P.C.DE LESTER
Acabo de ver o jornal das 10, da Globo News.
Um espanto: seis comentaristas e uma clamorosa unanimidade. Uma simplificação espantosa.
Resumo: toda a crise que atinge a economia brasileira resulta dos erros da presidente Dilma.
E toda a crise política, que acaba por afastá-la do cargo, também é culpa exclusiva da inabilidade dela.
Nelson Rodrigues cunhou a frase: “Toda unanimidade é burra”.
Acho que, no caso, não é burrice, não. É manipulação mesmo!
Eles podiam disfarçar um pouco e colocar alguém para fazer um contraponto!
Categoria: Análise&Opinião
Nelson Rodrigues e a Globo
O dia seguinte
PINHEIRO DO VALE
Afastada Dilma Rousseff da presidência da República, levando consigo o PT para a oposição, volta ao primeiro plano uma agenda da reforma política, defendida, aliás, por todos os grandes partidos e temida pelas pequenas agremiações, tanto as ideológicas como as de aluguel.
A maior incógnita dessa possível evolução está na reorganização da esquerda, caso vingue a proposta aparentemente invencível de uma reforma partidária no curto prazo.
Nos meios políticos há o temor de que a reorganização venha pela via da Justiça Eleitoral, daqui a dias sob o comando do último ministro nomeado por Fernando Henrique Cardoso, o paulista Gilmar Mendes, que assume a presidência do TSE.
Neste caso, supõe-se que Mendes daria um canetaço proibindo as coligações partidárias nas eleições proporcionais, o que, por si só, precipitaria o desbloqueio desse tema no Congresso.
Sem o guarda-chuva das grandes legendas, desaparecem do cenário parlamentar quase todos os partidos que atualmente têm suas mini representações no Congresso.
Nas agremiações de direita a extinção das legendas de aluguel varre quase todos os micros partidos criados para obter tempo em televisão nos horários eleitorais das eleições e engordar as quotas de cada bloco no rateio do Fundo Partidário.
Na esquerda é um tumulto.
No segmento conservador, sem grandes definições ideológicas, essa reacomodação é tranquila.
Na esquerda essa cirurgia tráz graves consequências, pois tira de cena partidos ideologicamente definidos e com grande tradição nas lutas política do País, tanto em tempos normais como na clandestinidade em ditaduras.
O mais notório perdedor é o PCdoB, o Partido Comunista do Brasil, herdeiro direto dos fundadores da esquerda revolucionária no Brasil, há quase 100 anos, desde a década de 1920.
Outro perdedor importante é o filho pródigo do PT, o PSOL, duro opositor da presidente Dilma Rousseff, mas que teve uma participação decidida na campanha contrária ao golpe recém-aplicado pelo vice-presidente em exercício Michel Temer.
Fundado pela então deputada gaúcha pelo PT, Luciana Genro, para se opor ao presidencialismo de coalizão do presidente Lula, o PSOL evoluiu e se desenvolveu em vários pontos do Brasil, avançando para se tornar um partido nacional. Esta carreira pode ser interrompida.
Esta evolução do PSOL se concretizava depois do êxito de sua candidata nos debates televisivos nas últimas eleições presidenciais de 2014. O PSOL se colocava como alternativa à esquerda do PT, uma posição disputada por outras mini legendas que, no entanto, jamais conseguiram passar das esferas corporativas ou estudantis.
Esta barreira foi ultrapassada, mas com nova legislação das coligações provavelmente esse partido perderá sua representação parlamentar com bandeira própria.
Tudo seria facilmente resolvido se a esquerda se articulasse com facilidade, tal como o PMDB, por exemplo, que tem grande experiência na formação de frentões.
Entretanto, nesse segmento as composições são difíceis, como dizia Gaspar da Silveira Martins, autor da célebre frase “ideias não são metais que se fundem”.
A convivência entre esses aliados sempre foi complicada. É um desafio de engenharia política abrigar todos sob uma mesma legenda, principalmente sob a hegemonia do PT.
Porém, depois do fracasso do modelo de coalização, tido como o principal responsável pelaq ueda da presidente Dilma, pois é um monstrengo ingovernável, as restrições de acesso ao parlamento tendem a se impor, eliminando os pequenos partidos.
Os chefões da política, que foram os inventores do sistema de legendas de aluguel, pesando o resultado do custo e benefício, tendem a se conformar com o final dessa fórmula rotulada de esdrúxula.
