P.C. de Lester
Num anúncio da página inteira da Zero Hora li o seguinte: “Sociedade melhor precisa de jornalismo livre”. Concordei e pensei: olhaí, algo está mudando.
Meu otimismo durou o tempo de virar a página.
No mesmo espaço, na página ímpar, com o mesmo grafismo e letra cursiva, o texto começava assim: “Há pouco tempo, nossa luta foi contra a censura”.
Epa! Quando foi que a Zero Hora lutou contra a censura? No governo Lula? No governo Dilma? Ou no tempo da ditadura? Que ditadura?
Se for a de 1964, me perdoem. Os relatórios do SNI da época estão disponíveis.
A postura pessoal de Maurício Sirotski Sobrinho é uma coisa. Ele sempre foi claro na sua inconformidade com a censura e, mesmo sob ameaças, deu guarida a muitos jornalista perseguidos, sou testemunha. Mas a linha de seu jornal sempre foi pragmática, governista.
A tal ponto que seu editor chefe, no momento da censura mais braba, tornou-se porta voz da presidência, no governo Médici. E, depois de cumprida a missão, retornou ao posto.
Carlos Fehlberg foi um dos mais importantes jornalistas que o Rio Grande produziu. Repórter político inigualável, editor sensibilíssimo. A ponto de fazer um jornal competente sem afrontar a orientação oficialista da empresa.
A Zero Hora, sem duvida, tem grandes serviços prestados ao Rio Grande do Sul e ao Brasil.
Agora, dizer que lutou contra a censura… Tenha dó. Aos 53 anos, fica feio.
Categoria: Análise&Opinião
A imprensa, como ela diz que é
Braskem: as perguntas que não calam
Geraldo Hasse
Já que está em curso uma devassa sobre executivos, parceiros e sócios da Petrobras, bem que o Ministério Público poderia investigar como, em poucos anos, o onipresente grupo Odebrecht colocou no topo da petroquímica brasileira sua subsidiária Braskem, cujo nome, aliás, foi criado para sinalizar suas pretensões internacionais.
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), que diz amém a quase tudo, poderia ajudar explicando porque avalizou a concentração da petroquímica em uma única empresa.
Não se discute a competência técnica do grupo econômico baiano, mas para todos os efeitos (econômicos, históricos e políticos) seria conveniente esclarecer:
A – Como a Braskem conseguiu assumir o controle da central petroquímica de Triunfo, implantada em 1980 no Rio Grande do Sul pela Petrobras, o grupo Ipiranga e alguns sócios menores, com ajuda do BNDES?
A Braskem havia entrado na Copesul por último, como minoritária, depois de ter-se agigantado ao assumir o controle da central de Camaçari na Bahia (também implantada pela Petrobras) e de tornar-se hegemônica na Petroquímica União, fundada em Capuava (Santo André, SP) pelas famílias Geyer e Soares Sampaio.
Em 2007, correu um boato de que a Braskem “ganhou” a Copesul em retribuição a doações às campanhas do presidente Lula. O fato é que a minoritária Braskem, com 27% das ações, assumiu o controle da Copesul ao comprar os 27% da Ipiranga por US$ 4 bilhões.
A Petrobras ficou com 18%, o que sugere uma nova indagação:
B – Por que a Petrobras abriu mão do controle desse segmento estratégico da indústria brasileira, dando origem a um monopólio nacional privado?
E a pergunta que não pode ser sufocada:
C – Até que ponto a corrupção sistêmica descoberta pela Operação Lava Jato no âmbito da Petrobras atuou para transformar o braço petroquímico da empreiteira Odebrecht em “global player” dos negócios petroquímicos?
Todas essas perguntas fazem sentido, já que está bastante difundida na opinião pública brasileira a noção de que o país está sendo submetido a um processo deliberado de internacionalização de sua economia graças a um entreguismo sem freios em setores estratégicos como a construção pesada, a indústria naval, os segmentos de insumos agropecuários, o transporte aéreo, as telecomunicações e outros como especialmente o setor de petróleo-petroquímica.
Daí emanam novas e inquietantes questões:
1 – Até que ponto a Braskem representa de fato o poder empresarial privado brasileiro num setor historicamente disputado por multinacionais como Basf, Dow Chemical, Imperial Chemical Industries, Rhodia, Shell, Standard Oil e Union Carbide, entre outras?
2 – Com a recente fragilização do grupo Odebrecht após as escabrosas revelações da Lava Jato, a Braskem se manterá de pé ou precisará negociar seus ativos em Camaçari, Capuava e Triunfo? Há candidatos à compra dessas centrais?
3 – Ou será que, colocada a ferver na bacia das almas, a Odebrecht venderá ativos no exterior para tentar manter-se na posse de sua trinca de centrais petroquímicas no Brasil?
LEMBRETE DE OCASIÃO
“O lobby é um iceberg com apenas 1% à mostra. Na verdade é um governo invisível”
Millor Fernandes
A privatização da Carris
O prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Junior, tem repetido que se a Companhia Carris, a empresa municipal de transporte coletivo, continuar dando prejuízo, vai ser privatizada.
