Categoria: Análise&Opinião

  • JOSÉ ANTONIO SEVERO/ Por que Marielle?

    Foi preciso o professor da FGV e UnB Nelson Barbosa descer da sua cátedra e botar o dedo na ferida com a grande interrogação: por quê Marielle Franco foi assassinada?

    No dia seguinte à coluna do ex-ministro da Fazenda e do Planejamento da presidente Dilma Rousseff, na Folha de São Paulo, parece que a mídia acordou e nas páginas do sábado pontilhavam de referências aos motivos inexplicados do crime.

    Entrava uma pergunta essencial, que até esse dia não era sequer mencionada nas análises e narrativas sobre o assassinato, que circularam pelo mundo inteiro.

    Com a judicialização do caso, para levar os acusados, Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, ao tribunal do júri, foi necessário introduzir esse quesito: por que matar a moça?

    O motivo apresentado nos autos é “de crime de ódio”.

    Certamente nos tempos dos grandes repórteres policiais do passado, como os falecidos Pena Branca (Otávio Ribeiro), Vanderlei Soares ou o ainda atuante Percival de Souza, nos seus tempos de Jornal da Tarde, essa questão já teria sido levantada nas páginas policiais.

    Duas perguntas derivam dessa dúvida, que é básica: a encomenda da morte de Marielle seria uma queima de arquivo?

    E, neste caso, o que de tão grave seria de seu conhecimento ou teria a participação da vereadora para justificar um crime caro e sofisticado?

    Quem mandou e quanto pagou pelo “contrato”, financiando uma ação de alto profissionalismo, com armas sofisticadas, com mira de calor capaz de localizar o alvo no escuro por detrás da lataria do carro e dos vidros fumê, além de um estabilizador para permitir o disparo certeiro com os dois automóveis, da vítima e do atirador, em movimento? (O pistoleiro acertou todos os tiros).

    Esta pergunta final pode embaralhar o senso comum, que já dá os dois milicianos cariocas como culpados e, certamente, condenados.

    Caberá aos repórteres fazer as perguntas de praxe que mesmo o mais novato foca aprende quando chega a uma redação de jornal: quem, o que, quando e por que?

    Como explicar tamanho aparato bélico, o uso de sicários de padrão internacional, de armas desconhecidas (a não ser pelas unidades especiais das forças armadas) para matar uma vereadora de primeiro mandato, de um pequeno partido de oposição, sem poder e sem articulações para interferir na administração ou para criar embaraços reais aos grandes chefões do crime?

    É a pergunta que o promotor, encarregado das acusações, terá de responder e convencer os jurados de que os dois milicianos, homens frios e calculistas, abriram fogo porque se irritavam com as pregações esquerdistas da vítima.

    Esta será a tese do Ministério Público do Rio.

    A pergunta do professor Barbosa abre o capítulo do mistério.

    O que Marielle sabia ou fazia para provocar tamanho abalo no submundo?

    Essas respostas podem mudar completamente o rumo das hipóteses sobre crime de ódio racial, de gênero ou ideológico que compõem as provas que a Polícia carioca vai oferecer ao conselho de sentença.

    Muita água voltará a correr debaixo dessa ponte.

  • OMAR HASSAN/ Maior estrago será na economia

    O perigo econômico do coronavírus é exponencialmente maior do que os riscos à saúde pública.

    Se o vírus afetar diretamente a sua vida, o mais provável é que seja obrigando você a parar de ir ao trabalho, forçando seu empregador a torná-lo supérfluo ou falindo seus negócios.

    Os trilhões de dólares varridos dos mercados financeiros na semana passada serão apenas o começo, se os nossos governos não intervirem.

    E, se o presidente Trump continuar tropeçando ao lidar com a situação, isso poderá afetar suas chances de reeleição.

    Joe Biden, em particular, identificou a Covid-19 como uma fraqueza de Trump, prometendo uma liderança “constante e tranquilizadora” durante esta hora de necessidade dos EUA.

    Em todo o mundo, a Covid-19 matou 4.389 pessoas, com 31 mortes nos EUA até hoje [quinta-feira, 12].

    Mas ele prejudicará economicamente milhões de pessoas, especialmente pelo fato de a epidemia ter formado uma tempestade perfeita com quedas no mercado de ações, uma guerra do petróleo entre a Rússia e a Arábia Saudita, e o desdobramento de uma guerra de verdade na Síria devido a outra possível crise migratória.

