Autor: Sérgio Lagranha

  • O “x” da questão é a política monetária do governo Lula

    O economista André Lara Rezende, um dos pais dos planos Cruzado e Real, juntamente com Pérsio Arida, outro idealizador do Plano Real, faz parte da equipe econômica da transição do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, que conta também com Guilherme Mello e Nelson Barbosa, ligados ao PT.

    O texto “Diretrizes de Políticas Públicas para 2023 – Elementos para uma Estratégia de Retomada do Crescimento Sustentável e Inclusão Social”, elaborado por vários economistas do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), foi coordenado por Lara Rezende.

    Uma das discussões mais importantes para esse grupo de transição do governo Lula,  instalado  no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), em Brasília, deve ser a política monetária, que define a atuação de autoridades monetárias sobre a quantidade de moeda em circulação, de crédito, e das taxas de juros controlando a liquidez global do sistema econômico. O “x” da questão é que essa política está nas mãos de um Banco Central “independente”.

    Nos últimos tempos, Lara Rezende tem defendido a tese de que é preciso repensar a teoria macroeconômica preponderante – em especial a política monetária. Em junho de 2022, ele lançou o livro “Camisa de força ideológica”, pelo selo Portfolio-Penguin da Companhia das Letras.

    Para ele, a teoria econômica que hoje pauta grande parte de nosso entendimento do mundo é tida como o embasamento, se não científico, técnico, das políticas públicas. “Os economistas, embora pretendam ter um sólido arcabouço teórico e sustentação empírica, que lhes daria legitimidade para ditar políticas, são mais um grupo de contadores de histórias. Como tantos outros, criam narrativas para ordenar e dar sentido a uma realidade aparentemente caótica.”

    Lara Rezende observa que “nas sociedades contemporâneas, a teoria monetária hegemônica é um arcabouço conceitual cujo objetivo é restringir e direcionar o poder do Estado, agora em benefício do capitalismo financeiro.”

    E complementa: “O capitalismo sempre foi financeiro, adoto aqui o termo para denotar o capitalismo contemporâneo, sobretudo a partir do último quarto do século XX, quando os ativos e os passivos financeiros cresceram desproporcionalmente em relação à renda. Os economistas viram o seu prestígio crescer, são hoje a elite da tecnocracia e os formuladores de políticas públicas. Os políticos eleitos foram relegados a um papel secundário. Têm, em tese, o poder de definir políticas, mas, na prática, estão subordinados ao receituário tecnocrático dos economistas.”

    No artigo “Obsessão em atar as mãos do Estado paralisa o Brasil há três décadas”, publicado no Valor Econômico em abril de 2021, Lara Rezende escreve “que é altamente questionável e equivocada a ideia que se consiga combater a inflação com a alta dos juros.  Além disso, ao subir a taxa de juros, sobem os custos de carregamento da dívida pública federal, que hoje está em torno de R$ 5 trilhões. O mercado calcula que haverá um custo ao governo federal de R$ 360 bilhões por ano com a alta dos juros. Quem ganha são os grandes bancos e os ricos, seja como instituições financeiras ou fundos de investimento, que detêm hoje 47,5% da dívida pública em suas mãos.

    No artigo “Juros e conservadorismo intelectual”, publicado no Valor Econômico em janeiro de 2017, Lara Rezende afirma que embora continuem a ser utilizados pelos analistas e pelos economistas práticos, os modelos da Teoria Quantitativa da Moeda (TQM), tanto o keynesiano como o monetarista, são hoje considerados ultrapassados. Na fronteira teórica, foram substituídos pelos modelos neokeynesianos, com expectativas racionais, que deixam a moeda de lado e focam exclusivamente na taxa de juros como instrumento de controle da inflação.

    Segundo ele, a teoria monetária dominante nunca conseguiu compreender e dar soluções para as altas taxas de inflação crônica. Sua prescrição – controlar a expansão da moeda e contrair a liquidez – só provocou crises bancárias e recessões.

    Ele lembra que “a experiência revolucionária dos bancos centrais do mundo desenvolvido, desde a grande crise financeira de 2008, não deixa mais dúvida: todos os modelos macroeconômicos que adotam alguma versão da Teoria Quantitativa da Moeda estão equivocados e devem ser definitivamente aposentados. Os bancos centrais aumentaram a oferta de moeda numa escala nunca vista. O Fed, banco central dos EUA, por exemplo, aumentou as reservas bancárias de US$ 50 bilhões para US$ 3 trilhões, ou seja, multiplicou a base monetária por 60, num período inferior a dez anos. A inflação não explodiu, ao contrário, continuou excepcionalmente baixa. O mesmo aconteceu no Japão, na Inglaterra e nas economias da zona do euro. Diante do aumento, verdadeiramente extraordinário, da oferta de moeda, a inflação manteve-se excepcionalmente baixa e ainda menos volátil do que no passado.”

    Enquanto isso, a mídia corporativa só está interessada na manutenção no teto dos gastos da União, conforme emenda constitucional aprovada em 2016 e que estabelece que os gastos do governo pelos próximos 20 anos – até 2036 – devem crescer de acordo com a inflação de um ano para o outro.

    O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central aumentou 12 vezes consecutivas a taxa básica de juros, que estava em 2% ao ano em março de 2021 e hoje chegou a 13,75% ao ano. Tudo para controlar a inflação que não é de demanda, mas de custos, pelo descontrole de preços que deveriam ser administrados pela União, como os derivados do petróleo e energia, além da falta de estoques reguladores de alimentos.

    O resultado é que somente quatro entre 10 famílias conseguem acesso pleno à alimentação.  A escalada da fome está expressa em pratos cada vez mais vazios, olhares cada vez mais preocupados, e números em permanente e rápida ascensão. Em 2022, 33,1 milhões de pessoas passam fome, conforme revelou o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil.

