Categoria: Análise&Opinião

  • Senhores da morte expandem seus negócios pelo mundo

    MARIANO SENNA, de Berlim
    No meio do caos há também oportunidade”, Sun Tzu, A Arte da Guerra
    Nos tempos de crise é que ocorrem as grandes oportunidades. A ideia é velha, tem mais de dois mil anos. Vem da era em que Buda, Pitágoras e Confúcio iluminavam os caminhos humanos na terra.
    Pelas mãos de um estrategista militar chinês (Sun Tzu) virou um clássico da literatura universal, “A Arte da Guerra”, que apropriado pelos gurus do marketing moderno foi transformado em bíblia do deus mercado. E a indústria de armas confirma a validade dessa crença.
    Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI – http://www.sipri.org/) o gasto com armamentos aumentou 1% no mundo todo entre 2014 e 2015.
    Parece pouco, especialmente considerando que é o primeiro aumento global desde 2011. Mas olhando os números em detalhe, pode-se chegar a uma conclusão bem diferente. O volume total em 2015 calculado pelo SIPRI é de 1,7 trilhão de dólares. Valor dos gastos de governos com suas forças armadas.
    Não estão nesse cálculo as exportações e muito menos o contrabando, ou a venda ilegal de armamentos e munições.
    Mariano Ilustra_1A Alemanha, por exemplo, um dos principais fornecedores internacionais, dobrou suas exportações de armas no mesmo período. O total recorde chegou a 8 bilhões de dólares, correspondente a um quinto do gasto militar do país.
    Curiosamente, um dos principais contratos (U$ 1,3 bilhão) foi assinado com a Grã-Bretanha ainda dentro dos acordos de cooperação comercial da União Européia.
    Mais controverso ainda é o negócio com o principal cliente, o Catar. Num contrato de 1,8 bilhão foram vendidos tanques, carros blindados, armamento pesado e munição. O país é conhecido na Alemanha como um dos principais financiadores do chamado “Estado Islâmico”.
    A bronca é velha. Há anos o parlamento alemão se debate a cada novo pedido para exportação feito pelas fabricantes do país. A legislação alemã é considerada a mais rígida do mundo na questão. Para cada encomenda é necessária a aprovação do Bundestag, que raramente nega um pedido. Tudo em nome da prosperidade econômica interna.
    Quem se mete na questão acaba defenestrado, e por meios oficiais mesmo. O tal lobby da indústria de armas tem tentáculos para muito além do legislativo.
    Fora a doação para campanhas eleitorais, empresas como a Heckler & Koch (HK)  mantém uma equipe de advogados e contatos no judiciário que inibem qualquer um que ouse meter-se em seus negócios.
    Foi o que aconteceu com o jornalista investigativo Jürgen Grässlin e seus colaboradores Daniel Harrich e Danuta Zandberg-Harrich. Em Setembro 2015 eles publicaram o livro “Rede da Morte” pela editora Heyne.
    A obra revela como a HK conseguiu a licença para vender milhares de rifles de assalto G36 para compradores suspeitos em regiões de conflito no México.
    A documentação envolve funcionários de pelo menos três ministérios (Economia, Relações Exteriores e Defesa), fora executivos da empresa e servidores de autarquias aduaneiras na Alemanha. Laureados com o “Grimme-Preis” pelos filmes que produziram com base no livro para a televisão alemã este ano, os autores acabaram processados pela promotoria pública de Stuttgart, capital do Estado de Baden-Württenberg, sede da empresa.
    A acusação é a de ter revelado segredos de negociações comerciais protegidas pela lei. “É uma prova de que a indústria de armas hoje está mais poderosa do que nunca”, avalia Grässlin.
    Segundo ele, o poder econômico dessas empresas torna completamente inútil o aparato de controle do Estado. O jornalista lembra do caso de exportações ilegais para a Colômbia, protagonizadas pela Sig Sauer e a Carl Walther em 2010.
    Até hoje ninguém foi responsabilizado, reforçando a tradição germânica de encontrar brechas na interpretação das leis para justificar delitos. “Não é surpresa que armas de útlima geração acabem nas mãos de paramilitares, milicianos e terroristas”, conclui Jürgen Grässlin.
     

