Jardim Botânico é um museu vivo com mais de 4 mil plantas nativas

A bióloga Priscila Ferreira com um exemplar da coleção de Amaryllidaceae/Foto: Cleber Dioni

Cleber Dioni Tentardini
O Jardim Botânico de Porto Alegre possui 29 coleções científicas que somam mais de 4.300 plantas, incluindo espécies raras, ameaçadas de extinção e endêmicas, que são encontradas apenas no RS.

É um dos cinco melhores e maiores do Brasil, e serve de modelo para criação de outros JBs por sua organização e conservação da flora riograndense.

“A nossa preocupação maior é com a conservação da biodiversidade do Rio Grande do Sul”, afirma a bióloga Andréia Maranhão Carneiro, curadora das coleções do JB. Ela ressalta que o Brasil tem metas a cumprir, por ser signatário de acordos internacionais, especialmente através da Convenção da Diversidade Biológica (CDB)*, assinada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, a ECO 92.

Em 2002, houve a adoção da Estratégia Global para a Conservação de Plantas GSPC – Global Strategy for PlantConservation) na 6ª. reunião da conferência das partes da convenção sobre diversidade biológica em Haia. Foram estabelecidas 16 metas, adotadas pelo Conama, órgão consultivo e deliberativo do Sistema Nacional do Meio Ambiente – Sisnama.

Uma das metas é que os países disponibilizem 60% das espécies ameaçadas de plantas em coleções ex-situ (fora do seu habitat natural), de preferência no país de origem, e inclusão de 10% delas em programas de recuperação e reintrodução.

“E quem faz conservação ex-situ é jardim botânico”, diz a doutora em Botânica, especialista em Ecologia Vegetal. Se não for preservado nas suas atuais condições, provavelmente vai perder o registro, com prejuízos irreparáveis para conservação da biodiversidade no Estado.

Andréia está preocupada com o futuro das coleções /José Fernando Vargas/Divulgação

Não foi por acaso que o juiz Eugênio Couto Terra, da 10ª Vara da Fazenda Pública do Foro Central de Porto Alegre, no dia 9 de abril, em seu último despacho na ação movida pelo Ministério Público, ao travar a extinção da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, reforçou a ideia de que o Jardim Botânico de Porto Alegre é um museu vivo com um patrimônio público inalienável e que exige o máximo zelo dos gestores públicos na sua preservação para as gerações presentes e futuras.

“O ERGS foi devidamente cientificado do inteiro teor da decisão em 09.01.2018 e não se tem qualquer notícia de que tenha se insurgido contra a decisão, que é absolutamente clara em estabelecer que, para que possa operar e materializar a transferência da gestão para a Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, apresente, de forma minudente, clara e com indicação objetiva dos meios e modos de efetivação da alteração da administração, plano de ação que atenda, entre outros requisitos, a manutenção da classificação A do Jardim Botânico de Porto Alegre, com o atendimento de todas as exigências estabelecidas no art. 6º e respectivos incisos da Resolução 339/2003 do Conama”, anotou.

O Brasil possui 31 jardins botânicos: um distrital, dois privados, seis estaduais, oito federais e 13 municipais. Estão nos estados do Rio Grande do Sul (5), Paraná (1), São Paulo (7), Rio de Janeiro (4), Espírito Santo (1), Minas Gerais (3), Goiás (1), Brasília (1), Bahia (1), Pernambuco (1), Paraíba (1), Rio Grande do Norte (1), Ceará (1), Pará (2) e Amazonas (1).
No RS, existem dois JBs municipais, de Caxias do Sul e Lajeado, um privado, da Unisinos, um ligado à Universidade Federal de Santa Maria, e o da FZB, o maior.

