Fórum Cinturão e Rota projeta outra década de ouro

Dilma Rousseff, presidente do Banco do Brics, ao lado do presidente XI e esposa – Foto Xinhua, Pang Xinglei

A China realizou esta semana o 3º Fórum do Cinturão e Rota para Cooperação Internacional (BRF), em Pequim. O evento marcou o 10º aniversário da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI) e inaugurou o que o presidente da China Xi Jinping chamou de outra “década de ouro”.  Desde que foi anunciada, há uma década, a BRI já se tornou a maior plataforma mundial de cooperação internacional, com a participação de mais de 150 países e 30 organizações internacionais nos cinco continentes. Um bilhão de dólares foi gasto ou comprometido em projetos que estão transformando cada vez mais as perspectivas de desenvolvimento de dezenas de países na Ásia, África, América Latina, Oriente Médio, Caraíbas e Pacífico. 

Além das iniciativas e acordos concretos, a reunião na capital chinesa também foi uma exibição da abordagem da China de desenvolvimento pacífico e cooperação vantajosa para todos – que os chineses definem como cooperação ganha-ganha -, representando as aspirações da grande maioria da comunidade internacional, enquanto a abordagem dos Estados Unidos (EUA) é de confronto, exclusão e dissociação dos aliados.

Muitos especialistas também fizeram uma comparação nítida entre a mensagem de paz, desenvolvimento e cooperação da BRF na capital chinesa e o apoio dos EUA aos conflitos mortais na Europa e no Oriente Médio. É impressionante que enquanto os líderes chineses e globais falavam sobre desenvolvimento e cooperação, o presidente dos EUA, Joe Biden, visitou Israel para “mostrar solidariedade” na guerra de Israel em Gaza, apesar do agravamento da crise humanitária. 

Xi Jinping anunciou oito medidas importantes que a China tomará para apoiar a cooperação qualificada no Cinturão e Rota. Primeiro, construirá uma rede multidimensional de conectividade do BRI, disse Xi em um discurso na cerimônia de abertura do terceiro Fórum do Cinturão e Rota para Cooperação Internacional.

O país irá acelerar o desenvolvimento  do Expresso Ferroviário China-Europa. A China, juntamente com outras partes envolvidas, construirá um novo corredor logístico em todo o continente euroasiático, ligado por transporte ferroviário e rodoviário direto.

Em segundo lugar, a China apoiará uma economia mundial aberta, com o seu comércio total de bens e serviços que deverá exceder 32 bilhões de dólares e 5 bilhões de dólares, respectivamente, no período 2024-2028, disse Xi.

Terceiro, a China realizará 1.000 projetos de assistência aos meios de subsistência em pequena escala e irá melhorar a cooperação na educação profissional, prometeu o presidente. Ele assegura mais apoio financeiro aos projetos da BRI com base na operação de mercado e de negócios, observando que o Banco de Desenvolvimento da China e o Banco de Exportação e Importação da China criarão, cada um, uma janela de financiamento de 350 bilhões de yuans (48,75 bilhões de dólares americanos), e que um adicional de 80 bilhões de yuans será injetado no Fundo da Rota da Seda.

Em quarto lugar, a China continuará a promover o desenvolvimento verde. O país aprofundará ainda mais a cooperação em áreas como infraestruturas verdes, energia verde e transportes verdes, e intensificará o apoio à Coligação Internacional para o Desenvolvimento Verde da BRI.

Quinto, a China continuará a promover a inovação científica e tecnológica e implementar o Plano de Ação de Cooperação em Ciência, Tecnologia e Inovação do Cinturão e Rota.  Realizará a primeira Conferência do Cinturão e Rota sobre Intercâmbio de Ciência e Tecnologia.

A China apresentou a Iniciativa Global para Governança de Inteligência Artificial (IA) no fórum deste ano. “Estamos prontos para aumentar os intercâmbios e o diálogo com outros países e promover conjuntamente o desenvolvimento sólido, ordenado e seguro da IA ​​no mundo”, disse Xi.

Sexto, a China apoiará o intercâmbio entre pessoas. Para melhorar o diálogo com os países parceiros do BRI, sediará o Fórum Liangzhu. Além da Liga Internacional de Teatros da Rota da Seda, do Festival Internacional de Artes da Rota da Seda, da Aliança Internacional de Museus da Rota da Seda, da Aliança Internacional de Museus de Arte da Rota da Seda e da Aliança Internacional de Bibliotecas da Rota da Seda que foram criadas, a China também lançou a Aliança Internacional de Turismo das Cidades da Rota da Seda.

Sétimo, a China promoverá a cooperação do Cinturão e Rota baseada na integridade, conforme Xi. Juntamente com os seus parceiros de cooperação, divulgará as Conquistas e Perspectivas da Construção da Integridade do Cinturão e Rota e os Princípios de Alto Nível sobre a Construção da Integridade do Cinturão e Rota, e estabelecerá o Sistema de Avaliação de Integridade e Conformidade para Empresas Envolvidas na Cooperação do Cinturão e Rota.

Oitavo, a China fortalecerá o institucional para a cooperação internacional do Cinturão e Rota. Por isso, a construção de plataformas de cooperação multilateral com abrangência em energia, tributação, finanças, desenvolvimento verde, redução de desastres, anticorrupção, grupos de reflexão, mídia, cultura e outros campos.

Corredor econômico Rússia, Mongólia e China

A China pretende desenvolver um corredor econômico ligando a Rússia através da Mongólia, anunciou o presidente Xi Xinping numa reunião com o seu homólogo mongol, Ukhnaagiin Khurelsukh. 

O projeto do Corredor Econômico China-Rússia-Mongólia foi lançado pela primeira vez em 2016.  Uma agência da ONU, que apoia os países em desenvolvimento, já elogiou o projeto, observando num relatório “que a localização estratégica da Mongólia entre a Rússia e a China oferece uma oportunidade única para fortalecer as ligações comerciais entre a Ásia e a Europa, expandindo ao mesmo tempo o seu alcance a novos mercados”.  

O projeto, apelidado de Power of Siberia 2, trará gás natural da península russa de Yamal para a China. Anteriormente, esses campos de gás serviam o mercado da UE através de vários gasodutos, incluindo o Nord Stream, que foi sabotado em setembro de 2022. Agora, a Rússia busca reorientar as suas exportações de gás para a Ásia no meio de sanções que os EUA e os seus aliados impuseram contra Moscou devido ao conflito na Ucrânia.

Com as agências de notícias Xinhua, Global Times e Russian Today

Até FMI reconhece que Brasil vai crescer acima da média mundial em 2023

O relatório do Panorama Econômico Mundial divulgado nesta semana pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) diz que o Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos) brasileiro crescerá 3,1% em 2023, alta de 1 ponto percentual em relação à estimativa anterior, apresentada em julho passado. Em contrapartida, a estimativa de expansão para a economia global caiu de 3,5% para 3% neste ano.

