Ninguém estava preparado para parar por um período tão longo
O vírus de Wuhan paralisou o mundo dito civilizado, colocando-nos num intervalo que se vai prolongando numa espiral sem fim.
Para nós brasileiros a quarentena começou em meados de março e já se vislumbra que o recesso de atividades escolares, comerciais, industriais e de serviços se estenderá até o inicio de setembro.
Muita gente não se conforma e sai pra rua disposta a trabalhar, segurar o emprego e ganhar a vida, mas a maioria não tem dinheiro para o consumo, de modo que as coisas tendem a ficar nesse vai-não vai, pesando nas costas de quem já vivia com o mínimo ou menos do que isso.
Estamos numa viagem sem prazo de término definido. Os otimistas torcem por um remédio, nem que seja uma panacéia temporária, mas sabem que a solução é uma vacina que pode surgir, na melhor das hipóteses, no primeiro semestre de 2021.
Enquanto isso, não é razoável pensar que se deve retomar todas as atividades, recolocando nos trilhos, a todo vapor, o trem da Economia. Pelo menos por um tempo, a Economia não é a prioridade. Além disso, a retomada haverá de ser lenta.
A crise mundial desencadeada pela pandemia evidenciou a importância da Saúde como item central da vida humana, desde que se ponha ao seu lado a Educação como fonte dos conhecimentos necessários para equacionar problemas sanitários da gravidade de uma virose como essa que aí está.
Dentro do conceito amplo de Saúde se alinham inevitavelmente a Higiene e o Saneamento; e faz parte da Educação, no mínimo, a Ciência, na qual se encaixa, ainda e sempre, a Ecologia. O resto é complementar.
Ganhar dinheiro, comprar coisas, construir patrimônio – tudo isso virou secundário. Estamos em processo de adaptação sem saber exatamente o que virá depois do grande intervalo forçado a que estamos submetidos.
O custo do intervalo é incomensurável e só pode ser sanado por uma aliança entre recursos públicos e privados, tudo isso com alcance internacional. Comprar briga com outros países, nesse momento, é dar tiros nos pés.
Sem Saúde não adianta forcejar. E, basicamente ainda, precisamos de Educação/Ciência para penetrar no labirinto e desvendar os mistérios que a Natureza nos apresenta. E que não nos falte Segurança para chegar são e salvos ao outro lado do rio.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Do dito ao feito hai muito eito”
Fructuoso Rivera (1785-1854), primeiro presidente do Uruguai
A insubordinação antes atribuída aos adolescentes e crianças quando admoestados, em priscas eras, ao se intrometerem em “conversas de adultos” transmutou-se em necessidade de alerta ao mandatário maior da Nação: “Cala a boca, já morreu, presidente!”.
E por que isto? Porque os vitupérios e vociferações presidenciais têm se sucedido em profusão no circo matinal dos horrores montado diariamente na saída do Palácio da Alvorada, transmitido ao vivo pelas redes sociais.
Mais até do que no período de escuridão, entre 1964 e 1985, quando jornalistas foram censurados, perseguidos, presos, torturados e até assassinados, nos plúmbeos tempos atuais, os profissionais de comunicação têm sido insultados, atacados e ofendidos, quando não agredidos, diuturnamente, nas redes e nas ruas.
No Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, em 3 de maio, jornalistas e auxiliares sofreram ataques físicos ao cobrirem atos contra o isolamento social em razão da atual pandemia defronte outro palácio: o do Planalto.
Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o presidente da República, no ano passado, atacou a imprensa 116 vezes em postagens nas redes sociais, pronunciamentos e entrevistas.
Defronte o Alvorada, a enxurrada de sandices se sucederam ao longos dos 17 meses de mandato: “Você está falando da tua mãe?”; “Você tem uma cara de homossexual terrível”; “Pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu para o teu pai”, “Vocês são uma raça em extinção”. “Ela [Patrícia Mello, da Folha de S.Paulo] queria um furo. Ela queria dar um furo a qualquer preço contra mim”; “Imprensa canalha”, “Globolixo”, etc.
O comandante em chefe das Forças Armadas assim se refere aos comunicadores, além de promover o boicote oficial à imprensa, ameaçando com o fim da publicidade oficial, a restrição às publicações contábeis, a não renovação das concessões, entre outras manifestações virulentas de sua ojeriza à vigilância imparcial da imprensa e às críticas formuladas pelos comunicadores nas diversas mídias.
Um festival de violência que atenta contra tudo o que possa se imaginar de obediência aos preceitos constitucionais e ordenamentos internacionais acerca das liberdades de imprensa e de expressão.
A Declaração Universal dos Direitos do Homem é taxativa em seu artigo 19: “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.
A Declaração de Chapultepec, de 1994, reafirma em seu inciso I: “Não há pessoas nem sociedades livres sem liberdade de expressão e de imprensa. O exercício dessa não é uma concessão das autoridades, é um direito inalienável do povo.”
Apesar de bradar que “eu sou a Constituição”, o mandatário não respeita o que está consignado nos artigos 5º. e 220 da Carta Magna, garantindo plena liberdade de imprensa cá em Pindorama. Em 5 de maio, o presidente, ao ser questionado por jornalistas sobre mudanças na Polícia Federal, em duas oportunidades, defronte o “cercadinho” na saída do Alvorada, vituperou: “Cala a boca, não perguntei nada!”.
Ao tentar calar e desacreditar a imprensa, o político eleito com mais de 57 milhões de votos coloca em xeque sua biografia, desacredita seu governo, ameaça a democracia e confronta inclusive parcela significativa daqueles que o elegeram.
A imprensa não é nem nunca será massa de manobra, nem deve informar ao bel-prazer do governante de plantão ou do inquilino de ocasião do Palácio do Planalto. A imprensa é pilar fundamental do Estado Democrático de Direito. É a trincheira da boa informação e repositório da cidadania. Cala a boca já morreu, presidente!
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(*) jornalista, membro da Comissão de Direitos Humanos e Liberdade de Imprensa da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
Vivemos um momento histórico mundial que nos desafia. Fiquemos com a difícil realidade brasileira. Além do coronavírus e da fragilidade assustadora em que se encontra o sistema público de saúde e outras políticas públicas voltadas para a defesa e promoção da vida, temos um presidente da República que celebra a morte, o ódio, a violência, a ditadura.