  • Novo Presidente da República terá que conviver com um Banco Central “independente” por dois anos

    Está escrito no artigo 1º  da Lei Complementar 179/2021 que estabelece a autonomia do Banco Central, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro, que o BC tem por objetivo fundamental assegurar a estabilidade de preços. Desde sua aprovação pelo Congresso o que não aconteceu foi a estabilidade dos preços. Ao contrário, os preços subiram porque o Estado não controla mais os preços do petróleo, dos combustíveis, da energia, que afetam toda a cadeia produtiva.

    O verdadeiro objetivo dessa lei é manter o controle das políticas monetária e cambial com os bancos, que defendem as políticas neoliberais de concentração de renda nas mãos de poucos.

    O maior exemplo é o constante aumento da taxa de juros com a velha e esfarrapada desculpa de combater a inflação, com apoio da mídia corporativa. As matérias dizem que a independência do Banco Central é a forma de garantir à instituição financeira executar suas tarefas sem risco de interferência político-partidária. Então, a população vota em seus candidatos, mas eles não podem interferir nas políticas para melhorar a distribuição de renda?

    O Banco Central “independente” adota políticas neoliberais e culpa a inflação pela alta de preços. Na realidade  quase 63 milhões de brasileiros têm renda domiciliar per capita de até R$ 497 mensais, ou seja, sobrevivem com menos da metade de um salário mínimo, de acordo com o Mapa da Nova Pobreza, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

    O salário mínimo, que hoje é de R$ 1.212, não dá para comprar sequer os 39 produtos da cesta básica ampliada pesquisada pelo Dieese em parceria com o Procon. Portanto, a inflação não é de demanda, mas de custos, que não se resolve com aumento da taxa de juros. É só observar o número de estabelecimentos fechados nas ruas e nos shoppings, além do número de desempregados pedindo comida e informais vendendo bala de goma.

    No entanto, no projeto de Lei Orçamentária Anual (LOA), enviado pelo Governo Bolsonaro ao Congresso, do total previsto de R$ 5 trilhões, mais da metade deste valor é usado para pagar juros e amortizações da dívida pública. Dívida essa que deve crescer em 2023, passando de 78% para 79% do Produto Interno Bruto (PIB).

    O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central aumentou 12 vezes consecutivas a taxa básica de juros, que estava em 2% ao ano em março de 2021 e  chegou a 13,75% ao ano.

    Fica muito claro que o pagamento dos juros da dívida e a alta das taxas favorecem os bancos e aqueles que vivem de aplicações financeiras. Essa é a razão do aumento da taxa básica de juros pelo Banco Central “independente”. O povo, pouco importa.

    Esta semana o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa básica de juros em 13,75% ao ano, interrompendo o longo ciclo de alta.  O Copom, que se reúne novamente em 25 e 26 de outubro, afirmou em seu comunicado que se manterá vigilante e que vai avaliar se a estratégia deixar a Selic neste patamar por período “suficientemente” prolongado para assegurar a convergência da inflação. O Comitê reforçou que irá perseverar até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas.

    O problema é que o atual presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, continuará no cargo até 31 de dezembro de 2024. A nova lei determina que fique em seu cargo por quatro anos não coincidentes com o mandato do presidente da República.

    Isso significa que se Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganhar as eleições, como as pesquisas mostram, ele terá que se submeter a uma política monetária do Banco Central nos dois primeiros anos de seu governo. Uma política que está deixando cerca de 33 milhões de brasileiros passando fome, de acordo com levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).

    A Lei Complementar 179/2021, que estabelece a autonomia do Banco Central, é uma das tantas cascas de banana deixadas pelo Governo Bolsonaro, que terá de ser revista no momento que o Brasil tiver um Congresso eleito pelo voto e não pelo dinheiro. Mas isso remete para outra discussão sobre a democracia burguesa. 

     

  • Organização de Cooperação de Xangai expande adesão e apelo internacional

    No final do encontro realizado durante dois dias no Centro Internacional de Conferências em Samarcanda, Uzbequistão, os estados membros da Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês) assinaram nesta sexta-feira, 16/9, a Declaração de Samarkanda  não apenas para os países regionais, mas também para a comunidade internacional, mostrando ao mundo a importância da organização em meio a uma complicada situação geopolítica global. É mais um evento que mostra que a transformação para um mundo multipolar já está em andamento.

    Além de salvaguardar a segurança alimentar global,  a segurança energética, abordar as mudanças climáticas e manter uma cadeia de suprimentos segura, estável e diversificada, o combate ao terrorismo é uma parte importante do documento, com os países membros trabalhando para formar princípios e posições comuns na criação de uma lista unificada de proibição de atividades terroristas, separatistas e extremistas.

    No documento da entidade voltada para assuntos de economia, política e, principalmente, segurança, encabeçada por Rússia, China e Índia, consta, ainda: “Os Estados membros querem estimular a melhor eficiência da Organização Mundial do Comércio (OMC) como plataforma chave para discutir a agenda do comércio internacional e adotar as regras do sistema de comércio multinacional. A necessidade de realizar a reforma inclusiva da organização o mais rápido possível com um foco nas questões de seu desenvolvimento e ajuste à realidade econômica atual, bem como na implementação eficiente das funções de monitoramento, conversação e solução de controvérsias.”

    Os estados membros da SCO, que são partes do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, defendem a estrita observância das disposições do tratado, uma promoção abrangente e equilibrada de todos os objetivos e princípios nele consagrados, fortalecendo o regime global de não proliferação nuclear, continuar o processo de desarmamento nuclear e promover uma cooperação benéfica mutuamente igual nos usos pacíficos da energia nuclear.

