Categoria: Análise&Opinião

  • Lula a fragmentação da esquerda

    Pinheiro do Vale
    O ex-presidente Lula submergiu e aguarda olhando de periscópio o tumulto que se estabeleceu na esquerda depois dos resultados das eleições de 2 de outubro.
    Seu projeto é evitar que as dores da derrota levem as forças populares a uma fragmentação desastrosa.
    Seu partido, o PT, parece agonizar diante da derrota, perdendo a posição de maior agremiação política do País para cair para a décima posição, atrás do PDT de Brizola.
    Na mesma área, o Psol de Luciana Genro, mesmo perdendo em Porto Alegre, parece emergir como nova força da esquerda e se coloca para disputar a liderança das forças populares.
    Enquanto isto, o pragmático PCdoB sugere calma e cuidado na crise: o líder dos comunistas, Aldo Rebello, em entrevista ao repórter Ivanir Bortot, do site “Os Divergentes”, adverte que as propostas de refundação do PT significam o isolamento no quadro eleitoral.
    Para Rebelo, as lideranças desse partido, leia-se Lula, deve procurar rapidamente ampliar suas alianças para o centro. Se não fizer isto, deixará esse eleitorado à mercê da direita.
    Esta parece ser a postura de Lula, que caco a caco procura refazer as forças que levaram o seu partido ao poder e o sustentaram por 12 anos, até sucumbir na tragédia política do governo de Dilma Rousseff.
    A direita triunfante e o fascismo hidrófobo estão embriagados pelos resultados das eleições municipais. Este é o clima pós-eleitoral dos vencedores que Lula está deixando se esvair antes de retomar sua campanha para 2018.
    Neste caso, mesmo que tenha de amargar mais uma derrota, como em outros pleitos nopassado, Lula vai trabalhar para reerguer e tecer uma nova maioria para retomar ao poder, se não em 18, em 2022.
    É assim que se faz a política na democracia de massa. Ninguém melhor do que Lula sabe o quanto o eleitorado e volúvel. O mesmo eleitor que o elegeu, puniu seus aliados no domingo, mas pode voltar no futuro. Alternância no poder
    O PT prepara-se para a nova fase, pois de nada vale chorar sobre o leite derramado. No Rio Grande do Sul o partido vai para as eleições com sua força máxima, apresentando para o senado o nome consagrado de Paulo Paim e, decidido na terça feira, Dilma Rousseff.
    O PT vai de chapa puro sangue na disputa pela Câmara Alta.
    Para o governo do Estado ainda falta um nome e, principalmente, a composição das alianças.
    Para ter dois senadores na chapa, o PT poderia abrir mão da cabeça de chapa para o executivo. É uma possibilidade que se considera remota, mas o PT gaúcho pode aceitar, se Lula insistir.
    A esquerda, dizem as pessoas próximas a Lula, precisa trabalhar a unidade e tirar de 2016 a lição de que disputas pela hegemonia interna levam ao fracasso, como comprovam as sucessões de derrotas que lhe tiraram do segundo turno, como em Porto Alegre.
    A verdade é que Lula uma vez mais é o último bastião. Em torno dele devem se unir as forças populares para a longa e penosa marcha para a retomada do projeto popular cortado com o golpe parlamentar de agosto.
    Entretanto, deve abandonar o vocábulo golpe, que se mostrou ineficiente para ganhar votos. Deve surgir um slogan positivo, propositivo.

