Em 1964 também diziam que não era golpe. Era “intervenção preventiva”.
O jornal o Globo (a Rede ainda não existia) saudou a “Democracia restaurada” quando o senado declarou vaga a presidência e empossou Rainieri Mazzilli, presidente da Câmara, no lugar João Goulart, o “presidente afastado”.
Um governo de salvação nacional seria instalado, eleições seriam convocadas, a normalidade democrática seria restabelecida.
O Globo era o porta voz desse discurso. A crise militar se seguiu, a linha dura se impôs, a ditadura mostrou a sua cara. A Globo se cevou à sombra desse descaminho. Foi a rede oficial do regime, enaltecendo-lhe os feitos, mascarando os mal feitos.
É o papel que assume hoje em relação ao impeachment e ao governo Temer. Até agora parece bem sucedida e é clara sua aposta no governo Temer para voltar a florescer à sombra do oficialismo.
O problema é que estamos em 2016. E, segundo dizem alguns, a história só se repete como farsa.
Categoria: Análise&Opinião
A Globo e o golpe
O gravador do Machado
PINHEIRO DO VALE
O gravador do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, está causando mais sucesso que o gravador do Cacique Juruna.
Quarta-feira ele quase botou fogo no circo quando foram publicadas as transcrições de suas conversas com o presidente do Senado Federal, senadorRenan Calheiros (PMDB/AL).
A tática de Sérgio Machado é tão parecida que até parece plágio da tática do célebre cacique da tribo dos Xavantes para embaraçar e comprometer seus interlocutores.
Nos seus contatos com autoridades, Juruna (que depois chegou a deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro)acionava o aparelho e usava as transcrições como documento para comprovar a desfaçatezdesses funcionários e governantes que, certos de sua ingenuidade, prometiam tudo e depois davam as costas.
Com tudo na mão, certo dia o cacique apareceu em Brasília e exibiu suas provas à imprensa. Foi um grande escândalo de mídia. Jornais botaram a boca do mundo; as tevês deram espaço.
O Cacique Juruna virou uma celebridade. Com seu gravador escancarou a hipocrisia e a má fé dos ativistas da FUNAI que, nas cidades, se pavoneavam como defensores das causas indígenas.
O mesmo se repete agora com o Gravador do Machado. O ex-diretor da subsidiária da Petrobrás pegou sua maquininha e foi à luta. Procurou os manda chuvas, gente envolvida em captações para campanhas políticas, todos poderosos que lhe deviam favores e, com grande habilidade, arrancou deles falas comprometedoras.
Quando o Lava Jato virou sua mangueira em cima dele, abriu o bico e deixou a todos na saia justa. Embora as conversas não tenham muita profundidade, deixam claro ao bom entendedor que ali se ouvia apenas a pontinha do iceberg.
Derrubou um ministro de primeira linha e botou o governo do presidente interino Michel Temer na defensiva.
O mesmo pode-se dizer do vazamento de Renan Calheiros. As críticas do senador à delação premiada não emocionam muito, mas o antagonismo do Supremo em relação à Dilma pode abrir um leque de suspeições.
Afinal, naqueles dias, o STF indeferiu muitos pedidos de liminares dos advogados da presidente.
No mínimo pode-se perguntar: quanto de má-vontade e de despeito poderiam conter as decisões dos ministros?
O tsunami vem aí. Dizem que a próxima gravação de Machado vai pegar o ex-presidente José Sarney, que também foi um dos chefes peemedebistas que abandonou Dilma, mandando seus seguidores votarem pelo impeachment. O voto do ex-ministro Edson Lobão é a prova mais contundente.
Por fim, vale destacar a pérola dessa fita, no trecho em que Renan Calheiros diz, embora de forma incompleta, que estava sendo negociada uma saída com o ex-presidente Lula.
Pelo que se entendeu da conversa, Lula assumiria o poder, seria um chefe da Casa Civil com formato de primeiro-ministro. Pois é: Dilma perdeu o bonde. Se abrisse espaço para o ex-presidente certamente ainda estaria despachando no Palácio do Planalto.O mistério do vazamento
PINHEIRO DO VALE
O mistério da República é localizar a quem interessava detonar o ministro do Planejamento de Michel Temer, o senador roraimense Romero Jucá, com a divulgação do conteúdo de conversas embaraçosas entre ele e um aliado há mais de três meses.
Deitar na lona um peso pesado como Jucá é uma proeza de múltiplos resultados, todos negativos para o governo recém-instalado.
Não obstante estar envolvido em fase de indiciamento em sete processos tramitando no Supremo, Jucá emergia no colégio de cardeais, não era membro da banda do baixo clero no ministério Temer.
Ao contrário, o senador nortista faz parte da banda virtuosa do gabinete peemedebista, ao lado de Henrique Meirelles. Wellington Moreira Franco e outros astros do segundo escalão, como Pedro Parente. Pois não é que ele caiu de quatro logo ao levar o primeiro tiro?