    Segundo o presidente russo, Vladimir Putin, transformações fundamentais estão ocorrendo na política global e na economia, e essas são irreversíveis em sua natureza. “Novos centros de poder cuja contra-ação tem sido guiada pelos princípios amplamente reconhecidos da supremacia do direito internacional e da Carta da ONU. Além disso, a garantia de segurança igual e indivisível, respeito pela soberania, valores nacionais e interesses mútuos, ao invés de regras, invisíveis por qualquer pessoa, impostas de fora, vêm desempenhando um papel cada vez mais crescente.”

    O presidente chinês Xi Jinping delineou várias prioridades para os membros da SCO, incluindo permanecer comprometido com o Espírito de Xangai e aumentar a solidariedade e cooperação, manter a independência estratégica e salvaguardar a estabilidade regional. Também buscar inclusão e benefícios compartilhados na promoção da cooperação para o desenvolvimento e avançar no processo de expansão e fortalecimento da SCO.

    Uma das conquistas mais importantes alcançadas em Samarcanda é a expansão dos estados membros. A SCO foi fundada com seis membros em 2001 como um fórum intragovernamental destinado a fomentar a confiança e desenvolver laços econômicos e humanitários na Ásia. Desde então expandiu para oito: China, Rússia, Índia, Cazaquistão, Quirguistão, Paquistão, Tajiquistão e Uzbequistão. Juntos, os países-membros representam 25% do PIB global e 42% da população mundial.

    Tem a participação do Afeganistão, Bielorrússia, Mongólia e Irã como estados observadores e seis parceiros de diálogo. Nesta sexta-feira, um memorando de obrigações sobre a adesão do Irã à SCO foi assinado e os membros da SCO iniciaram um processo para admitir também a Bielorrússia.

    Atualmente, Armênia, Azerbaijão, Camboja, Nepal, Sri Lanka e a Turquia – o único membro da OTAN no grupo – têm o status de “parceiro de diálogo”.  Arábia Saudita, Catar e Egito se tornarão formalmente “parceiros de diálogo”.  A Turquia busca a adesão à SCO, disse o presidente Recep Erdogan.  “Nossas relações com esses países serão movidas para uma posição muito diferente com este passo.”

    Na Declaração de Samarcanda os Estados membros apoiaram a decisão de conceder também ao Reino do Bahrein, à República das Maldivas, ao Estado do Kuwait, aos Emirados Árabes Unidos e à República da União de Mianmar o status de “parceiro de diálogo” da OCS.

    Com agências Tass e Global Times

     

  • Estados Unidos não gostam da China, mas a América Latina gosta

    Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, disse esta semana em uma coletiva de imprensa, em Pequim, que em 2021 o comércio entre a China e a América Latina ultrapassou US$ 450 bilhões pela primeira vez. A China construiu e colocou em uso mais de 100 instalações de infraestrutura na América Latina de 2005 a 2020, criando mais de 600 mil empregos locais.

    O crescimento do comércio China-América Latina e Caribe (ALC) vem acontecendo de forma constante nas últimas duas décadas. Passou de US$ 18 bilhões em 2002 para US$ 315 bilhões em 2020 e, um ano depois, chegou a US$ 450 bilhões. “A China está disposta a trabalhar com os Estados da ALC para construir interconectividade transoceânica e marítima na construção do Cinturão Econômico da Rota da Seda e da Rota da Seda Marítima do século 21”, disse recentemente o ministro das Relações Exteriores, Wang Yi.

    Proposta em 2013, a Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative), conforme o governo chinês, visa alcançar conectividade política, infraestrutura, comércio, financeira e pessoa a pessoa ao longo e além das antigas rotas de comércio da Rota da Seda.

    Segundo Mao Ning, a China está pronta para aprimorar e expandir ainda mais a cooperação prática com os países latino-americanos, depois que os dois lados concordaram recentemente em aprofundar a cooperação em áreas como tecnologia e comunicações por satélite.

    Mao destacou os acordos e consensos alcançados pelos dois lados no Fórum de Inovação Científica e Tecnológica China-ALC, realizado online na semana passada para expandir a cooperação em várias áreas.

    Mais de 20 representantes de autoridades científicas e tecnológicas de países da América Latina e Caribe participaram do encontro online. Os representantes expressaram fortes expectativas de fortalecer a cooperação China-América Latina em tecnologia agrícola, economia digital e desenvolvimento viabilizado pela tecnologia.

    Em artigo recente, Wang Youming, diretor do Instituto de Países em Desenvolvimento do Instituto de Estudos Internacionais da China, em Pequim, escreveu que o comércio da China com a América Latina e o Caribe deve crescer 26 vezes entre 2000 e 2035, chegando a atingir US$ 700 bilhões. “Essa trajetória impressionante do comércio China-ALC nos últimos 20 anos tornará a China um parceiro cada vez mais importante das perspectivas econômicas da ALC na recuperação pós-COVID”, afirmou.

    Parceria Brasil e China

    O estudo “Investimentos Chineses no Brasil – 2021, um ano de retomada”, de Tulio Cariello, diretor de Conteúdo e Pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), informa que, em 2021, empresas chinesas investiram US$ 5,9 bilhões no Brasil, valor 208% superior ao de 2020 e o maior desde 2017. O CEBC tem entre seus sócios o Bradesco, BRF, Banco do Brasil, Klabin, Suzano, Vale, entre outros.