Ainda não tinha dado prazo. Mas, na sua última manifestação, num vídeo que gravou para verberar a greve geral, chegou a dizer que “se até o fim do ano” não houver uma mudança nos rumos da empresa, ela será vendida.
A Carris, empresa centenária do transporte público em Porto Alegre, já foi um caso exemplar no Brasil, merecendo inclusive prêmios internacionais. Desde 2011, por razões que nunca ficaram claras, vem operando no vermelho. No ano passado deu um prejuízo de R$ 50 milhões.
É correta a preocupação do prefeito. Mas antes de pensar em desfazer-se dela, deveria mostrar à população, aos contribuintes que pagam a conta, o que vem acontecendo com a empresa de históricos serviços prestados à cidade.
Ele mesmo nomeou em março um novo presidente, um jovem com espírito empreendedor, selecionado pelo Banco de Talentos que sua gestão adotou para escolher os assessores mais qualificados.
O novo presidente, que assumiu com um discurso animado, renunciou ao cargo menos de um mês depois, alegando “motivos pessoais”. Motivos pessoais que não o impediram de continuar na diretoria da empresa.
A nova presidente, também extraída do Banco de Talentos, tomou posse há menos de um mês. Só há poucos dias compareceu à Câmara Municipal para falar de seus planos e quase nada disse, além do pouco que já se sabe.
Restam sete meses para o fim do ano. Será possível reverter a situação da empresa em tão pouco tempo? Ou o prefeito quer mesmo é privatizar e só está procurando um pretexto?
Inter x Noia, a final da década
Geraldo Hasse
Vi-o jogar uma única vez, ao vivo, num sábado à tarde de setembro de 1958, no Estádio dos Eucaliptos. Jogavam Internacional x Floriano, de Novo Hamburgo, e fomos em comitiva, um grupinho do curso de admissão ao ginásio do Roque de Cachoeira. Era nossa primeira viagem à capital e quem nos ciceroneava era um irmão-professor colorado.
A partida terminou em 6 x 1 e o artilheiro colorado marcou cinco gols, municiado por um alemãozinho driblador chamado Sapiranga. Esse ponteiro-direito de cabelo amarelo trabalhava furiosamente no espaço que lhe cabia e, quando se aproximava da pequena área, ouvia o berro impositivo (“Dá!”) do centro-avante postado de frente para o gol. Inesquecível para um guri de 11 anos.
Mais de 50 anos depois, o antigo craque passa por mim na rua e o identifico. Impossível não reconhecê-lo. Magrão, o topete grisalho arrumado na testa e a ginga de ex-atleta. Puxei assunto, disse que gostaria de entrevistá-lo, que achava sua história muito interessante. Ele esboçou um sorriso resignado, mas não mostrou entusiasmo: “Minha história é pública, não há novidades a meu respeito”.
Não era esnobação. Afinal, Larry Pinto de Faria não fora apenas um atleta vencedor, festejado onde quer que andasse. Depois de marcar quase 200 gols pelo colorado, ele fez uma carreira como mandatário do povo junto às altas esferas do poder. Foi vereador, deputado, secretário municipal. Se no futebol jogava pelo centro, na política atuou pela direita. Começou na UDN, terminou na Arena. Uma figura pública que, no entanto, podia passear livremente pelas ruas.
Usando abrigo de esportista, ele caminhava diariamente de casa até o Parcão, reduto triarborizado que sequer existia quando ele chegou a Porto Alegre, emprestado pelo Fluminense, em meados de 1954. No lugar do atual parque, funcionava o Hipódromo dos Moinhos de Vento, ao qual se podia chegar de bonde, subindo do centro pela Independência e a Mostardeiro. Naquele tempo Larry não frequentava o prado porque, nos dias de corrida dos cavalos (em pista areia), ele também tinha de correr no (gramado do) Estádio dos Eucaliptos, sede do SC Internacional.
Correr é modo de dizer. Larry não corria atrás da bola. Ele a chamava e ela vinha. Era impressionante como se adonava dos espaços do campo para exercer a rara arte de fazer gols. Dava a impressão de que era fácil colocar a bola dentro dos três paus. Por isso levou muita pancada dos zagueiros adversários, especialmente de Airton e Ortunho, do Grêmio.
No seu primeiro Gre-Nal, em 1954, marcou quatro na vitória por 6 x 2. Em 1956, fez parte da Seleção Gaúcha que representou o Brasil no Pan Americano. Naquele que foi um dos melhores ataques do Inter, teve ao seu lado Luizinho, Bodinho, Chinesinho e Canhotinho. Eram cinco no ataque, mas só dois recuavam para ajudar o volante, outrora chamado de centro-médio.
Dada sua “escassa movimentação” (expressão do “professor” Ruy Carlos Ostermann, que marcou época como comentarista de futebol), Larry foi chamado de “O Cerebral”. Nascido em Nova Friburgo, afeiçoou-se ao clube gaúcho, arranjou namorada na cidade, casou e ficou para sempre em Porto Alegre.