Para 2024, o FMI melhorou a previsão de crescimento para o Brasil, de 1,2% para 1,5%, e reduziu levemente a projeção de crescimento global de 3% para 2,9%. O documento foi apresentado em Marrakech, no Marrocos, onde o Banco Mundial realizou sua reunião anual em parceria com o FMI.

O FMI citou três fatores principais para a melhoria das estimativas econômicas para o Brasil. Segundo o relatório, a “agricultura dinâmica” e os “serviços resilientes” no primeiro semestre, acompanhado da manutenção do consumo forte por causa de estímulos fiscais, contribuíram para melhorar o desempenho da economia brasileira em relação às estimativas iniciais.

Apesar de melhorar as projeções para o Brasil, o FMI citou riscos para o país. Segundo o órgão, a inflação persistente e o endividamento das famílias continuam a preocupar. Certamente não foi incluído nesta análise o programa Desenrola Brasil que começou em outubro e vai beneficiar pessoas que ganham até dois salários mínimos ou que estejam inscritas no CadÚnico. São R$ 126 bilhões em descontos para cerca de 32 milhões de brasileiros.

O relatório também mencionou a falta de espaço fiscal para gastos prioritários e riscos decorrentes das mudanças climáticas. As previsões do FMI estão mais em linha com as estimativas do governo brasileiro. A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda prevê expansão de 3,2% da economia brasileira em 2023 e de 2,3% em 2024.

Já a mídia corporativa especializada preferiu focar na dívida pública brasileira. O economista-chefe do Banco Mundial, Indermit Gill, ressaltou que o Brasil não está no grupo de países pressionados pelo crescente peso da dívida pública. Ainda assim, segundo ele, o Brasil sofre do chamado “crowding out”, um termo usado por economistas quando se avalia que o efeito da elevação dos gastos públicos para estimular a economia é anulado pela redução dos investimentos privados.

No documento, a instituição prevê que a dívida pública bruta do Brasil vai subir para 88,1% do PIB em 2023. A previsão é que o indicador siga em alta nos cinco anos seguintes, até atingir 98% do PIB em 2028. O caminho para minimizar o impacto do “crowding out” sobre o crescimento é, na avaliação do presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, a adoção de uma postura cautelosa em termos de estabilidade macroeconômica e fiscal, uma estratégia que o Brasil estaria seguindo com as reformas já aprovadas ou em discussão no Congresso.

É a velha fórmula do FMI de sempre sugerir a redução os investimentos do governo para alavancar a economia. Um dos caminhos da “estabilidade macroeconômica” citada é conter o excesso de inflação com a restrição à oferta de dinheiro. Isso o Banco Central “independente” brasileiro já faz com a taxa básica de juros, a Selic, nas alturas. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que em setembro foi de 0,26%, nos últimos 12 meses ficou em 5,19%. Como a taxa Selic está em 12,75% ao ano, a rentabilidade dos aplicadores em títulos públicos está em 7,56% pontos percentuais ao ano acima da inflação.

O arcabouço fiscal do governo Lula já é suficiente para controlar os investimentos federais. Agora, o Brasil poderia reduzir sua dívida se acabasse com as operações compromissadas, que em outras palavras, significam remuneração da sobra de caixa dos bancos. O gasto com tais operações, que correspondem à remuneração de um depósito voluntário feito por bancos junto ao Banco Central, custou cerca de R$ 1 trilhão de reais em 10 anos (2009 a 2018), conforme números oficiais. O problema dessa operação é que ela é incluída no cômputo da dívida pública. Quanto mais essas operações o BC realiza, mais a dívida pública é afetada.

Outro assunto proibido pela mídia corporativa sobre a dívida pública é a denúncia que consta no livro “O Complô – como o sistema financeiro e seus agentes políticos sequestraram a economia brasileira” (2017), do deputado federal constituinte, eleito em 1986 pelo MDB do Rio Grande do Sul, Hermes Zaneti. Ele vai nos detalhes de um dos episódios mais surpreendentes em relação aos dispositivos constitucionais.

Zaneti fez uma aprofundada pesquisa unindo seu material como constituinte, matérias publicadas em jornais e outras investigações sobre as origens de determinados itens que teriam sido enxertados misteriosamente na Constituição de 1988. Um deles é a alínea “b” do inciso II do parágrafo 3 do artigo 166. O parágrafo 3º ressalva que as emendas ao projeto de lei do orçamento anual ou aos projetos que o modifiquem somente podem ser aprovadas caso:

II – Indiquem os recursos necessários, admitidos apenas os provenientes de anulação de despesa, excluídas as que incidem sobre:

  1. a) Dotações para pessoal e seus encargos
  2. b) Serviço da dívida
  3. c) Transferências tributárias constitucionais para Estados, Municípios e Distrito Federal

A alínea b significa que tem que pagar os juros da dívida e não pode bufar. Não interessa se tem brasileiro passando fome, se nossas escolas públicas estão um lixo, não tem como dar um salário digno aos professores ou se falta dinheiro para infraestrutura. Nesse dinheiro não pode mexer. 

A previsão do Tesouro Nacional é que a dívida pública encerre o ano de 2023 entre R$ 6,4 trilhões e R$ 6,8 trilhões. O dado consta no Plano Anual de Financiamento (PAF), divulgado em janeiro deste ano. As instituições financeiras seguem como principais detentoras da Dívida Pública Federal interna, com cerca de 30% de participação no estoque.

Segundo a Associação dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip), entre 2018 e 2020, os juros nominais da dívida – que não levam em conta a inflação do período – ficaram em média em R$ 353 bilhões, ao ano, números do BC. Em 2021, quando a Selic começou a subir no governo Bolsonaro, a conta de juros passou para R$ 448 bilhões. Já em 2022, com os juros em 13,75%, foi R$ 586 bilhões. A previsão do mercado para 2023 é que o valor dos juros da dívida chegue próximo de R$ 800 bilhões. 

Com Agência Brasil e Valor Econômico

 

RS está em segundo lugar entre estados com maiores áreas de desmatamento para agricultura

No período de 1985 a 2022, os cinco estados com maiores áreas de desmatamento para conversão direta para agricultura foram Mato Grosso (3 milhões de hectares), Rio Grande do Sul (2,6 milhões de hectares), Bahia (1,8 milhão de hectares), Maranhão (790 mil hectares) e Goiás (550 mil hectares). A análise é da rede colaborativa de Mapeamento Anual do Uso e Cobertura da Terra no Brasil (MapBiomas) e foi divulgada nesta sexta-feira (6).

O MapBiomas destaca que a conversão direta de vegetação nativa para a agricultura permaneceu relativamente constante ao longo dos anos que acompanhou. Além disso, o que se nota é uma tendência de declínio entre 2018 e 2022.