De fato, Jucá não era tão ficha limpa assim como se pintava na nova imagem, pois desde sempre, como político dos fundões remotos, construiu lá carreira passando por cima de obstáculos que, no Sul, já teriam acabado com ele há muito tempo.
No jovem estado de Roraima esses tropeços não passavam de pecadilhos. Não adiante se espantar: o Brasil é assim.
Antes de cair nas malhas dos templários de Curitiba, Jucá já passara pelos incômodos do fisiologismo da política naquelas bandas, envolvido numa negociata de desvio de madeira de terras indígenas quando ainda de sua estreia na esfera federal, como simples e jovem presidente da FUNAI.
Na Justiça o processo se extinguiu por prescrição. Na política foi absolvido com a alegação então aceita de que a madeira não era dele, o dinheiro foi para o partido, com os apoios decorrentes foi catapultado para o governo do Estado e daí para a arena nacional na Câmara, no Senado e, desta feita, num ministério de primeira linha.
Tudo isto para dizer que Jucá não é pouca coisa. Quem olhasse sua posição até a noite de domingo diria que se tratava de uma nova estrela no firmamento. Deixava obscuras bancadas periféricas para se lançar como teórico da economia, gestor de primeira linha, articulador político de alto desempenho, conselheiro de pé de ouvido do presidente. Ou seja: um manda chuva.
Já se sabe que a gravação era parte do material da delação premiada de seu interlocutor, o ex-presidente da Transpetro, empresa subsidiária da Petrobrás, Sérgio Machado, já nas malhas do juiz Sérgio Moro. Ou seja: o autor da gravação foi o próprio delator Sérgio Machado.
Então por que se botou a boca no trombone? Os primeiros suspeitos são os próprios membros do Judiciário, agastados com o que consideraram uma desfaçatez de Michel Temer passar por cima dos indiciamentos e outros que tais, nomeando Jucá ministro de linha de frente sem a menor cerimônia.
Esta suposição ganharia verossimilhança porque estaria repetindo o episódio das gravações de Dilma e Lula.
Consta que, ao se convencerem de que a presidente levava Lula para a Casa Civil como uma manobra para tirá-lo da frente do juiz Sérgio Moro, jogaram na rua a evidência que tinham para que ninguém duvidasse. E Lula caiu.
Agora repetem a dose com Jucá: Temer desconheceu as evidências aceitas pelo juiz e ministros do Supremo e, então, levou. E Jucá recebeu um tiro no meio da testa, não nas costas como seria numa outra versão, de cunho conspirativo, que também corre (irresponsavelmente, pois não se sabe de onde saiu) em Brasília.
Na capital federal o menor segredo é a origem de um boato. Quando não tem dono, todo o mundo fica alerta. É o caso deste, atribuído a forças ocultas que teriam como objetivo fortalecer a posição do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Vejam os leitores como se explica esta fantasia: Jucá seria uma ameaça à candidatura de Meirelles para 2018. É pouco?
Nessa narrativa entram vários por quês. Meirelles é candidato a Fernando Henrique, o ministro da economia salvador da Pátria.
A se confirmar que Meirelles fica com Fazenda e Planejamento (com todo seu cortejo de bancos e outras instituições), configura-se o desenho que Lula sugeriu a Dilma.
Então Temer comprou a peça, podendo haver um acerto de bastidores para leva-lo como nome da chamada base aliada, catalisando uma coligação considerada impossível no cenário atual.
Entretanto, ela poderia se compor para a eleição de 2018, se não no primeiro, no segundo turno. Se fosse assim, outro candidato dentro do mesmo governo seria um empecilho. Melhor matar a cobra de pequena.
Se for isto que ocorreu inocenta o PT, pois estaria por traz de tudo o trio dos “imperdoáveis”, quais sejam: o juiz Sérgio Moro, o procurador geral Rodrigo Janot, e o ministro do Supremo Teori Zavascki (este mencionado por Jucá como “inconversável”).
Há outra também alicerçada na ambição de Jucá de chegar a uma candidatura presidencial: o PMDB de São Paulo, apoiado pelas frações sulistas, não veria com bons olhos a recondução do grupo liderado pelo ex-presidente José Sarney. Também é improvável, mas possível.
Há tantas versões que se desfiarmos todas aqui, não caberiam no servidor da Internet. A verdade é que há muito mais coisas no ar do que aviões de carreira, diria o gaúcho Barão de Itararé.
Quem morre de rir destas trapalhadas é a presidente afastada Dilma Rousseff. Embora saiba que estes fatos não influem no resultado da votação deu impeachment no Senado.
Sua tropa parlamentar tem se mostrado muito limitada, não conseguindo ir além de um discurso considerado simplório. Como comentou um velho comunista veterano deste tipo de embates, relembrando a origem desses debatedores: “é nível secundarista”.
Nas ruas, nas assembleias, nos espaços públicos em que pode se manifestar, Dilma se aproveita para, como fizeram com ela os tempos em que tinha as mãos atadas pelo cargo, fazer sangrar o governo golpista. Como diz o provérbio sueco: “a espada das mulheres está na boca delas”.O fantasma que assombra Temer
P.C. de Lester
O Globo destacou duas repórteres – Junia Gama e Isabel Braga – para apurar a real influência de Eduardo Cunha junto ao governo interino de Michel Temer.