Agora que o Estádio dos Eucaliptos não existe mais e o prado dos Moinhos de Vento há mais de 50 anos se mudou para o Cristal, um cronista mundano diria que o maior centroavante da história do Inter nunca perdeu o aplomb nem depois que parou de jogar bola.
E sempre foi fiel ao Internacional. Nos anos 60, quando o time viveu um jejum de títulos enquanto o clube construía o BeiraRio, Larry chegou a trabalhar de graça por algumas semanas como uma espécie de consultor técnico. Desistiu porque, mais do que recursos financeiros, faltava harmonia. “Ninguém se entendia”, ele me disse.
Naquela década perdida o time colorado permitiu que o Grêmio fosse heptacampeão, mas nunca correu o risco de cair para a segunda divisão, como acabou acontecendo em 2016 — coisa que Larry não chegou a ver. Ele faleceu em abril de 2016, com 80 e poucos anos.
Se Larry tivesse sobrevivido à pneumonia que o atacou pelas costas, talvez viesse a ver o ex-Floriano ser o campeão gaúcho de 2017. Com seu bom-humor, certamente diria: “O título ficou em boas mãos”. É difícil, mas o Noia merece.O despudor dos marqueteiros do poder
“Nossas contradições constroem nossas armadilhas”, disse o marqueteiro João Santana, num trecho filosófico de seu depoimento à Operação Lava Jato.
Com essa capciosa afirmação, ele admitiu ser “cúmplice” do esquema de corrupção que permeia as eleições no Brasil. Só não disse quem criou tamanho esquemão, mas isso é desnecessário porque estamos cansados de saber: quem criou o conchavão foi o despudor do “puder”, como dizem os cabras-da-peste do Nordeste ao se referir ao poder.
É um fenômeno que veio de Portugal com as capitanias hereditárias e foi se aprimorando com a ajuda dos ingleses (no século XIX) e dos americanos do Norte (desde o século XX).
Hoje a coisa tem diversas características próprias, sendo uma delas a figura relevante do marqueteiro.
A quem não está familiarizado com o termo, “marqueteiro” é a denominação dada aos profissionais que coordenam campanhas eleitorais.
Misto de publicitário e jornalista, eles concentram tanta informação que chegam a obrigar candidatos a dizer coisas em que não acreditam. Eles são o resultado de uma deformação da sociedade. Não é exclusividade brasileira. Marquetagem é prática global.
Em resumo, salvo uma ou outra exceção, o marqueteiro é um empulhador profissional. Simpático. Sorridente. Geralmente bom contador de causos. Bom vivant. Conhecedor de vinhos. Viajado. Gastador de dinheiro.
Não é de ostentar nem de gritar “sabe com quem está falando?”, pois sabe que tem o poder de orientar seus “clientes”, encomendar pesquisas de opinião viciadas ou não e determinar os temas de campanha.
Alguns têm hábitos relativamente simples como frequentar rinhas de galo ou apostar em corridas de cavalo. Mas sua “cachaça” é o jogo do poder.
Nunca trabalhei em campanhas eleitorais, mas o exercício do jornalismo me colocou a par de uma série de informações sobre os ganhos de pessoas contratadas para trabalhar em comitês eleitorais.
Nas maiores redações dos principais centros do país, alguns repórteres e/ou editores se demitiam para “fazer campanha”. Durante quatro ou cinco meses, trabalhava feito um cavalo para ganhar nesse período o equivalente ao que ganharia em um ou dois anos no emprego desprezado. Era um jogo.
Se a campanha fosse vitoriosa, ele ficava no direito de trabalhar por quatro anos no gabinete do candidato eleito, após o que devia camelar mais uns meses numa nova campanha eleitoral estressante. E assim por diante. Ou não.
Se o candidato não fosse eleito, o profissional tinha de voltar ao ex-emprego (se o aceitassem, o que não era comum) ou caitituar um novo cargo em outra empresa bem capaz de valorizar sua experiência, sua penetração e seus contatos no mundo político.
Uma saída bastante comum era passar a operar numa agência de propaganda que tivesse um departamento de marketing político. Das grandes agências, a maioria fazia o jogo para ter acesso a verbas de campanhas publicitárias oficiais.
Quem não gostaria de ter a conta da Petrobras? Do Banco do Brasil? Da Caixa? Dos Ministérios da Saúde ou da Educação? São rios de verbas publicitárias.
Foi nessa batida que alguns profissionais do marketing político criaram seus próprios escritórios de propaganda eleitoral. Casos de Duda Mendonça e João Santana, para citar os mais notórios. Mas havia nesse metiê figuras pouco visíveis como Luiz Gonzalez e Chico Santa Rita, ambos bem-sucedidos nos bastidores das campanhas eleitorais.
Eles formaram equipes, nas quais afloraram novas cabeças que passaram a trabalhar por conta própria em campanhas estaduais, metropolitanas e até em países vizinhos, onde eram aplicados os mesmos métodos em espanhol.
Esses cobrões habituaram-se, e treinaram pessoas, a encarar candidatos como produtos que poderiam ser manipulados como mercadorias. Merchandising de políticos. Marquetagem. Manipulation, o que inclui a realização de lobbies junto aos grandes veículos de comunicação, cujos dirigentes não são alheios ao jogo do poder.