Na esteira dessa primeira reforma podem levar a reboque e se acrescentar outros dispositivos, como um semiparlamentarismo com eleições antecipadas, com dissolução da Câmara no caso de desabarem as maiorias parlamentares, preservando a presidência da República, que seria mais cerimonial que executiva.
Também pode mudar o sistema proporcional, com a reserva de 50 por cento da Câmara para o voto distrital.
Neste caso haveria antecipação das eleições, como está sendo proposto. Se for assim, não é de se descartar uma interrupção do processo de impeachment em curso no Senado, convocando-se à presidente Dilma para presidir a transição, pois ela seria uma figura neutra nesse cenário.
Esta seria uma saída, pois a solução judicial, pelo TSE, com a proibição das coligações proporcionais, somente poderia entrar em vigor depois do pleito de 2018.
Até lá o País viveria nas incertezas de um presidencialismo de coalizão sem um presidente com força suficiente para implementá-lo.
Se Dilma não pode mexer os pauzinhos com 54 milhões de votos, que se dirá de Michel Temer, sem nenhum.Dilma cai atirando
Nesta quarta feira o Senado vota e na quinta sai o PT e entra o PMDB, levando de volta para a Esplanada dos Ministérios o mesmo séquito de partidos que compunham e ainda compõem a chamada “base aliada”.
Excluindo PT, PCdoB e PSOL, todos os antigos apoiadores sentam de novo nas suas cadeiras.
Os partidos da esquerda voltam às ruas, trabalhando os dois desafios eleitorais que têm pela`frente, as municipais de outubro e as nacionais de 2018. Este é o cenário geralmente aceito pelos analistas.
Aí está o golpe, que, embora as forças majoritárias neguem o vocábulo, deu-se dentro do Palácio do Planalto, como nos saudosos filmes de capa e espada tirados dos romances de Alexandre Dumas.
Portanto, muito simples: o PT perdeu o comando político e seu aliado PMDB passou-lhe uma rasteira. É assim que acontece.
Já a presidente Dilma Rousseff não aceitara a manobra quando rejeitou o banqueiro Henrique Meirelles como tutor, como era o desejo do líder de suas forças de sustentação, o ex- presidente Lula.
Ali ela assinou sua carta de alforria, mas selou seu destino como presidente, pelo menos por enquanto (ainda vai correr muita água por debaixo da ponte antes de tirarem definitivamente seu mando, se conseguirem).
Meirelles que naquela vez chegara triunfante ao Planalto Central, levando consigo uma queda na cotação do dólar e uma disparada ascendente nas cotações das bolsas, mas deu com a cara na porta, agora volta triunfante.
Nada como um dia depois do outro, repetiria o Conselheiro Acácio.
Os antigos aliados da presidente passam para os escaleres de salvamento, deixando aos fiéis precárias tábuas de salvação que, uma a uma, vão afundando.
Entretanto, Dilma não se entrega. Neste final ela não titubeou e foi para a rua clamar ao povo, mostrando o que acontecia.
Todos os dias ela apareceu no Jornal Nacional denunciando o golpe, mostrando um inimigo visível, o presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.
Poupou os desertores.
Entretanto, cada dia fica mais claro que os verdadeiros algozes estavam dentro de sua própria trincheira.
Agora não adianta mais esbravejar contra Michel Temer. A raposa paulista, mesmo desqualificada pelas ruas (sua popularidade é menor que a de Dilma, que amarga o fundo do poço), soube recompor as forças majoritárias que, no início do ano compunham a base parlamentar do governo.
A peça chega ao fim do primeiro ato. A surpresa que não estava no script é que Dilma não se conforma com o papel de velhinha roubada pelo trombadinha que a nova oposição pretendia colar à sua imagem.
Ela deveria recolher-se ao Palácio da Alvorada e ficar regando as plantas, abrindo a porta aos turistas e aparecer de vítima indefesa nos telejornais, beijando criancinhas. Dilma vai à luta.
Ela surpreende: esperava-se que se comportasse como uma mineira ensaboada, deixando que o governo Temer se afundasse em suas próprias contradições, e assim ganhando espaço para derrubar o impeachment no plenário, daqui a seis meses. Não será assim.
Dilma decidiu pegar o touro à unha. Fora de suas características de tecnocrata, como fez no primeiro mandato, vai para a rua. Deixa para traz a economista de falas confusas e sai como uma oradora feroz botando o dedo na cara dos golpistas.
