JOSÉ LUTZENBERGER / A COP e a releitura de “A Alternativa Fatal”

" É inevitável, em futuro muito próximo, o aumento do custo de todas as formas de energia. Se continuarmos trilhando o caminho duro, esse aumento causará crises econômicas sempre mais graves, com as consequentes convulsões sociais, conflitos e endurecimento do despotismo. ", já previa Lutz há 40 anos.

O início da 26 Conferência do Clima (COP26) em Glasgow, torna muito oportuna a releitura de um clássico. “Dois Caminhos/A Alternativa Fatal”, traz o resumo de um texto publicado originalmente na segunda metade dos anos 70 e reproduzido no livro Sinfonia Inacabada, da jornalista Lilian Dreyer. Seu autor, José Antônio Kroeff Lutzenberger, o “Lutz” (1926 – 2002), não foi apenas ministro do meio ambiente, o primeiro do Brasil, ou um dos ambientalistas pioneiros e mais destacados da nação. Ele foi um visionário. À distância no tempo, fica nítida sua análise quase profética e sua crítica profunda ao sistema econômico-político e social vigente. Para quem chegar ao final do artigo, fica a pergunta: ainda conseguiremos evitar uma freada abrupta nessa autopista? Vale a reflexão!

Dois Caminhos

“A humanidade se aproxima de uma encruzilhada fatal. O caminho atual leva direto ao precipício. Muito em breve – e muito antes de alcançado o precipício – teremos perdido outras opções, agora ainda abertas. Este caminho poderia ser comparado a uma autopista para altas velocidades onde, a partir de certo ponto e após alcançada certa velocidade, as pontes ruíram após a passagem. Dali por diante não haverá volta. A queda será inevitável.

A continuação pura e simples dos processos em marcha, isto é, a extrapolação das formas de desenvolvimento hoje universalmente propostas e cegamente aceitas, fará com que aconteça exatamente o que hoje toda pessoa informada e preocupada prevê.

Não existem neste planeta recursos energéticos e materiais suficientes para um Produto Nacional Bruto (PNB) em crescimento exponencial sem fim.

Poluição da miséria

Os crentes da doutrina do PNB crescente gostam de argumentar que precisamos primeiro de produção, custe o que custar, seja qual for a forma de produção, para só depois pensar em distribuir riqueza. Este argumento é muito cômodo para eles, pois os isenta de responsabilidade por uma real justiça social, permite que apresentem, honesta ou cinicamente, a imagem da “poluição da miséria”, que só o desenvolvimento seria capaz de eliminar.

Mas esta pobreza é consequência das atuais formas de desenvolvimento. A pobreza relativa é sempre resultado de estruturas de poder. O índio, quando em sua estrutura tribal intacta, em ambiente intacto, em seu idioma original nem a palavra “problema” conhece.

São ainda muito poucos os que já compreenderam, e a polarização ideológica convencional impede muitas vezes que se compreenda, o fato de que as atuais estruturas tecnológicas são esquemas de exercício de poder.

As tecnologias que as grandes burocracias empresariais, multinacionais ou estatais escolhem, por entre as inúmeras alternativas possíveis, são sempre aquelas tecnologias que geram poder. Estas são as tecnologias imediatistas, duras, de grave impacto ambiental e social. 

Escravidão tecnológica

Em suas fases finais, o Império Romano partiu também para uma agricultura predatória como a nossa, destruidora da produtividade futura do solo; partiu para a grande monocultura, mantida pela mão do escravo. Naquela época a escravatura era direta, o chicote disciplinava o escravo. Hoje a máquina fixa o homem na estrutura do poder e destrói o ambiente. Pouco a pouco nos tornamos todos servos das grandes burocracias. Estas alicerçam seu poder na crescente sofisticação tecnológica, na progressiva concentração do capital e na acelerada centralização do poder de decisão econômica.

Para o indivíduo emaranhado na teia, que importa uma imaginária diferença entre poder empresarial, multinacional ou estatal! As teias se entrelaçam e envolvem o globo.

O próprio movimento de luta por uma maior sanidade ambiental apenas agora começa a compreender que o desastre ambiental que hoje nos assola é aspecto inerente desse tipo de sociedade industrial e não terá solução enquanto não houver mudança de rumo tecnológico.

Tecnologia da vida

Voltemos à nossa metáfora viária. O primeiro caminho é uma autopista rígida, sem retornos, saídas ou voltas colaterais. O segundo caminho, nem sempre pavimentado, tem muitos ramais, todos em terreno diversificado e fascinante, todos com retorno sempre aberto. O primeiro caminho é o caminho duro, insensível, desligado da paisagem e do povo; o segundo é o caminho ecológico, totalmente integrado na paisagem, que sente a cada instante, da qual faz parte.