Elas produziram duas matérias no fim de semana, concluindo que Temer aposta numa gradativa redução da força Cunha, pelo afastamento das instâncias formais do poder.
A primeira matéria reproduz uma declaração de Cunha, feita a vários deputados da sua bancada: “Se eu renunciar vocês tem alguma dúvida de que vou ser preso? Se for preso, vocês acham que vou sozinho?”
Isso foi dito, dias depois do afastamento de Cunha da presidência da Câmara. É um recado e uma ameaça, que seus interlocutores trataram logo de fazer chegar ao Planalto.
As expectativas de Temer, segundo O Globo: à medida que seu isolamento vai se consolidando, Cunha vai perdendo a influência junto aos deputados de sua bancada, mais preocupados com suas próprias trajetórias.
O jornal estima que hoje Cunha tem 50% de sua força na Câmara, “ou menos”. Chegará um momento em que para , salvar os dedos, ele entregará os anéis.
Cunha certamente não pensa assim, ainda. Montou seu gabinete em casa e segue despachando e conversando com seus aliados como se estivesse na ativa. Mais: nesta segunda-feira, promete voltar a frequentar a Câmara, numa clara afronta ao STF que determinou seu afastamento.
Por enquanto, segundo O Globo, a ordem do Planalto é atender no que for possível as demandas de Cunha e evitar ataques a ele. Elio Gaspari, no mesmo O Globo, diz que “Cunha tem um aliado em André Moura (lider de Temer na Câmara) e não se pode dizer que tenha uma adversário no Planalto”.
Ao desafiar o STF, voltando a frequentar seu gabinete na Câmara, como anuncia, Cunha joga uma cartada decisiva.
Não só para ele, como para o governo Temer que já enfrenta várias frentes de desgaste – desde o recuo em relação ao Ministério da Cultura até a reforma da previdência, que quer elevar a idade para aposentadoria, quando o próprio presidente interino se aposentou como Procurador aos 55 anos.
O futuro de Dilma
PINHEIRO DO VALE
O presidente do Congresso Nacional, senador Renan Calheiros, visitou pela primeira vez a presidente afastada Dilma Rousseff na quinta feira, para dizer-lhe que o quadro político lhe é muito desfavorável.
Se já estava perdida, agora piorou, porque mais dois senadores disseram que votam pelo impeachment, aumentando, em vez diminuir, sua desvantagem.
Os políticos da base de apoio à presidente, em Brasília, estão cada dia mais constrangidos quando falam com ela e ouvem seus propósitos beligerantes.
Ela não se cansa de chamar Michel Temer de presidente provisório, o que de fato ele ainda é, mas os aliados ficam sem jeito quando ela diz tudo o que pretende fazer quando voltar para o Palácio do Planalto.
Foi por isto que o senador Jorge Viana, do PT do Acre, pediu a Renan que fosse com ele até o Palácio da Alvorada, para dizer a ela que a situação piorara, pois os dois senadores do PMDB nortista, Jader Barbalho, do Pará, e Eduardo Braga, do Amazonas, que não tinham comparecido na sessão do dia 11 de maio, disseram que agora vão se apresentar e dar seus votos a favor do impedimento.
Os correligionários de Dilma se dizem preocupadíssimos. Ela parece não estar neste mundo.
Chama ministros (Eduardo Cardozo e Nelson Barbosa) para despachar, convoca a bancada parlamentar, manda marcar comícios. Quando os mais próximos se referem à situação que, como dizia o sambista Adoniram Barbosa, “está cínica”, ela parece não ouvir, muda de assunto. “Faz olhar de paisagem”, disse um deles.
Por isto pediram socorro a Renan, mas não adiantou muito. Diante da evolução política e, principalmente, das eleições que estão logo à frente, o PT e demais partidos que ainda ficaram com ela, precisam se acomodar no quadro eleitoral para não serem tragados nas urnas pela crise.
As pesquisas revelam que se o presidente interino não é popular e, muito pelo contrário, é
visto com desconfiança e hostilidade; aos poucos o eleitorado vai percebendo que o discurso de Dilma é falho num ponto essencial: quem botou Temer lá? Ele chegou com a votação do PT, tanto quanto a presidente. Se não fosse isto, não estaria no cargo.
Temer e seus porta vozes estão esgrimindo com habilidade este fato. Dizem nas entrevistas que o presidente interino não tem toda a força que se espera dele porque chegou ao governo nessa forma enviesada, que tem de quebrar o galho, que não é candidato e não espera ser popular.
O importante, os novos governistas estão dizendo aos quatro ventos, é contar a verdade, não mentir, não esconder nada. Este discurso vem diretamente da percepção generalizada de que Dilma disse uma coisa, na sua campanha, e fez outra. É o tal “estelionato eleitoral”, uma expressão que está voltando aos poucos contra a esquerda. O PT não pode deixar este bordão colar na sua imagem às vésperas de uma eleição.
