MARIANO SENNA: Perguntar não ofende?

Fundador do Wikileaks
Julian Assange é uma clássica vitima da "cultura do cancelamento". Tao demonizado, que ninguém se atreve a ouví-lo, mesmo quando um governo democrático conspira para assassiná-lo.

A explicação da grande mídia para o prêmio Nobel da Paz de 2021 foi a defesa da democracia. Os agraciados deste ano foram os jornalistas Maria Ressa (Filipinas) e Dimitry Muratov (Rússia).

Um sem relação direta com o outro, mas ambos com histórico de oposição ao poder político estabelecido em seus respectivos países. Porém, nenhum deles com projeção mundial.

“A liberdade de imprensa é uma pré-condição para a democracia”, escreveu o correspondente do UOL em Genebra, Jamil Chade.

Na visão dele e da maioria dos representantes da categoria, nações democráticas “têm menor chance de fazerem guerras”, visto que, supostamente, a maioria das populações sempre opta por soluções diplomáticas. 

"O jornalismo livre, independente e baseado em fatos serve para proteger contra abusos de poder, mentiras e propaganda de guerra... a liberdade de expressão e a liberdade de informação ajudam a garantir um público informado. Estes direitos são pré-requisitos cruciais para a democracia e proteção contra a guerra e os conflitos", diz a nota do Comitê do prêmio ao anunciar os vencedores.

Confrontado com a realidade atual, esse raciocínio impõe um questionamento inevitável.

Nas últimas décadas, foram justamente as maiores democracias do planeta que promoveram, direta e indiretamente (como financiadores), os grandes conflitos do século.

Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria são provas irrefutáveis disso. Assim, que modelo de cidadania e liberdade que se quer premiar agora?

Aprofundando a dúvida, sob vários pontos de vista, a justificativa para o Nobel da Paz 2021 não se enquadra no que se tem visto nos veículos das grandes democracias. Ou das pequenas democracias também.

Quem acompanha o movimento no Brasil, na Europa, ou nos Estados Unidos, vê claramente o nível de manipulação e desinformação praticado, especialmente pelas grandes redes de comunicação. Em geral, sob a velha batuta de quem é parte do establishment. Ou como se diz em inglês: following the power and the money.

Não é a primeira vez que a academia norueguesa se envolve em controvérsias.

O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed (2019), o presidente Norte-Americano, Barack Obama (2009), a presidente deposta de Burma, Aung San Suu Kyi (1991), e o antigo secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger (1973) são alguns exemplos de laureados problemáticos. Sem esquecer a União Européia, premiada em 2012.

Todos foram atores em conflitos armados desumanos antes e/ou depois de receberem a honraria.

Como seu colega Australiano, Jamal Khashoggi foi impiedosamente perseguido pelo poder de Estado, pela simples razão de ter cumprido o dever primário dos jornalistas: encontrar e divulgar informacoes que governos gostariam de manter secretas.

Mas a dúvida sobre a politização (no mau sentido) do Nobel da Paz desaparece com o artigo do jornalista britânico, Patrick Cockburn, no the Independent.

Publicado uma semana antes do Nobel, o texto chama atenção para verdadeiros heróis do jornalismo mundial moderno. Entre eles, os solenemente ignorados Julian Assange e Jamal Khashoggi.

O primeiro, australiano, apodrece numa prisão britânica, sob ameaça permanente de extradição aos Estados Unidos, onde certamente será condenado à prisão perpétua por espionagem.

O segundo, saudita, executado e esquartejado dentro da embaixada de seu país na Turquia. Seus crimes?! Contarem ao público mundial aquilo que governos poderosos querem manter em segredo.

Focado na revelação dos planos da CIA para assassinar Assange, o texto de Cockburn ainda aponta o jornalista Glenn Greenwald e a documentarista Laura Poitras como potenciais alvos do serviço secreto.

“Prender jornalistas como espiões têm sido sempre a norma de países autoritários”, diz, ao lembrar que outras potências ocidentais, como o Reino Unido, já manobram para aperfeiçoar a lei do direito à informação (Official Secret Act).

Proposta consultiva encaminhada pela Secretária de Estado Britânica, Priti Patel, em Maio deste ano, abre a possibilidade de jornalistas, informantes e denunciantes serem presos por 14 anos, caso se envolvam em “processos para obter informação sensível e confidencial que não está normalmente disponível ao público”.

Para os negligentes ou coniventes com tais evoluções do sistema democrático, fica a imperativa dúvida: por que jornalistas com maior importância e relevância para o ocidente não foram agraciados pela academia norueguesa?

Pelo menos por enquanto, perguntar não ofende.

Autor: Mariano Senna

Mariano Senna, nasceu em Porto Alegre. Formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (1995). Trabalhou em veículos impressos diários, semanários e mensários no Sul do Brasil. No JÁ, coordenou o projeto dos jornais de bairro (JÁ Bom Fim, JÁ Moinhos) e a criacao da Agência de Notícias Ambientais - Ambiente JÁ, no final dos anos 90. Em 2003 mudou-se para Berlim, na Alemanha, onde atua como correspondente, tradutor e consultor. Mariano têm mais de 20 anos de experiência no acompanhamento e reportagem de temas controversos, envolvendo interesses corporativos. É mestre (Master of Science) em mídia digital pela Universidade de Lübeck e tem doutorado (PhD) em ciência da informação no Instituto de Biblioteconomia e Ciência da Informação (IBI) da Universidade Humboldt de Berlim.

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