Categoria: Análise&Opinião

  • Os golpes e as mentiras da Globo

    P.C. DE LESTER
    No dia 2 de abril de 1964, o presidente da República, João Goulart, ainda estava em território brasileiro.
    Havia desembarcado às 3h15 minutos da madrugada no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para decidir se resistiria ou não à quartelada que se iniciara contra seu governo.
    Nas primeiras horas da manhã, o presidente estava reunido com o comandante do então III Exército e os comandantes de todas as unidades da região Sul, mais líderes políticos como Leonel Brizola e outros.
    Naquela manhã, o jornal o Globo circulava no Rio de Janeiro com a seguinte manchete no alto da página: “Jango Fugiu: A Democracia Está Restabelecida” e abaixo em letras garrafais: “EMPOSSADO MAZZILLI NA PRESIDÊNCIA”.
    O Globo mentiu para encobrir um atentado à Constituição, que se praticou com a posse forjada de Rainieri Mazzilli, o presidente da Câmara, quando o presidente da República ainda estava em território nacional.
    Na calada da noite, o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, numa sessão de três minutos, declarou vaga a Presidência da República e elegeu Mazzilli para o cargo. Naquela época, Roberto Marinho tinha apenas o jornal e a rádio Globo.
    A TV que daria origem à Rede Globo, entrou no ar um ano depois, não por acaso.
    No dia 1º de setembro  de 1969, estreou o Jornal Nacional, “o primeiro noticioso em rede nacional de televisão” no Brasil.
    A principal notícia foi a doença do presidente Costa e Silva, há quatro dias com uma “crise circulatória”. O locutor Hilton Gomes disse que o presidente “passou bem à noite e está em recuperação”.
    O presidente, na verdade, tivera uma isquemia cerebral. Estava prostrado na cama, semi-paralítico e mudo. Os três ministros militares já haviam empalmado o poder, descartando o vice-presidente, Pedro Aleixo.
    O Jornal Nacional mentiu, encobrindo o chamado “golpe dentro do golpe”.
    Portanto, quando William Bonner diz que os jornalistas da Globo não criam fatos, mas apenas os divulgam e que “sempre foi e vai continuar sendo assim”… é bom botar o pé atrás.
    Agora, toda a Globo está empenhada em dizer que o impeachment contra Dilma não é golpe. Não estará ela, novamente, tentando encobrir outro golpe?
    (Publicado originalmente em 30 de março de 2016, com o título: “A Globo e o Golpe: nas duas vezes anteriores, ela mentiu”)
  • Cem anos de revolução no Sul da América