No lugar da mineira maneirosa ela ressuscita a gaúcha de faca na bota e sai a campo para, sem medo, dar murros em facas de ponta.O recado do Cunha
P.C. de Lester
A mídia rapidamente descartou a hipótese de que Eduardo Cunha tenha sido o inspirador do tresloucado gesto de Waldir Maranhão, o presidente da Câmara em exercício, que anulou a sessão do impeachment e, horas depois, voltou atrás.
É conveniente, para os que fomentam o golpe, que tudo pareça mais uma trapalhada de um governo em frangalhos.
Por isso, sem apuração, apenas com base em algumas evidências e em declarações interessadas, concluiu-se que o presidente interino foi pura e simplesmente aliciado pelo governador Flávio Dino e pelo ministro José Eduardo Cardoso, da PGR.
Para que a “narrativa” ficasse convincente, quase se ignorou o encontro que Maranhão teve com Cunha, na sexta-feira, antes de sair de Brasilia. Dali, ele foi falar com Temer?. Qual o recado? Não vem ao caso.
Depois disso, pelo que se pode ver no noticiário, é que ele foi a São Luís. De lá retornou num avião da FAB com o governador Flávio Dino.
É verossímil descartar Cunha desse enredo?
Convém lembrar que Maranhão surpreendentemente votou contra o impeachment, mas ao justificar seu voto referiu-se a Cunha e proclamou sua fidelidade ao “sr. presidente”.
Cunha emitiu uma nota descartando qualquer envolvimento na manobra da anulação e desqualificando Maranhão. Talvez esta seja a única parte que não combinaram. Não precisava, Maranhão sempre foi da confiança de Cunha.
Não foi por outro caminho que ele chegou à vice-presidência da Câmara, apesar de seu gritante despreparo.
Waldir Maranhão não é uma raposa cheia de manhas e espertezas. Ele é mais um porco espinho, que sabe uma coisa essencial: ele sabe que o chefe é o Cunha.
E o chefe só queria mandar um recado aos que estão tentando abandoná-lo à própria sorte.
Um homem bomba
P.C. de Lester
A decisão do Supremo Tribunal a respeito de Eduardo Cunha ainda está sendo decifrada. Não dá para perceber até o momento toda motivações e todo o alcance de seu afastamento do centro da cena´.
Uma vez mais, com essa decisão, fica evidente que há um script por trás de todos esses movimentos que culminam com o impeachment da presidente Dilma.
Cunha se colocou como uma peça essencial num determinado momento, depois se tornou um incômodo, um constrangimento para os golpistas, uma bandeira para os que contestam a legalidade do impeachment.
Agora é removido num lance cheio de controvérsias. Sai dos holofotes, ninguém pode pode falar em impunidade, fica talvez mais confortável para manobrar.
É dificil acreditar que ele vai se simplesmente descartado e entregue às feras. Ele tem muita gente na mão, a começar pelo presidente Michel Temer.
Nesse ponto é forçoso concordar com Mino Carta: Eduardo Cunha tornou-se um homem bomba no meio da crise política brasileira.
A falência da Democracia
Andres Vince
A invasão do congresso iraquiano pela população foi apenas mais um sinal incontestável da total falência da Democracia como forma de governo. No passado, o Iraque foi um rico e moderadamente próspero país governado por um tirano. Hoje, é um país democrático onde a população tem que invadir o Congresso, localizado em uma área militarizada, cercada de altos e pesados muros, para exigir que seus representantes sejam, pelo menos, nomeados, mesmo que sem votos.
Esse é o modelo de democracia imposto ao mundo pelos Estados Unidos. Esse é o modelo que vem de um país, dito democrático, onde o cidadão precisa de uma calculadora científica pra conseguir saber quem foi eleito.
Partindo desse princípio, o quadro da democracia no mundo é bem desanimador. Saindo um pouco da caixa, podemos vislumbrar um continente africano praticamente tomado de sistemas de governo antidemocráticos. Séculos de colonialismo não são fáceis de superar. Os países que não caíram nas governanças monoteístas, ou estão na mão de ditadores, ou estão em guerra civil. Há raras e isoladas exceções. Depois do apartheid, não me atrevo a citar África do Sul como exemplo de democracia.