  • O pré-sal não pode ser entregue numa bandeja global

    Geraldo Hasse
    A economia começa a sair do fundo do poço e quem a puxa é a locomotiva Petrobras, que já produz mais de um milhão de barris por dia nos campos do Pré-Sal descobertos em 2006.
    Alcançar tamanha performance em apenas dez anos seria caso para prêmio, mas não há no famoso Mercado quem reconheça a eficiência da empresa, colocada na linha do choque entre o neoliberalismo emergente e o distributivismo de governos voltados para os pobres.
    Também não se vê ninguém festejar a autossuficiência finalmente alcançada após mais de 60 anos de trabalho em terra e no mar. Pelo contrário, o que se nota é um esforço para deteriorar a imagem da empresa. E, no entanto, ela vem dando a volta por cima.
    Na moita, sem alarde, a grande BR já recuperou R$ 455 milhões de dinheiro desviado em casos comprovados de corrupção. Uma gota d’água no oceano, dirão os pessimistas. De fato, o valor equivale a apenas meio dia de faturamento anual da empresa, mas o fato relevante é que a petroleira nacional vem tapando os furos por onde vazavam as propinas.
    Detalhe: os últimos R$ 145 milhões foram recuperados de casos ocorridos entre 1997 e 2012. O dinheiro estava em bancos suíços em conta pertencente a Julio Faerman, ex-representante da empresa holandesa SBM Offshore, locadora de navios-plataforma, equipamentos caríssimos e cartelizados no mundo. Num acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro, o tal Faerman reconheceu que obteve o dinheiro “através de atividades criminosas”.
    As investigações começaram bem antes da Operação Lava-Jato e a Petrobras, como vítima das falcatruas, atuou como assistente de acusação no processo. Atingida em cheio pelo vendaval da Operação Lava Jato a partir de 2014, a Petrobras vem se mostrando muito maior do que a crise.
    Dias atrás, o presidente Pedro Parente teve de reconhecer que a produção média dos poços do Pré-Sal ultrapassou a previsão – de 15 mil barris diários, chegou a 25 mil. Ex-ministro dos governos tucanos, Parente parece ter assimilado o pensamento nacionalista dominante no corpo técnico da empresa. Pode ser uma tática conciliatória enquanto não é possível aplicar a estratégia subjacente ao golpe contra a presidenta Dilma: “entregar” o pré-sal a petroleiras estrangeiras.
    O perigo está na Câmara dos Deputados, onde tramita o Projeto de Lei 4567/2016, que retira da Petrobras a obrigatoriedade na exploração na camada do pré-sal. Essa proposta formulada às pressas pelo senador José Serra permitirá que as multinacionais explorem os campos do pré-sal sem o essencial controle da Petrobras, que deixará de ser obrigatoriamente operadora. Como ministro de Relações Exteriores do governo Temer, Serra não esconde sua intenção de tirar o filé da Petrobras.
    O projeto é antinacional e entreguista porque retira da Petrobras o conhecimento geológico do nosso subsolo marinho, aliena a decisão sobre as tecnologias adotadas, tirando a preferência para equipamentos produzidos no Brasil e terceirzando a decisão sobre o ritmo adequado de exploração das jazidas.
    O deputado paulista Carlos Zarattini acaba de publicar artigo no site do GGN argumentando que, ao contrário do que alega Serra, não há motivo para ter pressa na exploração do pré-sal porque, depois que descobriu as jazidas, a Petrobras desenvolveu a tecnologia de exploração em águas profundas e conseguiu reduzir os custos de produção a menos de US$ 10 por barril. Uma façanha que causa inveja e aguça a cobiça internacional.
    Seria um crime contra a soberania nacional entregar o pré-sal agora que a Petrobras começou a sair do sufoco financeiro do endividamento. Na real, o esforço da empresa é um exemplo para o Brasil, que entrega aos credores da dívida pública uma montanha de recursos que deveriam ser transformados em investimentos em infraestrutura.
    Ao fim e ao cabo do gigantesco processo de endividamento do Brasil,  quem mais investe no país é a Petrobras. Até 2021 ela vai investir US$ 70 bilhões em recursos próprios e conta atrair parceiros/sócios que invistam mais US$ 40 bilhões.
     
