BEN SMITH / Garanta jornalistas. Deixe as cadeias de jornais morrerem

Por Ben Smith 

Você poderia, neste domingo, comprar a Gannett, a maior cadeia de  jornais do país, por meros US $ 261 milhões – cerca de um quarto do que Michael R. Bloomberg gastou em sua campanha presidencial.

Elizabeth Green, fundadora da organização de notícias educacionais sem fins lucrativos Chalkbeat , é uma das poucas pessoas que podem arrecadar dinheiro para fazer um acordo como esse.

Mas ela rapidamente percebeu que Gannett não valia a pena: comprá-lo significaria se inscrever para pagar um empréstimo com juros altos de uma gigante empresa de private equity de Nova York e confiar em um modelo de negócios de publicidade que pode estar em sua morte por causa do coronavírus.

É um momento de profunda crise para o setor de notícias local, que poderia ter sido derrubado por uma brisa leve e agora está enfrentando um furacão.

Mas também é um momento de grande promessa para uma nova geração de publicações locais sem fins lucrativos.

Agora é a hora de fazer uma mudança dolorosa, mas necessária: abandone os jornais locais com fins lucrativos, cujo modelo de negócios não funciona mais, e vá o mais rápido possível para uma rede nacional de novas e ágeis redações online.

Dessa forma, podemos resgatar a única coisa que vale a pena nas empresas de jornais locais estripadas e amplamente mal administradas da América – os jornalistas.

“Precisamos aceitar que as notícias locais de hoje já estão morrendo”, disse Green, 35 anos.

Ela percebeu isso há 12 anos quando era repórter de educação local. Seu jornal, The New York Sun, faliu e ela criou uma nova organização sem fins lucrativos para se manter no ritmo que amava.

Agora, sua visão se expandiu. Ela co-fundou o American Journalism Project , que visa criar uma enorme rede de agências sem fins lucrativos, algumas organizadas em torno de assuntos como educação ou justiça criminal, outras focadas em cobrir um bairro, uma cidade ou um estado.

Ela quer substituir as centenas de jornais locais agora pertencentes a fundos de hedge que estão sendo lentamente secados.

 “Precisamos manter os valores, manter as pessoas, manter as lições aprendidas – e nos livrar dos acionistas e obter um melhor modelo de negócios”, disse ela.

Green tem trabalhado para expandir uma área de cobertura obviamente necessária, a saúde pública, para todos os 50 estados dos EUA, trabalhando com o serviço de notícias sem fins lucrativos Kaiser Health News.

E no nível local, ela e John Thornton, outro fundador do American Journalism Project, estão trabalhando em um novo projeto: apoiar uma agência sem fins lucrativos na Virgínia Ocidental.

Será liderado por Greg Moore, ex-editor executivo do Charleston Gazette-Mail, e Ken Ward, repórter do jornal, que ganhou uma bolsa MacArthur “Genius” por sua cobertura dos danos causados ​​pelas indústrias de carvão e gás à vida das pessoas.

A nova agência ainda não nomeada (os candidatos incluem “Mountain State Muckraker”) começará com uma equipe de cerca de 10, sete deles jornalistas, uma equipe de notícias na mesma escala do jornal local diminuído.

“Existe toda essa ‘desgraça e tristeza para as histórias de jornalismo local’ que aconteceram na última semana, e espero que outras pessoas vejam o que estamos fazendo e entendam que o importante é o jornalismo – são as histórias, são as investigações – é isso que importa ”, disse Ward.

Ele também estará na equipe da potência investigativa sem fins lucrativos ProPublica, e terá o apoio do Report for America, outra organização sem fins lucrativos em crescimento que envia jovens repórteres para redações em todo o país.

O setor de notícias, como todo negócio, está procurando toda a ajuda que pode obter nessa crise.

Os analistas acreditam que o novo pacote de auxílio federal ajudará por um tempo e que o setor tem um forte argumento. Os governos estaduais consideram o jornalismo um serviço essencial para divulgar informações de saúde pública.

Os repórteres empregados por todos, desde o grupo sem fins lucrativos mais valioso até a cadeia cínica de fundos de hedge, estão arriscando suas vidas para obter para os leitores fatos sólidos sobre a pandemia e estão responsabilizando o governo por suas falhas.

Praticamente todos os meios de comunicação informam que o número de leitores está no máximo de todos os tempos. Todos precisamos saber urgentemente sobre onde e como o coronavírus está afetando nossas cidades, bairros e vizinhança.