    Podemos considerar o coronavírus como o momento em que os fios que mantêm a economia global unida se soltaram; e as startups e empresas em crescimento podem acabar pagando o preço disso.

    Tão importante quanto combater o vírus – senão até mais importante – é vacinar as nossas economias contra a vindoura pandemia de pânico.

    O sofrimento humano pode vir na forma de doença e morte. Mas também pode ser experimentado como o fato de não ser capaz de pagar as contas ou de perder a própria casa.

    As pequenas empresas, em particular, estão enfrentando dificuldades à medida que as cadeias de suprimentos secam, deixando-as sem produtos ou materiais essenciais.

    O fechamento de fábricas na China levou a uma baixa recorde no Índice de Gestores de Compras (PMI, na sigla em inglês) do país, que mede a produção industrial.

    A China é o maior exportador mundial e é responsável por um terço da manufatura global; portanto, o problema da China é problema de todos – inclusive no meio de uma guerra comercial entre a Casa Branca e Pequim.

    Tudo isso torna ainda mais preocupante o fato de os governos continuarem vendo isso como uma crise de saúde, e não econômica.

    É hora de os economistas substituírem os médicos, antes que a verdadeira pandemia se espalhe.

    É difícil imaginar a Itália não entrando em uma recessão (a nona maior economia do mundo está agora bloqueada). Também é difícil imaginar que isso não afetará a Europa e seu maior parceiro comercial, os EUA.

    E é impossível ver como isso não resultará em uma desaceleração global, a menos que os governos entrem em ação de forma mais rápida e mais dura do que há 12 anos, durante a última crise financeira.

    O que está em jogo é maior neste momento, porque parece haver um esforço coordenado para prejudicar economicamente muitos países ocidentais e alertá-los a se afastarem das políticas comerciais agressivas que Trump adotou com tanto entusiasmo.

    Embora a China sofra o impacto do custo econômico e humano do vírus, muitos em Pequim verão um fio dourado no enfraquecimento da economia dos EUA e uma distração das guerras comerciais de Trump que pareciam estar aumentando sem haver uma luz no fim do túnel.

    Quase perfeitamente sincronizada com o coronavírus, eclodiu uma guerra do petróleo entre a Rússia e a Arábia Saudita.

    No curto prazo, Moscou e Riad podem pagar pela queda de 30% no preço do petróleo da noite para o dia.

    Mas o negócio de gás de xisto dos EUA não pode: o processo de fracking, mais caro, significa que grande parte do setor de petróleo dos EUA simplesmente não existirá se os preços do petróleo permanecerem em níveis históricos baixos, levando a paralisações, perda de empregos e talvez até recessões em nível estatal.

    O presidente Trump promoveu cortes de impostos nas folhas de pagamento atrasadas e ajuda para trabalhadores horistas – medidas que ajudarão empregadores e empregados a sobreviver.

    No Reino Unido, o chanceler Rishi Sunak divulgou um “Orçamento para o Coronavírus”. Mas todos precisam pensar melhor se quiserem lidar adequadamente com a forma como esse novo fator altera o status quo.

    Isso tem a ver com muito mais coisas do que coronavírus, os preços do petróleo ou até a economia global.

    Trata-se do equilíbrio de poder entre o Oriente e o Ocidente. O epicentro dele, nos últimos 10 anos, foi a Síria. Depois de uma década de conflito no local, o confronto parece agora ter escalado da guerra por procuração para o conflito econômico.

    As superpotências emergentes da Rússia e da China testemunharam o que muitos viam como uma irrelevância estadunidense na Síria. E agora estão tentando consolidar sua visão de um mundo verdadeiramente multipolar.

    Em vez de permitir que a Arábia Saudita, aliada dos EUA, lidere os mercados de petróleo através do cartel da OPEP, a Rússia e a China querem reformular os mercados globais – e os equilíbrios de poder – em proveito próprio.

    Para sobreviver a essas mudanças, os EUA, o Reino Unido e outros precisarão proteger o futuro de seus negócios, grandes e pequenos, e procurar oportunidades para se beneficiarem da nova ordem econômica mundial, e não negá-la.

    Ignorar essas alterações será ainda mais prejudicial do que qualquer pandemia de gripe.