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “De certa maneira, a rede de companhias multinacionais representa em forma embrionária o sistema nervoso central de uma ordem econômica global emergente.”
    Giovanni Agnelli, presidente da Fiat, em depoimento na ONU em 1975, época em que os grandes chefes do capitalismo mundial elaboravam o Consenso de Washington/Trilateral

  • Eleição fortalece Lula

    Pinheiro do Vale
    Urna fechada, jogo jogado. O ex-presidente Lula sai fortalecido do pleito depois de demonstrar a seus aliados e adversários que não há outro nome além do dele na esquerda.
    Já a direita está cheia de impasses, pois a reta final da campanha embolou o ninho tucano. Aecio, Alkmin e o indefectível José Serra embolam-se no partidor.
    As surpresas do primeiro turno serão poucas: nas grandes cidades as forças tradicionais lideram os resultados e vão se enfrentar novamente no segundo turno. A diferença é que daqui para frente as eleições estaduais e nacional de 2018 já estarão bebendo no pleito municipal.
    A esquerda não terá alternativa senão apostar em Lula. Não obstante a sucessão de bordoadas do corredor polonês que ele e seu partido atravessam, ou até por isto mesmo, somente o ex-presidente tem o couro duro o suficiente para não sucumbir.
    Com tudo isto e apesar de tudo, Lula ainda é o candidato com melhor “recall”. As pesquisas lhe dão entre 22 e 30 por cento na largada. Nenhum outro nome alcança este vigor.
    A proposta de Lula para sua campanha é um tiro certeiro: bater no fracasso do governo de Michel Temer. Não há como errar.
    Temer veio para concluir o programa mínimo do governo Dilma, liberando a esquerda do constrangimento de apoiar no Congresso medidas e reformas que já rejeitara lá nos tempos de Joaquim Levy e Nelson Barbosa.
    A expectativa com Dilma era de que mesmo a trancos e barrancos ela conseguiria conduzir o país até as eleições de 2018. Entretanto, o custo político seria insuportável para a esquerda, deixando-a a mercê das críticas dos tucanos.
    Embora não se possa sugerir que Lula fizesse parte de uma conspiração diabólica, o resultado do impeachment pode ter sido ao fim e ao cabo um negócio aceitável para o PT, trocando os dois anos finais de Dilma pelos oito de Lula entre 2019 e 2027.
    O primeiro grande movimento estratégico neste sentido,  Lula está com seguindo levar a efeito: falando aqui e ali vai fazendo o governo Temer colar no PSDB. Embora quase não tenha representantes no ministério, os tucanos vão dando a cara para a nova administração.
    Esta é uma manobra fundamental, pois Lula vai precisar recompor a aliança com o PMDB para sua candidatura. Evidentemente o PMDB que estará a seu lado será aquela parcela confiável que só traiu Dilma no último momento.
    Os PMDBs gaúcho e catarinense continuarão a reboque dos tucanos, como já é tradicional. O Paraná está ainda indefinido, dependendo de como se sairá e como se posicionará seu líder Roberto Requião.
    Daí para cima no mapa todos os demais seguirão o acordo que a cúpula vai fechar, sempre garantindo uma boa parcela do poder.
    A candidatura Lula, portanto, é uma questão pacífica nas suas hostes. Enquanto isto, no ninho tucano trava-se uma briga de foice no escuro. O desastre na direita é a previsão mais provável.
     
     
     
     
     