Mas o negócio de publicidade que sustentou os jornais locais – revendedores de automóveis, varejistas e cinemas que, por gerações, encheram suas páginas de anúncios – passou do lento declínio para a queda livre .

Portanto, os líderes que tentam levar a indústria de notícias local através desse choque econômico precisam enfrentar a realidade. A receita da publicidade impressa e do envelhecimento dos assinantes já estava desaparecendo. Quando a crise acabar, é improvável que volte. Alguns semanários locais fecharam recentemente para sempre .

Muitas das respeitáveis sugestões para salvar o setor de notícias evitam esse problema central. Margaret Sullivan, do Washington Post, sugeriu um amplo “plano de estímulo coronavírus”, e uma coluna no The Atlantic pedia um enorme gasto do governo em anúncios de saúde pública.

Sem restrições cautelosas, grande parte desse dinheiro do governo será destinada a cadeias de jornais condenadas, para as quais um objetivo importante, como disse o executivo-chefe da Gannett em sua última demonstração de resultados no final de fevereiro, é pagar dividendos aos acionistas imprudentes o suficiente para investir em seu negócio condenado. (Os executivos da Gannett se recusaram a falar comigo para esta coluna.)

Então, o que vem a seguir? Essa decisão será tomada nos próximos meses – por funcionários públicos, filantropos, Facebook (que deverá anunciar outra onda de financiamento de notícias locais em breve)* e outras empresas de tecnologia e pessoas como você.

A decisão certa é olhar consistentemente para o futuro, que vem de várias formas. O mais promissor agora é o sonho de Green de uma grande e nova rede de organizações de notícias sem fins lucrativos em todo o país, segundo o modelo do The Texas Tribune , que Thornton co-fundou.

Existem também algumas agências de notícias locais com fins lucrativos, como The Seattle Times, Los Angeles Times e Boston Globe, com proprietários ricos e de espírito cívico, e The Philadelphia Inquirer, que é de propriedade do Instituto sem fins lucrativos Lenfest Institute para jornalismo. E há uma geração de sites pequenos e independentes de associação ou assinatura e boletins como o Berkeleyside .

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Centenas de jornalistas locais dedicados estarão procurando emprego assim que puderem pensar em algo que não seja o que o coronavírus está fazendo nos lares e hospitais locais.

Deveríamos ajudá-los e pagar por eles para construir essas novas instituições, grandes e pequenas.

O apoio do governo, como sugere Steven Waldman, co-fundador do Report for America, poderia dar uma gorjeta para as novas organizações sem fins lucrativos e pequenas empresas. O Facebook e o Google poderiam focar em apoiá-los, em vez de pagá-los para criar vídeos do YouTube.

Um grupo de jornalistas da Califórnia está agora trabalhando em um “Plano Marshall” para levar as agonizantes publicações do estado a fazer “transições imediatas de força bruta” para um modelo digital sustentável, disse Neil Chase, ex-editor executivo do San Jose Mercury News que agora lidera o CalMatters sem fins lucrativos.

As pessoas que dirigem as grandes redes de jornais – Gannett, Tribune, McClatchy, falida, mas ambiciosa , e o implacável Media News Group – discordam, é claro.

Eles argumentam que o sonho da publicidade digital em uma escala que pode competir com o Google, um argumento original para fusões, ainda está ao alcance; e que eles podem cortar e centralizar seu caminho para a estabilidade.

Eles também apontam que esses novos modelos carregam riscos reais, e estão certos quanto a isso. Eu aprendi em primeira mão. Eu era presidente do conselho da redação sem fins lucrativos de Nova York, The City – uma das mais promissoras da nova guarda – enquanto tentava ler suas histórias. Eu assisti minha esposa construir um pequeno canal de notícias do zero no solo difícil de publicidade e assinaturas locais na Bklyner. Os recém-chegados terão que se esforçar para manter as equipes do tamanho das redações locais mais estripadas. E o jornalismo sem fins lucrativos pode ser chato, mais atento aos doadores do que ao público.

“É uma má ideia deixar o governo e as pessoas ricas assumirem o negócio de notícias e deixar os distribuidores completamente fora do gancho”, disse David Chavern, presidente e diretor executivo da News Media Alliance, o principal grupo de lobby da indústria jornalística, que representa redes e pequenos editores locais e está buscando ajuda do governo. (Um ativo legado do setor de jornais é ter um bom lobista em Washington.)