  • Recuerdos implacáveis

    GERALDO HASSE
    As reuniões eram nas segundas-feiras à noite na Rua Augusta, 555, sobreloja, endereço do escritório paulista da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
    Íamos por adesão ideológica, simpatia política e interesse jornalístico. Tínhamos consciência de que ali estava desabrochando algo novo.
    Tínhamos participado da greve dos jornalistas de maio de 1979, que redundou em 200 demissões na imprensa paulistana.
    Na Abril, progressista, ninguém foi mandado embora, nem mesmo um dos expoentes da greve, Rui Falcão, editor-chefe da Exame. Ex-preso político, ele era uma das referências dos jornalistas situados à esquerda do espectro político.
    Era nítido que o governo autoritário não tinha futuro. Os sindicatos agitavam as massas, a imprensa nanica levantava bandeiras contra a opressão.
    No ABC paulista, reduto da indústria automobilística, o ferramenteiro Lula empolgava a classe metalúrgica com reivindicações salariais e exigências de novos direitos trabalhistas.
    E havia outros dirigentes sindicais confiáveis. Jair Meneguelli. AudálioDantas. Luiz Gushikem e Olivio Dutra. Religiosos como Frei Betto. Professores como Laurindo Leal Filho e Fernando Henrique Cardoso, que nem haviam saído do Brasil, como tantos outros.
    Com a anistia de agosto de 1979, os exilados estavam voltando. Toda semana descia um figurão no Galeão. Miguel Arraes. Darci Ribeiro. Fernando Gabeira. Apenas Leonel Brizola fez questão de chegar por São Borja, “costeando o alambrado”, para não acordar os fantasmas de 1961, 64, 68.
    Alguns desses recém-chegados, sem emprego e sem saber direito a que categoria profissional pertenciam depois de uma década fora do país, pousavam na Rua Augusta 555, que se tornou um point de agregação de personas em busca de uma reconciliação com seu passado e seu futuro.
    Éramos em média uns 40/50 por segunda-feira. Quando os frequentadores habituais eram avisados da presença de alguma figura extraordinária, vinda das catacumbas da luta política, das prisões ou do exterior, o quorum da sessão aumentava.
    A maioria era de gente da imprensa. Formávamos o núcleo de jornalistas pró-fundação do Partido dos Trabalhadores, aberto naturalmente aos que não pertenciam a outro núcleo profissional ou de bairro.
    Além do discreto Rui Falcão, que perderia para Emir Nogueira a eleição para presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, lembro da presença assídua de José Dirceu, da aparição eventual de Bete Mendes e de uma ou outra vez em que baixou na ABI o ex-líder estudantil Luiz Travassos, cuja base original era o Rio de Janeiro.
    Também andou por ali José Ibrahim, que havia liderado uma greve em Osasco nos anos 60. Líderes estudantis ou sindicais que estiveram na cadeia ou voltaram do exílio, eles falavam sobre o que disseram ou escreveram Lenin, Marx, Guevara e outros ícones da esquerda.
    Era uma discussão para iniciados. Eles acreditavam que se poderia aplicar ao Brasil de 1980 algumas lições da Rússia de 1911 ou 1917. A maioria dos presentes ficava esperando até que o debate refluísse para a situação brasileira, muito confusa e heterogênea, a presidência da República nas mãos de João Figueredo, um general sem traquejo político que aceitou o posto de má vontade, por apego à disciplina.
    Ele havia liberado a imprensa, a música e o teatro da censura. Era um avanço, mas nos bastidores da ditadura decadente agiam grupos de extrema-direita que lutavam para não largar as tetas do Poder.
    Baixando a voz, também se falava da Repressão, na qual pontificavam figuras como o delegado Sergio Fleury e militares como o general Milton Caveirinha, ambos sinistros e temidos.
    Todo mundo desconfiava que nas reuniões da Augusta havia agentes a serviço do regime, como havia informantes nas redações, nos sindicatos, nas gravadoras e nos estúdios de TV. E assim rolaram várias semanas até que o partido foi fundado em 10 de fevereiro de 1980 e cada um tomou seu rumo.
    A orientação era para inscrever-se no diretório do seu bairro, mas deixei o tempo correr porque estava disposto a cair fora de São Paulo. Como jornalista, enfim, não me senti à vontade diante da hipótese de filiar-me a um partido.
    Militância era uma palavra complicada. Poderia ser um petista sem vínculo, como um torcedor sem carteirinha de sócio do clube. Mas desde a primeira eleição (1982) votei nos candidatos do PT. Somente em 89 balancei entre Brizola e Lula.
    Ou, seja, passei a metade da vida enchendo a bola desse partido trabalhista marginal e discriminado por sua origem híbrida, fruto de uma aliança de sindicalistas, religiosos, intelectuais, exilados e trabalhadores em geral.
    Passado tanto tempo, tento compreender o que aconteceu. Como explicar que tantos anos depois de sua fundação o partido esteja se esfacelando sob a presidência de Rui Falcão, o jornalista-grevista-referência de 1979? Por que o diabólico Lula está sendo alvo de uma implacável perseguição que tenta enquadrá-lo sob diversas acusações?
    Por que o satânico Dr. Dirceu mofa na cadeia, tricondenado e biinvestigado? Como é que Dilma Rousseff não está lá onde devia estar por escolha de 54 milhões de brasileiros? Algo importante se perdeu no caminho de 1980 até aqui. Esse algo precisa ser resgatado.

  • Prego na sola do sapato

    PINHEIRO DO VALE
    A decisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de recorrer as Nações Unidas pedindo proteção é uma providência de longo alcance, com força legal para barrar, inclusive, alguma tentativa de constrangimento caso ele seja admoestado pela polícia internacional, a Interpol, em meio a alguma viagem ao Exterior.
    É um perigo real. Lula é uma figura internacional, seguidamente convidado a eventos fora do País. Não é descabido admitir que algum delegado de polícia afoito e com ganas de notoriedade acione a Interpol quando ele estiver lá fora, respaldando-se na denúncia aceita pelo juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília. Ainda não é o juiz Sérgio Moro a pegar no pé do líder petista.
    Com cobertura da ONU Lula pode barrar um pedido de extradição. Ainda que fosse o caso, ele poderia se qualificar como perseguido político e se asilar em algum país amigo.
    Também a presidente afastada Dilma Rousseff estaria na mira. Segundo se comenta em Brasília, espera-se apenas que ela perca seu mandato para se abrir processos com denúncias de irregularidades em campanhas passadas.
    Neste momento, Dilma está ainda inimputável por atos anteriores à sua última posse em janeiro de 2015. Revogada essa imunidade, ela teria suas contas eleitorais vasculhadas, sujeita às penalidades e responsabilizações.
    Muita gente sensata diz não acreditar que se chegue a esse ponto.
    Não haveria interesse de jogar mais gasolina na fogueira. Há razões para esses raciocínios. O acordo dos grandes partidos para a eleição do novo presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, do DEM, seria uma demonstração de racionalidade política.
    As forças responsáveis, esquerda e direita, uniram forças para explodir o Centrão, que se fortalecia e configurava uma força deletéria que ameaçava as bases da democracia parlamentar.
    Rodrigo Maia seria uma volta aos trilhos, não obstante tivesse sido uma locomotiva do trem golpista.
    Esse acórdão revelou-se uma soma de resultado positivo a todas as forças já no seu primeiro dia. Antes mesmo de qualquer outro ato, Maia impugnou um pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as finanças da União Nacional de Estudantes (UNE).
    Com isto o novo presidente da Câmara cortou o pavio de uma bomba que a direita hidrófoba lançara no meio do plenário do Congresso. Maia fez valer seus poderes, desarmando essa casca de banana, demonstrando-se um verdadeiro contraponto à figura politicamente esquizofrênica de Eduardo Cunha, com suas pautas bombas.
    As forças políticas responsáveis perceberam que a CPI da UNE seria cutucar com vara curta uma casa de marimbondos. Irresponsavelmente, pretendia-se insuflar milhares de militantes de movimentos sociais em nome de um moralismo canhestro.
    O argumento da denúncia era que estariam causando problemas a irrequietos jovens esquerdistas, seus adversários ideológicos. Esse propósito,no entanto, não seria limitar-se a UNE, mas abrir a tampa de uma caixa e ir puxando os fios de uma fieira interminável.
    São milhares (mais de20 mil, segundo um último número vazado há quatro anos por funcionários indiscretos do Ministério do Planejamento) de minúsculas entidades que recebem algum tipo de subvenção não têm condições administrativas para atendera todas as minúcias das exigências legais, como prestações de contas detalhadas e licitações demoradas e complexas.
    Com a desculpa de atingir no pé uma pretensa máquina eleitoral, pretendia-se chamar aos tribunais milhares de gestores dessas organizações conveniadas, a esmagadora maioria beneficiadas com pequenas quantias. A UNE é uma entidade que repassa alguns recursos de convênios específicos. Por aí se iria desfiando a teia.
    Essa proposta foi enterrada. O ex-presidente Lula foi o grande articulador que viabilizou a quebra do Centrão, uma atitude até agora pouco compreendida por segmentos intransigentes da esquerda.
    Por estas e por outras que as forças adversárias querem bani-lo do cenário. Lula é um prego na sola do sapato da direita.  Certamente por isto que precisa do resguardo das Nações Unidas, pois está travando forças poderosas e obscuras.