    Lourenço Cazarré
    Leitor entusiasmado dos historiadores que narraram as incontáveis guerras, revoluções, revoltas, insurreições, quarteladas e rebeliões que sacudiram o Cone Sul entre os séculos 18 e 19, o jornalista gaúcho José Antônio Severo devorou também as negligenciadas obras publicadas em pequenas editoras por autores de final de semana. Para conferir, visitou os locais que foram palco das maiores batalhas travadas naquele período. E juntou a tudo isso conversas que, quando menino, escutava de seus ancestrais, participantes desses entreveros. Para amarrar o pacote, inventou um fio literário – a vida de um dos maiores militares brasileiros, o general Manuel Luís Osório, o marquês do Herval.
    Com uma carreira jornalística de mais de meio século, vivida em algumas das principais redações do país, José Antônio Severo escreveu em cerca de 10 meses 100 anos de guerra no continente americano, obra de dimensões pampianas, com um total de 1.089 páginas, que foi dividida em dois volumes pela editora Record: Rios de Sangue (1) e Cinzas do Sul (2).
    Talvez se possa dizer que o grande mérito deste livro, além, claro, de sistematizar toda uma vasta e dispersa bibliografia, é a presença de um jornalista em uma seara quase sempre restrita a excessivamente contidos, ou por vezes derramados, historiadores. Com um texto ágil, claro e direto, despido dos conhecidos rococós retóricos característicos da América latina, Severo esboça diante de seus leitores um quadro amplo e detalhado das lutas que acabaram por moldar quatro dos países do extremo sul da América Latina.
    Repórter acima de tudo, o autor comparece com um grande número de informações pouco ventiladas que surpreendem até mesmo ratos de biblioteca razoavelmente versados nesse tipo de literatura. Severo entremeia sua narrativa com causos miúdos que, na linguagem simplificadora das redações, seriam chamados de “historinhas”. Assim, na leitura, nos defrontamos com centenas de historinhas curiosas, surpreendentes, esclarecedoras e por vezes verdadeiramente significativas.
    As ações guerreiras começam em 1.777 quando o recém nomeado primeiro vice-rei do Prata, Pedro de Ceballos, a caminho de Buenos Aires, ataca à atual ilha de Santa Catarina para tomar posse de uma terra que julgava pertencer à Espanha. Ao retratar essa luta remota, Severo demonstra uma de suas principais virtudes que é a de descrever com minúcia e abrangência escaramuças e batalhas. Surgem então pontos conhecidos hoje dos muitos turistas que visitam a badalada Florianópolis: Santo Antônio de Lisboa, ilha de Anhatomirim, Jurerê, Canasvieiras e São José da Terra Firme.
    Já naquela época, antecipando a quebradeira em que a nação vive hoje, a defesa da cidade estava à míngua: “por falta de verba, apenas dez dos 40 canhões estavam em condições”. O pânico espalhou-se pela ilha e as pessoas fugiram para o continente levando o que podiam. Os que não lograram escapar sofreram na mão dos invasores. “Os homens foram separados e encerrados, depois obrigados a trabalhar, quando não eram simplesmente mortos… As mulheres foram entregues às tropas. Oficiais e graduados tiveram preferência na escolha, mas a maioria ficou à mercê da soldadesca, na base de dez homens para cada uma. Meninas, mulheres de meia-idade e velhas, não escapou nenhuma”. Os que conseguiram fugir para o continente foram recepcionados pelas flechas e lanças dos índios carijós, cuja ferocidade nada ficava a dever à dos espanhóis.
    Anos depois, Pedro Luís Borges esclareceria a seu filho, Manuel Luís Borges, que viria a ser pai do futuro general Osório, que, naquela invasão, ele estivera bem seguro na barriga de sua mãe, porque, como as demais grávidas, ela havia sido protegida pelos padres.
    Em 1793, aos 16 anos, Manuel Luis Borges alistou-se como voluntário no Exército português. Em 1796 passou a furriel, posto equivalente ao de sargento. Certo dia, injustamente condenado ao açoite, teve a ousadia de aparar uma pranchada regulamentar que lhe foi desferida por um oficial. Foi preso e, antes de receber a inevitável condenação à morte, fugiu em direção ao Sul. Sua jornada em direção à Província de São Pedro pelo meio do mato acabou fazendo com que desse com o costado em Nossa Senhora da Conceição do Arroio (atual Osório). Ali acabou casando com Anna Joaquina Osório, cujo nome de família adotaria para sua descendência. Anos depois, livre da pecha de desertor, o mané Manuel Luís foi reincorporado ao Exército português
    Rios de sangue estende-se até o final da guerra da Cisplatina, que durou de 1825 a 1829, com direito a incontáveis batalhas. O melhor momento do primeiro volume sem dúvida é a descrição dos preparativos para a decisiva batalha de Passo do Rosário/Ituzaingó. Homens excepcionais lideravam os dois lados: as tropas do Império eram comandadas por Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira Horta, o Marquês de Barbacena, e os argentinos e uruguaios eram chefiados por Carlos Maria de Alvear.
    “É impressionante a simetria entre os dois generais”, escreve Severo. Ambos nascidos na América, filhos de nobres, cursaram academias militares da metrópole. Felisberto Brant nascera em Mariana (MG); Alvear era de Santo Angel, atual Santo Ângelo (RS).
    A Batalha do Passo do Rosário, vencida por Alvear, pois Barbacena abandonou o terreno, mesmo ainda tendo possibilidade de lutar, determinou a criação do Uruguai, nação-tampão entre dois gigantes brigões. Uma das curiosidades da Guerra da Cisplatina é que dom Pedro I chegou a viajar ao Rio Grande do Sul para comandar as tropas do Império, mas mal botou o pé por lá recebeu a notícia do falecimento de sua esposa, Leopoldina, e teve que retornar ao Rio de Janeiro.
    Em Cinzas do Sul temos relatos esclarecedores sobre a demorada Guerra dos Farrapos e a devastadora Guerra do Paraguai. Entre elas, a Guerra do Prata que levou à derrota de Manuel Oribe, caudilho uruguaio, e à deposição de Juan Manuel Rosas, ditador em Buenos Aires por 17 anos.
    Todos esses conflitos sangrentos foram causados por divergências incessantes, às vezes ridículas, entre os grupos políticos que tentavam tomar o poder nas nações em formação. Severo assim resume essa pendenga: “Ideologicamente, a linha de identidade entre os países do Prata, descontadas as lutas internas entre os caudilhos que disputavam o poder, corria em linha reta: unitários argentinos/blancos uruguaios/liberais moderados do Rio Grande do Sul de um lado e do outro federales argentinos/colorados uruguaios e liberais exaltados rio-grandenses”. Os primeiros eram republicanos que aceitavam uma monarquia apartidária e a escravidão. O outro agrupamento defendia a abolição e a criação de um estado unitário integrado por províncias autônomas.
    O jornalista gaúcho apresenta um número incrível de informações em geral desprezadas pelos praticantes da historiografia ortodoxa: fala da introdução da alfafa em uma terra onde os pangarés só comiam grama rala; das carretas de bois que necessitavam de doze juntas para arrastar 80 arrobas; que o custo de um escravo era cinco vezes maior do que o de um imigrante europeu; conta que os caudilhos argentinos Rosas e Urquiza eram os dois homens mais ricos daquele país; que cada soldado de cavalaria arrastava consigo três rocins mal nutridos; que os fortíssimos cavalos de batalha, ferrados e alimentados a milho, só eram usados nas cargas; que os cavaleiros minuanos e charruas levavam um homem na garupa para lançá-lo dentro da linha de defesa dos brancos; descreve a tomada de Porto Alegre pelos guerreiros farroupilhas e de como eles a perderam depois de um porre geral e homérico; informa que dom Pedro II já era a favor da abolição em 1845 e que lamentava que ela não fosse aprovada no Parlamento por oposição das bancadas de Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo; esmiúça a profunda ligação de Caxias com o Rio Grande do Sul por 20 anos (foi governador e senador pelo Estado); informa que para viajar a Mato Grosso a rota mais cômoda era a marítimo-fluvial, passando por Montevidéu e seguindo por rios interiores; que o Paraguai antes da guerra não tinha moeda, mas havia implantado a primeira linha da América do Sul; que Solano Lopez em sua fuga final conduzia sua mãe e sua irmã, prisioneiras, em uma jaula; que o espião do Paraguai em Montevidéu era o embaixador português; e lamenta os imensos prejuízos trazidos por esses conflitos sempre acompanhados de saques e violações.
    Falando de Osório, o lendário general, Severo relata que nas grandes cidades por onde ele passava o povo costumava desatrelar os cavalos da carroça em que viajava a fim de rebocar pelas ruas, com a força dos braços, o herói da Guerra do Paraguai.
    Por fim, ficamos sabendo que a Argentina – sacrificada por incontáveis carnificinas, só unificada mais de 60 anos após a libertação da Espanha – conseguiu, após o fim dos conflitos, atrair o excedente de mão de obra de uma Europa tomada pela industrialização para transformar-se, já na virada para o século 20, na quarta nação mais rica do mundo.