    *Omar Hassan é economista, cofundador do UK MENA Hub. Artigo publicado no The Independent, 12-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

  • ELMAR BONES/ A China e o Coronavirus

    Se estão certas as informações de que a pandemia está sob controle e em declínio na China, o mundo vai ter que copiar o que os chineses fizeram para combater o corona.

    Erros clamorosos à parte, como o hotel com pessoas em quarentena que desabou, a estratégia deles funcionou.

    Priorizaram o isolamento, a contenção e o atendimento às pessoas, mesmo à custa de enormes gastos e perdas econômicas, proibindo circulação de cargas, funcionamento de fábricas, usinas, siderurgias,  centros comerciais e tudo mais.

    Se o virus está realmente sob controle e em declínio, foram menos de tres meses, de dezembro de 2019 a este início de março de 2020. No ocidente estima-se em quatro meses o seu ciclo.

    Nos próximos quatro meses, enquanto o Covid 19 se espalhar pelo resto do mundo, até esgotar seu ciclo, a China será uma referência para o combate ao virus, se ela realmente vencer a guerra.

    Depois, quando a pandemia passar, o mundo terá que olhar para a China para ver o que eles fizeram (ou deixaram de fazer) para se recuperar dos impactos econômicos do coronavirus.

    A economia chinesa, se estão certos os prognósticos oficiais, terá de dois a quatro meses de vantagem para se recuperar do impacto da pandemia. Pode ser um diferencial na guerra comercial que vai se acirrar.

    Isso em tese, porque esse virus é um desafio inédito para a economia globalizada, de consequências ainda imprevisíveis.

     

  • ELMAR BONES/ Quem corre atrás de clics acaba longe dos fatos

    Quando fui repórter em Brasilia no início da Nova República, conheci um motorista do, então, Ministério da Fazenda que, naquele momento, servia o ministro  Dilson Funaro, o autor do Plano Cruzado.

    Veterano na condução de figurões, esse motorista tinha em bem pouca conta os repórteres, como eu, que corriam atrás de declarações do ministro.

    “Catadores de palavras”, dizia ele vendo aquele bando de repórteres desatinados enquanto Funaro corria do elevador para o carro na garagem do Ministério.

    Antes de fechar a porta, já com meio corpo para dentro, o ministro dizia duas ou três frases estudadas que seriam as manchetes do dia seguinte e que vagamente coincidiam  com o que havia sido decidido no gabinete do ministro durante a tarde, enquanto os repórteres comiam pizza na sala de imprensa.

    O jornalismo dos “catadores de palavras” está atualíssimo.

    Com o agravante do instantaneismo e a disputa por clics que assolam o jornalismo à esquerda e à direita, na vereda da internet.

    O que interessa é a frase chocante, a denúncia bombástica, a fumaça que geralmente encobre o que realmente acontece.

    Os “catadores de palavras” agora levam bananas. Mas continuam lá, correndo atrás de declarações, que rendem clics, sempre longe dos fatos que realmente interessam.

     

  • GERALDO HASSE/Balanço parcial do estrago

    Muita gente se consola dizendo que o atual presidente foi eleito pelo voto da maioria, portanto, nada se pode fazer até a eleição de 2022.

    É verdade, houve uma vitória eleitoral incontestável em 2018, mas a sacralidade do voto não pode servir como biombo para justificar o valetudo que se estabeleceu a partir do impeachment da presidenta Dilma em 2016.

    É cada mais válida a percepção de que houve um golpe contra os princípios normalmente aceitos como democráticos. Avulta também a revolta, para não dizer repugnância, contra os métodos esdrúxulos do atual mandatário e sua atenção subserviente a contraventores do Rio. Há até quem tente puxar o coro do impedimento presidencial alegando que falta ao titular do Planalto o discernimento para o exercício do cargo.

    É claro que não adianta chorar sobre o leite derramado. Bem ao contrário, é preciso olhar pra frente, tentando enxergar os caminhos possíveis para deter o processo de deterioração social, cultural, política e econômica do país.

    Vamos convir que as coisas pioraram bastante para a maioria (os 100 milhões de brasileiros que compõem a população economicamente ativa) e melhoraram para a minoria que apostou no golpe e dele vem tirando benefícios, embora ainda não esteja satisfeita com as vantagens auferidas.

    Num balanço simples, podemos dizer que estão sendo apagados direitos humanos e destruídos valores civilizatórios colocados no papel pela Revolução Francesa de 1789, resumidos na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) e consagrados pela Constituição Federal de 1988, que avançou especialmente no direito ambiental e na salvaguarda dos direitos das minorias, especialmente índios e quilombolas.