Área de preservação está reduzida a 36 hectares/Cleber Dioni

Em junho de 2003, durante a Semana do Meio Ambiente, o Jardim Botânico da Capital passou a integrar o patrimônio cultural do Estado, permitindo beneficiar-se das leis de incentivo à cultura (federal, estadual ou municipal), para eventuais projetos de preservação e restauração de seu patrimônio, e estimulando a iniciativa privada para o desenvolvimento de projetos no parque. Proposta semelhante está em tramitação na Câmara Municipal, cujo projeto de Lei, do vereador Marcelo Sgarbossa (PT) propõe tombar o imóvel sede do JB como Patrimônio Cultural e Histórico de Porto Alegre. Já passou por duas comissões de vereadores, de Constituição e Justiça (CCJ) e de Economia, Finanças e Orçamento e do Mercosul (CEFOR), sendo que ambas deram parecer contrário ao PL por entenderem que a proposição da matéria é de responsabilidade exclusiva do Poder Executivo municipal. O projeto aguarda parecer, agora, da Comissão de Urbanismo, Transporte e Habitação (CUTHAB).
Há 110 espécies ameaçadas de extinção
Modelo no Brasil em conservação da biodiversidade, o Jardim Botânico de Porto Alegre possui plantas envasadas (plantadas em vasos e abrigadas em casas de vegetação) e do arboreto (plantadas na área do parque). Há cerca de 2.250 exemplares de arbóreas, mais de 750 de orquídeas e mais de 620 de bromélias. Diversas plantas estão na coleção há mais de 30 anos. A planta Cactaceae envasada número 001 é de 1974.

Estão preservadas no JB aproximadamente 110 espécies ameaçadas de extinção entre bromélias, cactos, orquídeas, palmeiras, diversas famílias de arbóreas e pteridófitas (várias famílias de diversos tipos de samambaias e xaxins). Constam nas coleções, por exemplo, a espécie de orquídea Cattleya intermedia, o cacto Parodia neohorstii, espécie endêmica da Serra do Sudeste, no Estado, Callisthene inundata, árvore endêmica da Serra, e Dyckia maritima, espécie de bromélia que ocorre no Litoral Norte do RS.

Espécies nativas de cactos consideradas em perigo de extinção: Parodia leninghausii (na frente) e Parodia magnifica (ao fundo)

Há cerca de 35 espécies ameaçadas de cactáceas, ou seja, 66% das espécies ameaçadas de cactos do RS estão preservadas no JB. E aproximadamente 29 espécies ameaçadas de bromélias, quase todas (80%) que constam no último levantamento da lista “vermelha” da flora riograndense, de 2014. Também estão protegidas árvores como o Butia yatay e o pinheiro-bravo.

Quatro botânicas dividem as atividades de pesquisa e manejo das 4,3 mil plantas envasadas e arbóreas. Elas têm o apoio de três técnicos – Ari Delmo Nilson, Leandro da Silva Pacheco e Tomaz Vital Aguzzoli – e de jardineiros, parte destes terceirizados. Os estágios foram cortados pela atual gestão, mas há dois alunos da graduação, bolsistas de Iniciação Científica do CNPq.

“Temos mais de duas mil plantas envasadas, pertencentes a dez coleções, então dividimos por setores as atividades diárias, mas o trabalho é muito de equipe para podermos dar conta”, ressalta Natividad Ferreira Fagundes, referindo-se também aos técnicos, que auxiliam no planejamento e execução de todas as atividades da Seção de Coleções, incluindo os manejos do parque como plantios, podas e supressões, pois possuem conhecimentos específicos para a sua função.

Natividad é especialista em bromélias/Mariano Pairet/Divulgação

O ideal é que, além dos técnicos, houvesse jardineiros fixos para saber coletar, armazenar e transportar as plantas de forma correta. Analisar o estado fitossanitário, reconhecer pragas, preparar o tipo de substrato, selecionar o vaso ou o suporte adequado para cada espécie.