Até a ditadura militar tinha seus marqueteiros, pois não bastava dispor da força das armas. Mas a especialidade marqueteira – antigamente denominada genericamente como “relações públicas”, com uma derivação modernizante para as “relações governamentais” e/ou “institucionais”, como chegou a constar no expediente de grandes editoras — evoluiu de tal modo que já desde os anos 1970 se concluiu que sem TV um candidato não ganha eleição. Daí então…
Se bem usada, a máquina televisiva coloca na Presidência da República quem ela quer. Foi assim com Collor, para citar um caso exemplar. E pode abarrotar o Congresso Nacional com dezenas de nulidades bem-falantes ou devidamente embaladas pelo marketing eleitoral e regadas por verbas de campanha.
Loucura total: entre abril e outubro, candidatos, marqueteiros e os trabalhadores do comitê correm atrás de dinheiro e de eleitores. Como diz o ditado popular, verba volan, o dinheiro voa. Se entra fácil, sai fácil.
Acontecem desvios mas, ao contrário do que pensa o vulgo, os recursos captados junto a cidadãos e empresários não são automaticamente embolsados pelos candidatos, pois há controles nas cúpulas partidárias e é necessário prestar contas aos tribunais eleitorais, que podem ser tão rigorosos quanto os fiscais da Receita Federal, se o quiserem.
Mas toda campanha é voraz ao exigir dinheiro vivo – além de crédito — para bancar despesas com equipes de filmagem, redação, edição e impressão de material de propaganda. E verbas para o transporte do candidato e equipe. Para alimentação. Hospedagem. Em alguns casos, como os de comícios, é preciso contratar “duplas sertanejas” e o séquito que as acompanha para o mal e para o bem.
E mais: há cabos eleitorais que vendem no atacado os votos do seu curral. Muitos exigem dinheiro e depois cobram recompensas — empregos para seus protegidos. É assim que os poderes executivos e legislativos deste país ficam cheios de pessoas despreparadas, que só ocupam cargos comissionados (os famosos CC) porque algum doutor as nomeou.
Agora vem a pergunta final: como o marqueteiro João Santana e sua sócia Monica Moura puderam pagar à Justiça uma multa de 30 milhões de reais? Certamente não precisaram pedir emprestado a um cliente porque, durante os 20 anos em que trabalharam com marketing político, puderam fazer uma boa poupança.
Seria ingenuidade esperar que o sujeito que fez a vitoriosa campanha de Lula à Presidência tenha resistido à tentação de acumular. O marqueteiro vitorioso fica com o direito de dizer onde devem ser aplicadas certas verbas de publicidade do governo. Há veículos e grupos editoriais que dão bônus a agências que lhes propiciam altos volumes de verbas – é a famosa BV (bonificação por volume), uma forma refinada de tráfico de plim-plim.
Tavez o marqueteiro esteja caindo em desgraça por força do lavajato, mas até agora ele tem sido um semideus da política. Ficou tão poderoso que acabou se tornando vulnerável. E acabou caindo nas armadilhas do excesso de poder. Para o bem ou para o mal, aí está uma bela lição de marketing.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Mais cedo ou mais tarde todo político corresponde aos que não confiam nele”. (Millôr Fernandes)Tanto denunciar, tanto delatar
Luiz RecenaJornalistaTanto denunciar, tanto delatarTanto aceitar, tanto mar, tanto mar
Um fantasma português ronda o Supremo Tribunal Federal: é o fantasma de Gil Vicente, o criador do teatro lusitano e autor, entre outras obras primas, do auto Todo Mundo e Ninguém.
Os inquilinos atuais das togas superiores, que parecem às vezes brincar de reunião de condomínio, ou não leram ou faltaram à reunião que discutiu a importância do teatro português na formação da nossa cultura, tema sempre presente nos seminários que o instituto do superior togado Gilmar Mendes costuma realizar, com patrocínios, em terras dantes visitadas pela elite nacional, desde os tempos do imenso Portugal.
O auto foi levado à cena por vez primeira por ocasião do nascimento do príncipe, filho de dom João III, em 1532. Gil tinha para permissão matar, digo, permissão real para alguma crítica. E não a deixou passar. Todo Mundo é um rico mercador, primeiro a entrar em cena, procurando oportunidades e fortuna. Ninguém é um pobre a fazer perguntas e pensar na vida. Belzebu e o auxiliar Dinato espiam e comentam.
Ninguém: Que andas tu aí buscando?
Todo o mundo: Mil cousas ando a buscar :
delas não posso achar,
porém ando porfiano /por quão bom é porfiar.
Ninguém: Como hás nome, cavalheiro?
Todo o Mundo: Eu hei nome Todo Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo
Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência
Belzebu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
Dinato: Que escreverei , companheiro?
Belzebu: Que ninguém busca consciência,
e todo mundo dinheiro.
Ninguém: E agora que buscas lá?
Todo o mundo: Busco honra muito grande.
Ninguém: E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.