  • As fontes renováveis e a segurança energética

    Fernando Zancan
    Associação Brasileira de Carvão Mineral
    Heiner Flassbeck, ex-secretário do ministério de Finanças da Alemanha, afirmou que a Alemanha não poderá confiar somente na energia renovável, por mais que invista na capacidade destas fontes, para sua segurança energética. No último inverno europeu, houve pouco sol com uma alta pressão e intenso fog (nevoeiro intenso), afetando também as usinas eólicas. Durante várias semanas a Alemanha sofreu com a falta de sol e vento.
    Para Heiner, não é viável que a Alemanha desative sua base de energia (nuclear e carvão) sem afetar a sua segurança de suprimento. As lições da experiência alemã, nos mostram que será necessário a energia despachável, que independe dos humores de São Pedro. As fontes despacháveis fornecem eletricidade 24hs/dia, sete dias por semana, só dependendo do fornecimento do combustível e da disponibilidade das máquinas, que operam mais de 90 % do tempo.
    As mesmas conclusões foram tiradas do seminário realizado em julho de 2015 em Cambridge, Massachusetts/USA, onde especialistas do setor de energia discutiram a operação de sistemas com mais de 50% de renováveis na geração de energia elétrica em um mundo de baixo carbono. Concluíram também que a nova matriz de geração deverá levar em consideração uma transição que não privilegie tecnologias específicas, mas sim um portfólio de fontes intermitentes e despacháveis. Essas fontes de base aliam despachabilidade e inércia ao sistema como um todo, gerando qualidade de energia e segurança.
    No Brasil, um recente relatório do Instituto Acende Brasil, conclui que no país onde cerca de 80% da geração de energia elétrica é renovável, meta que a Alemanha pretende chegar em 2050, será necessário o uso de térmicas despacháveis para manter a segurança energética. Como dependemos das usinas hidráulicas para gerar energia com a finalidade de complementar as usinas eólicas, a baixa hidraulicidade e a construção de usinas a fio d’agua, tornam cada vez mais imprescindíveis as usinas despacháveis de gás e carvão, principalmente carvão que é abundante e de baixo custo.
    Portanto, será cada vez mais importante a discussão das tecnologias de baixo carbono e implantação de políticas públicas de baixo carbono, iniciando com a substituição das usinas térmicas antigas, por máquinas mais modernas com menor emissão de CO2/KWh gerado, e avançando com tecnologias de combinação de carvão e biomassa e por último o desenvolvimento da Captura e do Armazenamento do Carbono (CCS).
     