Ele argumenta que a melhor política pública e a salvação para seus membros é forçar o Google e o Facebook a pagar pelas notícias em suas plataformas.

Nada disso é resolvido ou fácil. O debate mais acalorado em locais onde os executivos de notícias sem fins lucrativos se reúnem – atualmente, principalmente uma discussão inesperada sobre o Slack – é se é sempre seguro ou ético receber financiamento do governo. O nome do canal do Slack? #apocalypsenow.

Ben Smith é o colunista da mídia. Ele ingressou no The Times em 2020, depois de oito anos como editor-chefe do BuzzFeed News. Antes disso, ele cobriu política para Politico, The New York Daily News, The New York Observer e The New York Sun. E-mail: [email protected] @benyt

  • Extraído do New York Times. Uma versão deste artigo aparece impressa em 30 de março de 2020, Seção B , página 1 da edição de Nova York, com a manchete “Bailing Out Publishers Is Pure Folly” (Afiançar os editores é pura loucura). 

 

Obscuro papel

Só não vê quem não quer: O JOGO ACABOU
Os meios de comunicação de Porto Alegre embarcaram alegremente na
cantilena da revitalização do Cais Mauá.
Tanto em reportagens como em editoriais colocaram-se espertamente ao
lado dos “investidores”, trabalhando arduamente como parceiros prestimosos de um projeto que  nunca chegou a deslanchar.
Estivadores do marketing disfarçado de jornalismo, venderam o peixe no
afã de participar da farra mercantil prometida para os anos seguintes, quando todos se reuniriam debaixo do big arco-íris desenhado entre a Rodoviária e a Ponta da Cadeia.
Agora que a miragem desapareceu no horizonte, a imprensa, o rádio e a TV do RS
enxugam as lágrimas para tentar voltar a ver o que nunca deixou de estar
aí diante dos olhos de todos: os navios continuam no seu vaivém vagaroso pelas   águas do Guaíba, o magnífico rio-lago sempre fiel à origem portuária
da cidade.