Belzebu: Outra adição nos acude:
escreve logo aí, a fundo
que busca honra todo mundo
e ninguém busca virtude.
Ninguém: Buscas outro mor bem qu’esse?
Todo o mundo: Busco mais que me louvasse
tudo quanto eu fizesse.
Ninguém: E eu quem me repreendesse
em cada cousa que errasse.
Belzebu: Escreve mais.
Dinato: Que tens sabido?
Belzebu: Que quer em extremo grado
todo o mundo ser louvado,
e ninguém ser repreendido.
Ninguém: Buscas mais, amigo meu ?
Todo o mundo: busco a vida a quem ma dê.
Ninguém: A vida não sei o que é,
a morte conheço eu.
Belzebu: Escreve lá outra sorte.
Dinato: Que sorte?
Belzebu: Muito garrida:
Todo o Mundo busca a vida
e ninguém conhece a morte.
Todo o Mundo: E mais queria o paraíso,
sem mo ninguém estorvar.
Ninguém: E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.
Belzebu: Escreve com muito aviso.
Dinato: Que escreverei ?
Belzebu: Escreve
que todo o mundo quer o paraiso
e ninguém paga o que deve.
Todo o Mundo: Folgo muito d’enganar,
e mentir nasceu comigo.
Ninguém: Eu sempre verdade digo
sem nunca me desviar
Belzebu: Ora escreve lá, compadre,
não não sejas tu preguiçoso.
Dinato: Quê?
Belzebu: Que todo o mundo é mentiroso,
E ninguém diz a verdade.
Ninguém: Que mais buscas?
Todo Mundo: Lisonjear.
Ninguém: Eu sou todo desengano.
Belzebu: Escreve, ande lá mano.
Dinato : Que me mandas assentar?
Belzebu: Põe aí mui declarado,
Não te fique no tinteiro:
Todo o mundo é lisonjeiro,
e ninguém desenganado.
STF e o togado Fachin completam:
Todo Mundo é culpado/ Ninguém deve ser maltratado.
E a imprensa não viu nada!
P.C.de Lester
A parte mais importante da delação de Emílio Odebrecht é omitida nos grandes jornais e respectivos portais.
É o trecho em que ele pergunta: “Mas por que só agora e por que essa hipocrisia? Era assim há 30 anos e todo o mundo sabia, inclusive a imprensa”.
Ele não diz mas fica subentendido: a imprensa que também levou o “seu” para não enxergar o que estava acontecendo.
É possível que uma corrupção assim generalizada e escancarada ocorresse por tanto tempo sem chegar às redações dos grandes jornais?
Assim como as propinas aos políticos eram dadas na forma de contribuição a campanhas, o cala-boca da mídia saía em forma de anúncios, de patrocínios, de campanhas. Quem vai delatar essa parte?
Paulo Francis denunciou a corrupção na Petrobras nos anos 80. Ficou sozinho, quando a máquina jurídica da estatal foi para cima dele com processo nos Estados Unidos. Os campeões da liberdade de imprensa ficaram calados. A Petrobras patrocinava tudo, da Fórmula 1 pra baixo.
Condenado a pagar uma indenização milionária à estatal, Francis foi levado à morte pelas agruras que enfrentou.
Os fatos hoje lhe dão inteira razão. E aqueles que acobertaram o que ele queria revelar, hoje exaltam os “furos” extraídos de delações.
As delações que, como diz Emílio Odebrecht, revelam aquilo “que todo mundo sabia”.
Menos a imprensa que, por conveniência, só está sabendo agora.
Somos todos campeões na modalidade corrupção
Geraldo Hasse
Mesmo com suas distorções de fundo político-ideológico, a Operação Lava Jato tem sido bastante pedagógica no sentido de revelar a extensão e a profundidade dos arranjos feitos pelos malandros profissionais para fazer a máquina dos negócios funcionar em harmonia com as engrenagens do poder em benefício da chamada turma dos camarotes.
Eles montaram o crime quase perfeito. Funcionou por décadas, do primeiro ao último Cabral. Se foram descobertos é porque alguns protagonistas se refestelaram tanto na sacanagem que deixaram os rabinhos de fora, como nas parábolas sobre os sete pecados capitais.
Quem ainda se lembra deles? Originalmente, segundo a igreja católica, eram sete: avareza, gula, inveja, ira, luxúria, preguiça, soberba. Atire a primeira pedra quem nunca andou por uma das sete casas.
Hoje em dia há outros pecados, como a cobiça, exercida indiscriminadamente por empresários, executivos, atletas, políticos e pastores religiosos, entre outros.
Ademais, mereceriam enquadrar-se como pecados capitais a desfaçatez dos ladrões do dinheiro público e a hipocrisia de tantos mentirosos de ofício e de ocasião. Como diz o slogan da SporTV, da Rede Globo, “somos todos campeões”.
Entre esses, poderíamos apontar o maior dos corruptos: é o achacador, que se prevalece de posições de mando para angariar vantagens para si e para seus amigos. Na cadeia, impedido de achacar pessoalmente, ameaça alcaguetar ex-companheiros. Mau caráter integral.
