uma das alternativas propostas é a incorporação de trabalhadores de outras áreas, como a hotelaria, que perderam seus empregos com a crise do coronavírus e que vivem próximo às zonas de colheita.

    Alguns dias atrás foi aprovado o plano do governo espanhol com as últimas medidas que preveem a escalada de retorno às atividades. Um dos principais pontos que vinha sendo discutido durante a semana é a autorização da saída de crianças para um passeio diário. A partir deste domingo, dia 26, está permitida a saída de crianças até 14 anos, acompanhados de um adulto responsável com no máximo três crianças. Poderão sair uma vez ao dia e permanecer durante uma hora, com uma distância máxima de um quilômetro da sua residência. Embora esteja permitida a saída inclusive com brinquedos, não poderão frequentar os parques infantis que aqui são bem comuns em várias partes da cidade. Os adolescentes, entre 15 e 18 anos, agora poderão sair para as compras permitidas, ou seja, supermercados e farmácias. Serão seis milhões de crianças que voltam a ocupar as ruas do país, com todas as medidas de segurança recomendadas pelas autoridades.

    Desde o último domingo, as crianças podem sair para rua acompanhadas de adultos mas as pracinhas públicas continuam fechadas.

    Na tentativa de encontrar soluções que permitam à sociedade voltar às suas rotinas diárias, vários centros de pesquisas estão tentando desenvolver testes, medicamentos e vacinas que ajudem a combater o Covid-19. Nessa luta, a Espanha, que igual a muitos países, também havia diminuído a verba destinada à pesquisa no país, agora está tendo que correr atrás do prejuízo. E, como sempre, os cientistas não se fazem de rogados e rapidamente se puseram a trabalhar para encontrar uma saída.

    Esta semana, uma pesquisa do Instituto de Saúde Carlos III sobre a transmissão do Covid_19 na Espanha concluiu que o vírus entrou no país até por quinze vias diferentes e já estava tendo transmissão comunitária perto de 14 de fevereiro, descartando a existência de um paciente zero. Lembramos que apenas no dia 15 de fevereiro apareceram os primeiros infectados no país. A pesquisa, realizada pelos doutores Francisco Díez e María Iglesias, analisou 28 primeiros genomas completos do vírus sequenciado na Espanha e confirma múltiplas entradas de pessoas infectadas pelo vírus, vindas de outros países durante o mês de fevereiro. Os autores também afirmam que o novo vírus tem um grande potencial de transmissão, que se deve principalmente à sua alta capacidade de reprodução. Quando penetra no corpo de uma pessoa, o vírus se reproduz até 100 mil vezes em 24 horas.

    Com essa capacidade de multiplicação dá bem para imaginar a facilidade de contágio e a grande quantidade de pessoas que podem ser contagiadas por um único portador do vírus.

    Na sexta-feira, dia 24, a Espanha registrava a mais baixa cifra de mortes em um mês, 367 personas perderam a vida pelo coronavírus em um dia. O confinamento foi prorrogado até o dia 09 de maio e se espera um retorno às atividades de forma escalonada.

    Enquanto isso, vejo que no Brasil estão abrindo shoppings e, pior, o povo ansioso para passear e fazer compras!

    * Josy é bióloga, doutora em Biodiversidade e Conservação Ambiental. Museu de Ciências Naturais/SEMA-RS.

  • JORGE BARCELLOS/ Não é necropolítica, é necroeconomia!

    O afrouxamento do isolamento em várias cidades mostra que o verdadeiro soberano é o capital, que revela sua capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Achille Mbembe define a soberania em termos de poder, mas as condições práticas hoje de exercer o poder de matar não estão na política, mas estão no capital financeiro, no poder exercido por empresários e todos aqueles que em sua capacidade de afetar as políticas governamentais em seu desejo da volta ao trabalho, exercem o poder de matar. Enquanto correm a imprensa com seus artigos exigindo que parte da sociedade volte ao trabalho, veem editadas medidas de liberalidade – só em Porto Alegre, foram autorizadas a funcionar lojas de venda de chocolate – produzem ali adiante o assassinato de trabalhadores. Não é apenas guerra contra o vírus que estamos vivendo, é a guerra contra os interesses de mercado que se quer soberano, como foi à guerra contra o poder dos reis do século XVIII “a guerra, afinal, é tanto um meio de alcançar a soberania como uma forma de exercer o direito de matar”, diz Mbembe. Agora, não é a política que é uma forma de guerra, é a economia que assume o lugar de decidir a vida e a morte de trabalhadores.

    Sabe-se que na epidemia brasileira as vítimas do coronavírus não são apenas os idosos, mas trabalhadores em sua melhor faixa produtiva, jovens e adultos. As filas junto aos bancos, as aglomerações nos parques e tudo aquilo que desrespeita as medidas de isolamento irão se tornar nossos campos de morte, campos de extermínio ao ar livre, equivalente às avessas dos campos de concentração. O que os empresários querem é a suspensão do estado de direito, direito à vida, a proposta de volta ao trabalho de frações de idade é a disputa entre as formas de soberania sanitária e econômica, por isso trata-se de um acordo onde as peças estão viciadas: os empresários sabem na comodidade de seus lares, são os operários que estão em exposição permanente e mortal.