Tillandsia duratii, criticamente ameaçada de extinção Tillandsia duratii, criticamente ameaçada de extinção
Vriesea corcovadensis, bromélia criticamente ameaçada de extinção

 

 

 

 

 

 

 

 

“Cada espécie tem suas particularidades e demandam cuidados especiais. As bromélias, por exemplo, se multiplicam bastante por reprodução vegetativa, a equipe faz o manejo da coleção e, logo em seguida, surgem vários indivíduos novos, causando o adensamento das plantas, tornando-as mais suscetíveis a pragas, por exemplo, então a supervisão é diária para não corrermos o risco de haver perdas”, explica. “E como as bromélias, em geral, são epífitas, e absorvem a água principalmente pelas folhas, então, nos vasos, é preciso regar as folhas e não a terra porque, do contrário, elas apodrecem”, ensina Nati, como é chamada entre os colegas, especialista em bromélias, com pós-doutorado pela Ufrgs na área de Morfologia e Anatomia Vegetal. Ela ingressou na Zoobotânica em agosto de 2014, mas durante toda a vida acadêmica utilizou as coleções do Jardim Botânico em seus estudos.

Sua colega, Priscila Porto Alegre Ferreira, ressalta que o manejo das coleções é apenas uma parte do trabalho. “Também realizamos pesquisas, participamos de planos de manejo, saímos a campo para coletar mudas, exsicatas e sementes, ficando todas as informações armazenadas no banco de dados. Após um período para o preparo e adaptação dos exemplares, eles são, então, inseridos nas coleções”, afirma a bióloga.

A bióloga Priscila Ferreira e o técnico Tomaz Aguzzoli no trabalho com a coleção de Pteridófitas. Foto: Júlia Fialho/Divulgação
Samambaia Blechnum penna-marina, classificada como vulnerável/Priscila Ferreira
O xaxim Dicksonia sellowiana também é considerado vulnerável

 

 

 

 

 

 

 

Priscila é formada na Universidade Federal de Santa Maria, com Doutorado na UFRGS. Especializou-se na família Convolvulaceae e em plantas trepadeiras. É taxonomista, capacitada para descrever espécies. Também ingressou em agosto de 2014 na FZB.

A botânica já descreveu sete espécies novas para a Ciência. Uma das plantas, do gênero Ipomoea, ela encontrou no município de Manoel Viana, e como de praxe, teve agregado seu nome, ficando então Ipomoea pampeana P.P.A. Ferreira & Miotto.

Priscila destaca os cuidados com as plantas bulbosas – exemplo das famílias Amarylliaceae, Asparagaceae e Iridaceae –, que perdem a parte externa em determinadas épocas do ano, mas não ficam menos suscetíveis a infestações, pois lagartas podem ainda atacar o bulbo (caule subterrâneo). “Assim, o cuidado é intensificado”, diz a botânica.

A bióloga Rosana Farias Singer lembra que, além das coleções arbóreas e s, jardins botânicos como o de Porto Alegre são muito visitados por pesquisadores de outros estados e países, além dos estudantes, o que demanda tempo e disponibilidade para auxiliá-los.

A bióloga Rosana Singer entre espinilhos do Jardim Botânico/Cleber Dioni

Formada pela Universidade Estadual de Campinas, com pós-doutorado em Biologia Molecular pela Ufrgs, a botânica sul-matogrossense é taxonomista, identifica e descreve as plantas.
“Sem especialistas, técnicos e jardineiros, não consigo vislumbrar a manutenção do Jardim Botânico. Não há a mínima condição de um único profissional ficar responsável pelas coleções, ou um pesquisador e um jardineiro, por exemplo. Porque o trabalho não é só dar água às plantas, elas precisam dos nutrientes, cuidados contra as pragas, o manejo correto, feito por pessoas qualificadas, sem isso é muito difícil que as espécies sobrevivam”, diz Rosana.

Pesquisadora do JB Rosana Singer no refúgio Banhado dos Pachecos/Mariano Pairet/Divulgação

A botânica chama a atenção também para o Banco de Sementes do JB, ameaçado de ficar sem pesquisadores e na iminência de encerrar as atividades de análise fisiológica e morfológica de sementes de espécies arbóreas e arbustivas nativas do Rio Grande do Sul.