  • O regime dos caciques

    O voto em lista não tem pai nem mãe. Mas a criatura virá para o centro do palco e pode arrebatar a cena. Financiamento público de campanha puro é sinônimo de voto em lista partidária.
    A luta pelo voto sai das ruas e vai para as convenções partidárias.
    Lista é o modelo europeu e que funciona na maior parte das chamadas democracias avançadas da Europa e Ásia. Monarquias ou repúblicas. Socialistas ou neoliberais.
    É o regime dos caciques, banindo dos plenários os comunicadores, bigbrothers, atletas e palhaços profissionais. Salvo alguns tropeços para confirmar a exceção da regra, como a estrela pornô Cicciolina, na Itália.
    No escurinho dos conluios começa a briga de foice pelo lugar na lista. Normalmente o líder (como se diz na Europa) entra em primeiro. Mas isto no parlamentarismo. Aqui deve ser diferente.
    Vão se esmurrar caciques, corporações, minorias, religiosos, puxadores de voto leigos ou ateus e assim por diante. E os majoritários, presidente e vice, governadores, senadores?
    O objetivo imediato é tirar o “centrão” do jogo, em nome da governabilidade. Haveria um objetivo secundário que seria dar chapa a políticos acusados de corrupção. Pode ser que se crie também uma cota para indiciados.
    O fundamental é que com a proibição de uso de dinheiro próprio ou de terceiros por candidatos individuais, não haverá forma de ratear os recursos do Fundo Partidário. Terá de ser tudo canalizado para as listas.
    Mesmo as contribuições legais, individuais de pessoas físicas controladas pelo CPF do doador, não podem ser usadas por candidatos individuais. Entra no caixa do partido e vai para o rateio.
    Este é o problema. Ninguém quer falar disso, mas todos sabem que no fim do túnel a chamada “classe política” vai se justificar com a necessidade inexorável de entregar aos partidos a administração dos recursos.
    Então a lista é a única forma de fazer uma eleição igualitária, dirão.
    Porque isto? A Justiça Eleitoral, apoiada nas polícias, vai vigiar e controlar todos os gastos legais e descobrir os ilegais. Ninguém terá coragem de burlar a Lei, pois a mão da moça de olhos vendados será pesada.
    Contra a força não há resistência, dizia-se no Rio Grande nos tempos das revoluções. O ditado político volta a assombrar partidos e candidatos, só que desta vez são os grampos da Polícia Federal e não mais os mosquetões do Provisórioss do Dr. Borges de Medeiros.
    A percepção dos profissionais do ramo (dirigentes, burocratas de partidos e marqueteiros eleitorais) é que não vai dar para gastar nem um centavo por baixo do pano nem falar bobagem ao telefone.
    Também não vai ser possível fazer encontros fortuitos, nem receber pacotes suspeitos, nem pagar contas em dinheiro.
    Cuidado com o que os dedos teclam nos e-mails, tweeter, face book, redes sociais.
    Também estão expostas aos hackers as movimentações financeiras. Cuidados com palavras ditas ao vento: quem estiver militando em campanhas deve falar sempre com a mão na boca.
    Quem estiver metido em política que ande sempre com as mãos à mostra, os bolsos para fora das calças, tudo bem à mostra porque não há como escapar da vigilância fina. Qualquer passo em falso pode gerar uma impugnação.
    Tudo em nome do aperfeiçoamento da democracia, da verdade eleitoral e da lisura do pleito. Dinheiro só do Fundo Partidário. Financiamento púbico de campanha. Sair desses limites é um risco para lá de arriscado.
    É inesgotável estoque de grampos, infinito o número de câmaras e microfones. A parafernália eletrônica aposentou os antigos “ratões” dos tempos da ditadura. É de fazer inveja aos abelhudos do SNI dos tempos do Presidente Médici.
    A jovem democracia brasileira parece que levou a extremos inimagináveis o velho lema da antiga UDN: “O preço da Liberdade é a Eterna Vigilância”. Bota vigilância nisto.
    Sonho de uma noite de verão? Quem viver verá, dizia o velho Acácio.

  • Porto Alegre merece mais

    às vésperas de completar cem dias no cargo, o prefeito Nelson Marchezan Junior ainda está devendo um plano de governo aos portoalegrenses.
    Ele já descobriu que o caixa da prefeitura está raspado. Já paralisou obras por falta de recursos, suspendeu contratos de prestadores de serviços e até anunciou que pode atrasar os salários dos funcionários públicos.
    Tudo isso é compreensível, diante do quadro de crise que se vive no país. Nada disso, porém, justifica  que o prefeito, a estas alturas, não tenha sequer completado sua equipe de governo.
    Mesmo a grande novidade apresentada pela nova gestão, a criação de um “banco de talentos”, para escapar das pressões partidárias por cargos, permanece sendo uma incógnita. Pouco se sabe dessa instituição que até agora parece apenas uma cortina de fumaça para encobrir a velha prática de troca de cargos por apoio político.
    Porto Alegre merece mais e certamente foi esperando outra atitude que a população rompeu com o continuísmo e elegeu um jovem político, com perfil de administrador.
     