A verdade é que o PT não conseguiu ainda reverter o discurso e com isto não logrou reassumir a trincheira de oposicionista. Falar bem de Dilma ainda é inadequado para a população, quando seus antagonistas brandem contra seu governo com desemprego e inflação.
As filas dos que procuram novas colocações e as remarcações nas feiras livres ainda falam mais alto.
Botar a culpa da carestia em Temer requer uma ação urgente.
Um possibilidade de fazer Dilma virar o cano de sua arma para outro lado é um ideia bastante criativa, inesperada, diriam alguns, estapafúrdia, diriam outros. É preciso criar um movimento positivo de apoio a ela, algo que poderia se não mudar o rumo das coisas em todo o país, pelo menos amenizar as rejeições.
Neste fim de semana, caiu como um furacão, em Brasília, a entrevista-documentário do deputado gaúcho Ibsen Pinheiro, na TV Câmara.
É um filme autobiográfico, em que o parlamentar do PMDB conta sua vida e relembra o impeachment de Collor, que foi deflagrado por ele, e faz uma autocrítica de sua carreira, refletindo sobre os motivos de sua queda.
A entrevista é recente, mas gravada bem antes do impeachment de Dilma. O assunto ainda era uma especulação.
Relembrando os fatos, dizendo que a crise política era derivada da ruina da economia, Ibsen reconhece que as denúncias de Pedro Collor e o Fiat Elba foram meros pretextos.
Diz Ibsen que Collor caiu porque levou a economia ao colapso e não tinha mais condições políticas de liderar uma estabilização mínima, muito menos uma recuperação.
A entrevista foi reprogramada por causa dessa afirmativa, como um recado do parlamento atual sobre a legitimidade do impeachment de Dilma.
Indo adiante, Ibsen comparou-se a Collor (sem falar ainda de Dilma) para explicar sua queda vertiginosa, caindo de candidato a presidente da República para o olho da rua cassado numa processo de político/parlamentar ancorado numa matéria mentirosa da revista Veja, um erro de revisão que acrescentou três zeros à sua conta bancária no exterior. Onde tinha um depósito de mil dólares a revista da Marginal escreveu um milhão. Só isto bastou.
Este erro que só anos depois foi admitido, era a causa alegada. Entretanto, diz Ibsen no documentário, ele caiu porque, primeiro, foi levado muito rapidamente de um papel de baixa média intensidade (presidente da Câmara) para os píncaros da glória, com a viabilização de sua candidatura presidencial ( “Aí descobri que tinha inimigos e adversários”) e, o principal, afirma, não tinha cacife político para se sustentar naquela posição.
Mutatis mutantes seria a situação da presidente Dilma, quando perdeu sua base política majoritária. Alguns assessores lhe dizem que ela precisa reconquistar seu espaço como líder da esquerda, esquecendo-se dos partidos e aliados fisiológicos. A receita seria restaurar suas origens.
A premissa é consistente: as melhores passeatas a favor de Dilma vêm ocorrendo no Rio Grande do Sul. É o lugar em que se vê maior número de manifestantes avulsos, independentes, é em Porto Alegre. Nos demais estados o pessoal que está indo às ruas são militantes partidários e ativistas sociais.
Portanto, no Extremo Sul estaria a melhor plataforma de lançamento de um movimento consistente que se propague pelo país. Dilma, dizem, deveria baixar nos pampas para se mostrar à frente desses apoiadores.
Já a proposta que se forma seria inaceitável por ela, neste momento: Dilma deveria renunciar para preservar seus direitos políticos e eleitorais, assegurando, também, seus proventos de ex- presidente. Se ela for cassada, perde os dois: fica oito anos impedida e perde direito à pensão.
No Estado, ela poderia ser uma alternativa para a esquerda ter uma candidatura altamente competitiva para o Palácio Piratini. Outros sugerem o Senado.
O que ela não pode é ficar desvalida. Esta advertência sobre o salário teria sido uma das mensagens que Renan Calheiros levaria a ela. Não se sabe se chegou a falar, pois Dilma não é dada a conversas ao pé do ouvido.
Esses formuladores de voos estratosféricos ponderam: em 2005, quando Dilma ascendeu das Minas e energia para a Casa Civil falou-se que ela poderia ser uma alternativa para um bloco de esquerda ao governo do Estado.
Nessa época, quem falasse que ela seria, em 2010, candidata e eleita presidente da República, diriam que estaria delirando. O sonho é livre.
A exemplo de outros ex-presidentes, um governo estadual ou o Senado são propostas factíveis.Relato do front: venceu o bom senso
Andres Vince
O final da manifestação da noite de quinta-feira (19/5) foi tenso. Porém, não me resta outra alternativa a não ser elogiar a atitude do tenente-coronel Mário Ikeda, comandante do Comando de Policiamento da Capital. A decisão de não atacar os manifestantes, como ocorreu na semana passada, e evitar uma confronto de consequências imprevisíveis, demonstrou equilíbrio e bom senso.