    Foram realizados 28 projetos – número idêntico ao de 2017 e o segundo maior já registrado –, refletindo um crescimento de 250% em relação a 2021. Mesmo com essa retomada, Cariello observa que é importante observar que os aumentos de três dígitos refletem uma base de comparação historicamente baixa, uma vez que 2020 foi um ano particularmente afetado pela pandemia de Covid-19.

    A taxa de efetivação do número de projetos em 2021 chegou a 97%, com apenas um empreendimento não confirmado, sendo a maior da série histórica. O crescimento dos investimentos chineses no Brasil foi muito superior ao aumento de 23% no total de aportes estrangeiros no país em 2021 registrado pelo Banco Central do Brasil. Fontes distintas, como a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apontam crescimentos de 79% e 89%, respectivamente, nos investimentos estrangeiros no Brasil.

    Entre 2007 e 2021, empresas chinesas anunciaram 270 projetos no Brasil com potencial de investimentos de US$ 116,5 bilhões. Desse total, 202 projetos foram efetivados, levando o estoque de investimentos chineses no Brasil a US$ 70,3 bilhões.

    Os setores de eletricidade e extração de petróleo foram os que mais receberam recursos financeiros chineses entre 2007 e 2021, com participações de 40,5% e 30,9% no valor dos investimentos, respectivamente.

    Uma análise comparativa mostra que o crescimento dos investimentos chineses no Brasil acompanhou a tendência de aumento dos investimentos estrangeiros no país de forma geral. Dados do Banco Central (2022) apontam que esses aportes somaram US$ 46,4 bilhões em 2021, 23% a mais do que em 2020. Apesar disso, à diferença dos investimentos chineses, que chegaram a um patamar relativamente alto em comparação com anos anteriores, os aportes de outros países no Brasil registraram o segundo valor mais baixo desde 2010, atrás apenas dos US$ 37,8 investidos em 2020, o primeiro a sofrer os impactos da pandemia.

    Com  Global Times

  • Números do Orçamento federal são reveladores

    O Congresso recebeu do Executivo nesta semana (31/8) o projeto de Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2023. Os números são indicativos esclarecedores das razões do Brasil ser um dos países com a maior concentração de renda do mundo, com 33 milhões de pessoas passando fome.

    A proposta do Governo Bolsonaro é manter o Auxílio Brasil, mas no valor de R$ 405. A Emenda Constitucional 123, promulgada pelo Congresso em julho passado, assegura Auxílio Brasil de R$ 600 só até 31 de dezembro de 2022.

    Mantém a tabela de Imposto de Renda da Pessoa Física, sem reajuste desde 2015. Como o valor do salário mínimo previsto para 2023 é de R$ 1.302, brasileiros que ganham 1,5 salário mínimo mensalmente, R$ 1.953, terão que acertar as contas com a Receita. Atualmente, a faixa de isenção vai até R$ 1.903,98.

    Existe um apelo enorme da sociedade pela correção dos valores da base de cálculo do Imposto de Renda. É uma punição ao trabalhador assalariado não corrigir a tabela do Imposto de Renda, bem como os valores de isenções. Com isso, o poder de compra fica corroído. Na prática, isso significa o confisco dos vencimentos. Os brasileiros que recebem salários mais baixos são os mais afetados. A correção beneficia o bolso do trabalhador, aumenta o consumo e a economia melhora.

    O sistema tributário do Brasil é injusto porque acentua a concentração da renda, ao invés de diminuí-la. Nenhuma das reformas até hoje propostas por um Congresso com maioria conservadora buscou atingir o verdadeiro cerne do problema: a fórmula adotada para recolher os tributos, que cobra proporcionalmente pouco dos ricos e muito dos pobres.

    Salário mínimo

    A partir de janeiro de 2023, o valor do salário mínimo previsto pelo Executivo, de R$ 1.302, ainda depende de projeto de lei que será enviado pela Presidência da República. Sem reajuste real, o mínimo proposto pelo governo representa R$ 90 a mais em relação ao piso atual, de R$ 1.212, e está R$ 8 acima dos R$ 1.294 inicialmente previsto em abril deste ano.

    Em julho deste ano, o salário mínimo necessário para a manutenção de uma família de quatro pessoas deveria ter sido de R$ 6.388,55, ou 5,27 vezes o mínimo atual, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

    Dívida Pública

    O Orçamento total previsto é de R$ 5 trilhões, mas mais da metade deste valor é usado para pagar juros e amortizações da dívida pública. Dívida essa que deve crescer em 2023, passando de 78% para 79% do Produto Interno Bruto (PIB). De acordo com o Plano Anual de Financiamento (PAF), apresentado pelo Banco Central, o estoque da Dívida Pública Federal deve encerrar 2022 entre R$ 6 trilhões e R$ 6,4 trilhões.

    Em 2021, o governo federal gastou R$ 1,96 trilhão com juros e amortizações da dívida pública, o que representa um aumento de 42% em relação ao valor gasto em 2020, que por sua vez já tinha sido 33% superior a 2019. Portanto, nos últimos dois anos, os gastos financeiros com a dívida federal quase dobraram e continuam aumentando.

    O total que vem dos impostos é de R$ 2,25 bilhões, mas uma parte disso é transferida para estados e municípios. As despesas previstas são de R$ 1,86 bilhão, o que deve fazer com que o governo tenha um déficit primário de R$ 63,7 bilhões em 2023.

    O absurdo é que o déficit primário representa o resultado negativo das contas do setor público (despesas menos receitas), desconsiderando o pagamento dos juros da dívida pública, que é maior do que o valor dos impostos arrecados. O superávit primário divulgado de R$ 63,7 bilhões é uma enganação.   O pior é que toda luta pelo superávit primário é para pagar os juros da dívida.