Todos os dias os jornais trazem indicadores notórios de que não há lugar para a ética no mundo moderno, pois quase todas as personagens citadas no noticiário estão invariavelmente mais preocupadas com os aspectos materiais da vida do que com os valores morais.
De fato, nada pesa mais no jogo do poder do que a força do dinheiro. Pesa tanto que se tornou o leit motif (motivo condutor) da maioria dos crimes. Se não é o motivador, está presente no cenário como pano de fundo. Por isso, para a maioria das pessoas, a palavra “negócio” traz implícita a ideia de “sujeira”. Dizendo de outro jeito: não há jogada limpa no mundo dos negócios. Por extensão, a política é um jogo essencialmente sujo.
Propina, graxa, mutreta, bola, maracutaia, pixuleco: seja qual for seu apelido, a corrupção não se restringe aos empresários e executivos ou aos políticos e funcionários de ministérios e partidos políticos.
Estamos mais do que cientes de que a corrupção é generalizada: começa na base da cidadania onde eleitores vendem seus votos, passa pelos políticos que prometem mundos e manipulam fundos doados por picaretas empresariais, e chega aos togados que julgam contas de campanhas, absolvendo camaradas e condenando adversários.
Por artes de uma espécie intangível de corrupção, salva-se quem tiver as costas quentes ou desfrutar de foro privilegiado, uma espécie de asilo procurado por bandidos que se protegem com o voto popular – uma modalidade de corrupção que parece estar com os dias contados.
A partir de 11 de abril, com o amplo acolhimento pelo ministro Facchin, do STF, das delações de executivos da Odebrecht, pode ser que as coisas tomem um novo rumo no âmbito dos supremos poderes, onde o jogo se concentra em apenas 11 cabeças cansadas da guerra política.
PROVÉRBIO DE OCASIÃO
“De barriga de mulher, de urna eleitoral e de cabeça de juiz, ninguém sabe o que pode sair”.Para que a palavra guerra provoque náusea
Lourenço Cazarré
A menina Svetlana Aleksiévitch, nascida em 1948 na Ucrânia, não gostava de livros de guerra, numerosos em sua casa, mas na escola – na Bielo-Rússia, onde cresceu – era obrigada a lê-los. “Estivemos sempre a combater ou a preparar-nos para a guerra… Na escola, ensinavam-nos a amar a morte”. Ao seu redor, todos liam. Afinal, eles, os soviéticos, haviam sido os vencedores do conflito recente contra os alemães.
“Depois da guerra, a aldeia da minha infância era feminina… Não me lembro de vozes masculinas”, escreve Svetlana na abertura de A guerra não tem rosto de mulher (Companhia das Letras, 2016, 392 páginas). Os homens eram poucos porque milhões deles morreram na Grande Guerra Patriótica (assim chamada pelos soviéticos). A Bielo-Rússia teve dizimado um terço de sua população. A Rússia perdeu cerca de 22 milhões de pessoas.
Svetlana formou-se em jornalismo em 1972. No final daquela década, resolveu escrever um livro sobre os seres humanos na guerra. “Não escrevo a história da guerra, mas a história dos sentimentos. Sou historiadora da alma”. Passou a colher depoimentos de mulheres que haviam atuado no Exército Vermelho. Surgiria então um estilo (literário, jornalístico?) que décadas depois seria consagrado com o Nobel de Literatura (2015).
O efetivo feminino das forças soviéticas chegou a um milhão. Svetlana parou de contar suas entrevistadas quando elas ultrapassaram 500. Gravou longas conversas com lavadeiras, cozinheiras e enfermeiras, mas também com franco-atiradoras, pilotos de aviões de caça e comandantes de artilharia. Entre elas encontrou “narradoras espantosas”.
Das confissões dessas mulheres Svetlana pinçou os trechos mais impactantes ou tocantes. Quase sempre devastadores. E com eles montou um livro-mosaico que foi recusado por muitas editoras antes de chegar ao prelo, em 1985, já nos estertores do comunismo. A obra vendeu dois milhões de exemplares nos primeiros cinco anos.
Escritos polifônicos
Com a técnica de traçar vastos painéis a partir de incontáveis narrativas de pessoas comuns, Svetlana produziu outros escritos polifônicos sobre sofrimento e coragem. Entre seus livros publicados, destacam-se Rapazes de zinco (sobre os jovens russos que, sem saber o motivo, lutaram no Afeganistão); O fim do homem soviético (sobre a desilusão dos que cresceram durante os anos em que o comunismo garantia emprego a todos os que não abrissem o bico para criticar o regime); e Vozes de Tchernóbil (relatos dos que sobreviveram à grande catástrofe nuclear).
Desmontando mentiras
Ao contrário dos livros sobre a guerra escritos por (e para) homens, a obra de Svetlana não apresenta heróis nem proezas incríveis, não descreve batalhas nem gaba armamentos. Mostra apenas “as pessoas ocupadas na sua atividade humana e simultaneamente desumana”. Dor, fome, frio, desespero, infestação por piolhos e mutilados, muitos mutilados, estão em cada uma das páginas.