Claro que não houve troca afetuosa de gentilezas e abraços carinhosos. A “negociação” começou no bom e velho estilo militar: “vocês tem 20 minutos, depois agiremos” foi o resumo da mensagem enviada pelo oficial Ikeda, através daqueles que se apresentaram a ele como lideranças do movimento.
A atitude do tenente surtiu efeito. A liderança que “negociou” foi questionada e os manifestantes se dividiram. Alguns obedeceram a “orientação” e se deslocaram para o Largo do Zumbi, enquanto outros permaneceram na avenida Perimetral. Uma terceira parcela decidiu não arriscar e foi embora. Ponto para o comandante, afinal de contas, a estratégia militar se desenvolveu por milênios, não haveria de falhar logo agora. A intimidação verbal, para alguns, ainda funciona.
Às 21 horas, esgotou-se o prazo dado pelo tenente-coronel e os jornalistas posicionaram-se para conseguir o ângulo mais seguro da batalha que se desenhava na avenida.
O tempo foi passando e o clima de tensão aumentando. Quem ficou na avenida dava demonstrações que haveria resistência e gritava bordões de protesto. Alguém explodiu um rojão. Pequeno corre-corre. Mais tensão, mais adrenalina.
Passados 15 minutos, uma nova tentativa de negociação foi feita, desta vez pelas advogadas das meninas presas na semana anterior. Sem sucesso, o recado era o mesmo: “saiam ou vamos agir”.
| Ramiro Furquim/Jornal JÁ
Os manifestantes que se mantinham na avenida cobriram os rostos, preparando-se para o gás lacrimogênio que parecia a caminho de confirmar presença no evento. Cada um se protegeu e se preparou para resistir do jeito que conseguiu. Algumas pedras surgiram para municiar a resistência. Provocações aos oficiais e alguns ânimos mais exaltados deixaram o clima mais pesado. Uma linha de vanguarda foi formada por alguns manifestantes e avançou para mais próximo da posição dos oficiais. Tudo levava a crer que a noite não iria acabar bem.
Porém, os minutos foram passando, uma falsa calma tomou conta do ar e temperatura baixa da noite parecia ter congelado os ânimos de ambos os lados. O comando da operação não se movia, o que a principio, parecia ser um bom sinal. Assim, por volta das 22 horas, o protesto estava naturalmente disperso, ninguém foi preso, nem agredido, direitos não foram violados, bombas de gás não explodiram, balas de borracha não foram disparadas, processos por abuso de poder não serão abertos, futuros precatórios não serão gerados contra o Estado, e, na melhor das hipóteses, a imagem da BM não sofre um novo arranhão ao ser usada como instrumento de manobra política, como já ocorreu com governos de todas as matizes.
No entanto, o fato do comandante Ikeda ter exercitado a paciência, virtude que parece ter sido concedida pela sua descendência oriental, e dessa forma ter evitado que as cenas que ele mesmo promoveu na semana anterior se repetissem, não muda o fato de que uma via trancada é um problema de trânsito e não um caso de polícia.
A Constituição é clara quanto ao papel das policiais militares: “Às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública” (art. 144, IV, p. 5º).
Não havia desordem em nenhuma das manifestações, portanto não havia motivos para a ação da BM, nem da cavalaria e, muito menos, de agentes infiltrados de um setor da BM de duvidosa legalidade, como demonstra o citado parágrafo da Constituição.
A desculpa usada para “seguir o protocolo” e liberar o uso da força se encaixa muito bem em uma via rural, mais conhecida como estrada, onde o motorista simplesmente não tem alternativa de desvio. Outra coisa, bem diferente, é uma via urbana, onde um simples desvio no trânsito resolve o incomodo. A insatisfação de uma minoria de motoristas não pode se sobrepor ao direito de manifestação de uma maioria. Seria a inversão da lógica democrática, onde a vontade da maioria deve prevalecer sempre. Não existe na Constituição o “sagrado” direito de ir e vir dos veículos, esse direito é inerente ao cidadão.
Se seguirmos a lógica “trancou a via, chama a BM”, o que vai ser feito quando um cano estourar e impedir a passagem dos carros? Passar com a cavalaria por cima do buraco e jogar umas bombas de gás pra ver se o trânsito volta a fluir? Parece deboche, mas, viram como não há lógica? A lógica é: chama a EPTC e desvia o trânsito, até removerem o buraco, se possível, sem violência. Mas, e o fato do buraco não ser um movimento espontâneo? Bom, aí o problema é do buraco.Queimando as pontes
PINHEIRO DO VALE
A presidente afastada Dilma Rousseff fez sua primeira aparição pública, na quarta feira, deixando-se fotografar no Palácio da Alvorada à frente de uma tela de computador comunicando-se pelas redes sociais.
Não se ouviu sua voz nem se leu o conteúdo de suas mensagens.
Não seria esse um bom dia para dar o troco a seus algozes, pois o carteiro levara, há pouco, um ofício expedido pela ministra Rosa Webber, do Supremo Tribunal Federal, pedindo que a “presidenta” se explicasse sobre o que ela quer dizer com “golpe”.