  • Temerildo nada de braçada num mar de mentiras e enganação

    ANDRES VINCE
    Dizem por aí que o humor do Brasil melhorou. Já não há tanto pessimismo no ar e novos horizontes iluminam os olhos desempregados dos brasileiros.
    A crise virou coisa do passado e a ordem geral é apoiar o novo governo. Incondicionalmente, mentindo se for preciso.
    No domingo de 17 de julho o dominical Fantástico não teve pudor de veicular uma mentira em formato de matéria, informando que a reforma da Previdência é necessária para que o trabalhador de hoje não fique sem aposentadoria amanhã.
    A imprensa em geral usa o déficit da Previdência pra provar essa lógica. Só não explicam (ou explicam mal) que no bolo do caixa da Previdência estão incluídos pagamentos de muitos outros benefícios tais como o seguro desemprego, seguro de acidentes, seguro maternidade e muitos outros. A Previdência também paga dezenas de outros auxílios para classe de baixíssima renda, como o Bolsa Família, por exemplo. Ou seja, são benefícios que não tem arrecadação, mas, a Previdência tem que pagar por força da Constituição.
    Historicamente o governo federal cobre esse rombo por uma mera questão contábil. Usam o argumento do déficit para iludir o trabalhador, que, é claro, não vai se furtar de apoiar uma medida que vai “salvar” sua aposentadoria. É a famosa vaselina, ou simplesmente K.Y. para os mais modernos.
    Outro caso não menos assustador: a manipulação de dados de uma pesquisa de opinião pela Folha de SP. Farsa já denunciada por Glenn Greenwald no The Intercept e definitivamente desmascarada pelo site Tijolaço. E nada vai acontecer porque não existe nenhum órgão pra punir esse tipo de safadeza.
    Não contente em ter a manipulação desmascarada publicamente, a Folha não admitiu o erro e alegou não ter achado relevante que 62% dos entrevistados preferem novas eleições. Nem o ombudsman da empresa engoliu essa. Manipulação de grosso calibre, sem margem de erro.
    Mais mentira? Temos. Logo cedo no café da manhã.
    Recentemente, Miriam Leitão repassou um boato no Bom Dia Brasil como se fosse informação comprovada. Disse que o governo interino havia detectado 45 mil pescadores recebendo o seguro-defeso (pago quando o pescador fica proibido de pescar) em Brasília, onde só há um único lago! Que escândalo! Mais uma prova cabal da corrupção endêmica que assola um único partido do nosso país.
    Ilustra-Vince2709_2Nada mais foi dito, nada mais foi comentado. Ainda bem que existe o doutor Google. Ele nos informa que em novembro de 2015 o governo federal suspendeu o pagamento do seguro para efeito de recadastramento, pois, havia sido detectada incongruência entre o número de pescadores levantado pelo IBGE e número de seguros que estavam sendo pagos. Porém, a portaria foi derrubada por decreto legislativo. Em janeiro de 2016, o STF entra em campo pelas mãos do ministro Ricardo Lewandowsky e derruba o decreto legislativo, suspendendo novamente o pagamento. Em março, o ministro Luís Roberto Barroso restabeleceu o decreto legislativo, restabelecendo o pagamento. Notícias recentes informam que muitos pescadores até hoje não conseguiram receber o seguro em função de não terem sido recadastrados. Resumindo: a situação está uma zona. Nada que possa ser tratado como nota de rodapé ou em conversa de chá das quatro. Nada contra o chá.
    Duas semanas atrás a Polícia Federal entrou em ação contra as fraudes no seguro-defenso. No Amapá. Até semana passada o Diário Oficial não registrava nenhuma suspensão no pagamento do seguro, ou seja, os 45 mil pescadores de Brasília seguem tranquilos em casa tentando pescar algo que preste na televisão durante a piracema. Será? Mais uma chacoalhada no dr. Google e ele confessa a farsa. Em outubro de 2015, nota de igual teor (textualmente) foi publicada na coluna Ricardo Noblat, com uma sintética diferença: a nota falava em escandalosos sete mil pescadores. Deve ter sido a inflação galopante que transformou esses sete mil em 45 mil em menos de um ano. Até prova em contrário foi um boato plantado a mando, com certeza.
    O Temerildo não tem nem o pudor de poupar o próprio filho e usa o menino, pela segunda vez, para tentar alavancar a sua inexistente popularidade. Um governo inerte, que, só por não fazer nada, já acalma o temido mercado. E o otimismo vem brotando do solo estéril e arrasado. Um verdadeiro milagre!
    Depois de servir como máquina de moer reputações, agora a mídia coloca a mentira e a desinformação a favor dos golpistas. Já temos até terroristas. Como nos velhos tempos da ditadura.
     

  • Cenas de um linchamento que quase aconteceu

    P.C. DE LESTER
    Cerca de 60 clientes que faziam suas compras no Zaffari da rua Fernando Machado, num dos pontos mais movimentados de Porto Alegre, viveram uma hora de tensão e medo nesta quinta-feira, 14.
    Eles assistiram ao que seria um linchamento, não fossem os dois seguranças do supermercado, que evitaram o crime.
    Foi por volta de 18 horas, num dos horários de bom movimento desta loja que atende a uma populosa região do centro.
    Um homem, com falha de dois dentes na frente, entrou correndo e gritando no supermercado. Teria uns 20 anos, vestia um moleton verde.
    Atrás dele entrou um grupo de uns 20 jovens armados de guarda-chuvas, tijolos, canos… o teriam massacrado não fosse o segurança que estava na entrada.
    O segurança levou socos e pontapés, mas impediu o linchamento até que chegassem outros funcionários. Mesmo assim, a violência parecia incontrolável, e mesmo depois, já passados quarenta minutos ou mais, quando apareceu o primeiro brigadiano.
    Acossado entre dois caixas, protegido pelos seguranças, mas mesmo assim recebendo golpes de guarda-chuva, socos, pontapés, o fugitivo não se intimidava: “Tu já era meu, te marquei”, dizia para um rapagão que lhe aplicou um soco no rosto.
    A situação só voltou ao controle quase uma hora depois, quando chegou uma viatura com três brigadianos. Mesmo assim, não foi fácil dissolver a turba que queria linchar o perseguido. “Tem que matar, se ele vai preso em dez minutos tá na  rua”, gritava um homem que se dizia da Polícia do Exército. Já dentro da viatura, o preso trocava insultos com seus agressores. “Tu vai morrer. Tu vai ser mulherzinha lá no Central”, gritavam uns rapazes através dos vidros fechados da viatura.
    Os relatos que ficaram eram desencontrados. O perseguido teria agarrado uma jovem na altura da Reitoria, no parque da Redenção. Segundo uns, teria roubado sua mochila; segundo outros, teria abusado dela. Uma frase que os pretensos linchadores gritavam para as pessoas que queriam impedir o massacre, era: “Queria ver se fosse sua filha”.
    Um senhor no caixa, depois que todos já haviam saído, comentou: “A violência está aí, só falta um estopim”.
    O caso foi para a 1a Delegacia.
     