Uma imprensa que defende as empresas

É inacreditável a cobertura que a imprensa de Porto Alegre dá aos dois temas mais importantes em discussão no Rio Grande do Sul neste momento: o aumento das tarifas do transporte coletivo na Capital e a questão dos pedágios. Nos dois casos ela tem uma posição inequívoca: a favor das empresas.
No caso do transporte coletivo de Porto Alegre, há uma omissão reiterada, que este ano não foi diferente. Se não fosse o jornal Metro, diário gratuito, que deu em manchete o pedido de aumento de 14% das empresa de ônibus, o assunto estaria fora de discussão, pois nenhum dos diários da cidade se ocupou dele nesta quarta-feira.
Ninguém também questionou essa coincidência de estarem os trabalhadores das empresas de transporte coletivo ameaçando greve por aumento no exato momento em que as empresa pressionam a prefeitura por um reajuste muito acima da inflação.
No ano passado, as empresas de transporte já obtiveram um aumento de 11%, quase o dobro do índice inflacionário. E no ano anterior também.
O impacto do transporte coletivo repercute em toda a cadeia econômica. Quando um jornal como a Zero Hora deixa de dar importância a isso, alegando que é um assunto que só interessa ao povão (mas o Diário Gaúcho, o jornal da Casa destinado ao povão, também não deu nada), coloca sua ignorância na vitrine. A tarifa do transporte público tem influência em toda a economia, nas empresas inclusive.
O caso dos pedágios chega a ser cômico. Os contratos de concessão de 1.800 quilômetros de rodovias feitas no governo Britto a empresas privadas (na verdade, consórcios de empreiteiras constituídos com essa finalidade) já foi definido como “o caso mais negro do Rio Grande do Sul” pelo ex-ministro dos Transportes, Cloraldino Severo, um técnico, estudioso do assunto e pessoa ideologicamente insuspeita.
A cobertura, no entanto, é toda favorável às concessionárias, mesmo quando isso exige omissão ou manipulações das informações. A esse respeito é didática a matéria publicada na ZH (18/01), na verdade um “press release” esquentado.
Antes, é didático ler o press release distribuído pela assessoria do palácio Piratini, a respeito do assunto:
“Em reunião com os representantes do consórcio Univias, que administra os polos de pedágios da região Metropolitana, de Lajeado e Caxias do Sul, o coordenador da Assessoria Superior do Governador, João Victor Domingues, reafirmou nesta terça-feira (17), no Palácio Piratini, a disposição do Executivo em reduzir as tarifas cobradas pela empresa. Além de diminuir o valor do pedágio, o Estado propõe a manutenção dos investimentos previstos.
Mais do que rechaçar a continuidade do modelo atual de cobrança, João Victor afirmou que o Governo do Estado mantém a exigência de acabar com a praça de Farroupilha, adotar um modelo mais transparente e criar um conselho de usuários. “Não queremos a continuidade de um modelo que não prevê uma prestação de serviço de qualidade por parte das concessionárias”, garantiu.
Uma consultoria deve ser contratada pelo Governo do Estado até maio para apontar um diagnóstico sobre um possível desequilíbrio nas tarifas. Em 90 dias, a consultoria apresentará os resultados dos estudos.
Vários fatores podem ser levados em consideração para a diminuição das cobranças. João Victor explica que existe a possibilidade de testar uma cobrança regionalizada das tarifas, a partir da realidade de cada região diminuir. “A proposta que nos trouxeram é de R$ 4,40, e nós achamos que podemos reduzir para R$ 3,80, R$ 4, mas sem prejuízo do volume de investimentos sinalizados de R$ 1bilhão. Isto tudo influencia, inclusive na elaboração de um novo modelo e mesmo na forma de licitação”, acrescentou.
Conforme João Victor, a primeira alternativa do Estado é a constituição de um novo modelo por licitação. “O ambiente de conversação ajuda, inclusive para que não tenhamos uma batalha judicial que inviabilize a alteração do modelo”, disse.
Advogado do Univias, Ricardo Breier afirmou que a empresa vai repensar critérios técnicos e avaliar os valores cobrados pela empresa. “Os contratos preveem alguns indicativos importantes e mexer nisso agora pode também mudar o índice e aumentar os índices de desequilíbrio”, frisou.
Agora compare a matéria de ZH ( 18/01, pg. 6):
Política: Pedágios em Jogo.
“Em negociação, Piratini sugere tarifa de Cr$ 3,80. Contraproposta do governo Tarso faz parte da discussão em torno da renovação dos atuais contratos”.
“Em reunião com representantes do Consórcio Univias, no fim da tarde em Porto Alegre, o  governo Tarso Genro pediu a redução de tarifa às concessionárias. Antes de dar mais um passo à possível prorrogação dos contratos até 2014, o executivo  quer  garantir que o valor cobrado pelas empresas  em caso de renovação fique entre R$ 3,80 e R$ 4,00, no máximo.
A retomada das negociações, iniciadas em novembro, estendeu-se por uma hora no Salão dos Banquetes do Palácio Piratini. A portas fechadas, o único representante do governo, o coordenador executivo da Assessoria Superior do governador, João Vitor Domingues sugeriu a redução nos preços e fez um segundo pedido: que as empresas também apresentem tarifas regionalizadas – por entender que nas praças de maior movimento a possibilidade de cortes é maior.
“Acreditamos que ainda há margem de negociação. As tarifas poderiam ficar em R$ 3,80 e R$ 4,00, sem prejuízo às demais propostas apresentadas – disse Domingues.
Em novembro, além de se comprometer a baixar as tarifas de R$ 6,70 para R$ 4,40, as concessionárias prometeram fechar a praça de Farroupilha, na Serra, e investir em obras.
Ao final do encontro, os três representantes da Univias – o advogado Ricardo Breier, e os diretores Mário Baltar e Radamés Cassab, do grupo Equipav, acionista do consórcio, deram sinais de que o acordo é possível. “Vamos dar início a um estudo e avaliar o que pode ser feito. Nosso interesse é fazer isso o mais rápido possível”, afirmou Breier.
Embora João Vitor tenha se preocupado em  assegurar que não existe uma definição por parte do Executivo, o avanço nas tratativas é alvo de críticas dentro do próprio PT. Ontem o deputado Raul Pont, presidente do partido no Estado, disse  ser contrário às negociações.
A postura irritou Domingues: “O que ele sugere. Eu rompa com as empresas e entre numa disputa judicial sem fim? – questionou. Em agosto, o coordenador espera ter em mãos o diagnóstico do setor que será elaborado por uma consultoria, que ainda será contratada”.
Uma  foto de quatro pessoas numa mesa, ocupando quase ¼ da página traz a seguinte legenda: “Representantes do Consórcio Univias ouviram a proposta feita por João Vitor, assessor de Tarso”.
Síntese: o jornal insiste que o governo está negociando a prorrogação dos contratos, quando o governo diz claramente que o atual modelo é improrrogável.