Trabalho um cenário, existem outros é claro, segundo o qual Bolsonaro não é um presidente tão fragilizado como sugerem algumas pesquisas. Torço muito para que minha análise esteja errada, mas não posso silenciar as inquietações que me assaltam. Cheguei a associar, no passado, a eleição espúria de Bolsonaro às eleições de Jânio Quadros e Fernando Collor de Melo. Tenho hoje sérias dúvidas.
Bolsonaro, ao contrário dos outros mencionados, não parece um ponto fora da curva. Jânio e Collor navegaram ao sabor das ondas, mas não tinham apoios consolidados. Bolsonaro tem apoiadores. Eles estão presentes nas forças políticas e econômicas conservadoras, saudosas da ditadura, formadas pela ideologia neoliberal e o pensamento autoritário.
Bolsonaro entrou firme nos 30% que formam a direita do nosso cenário político e dentro dela construiu um grupo intolerante e sectário de extrema-direita, pronto para as provocações e confrontos que podem se desdobrar em ações violentas. A rigor, já estão se manifestando.
Mais do que o apoio, Bolsonaro está submetendo as Forças Armadas, especialmente o Exército. Os recursos e cargos liberados parece que não foram em vão.
Dentro deste contexto adverso, considero que todas as iniciativas que visam se contrapor ao Bolsonaro são muito importantes – ações judiciais, CPIs, impeachment, novas eleições –, importantíssimas, necessárias, mas não suficientes.
Não se trata de balançar o galho e Bolsonaro cai. Torço para que isto aconteça, e ajudo a balançar o galho. E se ele cair? Quem vai ocupar o galho? Devemos trabalhar, sem perdermos a dimensão do presente, cenários mais longos e difíceis. Além dos apoios e cumplicidade que apontamos, Bolsonaro busca o apoio político do Centrão, que pode lhe dar maioria no Congresso Nacional. Penso que devemos, trabalhando diferentes cenários, buscar ações de curto, médio e longo prazo.
As de curto prazo estão bem encaminhadas no Congresso, junto ao Poder Judiciário, nos espaços possíveis das mídias. As ações de médio e longo prazo referem-se a iniciativas que demandam cada vez mais reflexão e estratégia. Como retomar, aprofundar e ampliar o nosso diálogo com a sociedade? Os 30% que se colocam no campo da esquerda ou centro-esquerda e os 40% que oscilam? Aqui vivemos um grande desafio – reaprendermos nossa escuta, reelaborarmos uma pedagogia política.
Como confrontar o poder dos meios de comunicação? As fake-news? O sentimento de pressa e urgência das pessoas? A sedução dos celulares? As dificuldades que a violência e o crime organizado colocam no diálogo com as comunidades mais pobres? O fascínio das soluções de curto prazo, onde aparecem as soluções ligadas à violência e à ditadura?
O outro desafio, e os dois se articulam e complementam, diz respeito ao que nós, Partido dos Trabalhadores, forças políticas e sociais à esquerda, centro-esquerda, o nosso campo democrático popular, queremos para o Brasil. Qual é o nosso projeto de nação? Onde queremos chegar no processo emancipatório nacional?
Vivemos a partir da vitória de Lula, em 2002, momentos inesquecíveis, políticas públicas e ações vigorosas, sempre presentes em nossas lembranças e corações, que mudaram a vida de milhões e milhões de brasileiras e brasileiros pobres. Muitas dessas boas políticas públicas e obras sociais deverão ser retomadas, aperfeiçoadas e ampliadas, mas temos desafios novos. Como estabelecer efetivamente o primado da vida? Como subordinar os interesses econômicos, sempre muito sedutores e poderosos, o direito de propriedade, a livre iniciativa, a economia de mercado, ao valor maior que deve coesionar a sociedade?
Como aplicar, no plano do direito e dos fatos, o princípio da função social da propriedade e das riquezas, subordinando-as ao direito à vida, ao bem comum, ao projeto nacional? Como adequá-las à preservação da natureza e das fontes da vida? Como acertar os recursos que garantem os direitos sociais básicos, educação de qualidade em todos os níveis, os cuidados preventivos e curativos da saúde, a segurança alimentar, o saneamento básico, a assistência social, o trabalho decente, a moradia digna, o meio ambiente saudável?
Como renovar as leis trabalhistas diante das mudanças no universo do trabalho, que já se apresentam tão concretas, garantindo a defesa daquele que trabalha e não é o dono efetivo do negócio, ainda que precise utilizar seus próprios bens para exercer os serviços?
Como financiar as obras necessárias de infraestrutura? De que maneira construir políticas públicas mais robustas, amparadas pelas bases de dados que tão arduamente estruturamos para entender nosso país e pelos profissionais capazes de fazer a leitura acurada da realidade, tantos deles formados durante nossos governos do Partido dos Trabalhadores?
Penso que na perspectiva desse projeto nacional, de afirmação da soberania popular, das escolhas das prioridades, devemos retomar as práticas da democracia participativa – planejamento e orçamento participativos – vinculados ao desenvolvimento regional. Estes são temas sempre presentes em nossas reflexões e que já trabalhamos em outros textos.
Creio que devemos nos ater a essas e tantas outras questões que lhe são correlatas, refletirmos sobre elas, abrirmos a partir delas um processo crescente de interlocução com a sociedade brasileira, especialmente com os pobres.
Devemos buscar novamente o poder, sabendo dos desafios que ele hoje nos coloca. Não o poder pelo poder. O poder assentado na soberania popular e que nos possibilite construirmos o projeto de nação que priorize a vida e os direitos fundamentais para os atuais 210 milhões de brasileiras e brasileiros e tantos quantos vierem no futuro. Compromisso inarredável com as gerações presentes e futuras desta grande e querida pátria brasileira.
Pelas novas condições de cuidado com a saúde que se apresentam, temos agora uma nova situação: cuidar de todos, sem esquecer ninguém, se tornou fundamental, do modo mais concreto, para manter a saúde de cada família e de cada um. É um novo mundo, realidade inesperada.
Vamos juntos, solidários, enfrentar os desafios presentes e construirmos os alicerces do nosso projeto nacional brasileiro. Não vamos edificar a nossa casa na areia. Lembremos os ensinamentos de Jesus, que começaram de baixo e atravessam os tempos e chegam hoje ao Papa Francisco.
Patrus Ananias, deputado federal (PT/MG), ex-Ministro do Desenvolvimento Agrário, no governo Dilma Rousseff; ex-ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, no governo Lula; ex-prefeito de Belo Horizonte; professor da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
Neste fim de semana, Jair Bolsonaro deu um passo bastante ousado na sua caminhada para obter um poder autocrático, livre das limitações que a Constituição impõe aos governantes no Brasil.