  • Lula estica a corda

    PINHEIRO DO VALE 
    O ex-presidente Lula está esticando a corda para levar o juiz Sergio Moro ao desequilíbrio, a ponto de tropeçar em contradições e ser declarado suspeito para julgar as acusações que o Ministério Público está oferecendo como denúncia para um improvável processo criminal.
    É uma tática de alto risco, mas desafiar forças antagônicas é o padrão de campanha do ex-presidente.
    Se Moro for deslocado do processo por evidenciar parcialidade, deita por terra a imagem de isenção que procura afirmar. Caso contrário, será obrigado de rejeitar a denúncia por inepta, pois Lula não pode ser chamado a responder por tais acusações: não é dono do apartamento do Guarujá nem do sítio de Atibaia.
    Se o magistrado de Curitiba se ativer às pretensas provas apresentadas pelos promotores, Lula ressurge do mar de lama em que se pretende submergi-lo como candidato forte e inquestionável para seu terceiro mandato presidencial, em 2018.
    Entretanto, desafiando esses agentes do judiciário, o ex-presidente se arrisca a retaliações que podem causar-lhe mais dores de cabeça e, também, a torná-lo inelegível.
    Se for condenado em primeira instância, Lula pode recorrer em liberdade, mas sua cidadania estará comprometida num possível enquadramento na Lei da Ficha Limpa. Até que tudo seja passado e repassado, ele perderá tempo de campanha. Este é o lado negativo do confronto direto com juízes e promotores.
    Lula parece atingido pela maldição que assombra, até hoje, a todos os ex-presidentes que tentaram reincidir na volta ao poder no Brasil. Nenhum terminou bem.
    O primeiro deles foi o próprio fundador da República, marechal Deodoro da Fonseca, presidente provisório e logo eleito para um mandato definitivo.
    Caiu renunciando para não ser derrubado por seu vice-presidente, Floriano Peixoto, o marechal de ferro.
    O próximo a tentar foi o paulista Rodrigues Alves, 1902 a 1906, reeleito há exatos 100 anos da nova tentativa de Lula, em 1918, que não chegou a tomar posse, abatido pela gripe espanhola.
    Ainda na República Velha, o ex-presidente negro Nilo Peçanha tentou voltar em 1921, derrotado nas urnas suspeitas daqueles tempos pelo mineiro Arthur Bernardes.
    De Getúlio Vargas nem se fale. Ditador, foi derrubado; voltando nos braços do povo, suicidou-se para não cair (ou para se manter no poder virtual, segundo análises mais recentes).
    O delfim de Vargas, Juscelino Kubitschek, também se arvorou para um segundo mandato, o lema JK-65, mas foi defenestrado pelos militares com a cassação de seu mandato de senador por Goiás e candidato presidencial na eleição adiada e depois extinta pelo AI-2, que tornou o pleito indireto só atingível por generais de quatro estrelas.
    Depois disso se falou de uma volta de Fernando Henrique e da candidatura de Lula em 2014. Nenhuma das duas vingaram. FHC não se arriscou e Lula teve de dar lugar a Dilma para se apresentar à reeleição, perdendo a vez.
    Quando seu nome volta, Lula encontra esse paredão de intrigas e baixarias, com sério risco de ser barrado por uma inelegibilidade de ocasião.
    Enquanto a mão pesada de uma condenação criminal é apenas uma ameaça, Lula trabalha fortemente para construir sua base eleitoral para 2018.
    O trabalho mais importante é re-aglutinar a esquerda e, logo adiante, recompor suas alianças eleitorais ao centro. Neste sentido, não obstante fazer da oposição ao governo de Michel Temer, o cavalo de batalha nesta fase da campanha, Lula vai costurando a reconciliação com o PMDB.
    Os primeiros passos estão na presente campanha municipal, em que PT e PMDB marcham juntos em 8.488 candidaturas em, 570 municípios.
    Com o fim de ajudar candidatos petistas em dificuldades, Lula está percorrendo os colégios eleitorais mais importantes do País, sentindo o pulso público. É aí que a cobra arma o bote.

