Categoria: Análise&Opinião

  • JOSY Z. MATOS/Relatos de uma quarentena – Parte I

    Josy Z. de Matos *
    De Alicante/Espanha

    O caminho que me trouxe até Alicante, na Espanha, no dia 28 de janeiro de 2019, começou muito antes, quando terminei o mestrado em 2000 e recebi uma bolsa destinada a estudantes latino-americanos para fazer o doutorado na Universidade de Alicante. Entre idas e vindas, fiquei oito anos. Retornei ao Brasil e passei no concurso da Fundação Zoobotânica do RS, em Porto Alegre. Depois de um desastrado governo gaúcho, que extinguiu a FZB, decidi retornar a Alicante para fazer um pós-doutorado junto ao Grupo de Pesquisa em Botânica e Conservação Vegetal na mesma universidade. Minha pesquisa trata da diversidade genética e conservação de cactos do RS.

    Início do isolamento voluntário em março. Fotos: Arquivo pessoal

    Aqui tenho muitos amigos, então a adaptação sempre é bem fácil. Mas o mais difícil de estar aqui é a distância dos meus filhos, Eduardo e Elis. Eduardo veio passar as férias comigo e voltou ao Brasil no dia 16 de fevereiro, quando o Covid-19 estava começando a aparecer por aqui, com dois casos registrados na Espanha. Um mês depois, foi decretado o confinamento obrigatório e assim começou esta fase tão difícil da nossa história.

    No dia 12 de março de 2020 decidi entrar em isolamento voluntário. Nesse dia, fui ao fisioterapeuta, Andrés, para tratar o meu quadril. Conversamos sobre o coronavírus e os tempos difíceis que ainda estavam por vir. Ele me disse que fechariam a clínica e só atenderiam emergências, mas que isso ainda dependia das medidas que o governo tomaria.

    Depois fui à universidade, cheguei tarde, passava das 13h e quase todos já tinham saído para almoçar. Benito, meu orientador, estava lá, organizando algumas coisas porque achava que a partir de segunda a universidade fecharia. Conversamos um pouco e eu lhe disse que não voltaria à uni nos próximos dias, que entraria em isolamento voluntário, ao que ele concordou comigo. “Não se preocupe, Josy, na segunda-feira a universidade provavelmente vai fechar”.

    Depois disso, fui para a casa, passei pelo supermercado, comprei algumas coisas pensando em ficar uma semana enclausurada. À noite, conversei com minha colega de apartamento, Ariana, e concordamos que o isolamento seria o melhor a fazer nessa situação. Ela me disse: tenho que ir à uni amanhã, mas vou trazer tudo que necessito para trabalhar em casa. Ariana está fazendo um doutorado com moscas, está na fase final da tese.

    Naqueles primeiros dias, nada estava claro, sabíamos apenas que a China estava com um número grande de pessoas contagiadas pelo covid-19. Pelos registros chineses, em 22 de janeiro, havia 571 contaminados e, quase dois meses depois, em 12 de março, eram 80.813 casos e 3.176 mortos. A epidemia tinha tomado proporções assustadoras.

    Na Espanha os casos começaram em 15 de fevereiro. Eu estava viajando com meu filho Eduardo, que veio passar umas férias comigo. Estivemos em Roma primeiro, depois Edimburgo, Glasgow e Londres, e voltamos à Alicante.

    Na Itália, já se falava em contaminados no início de fevereiro, mas o foco era Milano e não ficamos preocupados. Em Londres, comecei a tossir mas como não tive febre, deduzimos que era um simples resfriado. No dia 3 de março, faleceu a primeira pessoa na Espanha e dez dias depois, quando entrei na quarentena, já eram 133 mortos.

    O governo espanhol já estava discutindo as medidas de prevenção e, dia 15, no domingo, o presidente do governo socialista, Pedro Sanchez, informou em rede nacional que adotariam a quarentena. Já eram 7.988 infectados. A partir daí, estava proibido sair às ruas, exceto para ir ao supermercado e farmácia. Autorizados a sair somente para trabalhar em atividades de primeiras necessidades.

    Nesse momento você pensa: agora vai ficar tudo bem, daqui uns dias voltará tudo ao normal. Mas as cosias nunca funcionam como nós pensamos e a vida ficou mais difícil. No começo é tudo piada, o mundo foi invadido por memes e charges de como enfrentar uma quarentena. Tudo ainda era muito leve, mas os dias vão passando e as notícias só pioram, mais contaminados, mais mortes, mais incertezas.

    Daí, vêm os momentos de angústia, de pensar na vida que foi e na vida que virá. Mas, na primeira semana de confinamento, ainda havia muitas controvérsias e incertezas.