Devido a esse discurso desqualificando o ritual do afastamento, Dilma estaria criando mais uma aresta a lhe dificultar o caminho de volta para o Palácio do Planalto.
Como disse o ex-governador e senador paranaense, Roberto Requião, a presidente afastada está queimando as pontes.
Seus assessores que ainda têm voz, cuidadosamente ponderam que ela deve preservar o que sobrou da debacle. O Supremo é uma possibilidade longínqua, mas é uma luz no fim do túnel.
Isto não quer dizer que o tribunal vá lhe devolver diretamente a cadeira, mas dali pode sair uma fresta estreita que sirva para botar o pé lhe abrindo a porta do gabinete do terceiro andar.
Em breve, talvez na semana que vem, pode estar chegando à praia uma primeira onda do esperado tsunami da Lava Jato, com o julgamento do recurso do presidente da Câmara , Eduardo Cunha, pedindo sua reintegração na Câmara e, por conseguinte, na presidência da Casa.
Uma sentença negativa a Cunha pode ser a porteira aberta para que o ministro Teori Zavaski dispare os primeiros mandatos na orbita do foro privilegiado, pegando a turma que ficou sob sua jurisdição. Aí pode se dar o estouro da boiada.
Os observadores, em Brasília, estimam que devam ocorrer mais de 200 prisões. Esse maremoto levará por diante tudo o que sobrou.
Se conseguir surfar esta onda gigantesca, Dilma poderá chegar à praia e, mesmo arranhada e com algum membro quebrado, voltar a seu lugar. É um fio de esperança.
A tática é que ela fique quieta sem provocar marolas antecipadas, porque a onda grande está quase chegando.
Neste momento, o aconselhável é deixar o embate verbal para sua tropa de choque no Congresso. Neste particular, é interessante observar os discursos exibidos pelas tevês da Câmara e Senado.
Quem vem acompanhando desde antes do impeachment fica com a sensação de que não pode crer nos seus próprios ouvidos.
Os discursos têm os mesmos conteúdos de antes, apenas trocaram-se os oradores. A antiga bancada governista diz o que falavam os opositores e vice versa. Para uns a crise vem das antigas culpas; para os outros os programas sociais são obra do novo governo.
E assim vai. O novo governo já lançou seu bordão: “abrir a caixa preta”. Isto, no dizer dos assessores de Michel Temer, vai bater diretamente em entidades (ONGs) que têm convênios com o governo federal e que não prestaram contas.
Só no Ministério do Planejamento havia mais de 20 mil projetos em exigência, isto é, em dívida. Isto se refere a pequenas organizações tão minúsculas que não têm condições técnicas para cumprir as intrincadas exigências pra prestação de contas da burocracia do serviço público.
Com isto, ficaram vulneráveis, impossibilitadas de receber novos aportes ou, mesmo, de se apropriar de recursos já aprovados.
Uma dessas “caixas pretas” seria o Ministério da Cultura, onde artistas e promotores culturais captaram pequenas quantias, irrelevantes, e ficaram com suas contas pendentes.
Além disso, há milhares de outros projetos que embora aprovados, estão em exigências burocráticas, esperando para receber o dinheiro.
Entretanto, muitos desses projetos já fizeram despesas e ainda não puderam pagar seus fornecedores, deixando os promotores com dívidas reais no comércio. É uma situação angustiante.
Segundo informações extraoficiais, o presidente interino teria dito que liberaria 200 milhões de reais para cobrir esse rombo. Essa promessa poderia acalmar protestos que se espalham pelo país, com ocupação de dependências do Ministério da Cultura.
Neste particular, o novo governo assustou-se com a reação da classe artística. Mexer com os famosos, mesmo pequenos saltimbancos, é cutucar uma casa de marimbondos. Michel Temer quer se livrar rapidamente desse incômodo.
No entanto, não conseguiu recuar, como ensaiou, recriando o Ministério da Cultura, como chegou a fazer e voltou atrás duas vezes.
O plano de seus gestores é levar o setor de volta para o Ministério da Educação, mesmo que seja por um tempo limitado, para desmontar a bomba relógio que foi ativada com a atabalhoada providência de simplesmente dar um canetaço num espaço tão sensível.
Com menor impacto, mas tão incômodo quanto o MinC, foi a intervenção na EBC, a empresa Brasileira de Comunicação.
Ali está a TV Brasil, uma emissora regida por um estatuto especial e gerida por um conselho integrado por segmentos da sociedade civil. É outro vespeiro.
Neste caso, porém, ressalva-se a Agência Brasil, uma agência de notícias do governo com grande aceitação no mercado. Esta empresa é, em milhares de casos, a única fonte de material jornalístico de pequenos e médios jornais das cidades brasileiras. Este segmento não estaria ameaçado.
Sua redação é comandada por um jornalista do mercado, o gaúcho Paulo Totti, veterano das mais categorizadas redações da história da Imprensa dos anos 1950 para cá.