    No paradigma hegeliano, diz Mbembe, a morte é resultado de ações voluntárias, de “riscos conscientemente assumidos pelo sujeito”. Somos sujeitos porque enfrentamos a morte, o contrário daqueles que nos expõem ao vírus e nos tornam objetos, retirando nossa humanidade. Por isso ficar em casa frente à pandemia é um ato humano, não se trata mais da politica como poder de morte de quem vive a vida humana, a economia quer assumir esse lugar, definir de forma soberana arriscar a totalidade de uma vida, e por isso, se torna assim, desumana! Foi preciso a morte provocada pelo vírus para encararmos a verdade do capital: para ele, a vida é só utilidade, o limite da morte foi abandonado pelo empresariado, pelo capital financeiro, enquanto que o trabalhador respeita a morte, não há limites para a economia.

    O afrouxamento das regras de isolamento é o ponto de início do sacrifício de milhares de trabalhadores, e por isso é um excesso, uma “antieconômia” que os empresários ignoram porque trará prejuízos maiores na segunda onda do vírus que já se anuncia.  A economia opera na base de uma divisão entre os que podem viver e morrer, a facilidade para o capital está no fato de que as elites não vivenciam os efeitos de suas decisões: a morte de seus trabalhadores é visto como o seu dano colateral, no sentido dado pelo sociólogo Zygmunt Bauman. Não é mais o estado que detém funções assassinas: com a pandemia, é a economia “a condição para aceitabilidade do fazer morrer”.

    O empresariado é este estado nazista dentro do estado democrático de direito exercendo seu direito de matar, expondo seus trabalhadores à morte, combinando as características de um estado assassino, racista e suicidário como sugere o filósofo Wladimir Safatle. Não é a fusão da guerra com a política, é a fusão da guerra com a economia, pois a exposição do Outro no trabalho é essencial para o lucro, reduzido o trabalhador a lógica impessoal da racionalidade instrumental. A racionalidade econômica passa pela imposição do risco a morte, capacidade de expor ao risco a fim de obter lucro. Para quê câmaras de gás e fornos se basta expor os trabalhadores ao ar, ao trabalho para fazer a completa desumanização e produção de morte baseado na falsa premissa racional de que alguns podem trabalhar?

    Na Revolução Francesa, a passagem da execução pela força para a execução pela guilhotina foi repleta de significados. O vírus é a nova guilhotina que mantém as características do enforcamento. Ela é democrática como a guilhotina que estendeu a prerrogativa da execução dos pobres para todos os cidadãos, mas impõe uma morte humilhante como a do enforcamento, a morte solitária sem a presença de seus entes queridos, o enterramento de massa e por isso cruel. Chamar ao trabalho é uma forma civilizada de matar, um grande número de pessoas num curto espaço de tempo, prova da insensibilidade das classes abastadas, e, portanto, atualização da fusão da razão com o terror da Revolução Francesa.

    A falsa verdade de que “só os velhos morrem”, e por isso, libertemos os jovens para o trabalho, esconde a verdade do conflito de interesses entre o capital e o Estado, entre quem deve viver e quem podem morrer. Qualquer narrativa que se construa com base no rompimento do isolamento radical está claramente propondo uma experimentação bio-econômica e não biopolítica, como diz Foucault. Perda de direitos sobre o corpo, perda da casa como lugar de proteção ao risco, morte social pela expulsão da sua humanidade, não é o retorno do plantation por outros meios, onde o escravo pertence ao senhor? Nesse apelo ao trabalho, somos todos escravos, propriedades, temos valor, respondemos a necessidade de lucro dos empresários. Todos os que foram as ruas em passeata chamar ao trabalho são o equivalente do capataz, comportando-se de forma descontrolada no espaço público, o discurso do desemprego é o equivalente das chibatadas do senhor no escravo para impor o terror, disputa entre a liberdade de propriedade e liberdade da pessoa, imposição comercial de quem se acredita proprietário do trabalho e da vida do trabalhador.

    Quando o direito de fazer a guerra, de tomar a vida, se expande do estado para a economia, o que acontece? O direito de matar ou negociar a vida, privilégios do estado como apontado por Foucault cede espaço à ideia de que a fronteira do estado é inferior às fronteiras econômicas. A economia não reconhece nenhuma autoridade superior a sua dentro das fronteiras de estado e por isso o relaxamento do isolamento proposto pelo Ministro da Saúde em sua negociação para permanecer no cargo ou as iniciativas de relaxamento de prefeitos de norte a sul do país é apenas o modo civilizado de matar para que a economia atinja seus objetivos, prova de que a necropolítica perde seu lugar para a necroeconomia, que a biopolítica se transforma em bio-economia: o capital sabe que, frente aos mortos, tem a disponibilidade de um exército industrial de reserva para substitui-los, mão de obra renovável, como se o empresariado tivesse o direito divino de existir e os trabalhadores não.