Dal Ri com sementes conservadas na câmara seca do laboratório no JB/Cleber Dioni

O engenheiro florestal Leandro Dal Ri, analista do Banco de Sementes diz que o laboratório é um dos poucos no Estado que realiza essas funções, inclusive com as espécies ameaçadas. “Eventuais danos serão incomensuráveis, com perda em termos de sistematização de dados gerados em experimentos nos últimos 20 anos, podendo comprometer a lista de Index Seminum, pois não existirão sementes armazenadas”, afirma.

Andréia, a curadora das coleções, reforça outro ponto que normalmente as pessoas desconhecem em relação às funções de um jardim botânico, por acharem que “se não der lucro tem que fechar”.

“Tem várias atividades, prestação de serviços que são dever do Estado, está na legislação, e se não tiver profissionais para prestar esse serviço, o governo terá que contratar junto à iniciativa privada e vai gastar muito mais, isso já está provado. Posso dar vários exemplos, como os estudos em áreas de proteção ambiental, os planos de manejo, mapa eólico, zoneamento da silvicultura, as revisões das listas de espécies ameaçadas”, exemplifica.

A bióloga Andréia Carneiro durante coleta em Caçapava do Sul/ Foto Rosana Singer/Divulgação

Andréia lembra que está sendo construído um novo orquidário, sem gastos públicos. “Esse dinheiro é da empresa Taurus, que fez um acordo com o Ministério Público e reverteu uma multa na recuperação do telhado do bromeliário e na construção de um novo orquidário”, explica.

Andréia e os técnicos Ari e Leandro no Parque Estadual do Turvo/Foto Priscila Ferreira/Divulgação

A botânica destaca também que as coleções científicas têm valor para diversas áreas, e não só para a biologia. “Engenheiros agrônomos e florestais, farmacêuticos, médicos, todos pesquisam aqui. Isto é patrimônio do Estado”, completa.
Casa de Vegetação fica pronta em julho
Em dezembro de 2017, o Ministério Público do Rio Grande do Sul, através da Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre, e a empresa Taurus S.A. participaram da reinauguração do bromeliário do Jardim Botânico de Porto Alegre, que foi restaurado com parte dos recursos provenientes de uma multa ambiental aplicada à fabricante brasileira de armas.

A arquiteta Rosa Maria Pacheco, da Fundação Zoobotânica, diz que foi substituído o telhado, restauradas as estruturas de ferro, de concreto e das mesas, e foram feitas pinturas em geral no bromeliário.

Promotora com advogado e a supervisora ambiental da Taurus/Cleber Dioni
Bromeliário foi todo restaurado/Divulgação

 

 

O ato celebrou também a entrega de vários equipamentos à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) e o anúncio da construção de uma nova casa de vegetação, que abrigará orquídeas, samambaias, entre outras plantas. As obras começam em março, com prazo de entrega em 120 dias.
A multa revertida em benfeitorias ao JB e na compra de materiais para a Fepam resultam de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre o MP e a Taurus, devido a um acidente em sua unidade na Capital que provocou contaminação do solo.

Segundo o advogado Neandro Bagatini Lazaron, representante da empresa, dos cerca de R$ 200 mil da multa, foram gastos R$ 25,9 mil no bromeliário, R$ 79,6 mil na aquisição dos equipamentos para a Fepam e serão aplicados R$ 95 mil na nova casa de vegetação.
Missão do JB é conservar a biodiversidade nativa
Poucos conhecem as matas e campos no Estado como o técnico agrícola Ari Delmo Nilson, um dos funcionários mais antigos do JB de Porto Alegre. Começou a trabalhar em 1975, três anos após a criação da Fundação Zoobotânica do RS.

Ari Delmo Nilson, o mateiro

Ele ajudou a plantar uma grande parte da coleção arbórea do Jardim Botânico. “Está tudo registrado nestes caderninhos”, aponta Ari, com orgulho por ter seguido à risca os ensinamentos dos naturalistas com quem conviveu no JB, como os professores Albano Backes e José Willibaldo Thomé.