    Os juros e amortizações da dívida pública brasileira são piores do que o chamado “quinto”, a retenção de 20% do ouro em pó ou folhetas ou pepitas que eram direcionadas diretamente à Coroa Portuguesa no período colonial.

    Com Agência Senado

  • Intenção de Consumo das Famílias está 23,4% abaixo do período pré-pandemia

    A pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias do Rio Grande do Sul (ICF-RS), divulgada pela Fecomércio-RS nesta sexta-feira, 26, segue 23,4% abaixo do nível de mar/20 (pré-pandemia) e, quando comparado a ago/21, houve aumento de 3,9%. Apesar de estar em patamar superior ao do ano passado, o ICF tem tido dificuldade em engrenar uma melhora contínua, alternando pequenos aumentos com pequenas quedas na margem. Assim, o indicador e todos os subindicadores permanecem abaixo da linha dos 100 pontos (neutralidade)  

    Entre os entrevistados, 42,2% afirmam estar comprando menos que no mesmo período do ano anterior (em ago/21, esse percentual era de 50,9%); um nível de consumo equivalente ao ano anterior foi apontado por 40,2% (36,8% em ago/21), enquanto 17,7% relataram estar comprando mais (12,3% em ago/21). Na média de 12 meses, o indicador registrou 74 pontos. Nos 12 meses encerrados em ago/21 esse valor era de 50,6 pontos.

    O consumo atual atingiu 75,6 pontos e teve aumento na margem de 0,8% e de 23,0% em relação a agosto de 2021. Já os índices de acesso a crédito (89,5 pontos) e de momento para duráveis (38,8 pontos) apesar de terem se elevado na margem, na comparação interanual apresentaram baixas de -8,5% e de -32,0%. Em certa medida, esses dados revelam o quadro de piora nas condições financeiras, mas em que o consumo segue se recuperando em função do maior grau de abertura da economia.

    O indicador referente à facilidade de acesso a crédito registrou 89,5 pontos em ago/22, com uma variação de 3,5% em relação ao mês anterior. Na comparação com ago/21, houve variação de -8,5%. O subíndice se encontra, atualmente, 9,2% abaixo do patamar pré-crise. A média em 12 meses registrou 89,1 pontos. No mesmo período do ano anterior esse nível era de 90,1 pontos.

    O índice de emprego atual teve aumento de 2,5% na margem e de 10,6%, em relação a agosto de 2021. Esse índice registrou o nível de 95,8 pontos, mas segue 16,1% abaixo do patamar pré-pandemia. Esse é o indicador que atualmente está mais perto da linha da neutralidade. 

    Já a renda atual, que denota a percepção de renda dos indivíduos em relação ao mesmo período do ano anterior, teve queda de 2,0% na margem e de 4,2% na comparação interanual. O quadro de retomada do mercado de trabalho tem melhorado as percepções de segurança no emprego. Em contrapartida, o aumento dos preços tem afetado a renda disponível dos indivíduos, o que teve influência na queda do índice de renda atual.

    No comparativo com o mês imediatamente anterior, a baixa foi provocada pela queda no indicador de renda atual (-2,0%), mas principalmente na retração verificada na perspectiva empresarial (que apresentou recuo de 10,3%).

    Nas expectativas, a perspectiva profissional (70,4 pontos) teve a principal influência negativa do mês. Na margem, o índice recuou 10,3%, ao passo que frente a agosto de 2021 registrou aumento de 21,3%. A perspectiva de consumo ficou estável na margem (0,0%). Aos 68,4 pontos, o índice encontra-se 27,2% acima de agosto de 2021. “O avanço da confiança em relação ao período do ano anterior é positivo, mas não surpreende. Contudo, apesar dos bons resultados recentes do mercado de trabalho e a queda de preços de itens de grande relevância no orçamento das famílias, não é negligenciável o grau de incertezas que permeiam a atividade neste momento, algo que infelizmente tem contido uma retomada mais consistente da confiança dos consumidores nos últimos meses”, comentou Luiz Carlos Bohn, presidente do sistema Fecomércio-RS.

    O ICF é um indicador calculado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) a partir de uma pesquisa mensal de sondagem da condição de vida (trabalho, renda e consumo) das famílias, buscando, assim, antecipar o comportamento das vendas do comércio. Para o Rio Grande do Sul (ICF-RS), a pesquisa é realizada em Porto Alegre ao longo dos dez dias anteriores ao mês de referência e abrange em sua amostra, no mínimo, 600 famílias. Sua divulgação é realizada mensalmente pela Fecomércio-RS.

    Com assessoria de Comunicção da Fecomércio/RS

  • Desemprego cresce nas lojas físicas do varejo e shoppings virtuais dobram de tamanho

    Um dos segmentos mais afetados pela automação, inteligência artificial, vendas digitais é o comércio físico.  Nas lojas de rua das grandes redes do varejo é visível a redução de empregados, com departamentos inteiros sem atendimento. 

    A Renner é um bom exemplo, onde a maioria dos caixas está  fechada e o cliente precisa andar pelos corredores para achar um funcionário. O mais comum é o consumidor escolher sozinho as peças de roupa, experimentar, e na saída do provador, abrir o aplicativo da Renner, onde é possível parcelar, pagar. Um funcionário só será necessário, por enquanto, para remover o sinalizador da peça escolhida para não apitar na saída da loja. Quem não usa o aplicativo, vai no caixa eletrônico e faz o mesmo processo, também sozinho.