  • Parem as máquinas!, o Jornalismo morreu com a Democracia

    andres vince
    Onze entre dez jornalistas sonhavam em entrar na redação gritando “parem as máquinas!”. Era o anúncio que o repórter tinha acabado descobrir uma bomba nuclear e que estava disposto a detona-la.
    Folclore profissional à parte, teremos cada vez menos manchetes capazes de cometer qualquer abalo ao novo establishment instalado imediatamente após o afastamento de Dilma Rousseff da presidência da república.
    A imprensa se esmera em envernizar o golpe. Todo santo dia tentam, miseravelmente, escamotear as trapalhadas do governo (?) Temerildo, realizando uma assessoria de imprensa capaz de colocar inveja em qualquer grande agência de publicidade.
    Mais à vontade entre os seus (o empresariado pé de chinelo norte-americano), Temerildo disse com todas as letras, sem edição: “farei uma reforma RADICAL na Previdência” (ênfase do próprio na palavra radical). Nenhuma repercussão, nenhum debate. Ninguém pra perguntar: “Como assim ‘radical’, Temerildo?”.
    Enquanto isso, por aqui a imprensa ilude o trabalhador dizendo que a população está crescendo e ficando mais velha, a legislação é de 1940 e tal. Como se o sistema de previdência fosse alheio a esse detalhe. Talvez, em 1940, os estudiosos que formularam a legislação achavam que a população ia ficar estagnada pra sempre e que os avanços da ciência eram pra pessoa morrer aos 50 anos, porém, saudável.
    O governo usa os dados do IBGE pra provar que o topo da pirâmide (os mais velhos) está crescendo, mas omite deliberadamente que a base (os mais jovens) cresce na mesma proporção ou até mais. Assim como no caso tal déficit da Previdência, que só é real quando omitidas outras bases de receita, como o imposto de 5% sobre o lucro das empresas. Mostram o total deficitário, mas não mostram como chegaram lá.
    Temerildo fala em reforma radical lá fora, e aqui dentro assevera: “não vamos mexer nos direitos do trabalhador”. Então, parece que o objetivo mesmo é exterminar esses direitos. O Temerildo parece aquele porta voz do governo iraquiano, que durante a segunda invasão norte-americana ao país do Oriente Médio dava uma coletiva garantindo que Bagdá estava em segurança, enquanto a imagem ao fundo mostrava os misseis rasgando os céus da cidade. Mentira pura e simples, em rede nacional.
    É tão aleatoriamente sincronizado esse golpe, que o Judiciário, até então em preocupante silêncio, sai de trás da cortina pra dizer, via TRF-4 e por 13 votos a 1, que o juiz Sérgio Moro pode fazer o que bem entender, pois, segundo palavras do relator do processo que buscava frear seu ímpeto cadeieiro: “É sabido que os processos e investigações criminais decorrentes da chamada operação ‘lava jato’, sob a direção do magistrado representado, constituem caso inédito (único, excepcional) no Direito brasileiro. Em tais condições, neles haverá situações inéditas, que escaparão ao regramento genérico, destinado aos casos comuns”.
    E o paragrafo 37 da Constituição que diz :”Não haverá juízo ou tribunal de exceção”? Lixo nele. Repercussão dessa decisão? Zero. Alguma dúvida que a ditadura já se instalou?
    Hoje, quase já não temos as tais ‘máquinas’ e as pessoas capazes de entrar na redação gritando desesperadamente “parem as máquinas!” estão sendo presas e criminalizadas, por um estado de exceção sem precedentes, sem que isso seja visto como um ataque às garantias individuais! Bovinamente bizarro.
    Parem as máquinas!, para sempre.