A opção branda apoia-se nas mesmas forças que vêm mantendo, há três e meio bilhões de anos, a Vida na Terra. Estas são energias permanentemente renováveis de nossa inesgotável fonte de vida: o Sol. São forças que se nos apresentam sob formas diversas: radiação solar, vento, desnível hídrico, biomassa, marés e vagas. As técnicas de aproveitamento seguem as leis da vida.

A tecnologia da vida não conhece a concentração, nem uniformização, a não ser como mera fase de transição, a equilíbrios mais complexos e disseminados. A vida é também uma permanente rebelião contra a entropia, enquanto que as tecnologias duras aceleram em toda parte a entropia. As tecnologias brandas, entretanto, freiam ou diminuem a entropia.

Tabus e dogmas

Por isso, o caminho brando parte de filosofia fundamentalmente oposta à filosofia que rege a atual Sociedade Industrial. O dogma do crescimento dá lugar à doutrina do equilíbrio sustentável e da qualidade de vida. Progresso não mais se mede com índice tão simplório, insensível e desconcertante quanto o PNB. Progresso é, então, algo muito mais complicado, que inclui, predominantemente, fatores que nada têm a ver com fluxo de dinheiro e movimentação de materiais, tais como a maior disseminação da felicidade individual, melhor integração da humanidade em seu ambiente, ambiente mais belo, mais saudável, mais rico em vida, com vida mais diversificada; mais estável e harmônica estrutura social, mais cultura, mais excelência intelectual, mais arte, recreação, intercâmbio social, mais alegria de vida.

A ênfase está toda na qualidade, não na quantidade. O que interessa é a manutenção do patrimônio real, material e espiritual, não o simples incremento do capital monetário.

O dinheiro é simples contrato anônimo, avulso e divisível, perde seu significado quando desaparecem os recursos.

Novo paradigma

Teremos então grande escolha de meios e procedimentos. Os recursos materiais não-renováveis, as matérias-primas de origem mineral, utilizados frugal e inteligentemente, serão sempre reciclados. Todos os objetos serão concebidos e fabricados de maneira que durem o máximo e que possam, após o uso final, ser reciclados. Não mais será considerado progresso o uso de uma técnica que esbanja preciosos materiais irrecuperáveis para economizar dinheiro e mão de obra.

Ao contrário do que vem acontecendo, a energia será considerada algo precioso, a ser usado com muito critério, nunca esbanjando. É inevitável, em futuro muito próximo, o aumento do custo de todas as formas de energia. Se continuarmos trilhando o caminho duro, esse aumento causará crises econômicas sempre mais graves, com as consequentes convulsões sociais, conflitos e endurecimento do despotismo. 

No caminho brando, entretanto, este encarecimento fará florescer grandes variedades de tecnologias apropriadas, precisas, eficientes no verdadeiro sentido da palavra, de tecnologias anti-entrópicas, tecnologias de baixo impacto ambiental e mesmo impacto ambiental positivo, além de promover diversidade cultural e maior justiça social.

Balanço energético

A Terra tem um fluxo limitado de energia, mas este fluxo é amplamente suficiente para o funcionamento da ecosfera e para uma vida civilizada da humanidade, não para um esbanjamento exponencial. Não tem sentido o edifício sem janelas ou janelas insuficientes, que usa iluminação elétrica dia e noite. Existem hoje edifícios que gastam, para cinco ou dez mil pessoas, mais energia ao meio-dia do que uma cidade de cem mil habitantes gastava em 1950, à noite.

Certamente não se pode dizer que aquelas cidades não eram civilizadas. E será mesmo saudável e necessário o esporte do snowmobile e o motor de popa de 70 cavalos? Quem já voou em planador sabe da fabulosa experiência que é o vôo sem motor – silencioso, sensível aos elementos. 

O barco à vela constitui atividade física e intelectualmente superior à barulhenta e brutal corrida do barco a motor. Por que, aliás, não poderiam os barcos de carga, para mercadorias que não têm muita pressa, complementar seus motores com vela? É verdade que haveria mais gente a bordo. Mas também a vida a bordo seria mais divertida! Nada mais triste que a vida a bordo de um supertanqueiro ou de um grande barco de containers, com meia dúzia apenas de homens na tripulação e que não pára mais que um dia em cada porto.

Na agricultura, partiremos para os métodos orgânicos, de produção ecologicamente sustentável, que melhoram constantemente a produtividade da paisagem agrícola, ao mesmo tempo em que a tornam mais bela e humana e invertem o êxodo rural. Mais uma vez, a adoção generalizada destes métodos, por si só , significará enorme economia de energia.