Outro aspecto que a equipe de especialistas destaca é que, embora tenha havido constância, houve mudanças na distribuição geográfica dessas conversões. As novas fronteiras agrícolas se concentram na região conhecida como Matopiba (acrônimo que se refere aos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), Amacro (território de fronteira entre os estados do Amazonas, Acre e Rondônia e um dos eixos do agronegócio) e no bioma Pampa.

O Pampa Sul-americano sofreu transformações significativas na paisagem ao longo das últimas duas décadas. A maior perda proporcional de vegetação nativa foi no Rio Grande do Sul, com 21.356 km² (20% da área existente em 2000), sobretudo devido à expansão das áreas agrícolas para o plantio de soja. Esses dados do bioma Pampa foram calculados por pesquisadores do MapBiomas do Brasil, em parceria com profissionais da Argentina e Uruguai, que produziram a série de mapas anuais de cobertura e uso da terra mais completa já elaborada para o bioma.

Grãos e cana

Dois tipos de lavoura respondem por praticamente todo o movimento de expansão (96%), sendo que triplicaram no período de análise: a de grãos e a de cana. Em 1985, os dois tipos de cultivo ocupavam 18,3 milhões de hectares e, em 2022, sua área equivalia a 7% do território nacional, ou 58,7 milhões de hectares.

Dessa parcela, 35 milhões de hectares são oriundos do aumento no protagonismo da soja que, sozinha, aumentou a área cultivada quatro vezes, e do milho cultivado após a colheita da soja, conforme lembram os pesquisadores do MapBiomas.

“A soja, o milho, a cana-de-açúcar são as três culturas com maior área, no Brasil. Existe também uma demanda muito importante para o arroz. A área dessas culturas reflete a demanda em relação as condições de produção no país. No caso da soja, o principal destino é a alimentação animal e, no caso da cana, o setor de energia”, observou o coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo.

Agropecuária

Entre 1985 e 2022, a área reservada à agropecuária no Brasil cresceu 50%, ocupando 95,1 milhões de hectares (ha), que equivale a 10,6% do território nacional, maior que a do estado de Mato Grosso, por exemplo.  O levantamento aponta que quase dois terços (64%) da expansão da agropecuária no país – ou 64,5 milhões de hectares – deriva do desmatamento para pastagem. Já o desmatamento feito na etapa de preparo da terra para a agricultura corresponde a 10% da expansão e equivale a 10 milhões de hectares. Pouco mais de um quarto (26%) da ampliação da atividade agrícola – ou 26,7 milhões de hectares – abrange terras que já passaram por um processo de transformação devido à ação do ser humano.

Em 1985, a agropecuária ocupava um quinto (22%) do território do Brasil, ou 187,3 milhões de hectares. Quase quatro décadas depois, constata-se que a proporção cresceu para 282,5 milhões de hectares, ou um terço do território brasileiro. Desse total, 58% são de pastagens, que tiveram um crescimento de mais de 60% entre 1985 (103 milhões de hectares) e 2022 (164,3 milhões de hectares).

O aumento da área que serve ao cultivo agrícola foi de 41,9 milhões de hectares, no intervalo analisado pela equipe do MapBiomas. Nesse caso, o espaço utilizado passou de 19,1 milhões de hectares para 61 milhões de hectares. Em termos comparativos, pode-se dizer que o aumento foi de duas vezes a extensão do Paraná.

Pastagens

O levantamento também fornece informações sobre o desenvolvimento de áreas de pastagem ao longo das décadas. Entre 1985 e 2022, os cinco estados com maiores áreas de desmatamento para conversão à pastagem foram Pará (18,5 milhões de hectares), Mato Grosso (15,5 milhões de hectares), Rondônia (7,4 milhões de hectares), Maranhão (5,4 milhões de hectares) e Tocantins (4,5 milhões de hectares).

No caso do desmatamento para pastagens que posteriormente foram convertidas em áreas agrícolas, os destaques são os estados de São Paulo (2 milhões de hectares), Mato Grosso do Sul (1,2 milhão de hectares), Rio Grande do Sul e Mato Grosso (1,1 milhão de hectares cada) e Paraná (1 milhão de hectares).

Com Agência Brasil

A nova distribuição do poder global

Na famosa reunião secreta em Camp David, no estado de Maryland, 15 agosto de 1971, o então presidente dos Estados Unidos (EUA), Richard Nixon, acabou com o padrão ouro-dólar do regime de Bretton Woods e decretou o fim do regime monetário do pós-guerra. Surgia uma nova moeda totalmente fiduciária, sem lastros no ouro e com a possibilidade de emissão via decreto. A moeda fiduciária só possui valor porque o governo, empresas e pessoas em geral atribuem algum valor a ela. Portanto, seu valor é baseado na autoridade e confiança do emissor. 

A partir daí, a dívida pública dos EUA passa de US$ 70,2 bilhões (valor da época) em cinco anos do governo de Richard Nixon (1970-1974) para US$ 126,9 bilhões em dois anos do governo Gerald Ford (1975-1976), pulando para US$ 226,6 bilhões no governo de Jimmy Carter (1977-1980). Nos dois governos de Ronald Reagan (1981-1988) a dívida explode para US$ 1.338,7 bilhões, que representou algo em torno de 80% da circulação monetária total no mercado interbancário internacional.

E a dívida pública dos EUA continuou aumentando. Hoje, ultrapassou US$ 33 trilhões (cerca de R$ 160 trilhões) – pela primeira vez na história, conforme dados divulgados pelo Departamento do Tesouro. O recorde vem em meio a uma possível paralisação do governo norte-americano, que enfrenta um embate sobre gastos federais.

O Congresso norte-americano tem até este final de semana – 30 de setembro -, encerramento do atual ano fiscal, para chegar a um acordo para financiar o governo federal. Caso contrário, as agências federais terão que fazer uma paralisação, o que não acontece desde 2019.

Em 2023, a dívida dos EUA disparou ainda mais depois que o presidente dos EUA, Joe Biden, aprovou um projeto de lei no início de junho passado que removeu o teto da dívida de US$ 31,4 trilhões por dois anos, permitindo efetivamente ao governo continuar a contrair empréstimos sem limites até 2024. O teto foi suspenso após repetidas advertências do Tesouro de que, a menos que a medida fosse tomada, o país não cumpriria as suas obrigações.

No artigo “A retomada da hegemonia norte-americana” (1997), a economista Maria da Conceição Tavares explica que o componente do déficit dos EUA é crescente graças à mera rolagem da dívida pública. “Esta dívida é o único instrumento que os EUA têm para realizar uma captação forçada da liquidez internacional e para canalizar o movimento do capital bancário japonês e europeu para o mercado monetário americano…O preço desta ‘estabilidade’ tem sido a submissão dos demais países à diplomacia do dólar e ajuste progressivo de suas políticas econômicas, aspirando o ‘equilíbrio global do sistema’… O resultado deste movimento é que o espectro das taxas de crescimento, das taxas de câmbio e de juros passou a ser concêntrico ao desempenho destas variáveis no âmbito da economia americana.”    

