Autor: Elmar Bones

  • Passamos a ser exemplo

    * Eng.Vitor Bertini
    O sucesso do movimento dos moradores do bairro Moinhos de Vento e da Marquês do Pombal pela preservação do túnel verde da rua deve ser colocado como exemplo de defesa de interesses legítimos e de resultados, sem radicalismos de ambos os lados envolvidos. A primeira reação das pessoas, surpresas e assustadas com início do corte radical das tipuanas, foi de revolta, de protesto veemente para impedir que a destruição alcançasse um ponto irremediável. O momento seguinte, no entanto, se caracterizou por uma atitude positiva que ganhou receptividade no bairro e na cidade e sensibilizou as autoridades municipais, desde o Prefeito, até os responsáveis pelas obras do conduto forçado Álvaro Chaves.
    Partiu-se, então, para a busca de uma solução que analisou, em primeiro lugar, a possibilidade de colocação dos dutos, sem a quase eliminação das árvores. Diante do fato de não ser viável esta alternativa, apontou-se para o estudo técnico de desvio das obras por um outro trajeto. Foi o que terminou acontecendo.
    O envolvimento das comunidades na solução de uma questão pontual e que mexe com o seu dia a dia torna-se cada vez mais comum, à medida que as pessoas exercem a plena cidadania. Nem sempre, entretanto, as reivindicações se preocupam na construção do caminho desejado, ou de abrir um diálogo com o causador do transtorno, ou com quem decide uma nova obra, ou serviço reivindicado. Assim, o outro lado achará desculpas mais fáceis, ou terá poucos argumentos para mudar a decisão anterior.
    A avaliação do fato que faço, com a visão de gestor público que fui até poucos dias atrás e de ativo participante desta causa de preservação das árvores, é de que as duas partes podem se sentir vitoriosas. Por isto, aponto o “case” tipuanas da Marquês do Pombal como paradigma. Não dá para aplicar aqui o ditado de que um negócio é bom quando satisfaz os dois lados, porque não se tratou de aspectos comerciais ou financeiros, mas de uma manifestação de amor à natureza e à beleza da cidade que conseguiu ampla receptividade, graças aos nossos esforços e união. Parabéns a todos nós e principalmente aos moradores da Marquês.

  • De esposas a matronas

    Luciana Kaross*

    A tradução teatral, assim como a tradução de poesia, é a que tem proporcionado maiores oportunidades de debate. As divergências em relação à adequação dos textos traduzidos, quando comparados ao original, demonstram o quanto ainda é preciso estabelecer parâmetros para avaliar as traduções de textos teatrais. As críticas mais contundentes parecem esquecer que a tradução teatral tem dois objetivos distintos: a publicação e a encenação.

    A peça The Merry Wives of Windsor, de William Shakespeare, que a coleção L&PM Pockets disponibilizou em meados no ano passado com tradução de Millôr Fernandes parece perfeita para ilustrar o que acabei de afirmar. Poder-se-ia começar uma análise comparativa pelo título escolhido pelo tradutor: as Wives (esposas em inglês) ganharam muitos e muitos quilos e tornaram-se matronas em seu As Alegres Matronas de Windsor, mas a questão do título é a menos intrigante.

    De todas as diferenças – e elas foram muitas – que pude anotar entre o texto original e a tradução, o que mais chama atenção foi a citação de personagens historicamente distantes no tempo. A personagem Simple se apresenta invocando o nome de Henrique Oitavo. Ora, esta peça é protagonizada por John Falstaff, contemporâneo de Henrique IV, pois Falstaff aparece na peça que leva o nome do rei. Da coroação de Henrique IV à coroação de Henrique VIII há um lapso de tempo de 110 anos. Sendo assim, a personagem não só não conhecia a fama de Henrique VIII como também não poderia supor sua futura existência.

    Apesar disso, a tradução é bem escrita e tem coerência interna. As piadas remontam ao gosto brasileiro, ainda que haja dois ou três exageros na comicidade. Quando observada com lupa, a tradução de Millôr Fernandes está recheada de pequenos pecados que não comprometem a publicação. Talvez o pecado maior tenha sido colocar o termo tradução na capa quando o mais adequado seria adaptação.

  • Um planeta alérgico e os falsos milagres

    Ricardo de Paula*

    Prevenção e consciência sobre riscos inerentes ao charlatanismo são cruciais na abordagem das alergias.