 É por poucos conhecido o fato de que os métodos agrícolas e pecuários modernos têm balanço energético negativo. Gasta-se muito mais energia nos insumos do que a energia fixada na fotossíntese da lavoura.

Tecnocracia centralizadora

No aproveitamento das energias alternativas o enfoque será outro que o atual. A tecnocracia insiste hoje na energia concentrada, centralmente manipulada e distribuída sobre imensas regiões. Nesta forma, o poder de decisão está nas mãos de poucos e o usuário aceita as condições impostas pela burocracia central, sem a mínima chance de participação nas decisões. 

Assim, a captação de energia solar em esquema mega tecnológico tem impacto ambiental tão negativo quanto às demais tecnologias duras. Continuariam as extensas linhas de alta tensão, a gigantesca concentração de capital e as grandes burocracias.

O sol nos oferece sua energia de forma difusa, amplamente distribuída. Para que reconcentrá-la e depois redistribuí-la? A captação deverá ser em nível familiar ou em pequena comunidade; captamos o sol nos tetos, que já são pequenos desertos. Desaparecem as inevitáveis perdas de transmissão, a infra-estrutura técnica é muito menor, o capital está disseminado, desaparece a burocracia da administração e está distribuído o poder de decisão. A vulnerabilidade do sistema global é quase zero.

Instrumento de dominação

Se o que se quer é água a 35 graus no banho, o chuveiro elétrico é a forma mais ineficiente de transformação de energia. Algo assim como destilar uísque para obter água potável. Mas um painel solar para aquecimento direto de água, numa técnica que está ao alcance de qualquer funileiro, resolve magnificamente o problema, especialmente em nossas latitudes. Este painel pode ser adaptado em qualquer teto, custa pouco, não conhece patente, nem royalty, dá trabalho a pequenos artesãos, incrementa a pequena e média indústria, diminui o poder das multinacionais.

Neste caso não há nem redução de PNB, mas melhor distribuição e menos impacto ambiental. Num simpósio sobre energia, quando alguém propôs que o esquema oficial de energia elétrica propagasse o painel solar de água quente para diminuir o consumo de eletricidade dos chuveiros elétricos, o dirigente deste esquema argumentou que o chubveiro elétrico custava menos de quinhentos cruzeiros, enquanto que o painel solar estava por volta dos vinte mil. Entretanto, mais adiante, no mesmo simpósio, este mesmo administrador citou, tranquilamente, trinta mil cruzeiros como o total de investimento por KW em seu esquema.

Ora, o painel que substitui o chuveiro elétrico corresponde a peĺo menos dois KW. Quer dizer que ele economiza no esquema uns sessenta mil cruzeiros. A vantagem social, portanto, é de um para três, com uma diferença importante: o equipamento de vinte mil cruzeiros é meu, está sob meu controle, os sessenta mil no esquema são deles, são controlados por eles, mas são pagos por mim, através da tarifa ou pela inflação.

Pode-se ver claramente que a concentração tecnológica é instrumento de dominação, não de eficiência produtiva e atendimento social.

Fato político

Não se pode afirmar que haja conspiração consciente. A megatecnologia não surgiu com o intuito de escravizar. Seus executivos são, muitas vezes, gente muito bem intencionada. Pessoalmente fui tecnocrata, participei da megatecnologia agroquímica, e tive a oportunidade de observar a psicologia reinante.

À medida que os esquemas mega tecnológicos se estendem, eles criam suas próprias leis, eliminam alternativas para o usuário impotente, manipulam mercados. O aspecto mais perigoso é que a megatecnologia se transforma em fato político. Ela acaba manipulando a política a seu favor, em contradição frontal à doutrina da livre iniciativa, que ela diz defender.

Inversão dos fatos

É comum o ecologista ser acusado por burocratas e tecnocratas de defender a natureza em detrimento do homem. Essa é uma cínica inversão dos fatos. O alvo fundamental de toda megatecnologia é a diminuição e, quando possível, eliminação total de mão-de-obra, isto é, afastamento do homem do processo de produção. Para manter pleno emprego argumenta-se então com a necessidade do crescimento constante do PNB.

Mas grande parte deste crescimento significa ainda mais equipamento, sempre mais sofisticado, destinado à eliminação de mão-de-obra e domínio do homem sobre o homem, em espiral sem fim.

Ao contrário do que acontece com as tecnologias duras, que hoje arrasam o planeta porque, ao resolverem um problema sempre causam uma constelação de outros, as tecnologias brandas sempre resolvem vários problemas ao mesmo tempo. Os dois caminhos, o caminho duro e o caminho brando, ainda não se separaram de todo, ainda temos à frente algumas saídas na autopista sem retorno. O que precisamos agora é frear, não brutalmente, mas suave e decididamente.”

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