    Não bastassem esses crimes de lesa-humanidade, o governo liderado (!) pelo presidente Jair Bolsonaro trabalha incessantemente para entregar ativos nacionais e riquezas naturais brasileiras à potência hegemônica situada na América do Norte.

    Agora que estamos vendo a dimensão dos estragos feitos, é importante deixar claro que o mal não tem sido praticado apenas pelo tresloucado detentor do Poder Executivo. Na realidade, ele é apenas o polarizador da aliança subversiva que, em nome de uma série de reformas sucessivamente adiadas, fez o Brasil virar de ponta cabeça um processo democrático que marchava relativamente bem.

    É bom que se registre, portanto, quem são os agentes do vilipêndio ao frágil edifício democrático brasileiro:

    # Os partidos do centro à direita, que atuam como agências eleitorais sempre prontas para fazer quaisquer negócios

    # A maioria parlamentar forjada sabe-se lá por que injunções

    # Boa parcela do Judiciário, que deu corda para a Operação Lava Jato, ponta de lança do golpe

    # A mídia, com destaque para a revista Veja, a Rede Globo de TV e os três maiores jornais do país: O Globo, O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo, que abastecem com notícias e opinião a maioria dos jornais regionais

    # O Mercado, ou seja, os empresários de todos os setores e seus executivos, consultores, assessores e marqueteiros

    # As redes sociais manipuladas por fake news produzidas sob orientação de agentes estrangeiros mancomunados com os controladores dos equipamentos de comunicação digital

    # As forças de segurança públicas, privadas e clandestinas

    # As igrejas

    # A maçonaria

    # Um eleitorado tremendamente desinformado, volúvel e manipulável

    # Por fim, mas não em último lugar, os Estados Unidos e seus aliados internacionais

    LEMBRETE DE OCASIÃO

    “Faça como o avestruz: pra não tomar conhecimento da realidade, ele enfia a cabeça na televisão” (Millor Fernandes)

     

     

     

  • ELMAR BONES/ A nova política

    É reveladora a entrevista do ex-secretário do Esporte, general Décio Brasil,  à Folha de S. Paulo, postada na madrugada do sábado, na coluna Painel.

    O general diz que foi exonerado por relutar em nomear Marcelo Magalhães, padrinho de casamento do senador Flávio Bolsonaro, para um cargo na secretaria.

    No mesmo ato da demissão dele, Bolsonaro nomeou o apadrinhado do filho para o cargo.

    “Talvez tenha desagradado o presidente”, cogita o general na entrevista publicada na coluna Painel, sem destaque.

    O general não vê outro motivo para a sua exoneração: “Fui surpreendido com a exoneração. Não esperava. Nosso trabalho ia bem.  Acho que o principal motivo foi o fato de eu ter sido reticente na nomeação do Marcelo Magalhães para o escritório do Rio, que administra o Parque Olímpico da Barra”.

    O general não conhecia Marcelo e relutou em nomeá-lo. “Precisava de alguém da minha confiança lá porque a documentação ia do Rio para Brasília, para ordenar despesas”.

    Bolsonaro, segundo o general, garantiu que o indicado era da confiança dele.

    O general Décio aceitou nomear o indicado, mas conta que teve problemas na relação com Marcelo: “Ele disse que não ia me dar satisfação, mas ele me devia satisfação, porque o escritório do Rio é subordinado à secretaria. Ele falou que não ia conversar comigo, que só ia conversar com o ministro, com o presidente ou com o senador”.

    “Ele tomou posse dia no dia 5 de fevereiro, eu chamei ele pra uma reunião, ele não foi. Nunca vi ele pessoalmente”, revelou o general.

    Marcelo Magalhães substituiu o general Décio Brasil como Secretário de Esportes no dia 28 de fevereiro. E lá permanece.

    É a nova política a todo vapor.

     

  • ELMAR BONES/ Grave denúncia

    O prefeito e seus aliados, obviamente, vão desqualificar o estudo feito pelo  Instituto Idea sobre a situação das finanças públicas de Porto Alegre.

    Vão argumentar que os autores são notórios petistas e  que produziram uma peça para a campanha eleitoral deste ano.

    Tudo isso é verdade, mas não toca no essencial: na realidade dos fatos que os números apresentados e analisados no estudo resumem.