  • Lula na mira do Ministério Público

     
    A prisão do ex-presidente Lula com base nas acusações do Ministério Público do Paraná é muito improvável: o acusado não tem contas no exterior nem está envolvido nos negócios explícitos que levam empreiteiros, lobistas e tesoureiros para trás das grades.
    Até essa ação drástica, a Justiça ainda terá de juntar provas muito bem provadas, e não apenas convicções de detetives ensandecidos. Além disso, o motivo das preventivas (ou temporárias, como hoje se chamam) é a possibilidade concreta de fuga.
    Dizer que Lula pode se exilar num país amigo é muito pouco. Seria necessário demonstrar que ele teria meios de se esconder fora do País. Daí o agravante das contas em bancos estrangeiros. Isto ele não tem. Portanto, por enquanto é só fumaça.
    O que parece concreto é a implosão do sistema de presidencialismo de coalizão. Já tem gente dizendo que está na hora de invocar o espírito do falecido deputado Raul Pilla para trazer de volta sua emenda parlamentarista.
    Há uma hipocrisia circulante, fazer democracia de massa sem dinheiro. A tal lei moralizadora em vigor, proibindo o financiamento de campanha por pessoas jurídicas, já está causando horror em certos círculos moralistas: na periferia das megacidades estão aparecendo denúncias de fundos de campanha nutridos por fontes do crime organizado.
    A escolha de Sofia: empreiteiras corruptas ou criminosos profissionais? Assim é a política eleitoral. Por isto as propostas de votos distritais, eleições por listas e outros sistemas que vigoram com grande êxito nos países avançados estão ganhando corpo.
    Em resumo: o ataque a Lula desencadeia uma avalancha que pode levar consigo todo o sistema em vigor. E só o que seus adversários queriam era evitar sua candidatura em 2018, criando um empecilho ao registro de sua candidatura.
    Parecer ser este o objetivo dos templários de Curitiba: inviabilizar na justiça uma candidatura que, eleitoralmente, seria muito forte, talvez imbatível.
    Assim como acreditavam que o impeachment de Dilma repetiria o passeio que foi o impeachment de Collor, pensavam que botar Lula ao alcance da ficha limpa sairia tão barato quanto barrar prefeitos e candidatos suspeitos do baixo clero.
     

  • É mais do que hora de resistir

    BENEDITO TADEU CÉSAR
    15 de Setembro de 2016 – Estou em viagem fora do Brasil, acompanhando de longe os acontecimentos de ontem.
    Não posso dizer que estou surpreso com a denúncia contra Lula, seus familiares e companheiros de partido e governo, pois eu já esperava que ela acontecesse, porque faz parte do teatro montado e do grande esquema para impedir que Lula (ou qualquer liderança que defenda seus mesmos princípios) se candidate em 2018.
    Não obstante minha expectativa, fiquei estarrecido com o primarismo das denúncias e com a desfaçatez com que dois integrantes do Ministério Público ocupam o proscênio para destruir não apenas a reputação de pessoas honestas, mas também da própria instituição da qual fazem parte e o fazem com os holofotes da grande mídia sem que nenhum superior hierárquico ou qualquer ministro do STF os enquadrem.
    Venho há mais de um ano afirmando em todos os cantos que o golpe em curso envolve a justiça e o ministério público brasileiros como instituição (já que não há reação articulada em seu interior), além, é claro, do parlamento e da grande mídia, todos irmanados no esforço de apagar as conquistas obtidas durante os governos petistas de Lula e Dilma para emancipar o país e promover a inserção social e cultural dos imensos segmentos sociais historicamente excluídos no Brasil.
    Haverá ainda parcelas imparciais e que honrem os preceitos internacionais de Justiça no poder judiciário e no ministério público brasileiros?
    Se há, por que não agem?
    Se não agem, estão coonestando a ação de seus pares midiáticos ensandecidos pela caça ao petismo e às suas conquistas.
    Se não agem, a população deve agir.
    Desde John Lock, parlamentar e filósofo inglês do século XVII e que, por sinal, lançou as bases filosóficas (pasmem) do liberalismo, está consagrado internacionalmente o direito dos povos à insurgência civil.
    É mais do que hora de resistir.
  • Sócio da Al-Qaeda comprou armas em Porto Alegre