  • Lula guarnece a última fronteira

    Pinheiro do Vale
    O ex-presidente Lula assumiu o comando do último reduto da resistência da presidente afastada Dilma Rousseff na batalha do impeachment.
    Ele se instalou numa suíte do hotel Royal Tulip Brasília Alvorada, o cinco estrelas mais próximo do Palácio da Alvorada e de frente para o Palácio do Jaburu, onde vive o presidente interino Michel Temer.
    O Royal Tulip fica à esquerda de quem vai pela via EPP (a avenida presidencial) chegando à península presidencial, com o Alvorada ao centro e o Jaburu à direta.
    Esse hotel é uma reconstrução recente sobre um antigo esqueleto arquitetônico dos tempos da fundação da cidade, em 1956, abandonado porque o grupo empreendedor faliu e seus restos ficaram na laje por mais de 50 anos, até ser recuperado e concluído.
    Seria o Brasília Alvorada Hotel, hoje integrante da rede internacional Royal Tulip. Projeto de Oscar Niemayer, idealizado por Juscelino Kubistchek para hospedar dignatários que viessem ao Brasil, plantado num dos locais mais nobres e bonitos da sua capital.
    Bem pensado, fica no meio de uma grande área verde, protegido de olhares indiscretos e  completamente seguro.
    No governo Lula o espólio do hotel Brasília desembaraçou-se e assumiu seu lugar na paisagem da cidade. Agora está ali para o que foi planejado: um lugar para adequado a reuniões políticas.
    Na península, os três presidentes podem se ver das janelas de seus quartos.
    Com toda a discrição, longe de telefones celulares e fora do alcance de câmeras de tevê ou teleobjetivas de fotógrafos abelhudos, Lula pode receber suas visitas. Qualquer coisa, poderia falar com Dilma pelo muro ou dar uma chegadinha à casa do Temer sem ser incomodado.
    Sem gravata, a bordo de um taxi ou de carro comum, um senador do baixo clero pode entrar e sair sem ser reconhecido.
    Seu objetivo é virar entre 10 e oito votos no plenário do Senado. Segundo as pesquisas Dilma teria 18 votos seguros, embora sua base oficial indique 22.
    O quórum para derrubar o impeachment é de 28 votos. Falta pouco. O golpe contabiliza 61 votos.
    O cardápio das conversas já é conhecido. Lula diz que vai assumir o governo como virtual primeiro ministro, sem perigo de desmandos ou descumprimento de acordos. Dilma como rainha da Inglaterra daria a condição legal para a re-estabilização do novo governo petista.
    Como executor bem mais do que fiador do novo governo, Lula conduziria o País até as eleições dos 2018, com a garantia de que o PT apoiaria um candidato de outro partido.
    Esta possibilidade pode abalar a frágil aliança do golpe, rachando o PMDB e trazendo de volta partidos da antiga Base Aliada.
    Um sinal de que há mais objetos no ar do que aviões de carreira, como dizia o gaúcho Barão de Itararé para falar dos mistérios da política, é que Lula e Temer estão agindo coordenadamente para controlar a eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados.
    Eduardo Cunha está ferido, mas não morreu. Segundo estimativas ele ainda controla 200 votos no plenário da Câmara.
    Os grandes caciques, Lula e Temer, não podem deixar que o baixo clero retome o comando daquela Casa. O grande pilar dessa negociação é que nenhum dos dois é candidato. Este é o acordo de paz para trazer de volta aos chefões paulistas o controle da política.
    Sem isto vai tudo por águas baixo, tanto o golpe quanto a recondução da presidente afastada. Uma das manobras é dar mais tempo para o processo de Eduardo Cunha tramitar, deixando que sua base vá se desidratando.
    O mais provável é que sua cassação somente ocorra nos mesmos dias da votação do impeachment no plenário do Senado.
    Não é improvável que Dilma e Cunha estejam na berlinda, no mesmo dia, um de cada lado das  torres gêmeas do Congresso Nacional.