A Ásia tem boa parte do território ocupado pela China, com um sexto da população do planeta, vivendo sob o regime comunista, fato que a maioria das pessoas faz questão de esquecer, pra conseguir usar sem culpa o seu aparelho eletrônico. A Ásia tem uma cultura milenar, preservada a ferro e fogo, na luta contra os invasores colonizadores. Por lá, a democracia não é um dogma. A sobrevivência da sua cultura é, não importa o custo.
A Oceania, o mais “jovem” dos continentes, é um mundo à parte dentro do nosso planeta. Os cangurus e os koalas provam isso. Nunca deveria ter sido descoberta. Mas é, basicamente, um continente “que não fede nem cheira”, assim como o Canadá na América do Norte. Trocando em miúdos, a sua influência no cenário global é igual a zero. Um continente colônia. Um puxadinho da Europa.
E a Europa? Bom, a Europa é a maior ditadura neoliberal já implantada no planeta. O que dizer de um continente governado com mão de ferro por uma troica basicamente financeira, que diz o que seus membros podem ou não fazer com seu dinheiro, com sua produção, com seu governo? No meu tempo, isso era ditadura.
Fora da caixa ainda sobrou a América Central, agora disputada no palitinho entre a China e os Estados Unidos. Por ali, a ordem sempre foi mantida na base do apoio financeiro, seja para governos instituídos, seja para rebeldes contra governos não simpatizantes. Democracia pura.
Voltando para a caixinha, a América do Sul, onde a Democracia, esse bebê ainda de colo, vem sendo sufocada com um travesseiro. Por aqui, a festa pelo velório é grande.
Mal o continente se livrou das ditaduras militares, e o Paraguai foi vítima de um golpe institucional. Tudo dentro da regra claro.
Temos a Venezuela, provavelmente, a ditadura mais democrática do mundo, sufocada por embargos de todo tipo, causados pela eloquência inconsequente de seu falecido ditador eleito.
Também temos a Colômbia, um país comandado pelo narcotráfico. Para o governo democraticamente instituído, as Farcs não são um problema de Estado. As Farcs são concorrentes no negócio da droga. Quando os EUA interviu para acabar com a farra, o consumo de cocaína por lá quase que duplicou, devido ao crescimento da oferta. Sistema capitalista no seu melhor: aumento na oferta, queda no preço, aumento no consumo. Bingo!
A Bolívia tenta se reerguer, inutilmente, pois padece da mesma baixa industrialização que a Venezuela. A diferença é que a postura é mais discreta, pois, qualquer embargo e pode faltar até papel higiênico.
O Chile voltou a flertar com o liberalismo e já se arrependeu. Voltou correndo para os braços de governos mais à esquerda, que não pode fazer muito, frente ao alicerce ultraliberal no qual Pinochet deixou o país apoiado. Vai demorar um século para desconstruir esse paraíso do deus mercado.
A Argentina, por sua vez, voltou aos braços dos liberais. Vitória do capital financeiro, do financiamento privado de campanha. Não da população.
Não se pode esperar que seja uma democracia um sistema que elege representantes financiados com dinheiro de empresas. É absurdo, imoral e totalmente carente de ética.
Se existe algo de verdadeiro na lógica liberal é o fato de que não existe almoço grátis.
Será que existe alguém neste mundo, possuidor de alguma mínima faculdade mental, que possa conceber que uma empresa, que contrata consultoria pra cortar o custo do cafezinho, está dando milhões para campanha política por simpatia partidária? Sem contar que existem empresas que “doam” para os dois lados!
E o pobre do cidadão achando que é ele quem escolhe quem governa.
Sistema consagrado pelos romanos há mais de dois milênios atrás, esse é o atual quadro da nossa Democracia. Falida. No Brasil, ainda está em concordata, mas, com os credores se recusando a negociar.
E a vida, sempre irônica, deixa o seu recado: a Democracia faliu, por excesso de dinheiro.A marcha dos mentecaptos*
Benedito Tadeu César**
Nesta quarta, 4 de maio de 2016, na Câmara Municipal de Porto Alegre, seria reavaliada a Moção de Repúdio ao Reitor, ao Vice Reitor e a um professor da Faculdade de Direito da UFRGS por terem permitido e participado de debates sobre o momento político atual na universidade.
Na votação realizada na semana passada, a moção foi aprovada por 14 votos contra 13.