    Seria uma manchete, mas está na ZH desta quarta, encoberta por um título em que a indústria de armas Taurus se explica. A passagem por Porto Alegre de  Fares Mohamed Mana-á, um dos nomes do terrorismo internacional.
    Fares Mohamed Mana-á tem um verbete como político e traficante de armas na Wikipédia desde 2011, mas a Taurus, que exporta armas há décadas, não sabia nada que o desabonasse.
    Vendeu-lhe oito mil revólveres e pistolas em 2013 e, em 2015, vendeu um novo lote de três mil no total de dois milhões de dólares. E trouxe-o a Porto Alegre como convidado especialíssimo.
    A notícia não esclarece se a visita  de Fares Mohamed Mana’a foi antes ou depois do negócio fechado.
    Com todas as despesas pagas, ele veio conhecer a fábrica de onde sairam as armas que ele estava comprando. Tudo numa reserva tamanha que nem os “colunistas bem informados” ficaram sabendo. Quem soube não publicou.
    A explicação da Taurus, que usurpou a manchete, é que nada sabia e, quando soube que se tratava de uma organização que tem parceria com a Al-Qaeda, interceptou o lote de armas que já estava a caminho.
    O assunto foi levantado pela agência de notícias Reuters, a partir de uma investigação internacional.
    Safra de boas notícias está começando
    A capa da nossa gorda e patusca ZH desta quarta-feira é exemplar: o otimismo está em alta. Começa pela manchete: “Concessões devem atrair mais capital estrangeiro”, tentando tirar leite de uma vaca magra como é o requentado pacote de concessões do ministro Padilha (fonte infalível em ZH).
    Segue com outro primor: “PIB gaúcho cai, mas em menor ritmo”, minimizando o fato de ser o quarto semestre consecutivo de queda e que ainda é de 3,1%. E para não dizer que o governo não faz nada: “BM  mata três assaltantes após ataque de loja”.
    Sobrepondo-se a tudo, uma majestosa foto aérea da avenida Ipiranga, com a manchete, sobre fundo amarelo: “Em breve, com faixa exclusiva”. Um velho projeto de pintar de azul uma faixa de algumas avenidas para facilitar o tráfego dos coletivos nos horários de pico, prometido para o próximo dezembro.
    Como dizia o finado Buonocuore: “Há que se aguentar com os novos tempos”

  • Imprensa: Cinquenta tons de marrom

    Incrível como a imprensa nacional transitou da oposição para a situação, sem nem tropeçar no degrau, que, por acaso, é grande.
    Os jornais nacionais da vida se transformaram numa descarada assessoria de imprensa do governo. O pessoal dá uma cabeçada de manhã, logo mais à noite já está tudo oficialmente esclarecido.
    Com a nova linha editorial, pipocada virou “realinhamento de discurso”. A palavra “recuo” não passa nem perto da boca do apresentador. Afinal, as pipocadas já viraram rotina mesmo.
    Estourar a meta de inflação? Tudo bem, já estava previsto pelos especialistas. Até o fim do ano passado parecia que as portas do inferno iam ser abertas se a inflação ficasse acima da meta. E olha que a inflação vai a caminho de ficar dois pontos acima da “meta”.
    E a demissão do AGU? E a denúncia de conhecida revista que até pouco tempo saía da gráfica direto pra tela do noticiário? Nada. Só o registro burocrático pra não ficar chato. Ninguém quis saber o por quê. Alguns até disseram que “já era pedra cantada”. Pausa para risos.
    O governo Temerildo se apresenta frágil, mas não um frágil que inspira cuidados, como um cristal, por exemplo. É um frágil de débil, de esquálido, de fraco, suavemente repugnante.
    O governo da Dilma pode ser acusado de qualquer coisa, menos de frágil, apesar do Zé Cardozo. Segurou o bombardeio de peito aberto. Ela como líder, transmitia total confiança e firmeza, muitas vezes confundida com intolerância e estupidez. Mas, vivia cercada de patifes. Temerildo incluído.  Porém, a Dilma é tipo da pessoa que eu entregaria a chave do carro, se eu tivesse um. Pro Temerildo? Nem pra estacionar.
    É triste ver a imprensa tentando convencer o povo brasileiro que o Temerildo é confiável. Um cara que tem um índice de rejeição ainda maior que a da presidenta golpeada. Ainda tentam fazer a conta do pato parecer mais digerível: “Não vamos mexer nos direitos trabalhistas”, repetem sem parar. Mas, então pra que a reforma? Como que não é mexer no direito do trabalhador passar a idade de aposentadoria para 65 anos? Tanto pro homem como pra mulher? Só falta dizer que estão implementando políticas de igualdade de gênero com essa medida. Não duvido.
    Outra pergunta: economizar na Previdência pra gastar aonde, se os gastos com saúde e educação vão ser congelados por 20 anos?
    É certo que a imprensa conseguiu convencer a população que Dilma era incapaz de governar o país, mas, como diz o ditado: “É mais fácil destruir do que construir”. Quero ver a imprensa conseguir construir a imagem de um estadista sólido com essa matéria prima gelatinosa que está aí.
     