    “A Faixa de Gaza é aqui!” prognóstico fatal das múltiplas separações e limites que é preciso impor aos cidadãos pelo isolamento radical, limites que precisam serem impostos pelo estado sob vigilância e controle “não ir às praias”, “não aglomerar nas ruas”, tudo é o novo estimulo a reclusão, somos as novas gated communities, praticando a rápida circulação. Agora, os campos de batalha estão nas filas sem distanciamento dos mercados e bancos, nas lojas abertas e exposição de seus trabalhadores a um vírus que não respeita divisões de classe social. O estado de sitio deixa de ser uma instituição militar para se tornar econômica, a obrigação de trabalhar é essa máquina da necroeconomia ”As guerras da época da globalização, assim, visam forçar o inimigo a submissão, independentemente de consequências imediatas, efeitos secundários e danos colaterais das ações militares”, diz Mbembe. Não é exatamente assim que é tratado o trabalhador que se recusa a trabalhar, não é visto como inimigo que é preciso ser combatido, submetido nessa guerra, sua morte não é vista como “dano colateral”? Na era da mobilidade global, impõe-se a imobilidade planetária, já que “a própria coerção tornou-se produto do mercado”.

    Jorge Barcellos é historiador, Mestre e Doutor em Educação pela UFRGS. Autor de O Tribunal de Contas e a Educação Municipal (Editora Fi, 2017) e A impossibilidade do real: introdução ao pensamento de Jean Baudrillard (Editora Homo Plásticus, 2018), é colaborador de Sul21, Le Monde Diplomatique Brasil, Jornal Já e do jornal O Estado de Direito. Mantém a página jorgebarcellos.pro.br.

     

     

     

  • JOSY Z. MATOS/Relatos de uma quarentena – Parte II

    De Alicante/Espanha *

    Logo após a Páscoa, o governo espanhol liberou algumas atividades, como centros médicos, clínicas veterinárias, profissionais de eletricidades, encanamento, construção, etc, mas manteve a proibição de funcionamento de várias outras, mesmo atividades esportivas como caminhar ou correr. É estranho, porque apesar da ansiedade, parece que tudo está normal.

    No isolamento, nossos dias não têm de ser iguais. Acredito que nos acostumamos a tudo, até a coisas ruins. No começo, a gente grita, chora, esperneia. Depois, vamos nos conformando com o inevitável, o irremediável, como se uma voz interior te dissesse: Olha, não tem jeito, vai ter que ser assim mesmo!

    É difícil. Eu, por exemplo, sou das antigas, gosto de olhar nos olhos ao conversar. Mas você se acostuma a não ter com quem falar ou a simplesmente mandar uns watts, com frases rápidas, tentando passar uma mensagem que, às vezes, o outro não entende. Assim como nos acostumamos a sentir dor, a sentir fome, desprezo, a não ser nada mais que um grão de areia numa praia infinita.

    Meu dia a dia é bem simples e tranquilo nesta quarentena. Acho que o que não tem remédio, remediado está. E, não é conformismo, mas consciência de que se não posso mudar uma situação, tenho que me adaptar. A minha profissão de bióloga ajudou a perceber, desde o princípio, que a coisa não ia bem e que este isolamento iria longe. O que todos os meus colegas e amigos de profissão daqui da Europa concordaram. Ainda não havia começado o isolamento no Brasil e, aqui, já se falava que estaríamos vivenciando a pior situação mundial desde a segunda e última grande guerra.

    Josy com algumas de suas plantas na sacada de casa em Alicante, buscando adaptação no isolamento. Fotos: Arquivo pessoal

    Mas, como dizia, minha rotina tem sido tranquila. Levanto lá pelas 7h30, 8h, tomo café, vejo as notícias da manhã, com atualização dos dados sobre a pandemia, depois faço entre uma e duas horas de exercícios acompanhando uma série de vídeos na internet da espanhola Patry Jordan, que me fornecem aquilo que preciso para manter um mínimo de atividades físicas. Muitos amigos também estão tentando manter uma rotina de exercícios físicos, uma das recomendações dos médicos para aliviar a tensão. E cuido das minhas plantas.

    Outros elaboram uma receita nova todos os dias de algum prato que ainda não tinham provado.

    Após o banho, pego o computador e trabalho até a noite, com algumas paradas para comer. Assim, vou até por volta das 21h, quando paro para ver alguma série ou filme.

    Devo fazer um parêntesis aqui para dizer o quanto a internet ajuda neste momento de isolamento. Ter sites onde a gente pode ver filmes, ouvir música e acompanhar as “lives” de todo tipo de assuntos, desde músicos, cursos, política, etc, é um privilégio e um grande alívio para o coração. Vídeos de museus, como o Museo del Prado, que eu adoro e tantos outros onde temos informações sobre as obras aí expostas, é fantástico. Também é bom lembrarmos da possibilidade do trabalho remoto (homework) e do ensino à distância.

    Aqui na Espanha isso ficou bem nítido com as Universidades que mantiveram o ritmo de aulas on line, trabalhos e exames realizados neste período. Na verdade, a internet já era uma muito utilizada aqui para a educação e a Universidade fornece ferramentas e auxílio, tanto a professores como a alunos, no processo de uso dessas tecnologias.