Ele avança aos trambolhões, em zigue-zague, com declarações contraditórias, atos incompreensíveis, mas avança e, cada vez mais parecem dispersas e intimidadas as forças que podem detê-lo.
Neste domingo, ele foi explícito: disse que tem apoio do povo e que isso lhe garante o apoio das forças armadas.
O povo ao qual ele se dirige são os grupos de bolsonaristas que pedem intervenção militar, com fechamento do congresso e do STF, o que deixa subentendido que, se ele tentar o passo decisivo, terá não só o apoio desse “povo”, como terá também os respaldo das “Forças Armadas”.
Ele falou no domingo e até o início desta segunda-feira nenhuma palavra dos comandos militares havia esclarecido a situação anômala que se criou com a manifestação do presidente. A expectativa geral é por uma manifestação que recoloque as coisas no seu lugar.
Ou não haverá outra interpretação, além daquela que diz que o golpe já foi dado.
Em julho de 2017, a Lei n° 13.464 trazia o resultado de meses de atuação da Mesa de Negociação entre servidores e governo federal, com uma parcial recuperação de perdas salariais que foi parcelada até janeiro de 2019.
Portanto, o salário dos servidores da União se encontra congelado desde então. O governo e o Congresso ameaçam com muito mais, num evidente estrangulamento daquela parcela da população que ainda permanece em condições equilibradas para manter os níveis de consumo e por consequência minimizar a crise.
O estudo Três Décadas de Evolução do Funcionalismo Público no Brasil (1986-2017), do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela que, em 32 anos, o funcionalismo público ampliou 123%, com o número vínculos subindo de 5,1 milhões para 11,4 milhões. Mesmo com o avanço, a máquina pública nacional é menor que a média dos países desenvolvidos. Cerca de 12,1% da população ocupada trabalhava no setor público em 2017, menos do que os 18% de média das nações da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e até do que países de tradição liberal como os EUA (15,2%) e a Grã-Bretanha (16,4%).
Cabe ressaltar que apenas um em cada dez servidores públicos tem vínculo na União. O aumento em quantitativo de funcionários se verificou com mais expressão nos municípios, onde houve um crescimento de 276%, passando de 1,7 milhão para 6,5 milhões, enquanto aumentou em 50% na esfera estadual e em 28% na esfera federal, incluindo civis e militares. No caso dos municípios, diz o estudo, 40% das ocupações correspondem aos profissionais dos serviços de educação ou saúde como professores, médicos, enfermeiros e agentes de saúde.
Por outro lado, a sociedade, com respaldo do Congresso, foi muito ousada e vanguardista ao defender na Constituição de 1988 que a “saúde é direito de todos e dever do Estado”.
A crise da Covid-19 chegou como um tsunami que exige ação coletiva dos três níveis de governos, da iniciativa privada, das organizações não governamentais (ONGs) e dos cidadãos. São nesses momentos que se sobressaem os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS): universalidade, integridade e equidade.
Na crise, volta a discussão sobre o papel do Estado e de seus funcionários, em especial das atividades essenciais, como a da saúde.
Nos últimos tempos, os servidores voltaram a ser alvos. Autoridade federais os estereotipam como “parasitas” e em recentes manifestações exageraram no vernáculo ao dizerem que o funcionário “não vai ficar em casa trancado com geladeira cheia, assistindo à crise enquanto milhões de brasileiros estão perdendo emprego”.
O próprio Banco Mundial atesta que o Brasil gasta o equivalente a cerca de 13,1% do PIB com salários do funcionalismo público, incluindo todas as esferas e poderes, abaixo de cerca de 15 nações que investem muito mais neste setor para ter qualidade no atendimento à sociedade.
Numa crise como a atual, há profissionais de muitas áreas indispensáveis na linha de frente. No serviço público ou na iniciativa privada, o que não faltam são pessoas comprometidas com o futuro do país.
Além de serem tachados de “parasitas”, agora autoridades federais acusam ou “culpam” o funcionalismo de ainda ter recursos para manter a roda da economia girando, adquirindo produtos e abastecendo sua geladeira, enquanto 7 a 8% da população ainda não tem nem o eletrodoméstico.
Com geladeira cheia ou não, estender a mão a quem precisa faz parte da índole do povo e do conjunto dos servidores públicos, principalmente a grande maioria que ganha pouco mais de um salário mínimo, incluindo horas extras e adicional noturno.
Os “parasitas” são também homens e mulheres, chefes de família que já estão com salários congelados desde 2018, na União. Em muitos estados não viram ainda a cor da gratificação natalina de 2018 e 2019.
Inequivocamente, os servidores já estão dando sua cota de sacrifício e, paradoxalmente, estão à frente da luta contra a pandemia. São os profissionais de saúde, os pesquisadores, os servidores de Assistência Social e Segurança Pública que estão na retaguarda. São os auditores da Receita que estão nos portos e aeroportos desembaraçando insumos e equipamentos que vão ajudar na crise sanitária, são os diplomatas tentando repatriar milhares de brasileiros, enfim, diversas áreas em plena atividade. São os servidores da segurança pública que contribuem para manter a normalidade apesar das tensões naturais decorrentes do isolamento social.
As recentes declarações denegridoras da categoria por parte de autoridades federais são falácias, impropérios e destemperanças que nada contribuem para o clima de unidade e harmonia dos brasileiros para o enfrentamento da pandemia.
Os mais de 11 milhões de servidores públicos, na União, Estados, Distrito Federal e municípios, têm entregue o melhor de si, tanto em forma presencial como em “home office” dentro das prerrogativas de cada cargo e função. E uma parcela expressiva cada vez mais tem consciência de seu dever, convalidando a condição de que não são servidores de governo e sim do Estado brasileiro.
E graças à sua dedicação, podem repudiar a pecha malfadada, mentirosa e despropositada de “parasitas” e, com o suor de seu rosto e trabalho, manter a geladeira “relativamente cheia”. Torçamos todos para a pandemia acabar logo, rezando para que os cidadãos deem respostas positivas ao #ficaemcasa.
É inexplicável o comportamento dos grandes grupos de comunicação quando se trata de dar informações sobre suas atividades ou decisões.
Um de seus bordões é a cobrança de transparência de governantes, funcionários públicos, empresários, entidades representativas e tudo mais.