  • Hora do PT matar a mosca azul

    Geraldo Hasse
    Depois do aluvião de denúncias levantadas pela Operação Lava Jato nos seus primeiros dois anos e meio, soubemos recentemente que não foram apenas petistas que prevaricaram, mas membros de praticamente todos os principais partidos brasileiros. Portanto, a começar pelo PT, impõe-se um saneamento geral para higienizar a vida partidária no Brasil.
    Para clarear o panorama, precisamos recordar que, logo em sua fundação em 1980, o PT criou uma fórmula original da sobrevivência partidária: estabeleceu uma mensalidade para os filiados e uma contribuição compulsória para os militantes eleitos para cargos públicos. Cada mandatário tinha que dar ao partido 30% dos seus honorários.
    Para coroar seu sucesso como partido de massa, só faltava ao PT filiar um número próximo de um milhão de sócios. Essa era sua meta explícita. Sob o comando do deputado José Dirceu, o partido passou a fazer filiações pela internet. Consta que chegou a 700 mil sócios.  Uma espécie de Coringão ou Flamengo entre os partidos.
    Além dos pioneiros adeptos do socialismo democrático (“sem medo de ser feliz”), o partido passou a contar com levas de adesistas de última hora, alpinistas de ocasião, carreiristas sem vergonha e oportunistas loucos para ser governo.
    No final do século XX, com apenas vinte anos de existência, o PT havia conquistado centenas de mandatos de vereador, prefeito, deputado, senador e governador. Cada um desses eleitos tinha direito de nomear um número considerável de pessoas para cargos de confiança, os chamados CCs, que também deviam dar o seu quinhão para o sustento da estrutura partidária.
    Foi nessa convivência forçada entre os revolucionários de primeira hora e os recém-chegados famintos pelo poder que o PT perdeu a pureza original. Frei Betto escreveu um livro dizendo que seus amigos petistas se deixaram picar pela mosca azul do poder.
    Alguns acreditam que o vacilo se deu durante a redação da Carta ao Povo Brasileiro, assinada por Lula em 22 de junho de 2002, portanto, alguns meses antes da eleição que colocou o ex-operário do ABC no Palácio do Planalto.
    O pragmatismo petista no exercício do governo do Brasil rendeu a metáfora do presidente violinista: enquanto segurava o instrumento com a mão esquerda, Lula acionava o arco do violino com a direita (a troca de mãos não alterava o resultado final, considerado bom para pobres e ricos).
    Sucesso de crítica e de público, o concerto petista foi bem até que, por ambição demasiada, erro de cálculo, soberba ou falta de melhor alternativa, o PT achou por bem (ou por mal?) fazer como os outros partidos no exercício do poder.
    Aparentemente, não precisava ser assim, pois se todos os petistas seguissem a norma de contribuição ao partido, o PT poderia viver sem depender de doações de empresas interessadas em favorecimentos.
    Tudo indica que o toma lá-dá cá começou na campanha eleitoral e se aprofundou perigosamente no jogo do(s) partido(s) no Congresso, sem o que não seria possível aprovar programas, projetos e políticas de interesse da maioria da população – e também de setores empresariais.
    Deu no que deu. Mesmo sem provas, a Justiça condenou o chefe do partido José Dirceu a mofar na cadeia por conta do Mensalão, nome moderno de uma prática ancestral na administração pública do Brasil. Também foram condenados dois tesoureiros do partido. Há quem diga que José Dirceu é um preso político condenado por sua “extrema periculosidade”.
    Em consequência das evidências dos delitos, o PT perdeu grande parte de sua credibilidade e a presidenta Dilma Rousseff foi tirada do Planalto por uma conspiração de políticos, procuradores e jornalistas com aval do Supremo Tribunal Federal.
    Nas eleições de 2016 o PT perdeu um monte de votos e de cargos. Se fosse uma empresa, estaria no vermelho e sua diretoria seria substituída.  Por ser um partido, a democracia interna é sufocada pelas camangas de cúpula.
    De uma forma ou de outra, o PT contribuiu para a degradação política ao fazer acordos e alianças com escroques, farsantes, traidores e pilantras protegidos por membros da baixa, média e alta magistratura.  Por isso, após a Operação Lava Jato, é indispensável passar um bombril nas panelas do partido e promover a volta ao caminho inicial, sem medo de ser feliz.
    Até agora, quem andou mais próximo dessa prática foi o ex-governador gaúcho Olívio Dutra. Adepto da limpeza, ele é aplaudido onde quer que vá em Porto Alegre, mas provoca desconforto na cúpula nacional do partido.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “Há outro caminho possível. É o caminho do crescimento econômico com estabilidade e responsabilidade social. As mudanças que forem necessárias serão feitas democraticamente, dentro dos marcos institucionais. Vamos ordenar as contas públicas e mantê-las sob controle. Mas, acima de tudo, vamos fazer um Compromisso pela Produção, pelo emprego e por justiça social. O que nos move é a certeza de que o Brasil é bem maior que todas as crises. O país não suporta mais conviver com a ideia de uma terceira década perdida. O Brasil precisa navegar no mar aberto do desenvolvimento econômico e social. É com essa convicção que chamo todos os que querem o bem do Brasil a se unirem em torno de um programa de mudanças corajosas e responsáveis.”
     Luiz Inácio Lula da Silva no final da Carta ao Povo Brasileiro em 22 de junho de 2002