    É impressionante como neste momento em que o mundo consegue produzir mais informações sobre qualquer assunto e colocá-las à disposição do público de diferentes maneiras, especialmente com a ajuda da internet, surgem tantas informações falsas e tantos “sábios de plantão”. Todos entendem de todos os assuntos. Blogueiros que sabem mais que cientistas, políticos sabem mais do que professores, e, obviamente, qualquer um sabe mais do que os médicos. Esses “espertos” divulgam suas teorias sobre a doença, a origem do vírus e, é claro, as teorias de conspiração, para todos os gostos.

    Depois da primeira semana, e mesmo acompanhando o processo na China, onde o vírus começou a se espalhar, a única certeza era que os números seguiriam crescendo. Começam a faltar equipamentos de proteção individual (EPIs) para o pessoal sanitário utilizar, que seriam as máscaras, luvas e roupas hospitalares. Assim, começam a aparecer também os primeiros sanitários contaminados, enfermeiros, médicos, auxiliares e o pessoal de limpeza dos hospitais.

    O governo tenta desesperadamente comprar mais EPIs e respiradouros, mas esbarra na falta de material no mercado, subida absurda dos preços e exigência de pagamento adiantado, isso sem falar nas fraudes. A Espanha comprou kits de testes rápidos que prometiam 80% de certeza na detecção do vírus e, ao serem testados, se viu que a precisão era de 30%. Esse material foi devolvido, mas o tempo perdido não se recupera. Pessoas inescrupulosas tentando ganhar dinheiro a qualquer custo, e o custo, neste momento, é a vida de milhares.

    Por outro lado, vimos também diversas pessoas trabalhando como voluntários para auxiliar os sanitários a conter o vírus, pessoas ajudando a anciões que não tinham quem os ajudasse, empresários produzindo álcool em gel, máscaras, respiradouros, luvas, alguns famosos doando dinheiro para comprar equipamentos, lojas de esportes doando todas as máscaras de mergulho que poderiam ser adaptadas como respiradouros, etc. Solidariedade ainda existe.

    Enquanto assistia e lia o que outros países estavam fazendo para enfrentar esta crise sanitária, todos considerando o isolamento social extremamente necessário para se evitar novas contaminações e mais mortes, no Brasil, o abominável presidente tentando colocar o país no caos e chamando o trabalhador para ir às ruas e voltar a trabalhar, alegando que o vírus era uma “gripezinha”. Assistimos as primeiras  carreatas em algumas capitais brasileiras sob o lema “O Brasil não pode parar”. Pode e deve!

    Felizmente, apesar da pressão vinda do Planalto, muitos governadores e prefeitos adotaram o isolamento atendendo, pelo menos em parte, as recomendações de cientistas.

    Entrando na terceira semana de isolamento na Espanha, em 31 de março, com novas regras mais restritivas. Nesse dia, o número de mortes caiu para 748 e o número de novos casos registrados diariamente também caiu, de 7.846 (dia 30/03) para 6.461 (31/03).

    No entanto, o maior número de mortos se deu no dia 02 de abril, quando chegamos a atingir 961 mortes, sendo este considerado o pico da quarentena na Espanha. Quando isso acontece, a emoção toma conta, o sentimento é de impotência diante de tanto sofrimento. E a solidariedade se torna imprescindível para continuarmos vivendo. Como me disse uma amiga chilena, Marta, nesse dia: já virá a primavera esperada!

    Alicante, Espanha . Arquivo pessoal

    Após a Páscoa, depois que se firmasse a queda nos números de novas contaminações (3.804) e mortos (603), a Espanha liberou o funcionamento dos estabelecimentos de comida para entrega, de serviços como eletricidade, encanamento, centros médicos, etc. E o governo já estuda como realizar o retorno às atividades de uma maneira segura.

    E com a esperança de que esse novo mundo que vamos iniciar seja mais igualitário e as relações mais humanitárias!

    * Bióloga, doutora em Biodiversidade e Conservação Ambiental. Museu de Ciências Naturais/SEMA-RS.  

  • VILSON ROMERO/ O jabuti e as raposas no CARF

    Vilson Antonio Romero (*)

    Entre 2017 e 2020, cerca de R$ 110 bilhões em créditos tributários federais foram mantidos como devidos em razão de decisões do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf).

    O Carf, criado pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, é um tribunal administrativo, paritário, integrado por representantes da Fazenda Nacional e dos contribuintes, vinculado ao Ministério da Economia, sendo responsável pelo julgamento em grau recursal de irresignações de contribuintes relativas aos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil.

    É tamanha a importância dessa instância que, conforme dados de fevereiro de 2019, sob sua análise estavam 122.371 processos, correspondendo a R$ 603,77 bilhões em créditos tributários, quase metade de um ano de arrecadação federal.