    Alguns dias antes da quarentena nós tínhamos realizado alguns vídeos curtos sobre Botânica, os quais chamamos de ViBos (Vídeos Botânicos), para auxiliar o aprendizado de temas que envolvem plantas. Muito bem avaliados pelos alunos, agora fazem parte do conteúdo das aulas de botânica.  Mais recentemente, um dos professores do grupo de WhatsApp que temos, formado por membros do Grupo de Botânica Vegetal da Universidade de Alicante, começou um movimento de colocar fotos de plantas que encontrava pelo caminho quando levava seu cachorro para passear. Logo alguém teve a ideia de começar a compartilhar essas fotos no perfil do Tweeter BotCov_UA, @botcove, e do Instagram, botanica_ua. Mais uma fonte de informação sobre a botânica local, criada durante a quarentena.

    Videoconferência com colegas da Universidade.

    E quando você vê já passou mais um dia, mais uma semana de isolamento. As últimas notícias são boas, os números de infectados e mortes têm diminuído consideravelmente, mas ainda estamos em estado de alerta.

    Também estamos muito sensíveis e com a certeza que essa situação vai deixar cicatrizes. Percebi entre as pessoas com quem tenho conversado no meio virtual que a obrigação de ficarmos em casa fez com que tornássemos introspectivos e questionadores do que realmente importa em nossas vidas.

    Notaram a grande capacidade que temos de compartilhar? É uma necessidade. Acho que isso nos faz sentir mais próximo um dos outros, que fazemos parte de algo maior, de algo bom. Aí, os grupos de watts que sempre silenciamos e criticamos, agora são ótimos! Queremos colocar algo ali para ver os comentários dos demais e gerar mais diálogos.

    Mas não é só isso, compartilhamos muito mais coisas além dos memes, vídeos de informações ou de piadas, compartilhamos nosso tempo, comida, salários, gastos da crise, enfim, estamos socializando mais, nos solidarizando mais. A empatia, considerada um dos pilares da inteligência emocional, tão falada em cursos de gestão de pessoas, agora tem sido notada em muitos lares. Até porque todos foram afetados de alguma maneira e precisamos encontrar no outro um apoio para manter nossas mentes sanas.

    E por falar em solidariedade, quero lembrar os aplausos diários dirigidos aos sanitários que, na Espanha, acontecem às 20h. Essa prática começou na Itália, em seguida do início da quarentena em 9 de março. Se convoca as pessoas que estão recolhidas em suas casas a saírem nas janelas, sacadas, enfim, onde for possível, para aplaudir o pessoal sanitário que trabalha para conter a pandemia. Na Espanha, a convocação veio através das redes sociais para o dia 14 de março às 22h, mas no dia seguinte se adiantou para as 20h para que as crianças pudessem participar, e a partir daí não parou mais. Mas não é um evento exclusivo da Espanha, acontece em diversas partes do mundo e de várias formas, e geralmente são aplausos, às vezes algum vizinho coloca alguma das músicas que se destacaram nesses momentos de isolamento por inspirar resistência para vencer as dificuldades.

    Umas dessas músicas cantadas em muitos balcões foi Bella Ciao, música italiana de resistência antifascista dos anos 1943/45. Essa música foi tema da série espanhola La Casa de Papel, inicialmente produzida pela Televisión Española (TVE) e posteriormente comprada pela Netflix, foi bastante disseminada e posteriormente servido de hino em diversas manifestações populares.  Hoje, na minha rua, aplaudimos com o som de Color Esperanza, de Diego Torres.

    …Sé que lo imposible se puede lograr
    Que la tristeza algún día se irá
    Y así será la vida cambia y cambiará
    Sentirás que el alma vuela
    Por cantar una vez más…

    Foi emocionante, as pessoas aplaudem, acenam, cantam, enfim, todos que saem para aplaudir têm o mesmo sentimento no coração, de esperança!  Às vezes passam ambulâncias ou caminhões dos bombeiros com as sirenes ligadas nesse horário. Os aplausos também se fazem em homenagem aos integrantes dos corpos de segurança, como policiais e bombeiros, que estão trabalhando intensamente nestes dias.

    Servidor de empresa contrata pela prefeitura higienizar paradas de ônibus e outros locais.

    Na primeira semana da quarentena já surgiram várias iniciativas de artistas de todo o mundo para apoiar e fortalecer as necessárias ações de isolamento social. Uma dessas iniciativas partiu da rede de rádios Cadena 100, que reuniu vários artistas conhecidos e gravou uma versão da música Resistiré para arrecadar fundos para a instituição Cáritas. Essa música que foi lançada no ano 1988 e mais tarde utilizada como tema do filme Átame!, de Pedro Almodóvar (1990) se tornando bastante conhecido. Assim, quando começou o isolamento algumas pessoas começaram a cantá-la no evento das 20h nas janelas e sacadas, se tornando mais um hino de resistência nestes momentos de quarentena.

    …Resistiré, para seguir viviendo
    Soportaré los golpes y jamás me rendiré
    Y aunque los sueños se me rompan en pedazos
    Resistiré, resistiré
    Cuando el mundo pierda toda magia
    Cuando mi enemigo sea yo
    Cuando me apuñale la nostalgia
    Y no reconozca ni mi voz…

    O outro lado dos aplausos nas sacadas é ocupado pelo pessoal da saúde, médicos, enfermeiros, assistentes, pessoas que estão na linha de frente da luta para vencermos o Covid-19. Pudemos ver nas redes sociais vídeos onde o pessoal de saúde aparece com mensagens de incentivo e de esperança para as pessoas que estão fazendo a quarentena e também para os trabalhadores de segurança, policiais e bombeiros. As mensagens vêm de várias formas, mas geralmente eles saem pelos corredores dos hospitais, evidentemente vestidos com sua indumentária hospitalar, aplaudindo, cantando músicas ou em filas onde cada pessoa leva um cartaz que ao final forma uma frase de agradecimento ou de incentivo.