Imprensa: sempre lerda na hora de corrigir

Por Luiz Cláudio Cunha
A imprensa sempre critica, sob aplausos gerais, a lentidão da Justiça. Mas merece vaias quando posterga decisões justas que poderiam melhorar a qualidade da informação no país. Juristas e jornalistas se reuniram em outubro, em Porto Alegre, num seminário para discutir o vácuo jurídico criado pela revogação em 2009 da Lei de Imprensa, um entulho produzido em 1967 pela ditadura e removido sem deixar saudades.
Como sempre, houve divisão quanto à recriação de uma nova lei. Os jornalistas continuam contra, enquanto os juízes defendem uma legislação específica para regular a mídia. O principal foco da discordância é o direito de resposta, que os veículos só concedem por instância final da Justiça, sempre mais tolerante com o direito do outro lado ser ouvido, sem demora.
O próprio consultor jurídico da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Alexandre Jobim, admite: “Ainda se percebe uma falta de iniciativa dos meios de comunicação em relação ao direito de resposta”. É uma opinião relevante, já que a ANJ reúne 155 dos mais importantes jornais brasileiros, responsáveis por 90% da circulação de jornais pagos no país, que chegam a 4,3 milhões de exemplares diários.
O jornalista e deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) dá a receita mais simples e direta: “O melhor que pode acontecer é o jornal aceitar o pedido de resposta por livre e espontânea vontade, porque ali também há informação. O recurso à Justiça só deve ser feito em último caso”. O vice-presidente da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris), Benedito Felipe Rauen Filho, ecoa: “O direito de resposta deve ser imediato, atendido logo após ser solicitado, para que cumpra seu papel”.
As chicanas jurídicas que retardam a resposta de quem se acha atingido pela mídia acabam desgastando os próprios veículos de comunicação, que passam ao público uma imagem de intolerância e prepotência que desconsidera a liberdade de expressão de quem também consome a informação. E, como todos sabem, a imprensa precisa dar e o leitor merece receber a informação mais precisa e verdadeira — sempre.
Capricho sem desculpa
O viés autoritário ainda é forte no país. Respondendo a uma pergunta do jornal Zero Hora sobre a eventual proibição prévia de publicação de matérias, o juiz Teori Zavascki, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e professor de Direito da UnB, conseguiu vacilar: “É difícil responder.
A regra óbvia é que não deve haver proibição prévia. Mas há situações-limite em que pode ser necessário, como num caso reiterado de racismo e discriminação”. O deputado Miro Teixeira ensina: “É censura deslavada. Primeiro, se publica a matéria. Depois, se for necessário, se postula direito de resposta e indenização”.
Apesar de tanto bom senso, a ANJ concedeu um ano de prazo para os jornais aderirem a um programa de autorregulamentação. É um capricho indesculpável. Basta copiar agora, já, o CONAR que rege a publicidade brasileira, aplicando imediatamente a regulação que protege a informação, os veículos e seus leitores.
A imprensa não demanda tanto tempo, tanta hesitação, para corrigir seus erros.
Uma imprensa que se respeite deve cobrar de si mesma a imediata, inadiável correção que exige dos outros.
O distinto público só terá a agradecer.

As relações ambíguas do governo com a mídia

Artigo do jornalista Gilberto Maringoni traz visão lúcida e bem informada sobre as relações entre a mídia e o governo.
Enquanto seus apoiadores acusam a mídia de ser golpista, governo prestigia e destina farta publicidade aos grandes meios de comunicação. Uma única edição de Veja recebe cerca de R$ 1,5 milhão em anúncios oficiais. É preciso regular e democratizar as comunicações. Mas também é necessário deixar mais claro os interesses de cada setor nessa disputa.