    O Carf, atualmente, é integrado por mais de uma centena de conselheiros, metade Auditores Fiscais da Receita Federal e outra metade por representantes de confederações empresariais e entidades de classe, representando os contribuintes. Em situações de empate no julgamento de demandas tributárias, o voto de qualidade cabia ao representante do governo.

    Essa regra existia como forma de equalização do litígio tributário pois, em caso de derrota, os contribuintes sempre e ainda poderiam ir ao Poder Judiciário para contestar a exigência, possibilidade inexistente para a Fazenda Pública que, em caso de insucesso, não pode judicializar a questão.

    Pois isto mudou com a sanção presidencial e publicação no Diário Oficial de 14 de abril da Lei nº 13.988/20. Contrariando posições inclusive de renomados advogados tributaristas e recomendações do ministro da Justiça e do procurador-geral da República, no texto resultante da conversão da Medida Provisória (MP) 899/2019, a caneta presidencial permitiu prosperar um “jabuti” (dispositivo alheio à matéria) que transfere o voto de qualidade dos representantes da Fazenda para os representantes dos contribuintes.

    Com essa mudança, perde o Estado em inúmeras frentes, por exemplo, no seu poder julgador e na palavra final na interpretação da legislação.

    É bom registrar que o Carf decide e corre grande risco nesse momento com análise de autuações de grande interesse da sociedade, como são as oriundas de operações como a Lava Jato e outras.

    Na prática, serão as raposas (grandes empresas autuadas e com fortes bancas de advocacia tributária) tomando conta do galinheiro.

    Há uma perplexidade e indignação generalizada entre todos os que se dedicam a defender a boa administração dos recursos públicos e a moralidade administrativa.

    Se não houver medidas judiciais e legislativas urgentes corrigindo esse descalabro, teremos inequivocamente uma situação de enfraquecimento do combate à sonegação e à corrupção, bem como a inexorável possibilidade de gerar prejuízos bilionários ao erário público.

    (*) auditor fiscal aposentado e jornalista. vilsonromero@yahoo.com.br

     

  • LUÍS LAMB / O protagonismo da ciência – Scientia Imperii Decus et Tutamen

    Nos últimos dias, a ciência voltou a ter protagonismo. No nosso tempo de vida, nunca havíamos presenciado a proliferação de termos científicos. Passamos a conviver com funções exponenciais, achatamento de curvas, “erre zeros”, testes PCR, supressão e mitigação, horizontalidade e verticalidade. Universidades voltaram ao cenário.

    Nesta era de oniciência social, cientistas agora têm voz. No nosso Estado, temos recebido grandes contribuições de nossas universidades para vencermos este grande desafio global, com ampla utilização de soluções propostas em parcerias com empresas, governos locais e hospitais, o que muito nos orgulha.

    O fato que levou a esta valorização extemporânea da ciência foi a pandemia de Covid-19. E muito deste protagonismo deve-se à popularização das projeções epidemiológicas. Os modelos mais divulgados são os modelos desenvolvidos pelo professor Neil Ferguson, que orientam decisões de diversos países, tornando-se conhecidos como “os modelos do Imperial College”.

    Para os leigos, modelos epidemiológicos são áridas construções matemáticas. No entanto, esses modelos matemáticos têm sido extremamente úteis, orientando ações estratégicas e políticas nas pandemias recentes de H1N1 e zika, bem como na epidemia de ebola.

    Este conhecimento prévio e os resultados obtidos no enfrentamento a pandemias construíram a credibilidade do grupo de pesquisa de Ferguson, grupo formado anteriormente por Roy Anderson e Robert May, que modelaram a pandemia de aids, entre muitos outros estudos. Antes, por essa universidade, passaram H.G. Wells, o pai da ficção científica, Alexander Fleming, que nos trouxe os antibióticos e Dennis Gabor, que criou a hologrofia utilizada em inúmeras aplicações.

    Felizmente, as nossas universidades voltaram a ser citadas e a ter protagonismo. Se hoje são essenciais no enfrentamento à pandemia, no passado recente suas pesquisas incrementaram a nossa produção agropecuária, construíram parques tecnológicos e hospitais que hoje são referências no enfrentamento à pandemia.

    Finalmente: o título da coluna é lema da universidade inglesa – a ciência protege o império; aqui, a ciência protege o Estado. Como ex-aluno da Ufrgs e do Imperial College, percebemos o quanto a valorizar a ciência protege a sociedade e nos valoriza como seres humanos.

    • Secretário de Inovação, Ciência e Tecnologia
  • CARLOS TIBURSKI /A hora mais sombria da humanidade: salvar vidas ou empregos?