Os debates foram acalorados. O auditório da CMPA foi ocupado por manifestantes a favor e contra a moção e os ânimos se exaltaram, tanto no Plenário quanto no Auditório.
A ala da direita urrava impropérios contra o “comunismo” e pela “escola sem ideologia”. A da esquerda gritava por democracia e contra o fascismo.
Todos os vereadores que se manifestaram, a não ser o proponente da moção, declararam voto contrário a ela, em nome da liberdade de pensamento e de expressão. O proponente, em seu discurso, em dado momento, fez menção a mim, afirmando que o professor Benedito Tadeu César, militante do Partido dos Trabalhadores, se utiliza dos bens públicos para fazer pregação ideológica em sala de aula, utilizando equipamentos e emails da universidade para isso.
Ao final dos debates, a moção em discussão foi retirada, obedecendo a um acordo feito entre as partes em disputa. O vereador que censurava a UFRGS, seu reitor, vice e professores, retirou a moção em troca da retirada de moção anterior que censurava o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) pelo apoio que expressou à médica pediatra que se recusou a atender ao filho da suplente de vereadora do PT, Ariane Leitão, por motivos ideológicos.
Na saída do Auditório da CMPA, cruzei com o vereador proponente da Moção de Repúdio à UFRGS e que havia feito referência a mim. Tentei esclarecer, cordialmente, que ele estava mal informado a meu respeito.
Disse-lhe que, mesmo que eu quisesse me utilizar dos bens, do ambiente e dos alunos da UFRGS para fazer pregação ideológica, eu não poderia pelo simples fato de já ter me APOSENTADO desde o mês de julho de 2010.
Disse-lhe que a desinformação pode provocar erros graves e que ele deveria ser mais cuidadoso em suas afirmações. Ele respondeu que eu havia proposto à Associação dos Docentes da UFRGS uma nota contra a sua moção, ao que eu lhe respondi que ele continuava mal informado, pois, não obstante eu tenha sido diretor da ADUFRGS, me encontro há anos afastado da militância docente.
Exaltado, ele pôs-se a gritar, chamando-me de filho da puta!
Subi o tom, respondendo-lhe que lhe faltava educação e que ele me devia desculpas, tanto pela calúnia relativa ao uso indevido da posição de docente universitário, quanto pela ofensa que ele acabava de me fazer.
Afirmei que se ele não o fizesse eu o processaria por calúnia e injúria. Chamei-o de mal educado e de mentecapto* e, ao mesmo tempo, afirmei que ele sequer deveria saber o significado desta palavra.
Ânimos serenados, dirigi-me à saída do edifício, quando fui alcançado por um funcionário da CMPA, informando-me que três integrantes da Banda Loca, que compunham a maioria da platéia favorável à Moção de Repúdio aos Reitores e Professor da UFRGS, estavam planejando me bater na saída do prédio.
Caminhamos até a porta principal, no andar superior, e, ali, o funcionário chamou dois seguranças que se encarregaram de retirar os indivíduos que me esperavam, com cara de poucos amigos, na rampa de acesso.
Enquanto esperava para sair em segurança, algumas senhoras de idade avançada e moças aproximaram-se do vereador Adeli Sell (PT), celular em punho, chamando-o de “corno”, na tentativa de fazer com que ele revidasse.
Outros integrantes da Banda Loca surgiram, também com celulares em punho, e tentaram provocar tumulto, nos empurrando e insultando, com o objetivo de criar uma reação e filmá-la.
Antes disso, ainda durante os debates em Plenário, eles já haviam provocado um tumulto envolvendo uma aluna da UFRGS, que foi intimidada, e um professor universitário de outra universidade que saiu em sua defesa.
Naquele momento, ele filmaram a reação do professor e estão divulgando o vídeo editado na página da Banda Loca e do MBL.
A direita raivosa e obscurantista avança.
Na verdade, por trás do aparente recuo advindo da retirada da Moção de Repúdio à UFRGS, o que ocorreu foi uma vitória, ainda que relativa, desta direita babona.
Ao que tudo indica, a Moção contra a UFRGS foi uma reação contra a Moção de Repúdio ao Simers e seu apoio à discriminação ideológica a uma criança.
Atacaram a UFRGS para conseguir um acordo que sepulta um ato de barbárie contra a inteligência e a tolerância política.
O acordo feito, ainda que necessário para manter o equilíbrio na CMPA, favorece enormemente às forças do atraso e da incivilidade.