Enquanto seus apoiadores acusam a mídia de ser golpista, governo prestigia e destina farta publicidade aos grandes meios de comunicação. Uma única edição de Veja recebe cerca de R$ 1,5 milhão em anúncios oficiais. É preciso regular e democratizar as comunicações. Mas também é necessário deixar mais claro os interesses de cada setor nessa disputa.
Nesta semana, a revista Veja fez mais uma denúncia de corrupção contra um Ministro de Estado. É difícil saber o que há de verdade ali, pois a reportagem vale-se apenas do depoimento de uma testemunha. A matéria pautou os principais veículos de comunicação, com destaque para o Jornal Nacional, da Rede Globo.
O Ministro, por sua vez, sai atirando. Responde ao acusador no mesmo calibre. “Bandido” é a palavra que ricocheteia em todas as páginas e telas. O caso é nebuloso. A relação promíscua do Estado com ONGs e “entidades sem fins lucrativos” precisa sempre ser examinada com lupa potente. É um dos legados da privatização esperta dos anos 1990, feita através de terceirizações de serviços que deveriam ser públicos.
Aliados do governo tentam desqualificar não apenas a denúncia, mas o veiculo que a difunde. Volta o debate de que estaríamos diante de uma imprensa golpista, que não se conforma com a mudança de rumos operada no país desde 2003, que quer inviabilizar o governo etc. etc. A grande imprensa, por sua vez viciou-se em acusar todos os que discordam de seus métodos de clamarem pela volta da censura. Há muita fumaça e pouco fogo nisso tudo, mas faz parte do show. Disputa política é assim mesmo.
Maniqueísmo
É preciso colocar racionalidade no debate sobre os meios de comunicação no país, para que não deslizemos para maniqueísmos estéreis. Vamos antes enunciar um pressuposto.
A grande imprensa brasileira está concentrada em poucas mãos. Oito empresas – Globo, Bandeirantes, Record, SBT, Abril, Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Rede Brasil Sul (RBS) – produzem e distribuem a maior parte da informação consumida no Brasil. O espectro vai se abrir um pouco nos próximos anos, para que as gigantes da telefonia mundial se incorporem ao time, através da produção de conteúdos para a TV a cabo. Mas o conjunto seguirá como um dos clubes mais fechados do mundo.
As empresas existentes há cinco décadas – Globo, Estado, Folha e Abril – apoiaram abertamente o golpe de 1964. Até hoje não explicaram à sociedade brasileira como realizam a proeza de falar em democracia tendo este feito em sua história.
Entre todos os meios, a revista Veja se sobressai como o produto mais truculento e parcial da imprensa brasileira.
Sobre golpismo, é bom ser claro. As classes dominantes brasileiras não se pautam pelas boas maneiras na defesa de seus interesses. Sempre que precisaram, acabaram com o regime democrático. Usaram para isso, à farta, seus meios de comunicação.
A imprensa é golpista?
No entanto, até agora não se sabe ao certo porque esta mídia daria um golpe nos dias que correm. O sistema financeiro colhe aqui lucros exorbitantes. A reforma agrária emperrou. Grandes empresários têm assento em postos proeminentes do Estado – caso de Jorge Gerdau Johannpeter – ou têm seus interesses mantidos intocados.
Algumas peças não se encaixam na acusação de golpismo da mídia. Voltemos à revista Veja. Os apoiadores do governo precisam explicar porque a administração pública forra a publicação com vultosas verbas publicitárias, além de sempre prestigiarem suas iniciativas. Vamos conferir, pois está tudo na internet.
Veja tem uma tiragem de 1.198.884 exemplares (http://www.publiabril.com.br/tabelas-gerais/revistas/circulacao-geral), auditados pelo IVC. Alega ter um total de 8.669.000 leitores. Por conta disso, os preços de seus espaços publicitários são os mais altos entre a imprensa escrita. Veicular um reclame em uma página determinada sai por R$ 330.460. Já em uma página indeterminada, a dolorosa fica por R$ 242.200 (http://www.publiabril.com.br/marcas/veja/revista/precos).
Quem anuncia em Veja? Bancos, a indústria automobilística, gigantes da informática, monopólios do varejo e… o governo federal. Peguemos um exemplar recente para verificar isso.
Na edição de 12 de outubro – que noticiou a morte de Steve Jobs – havia cinco inserções do governo federal. Os anúncios eram do Banco do Brasil (página dupla), do BNDES, do Ministério da Justiça, da Agência Nacional de Saúde e da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Supondo-se que as propagandas não foram destinadas a páginas determinadas, teremos, de acordo com a tabela, um total de R$ 1.525.200.
Exato: em uma semana apenas, o governo federal destinou R$ 1,5 milhão ao semanário dos Civita, a quem seus aliados chamam de “golpista”.
Prestígio político
Há também o prestígio político que o governo confere ao informativo. Prova disso foi o comparecimento maciço de ministros de Estado e parlamentares governistas à festa de quarenta anos de Veja, em setembro de 2008. Nas comemorações, estiveram presentes o então vice-presidente da República, José Alencar, o ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, o presidente do BNDES,
Luciano Coutinho, a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, o ex-ministro do meio ambiente, Carlos Minc, o ex-ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, o ministro da Educação, Fernando Haddad e a senadora Marta Suplicy (confiram em http://veja.abril.com.br/veja_40anos/40anos.html).
E entre julho de 2010 e julho de 2011, nada menos que seis integrantes dos altos escalões governamentais concederam entrevista às páginas amarelas da revista. São eles: Dilma Rousseff, Aldo Rebelo, Cândido Vaccarezza, Antonio Patriota, General Enzo Petri e Luciano Coutinho.
Nenhum demonstrou o desprendimento e a sensatez do assessor especial da presidência, Marco Aurélio Garcia (então presidente interino do PT). Ao ser convidado para conceder uma entrevista a Diogo Mainardi, em novembro de 2006, deu a seguinte resposta: “Sr. Diogo Mainardi, há alguns anos – da data não me lembro – o senhor dedicou-me uma coluna com fortes críticas.