    Em Alicante, população pode ir às compras, mas somente de produtos essenciais.

    No dia 17 de abril, na Espanha continuava o descenso nos números de Covid-19, tendo reduzido o número de mortos à metade daquele do início do mês: 503 mortos e 4.289 novos casos. Alguns hospitais de campanha, construídos para enfrentar a crise, já estão vazios e os poucos pacientes que ainda restavam foram transferidos para centros hospitalares.

    O governo planeja ir liberando a população para o trabalho de forma escalonada para evitar que o pico de contaminação volte a crescer. No meio de tudo isso temos uma falsa sensação de normalidade. Mas já não sabemos o que é normal neste novo mundo que aqui começa a renascer depois de tanto medo. Mudaremos nossa maneira de ser, nosso comportamento diante da nossa vida e das pessoas que fazem parte dela, ou logo teremos esquecido estes dias de incertezas, de dor e de promessas e voltaremos a ser o que sempre fomos.

    * Josy é bióloga, doutora em Biodiversidade e Conservação Ambiental. Museu de Ciências Naturais/SEMA-RS.

  • JOSY Z. MATOS/Relatos de uma quarentena – Parte I

    Josy Z. de Matos *
    De Alicante/Espanha

    O caminho que me trouxe até Alicante, na Espanha, no dia 28 de janeiro de 2019, começou muito antes, quando terminei o mestrado em 2000 e recebi uma bolsa destinada a estudantes latino-americanos para fazer o doutorado na Universidade de Alicante. Entre idas e vindas, fiquei oito anos. Retornei ao Brasil e passei no concurso da Fundação Zoobotânica do RS, em Porto Alegre. Depois de um desastrado governo gaúcho, que extinguiu a FZB, decidi retornar a Alicante para fazer um pós-doutorado junto ao Grupo de Pesquisa em Botânica e Conservação Vegetal na mesma universidade. Minha pesquisa trata da diversidade genética e conservação de cactos do RS.

    Início do isolamento voluntário em março. Fotos: Arquivo pessoal

    Aqui tenho muitos amigos, então a adaptação sempre é bem fácil. Mas o mais difícil de estar aqui é a distância dos meus filhos, Eduardo e Elis. Eduardo veio passar as férias comigo e voltou ao Brasil no dia 16 de fevereiro, quando o Covid-19 estava começando a aparecer por aqui, com dois casos registrados na Espanha. Um mês depois, foi decretado o confinamento obrigatório e assim começou esta fase tão difícil da nossa história.

    No dia 12 de março de 2020 decidi entrar em isolamento voluntário. Nesse dia, fui ao fisioterapeuta, Andrés, para tratar o meu quadril. Conversamos sobre o coronavírus e os tempos difíceis que ainda estavam por vir. Ele me disse que fechariam a clínica e só atenderiam emergências, mas que isso ainda dependia das medidas que o governo tomaria.

    Depois fui à universidade, cheguei tarde, passava das 13h e quase todos já tinham saído para almoçar. Benito, meu orientador, estava lá, organizando algumas coisas porque achava que a partir de segunda a universidade fecharia. Conversamos um pouco e eu lhe disse que não voltaria à uni nos próximos dias, que entraria em isolamento voluntário, ao que ele concordou comigo. “Não se preocupe, Josy, na segunda-feira a universidade provavelmente vai fechar”.

    Depois disso, fui para a casa, passei pelo supermercado, comprei algumas coisas pensando em ficar uma semana enclausurada. À noite, conversei com minha colega de apartamento, Ariana, e concordamos que o isolamento seria o melhor a fazer nessa situação. Ela me disse: tenho que ir à uni amanhã, mas vou trazer tudo que necessito para trabalhar em casa. Ariana está fazendo um doutorado com moscas, está na fase final da tese.

    Naqueles primeiros dias, nada estava claro, sabíamos apenas que a China estava com um número grande de pessoas contagiadas pelo covid-19. Pelos registros chineses, em 22 de janeiro, havia 571 contaminados e, quase dois meses depois, em 12 de março, eram 80.813 casos e 3.176 mortos. A epidemia tinha tomado proporções assustadoras.

    Na Espanha os casos começaram em 15 de fevereiro. Eu estava viajando com meu filho Eduardo, que veio passar umas férias comigo. Estivemos em Roma primeiro, depois Edimburgo, Glasgow e Londres, e voltamos à Alicante.

    Na Itália, já se falava em contaminados no início de fevereiro, mas o foco era Milano e não ficamos preocupados. Em Londres, comecei a tossir mas como não tive febre, deduzimos que era um simples resfriado. No dia 3 de março, faleceu a primeira pessoa na Espanha e dez dias depois, quando entrei na quarentena, já eram 133 mortos.