É uma prerrogativa que a sociedade lhes confere e da qual eles não abrem mão. Entende-se, aceita-se, e é até elogiável que assim seja.
O que não dá pra aceitar ou compreender é a atitude que adotam na hora em que são cobrados. A omissão sistemática nas ocasiões em que, em nome do interesse público, se busca informações junto a eles.
Mesmo sendo um grupo que deve sua grandeza a concessões de serviços públicos, que representam grande parte de seus negócios e seus lucros, a RBS considera como economia interna as medidas que está tomando, de contenção de custos – demissões em massa, corte de salários e jornada, suspensão de contratos de trabalho. Medidas que terão impacto na qualidade dos serviços que prestam ao público.
Nem ao sindicato que representa seus empregados é dada uma explicação. Apenas uma nota genérica e que pouco esclarece.
Com que autoridade, os profissionais que trabalham para seus veículos poderão cobrar informações ou transparência junto ao setor público ou ao meio empresarial ou seja lá o que for?
Imagine se Jair Bolsonaro fosse o mito que alguns fanáticos acreditam que ele é. Imagine se ele tivesse feito um pronunciamento mais ou menos assim na sexta-feira:
“Não vou perder tempo aqui com as acusações levianas que o senhor Moro fez contra mim. O momento que vivemos no Brasil é muito grave para que se fique perdendo tempo com intrigas palacianas.
O Sr. Moro pertence ao passado, não é mais nada no meu governo, seu pedido de demissão foi aceito e eu até lamento porque confiei que ele seria um aliado fiel na luta que estamos travando para tirar o Brasil desse atoleiro em que nos encontramos.
Esse atoleiro no qual fomos jogados, em parte por conta da irresponsabilidade de alguns governantes, que lançaram o país na desordem e na crise econômica e, principalmente, pela fatalidade dessa pandemia que assola o mundo inteiro e deixa toda a humanidade consternada e perplexa.
Não é hora de gastar energia com personalismos e com ambições mesquinhas. É hora de enfrentar com energia e destemor o gravíssimo desafio que temos pela frente: vencer a pandemia e salvar a economia e os empregos de que dependem todos os brasileiros dos mais humildes aos mais abastados, todos ameaçados por um inimigo invisível diante do qual a mais avançada ciência se mostra impotente.
Precisamos de atitudes prontas e destemidas e eu quero anunciar aqui uma decisão grave e extrema, sobre a qual muito meditei até chegar à conclusão de que é a única saída que temos nesta crise sem precedentes: a moratória unilateral da dívida pública brasileira.
Este ano o pais vai desembolsar cerca de um trilhão de reais para pagar juros e amortizações da sua dívida com o sistema financeiro internacional.
Vamos suspender o pagamento dessa dívida por três anos e vamos usar esse dinheiro no fortalecimento das nossas estruturas de saúde, para tratar dos nossos doentes.
Vamos, principalmente, salvar a nossa economia e impedir que milhões de brasileiros, mesmo tendo escapado da pandemia, sucumbam à miséria e à fome. Vamos atender aos mais necessitados e vamos financiar nossas indústrias, nosso comércio, nossas lavouras para que elas continuem produzindo e gerando riqueza e empregos.
Depois, quando tudo isso passar, vamos sentar com nossos credores e acertar a maneira de pagar o que devemos.
O Brasil é um dos países mais ricos do mundo e não vai ser um ou dois anos de crise que vai comprometer o seu futuro”.
Claro que um discurso desses é impossível para Jair Messias Bolsonaro, que é apenas um populista de direita, que amesquinha o Brasil, alinhando-se a Donald Trump em troca do amparo de um poder decadente.
Com o discurso que fez na sexta-feira – um discurso patético e sem nexo com o qual pretendeu rebater as acusações que Sérgio Moro fez contra ele ao demitir-se do Ministério da Justiça – Bolsonaro apenas selou a sua sorte de farsante.
Estou em quarentena na Espanha desde o dia 15 de março. Passamos por várias etapas, desde a descrença inicial nas previsões feitas por especialistas da área de epidemiologia que previam um alto índice de contaminação, a ansiedade que vem junto com as incertezas e até o desespero ao ver o número de mortes chegar a quase mil pessoas (961) em um único dia. Mil pessoas por dia na Espanha, um país que tem uma população de pouco mais de 47,1 milhões habitantes (dados Instituto Nacional de Estadísticas – INE, 2019).
Até o dia 24 de abril, dos 114.879 casos encerrados, 92.355 (80%) se recuperaram da doença e 22.524 (22 %) faleceram (dados do Ministério de Saúde da Espanha). Especialistas chamam a atenção para o fato de que as cifras oficiais podem não ser exatas em função da falta de conhecimento do total de pessoas contagiadas e que não apresentaram sintomas, ou que os tiveram muito leves, de maneira a não entrarem nas estatísticas. Na realidade, alguns prognósticos indicam que entre 5 a 6 milhões de pessoas poderiam estar afetadas, o que significaria aproximadamente 15% da população espanhola.
Bom lembrar que entre os contagiados se encontram 34.355 trabalhadores da área da saúde, que estão na linha de frente na luta contra o Covid-19 e mais expostos ao contágio.
A comunidade de Madri, com 60.487 casos e 7.765 mortos é o principal foco da pandemia aqui na Espanha, junto com a Catalunha, que apresenta 44.892 contagiados e 4.393 mortos.
Lembrando que Madrid é a cidade mais densamente povoada da Espanha e recebeu neste último mês de fevereiro aproximadamente 518.261 turistas estrangeiros, ou seja, grande número de pessoas circulando. O que acontece então?
Aqui, é prática comum a cremação dos falecidos. No dia 27 de março faleceram 322 pessoas na cidade de Madri e os noticiários do país informavam que suas funerárias estavam transladando os corpos para outras cidades para acelerar a cremação, pois não davam conta do grande número de falecidos, que totalizava 2.412 até então.
Passaram a receber mais de 300 falecidos por dia, sendo que em períodos fora da epidemia eram 70. Então, para evitar que as famílias tivessem que esperar muitos dias para se despedir de seus familiares, as funerárias decidiram optar por transportá-los a outros centros.
Esse problema também aconteceu na Itália, na cidade de Bérgamo, considerado um dos principais pontos da contaminação na região da Lombardia.
Então, sim, a doença é muito séria, mata muita gente num período muito reduzido de tempo, trazendo vários problemas para os hospitais, todos trabalhando acima da sua capacidade de atendimento, as casas de anciões com altos índices de contaminação e mortos, e funerárias abarrotadas.