Chegou a conhecer o fundador, irmão Theodoro Luis, mas logo o jesuíta espanhol retornou à Europa para continuar os estudos.  “Lembro que, ao retornar a Porto Alegre, o irmão Theodoro elogiou o doutor Albano por ter cumprido com a missão de manter o JB como uma unidade de conservação da flora nativa e isso sempre carreguei comigo”, ressalta.
Uma hora de caminhada pelo JB com Ari é um aprendizado e um exercício de memorização. “Aqui temos uma floresta típica da região do Alto Uruguai, com exemplares de angico, louro, maria preta,  canjerana, guatambú, sassafrás, camboatá,  canela, cabreúva, todas essas plantas estão disponíveis, identificadas e catalogadas para pesquisadores e a população em geral que quiser conhecer. Esse angico vermelho ou curupaí, eu trouxe sementes do Alto Uruguai, fiz a germinação, adaptação e plantio, em 1976”.

Agora, nenhum outro local dá mais satisfação a esse “mateiro”, como gosta de ser chamado, que a entrada do Jardim Botânico, simplesmente porque foi ele quem plantou quase todas as palmeiras, algumas sementes trazidas de sua terra natal, Marcelino Ramos. Todas as espécies nativas de palmeiras constam na área do JB, algumas estão ameaçadas de extinção, como o coqueiro, jerivá, butiá, buriti, geonoma.

Ari ajudou a plantar quase todas as palmeiras na entrada do JB, algumas sementes trazidas de sua terra natal

“As palmeiras constituem a área frontal do Jardim Botânico, o cartão de visitas. Nós priorizamos espécimes nativas, os coqueiros, jerivás, butiazeiros, que estão bem representados aqui em exemplares com mais de 40 anos, mas nessa área há uma exceção porque a gente procurou plantar palmeiras de vários países”, explica.
Uma história de vida com o Jardim Botânico
O Julio tem 42 dos 60 anos de idade dedicados ao Jardim Botânico de Porto Alegre. Começou a trabalhar em outubro de 1976, como jardineiro, participou da implantação dos canteiros de flores e do arboreto. Foi para o viveiro faz uns 39 anos, e está lá até hoje, onde organiza e vende as mudas de árvores.

Mas sua história com o JB é bem mais antiga, remonta à infância. Julio Cesar Vianna do Prado é filho do seu Julião, um dos primeiros jardineiros do parque. A família chegou a morar numa das oito casas construídas para os funcionários, por volta de 1958, a pedido do irmão jesuíta Theodoro Luiz (responsável pela implantação do JB), para ajudar a cuidar o terreno, que na época era aberto, e a população transitava livremente pela área. A partir de 1972, com a criação da Fundação Zoobotânica, os servidores foram indenizados para adquirir terrenos na cidade e as casas, transferidas.

Julio Prado e o pai, seu Julião/Cleber Dioni

“Lembro que, logo em seguida da instalação da FZB, o diretor do Jardim Botânico, o doutor Albano Backes, achou por bem que deveríamos produzir as nossas próprias mudas, então começamos a produzir flores para os canteiros e coletar sementes de árvores aqui pela volta mesmo para produzir as mudas. Já chegamos a produzir 40 mil mudas num ano. Quando havia seis pessoas trabalhando no viveiro, chegamos a produzir duas mil mudas de flores para os canteiros, e como são flores de ciclo curto, tinha que trocar de tempos em tempos”, lembra.
No viveiro, há mudas de cerca de oito espécies arbóreas ameaçadas de extinção, como o palmito, a margaritaria, o pau ferro, bicuíba, pau alazão.

Mudas de Pau alazão (Eugenia multicostata)/Cleber Dioni

Manejo agroecológico, uma solução caseira
A bióloga Josielma Hofman de Macedo e a graduanda em Geografia na Ufrgs Carina Richardt de Carvalho entraram por concurso em 2014 no Jardim Botânico para trabalhar como jardineiras, passaram por vários setores, e hoje cuidam da irrigação e manutenção dos canteiros no parque.