Ali se produz um noticiário isento, informativo, que atende a toda a demanda de informações especificas sobre regiões e segmentos da administração, que estão além do foco da chamada grande imprensa, comprometida com noticiário de interesse dos grandes centros urbanos onde os jornais e tevês têm seus mercados principais.
A EBC pode escapar da caça às bruxas.As unhas do Cunha
P.C. DE LESTER
O Cunha saiu dos holofotes e muitos analistas o consideram um cadáver político, que só falta enterrar.
Mas a verdade é que Eduardo Cunha está vivo e os sinais de sua vitalidade aparecem diariamente, não mais nas manchetes, nem por isso menos eloquentes.
“Cunha manobra para manter Maranhão na presidência da Câmara”, foi o título de uma nota secundária do Estadão, na sexta-feira.
Há um zumzum na Câmara e há quem dê como certa a eleição de um novo presidente nos próximos dias. Jarbas Vasconcelos, do PMDB de Pernambuco, remanescente dos extintos “autênticos” do partido, é dado como o mais provável.
Até agora, no entanto, lá está o Waldir Maranhão, submerso depois do fiasco, mas no exercício do cargo.
Nesta segunda-feira, outra notícia: 300 deputados votaram em André Moura, do PSC, para líder do governo Temer. Moura é um dos aliados de Cunha na Câmara.
Mais: Arthur Lira, investigado na Lava Jato e também aliado de Cunha foi eleito para presidir a Comissão de Orçamento da Câmara.
Outra coisa que se diz: a influência do Cunha no governo Temer é próxima de zero. Mas outra notícia dá conta de que um ex-assessor de Cunha, Carlos Henrique Sobral, assumiu a chefia do gabinete do ministro Geddel Vieira.
Também Gustavo Rocha, que atuou como advogado de Cunha, foi nomeado para a sub-chefia de assuntos jurídicos da Casa Civil.
Por fim, informa-se que o próprio Cunha comparecerá nesta quinta-feira para fazer sua defesa na Comissão de Ética.
Será uma boa oportunidade para se ver se o Cunha é mesmo um cadáver a ser enterrado ou um incômodo fantasma a assombrar o governo Temer?
Dilma chuta o balde
PINHEIRO DO VALE
Parece que a presidente afastada Dilma Rousseff resolveu chutar o balde. Desiludida com a possibilidade de recuperar a base parlamentar que lhe devolveria o cargo e estimulada pelos correligionários de que a melhor tática agora é deixar Michel Temer sucumbir na crise e olhar para as eleições de 2018.
Ao se aferrar ao bordão do golpe, Dilma se afasta de vez dos senadores que a traíram, mas que seriam a tábua de salvação caso voltassem atrás.
Neste caso a melhor tática seria recolher-se ao Palácio da Alvorada como a princesa da fábula e esperar que viesse o príncipe sapo para resgatá-la da maldição.
Mas a presidente não quer o papel de Bela Adormecida. Vai à luta nas ruas e junto à militância, nos mesmos moldes da última trincheira em que se defendeu antes do impeachment.
Isto não resolve para reconquistar o terço mínimo do Senado, mas tira das costas da esquerda o fardo da crise nos seus aspectos mais negativos que lhe ameaçavam os votos: o desemprego e a inflação.
O problema do PT é estancar a hemorragia de adeptos e simpatizantes. As agruras da crise que recaiu sobre o partido fizeram desabar sua plataforma de lançamento de 27% para os 8% ou 9% que ficaram com Dilma até o final.
A eleição municipal está aí e logo à frente a nacional, pois fechadas as urnas em outubro já começa a nova corrida para o Palácio do Planalto.
A presidente ficou muito animada com os resultados de sua jornada final, quando teve espaço diário no Jornal Nacional.
Ali o povo pela primeira vez a viu na telinha como ela é, a mulher braba e decidida que não se intimida, bem distante da tecnocrata tímida dos pronunciamentos oficiais lidos no primeiro mandato. A Dilma guerreira do refrão. Ela pensa em manter essa chama acesa.
Para isto ela precisa correr o País e falar duro denunciando os golpistas. Ou seja: esquecer-se de fazer média com os políticos que poderiam devolver-lhe o mandato.
Este movimento já estaria em curso, iniciando-se com sua pressa de voltar a Brasília, quando o plano era passar uns dias em Porto Alegre esperando esfriar o seu caldeirão, enquanto se bota lenha no fogão do Michel Temer.
As dúvidas são: onde conseguir recursos financeiros para cobrir os custos de suas viagens pelo país? Como presidente afastada, reduzida à condição de simples liderança esquerdista, ela terá o mesmo espaço no Jornal Nacional? Ninguém sabe responder, nem mesmo se pode usar o avião da FAB para esse projeto.
Nesta semana ela vai reunir seu ministério paralelo. Ainda não dá para saber o quanto será possível manter seus ex-colaboradores na ativa, pois como todos estão cobertos pelos salários da quarentena, por seis meses, talvez estejam impedidos.