O domínio do dólar nas transações cambiais no mundo foi definido no final da 2ª Guerra e tornou-se efetivo a partir da década de 1970. Já o tema da desdolarização entrou na pauta de forma mais consistente durante a crise financeira mundial de 2008 e se fortaleceu com as sanções econômicas impostas à Rússia pelo conflito com a Ucrânia, em 2022, com o bloqueio de US$ 643,2 bilhões. A rapidez com que os EUA impuseram sanções à Rússia, acompanhada dos reajustes da taxa básica de juros definida pelo banco central dos EUA (o Federal Reserve), levaram a um movimento de venda de dólares e investimento em outros ativos.

Outra medida dos EUA foi a exclusão de bancos russos da plataforma Swift, que viabiliza transferências e pagamentos internacionais. Segundo a agência Tass, a criação de uma alternativa ao Swift será uma das questões na agenda da reunião dos países do Brics no próximo ano, informou o ministro das Finanças russo, Anton Siluanov, num fórum, acrescentando que alguns membros do Brics já possuem os seus próprios sistemas.

Movimentos recentes mostram o aumento da utilização da moeda chinesa, o renminbi (RMB), entre Rússia e China; Arábia Saudita e Índia disseram que vão trabalhar usando a rúpia indiana. Um dos focos dos chineses na cruzada contra o dólar é o petróleo. Desde o ano passado, a China, maior importadora global da commodity, vem discutindo com a Arábia Saudita e com outros países do Golfo Pérsico que o comércio de barris também seja feito em moedas locais.

Segundo a BBC News, os bancos centrais de todo o mundo estão usando os dólares de suas reservas para comprar ouro com o objetivo de reduzir sua dependência dos EUA. O Conselho Mundial do Ouro, organização dedicada ao desenvolvimento de mercado para o setor, informou que as autoridades monetárias adicionaram em 2022 a maior quantidade de ouro às suas reservas desde 1950 (início da série histórica). E os dados deste ano indicam que essa tendência vai continuar.

Só que os países devem ser prudentes e manter o ouro em seus cofres. Em 2022, o Supremo Tribunal de Londres rejeitou a solicitação do presidente Nicolás Maduro para obter o controle de mais de US$ 1 bilhão das reservas de ouro da Venezuela armazenadas nos cofres subterrâneos do Banco da Inglaterra devido às sanções.

O conflito está instalado. A hegemonia do dólar é imprescindível para os Estados Unidos preservarem o poder global. Ao mesmo tempo, usar o dólar como arma de disputa geopolítica torna-se incompatível com o mundo multipolar que está em formação, principalmente pelas ações dos países integrantes do Brics. 

Copom reduz mais uma vez a taxa de juros e prevê novas quedas

Os cenários avaliados, considerando a evolução do processo de desinflação, o balanço de riscos e o amplo conjunto de informações disponíveis, levaram os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) a decidir esta semana pela redução da taxa básica de juros, a Selic, em 0,50 ponto percentual, para 12,75% ao ano. Eles entendem que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante, que inclui o ano de 2024 e, em grau menor, o de 2025. “Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego”, diz a nota à imprensa.

Em se confirmando o cenário esperado, os membros do Comitê, unanimemente, anteveem redução de mesma magnitude nas próximas reuniões e avaliam que esse é o ritmo apropriado para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário. O Comitê ressalta ainda que a magnitude total do ciclo de flexibilização ao longo do tempo dependerá da evolução da dinâmica inflacionária, em especial dos componentes mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica, das expectativas de inflação, em particular as de maior prazo, de suas projeções de inflação, do hiato do produto e do balanço de riscos.

Como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em agosto, foi de 4,61% nos últimos 12 meses, a rentabilidade dos aplicadores em títulos públicos ficou em 8,14% pontos percentuais ao ano acima da inflação. Até julho passado, o BC ofereceu títulos públicos pagando 13,75% ao ano, com o ganho, principalmente dos bancos e das grandes fortunas, chegando a 10,59% pontos percentuais acima da inflação, naquele momento. Assim, os bancos garantem um ótimo rendimento para seus depósitos, além da segurança de um papel do governo federal. Portanto, para emprestar para seus clientes só por uma taxa ainda maior daquela oferecida pelo governo, mais a taxa de risco, etc.. Por isso, a  taxa Selic afeta toda a  cadeia do mercado financeiro.

A redução da taxa básica de juros começou em agosto passado, quando passou de 13,75% ao ano para 13,25%, queda de 0,50 ponto percentual, que representou o passo inicial de uma retomada do controle da política monetária pelo governo Lula, ainda que a presidência do BC continue nas mãos de Roberto Campos Neto, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, até 2024. A partir daquela reunião do Copom, foram integrados os dois primeiros membros indicados pelo governo Lula – os diretores Gabriel Galípolo (política monetária) e Ailton de Aquino (fiscalização).

O governo neocolonial de Bolsonaro girou em torno da venda do patrimônio público por preços subestimados, mineração ilegal em terras indígenas, devastação das florestas em benefício de latifúndios, eliminação de direitos dos trabalhadores e aposentados,  com a volta do Brasil ao mapa da fome.

 A Lei Complementar 179/2021, de fevereiro de 2021, que estabelece a “autonomia” do Banco Central, sancionada por Bolsonaro, foi a costura financeira.  Ao manter a taxa Selic em 13,75% durante um ano, desde o início de agosto de 2022, o governo promoveu um dos maiores planos de concentração de renda dos últimos tempos.

A taxa básica de juros estava em 2% ao ano em março de 2021 e foi sendo aumentada até chegar a 13,75%. A desculpa foi sempre o combate à inflação, que no Brasil não é de consumo, mas de custos de produção, principalmente energia, petróleo e seus derivados. Neste caso, o aumento da taxa de juros sufoca a economia.

A redução em conta gotas da Selic pelo receio do aumento inflação, com apoio da mídia corporativa, é inadequada neste momento.  É só observar o comércio de rua e shoppings em todas as cidades brasileiras, com milhares de lojas fechadas. Mesmo com duas reduções seguidas da taxa Selic continuam com suas portas cerradas. Entre os motivos, a taxa de juros nas alturas, que promove concentração de renda, a perda do valor de compra dos salários, além de inviabilizar o crédito para consumo e investimento.  

 

Rejeição de todas as emendas do projeto do Plano Plurianual provoca críticas da oposição

A Comissão de Finanças, Planejamento, Fiscalização e Controle da Assembleia Legislativa gaúcha aprovou nesta semana (14/9), o parecer favorável do relator, deputado Frederico Antunes (PP), ao PL 346/2023, do Poder Executivo, que dispõe sobre o Plano Plurianual (PPA) para o quadriênio 2024-2027. A matéria segue agora para apreciação e votação em plenário.