Josielma, acompanhada de seu Pedro, aplica nas tarefas diárias os conhecimentos científicos/Mariano Pairet

Segundo elas, o setor de jardinagem tem procurado trabalhar mais com manejo agroecológico, por ser de baixo custo e ambientalmente correto.

Carina com sua colega jardineira Ana Emilia Sander/Divulgação

“A gente é quase autônomo aqui, em termos de materiais, produzimos o nosso composto, que pode ser utilizado na cobertura dos canteiros, no paisagismo, a água vem da vertente lá de baixo, as madeiras vem das sobras das podas. Tínhamos um projeto de reaproveitamento da água da chuva ali no prédio do museu, espero que retomem”, diz Josielma.
“São tecnologias de baixo impacto e custo”, complementa Carina. A futura geógrafa, espera que o cenário melhore, o Jardim Botânico permaneça funcionando e até contrate mais jardineiros. “Quando entramos havia 21 jardineiros, contando com os terceirizados, e hoje são 17, o que eu acho insuficiente para a manutenção da coleção arbórea e do paisagismo”, completa.
Bolsistas pesquisam flora espontânea no JB
Com as vagas de estágio cortadas pela atual gestão da Fundacão Zoobotânica, os estudantes Júlia Soares e Willian Piovesani estão entre os alunos bolsistas privilegiados por desenvolverem pesquisas no Jardim Botânico.
Os bolsistas desenvolvem projetos de levantamento das espécies de plantas epífitas e trepadeiras espontâneas do JB.

Júlia e Willian realizam pesquisas no próprio Jardim Botânico/Divulgação

Ambos são alunos do curso de bacharelado em Ciências Biológicas da UFRGS. Pesquisam desde janeiro de 2016 e já tiveram oportunidade de apresentar um estudo parcial na Jornada de Iniciação Científica da Fundação Zoobotânica e no Salão de Iniciação Científica da UFRGS.

Levantamento é feito durante todo ano

“Estamos identificando essa flora nas quatro estações do ano para termos um levantamento completo”, diz Júlia, que se formou em licenciatura no fim de 2017. Ela encontrou 40 espécies de epífitas até agora, mas acredita que há muito mais dessas plantas.
Willian constatou um número mais elevado do que esperava de espécies de trepadeiras, 65 até o momento. Ele destaca como um dos desafios do seu trabalho a observação e a coleta dessas plantas que, na maioria das vezes, portam suas folhas, flores e frutos no alto das árvores.

Cenário de incertezas prejudica educação ambiental
Júlia dedicou seu trabalho de conclusão de curso, em licenciatura, no inicio deste ano, à educação ambiental no Jardim Botânico de Porto Alegre e contextualizou as atividades com o cenário de incertezas da Zoobotânica, instituição a qual o JB está vinculado. Ela acompanhou algumas edições do Curso de Formação para Educadores, ministrado pelo engenheiro agrônomo José Fernando Vargas, que foi seu coorientador. A professora Russel Dutra da Rosa, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do RS foi sua orientadora.
A bióloga constatou uma relação indissociável dos jardins botânicos com a educação ambiental, e desta atividade multidisciplinar com a população. E verificou uma queda drástica tanto nas visitas de escolas como da população em geral. Os dados são de 2013 e 2016.

“Em 2013, foram registrados quase 71 mil visitantes e, em 2014, mais de 67 mil, mas a partir da metade de 2015, quando é anunciado o plano de extinção da FZB, a procura caiu para 60 mil visitantes, justamente quando a possibilidade de encerrar a instituição foi anunciada e muitas pessoas passaram a achar que o Jardim Botânico estava fechado”, registra.
O número de visitas escolares ao Jardim Botânico também reduziu diante desse cenário de incertezas. Nos anos de 2013 e 2014, a média de visitas foi de 549 escolas e, em 2016, caiu para 327 agendamentos.
Júlia levantou dados sobre os cursos: de setembro de 2016 a outubro de 2017, ocorreram 11 cursos de botânica aplicada no Jardim Botânico – Cactos e suculentas, Compostagem doméstica, Cultivo de bromélias, Cultivo de orquídeas, Hortas em pequenos espaços e Propagação de plantas -, que disponibilizaram, no total, 335 vagas, das quais 205 foram ocupadas. Nesse mesmo intervalo, ocorreram 10 Cursos de Formação de Educadores, que disponibilizaram 330 vagas, sendo que 100 foram ocupadas. Também foram oferecidas atividades como Ciência na Praça, de divulgação científica e educação ambiental organizado pelo Museu de Ciências Naturais, e o JardinAção, evento que ocorre desde 2007.