Os juristas do PT estão examinando o caso.
Na verdade, os ativistas do partido estão se mobilizando para as campanhas municipais, até porque algumas vitórias poderiam amenizar as ameaças de desemprego que turvam o horizonte de muitos militantes.
Neste caso da campanha eleitoral, dizem ser melhor Dilma ficar como vítima, longe dos palanques. Não seria produtiva sua presença ostensiva no terreno minado dos comícios.
Nada disso, contudo, está resolvido, pois se espera a palavra final do ex-presidente Lula, que está afastado dos holofotes, mas não ausente de todas as articulações que ocorrem nos bastidores.
A prioridade de Lula é correr para recuperar o tempo perdido nos embates do impeachment e costurar as alianças nos municípios, que passam na maioria dos casos, pelos partidos traidores.
Na política brasileira, cada espaço é um espaço: nos municípios as legendas de aluguel têm força. Por isto, não vale muito a pena ficar dando pauladas nesses aliados a torto e a direto.
Os algozes da Câmara e do Senado têm muitas caras. Realpolitik é a força do ex-presidente Lula. Nos municípios ele pretende tecer o pano de fundo para 2018.PM paulista faz escola em Porto Alegre
andres vince
A posse de Michel Temer refletiu uma importante mudança de atitude na política de segurança pública do estado do Rio Grande do Sul. Em dois dias de manifestações pacíficas, duas violentas e desnecessárias repressões policiais.
Registro de 12 de maio: despreparo. Foto: Guilherme Santos/Sul21
A primeira repressão só multiplicou o número de pessoas da segunda manifestação. Se na quinta-feira eram centenas, no dia seguinte eram milhares. E a repressão aumentou na mesma medida. Nova saraivada de bombas e balas de borracha, mas, desta feita, foram realizadas prisões. Três perigosas manifestantes foram humilhadas, eletrocutadas e arrastadas pela avenida Perimetral. Mais tarde, uma outra cidadã desavisada, foi prestar queixa da violência policial e recebeu voz de prisão. Seria, no mínimo, hilário, se não fosse real.
Segundo o tenente-coronel Mário Ikeda, comandante do Comando de Policiamento da Capital, “a ação da BM foi natural, com artefatos não letais, exatamente para garantir a segurança dos manifestantes”. Ikeda alega que o uso da força ocorreu porque “um pequeno grupo permaneceu com intuito de permanecer bloqueando a via”. Desviar o trânsito nem pensar, coronel?
Policial infiltrado ajuda na detenção de manifestante. Identificado, deletou sua pagina no Facebook. Foto: Mídia Ninja.
Havia a necessidade urgente de desocupar aquela via às 21h de uma sexta-feira? Valeu correr o risco de uma tragédia para que uma minoria de motoristas não fossem importunados, em detrimento de uma maioria que estava expressando sua insatisfação? Quem será responsabilizado se tudo sair do controle? Não há responsáveis, pois tudo é tratado na maior naturalidade, literalmente. O que não dá pra explicar como “natural” é a presença de um agente da polícia militar infiltrado e insuflando os manifestantes a agir com violência. Isso revela uma tremenda má fé.
Porém, sem sombra de dúvida, é uma mudança radical de postura. Até semana passada, haviam ocorrido pelo menos três manifestações sem nenhum tipo de confusão. Por que a BM decidiu agora simplesmente atacar os manifestantes? Falo em ataque porque foi exatamente isso que aconteceu. Não houve o menor aviso, nenhum pedido para desocupar a avenida, nenhum tipo de negociação, que poderia ser facilmente intermediada pela EPTC.
Policiais tem dificuldades em dominar apenas uma manifestante. Foto: redes sociais
É preocupante que toda imprensa trate o assunto como confronto. Entendo por confronto quando há ataques de ambos os lados. Não houve reação por parte dos manifestantes. A maioria dispersou com as bombas e as balas. Meia dúzia ficou pra fazer jus ao lema “vai ter luta”. E, mesmo assim, policiais também foram feridos. E se a reação fosse maior? Se houvesse contra ataque? E se a BM fosse encurralada pelos manifestantes? O que aconteceria? São perguntas que eu nem quero imaginar a resposta. Mas, parece que o governo estadual e o alto comando da BM, também não. É muita irresponsabilidade, sempre acobertada descaradamente pela imprensa amiga, rápida no gatilho em justificar a ação truculenta. Nossa querida ZH por exemplo, cunhou a intrigante manchete: “Protesto contra Temer tem ação da Brigada Militar com bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo”. Parece até que a BM é a atração de alguma festa. Na linha de apoio: “Polícia iniciou ação para desobstruir vias na Cidade Baixa”. Um primor.
O uso de força policial passou de ultimo recurso para primeira medida assim que Temer tomou posse. Parece clara a nova política, afinal, é o governo da união dos gaúchos, e agora, dos brasileiros.
A PM paulista faz escola de repressão na capital dos gaúchos. Disposição parece que já há. Só ficam faltando o efetivo treinado, o equipamento adequado e o salário em dia.