    O governo espanhol já estava discutindo as medidas de prevenção e, dia 15, no domingo, o presidente do governo socialista, Pedro Sanchez, informou em rede nacional que adotariam a quarentena. Já eram 7.988 infectados. A partir daí, estava proibido sair às ruas, exceto para ir ao supermercado e farmácia. Autorizados a sair somente para trabalhar em atividades de primeiras necessidades.

    Nesse momento você pensa: agora vai ficar tudo bem, daqui uns dias voltará tudo ao normal. Mas as cosias nunca funcionam como nós pensamos e a vida ficou mais difícil. No começo é tudo piada, o mundo foi invadido por memes e charges de como enfrentar uma quarentena. Tudo ainda era muito leve, mas os dias vão passando e as notícias só pioram, mais contaminados, mais mortes, mais incertezas.

    Daí, vêm os momentos de angústia, de pensar na vida que foi e na vida que virá. Mas, na primeira semana de confinamento, ainda havia muitas controvérsias e incertezas.

    É impressionante como neste momento em que o mundo consegue produzir mais informações sobre qualquer assunto e colocá-las à disposição do público de diferentes maneiras, especialmente com a ajuda da internet, surgem tantas informações falsas e tantos “sábios de plantão”. Todos entendem de todos os assuntos. Blogueiros que sabem mais que cientistas, políticos sabem mais do que professores, e, obviamente, qualquer um sabe mais do que os médicos. Esses “espertos” divulgam suas teorias sobre a doença, a origem do vírus e, é claro, as teorias de conspiração, para todos os gostos.

    Depois da primeira semana, e mesmo acompanhando o processo na China, onde o vírus começou a se espalhar, a única certeza era que os números seguiriam crescendo. Começam a faltar equipamentos de proteção individual (EPIs) para o pessoal sanitário utilizar, que seriam as máscaras, luvas e roupas hospitalares. Assim, começam a aparecer também os primeiros sanitários contaminados, enfermeiros, médicos, auxiliares e o pessoal de limpeza dos hospitais.

    O governo tenta desesperadamente comprar mais EPIs e respiradouros, mas esbarra na falta de material no mercado, subida absurda dos preços e exigência de pagamento adiantado, isso sem falar nas fraudes. A Espanha comprou kits de testes rápidos que prometiam 80% de certeza na detecção do vírus e, ao serem testados, se viu que a precisão era de 30%. Esse material foi devolvido, mas o tempo perdido não se recupera. Pessoas inescrupulosas tentando ganhar dinheiro a qualquer custo, e o custo, neste momento, é a vida de milhares.

    Por outro lado, vimos também diversas pessoas trabalhando como voluntários para auxiliar os sanitários a conter o vírus, pessoas ajudando a anciões que não tinham quem os ajudasse, empresários produzindo álcool em gel, máscaras, respiradouros, luvas, alguns famosos doando dinheiro para comprar equipamentos, lojas de esportes doando todas as máscaras de mergulho que poderiam ser adaptadas como respiradouros, etc. Solidariedade ainda existe.

    Enquanto assistia e lia o que outros países estavam fazendo para enfrentar esta crise sanitária, todos considerando o isolamento social extremamente necessário para se evitar novas contaminações e mais mortes, no Brasil, o abominável presidente tentando colocar o país no caos e chamando o trabalhador para ir às ruas e voltar a trabalhar, alegando que o vírus era uma “gripezinha”. Assistimos as primeiras  carreatas em algumas capitais brasileiras sob o lema “O Brasil não pode parar”. Pode e deve!

    Felizmente, apesar da pressão vinda do Planalto, muitos governadores e prefeitos adotaram o isolamento atendendo, pelo menos em parte, as recomendações de cientistas.

    Entrando na terceira semana de isolamento na Espanha, em 31 de março, com novas regras mais restritivas. Nesse dia, o número de mortes caiu para 748 e o número de novos casos registrados diariamente também caiu, de 7.846 (dia 30/03) para 6.461 (31/03).

    No entanto, o maior número de mortos se deu no dia 02 de abril, quando chegamos a atingir 961 mortes, sendo este considerado o pico da quarentena na Espanha. Quando isso acontece, a emoção toma conta, o sentimento é de impotência diante de tanto sofrimento. E a solidariedade se torna imprescindível para continuarmos vivendo. Como me disse uma amiga chilena, Marta, nesse dia: já virá a primavera esperada!

    Alicante, Espanha . Arquivo pessoal

    Após a Páscoa, depois que se firmasse a queda nos números de novas contaminações (3.804) e mortos (603), a Espanha liberou o funcionamento dos estabelecimentos de comida para entrega, de serviços como eletricidade, encanamento, centros médicos, etc. E o governo já estuda como realizar o retorno às atividades de uma maneira segura.

    E com a esperança de que esse novo mundo que vamos iniciar seja mais igualitário e as relações mais humanitárias!

    * Bióloga, doutora em Biodiversidade e Conservação Ambiental. Museu de Ciências Naturais/SEMA-RS.  

  • VILSON ROMERO/ O jabuti e as raposas no CARF

    Vilson Antonio Romero (*)

    Entre 2017 e 2020, cerca de R$ 110 bilhões em créditos tributários federais foram mantidos como devidos em razão de decisões do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf).