Svetlana confessa que, com este livro, pretendia desmontar todas as mentiras tramadas em torno das guerras, de modo que a palavra guerra passasse a provocar náusea e que a simples ideia de que pudesse existir fosse repugnante. Desejava, enfim, que seu trabalho “faça vomitar os próprios generais…”
A obra é dividida em 17 capítulos. Nos primeiros vemos o entusiasmo das moças que faziam de tudo a fim de serem convocadas para enfrentar os nazistas, que haviam invadido a Rússia e que logo chegaram à periferia de Moscou. Mas também fica clara a resistência dos chefes militares que não desejavam ter garotas na frente de combate.
A primeira versão de A guerra não tem rosto de mulher sofreu vários cortes impostos pelos censores. A versão mais recente traz alguns dos trechos eliminados. Num deles, num dos poucos depoimentos masculinos, um soldado fala sobre o avanço pela Alemanha derrotada no final de guerra: “Somos jovens. Fortes. Há quatro anos sem mulher. Apanhávamos garotas alemãs e… Dez homens violavam uma. Apanhávamos meninas… Doze treze anos… Se chorassem batíamos, metíamos qualquer coisa na boca… A única coisa que temíamos era que nossas colegas descobrissem…”
O bebê debaixo da água
Uma aviadora que se recusou a ser entrevistada disse a Svetlana por telefone: “Durante três anos não me senti mulher. O meu corpo adormeceu. Fiquei sem menstruação, quase sem desejo feminino”.
Uma mulher fala do que uma de suas amigas fez para sobreviver na época da grande fome na Ucrânia: “Morreram o pai, a mãe e os irmãos mais pequenos, e ela só se salvou porque de noite roubava estrume de cavalo para comer”.
Uma enfermeira para diante de um jovem capitão que agoniza e pergunta em que pode ajudar. Ele sorri. “Desabotoe a blusa. Mostre-me seu peito”. Desconcertada, ela corre. Uma hora depois ela volta. O capitão está morto.
Membros da resistência russa estão num pântano cercados por alemães. Uma das mulheres tem um bebê recém-nascido no colo. A criança chora de fome porque a mãe, desnutrida, não tem leite. Sem que alguém fale, a mulher compreende que só há uma solução para não serem descobertos. “Mete o embrulho com o bebê debaixo da água e o mantém ali durante muito tempo”.
Uma das mulheres regressa da guerra. A mãe permite que descanse em casa por três dias. Depois lhe dá uma trouxa e manda que se vá: “Tens duas irmãs mais novas. Quem é que vai desposá-las? Sabem todos que estiveste na guerra quatro anos com os homens”.
Outra fala de sua desilusão ao fim dos combates. “Pensávamos que tudo ia mudar… Stálin acreditaria no seu povo… Foram presos os que caíram prisioneiros, os que sobreviveram aos campos de concentração, os que foram levados pelos alemães para trabalhar, todos os que tinham ido à Europa e podiam contar como o povo vivia lá”.
O potrinho
Depoimento de uma franco-atiradora: “Confesso que tinha medo de agarrar no fuzil… Aprendemos a desmontar a arma de olhos fechados, a determinar a velocidade do vento, o movimento do alvo, a distância até o alvo… Regressei da guerra grisalha. Com vinte um anos, já estava toda branquinha… Passamos três dias comendo só pão seco, as línguas ficaram tão ásperas que mal as podíamos mover… De repente vemos um potrinho na faixa neutra… Nem tive tempo de pensar, com a força do hábito, apontei e disparei. As pernas do potro dobraram-se e ele caiu para o lado… À noite trazem o jantar. Os cozinheiros dizem: “Muito bem, atiradora. Hoje temos carne na panela”… Desatei a chorar e corri do abrigo… As colegas correram atrás de mim e me consolaram… Pegaram nas marmitas e começaram a comer… Ele vê o meu uniforme, as condecorações e pergunta: ‘Quantos alemães mataste?’. Respondo: setenta e cinco…”
Uma enfermeira aproxima-se de um soldado ferido que tem o braço quase arrancado, seguro apenas por tendões. Procura faca ou tesoura para cortá-lo. Não as encontra na bolsa. “O que fazer? Pus-me a cortar aquela carne com os dentes…”
Uma instrutora da companhia de fuzileiros: “Durante a marcha caminhávamos três pessoas de mãos dadas, e a do meio dorme uma hora ou duas. Depois trocamos. Cheguei até Berlim. Escrevi na parede do Reichstag: Eu, Sofia Kuntsévitch, cheguei aqui para matar a guerra”.
Uma agente de saúde conta que, para se livrar do assédio, ligou-se ao comandante do batalhão: “Era boa pessoa, mas não o amei… Poucos meses depois entrei no abrigo que ele ocupava. Que saída tínhamos? Vivíamos rodeadas por homens, pelo que era preferível viver só com um do que com medo de todos…”
“Como é que a Pátria nos recebeu?”, indaga uma franco-atiradora. E ela mesma responde: “Os homens não diziam nada, mas as mulheres… Gritavam conosco: ‘Sabemos o que vocês fizeram por lá… Seduziram nossos homens… Putas da frente… Galinhas das trincheiras…’”
Uma mulher da resistência regressa à Minsk e descobre que seu marido está na prisão por ter sido prisioneiro dos alemães. Ali, partiram-lhe as costelas. “Antes, na prisão fascista, esmagaram-lhe a cabeça e quebraram-lhe o braço… Em 1945 o NKVD acabou por torná-lo inválido”.