Minha resposta não foi publicada pela Veja, mas sim, a sua resposta à minha resposta, que, aliás, foi republicada em um de seus livros. Desde então decidi não falar com a sua revista. Seu sintomático compromisso em não cortar minhas declarações não é confiável. Meu infinito apreço pela liberdade de imprensa não vai ao ponto de conceder-lhe uma entrevista”.
RBS, Olívio e Lula
As relações ambíguas do governo e dos partidos da chamada base aliada com a grande mídia não se restringem à Veja.
Entraram para a história a campanha de denúncias e desgaste sistemático que os veículos da RBS moveram contra o governo de Olívio Dutra (1999-2003), do PT, no Rio Grande do Sul. Ataques sem provas, calúnias, mentiras e todo tipo de baixaria foi utilizada para inviabilizar uma gestão que buscou inverter prioridades administrativas.
No auge dos ataques, em 2000, o jornal Zero Hora, do grupo, fez um ousado lance de marketing. Convidou Luís Inácio Lula da Silva para ser colunista regular. Até a campanha de 2002, o futuro presidente da República escreveu semanalmente no jornal, como se não tivesse relação com as ocorrências locais.
Quando abriu mão da colaboração, Lula afirmou que o jornal prejudicava seu companheiro gaúcho (http://noticias.terra.com.br/imprime/0,85198,OI38721-EI342,00.html). O jornal ganhou muito mais que o ex-metalúrgico nessa parceria. Ficou com a imagem de um veículo plural e tolerante.
No mesmo ano, o ex-Ministro José Dirceu foi entrevistado pelo Pasquim 21, jornal lançado pelo cartunista Ziraldo. Naqueles tempos, as empresas de mídia enfrentavam aguda crise, por terem se endividado em dólares nos anos 1990. Com a quebra do real no final da década, os débitos ficaram impagáveis. Lá pelas tantas, Dirceu afirmou que salvar a Globo seria uma “questão de segurança nacional”.
Comemorando juntos
As boas relações com a grande mídia se mantiveram ainda nas comemorações dos 90 anos da Folha de S. Paulo, em janeiro deste ano. Estiveram presentes à festa (http://www1.folha.uol.com.br/folha90anos/879061-politicos-e-personalidades-defendem-a-liberdade-de-imprensa.shtml) a presidente Dilma Rousseff – convidada de honra, que proferiu discurso recheado de elogios ao jornal – a senadora Marta Suplicy, colunista do mesmo, Candido Vaccarezza, líder do governo na Câmara, os ex-Ministros José Dirceu e Marcio Thomaz Bastos e o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho. A Folha também recebe farta publicidade governamental, do Banco do Brasil, da Petrobrás, da Caixa Econômica federal, entre outras.
Nos momentos de dificuldade, dirigentes do governo procuram sempre a grande imprensa para exporem suas idéias. Foi o caso de Antonio Pallocci, em 3 de junho último. Acossado por denúncias de enriquecimento ilícito, o ex-Chefe da Casa Civil convocou o Jornal Nacional, para dar suas explicações ao público (http://www.youtube.com/watch?v=Y5m_wyahXjY).
O mesmo Antonio Palocci – colunista da Folha de S. Paulo entre 2009 e 2010 – dividiu mesas com Roberto Civita, Reinaldo Azevedo, Demetrio Magnoli, Arnaldo Jabor, Otavio Frias Filho e outros, em palestra no afamado Instituto Millenium, em março de 2010 (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16432). A entidade congrega empresários do ramo e seus funcionários e se opõe a qualquer tipo de regulação em suas atividades.
Os casos de proximidade do governo e seus partidos com a imprensa são extensos. Uma das balizas dessas relações é o bolo da publicidade oficial. Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) [veja aqui], a receita publicitária oficial em 2010 foi de R$ 1.628.920.472,60. Incluem-se aí os custos de produção e veiculação de campanhas, tanto da administração direta quanto indireta. Ressalte-se aqui um ponto: é legítimo o governo federal valer-se da publicidade para se comunicar com a população. A maior parte do bolo vai para os grandes grupos do setor.
No caso das compras de livros didáticos feitos pelo MEC, para as escolas públicas, o grande beneficiário é o Grupo Abril, que edita Veja (http://www.horadopovo.com.br/2010/dezembro/2921-08-12-2010/P4/pag4a.htm).
Reclamação e democratização
Apesar do PT, partido do governo, ter feito uma moção sobre a democratização das comunicações em seu último Congresso e do ex-ministro José Dirceu ter sido injustamente atacado recentemente pela Veja, é difícil saber exatamente que tipo de relação governo e partidos aliados desejam manter com os meios de comunicação. De um lado, como se vê, acusam a mídia de ser golpista. De outro, lhe dão todo o apoio.
Pode ser que tenham medo da imprensa. Mas o que não se pode é ter um duplo comportamento no caso. Diante da opinião pública falam uma coisa, enquanto agem de forma distinta na prática.
O ex-presidente Lula reclamou muito da imprensa em seu último ano de mandato. No entanto, “Não houve qualquer alteração fundamental no quadro de concentração da propriedade da mídia no Brasil entre 2003 e 2010”. Essa constatação é feita pelo professor Venício Lima em brilhante artigo, publicado no final de 2010 (http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4902).
As resoluções da Conferência Nacional de Comunicação, realizada em 2009, mofam em algum escaninho do Ministério das Comunicações. O Plano Nacional de Banda Larga, que deveria fazer frente ao monopólio das operadoras privadas, acabou incorporando todas as demandas empresariais. O projeto de regulação da mídia elaborado pelo ex-ministro Franklin Martins desapareceu da agenda.
Como se pode ver, o governo e seus partidos de sustentação convivem muito bem com a mídia como ela é. Têm muita proximidade e pontos de contato, apesar de existirem vozes isoladas dentro deles, que não compactuam com a visão majoritária.
Nenhum dos lados tem moral para reclamar do outro…