  • O alvo era o Lulinha

    Pinheiro do Vale
    A vaca foi “pro” brejo? É o que parece: a grande imprensa golpista foi com toda sua sede na Operação Carne Fraca, certa de que iria pegar Lulinha no contrapeso, mas não encontrou nada.
    Mesmo vasculhando os porões da Friboi a Polícia Federal encontrou apenas carne adulterada.
    Nem sinal dos contratos de gaveta que dariam ao filho do ex-presidente a propriedade de uma fatia do maior frigorífico do mundo.
    Quando os jornalões e a Rede Globo se deram conta da “barriga” já era tarde, pois as denúncias amplificadas já corriam o mundo e a pecuária brasileira jogava sua credibilidade na lata do lixo.
    Não bastassem as denúncias, o presidente ilegítimo convidou os embaixadores para um churrasco de desagravo num espeto corrido de Brasília.
    Entretanto, para confirmar a “competência” da comunicação golpista, os marqueteiros de Temer levaram os diplomatas à uma churrascaria que só serve carne estrangeira. Parece anedota.
    Enquanto Lula num golpe de mestre reassume a paternidade da transposição do Velho Chico, Temer se afunda num festival de desmentidos inverossímeis.
    Por mais que a Carne Fraca fosse um tiro n’água de um delegado de polícia faminto por holofotes, não dá para acreditar em tamanha repercussão só pela denúncia de um fiscal do Ministério da Agricultura despeitado.
    Algumas vozes de viés conspirativo estão debitando a operação na traição à Pátria dos federais, que estariam a serviço de potências estrangeiras carnívoras. Seria o segundo passo do projeto Lava Jato que baniu a Engenharia e a construção civil brasileiras do mercado internacional e abre as portas do País às construtoras estrangeiras. James Bond perde.
    E o gaúcho desconfiado ainda acrescenta: isto é coisa de argentino para tirar nossa carne da frente. “Os castelhanos não se conformam que lhes tiramos o campeonato da carne”, diz o gaudério.
    Brincadeira. Se sujar a marca da carne brasileira leva junto a imagem dos vizinhos. Ganham norte-americanos e australianos.
    O que parece mais plausível até este momento era o objetivo de pegar Lulinha, bem no dia em que seu pai renascia das cinzas na inauguração verdadeira da transposição do São Francisco. “Se for candidato ganho”, disse Lula.
    Tiro n’água do Velho Chico, pois Lulinha não tinha um mísero centavo aplicado na Friboi e a Carne Fraca veio a público na data do aniversário da Lava Jato, misturando esse fiasco com os desmandos de Curitiba.

  • Marcha à ré nos biocombustíveis

    Geraldo Hasse

    Toda semana pipocam notícias sobre a venda de ativos da Petrobras — 30 já foram vendidos e há 40 outros na fila de espera, segundo o Tribunal de Contas da União –, mas pouco se fala do desmanche da relação Petrobrás-Agricultura Familiar.
    Estabelecida pelo governo Lula, a aliança BR-AF juntou duas políticas – a diversificação energética mediante a adição de biocombustíveis ao óleo diesel e a proteção aos agricultores familiares, que garantem a maior parte do abastecimento alimentar brasileiro.
    Se a genial combinação dessas duas políticas era tão virtuosa, por que o governo está tratando de desmanchá-la?
    A resposta é dramaticamente simples: a ênfase no social é considerada um despropósito pelos adeptos do pensamento único, aqueles que derrubaram o governo eleito a fim de restabelecer a primazia do capital na exploração dos fatores de produção – mão-de-obra, recursos naturais e insumos intermediários. Enfim, os trabalhadores que se ferrem.
    Comprar soja e outros produtos agrícolas, inclusive resíduos vegetais e animais, para fazer combustíveis pode não ser a mais lucrativa das atividades, mas a adição desses subprodutos agropecuários ao diesel mata dois coelhos, ou seja, melhora a renda dos agricultores e ajuda a despoluir o meio ambiente, cujo equilíbrio está comprometido pela queima global de combustíveis fósseis.
    O desestímulo à produção de biocombustíveis oriundos da pequena agricultura é um crime a mais na conta do governo Temer — um crime contra a economia popular e uma traição a compromissos ambientais assumidos internacionalmente pelo Brasil.
    Não é difícil encontrar na mídia executivos dizendo que é inviável produzir biocombustíveis a partir de mamona ou pinhão manso, duas matérias-primas que não deslancharam no Nordeste, mas cabe indagar: por que o governo não banca por mais uma década ou duas o fomento dessas lavouras típicas da agricultura sertaneja?
    Será possível que uma parceria Embrapa-Petrobras não daria conta de um desafio dessa envergadura?
    O trabalho da Petrobras junto às bases da agricultura brasileira começou a fazer parte da política econômica em 2003, quando Lula dobrou a aposta no etanol e na indústria de equipamentos para a geração de energia verde. O presidente chegou a liderar uma comitiva de empresários a Havana com a ideia de vender tecnologia e serviços para a agroindústria canavieira cubana.  Também foi a outros países da América Latina e da Africa. Seu carisma e ousadia marcaram a primeira década do século XXI.
    Não foi por mera adesão à simpatia de Lula que o presidente norte-americano George Bush Jr. veio ao Brasil. Ele elogiou a política de incentivo ao etanol de cana (que, junto com a queima de bagaço, pesa cerca de 20% na matriz energética brasileira), mas o que queria, no fundo, era garantir uma participação no pré-sal recém-descoberto.
    Alguns anos depois, o presidente Obama diria que Lula era “o cara”. Nunca antes neste país um presidente foi tão paparicado pelos ianques, cuja tentação imperialista é indisfarçável.
    Quase um ano depois do afastamento da presidenta Dilma (foi em abril de 2016 que a Câmara vendeu a alma num espetáculo deprimente), os programas e as políticas de Lula/Dilma estão sendo descartados pelo governo Temer, que não esconde sua inclinação pró-Washington.
    Hora de tomar consciência das mudanças em curso e dos seus reais beneficiários.  O noticiário de TV, rádio e jornal sugere que as coisas estão em vias de melhorar na economia, como apregoam as autoridades. Não é bem assim. Parece que tudo se encaminha para melhorar, sim, a vida dos carapálidas.
    Enquanto as reformas previdenciária e trabalhista precisam ser debatidas no Congresso até a aprovação final, o desmanche do “trabalho social” da Petrobrás vai sendo feito no dia a dia, por meio de medidas administrativas baseadas na racionalidade econômica.
    O mais recente exemplo é a desativação da usina de biodiesel de Quixadá (CE), uma das 62 usinas autorizadas a produzir biocombustíveis no país. Segundo relatório divulgado em 2015 pela ONG Repórter Brasil, essas usinas recebiam matéria-prima de 84 mil famílias de agricultores.
    Segundo se sabe por registros esparsos, há outras usinas paradas ou operando à meia boca. São fortes os indícios de que a BR está abrindo mão da parceria com a Agricultura Familiar.
    Só falta vir um chefão da estatal dizer que não é alvo, foco ou missão da NeoBR ajudar os pobres do campo. Claro que nenhum executivo vai se expor assim, porque seria desgastante para sua imagem pessoal e da empresa. Ainda que ninguém ouse dizê-lo, a neoverdade é essa: “filantropia” é atraso de vida.
    Pela nova óptica ajustada aos negócios públicos no Brasil, cabe à Petrobras tão somente gerar lucros para seus acionistas no Brasil e no mundo.
  • O truque do Janot para implodir a candidatura do Lula