O pico da contaminação neste país chegou no dia 02 de abril, com 961 novas mortes, totalizando 112.065 pessoas contaminadas e 10.348 mortos pelo Covid-19. A partir desse dia, e depois do governo ter estabelecido medidas restritivas mais severas, proibindo totalmente que se saísse às ruas para qualquer coisa que não fosse supermercado e farmácias, começamos a perceber algumas mudanças nos dados. Antes, era permitido passear com os cachorros, mas sempre com o controle e fiscalização da polícia. Alguns cidadãos foram pegos saindo várias vezes ao dia com animais, evidentemente quando a polícia conseguia identificar esse tipo de fraude, multava imediatamente.
Permitida compras de produtos apenas de primeira necessidade. Fotos: Josy Matos
No entanto, quando a curva de contaminação começou a cair, percebi as pessoas mais relaxadas, a maioria ainda usando máscaras e luvas, mas já não tão atentas ao distanciamento. Estão confiantes de que a crise sanitária acabe. Mas, parece que a coisa ainda vai longe.
De qualquer maneira, adquiri alguns hábitos que vou mantê-los como lavar toda a comida quando voltar do supermercado. As latinhas de cerveja não escapam do banho antes de irem para a geladeira! Também foi recomendado passar álcool nas embalagens ou lavá-las com água e sabão.
No dia 22 de abril, os noticiários traziam a informação de que Álex Pastor, o prefeito da cidade de Badalona, província de Barcelona, foi preso depois de ter sido interceptado por policiais num controle de confinamento. Segundo informações dos principais jornais do país, o prefeito apresentava sinais de embriaguez e ainda enfrentou os policias, tentando intimidá-los. Resultado? Preso e multado, e suspenso pelo seu partido, o Partit dels Socialistes de Catalunya (PSC), que pediu a ele que renunciasse.
Josy, em isolamento em casa
No Brasil, vejo o presidente do país constantemente furando o isolamento, frequentando lugares públicos, apertando as mãos de todos que vê pela frente e, o mais absurdo de tudo, participando de manifestações públicas contra a quarentena e a favor da volta da ditadura. Como diz meu irmão César, a cada dia mais apavorado com o que vê nas ruas de Curitiba: esse homem não respeita nada, não respeita a vida de ninguém! Pois é!
Aqui, na Europa, estamos na primavera e neste período inicia a colheita de diversos produtos agrícolas, como hortaliças e frutos vermelhos. Até agora, o setor agrícola não parou, sendo uma das atividades permitidas durante a quarentena, mas diminui muito a velocidade das colheitas em função da necessidade de distanciamento entre os trabalhadores. Essa precaução deve ser observada tanto no transporte dos mesmos como nas atividades de campo.
Segundo informações do Ministério de Agricultura, Pesca e Alimentação, a Espanha necessitaria entre 100 mil e 150 mil trabalhadores para a colheita que deveria começar nas próximas semanas. Diversos países da Europa, como Espanha e Alemanha, importam trabalhadores rurais nesse período. Com as fronteiras fechadas e a proibição de deslocamentos dentro do país e entre países, começa o problema.
A região de Murcia, por exemplo, que fica aqui ao lado de Alicante, deve começar a campanha de colheita de damasco, nectarinas e pêssegos e, em seguida, de melões e melancias. Esse trabalho geralmente é realizado por mão de obra local, mas as pessoas estão impossibilitadas de sair por não ter onde deixar os filhos e por medo do contágio.
Outras regiões do país que trabalham basicamente com mão-de-obra estrangeira tiveram grandes dificuldades com o fechamento das fronteiras. Além das colheitas, neste período também inicia a tosa das ovelhas (retirar a lã), atividade que era desenvolvida por profissionais búlgaros, neste momento impedidos de se deslocar. Uma das alternativas propostas é a incorporação de trabalhadores de outras áreas, como a hotelaria, que perderam seus empregos com a crise do coronavírus e que vivem próximo às zonas de colheita.
Alguns dias atrás foi aprovado o plano do governo espanhol com as últimas medidas que preveem a escalada de retorno às atividades. Um dos principais pontos que vinha sendo discutido durante a semana é a autorização da saída de crianças para um passeio diário. A partir deste domingo, dia 26, está permitida a saída de crianças até 14 anos, acompanhados de um adulto responsável com no máximo três crianças. Poderão sair uma vez ao dia e permanecer durante uma hora, com uma distância máxima de um quilômetro da sua residência. Embora esteja permitida a saída inclusive com brinquedos, não poderão frequentar os parques infantis que aqui são bem comuns em várias partes da cidade. Os adolescentes, entre 15 e 18 anos, agora poderão sair para as compras permitidas, ou seja, supermercados e farmácias. Serão seis milhões de crianças que voltam a ocupar as ruas do país, com todas as medidas de segurança recomendadas pelas autoridades.
Desde o último domingo, as crianças podem sair para rua acompanhadas de adultos mas as pracinhas públicas continuam fechadas.
Na tentativa de encontrar soluções que permitam à sociedade voltar às suas rotinas diárias, vários centros de pesquisas estão tentando desenvolver testes, medicamentos e vacinas que ajudem a combater o Covid-19. Nessa luta, a Espanha, que igual a muitos países, também havia diminuído a verba destinada à pesquisa no país, agora está tendo que correr atrás do prejuízo. E, como sempre, os cientistas não se fazem de rogados e rapidamente se puseram a trabalhar para encontrar uma saída.
Esta semana, uma pesquisa do Instituto de Saúde Carlos III sobre a transmissão do Covid_19 na Espanha concluiu que o vírus entrou no país até por quinze vias diferentes e já estava tendo transmissão comunitária perto de 14 de fevereiro, descartando a existência de um paciente zero. Lembramos que apenas no dia 15 de fevereiro apareceram os primeiros infectados no país. A pesquisa, realizada pelos doutores Francisco Díez e María Iglesias, analisou 28 primeiros genomas completos do vírus sequenciado na Espanha e confirma múltiplas entradas de pessoas infectadas pelo vírus, vindas de outros países durante o mês de fevereiro. Os autores também afirmam que o novo vírus tem um grande potencial de transmissão, que se deve principalmente à sua alta capacidade de reprodução. Quando penetra no corpo de uma pessoa, o vírus se reproduz até 100 mil vezes em 24 horas.