Informação de baixa qualidade também intoxica

Talvez nunca como agora tenhamos precisado tanto de uma imprensa lúcida e capaz de nos dizer o que está realmente acontecendo.
Talvez nunca como agora temos uma imprensa caolha, que não consegue discernir mais do que sombras e fatos embaralhados.
Basta acompanhar o noticiário ralo e repetitivo para perceber que a dita imprensa está mesmo é preocupada em não desagradar os seus anunciantes. Para o distinto público leitor algum afago e muito marquetchin!.
Na hora do vamos ver, ou seja de relatar o que acontece, não tem ninguém em casa. Não estou me referindo a denúncias, a escândalos sobre falcatruas isoladas que toda hora espoucam por aí. Isso é a isca que o ladrão joga para enganar o cão de guarda.
Falo da cobertura cotidiana, dos fatos e dos processos que conformam a realidade social – as decisões nas empresas, nos parlamentos, na burocracia, nos negócios, no governo, nas entidades de classe, nas associações de bairro.
Aí, a profundidade é tal que uma formiguinha atravessa com a água pela canela, como dizia Nelson Rodrigues. O noticiário em mosaico, cada vez mais sucinto e impreciso, é servido de modo a nos deixar a sensação de uma realidade caótica, incompreensível, que é para nos convencer a desistir de pensar. Tem é que fazer tudo o que seu mestre mandar.
Claro que não há uma mente maligna maquinando isso. Há um processo feito de omissões e conveniências, cujo resultado, entre outros, são redações obedientes e burocráticas, em que a falta de criatividade se confirma pelas exceções.
Nem toda a mídia é ruim, nem tudo na mídia é ruim. Mas essa sensação que ela pretende passar, de que dá conta de tudo, é falsa. Não temos informações em excesso, como parece. Temos falta, “carência alimentar”, de informação qualificada, que escape ao mexerico diversionista. É uma informação em escala industrial, homogeneizada, manipulada, que entoxica.
É como se tivéssemos que comer hamburguer todo o dia.