    O Carf, criado pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, é um tribunal administrativo, paritário, integrado por representantes da Fazenda Nacional e dos contribuintes, vinculado ao Ministério da Economia, sendo responsável pelo julgamento em grau recursal de irresignações de contribuintes relativas aos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil.

    É tamanha a importância dessa instância que, conforme dados de fevereiro de 2019, sob sua análise estavam 122.371 processos, correspondendo a R$ 603,77 bilhões em créditos tributários, quase metade de um ano de arrecadação federal.

    O Carf, atualmente, é integrado por mais de uma centena de conselheiros, metade Auditores Fiscais da Receita Federal e outra metade por representantes de confederações empresariais e entidades de classe, representando os contribuintes. Em situações de empate no julgamento de demandas tributárias, o voto de qualidade cabia ao representante do governo.

    Essa regra existia como forma de equalização do litígio tributário pois, em caso de derrota, os contribuintes sempre e ainda poderiam ir ao Poder Judiciário para contestar a exigência, possibilidade inexistente para a Fazenda Pública que, em caso de insucesso, não pode judicializar a questão.

    Pois isto mudou com a sanção presidencial e publicação no Diário Oficial de 14 de abril da Lei nº 13.988/20. Contrariando posições inclusive de renomados advogados tributaristas e recomendações do ministro da Justiça e do procurador-geral da República, no texto resultante da conversão da Medida Provisória (MP) 899/2019, a caneta presidencial permitiu prosperar um “jabuti” (dispositivo alheio à matéria) que transfere o voto de qualidade dos representantes da Fazenda para os representantes dos contribuintes.

    Com essa mudança, perde o Estado em inúmeras frentes, por exemplo, no seu poder julgador e na palavra final na interpretação da legislação.

    É bom registrar que o Carf decide e corre grande risco nesse momento com análise de autuações de grande interesse da sociedade, como são as oriundas de operações como a Lava Jato e outras.

    Na prática, serão as raposas (grandes empresas autuadas e com fortes bancas de advocacia tributária) tomando conta do galinheiro.

    Há uma perplexidade e indignação generalizada entre todos os que se dedicam a defender a boa administração dos recursos públicos e a moralidade administrativa.

    Se não houver medidas judiciais e legislativas urgentes corrigindo esse descalabro, teremos inequivocamente uma situação de enfraquecimento do combate à sonegação e à corrupção, bem como a inexorável possibilidade de gerar prejuízos bilionários ao erário público.

    (*) auditor fiscal aposentado e jornalista. vilsonromero@yahoo.com.br

     

  • LUÍS LAMB / O protagonismo da ciência – Scientia Imperii Decus et Tutamen

    Nos últimos dias, a ciência voltou a ter protagonismo. No nosso tempo de vida, nunca havíamos presenciado a proliferação de termos científicos. Passamos a conviver com funções exponenciais, achatamento de curvas, “erre zeros”, testes PCR, supressão e mitigação, horizontalidade e verticalidade. Universidades voltaram ao cenário.

    Nesta era de oniciência social, cientistas agora têm voz. No nosso Estado, temos recebido grandes contribuições de nossas universidades para vencermos este grande desafio global, com ampla utilização de soluções propostas em parcerias com empresas, governos locais e hospitais, o que muito nos orgulha.

    O fato que levou a esta valorização extemporânea da ciência foi a pandemia de Covid-19. E muito deste protagonismo deve-se à popularização das projeções epidemiológicas. Os modelos mais divulgados são os modelos desenvolvidos pelo professor Neil Ferguson, que orientam decisões de diversos países, tornando-se conhecidos como “os modelos do Imperial College”.

    Para os leigos, modelos epidemiológicos são áridas construções matemáticas. No entanto, esses modelos matemáticos têm sido extremamente úteis, orientando ações estratégicas e políticas nas pandemias recentes de H1N1 e zika, bem como na epidemia de ebola.

    Este conhecimento prévio e os resultados obtidos no enfrentamento a pandemias construíram a credibilidade do grupo de pesquisa de Ferguson, grupo formado anteriormente por Roy Anderson e Robert May, que modelaram a pandemia de aids, entre muitos outros estudos. Antes, por essa universidade, passaram H.G. Wells, o pai da ficção científica, Alexander Fleming, que nos trouxe os antibióticos e Dennis Gabor, que criou a hologrofia utilizada em inúmeras aplicações.

    Felizmente, as nossas universidades voltaram a ser citadas e a ter protagonismo. Se hoje são essenciais no enfrentamento à pandemia, no passado recente suas pesquisas incrementaram a nossa produção agropecuária, construíram parques tecnológicos e hospitais que hoje são referências no enfrentamento à pandemia.

    Finalmente: o título da coluna é lema da universidade inglesa – a ciência protege o império; aqui, a ciência protege o Estado. Como ex-aluno da Ufrgs e do Imperial College, percebemos o quanto a valorizar a ciência protege a sociedade e nos valoriza como seres humanos.

    • Secretário de Inovação, Ciência e Tecnologia
  • CARLOS TIBURSKI /A hora mais sombria da humanidade: salvar vidas ou empregos?