    “Esses ídolos medíocres reinavam sob um céu espesso nas encruzilhadas sem vida, brutos insensíveis que bem representavam o reino imóvel em que havíamos entrado ou pelo menos, a sua ordem última, a de uma necrópole em que a peste, a pedra e a noite teriam feito calar, enfim, todas as vozes”. (Trecho de A Peste, de Albert Camus, 1947)

    Quando o obscurantismo alia-se ao oportunismo é isso que ocorre. Exclusão nas reuniões do governo do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (Democratas), uma das poucas vozes sensatas neste momento, para dar vez a um senhor que há poucos dias manipulou dados e informações sobre a quarentena como forma de combater a disseminação do #Covid19.

    Encontraram-se em seus interesses escusos. O discurso de ódio, tática adotada desde sempre pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), agora se alia ao do deputado federal, Osmar Terra (MDB), em sua campanha para verticalizar a quarentena maquiando e até adulterando dados oficiais. Foi desmascarado nas redes sociais em menos de 30 minutos. Rosane de Oliveira, do jornal Zero Hora, foi uma das que rapidamente corrigiu o deputado.

    FALSO DILEMA!

    Em recente declaração o Secretário Geral da OMS, Tedros Adhanom, afirmou que cada país deve avaliar em que fase a proliferação do vírus está e ajustar sua estratégia para alongar a curva de contágio. Afinal, é somente isto que estamos fazendo. Evitar um colapso no sistema de saúde para que os casos mais graves possam receber o atendimento necessário.

    Ponderação lúcida surge de onde menos se espera. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou para o falso dilema que vivemos justamente em “uma das horas mais sombrias da humanidade”: salvar vidas ou empregos? A declaração foi publicada no jornal britânico The Telegraph. Segundo a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva: “Salvar vidas ou salvar meios de subsistência. Este é um falso dilema – controlar o vírus é, quando muito, um pré-requisito para salvar meios de subsistência”. Vulgo, gente morta não paga conta! O apelo segue ainda lembrando que uma ação está associada a outra, “proteger a saúde pública e deixar que as pessoas retornem a seus trabalhos caminham de mãos dadas”. Primeiro a saúde pública, depois a economia.

    Em meio há tantas correntes de pensamento e interesses, devemos optar pela ciência e conhecimento para nos conduzir por este ‘vale de lágrimas’. Ato da mais alta bravura em tempos obscuros. Jejum é bom, saudável, necessário e recomendado, mas não deve ser confundido ou mesmo usado como promessa de salvação para o vírus Covid-19, onde não há vacina ainda. Entre pandemias e pandemônios o presidente até tenta! É decreto dia sim, dia não apenas para incluir as igrejas como serviço essencial. As lotéricas, desde que com vidros a prova de bala, entraram nessa por mera distração para restabelecer os proventos dos mercadores da fé, o dízimo abençoado! Afinal, a bancada evangélica é uma das poucas que se mantêm fiel ao Jair Bolsonaro. E sobre fidelidade, nem mesmo com o oportunismo estrutural do MDB, o deputado Osmar Terra tem o apoio do partido nessa jornada para verticalizar a quarentena.

    A PROMESSA DOS AFLITOS

    Em Gênesis 12-17, Deus faz um pacto com Abraão onde mesmo com 99 anos e sua esposa Sara, 90, teriam mais um filho. O pacto foi selado pelo sinal da circuncisão e o nascimento de Isaque cumpriu a promessa. Desde Abraão, o pai de multidões, que transita em nosso crençário judaico-cristão a ideia do impossível. Que para Deus nada é impossível, nem se discute. Apenas a sua própria existência, mas isso é outra discussão.

    Vencida a resistência de que para uma inteligência superior, nada é impossível, nos debruçamos agora nas promessas de como o governo e o presidente Jair Bolsonaro irão aliviar e mitigar o sofrimento dos aflitos? E mais! O momento do Covid-19 no Brasil é o adequado para aplicar a verticalização da quarentena? Em que dados, informações são baseadas essa decisão? Ao que parece Bolsonaro e Terra estão de mãos dadas na contra mão do mundo ignorando a ciência e todas recomendações de órgãos internacionais: OMS, ONU, FMI… Nem Trump teve culhão para contrariar o senso comum. Respondido isso, ficará fácil garantir para a população que é seguro voltar às ruas para trabalhar e movimentar essa engrenagem.

    Aliás, este momento da humanidade sem precedentes está servindo para atestar a veracidade de muitos textos apócrifos que circulam nas correntes de WhatsApp. Bem como colocará por terra tantas outras fake news sobre teorias da conspiração. E quando tudo isso passar, porque irá, poderemos afirmar sem medo: quem realmente movimenta a economia é o trabalhador. E se o trabalhador tudo produz, a ele tudo pertence.