    Asma, rinite, os gravíssimos choques anafiláticos, alergias alimentares, à lã, ao látex e a várias substâncias, as provocadas por poeira, ácaros, fungos e baratas, suas características, conseqüências, prevenção e tratamento. A sociedade convive cotidianamente com esses problemas, que afetam grande número de habitantes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as alergias acometem aproximadamente 30% da população mundial. Segundo o Ministério da Saúde, 35% da população brasileira, ou 66 milhões de pessoas, têm doenças alérgicas.

    Um exemplo é a asma, que atinge 16 milhões de habitantes no Brasil e é a quinta maior causa de internações no Sistema Único de Saúde (SUS).  Segundo artigo publicado no site da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo), a doença atinge de 150 milhões a 300 milhões de pessoas no mundo e consome parcela importante dos recursos da saúde. Estima-se que 15 milhões de portadores percam, periodicamente, um ano de vida saudável. Desde 1980, a ocorrência de asma cresceu 60% nos Estados Unidos, onde o problema consome US$ 6 bilhões por ano em assistência médica e atinge 11% da população.

    É uma proporção semelhante à encontrada no Brasil. Calcula-se que 11,4% dos brasileiros tenham asma e um em cada três apresente alguns sintomas da doença, como dificuldade de respiração e “chiado no peito”. Os dados corroboram informações do ícone “Dicas” do site da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (Asbai): “No País, a asma é responsável, anualmente, por 400 mil internações hospitalares e dois mil óbitos”, grande parte ocorrida em razão do desconhecimento da doença, falta de programas de prevenção e dificuldade de acesso aos serviços médicos especializados.

    As estatísticas relativas ao aumento dos casos de asma nos Estados Unidos provavelmente refletem a maior agressão por alérgenos, num mundo com meio ambiente cada vez mais comprometido e condições de vida prejudicadas pelo estresse e crescente contato com alimentos e produtos com maior índice de ingredientes químicos. Assim, torna-se fundamental difundir amplamente informações sobre alergias, as principais formas de prevenção e os tratamentos adequados. Infelizmente, contudo, campeiam, em proporção desmedida, informações equivocadas, “tratamentos” miraculosos, “curas” por meio da medicina alternativa (e nem sempre legal!), produtos “antialérgicos naturais” (nem sempre fidedignos!) e outros tantos problemas que desviam a população do foco científico correto. Mais do que nunca, a alergia é objeto dos “falsos milagres”.

    Diante de estatísticas tão relevantes, dos problemas acarretados para a população, dos custos que o problema representa para o sistema de saúde, é imprescindível a prevenção, que pode ser feita por meio de melhor orientação da sociedade e de cuidados simples a serem adotados no dia-a-dia por pessoas alérgicas e no seu ambiente doméstico e de convivência. Mais do que nunca, o conceito de saúde, muito além de se caracterizar unicamente como a cura de doenças, deve ser entendido no contexto de um processo mais amplo e correto, de prevenção e vida saudável. Tal enfoque é muito melhor para a população e o País, refletindo-se num ganho em termos de qualidade de vida.

  • A irredenção da Redenção


    Fraga*
    Passo a passo, o maior triângulo escaleno verde da cidade está virando um saara urbano. Para perceber o que se passa, só cabisbaixando a visão.
    Passo a passo, passa a população por cima de cada último centímetro quadrado de cada derradeiro trecho gramado.
    Passo a passo, as mínimas áreas verdejantes, que deveriam ser espaços preservados com o mais simples paisagismo, vão ganhando perimetrais feitas por átilas calçados.
    Passo a passo, aquele preguiçoso cacoete de pedestre, o de cortar caminho para não ter que controlar a ansiedade, está recortando o que resta das gramíneas.
    Passo a passo, ando por lá e faço o cálculo desanimador: os pés que aparam não vão parar enquanto houver a menor chance de abreviar caminhadas, corridas, passeios, perambulações.
    Passo a passo, o que era para ser intransitável recebe o trânsito incessante de sapatos, tênis, botas, coturnos, sandálias, chinelos, pés descalços.
    Passo a passo, sob árvores frondosas e arbustos baixos e galhos que tentam impedir a abertura de novas trilhas, avança a desertificação daquele solo que na minha infância, logo ali nos anos 50, era um mar vegetal.
    Passo a passo, numa pressa mal pressentida pelos passantes, diminuem as folhas da relva, e ninguém avalia a sua própria participação no pisoteamento desse patrimônio.
    Passo a passo, as sobras do tapete do Parque Farroupilha agonizam sob solas, sem folga para a fotossíntese, sem intervalos do massacre esmagador.
    Passo a passo, se torna impossível a tarefa da impassível administração municipal, de devolver à paisagem a imagem do passado.
    Passo a passo, multidões avulsas rasgam rotas arenosas sobre os restantes nacos verdes, e enquanto circulam, aos pares ou em grupos, deixam no ar conceitos ecológicos e de cidadania, em contraste com o rastro insensível no chão.
    Passo a passo, desvio da hipocrisia. Aqui e ali, tufos ainda não amassados se encolhem. Temem os domingos no parque.