    “Esses ídolos medíocres reinavam sob um céu espesso nas encruzilhadas sem vida, brutos insensíveis que bem representavam o reino imóvel em que havíamos entrado ou pelo menos, a sua ordem última, a de uma necrópole em que a peste, a pedra e a noite teriam feito calar, enfim, todas as vozes”. (Trecho de A Peste, de Albert Camus, 1947)

    Quando o obscurantismo alia-se ao oportunismo é isso que ocorre. Exclusão nas reuniões do governo do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (Democratas), uma das poucas vozes sensatas neste momento, para dar vez a um senhor que há poucos dias manipulou dados e informações sobre a quarentena como forma de combater a disseminação do #Covid19.

    Encontraram-se em seus interesses escusos. O discurso de ódio, tática adotada desde sempre pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), agora se alia ao do deputado federal, Osmar Terra (MDB), em sua campanha para verticalizar a quarentena maquiando e até adulterando dados oficiais. Foi desmascarado nas redes sociais em menos de 30 minutos. Rosane de Oliveira, do jornal Zero Hora, foi uma das que rapidamente corrigiu o deputado.

    FALSO DILEMA!

    Em recente declaração o Secretário Geral da OMS, Tedros Adhanom, afirmou que cada país deve avaliar em que fase a proliferação do vírus está e ajustar sua estratégia para alongar a curva de contágio. Afinal, é somente isto que estamos fazendo. Evitar um colapso no sistema de saúde para que os casos mais graves possam receber o atendimento necessário.

    Ponderação lúcida surge de onde menos se espera. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou para o falso dilema que vivemos justamente em “uma das horas mais sombrias da humanidade”: salvar vidas ou empregos? A declaração foi publicada no jornal britânico The Telegraph. Segundo a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva: “Salvar vidas ou salvar meios de subsistência. Este é um falso dilema – controlar o vírus é, quando muito, um pré-requisito para salvar meios de subsistência”. Vulgo, gente morta não paga conta! O apelo segue ainda lembrando que uma ação está associada a outra, “proteger a saúde pública e deixar que as pessoas retornem a seus trabalhos caminham de mãos dadas”. Primeiro a saúde pública, depois a economia.

    Em meio há tantas correntes de pensamento e interesses, devemos optar pela ciência e conhecimento para nos conduzir por este ‘vale de lágrimas’. Ato da mais alta bravura em tempos obscuros. Jejum é bom, saudável, necessário e recomendado, mas não deve ser confundido ou mesmo usado como promessa de salvação para o vírus Covid-19, onde não há vacina ainda. Entre pandemias e pandemônios o presidente até tenta! É decreto dia sim, dia não apenas para incluir as igrejas como serviço essencial. As lotéricas, desde que com vidros a prova de bala, entraram nessa por mera distração para restabelecer os proventos dos mercadores da fé, o dízimo abençoado! Afinal, a bancada evangélica é uma das poucas que se mantêm fiel ao Jair Bolsonaro. E sobre fidelidade, nem mesmo com o oportunismo estrutural do MDB, o deputado Osmar Terra tem o apoio do partido nessa jornada para verticalizar a quarentena.

    A PROMESSA DOS AFLITOS

    Em Gênesis 12-17, Deus faz um pacto com Abraão onde mesmo com 99 anos e sua esposa Sara, 90, teriam mais um filho. O pacto foi selado pelo sinal da circuncisão e o nascimento de Isaque cumpriu a promessa. Desde Abraão, o pai de multidões, que transita em nosso crençário judaico-cristão a ideia do impossível. Que para Deus nada é impossível, nem se discute. Apenas a sua própria existência, mas isso é outra discussão.

    Vencida a resistência de que para uma inteligência superior, nada é impossível, nos debruçamos agora nas promessas de como o governo e o presidente Jair Bolsonaro irão aliviar e mitigar o sofrimento dos aflitos? E mais! O momento do Covid-19 no Brasil é o adequado para aplicar a verticalização da quarentena? Em que dados, informações são baseadas essa decisão? Ao que parece Bolsonaro e Terra estão de mãos dadas na contra mão do mundo ignorando a ciência e todas recomendações de órgãos internacionais: OMS, ONU, FMI… Nem Trump teve culhão para contrariar o senso comum. Respondido isso, ficará fácil garantir para a população que é seguro voltar às ruas para trabalhar e movimentar essa engrenagem.

    Aliás, este momento da humanidade sem precedentes está servindo para atestar a veracidade de muitos textos apócrifos que circulam nas correntes de WhatsApp. Bem como colocará por terra tantas outras fake news sobre teorias da conspiração. E quando tudo isso passar, porque irá, poderemos afirmar sem medo: quem realmente movimenta a economia é o trabalhador. E se o trabalhador tudo produz, a ele tudo pertence.

    Fontes consultadas:

    Agência Brasil
    http://agenciabrasil.ebc.com.br/…/veja-medidas-que-cada-es…

    O Globo
    http://oglobo.globo.com/…/oms-fmi-dizem-que-ha-falso-dilem…
    http://oglobo.globo.com/…/mandetta-chama-de-osmar-trevas-e…

    Câmara dos Deputados
    http://www.camara.leg.br/…/646493-aprovado-o-decreto-que-…/

    Bíblia Sagrada
    Livro do Gênesis, capítulos 12 a 17.