A secretária de Planejamento, Governança e Gestão, Danielle Calazans, destacou as prioridades do PPA e a importância de dar amplo conhecimento à população das metas propostas pelo governo do Estado.  “O PPA reflete os objetivos e as diretrizes do governo, formulados a partir de uma base estratégica e consolidados no Mapa Estratégico, o que permite unidade e direcionamento às ações, assim como a avaliação dos resultados. Para atender às indicações do PPA, o governo projeta R$ 58,5 bilhões para os programas temáticos, que são as atividades fins das secretarias, ao longo da vigência do plano”, enfatizou.

Na última etapa da tramitação do Plano Plurianual 2024-2027 foi realizada a apresentação do parecer do relator, com as argumentações e justificativas para rejeitar as 62 emendas protocoladas. A bancada do PT apresentou 38 emendas, mas o relator emitiu parecer alinhado com o governo, rejeitando essas e outras 24 propostas de parlamentares.

O deputado Miguel Rossetto (PT) defendeu a emenda 39 que, conforme ele, visa corrigir a ilegalidade do descumprimento da Lei Complementar 141 que estabelece 12% da receita líquida em serviços de saúde. “Estamos discutindo um Plano Plurianual vazio, carregado de adjetivos que não descreve os desafios a serem enfrentados pelo governo do Estado e não dialoga com a federação e não há referência aos governos federal e municípios. Anuncia ajuste fiscal sem fim construído a partir da destruição dos serviços públicos e carrega ilegalidades”, disse, argumentando que o PPA proposto pelo governo dá continuidade ao descumprimento da legislação.

Rossetto também defendeu emenda pela reconstrução de instituições públicas referenciais para o desenvolvimento do estado, tendo em vista o projeto que extinguiu órgãos públicos estratégicos no RS, como a Fundação de Economia e Estatística, a Fundação Zoobotânica, a Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Projeção de Desenvolvimento promovidos pelos governos de José Ivo Sartori (MDB) e o atual. “O RS é vítima de uma destruição da inteligência pública, há um vazio que impede que a inteligência do estado participe ativamente da gestão de um projeto de desenvolvimento. Nossa emenda vem o sentido de suprir e recuperar a capacidade para o estado do RS”.

O líder da bancada do PT, deputado Luiz Fernando Mainardi, argumentou que a bancada propõe que se garantam recursos para iniciar uma política efetiva de estudo da institucionalidade para monitoramento e pesquisa para um ambiente ecologicamente equilibrado. O parlamentar defendeu os destaques para três emendas relacionadas ao meio ambiente, para liberação de recursos no montante de R$ 1 milhão de reais para a área ambiental, para iniciar política de estudos para monitoramento e pesquisa, assegurando direito ao ambiente ecologicamente equilibrado às futuras gerações.

Mais R$ 2 milhões de reais para estudo de preservação dos biomas Pampa e da Mata Atlântica, que não dispõem de política de preservação; e ainda gestão sustentável das águas no estado, tendo em vista que as bacias hidrográficas não dispõem de Plano Estadual de Recursos Hídricos, propondo recursos para o comitê. O relator Antunes argumentou que esses aspectos estão contemplados no texto do PL 346/2023, o que motivou a retirada do destaque por parte da bancada petista.

O Pampa Sul-americano sofreu transformações significativas na paisagem ao longo das últimas duas décadas. A maior perda proporcional de vegetação nativa foi no Rio Grande do Sul, com 21.356 km² (20% da área existente em 2000), sobretudo devido à expansão das áreas agrícolas para o plantio de soja. Os dados foram calculados por pesquisadores do MapBiomas do Brasil, em parceria com profissionais da Argentina e Uruguai, que produziram a série de mapas anuais de cobertura e uso da terra mais completa já elaborada para o bioma. 

Na questão educacional, Mainardi argumentou pela garantia dos 25% constitucionais da receita líquida de impostos e transferências em ações e manutenção do ensino integralmente destinada à educação, excluindo destas despesas o pagamento de inativos e pensionistas como investimento em educação, prática adotada pelo atual governo. “Hoje há um descumprimento à emenda constitucional 108 vigente a partir de 2021. Não adianta fazermos discurso em defesa da educação e quando temos na mão a possibilidade de garantir que os 25% sejam investidos na educação nós venhamos a não admitir uma emenda porque é da oposição”, argumentou.

Outra área alcançada pelas emendas do parlamentar, também rejeitada na votação, foi a tentativa de incorporar no PPA compromisso com o fortalecimento do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec) e a valorização do Polo Naval, em recuperação a partir do governo Lula, com potencial de geração de empregos e desenvolvimento da região Sul do estado. “Fortalecer estas duas áreas deve ser um compromisso de planejamento de médio prazo. O polo naval tem uma potência extraordinária de desenvolvimento da região Sul e de todo o estado.”

Mainardi defendeu, ainda, que no PPA tenha uma política de valorização do salário regional, que inclua o que teve de crescimento do PIB. O parlamentar destacou as médias salariais dos poderes no estado. “No TCE, a média é de R$ 28 mil; no MP, R$ 21 mil; no Judiciário, R$ 14 mil; na Defensoria, 17 mil; na Assembleia, R$ 15 mil; Secretaria da Fazenda, R$ 29 mil; Procuradoria do Estado, R$ 20 mil enquanto temos 14 mil servidores do estado ganhando o piso regional. Uma vergonha essa disparidade salarial e não conseguimos colocar que pelo menos essas 14 mil pessoas sequer possam ter reajuste do piso salarial?”.

Tendo em vista os recentes eventos climáticos no Rio Grande do Sul e diante de apelo dos parlamentares, como o deputado Joel Wilhem, (PP) o relator Frederico Antunes apresentou uma emenda de Comissão que altera o nome da Ação Programática “Ações para Mitigar as Emissões de Gases – Efeito Estufa” para “Ações para Mitigar as Mudanças Climáticas”, que inclui nas prioridades e metas do Poder Executivo para o exercício de 2024, a iniciativa “Governança Climática” e cria o produto “Plano de resiliência climática”. A iniciativa obteve assinatura de 11 parlamentares, e foi aprovada de forma unânime pelo colegiado.

Com as agências de notícias da Assembleia Legislativa e Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do RS

Desdolarização começa no mercado do petróleo

A desdolarização, que atinge  a hegemonia dos Estados Unidos (EUA), foi um dos principais temas na recente reunião do grupo Brics, realizada na África do Sul. Um fato marcante nesse processo foi o restabelecimento das relações diplomáticas, em março de 2023, do Irã e Arábia Saudita. E para ira do governo dos EUA, acordo mediado pela China. Uma surpresa para muitos que aguardavam um acordo de restabelecimento de relações diplomáticas entre a Arábia Saudita e Israel mediado pelos EUA.