  • Memória e Esperança: Passeio Cultural do Petrópolis Vive

    Petrópolis Vive – petropolisvive@portoweb.com.br

    O Passeio começou no “centro” do Bairro, na escadaria da Igreja São Sebastião, de frente para o novo prédio, bonito, que ocupa o lugar do saudoso e charmoso Cinema Ritz, tão caro aos que cresceram em Petrópolis.

    Aqui se delimita o “fim da linha do bonde”, até hoje mencionado como uma referência. Até os anos sessenta, o bonde era o principal veiculo do bairro. Na verdade, eram dois os fins da linha do bonde: o da João Abott, na esquina do mesmo nome, e o de Petrópolis, ali pela esquina com a Carazinho, ligado ao primeiro por um único trilho. A gurizada às vezes “roubava” o bonde e o conduzia até a João Abott e de volta à Carazinho, para desespero do motorneiro que se distraíra tomando um cafezinho na esquina. Nos álbuns da memória andam de bonde os guris irrequietos e os quietos, que aproveitavam para ler, enquanto subia devagar o morro o “Jabuti”, assim chamado porque nele estava escrito”J.Abott”.

    Aqui ainda é o centro de Petrópolis, pela presença da Igreja, do Colégio, dos Bancos, do Supermercado, das “Fruteiras”, Padarias, Barbearias, Ferragens, Lojas de Vestuário, Miudezas, etc. Aqui ainda circulam e se encontram velhos e novos amigos, que resistem e sobrevivem à travessia diária entre “os dois lados” da Protásio e os seus rios de tráfego.

    Ainda são vizinhos a Igreja, o Colégio e o fantasma do Cinema, que começaram juntos lá ambaixo na esquina da Carazinho com a João Abott. Naquela época, o novo prédio da Igreja buscava ampliar o sustento para pagar sua própria construção com a renda do Cinema Petrópolis e o Santa Inês ainda era um conjunto de quatro salas junto ao salão paroquial, no térreo do cinema. Isso até os anos cinqüenta.

    Depois desse reconhecimento inicial, os caminhadores se dirigiram para a Carazinho e a Av. Caçapava, para chegar ao Parque Tamandaré, conduzidos pelo fio da memória inscrito no livro “Memória dos Bairros: Petrópolis”, de Renata Lerina Ferreira Rios e Maria Augusta Quevedo. Foi o pessoal do Tamandaré, na pessoa da Sra. Clarice Krauss, que conseguiu no Orçamento Participativo a realização do livro que recolheu esses traços de memória que acompanharam o Passeio. O Passeio também foi acompanhado pela representante da Ver. Sofia Cavedon, moradora de Petrópolis.

    Nessa tarde, o Parque sediava uma concorrida festa de São João, com a providencial fogueira à espera do seu momento. Lembramos que uma tradição de Petrópolis foi por muitos anos as festas de São João realizadas nas ruas, até com fogueirinhas! Algumas eram famosas.

    Foi interessante a comparação do ambiente atual com o antigo, onde bem antes havia o Lago Tamandaré. Do qual resta hoje uma área alagadiça, que parece insalubre aos moradores. Mas a natureza estava ali, nós chegamos depois. E o olho d’água persiste. Talvez ali pudessem ser plantadas algumas corticeiras-do-banhado, árvore nativa que dá belas flores e gosta de solo úmido.