  • Dilma fica em Porto Alegre

    Pinheiro do Vale
    As fontes bem informadas de Brasília garantem que que a presidente Dilma Rousseff esteja de mudança para o Rio de Janeiro.
    Ela vai continuar morando na Vila Assunção.
    O avião da FAB carregado com seus pertences pessoais decola para o Salgado Filho. Esta é a rota.
    O projeto da presidente deposta, neste momento, é cuidar de sua mãe, vovó Dilminha, que aos 93 anos requer atenção da filha mulher, que até então vivia muito ocupada com os negócios públicos de Porto Alegre, do Rio Grande, do governo Lula e, por fim, da própria República Federativa do Brasil.
    O que a imprensa golpista do centro país insinua, para intrigar a presidente com os gaúchos, é que estaria de mudança para seu apartamento no Rio de Janeiro. Entretanto o que ela planeja é fazer o que muita gente de certa idade faz, no Rio Grande, para escapar dos invernos. Para isto, não é incomum ter um tugúrio na Cidade Maravilhosa.
    Os cuidados com sua mãe demandam uma certa movimentação, pois dona Dilminha resolveu passar mais tempo próxima ao filho homem, Igor, recluso em Passa Tempo, pequena cidade do interior mineiro. Com isto a mãe pretende ficar com base em seu apartamento carioca, meio do caminho entre os dois filhos. Esta é a última versão.
    Entretanto, fontes políticas garantem que a ex-presidente vai ocupar cadeiras nas duas grandes bases do PDT, Rio e Porto Alegre, para capitanear a reviravolta que se está articulando para uma retomada da esquerda abalada pela débacle do PT.
    O verdadeiro efeito dessa crise sobre o partido de Lula será avaliado depois das eleições de outubro. Entretanto as próprias lideranças petistas estimam que a agremiação vai perder pelo menos 50% de suas bases municipais, ou seja, de prefeituras controladas pelo PT.
    Voltando ao PDT. Dilma poderia ser o catalizador para aglutinar o partido em torno de sua vertente esquerdista, enfraquecida nos últimos episódios, onde a bancada dos três senadores do partido desobedeceu à direção nacional, e votou pelo impeachment.
    Enquanto Lula é o bastião quer resiste ao esfacelamento do PT, Dilma teria o mesmo papel nas antigas forças brizolistas.
    Embora o presidente de fato, Carlos Luppi, esteja à frente das negociações com o PT para a formação de uma nova frente, nos moldes da Frente Ampla do Uruguai, Dilma assumiria o comando tão logo arrefeçam os embates em torno do seu impeachment.
    Dilma não é uma neófita em organização política. Esteve ligada à burocracia do PDT desde a fundação do partido, quando uma vertente da esquerda revolucionária se aliou a Leonel Brizola. Mais tarde, esse grupo mudou-se para o PT, acabando por conquistar a Presidência da República.
    Por enquanto o projeto do grupo é fortalecer a candidatura a presidente do ex-governador do Ceará, Ciro Gomes. Neste momento, este nome aparece como o de Dilma em 2008, quando Lula a lançou como “gerentona”. Luppi tirou Ciro da manga.
    Distante dos processos, Ciro acomoda uma luta interna inevitável e fraticida na esquerda. Isto até Lula livrar-se das garras do juiz Sérgio Moro. Depois, lá para frente, o candidato petista reassume o protagonismo eleitoral. Tal como o planejado antigamente: Dilma estaria guardando a cadeira para Antônio Palocci. No entanto o ex-ministro e candidato in pectore não se recuperou a tempo. É a esperança do ex-governador do Ceará.