    Fontes consultadas:

    Agência Brasil
    http://agenciabrasil.ebc.com.br/…/veja-medidas-que-cada-es…

    O Globo
    http://oglobo.globo.com/…/oms-fmi-dizem-que-ha-falso-dilem…
    http://oglobo.globo.com/…/mandetta-chama-de-osmar-trevas-e…

    Câmara dos Deputados
    http://www.camara.leg.br/…/646493-aprovado-o-decreto-que-…/

    Bíblia Sagrada
    Livro do Gênesis, capítulos 12 a 17.

  • ELMAR BONES/ O capitão e os generais

    Não se tem detalhes do que se passou no Palácio do Planalto nesta segunda-feira  6 de abril.

    A versão que se pode filtrar do que saiu na imprensa é  que os generais que cercam o presidente se impuseram: o presidente  queria demitir o ministro da Saúde, eles deram toda força ao ministro.

    Bolsonaro foi para casa, entrou em quarentena.

    A decisão dos generais que cercam Bolsonaro  indica que eles não querem nem a renúncia nem o impeachment do presidente, porque eles não querem Mourão. Eles preferem o presidente-refém.

    O general Villas Boas declarou que “ninguém tutela Bolsonaro”.  Mas tudo indica agora que ele está sob a tutela desses generais que o cercam.

    O silêncio de Bolsonaro indica que, além do mais, os generais mandaram  o capitão calar a bora.

  • GERALDO HASSE/Suprema ironia

    A suprema ironia da catástrofe global gerada pelo coronavirus está em vermos o governo brasileiro subitamente preocupado em “cuidar da saúde do povo”, em “proteger os empregos” e em “preservar as condições de trabalho da população brasileira”.

    Nesse ritmo, para se tornar um governo de esquerda, só falta retomar os cuidados com o meio ambiente, banir os agrotóxicos, tributar as grandes fortunas e organizar um grande plano de reestruturação da economia com viés social

    É verdade que a primeira preocupação oficial foi a de blindar os bancos, mas quem diria que se chegaria a montar um cadastro dos trabalhadores informais? Ou,  seja, pela primeira vez o Estado brasileiro abrirá os braços e os cofres para ajudar quem mais precisa, os pobres desassistidos, até aqui desprezados pelas políticas políticas. Não é incrível?

    Quem promete fazer isso, como o dever da hora (a “lição de casa” kkk), é o mesmo governo que há um ano deu uma boa enxugada no Bolsa Família. Parafraseando os médicos em evidência na TV e nas redes sociais, esse vírus não é brincadeira.

    As medidas anunciadas pelo governo representam uma extraordinária mobilização de recursos públicos, cuja escala é muito maior do que a reles economia perseguida pelo ministro Paulo Guedes na execução do orçamento da república. Se buscava segurar o déficit do orçamento em 130 bilhões, a primeira contagem indica a ampliação do déficit para mais de 400 bilhões. É uma conta modesta. Na realidade, esse buraco é imprevisível.

    Em outras palavras, em vez de regular a comporta social da represa econômica, o governo está na obrigação de abrir várias comportas ao mesmo tempo, já sabendo de antemão que vai parar de chover tributos nas cabeceiras da economia.

    Trata-se de um arrombamento controlado da represa. O que está acontecendo é comparável ao desastre de Brumadinho, aquele que provocou mais de 200 mortes de uma só vez em Minas – culpa de uma empresa trinegligente que já não vale quanto pesava.

    O coronavirus está produzindo brumadinhos em série. Onde o Brasil vai parar?

    É tanto dinheiro descendo pela ribanceira que o ministro Alexandre Moraes, do STF, suspendeu a lei de responsabilidade fiscal. Por incrível que pareça, a prioridade é salvar vidas, uma contradição na agenda neoliberal, focada basicamente no sucesso dos negócios.  E tudo isso acontece quando é presidente da república o político mais despreparado da história.

    LEMBRETE DE OCASIÃO

    “Quem fica na ponta dos pés não tem firmeza/Aquele que abre as pernas demais não anda facilmente”

    Lao Tsé em O Livro do Tao, tradução de Murilo Nunes de Azevedo, Editora Pensamento, 9 ed., 1993

     

     

  • LEONARDO BOFF/ Mudanças necessárias

    A atual pandemia do coronavírus representa uma oportunidade única para repensarmos o nosso modo de habitar a Casa Comum, a forma como produzimos, consumimos e nos relacionamos com a natureza.