    Enfim de volta à Protásio e ao presente, percorremos o trecho entre a Igreja São Sebastião e a Vicente da Fontoura, onde a Smam plantou no canteiro central uma renque de mudas de ipês-brancos e jacarandás. Aproveitamos para conversar com comerciantes e moradores e distribuir um folheto incentivando a rega das mudas. Nessa fase, o maior fator de perda das mudas é a falta de água. A falta de chuva por cinco a sete dias, dependendo do clima, pode ser fatal. Por isso, a carinhosa adoção por parte dos vizinhos, com um balde de água, é decisiva.

    Os caminhantes foram muito bem acolhidos e tiveram a grata surpresa de saber que algumas pessoas já tinham iniciado a rega das mudas, como um moço de fala castelhana, dono de um salão de beleza próximo à Igreja e o “Paulão”, muito popular entre a Ijuí e a Borges do Canto.

    Ainda deu um tempinho para apreciar o marco de pedra na pracinha Toniolo, onde havia uma placa de bronze (roubada) festejando sua inauguração, à qual compareceu o próprio Presidente da República: Getúlio Vargas!

    Cansados e felizes, sentido-se mais integrados à história do Bairro e contentes por ter contribuído com o seu futuro, os caminhantes descansaram à sombra das velhas paineiras, na subida da Protásio, admirando o por-do-sol e sorvendo um merecido chopp.

  • As garras do FMI

    Vilson Antonio Romero *

    O Fundo Monetário Internacional (FMI), juntamente com o Banco Mundial, é continuamente criticado pela ingerência na economia dos países emergentes. Antes do atual governo, elogiado como nunca pelo organismo, retumbava pelas ruas o slogan “Fora FMI!”. Pois o Fundo, criado em 1945, de acordo com seus estatutos, zela pela estabilidade do sistema monetário internacional, através da cooperação e do acompanhamento da situação político-econômica de seus 184 países membros, buscando evitar que desequilíbrios nos balanços de pagamentos e nos sistemas cambiais destes países possam prejudicar a expansão do comércio e dos fluxos de capitais. Constitui-se, na realidade, no grande xerife e pronto-socorro financeiro mundial, emprestando recursos para nações que atravessem dificuldades na sua contabilidade interna e externa e monitorando programas de ajustes estruturais.

    O Brasil é país membro fundador e possui hoje 1,47% do poder de voto no FMI. Nos anos 80, em razão da crise da dívida externa e de delicada situação do balanço de pagamentos, o Brasil teve de solicitar empréstimos e cumpriu vários programas de ajuste econômico monitorados pelo Fundo. Recentemente, o Banco Central antecipou pagamentos e zerou o saldo do último empréstimo “stand by”.

    Às vésperas de nova eleição presidencial, o Conselho Executivo do Fundo divulga um relatório onde elogia a atuação do Banco Central, mas mostra as garras e sugere “reformas estruturais ambiciosas”, alcançando as áreas tributária, previdenciária, administrativa e trabalhista, entre outras. Recomenda a eliminação progressiva dos impostos sobre transações financeiras, o aumento da eficiência do setor público, a maior abertura da economia na área comercial, melhorias na intermediação financeira, a contenção dos gastos públicos, no médio prazo, a redução das despesas com a Previdência e a desvinculação de receitas orçamentárias, como algumas das medidas para superar eventuais turbulências do mercado internacional. O FMI considerou que o “mais importante desafio” neste momento seria eliminar fatores que possam obstaculizar o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto).

    O Fundo também menciona a necessidade de redução das taxas de juros, de aumento de produtividade, além de professar a autonomia do Banco Central. Recomendando a consolidação da estabilidade macroeconômica e a política econômica em nível institucional, observa que a reforma da legislação trabalhista se insere no conjunto de recomendações que “têm um papel importante na diminuição da informalidade no mercado de trabalho e, como conseqüência, promovem a produtividade e o crescimento”. Como se vê, os palanques presidenciáveis desta Nação dependente dos organismos financeiros internacionais devem atentar para os sinais que vêm de Washington e preparar o futuro governante para os ajustes que lhe serão cobrados.

  • Felicidade na Íntegra

    Christian Lavich Goldschmidt*

    A Felicidade é o sentimento que mais fortemente move nossas ações cotidianas em prol de uma vida plena, e que, portanto, traça os rumos de nossa trajetória planetária. “Felicidade na Íntegra” foi um evento organizado pela Fundação Gaia – Legado Lutzenberger, que se propôs a ressignificar a vida de cada um pelo bem da vida de todos.