  • O avanço do atraso e a possibilidade da resistência democrática

    Benedito Tadeu César – Cientista Político
    Vivemos um momento de refluxo das forças democráticas e de esquerda em todo o mundo e também no Brasil. É hora de resistência e de acúmulo de forças para poder voltar a avançar.
    No plano internacional, o panorama é de avanço da direita. Na Argentina, a centro-esquerda foi derrotada com a vitória eleitoral de Macri. Na Bolívia, Evo Morales perdeu o plebiscito e não conseguiu autorização popular para se candidatar a um novo mandato presidencial. Na Venezuela, a desestabilização do governo Maduro é cada dia mais intensa. No Chile, Bachelet enfrenta problemas sérios e acusações de corrupção. No Peru, a esquerda sequer conseguiu chegar ao segundo turno das eleições presidenciais.
    Nos EUA, Donald Trump, representando a ala mais à direita do Partido Republicano, será o candidato daquele partido à Presidência da República. Na Espanha, o Partido Popular (conservador) foi o mais votado nas últimas eleições, contrariando as expectativas de vitória da coligação Unidos Podemos. No Reino Unido, o Brexit venceu o plebiscito determinando que o país saia da Comunidade Europeia. Na Áustria, o Partido da Liberdade, de extrema direita, anti-imigração e eurocêntrico, conseguiu anular as eleições, que serão repetidas em outubro.
    No plano nacional, o panorama é semelhante, senão pior do que o internacional. O golpe jurídico-midiático-parlamentar tem tudo para se “naturalizar”, com a destituição definitiva de Dilma pelo Senado no mês de agosto e a aceitação popular do desfecho autoritário. Dilma não conseguiu virar o jogo. O PT parece estar conformado com a derrota que sofreu, preferindo investir forças nas eleições municipais de outubro próximo.
    Nem Dilma nem o PT apresentaram uma proposta capaz de sensibilizar as grandes massas e os setores mais avançados da sociedade, os movimentos sociais, partidos de esquerda e setores liberal democráticos. Não conseguiram, por outro lado, negociar com os setores menos retrógrados do empresariado e dos senadores a ponto de reverter os votos necessários para barrar o impeachment.
    Impasse e paralisia
    No plano político mais geral, há um impasse que leva à paralisação institucional, política e econômica do país. É um impasse tão profundo, que os principais agentes políticos encontram-se imobilizados. Há um aparente empate estabelecido entre os campos políticos em conflito. Nem Dilma e nem Temer têm condições de governar. Nem Dilma e nem Temer têm propostas capazes de aglutinar forças e ganhar a opinião pública e os setores de poder (empresários e movimentos sociais).
    Dilma não vira o jogo e Temer não se estabiliza no governo. Cunha, mesmo afastado, continua controlando o governo interino e acuando Temer. PMDB, PSDB, PT e a imensa maioria dos políticos estão desmoralizados e sem legitimidade frente à opinião pública. Apoiadores sinceros e/ou ingênuos do golpe estão silenciosos, decepcionados e até envergonhados, e a grande mídia desmoralizada para uma boa parte da população e exposta ao ridículo pela imprensa internacional.
    Os novos movimentos sociais de esquerda e de centro-esquerda tomam as ruas, deixadas vazias pelos que pretendiam tirar Dilma, mas veem lentamente suas forças se esvaírem sem conseguir alterar efetivamente o jogo político e abortar o impeachment.
    Aécio e Marina se recolheram, tão logo as denúncias de corrupção que os atingiam foram finalmente tornadas públicas pela grande mídia. Aécio perde prestígio e talvez não se recupere, pois sua presença não interessa mais nem mesmo aos tucanos. Marina se preserva para reaparecer no momento oportuno como uma possível alternativa de governo, mas, por enquanto, a cada vez que se manifesta mais explicita o interesse principal de promoção de sua candidatura.
    Não obstante a paralisia institucional e das principais lideranças políticas do país, caminham céleres as iniciativas neoliberais, antipopulares e antinacionais, promovendo o desmonte do arremedo de Estado de bem-estar social montado durante os governos Lula e Dilma.
    Considerando-se os agentes políticos e as instituições da República, só quem avança são os procuradores, a PF e a força tarefa da lava-jato, Moro e o STF, fazendo com que o jogo penda em favor dos golpistas na medida em que prendem apenas petistas e aliados e não os peessedebistas e peemedebistas que apoiam o governo Temer e que também são acusados de corrupção.
    Imbuídos de uma missão salvacionista, eles são os novos atores que dominam a cena, sem que se possa afirmar efetivamente quais são os seus objetivos reais. Sua “missão” seria apenas “limpar o país”, livrá-lo da corrupção e iniciar a construção de uma novíssima República? Que República seria esta e quem a construiria? De onde advém a força que demonstram? Terão suporte internacional? Por que se dedicam a desmontar as únicas empresas nacionais em condições de competir no mercado internacional e desenvolver tecnologia de ponta – a Petrobras e as grandes empreiteiras? Para onde conduzem o país e a quem o entregarão?
    Uma disputa secular
    O que sabemos, sem dúvidas, é que há uma disputa instalada no mundo e também no Brasil desde, pelo menos, o século XIX, sobre como desenvolver o sistema capitalista na economia e na política. De um lado, as propostas globalizantes, lideradas pelo grande capital internacionalizado e, de outro, os projetos nacionais. De um lado, a crença no livre mercado e na sua autorregulação e, de outro, a defesa da ação do Estado como indutor do crescimento da economia nacional, protegendo as indústrias nascentes, e realizando investimentos estratégicos para criar competitividade e conquistar mercados.
    Ao longo do século XX, em meio a conflitos e guerras, cresceram as tentativas de projetos nacionais de desenvolvimento com forte presença do Estado e com inclusão social, como por exemplo no Japão e na Alemanha, e o desenvolvimento dos chamados Estados de Bem Estar Social nos países desenvolvidos, no pós-segunda guerra mundial.
    Com a crise do bloco socialista e das alternativas nacionais de desenvolvimento nos países do terceiro mundo nas duas últimas décadas do século XX, avançaram novamente as posições ultraliberais de defesa do livre mercado internacional, a globalização e a financeirização da economia sem se submeterem a qualquer controle público.
    Nesse processo, num movimento de defesa de mercados regionais, criaram-se os blocos econômicos ao mesmo tempo em que cresceu o individualismo e a xenofobia e entraram em crise os partidos políticos tradicionais, firmados na antiga dicotomia capital-trabalho e favoráveis a projetos nacionais de desenvolvimento, de um lado, ou de integração ao capital internacional, de outro.
    No Brasil, esta disputa de caminhos de desenvolvimento do capitalismo se manifestou já a partir do final do Império, com a abolição da escravatura e a proclamação da República sem povo – os bestializados, na definição de José Murilo de Carvalho. As revoltas dos tenentes, na década de 1920, a Revolução de 1930, os conflitos e as instabilidades políticas de 1945, 1954, 1956/9, 1961 e 1964, bem como o processo de instabilidade política em curso, são expressões desta disputa que se arrasta no tempo.
    De um lado, a ascensão de Getúlio Vargas e a criação do Estado Nacional Moderno no Brasil marcaram a vitória parcial e temporária da posição daqueles que, nos anos de 1960, se tornaram conhecidos como “nacional-desenvolvimentistas”. Neste grupo, além de Vargas, incluem-se ainda, com diferentes graus de defesa do projeto nacionalista e também do sistema político democrático, Juscelino Kubitschek, João Goulart, (Castelo Branco, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo – durante a ditadura civil militar de 1964/1985), Itamar Franco, Lula da Silva e Dilma Rousseff.
    De outro lado, a destituição de Vargas e a eleição de Dutra, em 1945, e o suicídio de Vargas, em 1954, marcaram momentos de vitórias parciais e temporárias dos favoráveis à associação plena com o capital estrangeiro que, nos anos de 1970/80, ficaram conhecidos como adeptos da teoria do “desenvolvimento associado e dependente”, formulada inicialmente e de modo crítico por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto em 1965/67. Fazem parte deste grupo, Eurico Gaspar Dutra, Jânio Quadros, (Costa e Silva – durante a ditadura), José Sarney, Collor de Mello, FHC e Michel Temer.
    A farsa do impeachment sem base jurídica é a nova face da mesma e contínua disputa
    Durante os anos Lula/Dilma, auxiliados por uma conjuntura internacional de crise da economia norte-americana e europeia, mas de favorecimento da economia nacional em virtude da valorização das commodities brasileiras (minério e soja, principalmente), impulsionadas pelo crescimento acelerado da China, foi possível que o governo federal, com forte compromisso popular, adotasse políticas de investimento em infraestrutura e geração de tecnologia nacional, valorização da educação e inclusão social.
    A chegada da crise à economia brasileira, em 2013/4, com a desaceleração do crescimento chinês e a retração do preço internacional das commodities, aliada à inabilidade política e aos erros de condução da economia por parte do governo Dilma, possibilitaram que as insatisfações populares latentes crescessem exponencialmente, sem ser orientadas para a defesa do Estado de Bem Estar Social que vinha sendo construído no país.