    Chegou a hora de questionar as virtudes da ordem do capital: a acumulação ilimitada, a competição, o individualismo, a indiferença face à miséria de milhões, a redução do Estado e a exaltação do lema de Wallstreet:”greed is good”(a cobiça é boa).

    Tudo isso agora é posto em xeque. Ele tem dias contados.

    O que agora nos poderá salvar não são as empresas privadas mas o Estado com suas políticas sanitárias gerais, sempre atacado pelo sistema do mercado “livre” e serão as virtudes do novo paradigma, defendidas por muitos e por mim, do cuidado, da solidariedade social, da corresponsabilidade e da compaixão.

    O primeiro a ver a urgência desta mudança foi o presidente francês, neoliberal e vindo do mundo das finanças E. Macron.

    Falou claro: “Caros compatriotas, precisamos amanhã tirar lições do momento que atravessamos, questionar o modelo de desenvolvimento que nosso mundo escolheu há décadas e que mostra suas falhas à luz do dia, questionar as fraquezas de nossas democracias. O que revela esta pandemia é que a saúde gratuita sem condições de renda, de história pessoal ou profissão, e nosso Estado-de Bem-Estar Social não são custos ou encargos mas bens preciosos, vantagens indispensáveis quando o destino bate à porta. O que esta pandemia revela é que existem bens e serviços que devem ficar fora das leis do mercado”.

    Aqui se mostra a plena consciência de que uma economia só de mercado, que tudo mercantiliza e sua expressão política o neoliberalismo são maléficas para a sociedade e para o futuro da vida.

    Mais contundente ainda foi a jornalista Naomi Klein,uma das mais perspicazes críticas do sistema-mundo e que serviu de título ao meu artigo:”O coronavírus é o perfeito desastre pra o capitalismo do desastre”.

    Essa pandemia produziu o colapso do mercado de valores (bolsas), o coração deste sistema especulativo, individualista e antivida como o chama o Papa Francisco.

    Este sistema viola a lei mais universal do cosmos,da natureza e do ser humano: a interdependência de todos com todos; que não existe nenhum ser, muito menos nós humanos, como uma ilha desconectada de tudo o mais.

    Mais ainda: não reconhece que somos parte da natureza e que a Terra não nos pertence para explorá-la ao nosso bel-prazer, mas que nós pertencemos à Terra.

    Na visão dos melhores cosmólogos e dos astronautas que veem a unidade Terra e Humanidade, somos aquela porção da Terra que sente, pensa, ama, cuida e venera.

    Superexplorando a natureza e a Terra como se está fazendo no mundo inteiro, estamos nos prejudicano a nós mesmos e nos expondo às reações e até aos castigos que ela nos impõe. É mãe generosa, mas pode mostrar-se rebelada e enviar-nos um vírus devastador.

    Sustento a tese de que esta pandemia não pode ser combatida apenas por meios econômicos e sanitários sempre indispensáveis. Ela demanda outra relação para com a natureza e a Terra.

    Se após passar a crise e não fizermos as mudanças necessárias, na próxima vez, poderá ser a última, pois nos fazemos os inimigos figadais da Terra. Ela pode não nos querer mais aqui.

    O relatório do prof.Neil Ferguson do Imperial College of London declarou:”Esse é o vírus mais perigoso desde a gripe H1N1 de 1918. Se não houver uma resposta imediata, haveria nos USA 2,2 milhões de mortos e 510 mil no Reino Unido”.

    Bastou esta declaração para que Trump e Johnson mudassem imediatamente de posição.Tardiamente se empenharam com fortunas para proteger o povo.

    Enquanto que no Brasil o Presidente não se importa, a trata como uma “histeria” e no dizer de um jornalista alemão da Deutsche Welle: “Ele age de forma criminosa. O Brasil é liderado por um psicopata, e o país faria bem em removê-lo o mais rápido possível. Razões para isso haveria muitas”.

    É o que o Parlamento e o STF, por amor ao povo, deveria sem delongas fazer.

    Não basta a hiperinformação e os apelos por toda a mídia. Ela não nos move a mudar de comportamento exigido. Temos que despertar a razão sensível e cordial.

    Superar a indiferença e sentir, com o coração, a dor dos outros. Ninguém está imune do vírus. Ricos e pobres temos que ser solidários uns para com os outros, cuidarmo-nos pessoalmente e cuidar dos outros e assumir uma responsabilidade coletiva.

    Não há um porto de salvação. Ou nos sentimos humanos, co-iguais na mesma Casa Comum ou nos afundaremos todos.

    As mulheres, como nunca antes na história, têm uma missão especial: elas sabem da vida e do cuidado necessário. Elas podem nos ajudar a despertar nossa sensibilidade para com os outros e para conosco mesmo.