Uma détente foi alcançada com a reaproximação entre Riad e Teerã e mostra que uma coalizão contra o regime iraniano está ficando no passado. Além disso, demonstra a força diplomática de Pequim. 

Como complemento, Arábia Saudita e Irã, juntamente com Argentina, Egito, Etiópia e Emirados Árabes Unidos, vão participar do grupo Brics a partir de 2024. O comércio petrolífero deverá acelerar o processo de desdolarização, que será analisado  na próxima reunião do Brics, na Rússia.

Na reunião de Bretton Woods, EUA, em 1º de julho de 1944, com a aproximação do final de Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos conduziram as negociações para a construção de uma nova ordem mundial e, ao longo desta,  definiram sua moeda nacional, o dólar, como o padrão de referência internacional.

A dolarização deu seu passo inicial após as negociações na Conferência de Yalta (4 a 11 de fevereiro de 1945), quando o presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, se encontrou com o fundador do Reino da Arábia Saudita, rei Abn Saud, no dia 14 de fevereiro de 1945 no navio militar USS Quincy, próximo ao canal de Suez. Aprofundaram os termos do acordo de 1936, em que se definia a inserção exclusiva das empresas dos Estados Unidos dentro do reino, em troca da proteção militar norte-americana.  

Depois de algumas disputas diplomáticas com seus aliados, os Estados Unidos consolidaram sua presença na Arábia Saudita. Em 1946, as empresas norte-americanas entraram efetivamente na região para exploração de petróleo.

O que se garantiu foi a cotação em dólares do petróleo exportado a partir da Arábia Saudita, que se transformou no novo centro de gravidade da produção mundial. Grande parte dos países, que possuíam necessidades de importação de petróleo, foram compelidos a aderir ao dólar. Assim, tal movimento acabou por obrigar esses países a “precificarem” em dólares seus produtos de exportação, para viabilizar seu abastecimento de petróleo e seu comércio exterior em geral. Anos depois, outros membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) seguiram o exemplo, provocando o chamado  petrodólar.

Em 1948, a Arábia Saudita tornou-se foco dos estrategistas norte-americanos. Estados Unidos e Arábia Saudita estavam iniciando um relacionamento incomparável. Em outubro de 1950, o presidente Harry Truman escreveu uma carta ao rei Ibn Saud: “Desejo renovar a Vossa Majestade as garantias que já fizemos em várias ocasiões no passado, de que os Estados Unidos têm interesse na preservação, na independência e na integridade territorial da Arábia Saudita. Nenhuma ameaça ao seu reino poderia ocorrer que não fosse matéria de interesse imediato dos Estados Unidos.” Isso soava como uma garantia.

Sob um acordo de décadas, os EUA fornecem segurança à Arábia Saudita e, em troca, mantêm o acesso ao seu petróleo, que o reino troca por dólares, sustentando-o como moeda global.

As relações entre Riad e Washington esfriaram desde 2018, quando os EUA levantaram a suspeita de que o príncipe Mohammed Al Saud poderia ter ordenado o assassinato e esquartejamento do colunista saudita do Washington Post, Jamal Khashoggi. O príncipe herdeiro de 38 anos administra os assuntos do dia-a-dia do reino para seu pai, o rei Salman Al Saud, que tem 87 anos.

Hoje, os grandes produtores de petróleo que integram a OPEP não se restringem a vender somente em dólar, mas também em outras moedas consolidadas, tirando assim o “status” da moeda americana. Em agosto de 2018, a Venezuela declarou que iria precificar seu petróleo em euros, yuans e outras moedas.

Mudanças concretas já ocorrem este ano, em relação às políticas de produção de petróleo da região sem interferência dos Estados Unidos. A OPEP+, que compreende a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e produtores de petróleo aliados, incluindo a Rússia, concordou em cortar a produção em cerca de 2% da demanda mundial de novembro até o final de 2023.

O dólar ainda vai liderar por um bom tempo como a principal moeda do comércio internacional. No primeiro trimestre de 2023, as reservas cambiais totais, conforme o Fundo Monetário Internacional (FMI), eram de US$ 12.039 bilhões. Desse total, US$ 6.508 bilhões foi reivindicado em dólares, US$ 2.204 bilhões em euros e US$ 288 bilhões em renminbi (yuans).

No entanto, o bloqueio das reservas do Banco da Rússia pelos países ocidentais, que atingiram US$ 643,2 bilhões pouco antes do início do conflito com a Ucrânia, em fevereiro do ano passado, foi repetidamente chamado por Moscou de “roubo”, alertando que viola o direito internacional. Os riscos não econômicos das transações em dólares americanos e dos ativos dolarizados tornaram-se evidentes para todos, especialmente para os bancos centrais.

Crescimento do PIB supera expectativas do mercado

A alta acumulada de 3,7% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, no primeiro semestre, surpreende o mercado e representa uma vitória do governo nacional desenvolvimentista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).  Lembrando que a administração Bolsonaro promoveu um desmonte das políticas públicas.

Na comparação com o segundo trimestre do ano passado, a economia brasileira avançou 3,4% e o PIB acumula alta de 3,2% no período de 12 meses. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (1º) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O crescimento de 0,9% no segundo trimestre de 2023, inferior em relação ao primeiro trimestre que teve alta recorde de 1,8%, foi o suficiente para parte da mídia corporativa tupiniquim desdenhar. O título no site do jornal O Globo foi “PIB perde fôlego” e outros veículos não deram destaque à notícia.  O título do Financial Times foi “Crescimento do Brasil no segundo trimestre supera estimativas e impulsiona Lula”.  O banco Goldman Sachs agora prevê um crescimento do PIB de 3,25% em 2023, contra estimativa anterior de 2,65%.  

Os dados divulgados situam a economia brasileira em um nível 7,4% acima do patamar pré-pandemia e a posicionam no ponto mais alto da série histórica. Sem esquecer que o governo Lula não tem o controle da política monetária, que atua na quantidade de moeda em circulação, crédito, câmbio, taxas de juros e liquidez global do sistema econômico, nas mãos de Banco Central “independente”. 

Enquanto o índice de inflação IPCA ficou em 3,16% nos últimos 12 meses, o BC ofereceu títulos públicos pagando 13,75% ao ano, com o ganho dos bancos e das grandes fortunas chegando a 10,59% pontos percentuais ao ano acima da inflação. Nenhum banco central no mundo oferece essa rentabilidade.

Somente na mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) houve redução da taxa básica de juros, a Selic, de 13,75% ao ano para 13,25%, queda de 0,50 ponto percentual, o que ainda mantém os ganhos dos milionários e bilionários garantidos. A taxa de juros nas alturas promove concentração de renda, provoca a perda do valor de compra dos salários e deixa inviável o crédito para consumo e investimento. 