    Jeferson Miola
    O que poderia ser celebrado como sinal de normalidade institucional – os pedidos do Rodrigo Janot ao STF para abrir inquéritos das delações da Odebrecht – na realidade é apenas um truque do procurador-geral para [i] proteger o bloco golpista, em especial o PSDB; mas, sobretudo, para [ii] viabilizar a condenação rápida do Lula e, desse modo, impedir a candidatura do ex-presidente em 2018, isso se a eleição não for cancelada pelos golpistas.
    Janot seguiu fielmente Maquiavel: “aos amigos, os favores; aos inimigos, a lei”. Os golpistas, cujos indícios de crimes são contundentes, com provas de contas no exterior, jantares no Palácio Jaburu, códigos secretos para recebimento de dinheiro da corrupção e “mulas” para carregar propinas, serão embalados no berço afável do STF.
    Lula, sobre quem não existe absolutamente nenhuma prova de crime, foi denunciado por Janot e será julgado por Sérgio Moro, um juiz parcial, que age como advogado de acusação. Ele é movido por um ódio genuíno e dominado por uma obsessão patológica de condenar Lula com base em convicções [sic]. Janot entregou a este leão faminto e raivoso a presa tão ansiada.
    Os fatores que permitem prospectar esta hipótese da sacanagem do Janot são:

    1. as listas parciais divulgadas em 14 e 15/03/2017 implodiriam qualquer governo, quanto mais o apodrecido e ilegítimo governo Temer – implodiriam, mas não implodirão, porque estamos num regime de exceção;
    2. foram denunciados nada menos que: seis ministros [Padilha, Moreira Franco, Aloysio Nunes, Bruno Araújo, Kassab e Marcos Pereira] + os dois sucessores naturais do presidente em caso de afastamento do usurpador [Rodrigo Maia e Eunício Oliveira] + o idealizador da “solução Michel” para estancar a Lava Jato, atual presidente do PMDB [Romero Jucá] + o presidente do PSDB [Aécio “tarja-preta”] + quatro senadores da base do governo + cinco governadores + três deputados que apóiam Temer + três senadores da oposição + dois deputados de oposição;
    3. uma pessoa iludida poderia concluir: “é uma decisão corajosa e imparcial do Janot”; afinal, ele investiga personagens poderosos e, aleluia, inclusive o PSDB. Ilusão: esta é, exatamente, a manobra diversionista do Janot;
    4. os denunciados do governo golpista, todos eles, inclusive os sempre protegidos tucanos, têm foro privilegiado, e por isso serão investigados pelo STF, e não nas instâncias inferiores do judiciário [com minúsculo]. É verdade que Janot denunciou também golpistas sem foro privilegiado. Esses, porém, são as “genis” Eduardo Cunha e Sérgio Cabral, já presos; e Geddel Vieira Lima, que já está no corredor do cárcere;
    5. o supremo [com minúsculo], demonstram estudos da FGV, é a instância mais lenta, mais politizada [eventualmente mais partidarizada, para não dizer tucana] e mais inoperante do judiciário. A primeira lista do Janot, por exemplo, entrou no sumidouro do STF há dois anos [em março/2015], e lá dormita até hoje, sem nenhuma conseqüência na vida dos políticos denunciados por corrupção;
    6. a composição ideológica do STF é aquela mesma que, agindo como o Pôncio Pilatos da democracia brasileira, lavou as mãos no processo doimpeachmentfraudulento, e assim converteu o supremo em instância garantidora do golpe de Estado que estuprou a Constituição para derrubar uma Presidente eleita com 54.501.118 votos;
    7. é fácil deduzir, portanto, qual será a tendência do STF na condução dos processos dos golpistas. Se esses julgamentos iniciarem antes de 2021, será um fato inédito.