Com essa capacidade de multiplicação dá bem para imaginar a facilidade de contágio e a grande quantidade de pessoas que podem ser contagiadas por um único portador do vírus.
Na sexta-feira, dia 24, a Espanha registrava a mais baixa cifra de mortes em um mês, 367 personas perderam a vida pelo coronavírus em um dia. O confinamento foi prorrogado até o dia 09 de maio e se espera um retorno às atividades de forma escalonada.
Enquanto isso, vejo que no Brasil estão abrindo shoppings e, pior, o povo ansioso para passear e fazer compras!
* Josy é bióloga, doutora em Biodiversidade e Conservação Ambiental. Museu de Ciências Naturais/SEMA-RS.
O afrouxamento do isolamento em várias cidades mostra que o verdadeiro soberano é o capital, que revela sua capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Achille Mbembe define a soberania em termos de poder, mas as condições práticas hoje de exercer o poder de matar não estão na política, mas estão no capital financeiro, no poder exercido por empresários e todos aqueles que em sua capacidade de afetar as políticas governamentais em seu desejo da volta ao trabalho, exercem o poder de matar. Enquanto correm a imprensa com seus artigos exigindo que parte da sociedade volte ao trabalho, veem editadas medidas de liberalidade – só em Porto Alegre, foram autorizadas a funcionar lojas de venda de chocolate – produzem ali adiante o assassinato de trabalhadores. Não é apenas guerra contra o vírus que estamos vivendo, é a guerra contra os interesses de mercado que se quer soberano, como foi à guerra contra o poder dos reis do século XVIII “a guerra, afinal, é tanto um meio de alcançar a soberania como uma forma de exercer o direito de matar”, diz Mbembe. Agora, não é a política que é uma forma de guerra, é a economia que assume o lugar de decidir a vida e a morte de trabalhadores.
Sabe-se que na epidemia brasileira as vítimas do coronavírus não são apenas os idosos, mas trabalhadores em sua melhor faixa produtiva, jovens e adultos. As filas junto aos bancos, as aglomerações nos parques e tudo aquilo que desrespeita as medidas de isolamento irão se tornar nossos campos de morte, campos de extermínio ao ar livre, equivalente às avessas dos campos de concentração. O que os empresários querem é a suspensão do estado de direito, direito à vida, a proposta de volta ao trabalho de frações de idade é a disputa entre as formas de soberania sanitária e econômica, por isso trata-se de um acordo onde as peças estão viciadas: os empresários sabem na comodidade de seus lares, são os operários que estão em exposição permanente e mortal.
No paradigma hegeliano, diz Mbembe, a morte é resultado de ações voluntárias, de “riscos conscientemente assumidos pelo sujeito”. Somos sujeitos porque enfrentamos a morte, o contrário daqueles que nos expõem ao vírus e nos tornam objetos, retirando nossa humanidade. Por isso ficar em casa frente à pandemia é um ato humano, não se trata mais da politica como poder de morte de quem vive a vida humana, a economia quer assumir esse lugar, definir de forma soberana arriscar a totalidade de uma vida, e por isso, se torna assim, desumana! Foi preciso a morte provocada pelo vírus para encararmos a verdade do capital: para ele, a vida é só utilidade, o limite da morte foi abandonado pelo empresariado, pelo capital financeiro, enquanto que o trabalhador respeita a morte, não há limites para a economia.
O afrouxamento das regras de isolamento é o ponto de início do sacrifício de milhares de trabalhadores, e por isso é um excesso, uma “antieconômia” que os empresários ignoram porque trará prejuízos maiores na segunda onda do vírus que já se anuncia. A economia opera na base de uma divisão entre os que podem viver e morrer, a facilidade para o capital está no fato de que as elites não vivenciam os efeitos de suas decisões: a morte de seus trabalhadores é visto como o seu dano colateral, no sentido dado pelo sociólogo Zygmunt Bauman. Não é mais o estado que detém funções assassinas: com a pandemia, é a economia “a condição para aceitabilidade do fazer morrer”.
O empresariado é este estado nazista dentro do estado democrático de direito exercendo seu direito de matar, expondo seus trabalhadores à morte, combinando as características de um estado assassino, racista e suicidário como sugere o filósofo Wladimir Safatle. Não é a fusão da guerra com a política, é a fusão da guerra com a economia, pois a exposição do Outro no trabalho é essencial para o lucro, reduzido o trabalhador a lógica impessoal da racionalidade instrumental. A racionalidade econômica passa pela imposição do risco a morte, capacidade de expor ao risco a fim de obter lucro. Para quê câmaras de gás e fornos se basta expor os trabalhadores ao ar, ao trabalho para fazer a completa desumanização e produção de morte baseado na falsa premissa racional de que alguns podem trabalhar?
Na Revolução Francesa, a passagem da execução pela força para a execução pela guilhotina foi repleta de significados. O vírus é a nova guilhotina que mantém as características do enforcamento. Ela é democrática como a guilhotina que estendeu a prerrogativa da execução dos pobres para todos os cidadãos, mas impõe uma morte humilhante como a do enforcamento, a morte solitária sem a presença de seus entes queridos, o enterramento de massa e por isso cruel. Chamar ao trabalho é uma forma civilizada de matar, um grande número de pessoas num curto espaço de tempo, prova da insensibilidade das classes abastadas, e, portanto, atualização da fusão da razão com o terror da Revolução Francesa.
A falsa verdade de que “só os velhos morrem”, e por isso, libertemos os jovens para o trabalho, esconde a verdade do conflito de interesses entre o capital e o Estado, entre quem deve viver e quem podem morrer. Qualquer narrativa que se construa com base no rompimento do isolamento radical está claramente propondo uma experimentação bio-econômica e não biopolítica, como diz Foucault. Perda de direitos sobre o corpo, perda da casa como lugar de proteção ao risco, morte social pela expulsão da sua humanidade, não é o retorno do plantation por outros meios, onde o escravo pertence ao senhor? Nesse apelo ao trabalho, somos todos escravos, propriedades, temos valor, respondemos a necessidade de lucro dos empresários. Todos os que foram as ruas em passeata chamar ao trabalho são o equivalente do capataz, comportando-se de forma descontrolada no espaço público, o discurso do desemprego é o equivalente das chibatadas do senhor no escravo para impor o terror, disputa entre a liberdade de propriedade e liberdade da pessoa, imposição comercial de quem se acredita proprietário do trabalho e da vida do trabalhador.