Uma das armas do governo Lula para distribuir melhor a renda dos brasileiros e, consequentemente, aumentar o consumo é a nova regra de correção para o salário mínimo no próximo ano. O projeto da Lei Orçamentária de 2024, que foi enviado esta semana ao Congresso, prevê o mínimo de R$ 1.421,00, R$ 32,00 mais alto que o valor de R$ 1.389,00 proposto na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O valor representa aumento real de 7,7% em relação a 2023. A alta obedece ao retorno da regra de correção automática do salário mínimo, sancionada pelo presidente Lula, que havia sido extinta em 2019.

Indústria

Os desempenhos da indústria (0,9%) e dos serviços (0,6%) explicam o crescimento do PIB no último trimestre, conforme o IBGE. A indústria teve crescimento pelo segundo trimestre seguido, com destaque para a extrativa (1,8%), impulsionada pela extração de petróleo e gás e de minério de ferro, produtos relacionados à exportação.  Como um todo, a indústria segue acima do patamar pré-pandemia, mas não conseguiu superar o ponto mais alto da série histórica, atingido no terceiro trimestre de 2013, durante o governo de Dilma Rousseff (PT).

Para os próximos seis meses, a percepção dos empresários gaúchos para a demanda é positiva, de acordo com a pesquisa realizada pela Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) entre 1º e 9 de agosto com 200 empresas, sendo 45 pequenas, 66 médias e 89 grandes. O índice de expectativas de demanda atingiu 51,4 pontos no mês, ante 52,9 de julho. Valores acima de 50 mostram que os empresários projetam crescimento da demanda, porém, esperam queda do emprego (47,7 pontos), das compras de matérias-primas (49,2) e das exportações (47,1).

Paralelamente a isso, a Sondagem Industrial aponta que o índice de intenção de investimento do setor nos próximos seis meses, que varia de zero a cem pontos e reflete a disposição de investir em máquinas e equipamentos, pesquisa e desenvolvimento e inovação de produto ou processo, pouco se alterou. Passou para 51,8 pontos neste mês, 0,6% acima de julho. A proporção de indústrias gaúchas com intenção de investir atingiu 53,4% do total.

Dos três grandes setores da economia, a agropecuária foi o único a recuar no trimestre (-0,9%). A retração se deve, principalmente, à base de comparação elevada, já que o setor tinha sido o grande motor do PIB nos três primeiros meses do ano.

Com Agência Brasil, Fiergs e IBGE

 

 

Bye bye Ocidente, acena o Sul Global

Uma reunião histórica anunciou uma nova era para o BRICS. O grupo, que anteriormente incluía Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, juntou-se a outros seis países, incluindo Argentina, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Foi a primeira expansão desde 2010 e os novos candidatos deverão ser admitidos como membros em 1º de janeiro de 2024. Formado  em 2009, mesmo antes da recente expansão representava mais de 40% da população total da Terra e um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) global.

O PIB combinado do BRICS expandido, em termos de paridade de poder de compra, será de US$ 65 trilhões. Isto faria com que a participação do bloco no PIB global aumentasse dos atuais 31,5% para aproximadamente 37%. Em comparação, a participação do grupo G7 de economias avançadas está atualmente em torno de 29,9%, com PIB combinado de US$ 49,22 trilhões.

Num extenso documento de 26 páginas, os líderes do BRICS reafirmaram o seu compromisso com o respeito mútuo, a igualdade soberana, a solidariedade, a democracia e a inclusão. Ao mesmo tempo, comprometeram-se a promover o “desenvolvimento sustentável e o crescimento inclusivo”. De acordo com a declaração, os membros também expressaram “preocupação com o uso de medidas coercitivas unilaterais” – aparentemente referindo-se a sanções – que, segundo eles, são “incompatíveis com os princípios da Carta da ONU”, pois produzem efeitos negativos, particularmente nas nações em desenvolvimento.

A 15ª Cúpula do BRICS foi realizada em Joanesburgo, África do Sul, de 22 a 24 de agosto, a primeira cúpula presencial das nações do BRICS desde o início da pandemia de COVID-19. Mais de 60 líderes globais e políticos pesos pesados  foram convidados a participar. Esta cúpula não é apenas a maior em escala desde o estabelecimento do mecanismo de cooperação do BRICS, mas também o maior encontro desse tipo no Sul Global nos últimos anos. Isso reflete as crescentes expectativas colocadas no mecanismo de cooperação do BRICS por mais e mais países.

O tema da cúpula foi “BRICS e África: Parceria para Crescimento Mutuamente Acelerado, Desenvolvimento Sustentável e Multilateralismo Inclusivo”. Por isso, a ampla participação de líderes globais na busca de inclusão, cooperação e ganha-ganha. O grupo BRICS lançou o NDB, o banco do Brics, em 2014 com o objetivo de fornecer financiamento para projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável.

Dmitry Trenin, membro do Conselho de Assuntos Internacionais da Rússia, disse  que o BRICS é frequentemente comparado ao G7. “No entanto, os dois grupos são fundamentalmente diferentes em sua ambição, estrutura e evolução. O G7 é política, econômica e ideologicamente homogêneo, enquanto o BRICS é rico em diversidade em todos os aspectos; o G7 é essencialmente liderado pelos Estados Unidos, tendo os outros, as ex-grandes potências, aceitado inquestionavelmente essa liderança, enquanto no BRICS o peso econômico da China não se traduz numa hegemonia de Pequim. O G7 é globalista no sentido de projetar seus modelos e moral para o resto do mundo, e os países do BRICS estão totalmente voltados para sua soberania nacional. Ao mesmo tempo, o G7 é claramente exclusivo, com o Ocidente claramente acima do resto, enquanto o BRICS é exatamente o oposto.”

Para Trenin, o papel do G7 é preservar a velha ordem na qual o Ocidente é dominante, enquanto a ambição dos membros do BRICS é construir elementos de uma nova ordem mundial mais diversificada e mais equilibrada – primeiro entre si e depois impactar ainda mais a evolução do sistema mundial. “O BRICS não é uma tentativa de criar uma aliança de soma zero. É o núcleo do que se pode chamar de Maioria Mundial que visa o desenvolvimento e não o domínio. O caminho será difícil e não sem oposição, mas, com mais peças do quebra-cabeça afixadas, a fundação de uma ordem mundial mais aberta e inclusiva acabará surgindo.”

O presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva disse durante a Cúpula: “Nós éramos chamados de terceiro mundo, depois cansaram e começaram a chamar de países em vias de desenvolvimento e agora nós somos o Sul Global. Veja a mudança de nome, que pomposo. O que importa é que o mundo está mudando. A economia também começa a mudar, a geopolítica começa a mudar porque as coisas vão acontecendo e a gente vai ganhando consciência de que nós temos que nos organizar.”