    As manifestações de 2013 e também os chamados “rolezinhos” expressam a eclosão desse fenômeno no âmbito das classes médias e populares recém inseridas ao mercado de consumo de massas. Insuflados pela grande mídia, os protestos que tinham como alvo inicial os reajustes das tarifas de transporte público voltaram-se contra o governo, pedindo principalmente a ampliação e melhoria dos serviços de saúde e de educação e o combate à corrupção. De roldão, foram incluídos todos os tipos de pautas, desde o combate à homofobia e à violência contra as mulheres até a liberalização do porte de armas e a proibição do aborto, por exemplo.
    A ausência de partidos políticos e lideranças aptas para canalizar e dar direção à insatisfação generalizada abriu espaço para o avanço de grupos oportunistas, desde o chamado Movimento Brasil Livre até os black-blocs, que direcionaram suas ações visando o enfraquecimento do governo e culminaram com a campanha do impeachment, a partir da reeleição da presidenta Dilma, liderada pelos partidos e lideranças que não aceitaram a derrota nas eleições presidenciais.
    A piora das expectativas econômicas em função da crise que chegou ao país, o aumento da inflação e do desemprego, mais a ação articulada entre os promotores, delegados e juízes da Operação Lava Jato e a imprensa, e ainda entre as lideranças derrotadas nas eleições criaram o caldo de cultura que possibilitou o afastamento de Dilma e a entrega do governo ao grupo de Michel Temer, Eduardo Cunha, Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e Romero Jucá. Um grupo cuja principal ideologia é o espólio do Estado nacional e que nunca chegou a elaborar um projeto de desenvolvimento para o país, fosse ele qual fosse – nacional ou associado/dependente dos grandes grupos da economia internacional, mantendo-se sempre como aliado principal dos vitoriosos em eleições presidenciais.
    Este grupo, além disso, não detém legitimidade popular e nem força política suficiente para se manter no poder. Eduardo Cunha, deputado federal afastado da presidência da Câmara por corrupção e na iminência de perder seu mandato parlamentar, controla o governo e seus principais agentes políticos, a começar pelo presidente interino – mantido sob rédeas curtas, por meio da imposição de ministros e lideranças – sabe-se lá pela utilização de quais meios e métodos.
    Na tentativa de conquistar o apoio dos setores empresariais e políticos comprometidos ideologicamente com as visões ultraliberais na economia e com concepções de desenvolvimento associado ao mercado e aos grandes centros hegemônicos do capital, o grupo atualmente no exercício da Presidência da República acelera a adoção de medidas de desmonte das políticas sociais e das estruturas do Estado voltadas para a promoção do desenvolvimento nacional de modo relativamente autônomo.
    Este é o motivo para a voracidade e a velocidade das ações empreendidas por Temer e seu grupo, com a adoção de ações que visam à desarticulação acelerada do projeto de Estado de Bem Estar Social que vinha sendo implementado no Brasil durante os governos de Lula e de Dilma. Propondo-se a criar uma “revolução” na economia e nas instituições, capaz de fazer o Brasil retomar o crescimento, o governo Temer tem promovido uma política de terra arrasada, a partir da qual tudo teria que ser reconstruído noutros termos.
    Citem-se, no plano social, por exemplo, a desobrigação de aplicação de valores do orçamento da União definidos constitucionalmente para as áreas de educação e saúde; a revisão das políticas de habitação popular; o não pagamento do reajuste do valor do Programa Bolsa Família; a aceleração da tramitação dos projetos de lei que visam a mudança na política previdenciária e de aposentadorias; a terceirização total das contratações de mão de obra, com a consequente precarização do trabalho e o enfraquecimento das organizações sindicais, bem como a alteração de outros dispositivos da CLT que garantem conquistas dos trabalhadores.
    Vai na mesma direção, no plano das relações internacionais e da política econômica, a pressa com que o governo interino se lançou ao esforço para desmontar a política de integração Sul-Sul, empreendida pelos governos Lula e Dilma, e para reintegrar o Brasil ao sistema de comércio controlado pelos EUA; a tentativa em curso de alteração do regime de partilha para a exploração do petróleo na zona do Pré Sal, que visa desobrigar que a Petrobras participe com pelo menos 30% em qualquer contrato de exploração de petróleo firmado com empresas privadas.
    Se aprovada, esta alteração colocará nas mãos de empresas não brasileiras a quinta maior reserva de petróleo do mundo, inviabilizará a criação do Fundo Soberano, que é uma espécie de investimento de longo prazo realizado pelo país, e impedirá que parcela importante dos royalties do petróleo sejam revertidos para o Fundo Social destinado à Educação e à Saúde.
    Destaque-se, ainda, a proposta de emenda constitucional, apresentada como a salvação das finanças públicas, que visa congelar os gastos com custeio e manutenção da máquina estatal e dos investimentos nas áreas sociais, limitando seu reajuste à correção da inflação do ano anterior. Uma limitação que o governo Temer já impõe como condição para a revisão da dívida dos estados subnacionais com a União.
    Se o novo contrato for aceito pelos estados, não apenas os atuais governadores, mas também todos os futuros governadores durante os próximos 20 anos estarão impedidos de aumentar os gastos de investimento, de políticas públicas e de custeio. Considerando-se apenas o aumento vegetativo da população, em declínio mas ainda positivo, a consequência será não apenas o congelamento dos gastos dos governos, mas a diminuição destes gastos.
    Com isto, piorarão ainda mais as políticas de segurança, de saúde e de educação, por exemplo, e o Estado estará impossibilitado de investir em obras públicas como estradas, transportes, energia, infraestrutura etc. Diversos serviços que hoje são prestados pelo Estado e obras que são executadas diretamente por agências e órgãos públicos passarão a ser prestados e realizados por empresas privadas. Além disso, os salários de todos os servidores e servidoras públicas serão congelados aos níveis atuais, pois só serão reajustados para repor a inflação do período anterior aos reajustes.
    O avanço do atraso e a necessidade da construção de uma frente ampla democrática
    O avanço das políticas ultraliberais, com a tentativa de desmonte dos Estados de Bem-Estar Social, hoje em curso desde o plano internacional, passando pelo nacional e chegando aos estaduais, tem aberto espaço para a manifestação de grupos xenófobos e obscurantistas, dispostos a estancar e a fazer retroceder os avanços das liberdades civis já conquistadas em boa parte do mundo. No Brasil, citando-se apenas um exemplo crucial, no plano da educação, avançam as propostas de alteração no Plano Nacional de Educação, de interrupção da integração curricular que começava a ser construída e, até, de aprovação de legislação que proíbe o pensamento crítico nas escolas públicas, sob a alcunha de “escola sem ideologia”, mas que melhor seria denominar de escola com ideologia única.
    Tanto no plano nacional quanto no plano estadual, só há uma saída para o enfrentamento dessas forças reacionárias e antidemocráticas que avançam. A construção de uma grande frente popular em defesa da democracia e do estado democrático de direito, que congregue partidos políticos, sindicatos, centrais sindicais, comitês e movimentos em defesa da democracia e contra o impeachment e todos aqueles que, engajados ou não em partidos e movimentos, estejam dispostos a defender a democracia. Uma frente suficientemente ampla para agregar todos os democratas, sejam eles liberais, sejam socialistas e até os que não têm definição político-ideológica firmada, mas defendem a democracia.
    A intransigência de alguns partidos de esquerda e de centro-esquerda, apoiada em avaliações de que poderão firmar posições e preservar territórios, e o oportunismo de outros, acreditando que se apropriarão do espólio dos derrotados, só favorecerá o retrocesso e os avanços da direita golpista que hoje assalta o poder e as riquezas populares e nacionais. Frente às eleições municipais deste ano, cada partido lança candidatura isolada, justificando-se com a promessa de “união no segundo turno”, ao qual, possivelmente, nenhum deles chegará. Quando se derem conta do equívoco, a direita e o retrocesso já terão atropelado a todos.
    Estamos em um momento de refluxo das forças democráticas e de esquerda em todo o mundo e também no Brasil. É hora de resistência, de acumulação de forças e de preparação para a reação de médio e de longo prazos. Disputas e divergências cabem e são bem-vindas nos momentos de avanço e de conquistas, pois nesses momentos é preciso se definir rumos e explicitar mais e novos objetivos a serem alcançados. Nos momentos de refluxo, como o atual, é preciso saber buscar semelhanças e, com elas, construir os consensos possíveis, para que se crie uma barreira capaz de conter o avanço das forças que não têm compromissos com os interesses nacionais, com as necessidades da ampla maioria da população e com a democracia.

