Os Heróis estão fatigados…

Fernando de Oliveira Coutinho, Juiz Corregedor aposentado
15ª. Região T.R.T São Paulo

Nada melhor para retratar a atual situação do que a produção, na França, do filme de Yves Montand, no início da década de 1950, denominado “Os heróis estão fatigados…” De igual forma como participei do Primeiro Congresso da Paz, em dezembro de 1952, em Viena, quando proclamávamos:
“Por mais paradoxal que se nos afigure, aqui estamos nós reunidos, em seção preparatória de um Congresso Mundial da Paz, a fim de soltarmos o nosso grito de guerra. Grito de guerra contra todos aqueles que se quedam mudos e impassíveis diante do soluçar da dor da humanidade sofredora. Em terras longínquas, mas a nós irmanadas por sentimentos de solidariedade humana, corre sangue inocente e culpado. É necessário sustar-se a medonha carnificina que, em colheita horrenda, nos leva vidas humanas. É necessário por um fim aos vendilhões da dignidade humana. Não se pode mais tolerar os céticos e apáticos. Não se pode mais admitir torres de marfim onde se escondem apavorados os covardes, egoístas e indiferentes de todas as castas.
O sangue que hoje corre, amanhã correrá com maior intensidade. E o que eram partículas ficarão gotas, o que eram gotas transformar-se-ão em riachos, os riachos em rios, rios em maré e, dia haverá que seus vagalhões atingirão as mais altas torres de marfim. Nada permanecerá íntegro. A pestilência da guerra atingirá os mais recônditos esconderijos e não haverá máscara que os proteja, a não ser a derradeira máscara da morte. É necessário que nosso grito de guerra penetre através das “cortinas de ouro” onde se acastelam os “profiteurs” da guerra. E, a cada um, o povo julgará conforme seu caminho.
E o nosso grito de guerra é um cântico de Paz. E a nossa caminhada, como a dos deuses, fecundará o deserto. Porque a união e a fé divinizam o Homem.
É o grito que sai das entranhas da mãe por ver, desde cedo, na fisionomia do filho, estampada a morte inglória. É o grito de Paz do pai, que percebe e vê refletido em seu próprio filho, o destino de morrer. É o grito de Paz da noiva, que desvenda no olhar do prometido a inutilidade de construir um lar que perecerá em virtude de guerra odiosa. É o grito lancinante do infante que não quer morrer assim, dessa forma assim… É o grito gemente da criança que, ao primeiro raciocínio, percebe seu trágico destino, ditado por mercadores. É o grito do militar, do magistrado, do sacerdote, do intelectual, do tecelão, que a par do tecido, tece a grandeza da pátria, do ferroviário, que percorre em suas máquinas todos os rincões do país, do marinheiro que sulca todos os mares, do sacrificado mineiro, do aviador, que percorre céus livres e não quer tombar em inútil holocausto, dos camponeses que regam a terra que não é sua, com seu suor que é muito seu.
É o grito de Paz de toda multidão que sofre e trabalha e não quer morrer por um ideal que não comunga, qual seja, o de amealhar dinheiro recolhido às arcas de poucos com os sacrifícios de muitos. Não desejamos mais: Suor – Lágrimas – Sangue. Queremos Paz – Trabalho – Fraternidade. E o nosso grito de Paz ecoará por terras e mares, céus e subsolos, porque é mais poderoso que as bombas atômicas e hidrogênicas. Mais poderoso que todos os artifícios de guerra, porque é o grito que parte da vontade soberana e indomável do homem que sabe e quer escolher seu próprio destino. É o grito de Paz definitiva. Queremos viver e produzir. Amar e ser amados. Queremos o direito que a nossa dignidade humana exige: o direito de viver! O direito de saber porque e por quem morremos. E eu vos afirmo que a Paz não somente deve ser salva. Eu vos afirmo que a Paz não somente pode ser salva. Eu vos afirmo que a Paz há de ser salva, haja o que houver, custe o que custar, porque essa é a nossa vontade.”
Naqueles idos estava em guerra a Coréia, guerra que durou de 1950 a 1953, e por pressão mundial, terminou com a divisão daquela nação em Coréia do Norte e do Sul e cuja fronteira foi delimitada pelo chamado paralelo 37. Em 1954 a luta argelina por sua auto-determinação. As maiores barbaridades então ocorreram com crimes terríveis cometidos por franceses e argelinos, como o corte de mãos, a castração e a decapitação. Nada mais atual. Mudou o palco, outros são os participantes. A colheita ceifadora prossegue em sua faina de exterminar a vida humana. A morte, em si, é uma verdade universal. O homem originou-se do pó e ao pó retornará. O assalto à moda do “gangsterismo” operou-se no Iraque. Colocaram uma cangalha na mocidade norte americana e de cambulhada foi enviada ao matadouro. O assalto ao Iraque se estriba no tripé: ganância, ambição e megalomania “sherifiana”.
A base é lastreada em mentira deslavada e hipocrisia despudorada.
O sr. Bush, como chefe da nação norte americana, ao enviar sua juventude para uma morte inglória, heróis sem causa, diuturnamente se transforma em um filhicídio, fratricídio e resvala pelas fronteiras do genocídio.
Os heróis estão fatigados… não querem tombar vítimas de uma bala certeira ou estilhaçados. Não querem cair com os braços abertos em forma de cruz ou serem mortos como animais caçados. A boca aberta, os olhos escancarados, o sangue a jorrar. Querem a Vida que é deles. Muito deles. Só deles!
É hora de parar. Há tempo de guerra. Há tempo de Paz! Bem compreendeu a Espanha, que em sua sabedoria retirou em tempo seus filhos. Os heróis estão fatigados… começam a entender que foram enganados. Sabem que são reféns dos senhores da guerra. Se apercebem que se não forem mortos, retornarão estropiados, mutilados, aleijados, paraplégicos, recauchutados, em frangalhos. Ao retornarem, serão atirados no lixo, como é usual. Os heróis estão fatigados… em tempo compreenderam que não se implanta a democracia como quem planta batatas. Que a ceifadora é sedenta de sangue e é cega na escolha. Os heróis estão fatigados… em suas mentes começam a ressoar as palavras do poeta “Sou sempre o mesmo, o último e primeiro, assim que cresço e fico moço, morro!” E ao cair da noite sonham.
“Eu quero arar os campos para o trigo, quero vigiar os rebanhos nas encostas, cantar nos estaleiros e altos fornos. Mas me arrancam das aulas e dos teares. E me atiram no lodo das trincheiras. Não adianta chorar Malamatemia! Corta as entranhas, para que eu não nasça”.
Sr. Bush, não queira passar para a história com o cognome Mr. Butcher, que como carniceiro bem lhe assenta. Não ouse se travestir em novo Polifemo e queira prosseguir com sua manopla triturando companheiros e seres humanos. Novos Ulisses surgirão e os papéis se inverterão. Não queira em sua lápide o epitáfio “aqui jaz um fratricida universal”. Cessa enquanto é tempo. Os heróis estão fatigados… e quando fatigados se tornam uma tsunami humana com efeito devastador e imprevisível.
Os heróis estão fatigados… que se veja em todos os sites, em todos os quadrantes da terra, as palavras imorredouras de Bilac:
“Nunca morrer assim; nunca morrer num dia assim; de um sol assim!”

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