    No Japão, a Flor de Adonis (Adonis amurensis) começa a desabrochar após suportar as severas condições do inverno e, devagar, gera delicados e graciosos botões amarelos, os quais, conforme a sabedoria popular, atraem a felicidade e a prosperidade. O simbolismo dessas flores contém uma lição para nós: precisamos prestar mais atenção na natureza e tirar dela os exemplos para ultrapassarmos as dificuldades da vida.

    Assim como a Flor de Adonis desabrocha após o rigoroso inverno japonês, devemos entender que, aquilo que, à primeira vista, pode parecer sofrimento ou infelicidade, na realidade não passa de um teste ou treinamento, fundamentado numa profunda consideração do que é melhor para cada um de nós.

    Só nossa atitude diante de treinamentos sob a forma de dor e sofrimento, é que determinará o quanto seremos felizes ou não. Algumas pessoas aceitam o sofrimento de forma positiva e são capazes de superá-lo, enquanto outras respondem de maneira negativa e se abandonam ao desespero. Muitas vezes, a dor e o sofrimento nos treinam a fim de que possamos alcançar a verdadeira felicidade.

    Devemos lembrar que a gratidão sincera é o segredo para ultrapassarmos todos os testes que encontrarmos na vida. Por isso é tão importante que sejamos gratos a tudo e a todas as formas de vida do planeta. Como a busca pela felicidade é o que nos influencia e nos rege, devemos nos focar na melhor maneira de adotar um modo de vida coerente, de acordo com os princípios ecológicos, se assim o fizermos, não será necessário entregar-se à preocupação quanto ao futuro distante. Nossas ações do presente nos garantem e nos conduzem à um futuro tranqüilo e feliz!

    O mundo está se transformando a todo instante e, nesse sentido, tudo no universo é efêmero e mutável, com isso, é vital que nos lembremos que em muitas regiões do planeta há pessoas enfrentando dificuldades extremas, lutando para superá-las. Precisamos fazer tudo o que pudermos para ajudar aqueles que sofrem devido a doenças, pobreza, conflitos e desastres. Então, o sofrimento e a infelicidade não durarão para sempre.

  • Os pais frente ao uso de drogas

    Jonatas Bervanger Oscar *

    Segundo autores especializados em substâncias psicoativas (SPA), as principais causas do uso de drogas incluem: a falta de amor, o sentimento de abandono e as inter-relações entre estes dois. Também percebemos uma dificuldade da família em impor limites, fazendo com que a criança desde cedo entre em contato com as regras que regem nossas relações sociais, aprendendo esta lição primeiro em casa. Se isto não fica claro, o adolescente reagirá de forma negativa as frustrações advindas do seu dia-a-dia.

    Existem dois tipos de atitudes que podemos tomar em relação aos nossos filhos. Em primeiro lugar estariam as previdências, isto é, o ato de educar um cidadão (ser humanizado), uma pessoa com consciência dos limites, do que é respeitar os outros e do que é se respeitar, noções que facilitam o nosso convívio com os outros e principalmente consigo mesmo. Em segundo lugar, estariam as providências, que são atitudes a serem tomadas se o seu filho já é um usuário de SPA.

    Dentro destas providências, a primeira é averiguar se o seu filho é um usuário ou um abusador de SPA (neste quadro ele já estaria bem próximo à dependência química). Após, é importante esclarecer sobre o que são drogas e as conseqüências de quem usa. O mais importante, caso ele se enquadre como dependente químico é tratá-lo como alguém portador de uma doença severa e que geralmente perde seu senso de responsabilidade. É o momento de buscar ajuda profissional e de levar este assunto muito a sério.

    Quanto mais rigor houver no trato deste tema em casa, mais acolhido se sentirá o jovem que passa por este problema, é necessário fazer uso do que muitos técnicos desta área chamam de “amor-exigente”. Não existe meio termo para lidar com a dependência química, pois não existem, até aonde se sabe, benefícios advindos do abuso de drogas. Retornamos assim ao que falávamos no começo deste tema, a importância do amor na recuperação de uma pessoa que passa por uma dificuldade com algum tipo de adição.