    Elas junto com operadores da saúde(corpo médico e de enfermagem) merecem nosso apoio irrestrito. Cuidar do que nos cuida para minimizar os males desse terrível assalto à vida humana.

  • RAUL ELLWANGER/ Desolação

    QUANDO A COVID desabar sobre Complexo do Alemão, Paraisópolis, Cubatão, Vila Rubem Berta, Rocinha, palafitas de Belém e Recife, presidios, moradores de rua, esgotos a céu aberto, vilas sem água, quilombos, tekoás indígenas, moradias de 16 metros quadrados, favelas insalubres, populações já enfermas crônicas, pessoas esmigalhadas dentro de ônibus e trens após horas de espera nas filas da vila, milhões de desempregados, poderemos dizer para “guardar isolamento em casa?” ou “comprar só o necessário”? Poderemos dizê-lo para este menino fotografado por Jorge Aguiar?  Dizer que lave suas mãos neste filete de agua servida?

    CERTAS PROFISSÕES sofrem brutal exposição ao risco de contagio, sejam as médicas, de segurança, de abastecimento.

    Há outro grupo de altíssimo risco, são aquelas pessoas que tem doenças crônicas, tratamentos permanentes, e muito especialmente os transplantados, os imuno-deprimidos.

    Segundo jornal de Porto Alegre (CP), o atraso entre coleta de material e resultado confiável é de 6 (seis) dias. Assim, no dia 25 de março estamos falando dos números do dia 19 de março.

    Nossos pensamentos e conclusões portanto vivem no engano, iludidos pela distorção entre a realidade e a informação estatística.

    Como os casos estão triplicando a cada dois dias, teríamos como hipótese: dia 19 = 10 casos; dia 21 = 30 casos; dia 23 = 90 casos; dia 25 = 270 casos.

    Não por acaso, a Embaixada norte-americana ordenou hoje que seus súditos abandonem o Brasil.

     

     

  • LOURENÇO CAZARRÉ/ Esperando o caos anunciado

    O Brasil parou para que possamos nos preparar melhor para o colapso do nosso sistema de saúde que ocorrerá dentro de um mês, ou menos, por causa do coronavírus.

    Todas as atividades foram suspensas para que a curva de crescimento da epidemia seja suavizada de modo que tenhamos mais tempo de nos prepararmos para o caos anunciado.

    E quais seriam esses preparativos?

    A depreender do noticiário internacional, devemos aumentar exponencialmente nossa capacidade de enfrentar a doença treinando de uma hora para outra alguns milhares de pessoas que vão atuar na linha de frente e dobrando ou triplicando nossos leitos de UTI e nossos respiradores artificiais.

    Na sua maioria, dentro de suas possibilidades, os brasileiros estão fazendo sua parte: recolhidos em casa, esperam o tsunami. Cabe então a pergunta: e o poder público, está cumprindo seu papel?

    Numa esclarecedora entrevista, concedida neste sábado (21), graduados funcionários do Ministério da Saúde garantiram que todos os esforços estão sendo feitos, sim. Ótimo. Mas cabe ao cidadão indagar de novo: serão suficientes?

    Isso nós só saberemos depois.

    O que intriga no noticiário nervoso sobre a pandemia é o pouco destaque dado a algumas informações importantes. Como, por exemplo, a impressionante vitória da Alemanha sobre o covid-19.

    Li em jornais europeus que os germânicos treinaram 35 mil para-médicos na primeira semana da epidemia e mais 100 mil na seguinte e aplicaram testes em massa: 160 mil em uma semana.

    Li também que terão em poucos dias mais 10 mil respiradores artificiais, fabricados por uma empresa local. Além disso, os hospitais alemães possuem quatro ou cinco vezes mais leitos de UTI do que os ingleses ou franceses.

    Assim, a taxa de mortalidade por coronavírus – que é de 8 por cento na Itália e 4 por cento na Espanha – fica em apenas 0,3 na Alemanha.

    É óbvio que não podemos traçar paralelos entre a situação brasileira e a de um dos países mais ricos do mundo. Mas temos que nos concentrar no que fazem os alemães. Precisamos tentar imitá-los.

    Macron sintetizou melhor que todos os políticos o momento que vivemos: estamos em guerra. Mas uma guerra diferente: todos os países unidos contra um inimigo que só pode ser vislumbrado em microscópio.

    Aceita a hipótese de Macron e acatada a idéia do isolamento social, resta-nos, aos brasileiros, nos prepararmos para a grande batalha, que está logo à nossa frente.

    O Brasil – onde as obras públicas se arrastam por décadas – precisa criar em poucos dias milhares de leitos (em hospitais de campanha ou em prédios adaptados). O Brasil – cujas compras de alfinetes devem ser submetidas a intrincadas licitações que se estendem por anos – precisa adquirir em poucos dias milhares de respiradores artificiais.