    Em 2020, com a pandemia, avanço da crise econômica e o crescimento das vendas pela Internet, o comércio brasileiro perdeu 4,0% de sua ocupação, 7,4% das empresas e 7,0% das lojas. Dos 404,1 mil trabalhadores que saíram do setor, 90,4% (ou 365,4 mil deles) estavam empregados no varejo. Nesse segmento, apenas duas atividades, consideradas serviços essenciais durante a crise sanitária, tiveram incremento de pessoal: a de hipermercados e supermercados (1,8 mil pessoas) e a de produtos farmacêuticos, perfumaria, cosméticos e artigos médicos, ópticos e ortopédicos (318 pessoas). Os dados são da Pesquisa Anual de Comércio (PAC) 2020, divulgada esta semana pelo IBGE.

    Foi a maior queda na ocupação do comércio, no intervalo de um ano, desde o início da série histórica da pesquisa, em 2007. Também houve queda recorde do número de trabalhadores em dois dos três grandes segmentos do comércio: – 4,8%, no setor varejista, que emprega 73,7% dos trabalhadores do comércio, e -8,5% no segmento de veículos, peças e motocicletas.

    Uma pesquisa do LinkedIn, realizada este ano, mostra que os comerciantes brasileiros pretendem aumentar em pelo menos 63% o uso de tecnologias em suas empresas. E a expectativa é que o resultado seja alcançado ainda em 2022. Para a elaboração da análise, mais de 1.500 gestores no país foram ouvidos.

    Ao mesmo tempo, o crescimento do comércio eletrônico é gigantesco, acelerado em função da pandemia da Covid-19. Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), atingiu 68% de crescimento em 2020 — chegou a R$ 126,3 bilhões com 11% de participação de mercado, 81% acima de 2019.

    De acordo com dados do Relatório Setores do E-commerce, da Conversion, agência de Search Engine Optimization (SEO), a lista dos dez maiores sites de comércio eletrônico em número de acessos tem em primeiro lugar o Mercado Livre, com Americanas na segunda posição e Amazon Brasil na terceira. Eles são seguidos por Magazine Luiza, Shopee, Casas Bahia, AliExpress, Netshoes (que também pertence ao Magazine Luiza), Booking e Samsung.

    Em 2021, o e-commerce brasileiro registrou faturamento de R$ 161 bilhões, uma alta de 27% em relação a 2020. O resultado é recorde para o comércio online. Os dados da Neotrust, empresa que monitora 85% do e-commerce brasileiro, mostram também um crescimento de 17% nos pedidos em 2021.

    Os “marketplaces” (shoppings virtuais), em 2020 quase dobraram de tamanho com a pandemia. As vendas dos cinco maiores subiram 80%. No segundo trimestre de 2022, a Shopee teve receitas de US$ 2,94 bilhões, alta de 29% sobre o mesmo período de 2021. No segmento de comércio eletrônico, as receitas subiram 75,6% em um ano, a US$ 1,75 bilhão. A companhia destaca que o volume bruto de mercadorias (GMV) da Shopee subiu 27,2% em um ano, a US$ 19 bilhões. No Brasil, as receitas subiram mais de 270% em um ano.

    A Shopee é uma plataforma de comércio eletrônico de Singapura, pertencente ao Sea Group (anteriormente conhecido como Garena), uma empresa global de Internet para o consumidor fundada em 2015 por Forrest Li. Grande parte dos produtos na Shopee vêm da China, conhecida por produzir em larga escala e com baixo custo.

    A Amazon, com sede em Seattle, estado de Washington, EUA, registrou prejuízo líquido de US$ 2,03 bilhões no segundo trimestre de 2022. Em igual período de 2021, a companhia teve lucro líquido de US$ 7,8 bilhões. Foi o segundo trimestre seguido de prejuízo para a empresa fundada por Jeff Bezos. No entanto, as razões são por negócios no mercado norte-americano, pressões inflacionárias nos custos de combustível, energia e transporte.

  • Desde 2014, 7,2 milhões de pessoas entraram em situação de pobreza nas metrópoles brasileiras

    A nona edição do Boletim Desigualdade nas Metrópoles levantou dados preocupantes sobre a situação da pobreza nas metrópoles brasileiras. Entre 2014 e 2021, a taxa de pobreza subiu de 16% para 23,7%, o que em termos absolutos se traduziu em uma elevação de 12,5 milhões para 19,8 milhões de pessoas.

    Em apenas sete anos, 7,2 milhões de pessoas entraram em situação de pobreza nas metrópoles brasileiras. Em relação à extrema pobreza, no mesmo período a taxa mais do que dobrou, variando de 2,7% para 6,3%. Em termos absolutos, foi um aumento de 2,1 para 5,2 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza nas nossas grandes cidades.

    O estudo é fruto de uma parceria entre a  Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o Observatório das Metrópoles e a RedODSAL. Os dados utilizados são provenientes das PNADs Contínuas anual, do IBGE, e dizem respeito à renda domiciliar per capita total. O recorte utilizado no estudo é o das 22 principais áreas metropolitanas do país, de acordo com as definições do IBGE.

    As regiões metropolitanas concentram quase 40% da população brasileira — mais de 80 milhões de pessoas. Todos os dados estão deflacionados para o ano de 2021, de acordo com o IPCA. O estudo trabalhou com a linha de pobreza definida pelo Banco Mundial para países de renda média alta, caso do Brasil.

    Durante a pandemia da Covid 19, não somente as desigualdades aumentaram, como a média de rendimentos caiu e atingiu os menores valores da série histórica. O rendimento médio no conjunto das regiões metropolitanas, em 2019, era de R$ 1.935; em 2020, ele caiu para R$ 1.830; e, em 2021, chegou a R$ 1.698. Em Porto Alegre, a renda média caiu de R$ 2.218 para R$ 1.947.