  • O azar de Parreira

    André Klaudat*

    Poder-se-ia pensar que o que Parreira teve até agora, após quatro jogos da copa na Alemanha, foi sorte. Essa sorte, no entanto, acredito, quase não há. Um desempenho e um resultado – e eles podem, é certo, ser diferentes quanto à qualidade – não vêm sem planejamento, preparação, habilidades, estratégia, atitude, cultura, equipe, ou seja, tudo o que se resume com “é preciso ter time”. Portanto, o azar de Parreira de que quero falar não pode ser esse de quem pensa que ele teve sorte.

    Poder-se-ia pensar que o que falta a Parreira é inteligência. Ou coragem. Ou os dois. Pois, simplesmente, não é possível alguém não conseguir montar um bom time com os jogadores que a nação brasileira pôs à disposição do nosso técnico. Além disso, pensar-se-ia, com material humano muito mais pobre Parreira mesmo montou um time que funcionou em 1994. Portanto, Parreira teria tornado-se menos capaz, ou seja, ficado burro. Quanto à coragem, como não escalar Robinho, Juninho Pernambucano, Gilberto Silva, e talvez ainda Cicinho e o Gilberto do Hertha Berlin? Quanto à combinação de falta de inteligência e coragem, as considerações para tanto exploram esses dois pontos e seriam as seguintes.

    Em 1994, Parreira montou um time com um perfil bem definido e com uma estratégia clara. Tinha um meio de campo forte com dois jogadores de grande poder de destruição – Dunga e Mauro Silva – e dois jogadores táticos de “povoamento” e controle desse mesmo meio de campo – Zinho e Mazinho (vale a pena lembrar: Parreira começou com o Raí, que era até capitão no primeiro jogo, e não deu certo). Resultado: os outros times não conseguiam jogar na nossa parte do campo. Além disso, Parreira tinha um Bebeto em plena forma que “flutuava” e servia o Romário, encarregado de ocupar ou invadir a área adversária. A estratégia era atrair o inimigo para o nosso campo, em função de uma postura defensiva, roubar a bola e atacar com rapidez. Parece mesmo que funcionou muitíssimo bem, especialmente levando-se em consideração o peso quase que insuportável dos vinte e quatro anos sem título. E o Romário não foi goleador daquela copa junto com seu companheiro de Barcelona Stoichkov por falta de… – o que será que faltou mesmo ao Romário na final?

    O que temos até agora é que Parreira foi inteligente e até corajoso em 1994. Em 2006, no entanto, há alguns fatos a nos saltarem aos olhos. A contar pelas evidências dos quatro primeiros jogos – e alguns dirão “não é o caso no segundo tempo do jogo contra o Japão e nem nalguns momentos no jogo contra Gana”, ao que outros responderão “não queiramos tapar o sol com a peneira” – são fatos: 1) Ronaldo e Adriano não vão bem juntos. Eles têm tendências similares, acabam por ocupar os mesmos espaços e às vezes se atrapalham um ao outro. Sem falar que não conseguem jogar um com o outro (o primeiro gol do Adriano parece mesmo confirmar isso). 2) A parte defensiva do meio de campo está sobrecarregada. O Zé Roberto e o Émerson, nos jogos decisivos, estão se arrebentando para dar conta do recado minimamente bem. E agora até mesmo os zagueiros já estão mais expostos e tendo que suar a camiseta.

    Relacionado com isso está que o Ronaldinho Gaúcho e o Kaká não cumprem bem funções defensivas e, não obstante, estão posicionados de forma bastante recuada. Isso faz com que num número excessivo de vezes o Zé Roberto e o Émerson tenham que armar jogadas e até ir à frente (embora o Zé Roberto tenha feito um gol, já vimos no que isso normalmente dá). A conclusão principal dos dois fatos é que o tal do “quadrado mágico” não está funcionando. O golpe de misericórdia seria o seguinte: “o Parreira não tem inteligência para perceber isso?” E daí vem: “e fazer alguma coisa a respeito, como mudar o time?” É hora de trazer à cena o azar de Parreira.

    Gostaria de registrar o quão importante considero reconhecer os fatos. Os fatos apontados acima são mesmo fatos e são tais que se nada for feito para alterá-los nós com muita probabilidade não ganharemos a nossa sexta copa – a não ser com lances de exceção do quais alguns dos nossos jogadores são capazes. O problema do atual time titular é o azar de Parreira: ele dispõe de um conjunto de jogadores extremamente talentosos que não combinam numa disposição tática eficiente. E não se trata de uma questão de inteligência ou coragem. Parreira tem inteligência para saber o que está acontecendo. E a sabedoria para não aviltar um dos pilares da cultura futebolística brasileira: ele não quer se sobrepor aos nossos talentosos jogadores.