  • Temerildo e sua matriosca de mil bonecas

    Andres Vince
    De origem japonesa e posteriormente adotada pela cultura russa, a matriosca, uma série de bonecas colocadas umas dentro das outras, carrega a simbologia da maternidade e da fertilidade.
    É a síntese da promessa do governo Temerildo: o renascimento. Tirar o país de uma estrutura velha e corroída e transforma-lo num país moderno e pujante. Bastava para isso, apenas, atravessar a ponte para o futuro.
    Porém, na prática, o lema do governo interino poderia ser: “Cinquenta anos de retrocesso, em cinquenta dias.”
    Não podemos negar que é um feito histórico. Mais histórico ainda é o apoio incondicional a tudo isso. Desde o Congresso, passando pela imprensa e chegando, claro, aos setores oligárquicos, todos estão amando a volta do país aos velhos tempos do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
    O pato e seus adeptos desapareceram por completo, embora o boato de que haverá aumento de impostos esteja, suavemente, tomando corpo de realidade.
    Andresvince_2Déficit fiscal tornou-se algo positivo para o país. Segundo o bloco golpista, isso mostra a solidez da realidade das contas públicas, mesmo que elas sejam um desastre total e completo,  previsto com um ano e meio de antecedência. Um atestado de inoperância futura.
    Já posso ver as notas de rodapé estampando em letras miúdas a queda de classificação dos papéis brasileiros pelas agências de risco. Um país quebrado que não para de gastar. Claro que isso transpira confiança. Pelo menos para a equipe econômica atual. Embora com menos ênfase, nem a Mirian Leitão consegue alinhar com isso. É acelerar em direção ao precipício.
    Claro que o juízo de culpa pelo déficit futuro já está formado. Assim como o veredicto da presidenta Dilma, já condenada por atos meramente administrativos.
    Os escândalos que até ontem causariam um oludum de panelas, hoje, não rendem nem uma condução coercitiva. Dois casos idênticos tratados de forma distinta: dois congressistas apanhados em flagrante forjado, prometendo influência no supremo, pra livrar a cara dos comparsas. Um foi preso no dia seguinte, o outro, até hoje, nem esclarecimentos prestou. Uma bala de goma pra quem acertar de qual partido era o congressista que foi preso.
    Mas, ainda tem gente que não quer ver ou, acha que assim tá bom e fica jurando que se importa com o fato do outro congressista e ex-ministro estar solto e operante.
    E assim o Temerildo vai brincando de matriosca, tira uma boneca de dentro da outra, alguém reclama, ele coloca de volta, mandando a equipe caprichar mais na pintura para a próxima aparição. Essencialmente, a matriosca é isso, um objeto de escultura tosca, mas que, bem pintadinho, ganha ares de ovo Fabergé.
    O problema é que tem gente que fica na expectativa, achando que vai sair algo de novo de dentro da próxima boneca. Pelo tamanho da boneca e de seus apoiadores, parece que o Temerildo tem o suficiente pra manter a expectativa até 2018.
     