Uma telefonista fala sobre a entrada dos russos na Alemanha vencida: “Escrevem pouco sobre isso, mas é a lei da guerra. Os homens passaram tantos anos sem mulher, além disso há ódio. Entramos numa vila ou aldeia. Os primeiros três dias são para saquear… Apareceram cinco mocinhas alemãs para falar com o comandante do nosso batalhão… Choravam… Foram vistas por um ginecologista… Tinham feridas. Feridas rasgadas…. Mandaram formar o batalhão… Disseram a essas moças que apontassem os culpados… Mas elas choravam e não se mexiam… Não queriam mais sangue…”
Sangue e água
Relata uma oficial de comunicações: “Estamos em marcha.. Umas duzentas mulheres, seguidas por uns duzentos homens. Está calor. É uma marcha de ataque.: trinta quilômetros…. Marchamos deixando marcas vermelhas na areia… E essas coisas.. As nossas… Não dá para disfarçar nesta situação. Os soldados marcham atrás de nós e fingem não reparar em nada… Não olham para o chão… As calças secavam em nós , tornavam-se como de vidro, machucavam a pele. Faziam feridas, o cheiro de sangue era constante… Pois não nos distribuíam nada… Apareceu roupa interior de mulher talvez só dois anos mais tarde… Mal chegamos à passagem, os alemães começam a bombardear. Os homens correm para se esconder. Gritam nos chamando… Não ouvimos o bombardeio, não nos importa o bombardeiro, nós nos lançamos ao rio… Água! Aquela foi, provavelmente, a primeira vez que desejei ser homem…”
(*) Os trechos transcritos foram adaptados da tradução para o português de Portugal.As privatizações e os direitos da maioria
Geraldo HasseA crise econômica instalada no país tornou mais aguda a disputa por espaços em todas as atividades, da política à economia.Vem desse contexto a sensação de que os responsáveis pelo governo não se pautam pela ética senão na aparência. Prevalece o egoísmo, conforme o provérbio: “Farinha pouca, meu pirão primeiro.”Por isso, ao acompanhar o debate sobre as reformas disso e daquilo, já sabemos que não chegaremos a um bom termo porque falta legitimidade aos detentores do Poder. Eles sabem que precisam fazer o serviço rapidamente pois dispõem de pouco tempo.Muitos ocupantes de cargos públicos, por voto ou concurso, negligenciam a obrigação moral de agir com lisura, como se esquecessem que estão numa vitrine não vitalícia.Em função pública, quem não agir direito deve pagar muito mais caro do que um particular. Essa é uma máxima da vida republicana que precisa prevalecer. Se não for assim, como vai se construir uma cidadania consciente?O interesse público tem sido solapado diariamente por atos e medidas em prol de interesses privados.Os direitos da maioria trabalhadora (100 milhões de brasileiros, entre os quais 13,5 milhões de desempregados) estão para ser retalhados pela terceirização ampla dos contratos de trabalho.Ao aprovar essa medida, a Câmara dos Deputados deu um salvo-conduto para os famosos “gatos” (intermediários) que atuam no mercado de trabalho no campo e na cidade.A reforma da Previdência, pior ainda: em nome de uma modernização marota, arma-se um grave retrocesso numa área em que o Brasil progrediu bastante na luta para garantir assistência aos idosos e aos desvalidos em geral.Não se pode esquecer que a previdência social precisa ser pública, isenta das taxas de administração e lucratividade que caracterizam os fundos privados.A previdência, a saúde, a educação, a segurança e o transporte devem ser obrigações do Estado, que só deixará à iniciativa privada um espaço complementar, nunca o principal.Está provado, na prática, que o viés privatista mutila os direitos comunitários.É o que vemos no modo como a iniciativa privada trata o meio ambiente, os recursos naturais, os trabalhadores e até o patrimônio histórico.LEMBRETE DE OCASIÃO“A contradição é a fonte de toda a vida. Só na medida em que encerra em si uma contradição é que uma coisa se move, tem vida e atividade. Só o choque entre o positivo e o negativo permite o processo de desenvolvimento e o eleva a uma fase mais elevada. Quando faltam forças para a desenvolvimento e para o agravamento da contradição, a ideia ou a coisa morrem em virtude dessa contradição, sem nada de novo engendrar.”Hegel (1770-1831), o pai da dialética moderna

Paulo Francis denunciou a corrupção na Petrobras nos anos 80. Ficou sozinho, quando a máquina jurídica da estatal foi para cima dele com processo nos Estados Unidos. Os campeões da liberdade de imprensa ficaram calados. A Petrobras patrocinava tudo, da Fórmula 1 pra baixo.