    A lista do Janot é um instrumento ardiloso da Lava Jato e da mídia para a caçada do Lula. Janot faz como o quero-quero, pássaro que grita longe do ninho para distrair os intrusos, afastando-os dos seus filhotes.
    As instituições do país estão dominadas pelo regime de exceção que violenta a Constituição para permitir um processo agressivo e continuado de destruição dos direitos do povo, das riquezas do país e da soberania nacional.
    O anúncio imediato da candidatura presidencial do Lula, abrindo uma etapa de mobilizações permanentes e gigantescas do povo, é a urgência do momento. É a garantia de proteção popular do Lula contra os arbítrios fascistas do regime de exceção e, ao mesmo tempo, fator que pode modificar a correlação de forças na sociedade.
    O êxito dos protestos deste 15 de março, que levaram milhões de trabalhadores às ruas em todo o país, é um sinal positivo da retomada da resistência democrática e da luta contra o golpe e os retrocessos.
    A democracia e o Estado de Direito somente serão restaurados no Brasil com a mobilização popular intensa e radical, e a candidatura do Lula é um motor para esta restauração.
    Artigo originalmente publicado em http://www.facebook.com/jefmiola/posts/263773757365939
     

  • Anistia ao Caixa 2

    Pinheiro do Vale
    A chamada classe política decidiu chutar o balde. Às favas a opinião pública, aquela “rainha do universo” de que falava Bento Gonçalves.
    O importante agora é salvar o pelo, livrar-se da cadeia. Depois, que cada qual se explique a seu eleitorado como puder, safando-se da execração, se for possível.
    No Senado e na Câmara dos Deputados, os líderes e as bancadas dos grandes partidos estão esculpindo uma estátua de Belzebu, o “Anjo Caído”, bonito por fora e demônio por dentro: será aprovada no Congresso uma lei duríssima contra o Caixa 2, mandando doadores e beneficiados para o fundo as masmorras se um tostão furado (a moeda mais vil que circulou no mundo lusitano) entrar num bolso “não contabilizado”.
    Dureza, tolerância zero, transparência translúcida. Ferro e fogo. Com a nova lei, os velhos crimes ficam no passado. Só paga quem transgredir daqui para frente.
    Uma manobra neste sentido já fora tentada, mas caiu diante do clamor da imprensa e de todas as vozes moralistas. Os deputados deram meia volta.
    Nesta nova investida os congressistas vão botar para quebrar. Mas não vão dormir de touca: no projeto de reforma política virá algum tipo de votação em lista, isto é, o eleitor sufraga o partido e não mais o nome do candidato.
    Com isto, o golpe de mestre: as lideranças envolvidas na Lava Jato, anistiadas pelo Caixa 2 com a lei que vem vindo, por aí podem entrar nas listas, sem necessidade de apresentar seus “santos” nomes ao distinto público.
    Os líderes no Congresso aprontam o pé para aplicar um chute no bumbum da Rainha do Universo. É o medo das grades.
    Está aí o dia 26 de março, marcado para as grandes manifestações de rua.
    É bom lembrar, como está no excelente livro de Euclides Torres, “Bento Manoel, o Caudilho Maldito”, a última reunião do Conselho de Estado do Império, na manhã de 9 de novembro de 1889, horas antes dos primeiros acordes das orquestras no baile da Ilha Fiscal.
    Nessa reunião, na presença de Dom Pedro II, o conselheiro Andrade Figueira denunciava: “ Os dinheiros públicos, Senhor, estão sendo desbaratados para pagamento de compra de votos”, e continuava, para concluir que um golpe de estado parecia iminente, oferecendo uma opção perversa: “Corrupção ou violência? Se eu fosse governo e tivesse de escolher entre violência e corrupção, preferia a violência, porque a corrupção avilta não somente quem é corrompido mas também quem corrompe”.