    Como nos sairemos?

    É uma boa pergunta para nos fazermos enquanto observamos a curva de crescimento da pandemia.

  • GERALDO HASSE/ Prova de Fogo

    Enquanto muitas pessoas batem panela para manifestar sua decepção com a gestão Bolsonaro, é oportuno lembrar que as trapalhadas presidenciais não agravam nem amenizam o drama imposto pela pandemia do Covid-19.

    O certo é que a catástrofe anunciada pela chegada do vírus está colocando à prova a estrutura brasileira de defesa sanitária e de salvaguarda da economia.

    Quem diria que teríamos um desafio dessa grandeza?

    Dá-se como certo que os sistemas público e privado de saúde, somados, não darão conta do problema, que está no começo e cujo pico deve ocorrer entre abril e junho.

    Mas o que dizer do sistema econômico?

    A primeira coisa que os empreendedores privados fizeram foi pedir aprazamento do pagamento de impostos, redução de tarifas de serviços essenciais (água, energia, telefone) e autorização para reduzir salários e carga horária.

    O governo se dispôs a abrir os cofres para despejar dinheiro no mercado, o famoso Mercado, supostamente apto a resolver qualquer parada, desde que o Estado não se meta…Capitalismo de araque!

    Os bancos que vêm acumulando lucros anuais de 100 bilhões de reais estão “quietos como coruja no poste”. E ainda não se ouviu um pio das seguradoras, que supostamente estão aí para ajudar vítimas de desastres etc.

    Sim, o governo brasileiro foi pego no contrapé, mas a sociedade brasileira – se assim podemos chamar o nosso desigual quadro social – está na contingência de provar que o Brasil é um país viável com seus bancos poderosos, seu pujante agronegócio, suas grandes exportações de produtos primários, suas fábricas de automóveis de capital estrangeiro, suas universidades públicas e privadas – em que pesem seus brutais índices de desigualdade socioeconômica.

    Embora apresente razoáveis índices de crescimento ao longo das últimas décadas, a economia brasileira está momentaneamente sem força para gerar renda e emprego para milhões de pessoas colocadas à margem do progresso.

    E agora que está obrigada a fazer uma pausa em nome da saúde popular? É um baita desafio que se soma ao trabalho dos especialistas em saúde pública.

    O que seria de nós sem os cientistas, os pesquisadores e os professores achincalhados nos últimos meses por ministros do atual governo?

    Os jornais falados e impressos começam a contabilizar as mortes pelo covid-19 (quatro em São Paulo e duas no Rio na quinta, 19/3), mas esquecem de relacioná-las com a mortalidade geral do país.

    Vamos recordar: em 2016, segundo os últimos dados disponíveis, morreram 1,3 milhões de brasileiros (éramos pouco mais de 200 milhões), sendo 340 mil de doenças cardíacas/circulatórias (hipertensão, 1/3 do total); 200 mil de cânceres; 139 mil de pneumonia e doenças do aparelho circulatório; 63 mil do fígado e aparelho digestivo; 56 mil de diabetes. Segundo os dados do Ministério da Saúde, “causas externas” (entre elas, acidentes de trânsito e violência interpessoal) causaram mais de 50 mil mortes.

    A subnutrição vitimou seis mil brasileiros. Na lista de 100 causas mortis, mal constam sarampo, dengue e zika, todas causadas por vírus contraídos por via respiratória, como acontece com o coronavirus.

    Os dois grandes indicadores de saúde apresentam dados positivos.

    O índice de mortalidade infantil vem caindo ano após ano e está em 12,4 mortos/ano por mil nascidos vivos, sendo o Amapá o pior (22,8) e o Espírito Santo o melhor (8,1). Mérito dos profissionais de saúde, especialmente do SUS.

    Também a esperança de vida vem subindo: 76,3 anos no país, sendo 79,7 anos em Santa Catarina e 71,1 no Maranhão (no ES, 78,8).

    Mas como estaremos – na economia e na saúde — depois da quarentena que se anuncia?

    LEMBRETE DE OCASIÃO

    “Todos os sucessos no setor moderno [dos chamados países em desenvolvimento] provavelmente serão ilusórios a menos que haja também um crescimento salutar – ou, pelo menos, uma solução salutar de estabilidade – entre os enormes números de pessoas cuja vida se caracteriza hoje não só pela mais terrível pobreza mas também pela desesperança”.

    E. F. Schumacher, economista inglês, autor de “Small Is Beautiful (O Negócio é Ser Pequeno, na tradução brasileira de Zahar Editores), em conferência da Unesco em Santiago, Chile, 1965