O presidente chinês, Xi Jinping, disse que a expansão do BRICS é histórica e um novo ponto de partida para a cooperação. “Demonstra a determinação dos países BRICS em unir-se e cooperar com outros países em desenvolvimento, satisfaz as expectativas da comunidade internacional e serve os interesses comuns dos mercados emergentes e dos países em desenvolvimento.” E acrescentou: “A expansão também injetará nova vitalidade no mecanismo de cooperação do BRICS e fortalecerá ainda mais as forças para a paz e o desenvolvimento mundiais. Enquanto mais os países do BRICS se unirem, muito poderá ser alcançado através da cooperação. Um caminho promissor no futuro aguarda esses países.”

O presidente russo Vladimir Putin disse que o grupo BRICS não quer competir ou opor-se a qualquer outra nação ou grupo, mas, no entanto, enfrenta resistência de países do chamado por ele “bilhão de ouro”, que desejam preservar o seu domínio global.

Falando na cerimónia de encerramento da Cúpula do BRICS na África do Sul através de videoconferência, o líder russo destacou que os esforços do grupo para criar uma nova ordem mundial baseada na multipolaridade têm “oponentes irreconciliáveis” que desejam desacelerar o processo e restringir a formação de centros novos e independentes de desenvolvimento e influência no mundo.

Putin disse que os estados do “bilhão de ouro” fazem tudo o que está ao seu alcance para preservar um mundo unipolar que lhes seja adequado e que lhes seja benéfico. “Eles estão tentando substituir o sistema do direito internacional pela sua própria ordem baseada em regras”, acrescentando que ninguém realmente viu as regras, que estão constantemente sendo alteradas e adaptadas para beneficiar os interesses de países individuais.

O líder russo afirmou, ainda, que a forma como os países operam equivale ao colonialismo, “mas num novo pacote, que, aliás, não parece nada bom”. Para ele, os colonialistas modernos, escondendo-se atrás dos bons slogans da democracia e dos direitos humanos, procuram resolver os seus problemas, continuando a bombear descaradamente recursos para fora dos países em desenvolvimento”, afirmou Putin.

Desdolarização

Além da expansão do BRICS, a redução da dependência do dólar americano também foi foco da cúpula. Putin afirmou que a “desdolarização é um processo irreversível e está ganhando ritmo”.  Os líderes do BRICS incumbiram os ministérios das finanças e os bancos centrais dos seus países de considerar a possibilidade de lançar instrumentos e plataformas de pagamento baseados em moedas nacionais, conforme o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa.

No momento em que os grandes produtores de petróleo, como a Arábia Saudita e o Irã, aderirem ao BRICS, o comércio petrolífero deverá acelerar o processo de  desdolarização, algo que preocupa o Ocidente. Segundo Lula, uma solução deve ser apresentada na próxima reunião do Brics, na Rússia.

Com Agência Brasil, Russian Today e Global Times

Número de milionários cai no mundo e cresce no Brasil

Os dados que compõem o Global Wealth Report 2023 (Relatório de Riqueza Global 2023), do banco suíço UBS, que adquiriu o Credit Suisse em junho passado, mostram o pior crescimento em 15 anos, desde a crise financeira global de 2008. No mundo, a riqueza líquida total privada caiu para US$ 454,4 trilhões. A maior parte da queda foi sentida nas famílias da América do Norte e da Europa, que perderam um total combinado de US$ 10,9 trilhões  no final de 2022.

Ásia-Pacífico registrou perdas de US$ 2,1 trilhões, enquanto a América Latina é o ponto fora da curva com aumento da riqueza total de US$ 2,4 trilhões, ajudado por uma média apreciação da moeda de 6% em relação ao dólar americano.

Os Estados Unidos, que perderam US$ 5,9 trilhões em 2022, lideram a lista de declínios de riqueza. Perdas de US$ 1 trilhão ou mais foram registradas no Japão (-US$ 2,5 trilhões), China (-US$ 1,5 trilhão), Canadá (-US$ 1,2 trilhão) e Austrália (-US$ 1 trilhão).

Ao contrário, o número de milionários cresceu na Rússia – de 351.000 para 408.000, no Brasil – de 293.000 para 413.000, no Irã – de 142.000 para 246.000, no México – de 323.000 para 393.000 e na Noruega – de 247.000 para 352.000.

O Brasil também teve o maior ganho de milionários em números absolutos em 2022. Foram 120 mil, o que fez o número de pessoas que têm ao menos US$ 1 milhão subir para 413 mil – eram 293 mil no ano anterior – 41% de crescimento, segundo relatório anual do banco UBS.

O relatório sobre a riqueza familiar global aponta que o número de super-ricos, com patrimônio acima de US$ 50 milhões, também caiu, com 22.490 membros a menos no ano passado em relação ao anterior.

De certa forma, os números divulgados esta semana refletem a crise do capitalismo e sua crença fundamental na concentração da renda acima de tudo, às custas da miséria do sul global. Também o final do ciclo Bretton Woods, que no pós-Segunda Guerra Mundial estabeleceu os principais contornos do sistema monetário mundial baseado no dólar, com os Estados Unidos assumindo a hegemonia do mundo.

Um mundo unipolar com seu modo de governança global que desafia a diversidade do mundo moderno e a ascensão de outros estados não ocidentais é coisa do passado, mesmo sendo prematuro definir qual será a estrutura de uma futura ordem mundial multipolar.

Infelizmente, o aumento de milionários no Brasil não significa maior distribuição de renda. Ainda convivemos com questões econômicas do século XVIII, onde os fisiocratas seguidores de François Quesnay, colocavam a agricultura no centro de seu sistema econômico, como fator gerador de riqueza.

Defendiam a ideia hoje ultrapassada de que a economia poderia funcionar por si mesma, sem a interferência excessiva do estado. Cunharam a expressão laissez-faire, laissez passer, que passou a identificar a política de não intervenção na economia. Eles foram a transição do mercantilismo que via a riqueza nos elementos naturais (metais e pedras preciosas), no acúmulo de superávits comerciais.

E assim ainda estamos hoje com nosso Congresso dominado por representantes dos fisiocratas, dos  mercantilistas e mais a bancada da bala. Ainda somos uma grande plantation, um modelo muito antigo em que se destacam quatro aspectos principais: latifúndio, monocultura, mão-de-obra escrava e produção voltada para o mercado externo, pouco importando a fome de mais de 30 milhões de brasileiros.

No entanto, as expectativas para os próximos anos são positivas, conforme o UBS. O relatório diz que, apesar da queda no número de milionários em todo o mundo, a riqueza global, que é medida em posses pessoais de ativos — desde imóveis até ações —, deve aumentar 38%, atingindo US$ 629 trilhões até 2027. O crescimento dos países de renda média será o principal impulsionador das tendências globais, incluindo os países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).