    Ele está com a ingrata tarefa de fazer jogar todos esses craques que todos os brasileiros sabem que são ótimos jogadores. Até agora Parreira tem agido com inteligência, o que lhe é característico. Tem procurado jogar com os jogadores que todos acreditam que deveriam formar um time imbatível. Parreira quis recuperar o Ronaldo, que teve seus problemas e parece ser considerado um jogador muito importante nesta campanha de 2006. A recuperação tem acontecido nalguma medida. Mas não estão bem o Adriano e o Ronaldinho Gaúcho; o Kaká parece ser a má-consciência em campo da equipe e pode jogar melhor.

    Parreira sabe que o time não esteve bem, que melhorou um pouco, que teve alguns lampejos e que deverá melhorar mais, ele conhece o processo e reconhece a importância da evolução dentro de uma competição como a copa. Ele sabe também que substituições voluntaristas, como a introdução definitiva no time do verde Robinho, não funcionam no curto prazo. Parreira espera conseguir formar um time vencedor durante a copa. O problema está em ele conseguir fazer algo com a sua sorte: esse seu azar. O meu palpite é o de reforçar o meio de campo e ter uma saída de bola mais rápida para o ataque. Mas como? E afinal formar uma liderança em campo, que Parreira acredita que teria que ser o Ronaldo, embora ele também já tenha mostrado ter alguma esperança com o Ronaldinho Gaúcho. Funcionará? O Cafu está mais para reserva moral do time.

    Uma observação final sobre os elementos psicológicos no futebol. Poder-se-ia apresentar como atenuante a excessiva pressão que estão sofrendo os nossos jogadores, por termos sido considerados os favoritos e por conta da nossa imprensa futebolística. A tensão estava claramente presente no primeiro jogo. Elementos psicológicos são decisivos no esporte, inclusive no futebol, embora nesse os efeitos possam ser diluídos entre mais participantes. É sempre perceptível aquela falta de segurança no que fazer, em presumir onde estão os companheiros ou o que eles farão. E quando levarmos um gol de um time mais poderoso? Esses problemas, no entanto, são superáveis, o que precisamos é ter time, senão…

  • A Escola e a Religião

    Vereadora Clênia Maranhão*

    A religiosidade deve ser compreendida como direito humano essencial, exercida sem constrangimento e não como permissão do Estado. A temática da liberdade e do exercício da religiosidade ainda não tem a mesma visibilidade que outras lutas por direitos e talvez por isto não possa ser compreendida rapidamente sua importância.

    A III Conferência Mundial da ONU contra o racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata, ocorrida em Durban, África do Sul, em 2001, reconheceu que a religião e a espiritualidade desempenham papel central no modo de vida de milhões de pessoas.

    Na sociedade brasileira atual já vivemos inúmeras lutas dos direitos civis e liberdades políticas. É hora de avançarmos com pequenos gestos que apontem o respeito à opção religiosa de cada ser humano. E há um local perfeito para semearmos mais esta empreitada democrática: as instituições de ensino.
    As escolas devem estar atentas às peculiaridades dos alunos para que eles não enfrentem orientações contraditórias: a da família, indicando por um caminho religioso, e a da escola, direcionando para outro rumo. Esta realidade tem motivado debates sobre programas de ensino, permanência em salas de aula e obrigações de assiduidade.

    Tendo em vista estas reflexões, apresentei na Câmara Municipal de Porto Alegre, em abril de 2005, Projeto de Lei sugerindo uma modificação nos gestos cotidianos das instituições de ensino. Trata-se de dar ao aluno uma segunda oportunidade de realização de exames e atividades curriculares que sejam elementos de avaliação do desempenho escolar, sempre que haja coincidência com períodos de guarda religiosa. O Legislativo porto-alegrense compreendeu a importância do tema e, para minha alegria, aprovou o projeto por unanimidade.

    A educação deve ser um fator essencial na formação do entendimento e da tolerância. A escola que construir oportunidades de expressão religiosa e orientar seus educandos para a necessidade do diálogo inter-religioso estará contribuindo para a pluralidade e a tolerância, em uma sociedade cada vez mais diversificada e complexa.