    Os autores reuniram dados oficiais – de instituições de pesquisa, como o IBGE, de órgãos do governo, como o a Secretaria da Fazenda – que revelam uma situação das finanças municipais muito discrepante da que é apresentada reiteradamente pelo prefeito e sua equipe.

    Se os dados e gráficos apresentados no estudo não forem contestados ponto a ponto, será inevitável concluir que a situação das finanças apresentada pelo prefeito e seus aliados é, como diz o estudo, “um simulacro de crise”.

    Nesse caso, não é mais uma questão partidária ou eleitoral.

    É algo muito mais grave: trata-se de mentir sobre o orçamento público, que é o instrumento mais importante da administração municipal. Pior ainda: para justificar decisões que impactam a administração pública e os serviços prestados à população.

    A mídia comercial não  se interessou pelo assunto, é provável que se limite a um registro secundário.

    Afinal, não é pequeno o poder emoliente de R$ 30 milhões, que é o valor estimado das verbas publicitárias que a prefeitura dispõe este ano.

    Nem por isso deixa de ser uma questão que deveria inclusive ser esclarecida pelo Ministério Público, para que não se dilua num embate eleitoral uma denúncia tão grave como  essa.

     

     

     

  • RODRIGO MARONI/ Transgêneros, epidemia?

    Que doença teria um evangélico, ou melhor, evangélica? Acredito que nenhuma.

    No entanto, muitas deixam seus cabelos até a bunda, saias até os pés e, reza a lenda, muitas  não se depilam.

    Na minha opinião, nada demais. Absolutamente nada, são escolhas.

    Aí me pergunto: imaginem uma psiquiatra querer explicar por que algumas pessoas se reúnem para adorar alguém que não conhecem?

    A “epidemia dos evangélicos” soa estranho, não é?

    E as pessoas que se tatuam, raspam ou, ainda, pintam os cabelos, como eu?

    Enfim, nosso presidente tem um corte para o lado, que lembra Hittler. Problema? Nenhum.

    Embora o estilo do nosso atual presidente me remeta a lembranças terríveis, a escolha é dele.

    Um outro presidente do Brasil deixava a barba grande na década de 80. Sujeito sujo? De forma alguma.

    São meras escolhas. Do que te faz feliz. De como se sente confortável. Ponto.

    Pois não é que fiquei surpreso ao ver que na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul haverá a seguinte palestra no dia 18 de março, às 19h:

    “Epidemia de Transgêneros”.

    E o mais incrível: a psiquiatra, dra. Akemi Shiba, é a principal convidada!

    Observando mais atentamente o convite que chegou às minhas mãos, a palestra – no mínimo – infeliz na escolha do título, uma suposta “escola sem doutrinação” é a responsável pelo evento.

    Então ser transgênero seria uma epidemia? Uma doença infecciosa?

    Eu respeito a opinião de todos.

    Agora, ministrar uma palestra intitulada como “epidemia de transgênero” é duro de engolir.

    Gostaria de saber quem irá sair de suas casas, ir até a Assembleia Legislativa, em uma quarta-feira à noite, para ouvir sobre a “epidemia” de quem faz escolhas diferentes para viver as SUAS vidas?

    Será que não seria mais fácil as pessoas se preocuparem em ter saúde mental? E entenderem seus desejos ao invés de reprimi-los?

    Vejo muitos religiosos se segurando para não explodir em desejo. Nem por isso os julgo. Cada um tem seu tempo.

    Vejo que até mesmo na carreira militar, não há como deter a tal “epidemia” e, dentro da corporação, alguns não conseguem esconder seus ímpetos sexuais pelos seus pares. Não vejo nada de mal.

    Então, como faço parte da casa legislativa que promoverá o debate, pondero: Será que vale a pena perder algo precioso como o tempo analisando a vida dos outros?

    Se acharem que sim, sugiro debatermos homens com barba, bigode, mulheres morenas, brancas, pretas, solteiros, casados…

    E, por fim, chegaremos à conclusão de que há um universo individual dentro de cada ser humano e, em todas épocas – de alguma forma – queremos interferir nas escolhas do outro.

    Ainda não aprendemos a respeitar as diferenças, mesmo após lutas históricas da humanidade para garantir o direito de escolha.

    Como sou uma pessoa otimista, quem sabe entendi mal, e o teor da palestra é chegar à conclusão de que a liberdade de escolha é o que nos diferencia, e que escolher diferente não tem nada a ver com doença infecciosa?