Quando o direito de fazer a guerra, de tomar a vida, se expande do estado para a economia, o que acontece? O direito de matar ou negociar a vida, privilégios do estado como apontado por Foucault cede espaço à ideia de que a fronteira do estado é inferior às fronteiras econômicas. A economia não reconhece nenhuma autoridade superior a sua dentro das fronteiras de estado e por isso o relaxamento do isolamento proposto pelo Ministro da Saúde em sua negociação para permanecer no cargo ou as iniciativas de relaxamento de prefeitos de norte a sul do país é apenas o modo civilizado de matar para que a economia atinja seus objetivos, prova de que a necropolítica perde seu lugar para a necroeconomia, que a biopolítica se transforma em bio-economia: o capital sabe que, frente aos mortos, tem a disponibilidade de um exército industrial de reserva para substitui-los, mão de obra renovável, como se o empresariado tivesse o direito divino de existir e os trabalhadores não.
“A Faixa de Gaza é aqui!” prognóstico fatal das múltiplas separações e limites que é preciso impor aos cidadãos pelo isolamento radical, limites que precisam serem impostos pelo estado sob vigilância e controle “não ir às praias”, “não aglomerar nas ruas”, tudo é o novo estimulo a reclusão, somos as novas gated communities, praticando a rápida circulação. Agora, os campos de batalha estão nas filas sem distanciamento dos mercados e bancos, nas lojas abertas e exposição de seus trabalhadores a um vírus que não respeita divisões de classe social. O estado de sitio deixa de ser uma instituição militar para se tornar econômica, a obrigação de trabalhar é essa máquina da necroeconomia ”As guerras da época da globalização, assim, visam forçar o inimigo a submissão, independentemente de consequências imediatas, efeitos secundários e danos colaterais das ações militares”, diz Mbembe. Não é exatamente assim que é tratado o trabalhador que se recusa a trabalhar, não é visto como inimigo que é preciso ser combatido, submetido nessa guerra, sua morte não é vista como “dano colateral”? Na era da mobilidade global, impõe-se a imobilidade planetária, já que “a própria coerção tornou-se produto do mercado”.
Jorge Barcellos é historiador, Mestre e Doutor em Educação pela UFRGS. Autor de O Tribunal de Contas e a Educação Municipal (Editora Fi, 2017) e A impossibilidade do real: introdução ao pensamento de Jean Baudrillard (Editora Homo Plásticus, 2018), é colaborador de Sul21, Le Monde Diplomatique Brasil, Jornal Já e do jornal O Estado de Direito. Mantém a página jorgebarcellos.pro.br.
Logo após a Páscoa, o governo espanhol liberou algumas atividades, como centros médicos, clínicas veterinárias, profissionais de eletricidades, encanamento, construção, etc, mas manteve a proibição de funcionamento de várias outras, mesmo atividades esportivas como caminhar ou correr. É estranho, porque apesar da ansiedade, parece que tudo está normal.
No isolamento, nossos dias não têm de ser iguais. Acredito que nos acostumamos a tudo, até a coisas ruins. No começo, a gente grita, chora, esperneia. Depois, vamos nos conformando com o inevitável, o irremediável, como se uma voz interior te dissesse: Olha, não tem jeito, vai ter que ser assim mesmo!
É difícil. Eu, por exemplo, sou das antigas, gosto de olhar nos olhos ao conversar. Mas você se acostuma a não ter com quem falar ou a simplesmente mandar uns watts, com frases rápidas, tentando passar uma mensagem que, às vezes, o outro não entende. Assim como nos acostumamos a sentir dor, a sentir fome, desprezo, a não ser nada mais que um grão de areia numa praia infinita.
Meu dia a dia é bem simples e tranquilo nesta quarentena. Acho que o que não tem remédio, remediado está. E, não é conformismo, mas consciência de que se não posso mudar uma situação, tenho que me adaptar. A minha profissão de bióloga ajudou a perceber, desde o princípio, que a coisa não ia bem e que este isolamento iria longe. O que todos os meus colegas e amigos de profissão daqui da Europa concordaram. Ainda não havia começado o isolamento no Brasil e, aqui, já se falava que estaríamos vivenciando a pior situação mundial desde a segunda e última grande guerra.
Josy com algumas de suas plantas na sacada de casa em Alicante, buscando adaptação no isolamento. Fotos: Arquivo pessoal
Mas, como dizia, minha rotina tem sido tranquila. Levanto lá pelas 7h30, 8h, tomo café, vejo as notícias da manhã, com atualização dos dados sobre a pandemia, depois faço entre uma e duas horas de exercícios acompanhando uma série de vídeos na internet da espanhola Patry Jordan, que me fornecem aquilo que preciso para manter um mínimo de atividades físicas. Muitos amigos também estão tentando manter uma rotina de exercícios físicos, uma das recomendações dos médicos para aliviar a tensão. E cuido das minhas plantas.
Outros elaboram uma receita nova todos os dias de algum prato que ainda não tinham provado.
Após o banho, pego o computador e trabalho até a noite, com algumas paradas para comer. Assim, vou até por volta das 21h, quando paro para ver alguma série ou filme.
Devo fazer um parêntesis aqui para dizer o quanto a internet ajuda neste momento de isolamento. Ter sites onde a gente pode ver filmes, ouvir música e acompanhar as “lives” de todo tipo de assuntos, desde músicos, cursos, política, etc, é um privilégio e um grande alívio para o coração. Vídeos de museus, como o Museo del Prado, que eu adoro e tantos outros onde temos informações sobre as obras aí expostas, é fantástico. Também é bom lembrarmos da possibilidade do trabalho remoto (homework) e do ensino à distância.
Aqui na Espanha isso ficou bem nítido com as Universidades que mantiveram o ritmo de aulas on line, trabalhos e exames realizados neste período. Na verdade, a internet já era uma muito utilizada aqui para a educação e a Universidade fornece ferramentas e auxílio, tanto a professores como a alunos, no processo de uso dessas tecnologias.
Alguns dias antes da quarentena nós tínhamos realizado alguns vídeos curtos sobre Botânica, os quais chamamos de ViBos (Vídeos Botânicos), para auxiliar o aprendizado de temas que envolvem plantas. Muito bem avaliados pelos alunos, agora fazem parte do conteúdo das aulas de botânica. Mais recentemente, um dos professores do grupo de WhatsApp que temos, formado por membros do Grupo de Botânica Vegetal da Universidade de Alicante, começou um movimento de colocar fotos de plantas que encontrava pelo caminho quando levava seu cachorro para passear. Logo alguém teve a ideia de começar a compartilhar essas fotos no perfil do Tweeter BotCov_UA, @botcove, e do Instagram, botanica_ua. Mais uma fonte de informação sobre a botânica local, criada durante a quarentena.