* mentecapto adjetivo substantivo masculino
1. que ou quem é mentalmente desordenado; que ou quem perdeu o juízo, o uso da razão; alienado, louco.
2. que ou quem é destituído de inteligência, de bom senso; tolo, néscio, idiota.
**Benedito Tadeu César é cientista políticoComo diria Honório Lemes…
PINHEIRO DO VALE
A quinta-feira amanheceu com fogo nas ventas.
A batalha do Planalto Central chega ao clímax. As duas frentes se inflamam e entram em nos grandes entreveros.
Na frente judicial a ofensiva é um ataque maciço: o procurador geral Rodrigo Janot despejou um balde de pedidos de indiciamentos para possíveis réus de foro privilegiado; no Supremo, o ministro Teori Zavascki pede a suspensão do mandato de deputado federal do presidente da Câmara Eduardo Cunha, que significará, no fim, sua retirada do tabuleiro .
No front politico, o processo do impeachment chega a seu ápice.
Batendo em retirada com pouca munição, assim pode-se entender a declaração do senador Lindemberg Farias, depois de ouvir a leitura do relator da Comissão Especial do Impeachment, Antônio Anastasia.
Isto quer dizer: a bancada de sustentação da presidente Dilma Rousseff no Senado jogou a toalha na Comissão e se prepara para a batalha do Plenário, que deve se iniciar dia 11 de maio, quando se votará o parecer o senador tucano de Minas Gerais.
Que nem Honório de Lemes, autor da frase da abertura, os dilmistas estão dispostos a não se entregar, pois acrescentariam a oração subordinada do Leão do Caverá: “mas peleando”.
Com isto, o senador Lindemberg inicia o recuo da tropa de choque para a segunda linha de defesa, no plenário do Senado.
Não há muitas expectativas de melhorar resultados no primeiro embate, pois já se dão como favas contadas que o processo será instaurado. Leia-se: Dilma vai ser afastada nesta primeira fase.
A aposta é que na votação final não se repita o resultado de 11 de maio. O desastre anunciado do governo de Michel Temer pode levar o núcleo indecisos, cerca de 10 senadores, a barrarem o impeachment.
No placar atual a bancada leal tem 21 senadores. Faltariam sete para melar o golpe.
Já na frente de batalha judiciária, tudo pode acontecer: a metralhadora giratória de Janot botou todo o mundo escondido na trincheira para escapar das balas. No Supremo, o primeiro passo de Teori indica que vem chumbo grosso, pois ele começou atirando diretamente no chefe do bando, o famigerado Cunha, alvo das balas de todos os lados.
Voltando ao velho Honório: “Não ‘tá morto quem peleia”.Porque Lula não foi ao Anhangabaú
PINHEIRO DO VALE
Em boca fechada não entra mosca. Foi atentando a esse ditado popular que o ex-presidente Lula tomou a decisão de não comparecer ao palanque oficial do Vale do Anhangabaú, em São Paulo, no 1o de Maio.
As grandes expressões das forças remanescentes da Base Aliada subiram e se postaram ao lado da presidente Dilma Rousseff no ato político contra o impeachment, mas que, também, poderia ser qualificado de semioficial, uma vez que ela anunciou ali algumas medidas de governo, como o reajuste do Bolsa Família e a correção do Imposto de Renda.
Falar manso depois de tudo que Lula andou dizendo em outros palanques pareceria incoerente ou sugeriria um recuo. Abrir a boca era correr um risco desnecessário.
O exemplo está à frente: o líder da Contag, Aristides dos Santos, dias antes fora chamado a depor na comissão especial do INCRA e FUNAI da Câmara dos Deputados.
Aristides fez uma daquelas bravatas comuns nos discursos de lideranças sem-terra, mas como foi dita no Palácio do Planalto, em frente à presidente da República, deu pretexto para a bancada da direita convocá-lo a depor.
Se fosse ao Anhangabaú, Lula iria falar num palanque que tinha a bordo a presidente. Por ter assinado atos de governo, o recinto poderia ser chamado de um puxado do Palácio. E aí as palavras pronunciadas naquele ambiente poderiam ganhar foros de ameaças concretas em ambiente oficial, oferecendo à oposição os requisitos para levar Lula a depor na Câmara. Seria muito arriscado.