    Caso contrário, é muita falta do que fazer.

    *Rodrigo Maroni (Podemos/RS)  é deputado estadual.

  • ALDO REBELO/Jesus na goiabeira x Jesus da Mangueira: O Brasil excluído da agenda identitária

    ALDO REBELO

    A agenda identitária nega os interesses coletivos e a centralidade da questão nacional.

    O escritor Sergio Porto, que assinava artigos e crônicas com o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, compôs em 1966 o famoso Samba do Criolo Doido para ironizar a decisão do governo do antigo estado da Guanabara de tornar obrigatório o uso de temas da história do Brasil nos enredos do carnaval carioca.

    O que Sergio Porto não poderia imaginar é que o mesmo carnaval décadas depois estaria submetido a uma outra obrigação igualmente descabida: a imposição do politicamente correto e dos enredos identitários nos desfiles das escolas de samba.

    O tema deste ano foi o Jesus identitário e politicamente correto da Mangueira. A tradicional escola levou ao sambódromo um Jesus com recorte de raça e de gênero como está na moda. Nada parecido com a preocupação social e de caráter misericordioso e universal dos evangelhos e da própria mensagem do Cristo. Não. Nada das aspirações coletivas, nacionais ou gerais. Tudo pela fragmentação, pela dispersão dos traços biológicos dos indivíduos substituindo suas identidades coletivas e universais.

    O Jesus politicamente correto e “progressista” da Mangueira não deixa de ser em certo sentido o contraponto de outro Jesus também identitário, o “conservador” avistado na goiabeira pela escolhida ministra Damares Alves.

    O que une os identitários “progressistas” e “conservadores” é a valorização absoluta da agenda dos costumes e dos temas do comportamento. Assim não é de estranhar que ambas as correntes excluam completamente de seus horizontes a preocupação com o Brasil e com os brasileiros.

    A ministra Damares viu Jesus na goiabeira e perdeu de vista o interesse nacional.

    Hoje pouco importa se alguém se declara de esquerda ou trabalhista convicto se não se aliar incondicionalmente aos grupos identitários “progressistas” na sua agenda de comportamento e de costumes, da mesma maneira que não adianta um liberal declarar lealdade incondicional ao mercado se destoar dos grupos “conservadores” nas suas crenças em relação aos costumes e comportamento. Aí as coisas se invertem: os primeiros serão tidos como incorrigíveis conservadores, e os segundos acusados de perigosos progressistas. Mas todos continuarão indiferentes aos dramas e ao futuro do povo e da Nação.

    Aldo Rebelo é jornalista, foi presidente da Câmara dos Deputados; ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais; do Esporte; da Ciência e Tecnologia e Inovação e da Defesa nos governos Lula e Dilma.

     

  • MÁRCIA TURCATO/ Precisamos dos indecisos

    Eles não votaram em ninguém nas eleições de 2018. Os eleitores não conseguiam definir seu voto entre Lula, Ciro e Bolsonaro, que estavam à frente das pesquisas, se diziam desiludidos com os três e decidiram não eleger ninguém.
    Agindo assim, abriram mão do seu poder de decisão alegando que não havia candidato que os representasse. Várias pessoas publicaram exatamente isso nas redes sociais: nenhum candidato me representa!
    Pois bem, agora somos representados por Bolsonaro. Ele não me representa, representa você eleitor indeciso? Claro que a resposta é não, se você ama a democracia e respeita as instituições.
    Precisamos da força dos indecisos e dos desiludidos. Eles definem as eleições e eles podem defender o Estado de Direito Democrático contra o golpe do dia 15 de março convocado por Bolsonaro e seu bando.
    O carnaval de todo o Brasil e, em especial do Rio de Janeiro, mostrou para o planeta a insatisfação popular contra o governo Bolsonaro. As escolas de samba fizeram a dramatização da tragédia vivida por negros, pobres, gays e mulheres nesse governo. Foi o carnaval da crítica social contra a exclusão.
    O que seu viu no carnaval não pode ficar restrito a uma representação cenográfica, estética e de crítica social. Precisamos capitalizar a mobilização contra o governo, exposta no carnaval, contra o golpe do dia 15 e a favor do Estado Democrático de Direito.
    Precisamos da participação dos indecisos, dos carnavalescos, dos foliões e de todos que defendem a democracia e as instituiçẽos que protegem nossa Constituição.