Videoconferência com colegas da Universidade.
E quando você vê já passou mais um dia, mais uma semana de isolamento. As últimas notícias são boas, os números de infectados e mortes têm diminuído consideravelmente, mas ainda estamos em estado de alerta.
Também estamos muito sensíveis e com a certeza que essa situação vai deixar cicatrizes. Percebi entre as pessoas com quem tenho conversado no meio virtual que a obrigação de ficarmos em casa fez com que tornássemos introspectivos e questionadores do que realmente importa em nossas vidas.
Notaram a grande capacidade que temos de compartilhar? É uma necessidade. Acho que isso nos faz sentir mais próximo um dos outros, que fazemos parte de algo maior, de algo bom. Aí, os grupos de watts que sempre silenciamos e criticamos, agora são ótimos! Queremos colocar algo ali para ver os comentários dos demais e gerar mais diálogos.
Mas não é só isso, compartilhamos muito mais coisas além dos memes, vídeos de informações ou de piadas, compartilhamos nosso tempo, comida, salários, gastos da crise, enfim, estamos socializando mais, nos solidarizando mais. A empatia, considerada um dos pilares da inteligência emocional, tão falada em cursos de gestão de pessoas, agora tem sido notada em muitos lares. Até porque todos foram afetados de alguma maneira e precisamos encontrar no outro um apoio para manter nossas mentes sanas.
E por falar em solidariedade, quero lembrar os aplausos diários dirigidos aos sanitários que, na Espanha, acontecem às 20h. Essa prática começou na Itália, em seguida do início da quarentena em 9 de março. Se convoca as pessoas que estão recolhidas em suas casas a saírem nas janelas, sacadas, enfim, onde for possível, para aplaudir o pessoal sanitário que trabalha para conter a pandemia. Na Espanha, a convocação veio através das redes sociais para o dia 14 de março às 22h, mas no dia seguinte se adiantou para as 20h para que as crianças pudessem participar, e a partir daí não parou mais. Mas não é um evento exclusivo da Espanha, acontece em diversas partes do mundo e de várias formas, e geralmente são aplausos, às vezes algum vizinho coloca alguma das músicas que se destacaram nesses momentos de isolamento por inspirar resistência para vencer as dificuldades.
Umas dessas músicas cantadas em muitos balcões foi Bella Ciao, música italiana de resistência antifascista dos anos 1943/45. Essa música foi tema da série espanhola La Casa de Papel, inicialmente produzida pela Televisión Española (TVE) e posteriormente comprada pela Netflix, foi bastante disseminada e posteriormente servido de hino em diversas manifestações populares. Hoje, na minha rua, aplaudimos com o som de Color Esperanza, de Diego Torres.
…Sé que lo imposible se puede lograr Que la tristeza algún día se irá Y así será la vida cambia y cambiará Sentirás que el alma vuela Por cantar una vez más…
Foi emocionante, as pessoas aplaudem, acenam, cantam, enfim, todos que saem para aplaudir têm o mesmo sentimento no coração, de esperança! Às vezes passam ambulâncias ou caminhões dos bombeiros com as sirenes ligadas nesse horário. Os aplausos também se fazem em homenagem aos integrantes dos corpos de segurança, como policiais e bombeiros, que estão trabalhando intensamente nestes dias.
Servidor de empresa contrata pela prefeitura higienizar paradas de ônibus e outros locais.
Na primeira semana da quarentena já surgiram várias iniciativas de artistas de todo o mundo para apoiar e fortalecer as necessárias ações de isolamento social. Uma dessas iniciativas partiu da rede de rádios Cadena 100, que reuniu vários artistas conhecidos e gravou uma versão da música Resistiré para arrecadar fundos para a instituição Cáritas. Essa música que foi lançada no ano 1988 e mais tarde utilizada como tema do filme Átame!, de Pedro Almodóvar (1990) se tornando bastante conhecido. Assim, quando começou o isolamento algumas pessoas começaram a cantá-la no evento das 20h nas janelas e sacadas, se tornando mais um hino de resistência nestes momentos de quarentena.
…Resistiré, para seguir viviendo Soportaré los golpes y jamás me rendiré Y aunque los sueños se me rompan en pedazos Resistiré, resistiré Cuando el mundo pierda toda magia Cuando mi enemigo sea yo Cuando me apuñale la nostalgia Y no reconozca ni mi voz…
O outro lado dos aplausos nas sacadas é ocupado pelo pessoal da saúde, médicos, enfermeiros, assistentes, pessoas que estão na linha de frente da luta para vencermos o Covid-19. Pudemos ver nas redes sociais vídeos onde o pessoal de saúde aparece com mensagens de incentivo e de esperança para as pessoas que estão fazendo a quarentena e também para os trabalhadores de segurança, policiais e bombeiros. As mensagens vêm de várias formas, mas geralmente eles saem pelos corredores dos hospitais, evidentemente vestidos com sua indumentária hospitalar, aplaudindo, cantando músicas ou em filas onde cada pessoa leva um cartaz que ao final forma uma frase de agradecimento ou de incentivo.
Em Alicante, população pode ir às compras, mas somente de produtos essenciais.
No dia 17 de abril, na Espanha continuava o descenso nos números de Covid-19, tendo reduzido o número de mortos à metade daquele do início do mês: 503 mortos e 4.289 novos casos. Alguns hospitais de campanha, construídos para enfrentar a crise, já estão vazios e os poucos pacientes que ainda restavam foram transferidos para centros hospitalares.
O governo planeja ir liberando a população para o trabalho de forma escalonada para evitar que o pico de contaminação volte a crescer. No meio de tudo isso temos uma falsa sensação de normalidade. Mas já não sabemos o que é normal neste novo mundo que aqui começa a renascer depois de tanto medo. Mudaremos nossa maneira de ser, nosso comportamento diante da nossa vida e das pessoas que fazem parte dela, ou logo teremos esquecido estes dias de incertezas, de dor e de promessas e voltaremos a ser o que sempre fomos.
* Josy é bióloga, doutora em Biodiversidade e Conservação Ambiental. Museu de Ciências Naturais/SEMA-RS.