Lula pautou-se pela análise de custo-benefício de sua presença naquele evento. Suas palavras não mais poderiam mudar nada. Na Comissão do Senado as cartas já estão abertas e o resultado dessa fase selado. O que ele falar daqui por diante já estará noutro contexto, será parte de sua campanha eleitoral.
Correr o risco de ter de depor na Câmara acusado de incitar violências seria uma exposição infantil. Os exemplos estão fresquinhos: convocações inúteis de depoentes protegidos por habeas corpus para se negarem a responder a perguntas muitas vezes capciosas. É só vexame inútil.
Melhor não se expor. Sua garganta anda mal, constituindo-se num álibi perfeito para justificar sua ausência. A campanha das eleições está na rua.
No domingo à noite a TV Brasil já botou no ar uma cartão pedindo antecipação das eleições presidenciais. É quase oficial.
Há um movimento forte entre essas correntes no sentido de que a presidente Dilma Rousseff encaminhe o quanto antes, enquanto ainda está na presidência, uma Proposta de Emenda Constitucional mudando as regras e convocando eleição imediata.
Há dúvidas se uma PEC pode mexer numa cláusula pétrea como o mandato presidencial. Mas seu encaminhamento, originado no Executivo, tem força suficiente para botar o assunto no espaço político-legislativo.
Por isto, Lula teria ponderado: se Aristides Santos teve de ouvir calado ofensas a título de inquirição, proferidas com tamanha violência, ele tendo de ouvir calado a tantas ofensas, diante das câmeras, assistido na tevê por sua família, amigos e correligionários, sem pode dizer palavras, era uma verdadeira cadeira do dragão.
Por outro lado, responder aquelas afirmações de deputados protegidos pela imunidade seria um verdadeiro tiro no peito. Melhor não ir ao comício.Eleições já ganha adeptos
RANDOLFE RODRIGUES
Para além das superficialidades e dos escândalos que tendem a apontar soluções simples para problemas complexos, a verdadeira crise que o Brasil experimenta é a de representação.
O Governo não governa, o Parlamento não legisla nem fiscaliza e o Povo não é chamado a decidir.
Do ponto de vista econômico, os anos de bonança animados pela alta das commodities deram lugar sucessivamente à carestia desenfreada, uma profunda recessão e à quebradeira de empresas.
Só no comércio varejista, no ano passado, quase 100 mil empreendimentos foram fechados. A consequência é o desemprego em massa.
Manter a popularidade em alta enquanto os preços aumentam, quando há escassez de postos de trabalho e ainda sobra mês depois que acaba o salário ,é uma missão impossível no Brasil e em qualquer lugar.
A opção neoliberal do segundo Governo Dilma a afastou de sua plataforma eleitoral, agravou os gargalos na infraestrutura do país, enfraquecendo a competividade e acentuando nosso atraso tecnológico, com graves reflexos na produtividade.
A economia parou.
Do ponto de vista institucional, vivemos o maior desencontro entre Legislativo e Executivo do qual se tem notícia.
O eclipse total do diálogo levou a presidente da República e o presidente da Câmara dos Deputados a atuarem não como chefes de poderes independentes, mas sim como comandantes de tropas inimigas.
Enquanto Dilma não demonstrava capacidade de reagrupar a base e de dialogar com o Congresso, o presidente da Câmara passou a atuar de modo deliberado para restringir a mobilidade do governo, usando para isso manobras regimentais sucessivas.
Asfixiado, o Palácio do Planalto capitulou, demonstrando que aquilo que parecia o ocaso de um governo era, de fato, o réquiem final do presidencialismo de coalizão.
O sumário julgamento do relatório que pede o impedimento da presidente a partir de argumentos frágeis foi apenas o corolário desse desencontro trágico.
Do ponto de vista político, os escândalos de corrupção envolvendo a quase totalidade dos partidos e lideranças, de situação e de oposição, descredenciaram o maniqueísmo e com ele uma saída a frio para a crise.
O impasse não tem mais como ser resolvido ignorando o desejo de participação da ampla maioria da população. O dique está prestes a ser rompido.
O que vem das ruas claramente é a rejeição de um modelo. Pesquisa recente do Instituto Datafolha mostrou que 61% desejariam afastar a presidente Dilma, enquanto 58% mandariam o vice-presidente Michel Temer, o sem voto, igualmente para casa.
A rejeição ao vice-presidente, inclusive, consegue a proeza de unir os movimentos favoráveis e contrários ao impeachment.