    No ano de 2014, os 40% mais pobres das regiões metropolitanas brasileiras tinham renda média de R$ 515. Cinco anos depois, em 2019, essa cifra caiu para R$ 470. Já no contexto da pandemia, em 2021, a renda média havia chegado a R$ 396. A média de renda dos 40% mais pobres no conjunto das metrópoles brasileiras vem se recuperando lentamente, de modo que no 4º trimestre de 2021 seus rendimentos médios ainda eram 8,9% menores em relação ao patamar imediatamente anterior à pandemia.

    A partir do 1º trimestre de 2020, a taxa dos moradores de nossas metrópoles que viviam em domicílios cuja renda média per capita do trabalho era de até ¼ do salário-mínimo sofreu um crescimento expressivo. No auge da pandemia esse percentual chegou a 29,7%, valor mais alto da série histórica. No 4º trimestre de 2021, baixou para 23,4%.  

    Também no 4º trimestre de 2021, 26,7% das crianças de até cinco anos de idade em nossas metrópoles viviam em lares com rendimentos do trabalho inferiores a ¼ do salário-mínimo per capita. No auge da pandemia esse percentual chegou a 32,2%. Em termos absolutos, temos hoje 1,6 milhões de crianças nessa situação, o que é um número maior que o da população total de Regiões Metropolitanas como as de Natal, João Pessoa, Maceió e Florianópolis, entre outras.

    Segundo Marcelo Ribeiro, professor do IPPUR-UFRJ e um dos coordenadores do estudo, “mesmo num momento de crescimento da média de renda geral, como aquele que se deu entre 2015 e 2019, a tendência foi de redução ou estagnação da renda dos mais pobres, o que significa que apenas os mais abastados se aproveitaram do aumento de recursos naquele período”. Por essa razão, conforme também mostra o estudo, a tendência tem sido de aumento das desigualdades nos últimos anos. Tendência esta que foi agravada durante a pandemia. 

    Os coordenadores do estudo enfatizam que uma série de fatores explicam a piora dos indicadores sociais nas regiões metropolitanas brasileiras ao longo dos últimos anos, incluindo o aumento da taxa de desocupação entre 2014 e 2017, a redução da atividade econômica naquele período, a estagnação dos programas de transferência de renda em termos de valores de corte e número de beneficiários, a perda do poder de compra do salário mínimo e, nos últimos anos, o choque da pandemia e o aumento da inflação.

    Segundo Marcelo Ribeiro, “diante de um quadro de tamanha gravidade, é preciso agir com urgência no sentido de estimular a criação de empregos e, também, de garantir que o Estado consiga atender aos mais pobres com políticas sociais robustas, bem desenhadas e sustentáveis”.

    Média da renda domiciliar per capita*, por estratos de rendimentos – Região Metropolitana de Porto Alegre  (Em R$)
    Porto Alegre                    4° trim. 2019            4° trim. 2020                   4° trim. 2021
    40% mais pobres                   332                            230                                     258
    50% intermediário               1.706                          1.533                                   1.557
    10% superiores                   7.927                           6.870                                  6.699
    Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (IBGE).
    Nota: (*) Calculado a partir da renda domiciliar per capita habitual bruta de todos os trabalhos (valores constantes, 4º trimestre 2021 / IPCA).

    Com assessoria de Comunicação PUCRS

  • Quem ganha e quem perde com o aumento da dívida pública

    De acordo com o Plano Anual de Financiamento (PAF), apresentado pelo Banco Central no fim de janeiro, o estoque da Dívida Pública Federal deve encerrar 2022 entre R$ 6 trilhões e R$ 6,4 trilhões, próximo de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Em  2018, primeiro ano do governo Bolsonaro, o valor era de R$ 3,877 trilhões, conforme a Secretaria do Tesouro Nacional. Portanto, o valor da dívida pública em 2018 vai quase dobrar em 2022.  
    O relatório de estatísticas fiscais, nos 12 meses encerrados em março passado, mostra que o superávit primário (resultado positivo de todas as receitas e despesas do governo, excetuando gastos com pagamento de juros) do setor público consolidado atingiu R$ 122,8 bilhões. Todo o esforço do governo federal para um superávit fiscal tem como objetivo principal pagar os juros da dívida.
    As despesas totais do governo este ano com o pagamento de juros vão ficar em torno de R$ 700 bilhões, aumento de 56% sobre os R$ 448,2 bilhões gastos em 2021, segundo projeções de mercado. Resultado das altas da taxa básica de juros, a Selic.
    O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu em 3 de agosto, por unanimidade, elevar a taxa Selic de 13,25% ao ano para 13,75% ao ano – alta de 0,5 ponto percentual. É o 12º aumento consecutivo na taxa de juros. A taxa básica estava em 2% ao ano em março de 2021.
    Inflação
     A política monetária adotada pelo Banco Central de aumentar a taxa de juros tem como objetivo oficial derrubar a inflação. Para definir o nível dos juros, o Banco Central se baseia no sistema de metas de inflação. Quando a inflação está alta, o BC eleva a Selic. Quando as estimativas para a inflação estão em linha com as metas, o Banco Central reduz a Selic. 
    Ao subir o juro básico, a autoridade monetária justifica que o objetivo é encarecer o crédito e desestimular o consumo pelas empresas e famílias e assim baixar os preços. Como encarecer o crédito e reduzir consumo neste momento, se a inflação não é de demanda, mas de custos do petróleo e seus derivados, da energia, que atingem toda a cadeia produtiva. O empresário sempre vai repassar nos preços suas despesas ou não terá lucro.

    O economista André Lara Resende, um dos pais dos planos Cruzado e Real, já repetiu várias vezes “que a atual política econômica do governo brasileiro está asfixiando e destruindo o Estado, o que elimina a chance de se criar uma economia de mercado saudável. “Esse viés fiscalista é fruto de mitos e de um liberalismo anacrônico de Chicago dos anos 1960.” Recado direto ao Chicago boy, ministro da Economia Paulo Guedes.