  • À espera do decurso de prazo

    As frações de petistas, do PCdoB e outros aliados da presidente afastada Dilma Rousseff que operam ativamente no projeto da volta, estão apostando no impasse técnico do processo de impeachment no Senado, que levaria o processo legislativo a ser extinto por decurso de prazo.
    Para isto é preciso que a bancada de defesa da presidente afastada consiga levar o processo sem solução negativa até 12 de novembro, quando se completam os 180 dias regulamentares.
    Outra opção, também em estudos, é a volta da presidente com a derrota do golpe no plenário do Senado.
    Até este momento o decurso de prazo é o único movimento efetivo, pois conta com a aproximação do pleito de outubro. Aberta a campanha, deve configurar-se um semi-recesso parlamentar, com as bancadas deslocando-se para as bases nos estados, à procura de votos.
    Uma diminuição significativa da intensidade da Comissão do Impeachment é esperada, pois a maior parte de seus integrantes mais ativos, golpistas e legalistas, são pré-candidatos a governadores em seus estados em 2018. A eleição de prefeito é a horta a ser plantada para colheita no próximo capítulo.
    Isto deve baixar o ímpeto da Comissão, onde as câmeras da Tevê Senado e das transmissões das emissoras a cabo e abertas constituem-se, neste momento, na melhor vitrine para políticos em ascensão.
    No campo político, tudo deve mudar: com a queda definitiva de Eduardo Cunha, o grande mentor do impeachment, o Centrão deve se desarticular, abrindo novas possibilidades de negociação para recomposição da antiga Base Aliada.
    Descartado esse principal artífice do golpe, ou, melhor dizendo, desfeitas suas bases na Câmara Federal, muitos votos podem mudar o placar no plenário do Senado.
    Há um pequeno grupo de senadores alinhados com o Centrão que pode definir o resultado em favor de Dilma. Na verdade, em tese faltam apenas oito votos para barrar o impeachment.
    A presidente afastada precisa encontrar bases mínimas de apoio externo. Para isto ela pretende lançar uma nova Carta aos Brasileiros, como está sendo chamado um documento em discussão na sua equipe.
    Ainda não há consenso sobre qual será a proposta: um grupo mais aguerrido propõe uma guinada à esquerda, nos termos do rascunho que vazou semana passada na coluna do jornalista Raimundo Costa, no Valor Econômico.
    Outra facção defende o contrário disso: sugerem um documento conservador a ponto de sensibilizar o empresariado e convencer o Centrão de que Dilma vai se comprometer com projetos mais pedestres, como estabilização da economia e adiamento de propostas mais ousadas na área de direitos sociais, como aborto, casamento gay e outros nessa linha.
    Quanto ao governo em si, sua estabilidade e viabilidade política, as duas frações concordam que não é impossível se manter mesmo com grande minoria parlamentar.
    O exemplo a ser observado é o da Venezuela: no país vizinho, o presidente Nicolás Maduro sustenta-se unicamente com o apoio dos movimentos sociais, amargando uma minoria parlamentar assombrosa, muito pior do que Dilma teria na sua volta.
    Nesse caso, como na Venezuela, o importante é observar a Constituição. Sendo assim, o Judiciário dá o respaldo e as Forças Armadas sustentam a decisão Supremo.
    Esta neutralidade das casernas é uma novidade na América do Sul, mas vem se demonstrando no Brasil e também nos países vizinhos.
    Os políticos aprenderam que o importante é não cutucar a onça com vara curta.
    Mesmo em grande desvantagem nas câmaras, Dilma poderia levar seu governo por mais um ano. Daí para frente já teríamos eleições, ou seja: muda tudo e ela vai até 31 de dezembro de 2018 e passa a faixa no dia seguinte, como disse que iria fazer.
    Não está morto quem peleja.

  • Reviravolta no Alvorada?

    PINHEIRODO VALE
    Há uma fração do grupo palaciano do Palácio da Alvorada se articulando para levar à presidente afastada Dilma Rousseff uma proposta ousada que, acreditam, poderia provocar uma reviravolta no placar de votos favoráveis no plenário do Senado Federal.
    A ideia desses assessores é de a presidente dizer ou vazar que voltando ao governo materia a atual equipe econômica, ou pela menos a parte não tucana do grupo liderado pelo banqueiro Henrique Meirelles.
    Próceres do governo deposto dizem que essa seria uma manobra estapafúrdia, sem a menor possibilidade de Dilma aceitar, pois teria o repúdio da esquerda e provocaria estranheza descabida.
    Os formuladores dessa estratégia, no entanto, dizem que isto poderia vingar, se conseguir apoio de segmentos mais conservadores da antiga base aliada, pois sinalizaria, também, que a presidente afastada estaria, ainda, tomando distância dos grupos envolvidos nos processos da Lava Jato.
    Meirelles, como se recorda, era o sonho de consumo do ex-presidente Lula para compor um governo de notáveis, antes do impeachment se configurar.
    Nessa formação, Dilma poderia propor o tal governo de salvação nacional. Em complementação, ela apoiaria a candidatura de Meirelles à sua sucessão. Este posicionamento poderia atrair a adesão de grande parte das forças econômicas que estão paralisadas esperando uma solução da crise política para dar um empurrão na economia e nos negócios.
    Em contrapartida, Dilma se comprometeria a apoiar as reformas propostas por Meirelles.
    Neste particular, os donos da ideia não descartam que Dilma chegue até o ponto de sugerir que ela daria sinal verde às alterações drásticas no sistema previdenciário, que é um ponto fundamental do discurso de Meirelles.
    Com o apoio de Dilma, parte da esquerda poderia votar no Congresso com o novo governo e a atual situação. Neste caso, nem mesmo o PSDB teria como se negar a dar seu voto a dispositivos polêmicos e considerados inaceitáveis pela esquerda como uma nova faixa etária para as aposentadorias.
    Esta fórmula se apoia no estrago previsível do Lava Jato que deve atingir segmentos expressivos e poderosos do PMDB e de outros partidos, ameaçando inclusive o próprio presidente interino Michel Temer, que seria chamado a se explicar sobre financiamentos de campanha para o partido de que foi o presidente efetivo até poucos dias.
    Esses analistas acreditam que se o próprio presidente interino se encontrar numa situação insustentável, a melhor opção para o sistema será uma solução de compromissos com a presidente afastada.
    Isto teria de acontecer agora, antes do impeachment, pois se Temer cair depois de 31 de dezembro terá de haver uma eleição indireta. Neste caso, a confusão irá muito além da escolha de um candidato. Não há uma regulamentação em Lei para a eleição indireta.
    O único diploma disponível é a 4.321 de 1964, publicada no diário Oficial de 8 de abril aquele ano, que serviu para eleger o ditador marechal Humberto Castello Branco.