Dando conta da contaminação do ambiente político e das narrativas fragmentadas que estão sendo construídas, a revista britânica The Economist que circulou no dia 21 de abril, data de Tiradentes, o herói traído da Inconfidência, cunha a palavra “traição” como fio condutor das articulações de bastidores no Congresso Nacional.
Lembra a célebre frase de Leonel Brizola: “A política ama a traição e abomina os traidores”.
Reconhecendo a fragilidade do governo e a iminência do impedimento de Dilma, os editores da revista afiançam, com propriedade, que o vice Michel Temer “dificilmente será percebido como alguém com legitimidade para governar o país”.
O eco das ruas que atravessou o Oceano Atlântico também anima juristas e políticos de diferentes vertentes.
Em palestra na manhã de sexta-feira, 22 de abril, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa defendeu, de modo fundamentado, a realização de novas eleições presidenciais.
“Deem ao povo a oportunidade de decidir”, sugeriu o ex-ministro, que também se posicionou em relação ao impeachment, dizendo não enxergar “razões justas” para o afastamento da presidente.
“Organizem eleições, deixem que o povo resolva”, conclamou Barbosa.
Com a presidente e o vice sem apoio das ruas e o terceiro na ordem de sucessão prestes a experimentar o frio do cárcere, percebe-se claramente que um problema excepcional exige uma solução excepcional — e proporcional à gravidade do momento: eleições.
É preciso devolver à soberania popular a escolha dos novos mandatários da Nação.
Em resposta ao impasse político presente, um grupo suprapartidário de senadores apontou para o futuro e assinou a PEC 20/16, que prevê excepcionalmente uma eleição presidencial simultânea com as eleições municipais de outubro de 2016.
Ora, se a saída da crise de representação pela via do voto já ganhou as manchetes internacionais, o parecer de juristas renomados e a opinião majoritária das ruas, inclusive de lados opostos do espectro político, o que falta para que o eleitor seja chamado para dizer quem é que ele quer que dirija os destinos da Nação?
As eleições diretas estão para a democracia como a água benta está para o rito católico: purifica a matéria, espanta o mal e potencializa os efeitos positivos da oração.
Só os agentes das sombras podem temer a luz das urnas.- Randolfe Rodrigues, historiador, é senador pelo Amapá e líder da REDE no Senado.

Partindo desse princípio, o quadro da democracia no mundo é bem desanimador. Saindo um pouco da caixa, podemos vislumbrar um continente africano praticamente tomado de sistemas de governo antidemocráticos. Séculos de colonialismo não são fáceis de superar. Os países que não caíram nas governanças monoteístas, ou estão na mão de ditadores, ou estão em guerra civil. Há raras e isoladas exceções. Depois do apartheid, não me atrevo a citar África do Sul como exemplo de democracia.
A Ásia tem boa parte do território ocupado pela China, com um sexto da população do planeta, vivendo sob o regime comunista, fato que a maioria das pessoas faz questão de esquecer, pra conseguir usar sem culpa o seu aparelho eletrônico. A Ásia tem uma cultura milenar, preservada a ferro e fogo, na luta contra os invasores colonizadores. Por lá, a democracia não é um dogma. A sobrevivência da sua cultura é, não importa o custo.
A Oceania, o mais “jovem” dos continentes, é um mundo à parte dentro do nosso planeta. Os cangurus e os koalas provam isso. Nunca deveria ter sido descoberta. Mas é, basicamente, um continente “que não fede nem cheira”, assim como o Canadá na América do Norte. Trocando em miúdos, a sua influência no cenário global é igual a zero. Um continente colônia. Um puxadinho da Europa.
E a Europa? Bom, a Europa é a maior ditadura neoliberal já implantada no planeta. O que dizer de um continente governado com mão de ferro por uma troica basicamente financeira, que diz o que seus membros podem ou não fazer com seu dinheiro, com sua produção, com seu governo? No meu tempo, isso era ditadura.
Também temos a Colômbia, um país comandado pelo narcotráfico. Para o governo democraticamente instituído, as Farcs não são um problema de Estado. As Farcs são concorrentes no negócio da droga. Quando os EUA interviu para acabar com a farra, o consumo de cocaína por lá quase que duplicou, devido ao crescimento da oferta. Sistema capitalista no seu melhor: aumento na oferta, queda no preço, aumento no consumo. Bingo!