    Segundo Lara Resende, com o quantitative easing [afrouxamento monetário], a expansão monetária que todos os bancos centrais dos países desenvolvidos fizeram depois da crise de 2008, a teoria neoliberal foi completamente desmoralizada.

    A inflação é fundamentalmente uma luta entre grupos pela redistribuição da renda real. A elevação do nível de preços é apenas uma manifestação exterior desse fenômeno, conforme Celso Furtado, em seu livro clássico Formação Econômica do Brasil. Isso significa que a inflação beneficia as camadas que podem repassar seus custos, ao contrário do assalariado, ainda mais num país com milhões de desempregados e informais.

    Na prática, o aumento da taxa básica de juros proporciona uma maior remuneração para os bancos e investidores em títulos públicos, facilitando a rolagem da dívida pelo governo federal. Além disso, os bancos recuperam os   investidores mais conservadores, que buscam os produtos básicos dos bancos destinados a esse perfil, como títulos do Tesouro Direto atrelados à Selic, fundos DI (também chamados de fundos simples) e Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) com rentabilidade perto de 100% do CDI, que segue a taxa Selic.
    As instituições financeiras seguem como principais detentoras da Dívida Pública Federal interna, com 29,6% de participação no estoque. Os fundos de investimento, com 23,2%, e os fundos de pensão, com 23%, aparecem em seguida na lista de detentores da dívida.

    Endividamento das famílias

    Uma das consequências recai sobre a taxa de juros do cartão de crédito, chamada de Juros e Custo Efetivo (CET), que era de 297,60% ao ano, em março de 2021, e pulou para 422,87%, em agosto de 2022.
    A parcela de inadimplentes – aqueles que têm contas ou dívidas em atraso – chegou a 28,7% das famílias brasileiras em maio passado, de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (CNC). O percentual de famílias endividadas, ou seja, aquelas que têm dívidas (em atraso ou não), ficou em 77,4%. O tipo de dívida mais comum continua sendo o cartão de crédito, responsável pelo endividamento para 88,5% das famílias.
    A coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida (ACD) Maria Lucia Fattorelli afirma que cada 1% de aumento na taxa Selic gera um prejuízo anual de R$ 34,9 bilhões aos cofres públicos. Em seu livro Auditoria Cidadã da Dívida Pública, ela escreveu sobre a existência de um conjunto integrado de elementos que conformam um verdadeiro Sistema da Dívida. “O funcionamento desse sistema garante perpetuação do endividamento público externo e interno, pois as dívidas crescem de maneira acelerada devido à imposição de condições onerosas que exigem, continuamente, a assunção de novas obrigações para pagar dívidas anteriores, em processos reiterados, sem transparência, cujo resultado é a dominação financeira e econômica e uma ofensa à soberania nacional.”
    Ela lembra que são recursos que poderiam ser direcionados para qualificar as instituições de ensino, mas que acabam servindo apenas para explodir os gastos com a dívida pública e enriquecer banqueiros, já que a inflação brasileira não é controlada com o aumento dos juros.
    Segundo Fattorelli, não podemos mais apenas sentar e assistir a continuidade de uma política monetária que joga contra o povo brasileiro. “O que o Banco Central tem feito com as sucessivas altas da taxa Selic sem ter qualquer fundamento técnico, econômico ou moral para isso, aprofunda ainda mais uma crise que foi fabricada a partir de 2014 e traz consequências graves até os dias de hoje.”

  • Trabalho informal bate recorde no Brasil

    O número de trabalhadores informais chegou a 39,3 milhões, recorde da série histórica do indicador, iniciada em 2015, no segundo trimestre de 2022, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada nesta sexta-feira (29/7) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

    As categorias principais da informalidade, que são os empregados sem carteira no setor privado e os trabalhadores domésticos sem carteira, continuaram aumentando.

    O número de empregados sem carteira assinada no setor privado (13 milhões de pessoas) foi o maior da série. Esse contingente cresceu 6,8% em relação ao trimestre anterior (mais 827 mil pessoas) e 23% (2,4 milhões de pessoas) no ano.

    O número de trabalhadores domésticos (5,9 milhões de pessoas) subiu 4,4% (mais 248 mil pessoas) frente ao trimestre anterior e 19,4% (mais 950 mil pessoas) no ano.

    O número de empregados com carteira de trabalho assinada no setor privado (exclusive trabalhadores domésticos) foi de 35,8 milhões, subindo 2,6% (908 mil pessoas) frente ao trimestre anterior e 11,5% (mais 3,7 milhões de pessoas) na comparação anual.

    No trimestre móvel de abril a junho de 2022, o número de pessoas em idade de trabalhar (14 anos ou mais de idade) foi de 173 milhões. Participam da força de trabalho 108,3 milhões de pessoas que têm idade para trabalhar e que estão trabalhando ou procurando trabalho (ocupadas e desocupadas).

     A população fora da força de trabalho chegou a 64,7 milhões de pessoas. Envolve força de trabalho potencial e fora dela; buscaram trabalho, mas não estavam disponíveis; não buscaram trabalho, mas estavam disponíveis; desalentados e não desalentados. Universitário que dedica seu tempo somente aos estudos e dona de casa que não trabalha fora não são considerados desempregados.

    O número de trabalhadores por conta própria (25,7 milhões de pessoas) foi o maior para um trimestre encerrado em junho, desde o início da série histórica, em 2012. E o rendimento real habitual (R$ 2.652) ficou estável frente ao trimestre anterior e caiu 5,1% no ano.