Vargas com uma turma do Curso de Formação de Educadores realizado este ano/Mariano Pairet

Para o coordenador da Educação Ambiental do Jardim Botânico, Fernando Vargas, o JB tem potencial para incentivar muito mais atividades, basta ter vontade e disposição para que as iniciativas deem certo. “Temos agenda para oferecermos muitos mais cursos ao ano e outras alternativas”, diz o agrônomo.
Museu tem Ciência na Praça e exposições em escolas
O Museu de Ciências Naturais, da FZB, tem sua própria Seção de Educação Ambiental e Museologia e oferece exposições fixas, itinerantes e atividades como Ciência na Praça e Museu vai à Escola. “A ideia é popularizar e socializar o conhecimento científico”, explica a bióloga Laura Gomes Tavares.

Ideia é popularizar o conhecimento científico, diz bióloga, na entrada do Museu de Ciências Naturais

“O objetivo primordial da Fundação Zoobotânica é a conservação da biodiversidade, e as pesquisas, as coleções, os estudos em laboratórios são fundamentais para o trabalho, então, o papel da educação ambiental é explicar ao público, por exemplo, o que é biodiversidade, mostrar o que é feito na Fundação”, afirma Laura, que é mestre em Zoologia e servidora da FZB há mais de duas décadas.
Laura chama a atenção também para as exposições do Museu de Ciências Naturais, com mostras permanentes, itinerantes e para convidados. “Com o material do acervo, promovemos uma interlocução entre o pesquisador e o público, um diálogo informal que desperta a curiosidade para a importância do meio ambiente e estimula o pensamento crítico dos visitantes, reforçando que esse é um tema multidisciplinar”, ressalta.
Sua colega na Seção de Educação Ambiental e Museologia, Márcia Severo Spadoni, acredita que as atividades têm uma importância muito grande também para os pesquisadores e acadêmicos de biologia e de outros cursos, que levam esse aprendizado por toda a vida profissional.

Márcia (à esquerda) em atividade lúdica na Escola Municipal Porto Novo/Divulgação

“Nossas atividades externas como o projeto Ciência na Praça, que acontece desde 1986 e é direcionado prioritariamente para as escolas públicas, eles saem um pouco do mundo da academia, da pesquisa, e entram em contato com a população, é o momento de passar seu conhecimento, então eles vão experimentar, adaptar, aprimorar, é um aprendizado incrível”, garante.
Márcia ingressou na Fundação Zoobotânica em 1994, como técnica em química. Passou por alguns setores como Ictiologia, Mastozoologia, auxiliou na operação do microscópio eletrônico de varredura e prestou apoio à produção da revista Iheringia. Nesse tempo, formou-se em História, depois fez especialização em Psicopedagogia e mestrado em Ensino de Ciências e Matemática. Passou a trabalhar meio turno na área de educação ambiental, sob a coordenação da bióloga Geneci Britto. A partir do ano de 2000, decidiu dedicar-se exclusivamente às atividades de educação ambiental, ajudando a organizar inclusive feiras e exposições no Litoral Norte gaúcho.
“Através dessas atividades, temos a oportunidade também de dar nossa contribuição social, porque um museu como o nosso, com trabalhos fantásticos, tem um papel fundamental na sociedade e, portanto, tem que ir além das pesquisas e de suas coleções”, completa.

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